Contas públicas atestam fracasso do arcabouço fiscal
Por O Globo
Nos últimos 12 meses, rombo alcançou 10% do
PIB, o pior resultado desde a pandemia
A irresponsabilidade fiscal do presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva produziu uma tragédia cujo clímax se aproxima. A cada novo retrato da
saúde fiscal do Estado, acumulam-se as evidências de que o Brasil está perto de
uma crise severa, provavelmente com a temida confluência de inflação em alta e
estagnação econômica — situação que os economistas batizaram de “estagflação”.
É o que se depreende dos dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira.
Nos últimos 12 meses, as contas públicas fecharam com um rombo de R$ 1,3 trilhão, levando em conta o déficit primário (receitas menos despesas do governo) e o pagamento de juros da dívida pública. Tal número — tecnicamente chamado “déficit nominal” — equivale a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem contar 2020, ano da pandemia, e o catastrófico ano de 2015, depois da reeleição de Dilma Rousseff, é o pior resultado registrado desde quando Lula subiu a rampa do Planalto pela primeira vez, em 2003. Com a sucessão de contas no vermelho, a dívida pública já alcança 82% do PIB, 8 pontos percentuais acima do início do atual mandato. Não há prova mais eloquente do fracasso do arcabouço fiscal implantado por Lula para controlá-la.
Na estimativa da corretora Tullett Prebon
Brasil, o déficit nominal médio ficará em 8,6% do PIB ao longo dos quatro anos
de governo Lula. Se confirmada a previsão, superará o segundo mandato de Dilma
Rousseff e o governo Jair Bolsonaro. O Brasil já tem a segunda maior dívida
como proporção do PIB entre as grandes economias emergentes. Quanto mais ela
cresce, menor a confiança em que o governo será capaz de pagá-la, ou mesmo de
geri-la.
A perda de credibilidade não é teórica nem
indolor. Pode ser vista na dificuldade enfrentada pelo Tesouro para vender seus
títulos. Papéis de longo prazo com taxas próximas ou superiores a 8% acima da
inflação enfrentam dificuldades no mercado. Para os investidores, mesmo esse
retorno espetacular pode representar mau negócio. No jargão, o mercado
“precifica” deterioração fiscal ainda maior. A crise de confiança provocada
pelo governo se retroalimenta.
Não há quem desconheça os riscos do
endividamento desenfreado: ele pressiona os juros para o alto e o crescimento
para baixo, no temido cenário de “estagflação” descrito pelos economistas.
Infelizmente, os aspectos técnicos da questão fiscal têm limitado um debate
público aprofundado — essencial neste ano eleitoral. Tomando como base as
campanhas passadas do PT, não seria surpreendente ver nas próximas semanas a
culpa ser lançada sobre banqueiros ou qualquer outro bode expiatório. O mais
provável é os candidatos fugirem do assunto.
Os remédios, como desindexar benefícios
previdenciários do salário mínimo ou desvincular gastos constitucionais
obrigatórios, são tão conhecidos quanto impopulares. No caso de Lula, há um
problema anterior: ele nega o mal que ajudou a criar e a agravar. Passada a
eleição, seja quem for o vencedor, o ajuste fiscal será inescapável. O próximo
presidente ainda estará no Planalto quando chegar o clímax da tragédia.
Mendonça faz bem em autorizar PF a investigar
suspeitas contra Lulinha
Por O Globo
Ele nega as acusações, mas é preciso
apurá-las. Filho do presidente não deve receber tratamento privilegiado
Foi sensata a decisão do ministro André
Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, de autorizar, a pedido
da Polícia
Federal (PF), a abertura de novos inquéritos para investigar se
Fábio Luís Lula da
Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cometeu crimes como
tráfico de influência e corrupção valendo-se de suas relações com o Palácio do
Planalto. Lulinha, como ele é conhecido, nega as acusações, mas, se há
suspeitas de atos ilícitos, precisam ser apuradas. Mendonça autorizou uma
investigação de Lulinha relativa ao fornecimento de produtos ao SUS e outra
ligada à Dataprev, estatal de processamento de dados do INSS.
