Revista Veja
O politicamente correto é moralmente imperfeito
Com a intenção de defender sua indústria, a Inglaterra usou o argumento humanista do combate ao trabalho escravo no Brasil, há pouco mais de duzentos anos. Agora, o governo de Donald Trump utiliza o mesmo argumento, com hipocrisia. É preciso condenar o oportunismo trumpista, mas sem perder de vista um drama social brasileiro real, que vem sendo camuflado por um vocabulário afeito a suavizar a tragédia. Para evitar caracterizar os brasileiros submetidos a trabalho análogo à escravidão como pobres desassistidos, o dicionário politicamente correto passou a chamá-los de “hipossuficientes”, termo técnico que esconde o drama e, de algum modo, absolve a responsabilidade dos políticos. Os sem-teto passam a ser “moradores em situação de vulnerabilidade”, expressão que não traduz o relento, nem a exclusão. Se, na África do Sul, o apartheid tivesse sido chamado de desigualdade racial, a bárbara desumanidade da separação entre negros e brancos teria sido diluída. É isso que se faz no Brasil ao chamar de desigualdade social a apartação que caracteriza a sociedade brasileira segregando condomínios de tugúrios.
O uso da expressão “vítima de insegurança
alimentar”, em vez da palavra faminto, transforma a dor em um conceito técnico
e não transmite o sofrimento de quem passa fome. Para evitar estigmas, o termo
prostituição infantil foi substituído por “exploração sexual de menores”.
Evita-se a marca infame de crianças submetidas à prostituição, mas atenua-se a
violência moral e transforma-se a vergonha social em mais um tipo de
exploração, como se a ação de um criminoso pervertido fosse comparável à
exploração de um operário. De forma semelhante, trocar favela por “comunidade”
pode atenuar o estigma de quem mora nela, mas mascara a carência de serviços
urbanos e oculta o tamanho da desigualdade.
“O uso da expressão ‘insegurança alimentar’
transforma a dor de quem não come em um conceito técnico”
Por sentirem que o termo analfabeto carrega
discriminação ofensiva, alguns defendem o uso do termo “iletrado”. Essa
substituição disfarça a tortura diária de quem não sabe ler e isenta os
governos da responsabilidade por essa tragédia. Iletrado é quem aprendeu a ler,
mas não lê com frequência, sem a dramaticidade da situação de uma pessoa que,
por falta de cuidados do Estado e da sociedade, chegou à vida adulta incapaz de
ler. A mudança de escravo para “escravizado” tem o mérito de lembrar que os
africanos eram livres antes de capturados, mas ofusca o fato de que, salvo
raras exceções de alforria ou fuga, o capturado tornava-se escravo por toda a
vida. O sistema fazia com que, desde a captura, o estar escravizado se
transformasse na condição permanente de ser escravo. A mulher negra grávida
carregava um bebê ainda não escravizado, mas já escravo — condenado desde o
ventre, como se o útero fosse um navio negreiro humano. A boa intenção de
indicar uma condição temporária pode ocultar a perversidade de um sistema
vitalício.
A prática de camuflar a tragédia, tratando-a
como etapa de um processo, repete-se no uso da expressão “em vias de
desenvolvimento”, em lugar de subdesenvolvido. Embora a palavra mais antiga
transmita a ideia de condenação ao atraso, a nova expressão oculta o círculo
vicioso que mantém as populações na pobreza, caso não ocorram rupturas
políticas, econômicas e educacionais. Embora com boas intenções, o
politicamente correto fica imperfeito moralmente.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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