As investigações não envolvem questões
irrelevantes. No caso da Dataprev, a suspeita é que Lulinha tenha agido em
conluio com um empresário do setor de tecnologia interessado em obter negócios
na empresa e noutros órgãos do governo. No outro caso, as autoridades querem
saber se ele atuou ao lado de Roberta Luchsinger — dona de uma consultoria que
faz a ponte entre empresas e órgãos públicos — e do lobista Antônio Carlos
Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, para ajudá-lo a fornecer ao
SUS produtos de Cannabis medicinal (sem relação com o caso que levou
Antunes à prisão).
Muitos fatos precisam ser esclarecidos.
Roberta, diz a investigação da PF, prestou serviços de consultoria a Antunes
pelos quais recebeu R$ 1,5 milhão em parcelas de R$ 300 mil. Uma enigmática
mensagem de Antunes a ela afirma que uma transferência de R$ 300 mil era
destinada “ao filho do rapaz”. Investigadores tentam saber se era uma
referência a Lulinha. Em depoimento à PF, Roberta negou ter feito qualquer
repasse a ele. Em 2024, a convite de Antunes, Lulinha viajou para Portugal para
visitar uma fábrica de produtos à base de canabidiol.
O nome de Lulinha já havia aparecido nas
investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o
escândalo do INSS. Durante as apurações, governistas travaram uma batalha com
oposicionistas na tentativa de blindá-lo. No fim de março, a CPMI rejeitou o
relatório do deputado Alfredo Gaspar (União-AL) que recomendava o indiciamento
de 216 suspeitos, entre os quais Lulinha.
Apoiadores de Lula veem oportunismo na
decisão de Mendonça, tomada a dois meses das eleições. Afirmam que ela tem
motivação política. O argumento não procede. Primeiro, Mendonça atendeu a um
pedido da PF, a mesma polícia que investiga adversários políticos do petista.
Segundo, decisões da Justiça não podem ficar a reboque do calendário eleitoral.
Nem para acelerar nem para retardar qualquer investigação. Seria um
despropósito.
O próprio Lula, sujeito aos desgastes do caso, se declarou favorável à apuração, embora afirme acreditar na inocência de Lulinha. “Se for culpado, ele terá de pagar como todo mundo”, disse. Seria uma lástima se não fosse assim. Parentes do presidente não podem receber tratamento privilegiado. Se há suspeitas de irregularidades na atuação de Lulinha ou de quem quer que seja, é dever das autoridades investigá-las. Não deve haver apurações seletivas.
Previdência exige discussão e nova reforma
Por Folha de S. Paulo
Envelhecimento da população e mudanças no
mercado de trabalho tornam ajustes inevitáveis, aponta estudo
População de idosos passará de 35 milhões em
2025 para 75 milhões em 2070; candidatos à Presidência não abordam o tema por
razões eleitorais
Menos de uma década após a reforma da
Previdência de 2019, o Brasil já precisa discutir uma nova
rodada de mudanças. Não se trata de opção ideológica nem de mera preocupação
fiscal.
A combinação entre envelhecimento acelerado
da população e deterioração da base de financiamento torna o modelo atual cada
vez mais difícil de sustentar.
Estudos recentes de especialistas do Centro
de Debate de Políticas Públicas (CDPP) e do Instituto Mobilidade e
Desenvolvimento Social (IMDS) oferecem diagnóstico consistente e um conjunto de
propostas que merece amplo debate. Embora várias delas sejam controversas e impopulares,
o problema que procuram enfrentar não pode ser ignorado.
Segundo projeções do IBGE,
a população com 60 anos ou mais deverá passar de 35 milhões em 2025 para 75
milhões em 2070. Apenas no Regime Geral de Previdência
Social serão acrescentados 32,5 milhões de beneficiários nas
próximas três décadas.
As despesas do INSS,
hoje equivalentes a cerca de 8,3% do PIB, poderão superar 16% até o fim do
século. O déficit do regime geral, de 2,5% do PIB em 2026, deve
ultrapassar 10% em 2100.
O lado das receitas tampouco inspira
otimismo. A expansão da pejotização, do trabalho por aplicativos e do regime do
microempreendedor individual (MEI) enfraquece a arrecadação.
Com mais de 16 milhões de inscritos, o MEI
contribui hoje com apenas 5% do salário
mínimo, alíquota insuficiente para financiar os benefícios
prometidos.
As propostas do CDPP e do IMDS procuram
enfrentar esses desequilíbrios. Entre elas estão a elevação gradual da idade
mínima de aposentadoria até
67 anos para homens e mulheres, com ajustes automáticos conforme o aumento da
expectativa de vida, a
revisão das regras do MEI, inclusive da contribuição, e a redução de
regimes especiais.
Além disso, deveria haver reforço do combate
às fraudes e à sonegação, mudanças na vinculação dos benefícios à política de
valorização do salário mínimo e a adoção de um sistema misto —preservando a
repartição para parte das contribuições e criando contas individuais de
capitalização para novos trabalhadores.
Nenhuma dessas propostas deve ser encarada
como definitiva. Todas exigem discussão técnica, política e social. Mas o país
não pode continuar adiando um debate que a inexorável realidade demográfica
impõe.
É difícil imaginar tema mais relevante para o
próximo governo. Infelizmente, as candidaturas à Presidência evitam expor
qualquer intenção de enfrentar o desafio por temor de perder votos.
Isso até pode ser compreensível
politicamente, mas um debate sério e racional deveria ser encaminhado o quanto
antes pelo próximo mandatário.
Se uma nova reforma é desejável no curto
prazo, com o passar do tempo, ela deixará de ser uma escolha para se tornar uma
necessidade incontornável.
Impactos desiguais da mudança climática
Por Folha de S. Paulo
Levantamento da Unicef mostra que crianças
estão mais expostas a riscos ambientais no Norte do país
Governos precisam agir desde já, ainda mais
com a chegada do El Niño, que já intensificou eventos climáticos no Sul e
Sudeste
Os impactos da mudança
climática, que advém do aquecimento global causado pela queima de
combustíveis fósseis, diferem de acordo com as regiões dos países e os estratos
populacionais. Governos precisam, portanto, considerar essas desigualdades para
alocar recursos de forma racional.
Um diagnóstico nesse sentido foi lançado
recentemente pela Unicef e
a ONG Vital Strategies. O Painel Crianças e Meio Ambiente é
uma plataforma online que apresenta dados sobre a exposição a riscos ambientais
na infância e na adolescência em 5.571 municípios brasileiros.
O levantamento avalia 14 indicadores que
articulam fenômenos ambientais (eventos climáticos extremos e qualidade do ar),
a cobertura de serviços públicos (acesso a água, rede de esgoto e coleta de
lixo) e um recorte diretamente infantil (proporção de crianças e adolescentes
em moradias e escolas precárias).
Os indicadores foram classificados em níveis
de prioridade. Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm maior concentração de cidades
com 10 ou mais indicadores em situação de alta prioridade —o que indica
necessidade de ação imediata. No Norte, em torno de 42% dos
municípios se enquadram nessa definição, ante 6% nas outras duas
regiões.
Das 30 cidades que apresentam maior
vulnerabilidade climática para crianças e adolescentes, 24 estão no Norte, 4 no
Nordeste e 2 em Mato Grosso.
De acordo com a nota técnica do painel, isso
se dá porque a Amazônia Legal
combina "baixa cobertura de saneamento básico,
intensa pressão ambiental e condições climáticas extremas".
Com a confirmação do início do El Niño em
junho e a projeção de que ele será muito
forte entre novembro e janeiro, o poder público precisa implementar
o quanto antes ações de prevenção e contenção com foco nas fragilidades dessas
regiões, dado que os efeitos do fenômeno e a mudança climática já causam
fatalidades em localidades que dispõem de mais recursos e infraestrutura.
Segundo especialistas, uma combinação de
fenômenos meteorológicos potencializada pelo El Niño deu origem aos eventos
climáticos extremos que atingiram
o Sul e o Sudeste nesta semana —chuva extrema no Rio Grande do
Sul e vendavais que deixaram ao menos cinco mortos em São Paulo e
no Rio de
Janeiro, além de milhares sem energia elétrica.
A ciência produz diagnósticos e projeções; cabe aos governos, nas três esferas, basearem-se nas evidências para minimizar riscos e oferecer respostas rápidas aos grupos mais vulneráveis.
A cada vez mais difícil renovação política
Por O Estado de S. Paulo
Estudo indica que 88% dos deputados tentarão
permanecer na Câmara, impulsionados pelas vantagens de quem já exerce o
mandato, como as emendas parlamentares
Nada menos que 451 dos 513 deputados federais
da atual legislatura devem tentar a reeleição neste ano, ou 88% do total,
segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). O
porcentual é recorde, e, a julgar pelas últimas eleições, a tendência é de que
tenhamos uma das menores taxas de renovação parlamentar das últimas décadas,
pelo menos na Câmara dos Deputados.
Não seria exatamente um problema se
estivéssemos diante de um Parlamento exemplar, prestes a conquistar um dos
maiores índices de permanência de sua história por ter trabalhado intensamente
em favor do País, aprovado reformas relevantes e colocado o interesse público
acima das conveniências corporativas. Infelizmente, não é esse o caso.
Basta olhar para o legado da atual legislatura.
Os últimos quatro anos não foram marcados pela capacidade de enfrentar os
principais problemas nacionais, mas pelo fortalecimento do próprio Congresso. A
legislatura ampliou o poder do Parlamento sobre o Orçamento, expandiu
continuamente as emendas parlamentares, acumulou sucessivos questionamentos
sobre transparência e rastreabilidade desses recursos e terminou o primeiro
semestre deste ano sem sequer aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. É
difícil enxergar nesse desempenho motivos que justifiquem uma possível taxa de
reeleição tão elevada, mas são justamente essas as razões que explicam um
índice de reeleição tão elevado.
O estudo atribui a tendência ao endurecimento
da legislação eleitoral e, sobretudo, às vantagens de quem já exerce o mandato,
desde prioridade no acesso aos recursos do Fundo Eleitoral, estrutura de
gabinete, assessores e maior exposição pública.
Entre todos esses fatores, no entanto, nenhum
pesa mais do que as emendas parlamentares. O Parlamento alterou as regras do
jogo enquanto permanecia em campo. Ampliou seu controle sobre parcelas do
Orçamento, fortaleceu os instrumentos de influência política dos atuais
deputados e contribuiu para tornar a disputa eleitoral progressivamente mais
desigual.
Mais do que uma função pública, o mandato se
tornou também uma vantagem competitiva que ameaça a renovação da representação
política.
Democracias saudáveis dependem da
possibilidade real de alternância no poder. Quando o exercício do mandato passa
a oferecer mecanismos que facilitam sua própria renovação, a competição deixa
de ser apenas entre candidatos e passa a ser entre quem dispõe da máquina do
mandato e quem tenta enfrentá-la. A consequência tende a ser um Parlamento
menos permeável à renovação e cada vez mais inclinado a preservar as regras que
beneficiam seus próprios integrantes.
A possibilidade de um baixo índice de
renovação por certo não é fruto de uma avaliação particularmente positiva dos
atuais deputados federais. Do contrário, a maioria dos brasileiros ao menos
lembraria em quem votou. Mas uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que 68%
dos brasileiros não conseguem citar o nome de um deputado federal sequer e que
67% não se lembram em quem votaram para a Câmara na última eleição.
Romper esse círculo vicioso exige liderança
política. Nenhum presidente conseguirá alterar sozinho regras que favorecem
justamente aqueles encarregados de modificá-las. Ainda assim, cabe ao chefe do
Executivo assumir essa agenda. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu,
na campanha presidencial de 2022, rever o modelo das emendas parlamentares e
chamou de excrescência o orçamento secreto. Depois de eleito, porém, nunca mais
tocou no assunto e aprendeu a dançar conforme a música imposta pelo Parlamento
nos últimos anos.
Bons representantes merecem ser reconduzidos
ao cargo, mas rever profundamente o modelo das emendas parlamentares é condição
indispensável para restaurar uma competição mais equilibrada. Até lá, caberá
aos eleitores exercer um escrutínio ainda mais rigoroso sobre aqueles que
pretendem permanecer no Congresso. Afinal, quanto mais protegido estiver o
ocupante do cargo, maior deveria ser o rigor do julgamento popular.
A ‘morte da História’
Por O Estado de S. Paulo
Como alerta o historiador Niall Ferguson,
algoritmos e IA estão turbinando a falsificação do passado, o que violenta a
memória de que uma civilização precisa para construir seu futuro
“O historiador precisa admitir: fracassei completamente.”
A confissão do escocês Niall Ferguson, um dos mais importantes historiadores
contemporâneos, num ensaio intitulado A
morte da História, parte de um paradoxo perturbador: o Holocausto é
um dos acontecimentos mais documentados da História, mas nada disso impediu que
o negacionismo do Holocausto e o antissemitismo voltassem a seduzir jovens no
ambiente digital, envolto em memes que transformam o horror em diversão.
O fracasso de que fala Ferguson precisa ser
definido. Os historiadores continuam capazes de estabelecer o que aconteceu. A
ruptura ocorre entre o conhecimento comprovado e o reconhecimento público. Um
fato sobrevive nas fontes e, ainda assim, pode perder autoridade social,
relevância moral e influência sobre os juízos políticos.
No ensaio, que pode ser lido no perfil de
Ferguson no Substack
(https://niallferguson.substack.com/p/the-death-of-history), ele e John-Clark
Levin, pesquisador americano de IA, chamam esse fenômeno de “anti-História”. O
negacionista tradicional adulterava números e simulava pesquisa, de modo que a
fraude prestava homenagem involuntária ao ofício que pretendia desmoralizar:
era preciso aparentar submissão às provas. Os niilistas digitais, protegidos
pelo sarcasmo, dispensam essa disciplina. Negam o Holocausto num vídeo e o
celebram no seguinte. A vítima vira objeto de escárnio, enquanto a atrocidade
serve de entretenimento transgressor e o público se habitua a julgá-la indigna
de inquietação moral. Uma sociedade pode conservar os meios de conhecer o
passado e ainda assim perder a disposição de reconhecê-lo.
As mídias algorítmicas deram escala inédita a
essa inclinação. Seus sistemas premiam intensidade e permanência: curiosidade
mórbida, repulsa e adesão contam igualmente como engajamento. A inteligência
artificial, por sua vez, fabrica em série imagens, vozes, testemunhas e
identidades, enquanto exércitos de robôs simulam multidões e dão a ideias
marginais aparência de consenso.
Essa inundação do falso asfixia a confiança
no verdadeiro. Tudo passa a ser considerado potencialmente falso, mesmo o que é
autêntico. A mentira nem precisa mais ser coerente: basta provocar
desorientação suficiente para que cada grupo escolha sua realidade conveniente.
A História procura estabelecer o que
aconteceu; o jornalismo, o que está acontecendo. Já a política precisa decidir
o que fazer. A erosão da memória e a fabricação do presente mutilam a realidade
comum necessária para que uma democracia escolha seu futuro.
Edmund Burke descreveu a sociedade como “uma
parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão”. A “tradição”,
segundo G.K. Chesterton, “significa dar votos à mais obscura de todas as
classes: nossos antepassados. É a democracia dos mortos”. A anti-História
frauda esses votos ao pôr palavras na boca dos mortos, apagar experiências
inconvenientes e conferir à geração presente a tirania do tempo.
Assim, a esfera digital vai adquirindo os
contornos de uma nova Babel: todos falam, poucos se entendem e já nem sempre
sabemos quantas vozes são humanas. Os códigos que tornam o desacordo
inteligível – autoria, procedência, prova e responsabilidade – são
vandalizados. A democracia abriga revisões históricas, sátiras e desafios aos
consensos, mas sua vitalidade depende de meios para distinguir contestação
intelectual de falsificação deliberada.
A resposta liberal dispensa autoridades
encarregadas de decretar a verdade. Passa pela preservação dos registros, pela
procedência verificável de conteúdos sintéticos, pela transparência algorítmica
e pelo combate a redes clandestinas que falsificam apoio popular. Depende,
sobretudo, de mediadores capazes de confrontar erros e de cidadãos conscientes
do ambiente informacional que ajudam a formar.
Ferguson tem razão: a refutação factual já
não basta contra a propaganda concebida para provocar escárnio e pertencimento.
Mas se sua confissão de fracasso é uma concessão excessiva aos
anti-historiadores, vale como um alerta. Quanto mais fácil fabricar o passado,
maior a necessidade de preservar seus vestígios, ensinar como os fatos são
conhecidos e transmitir por que importam. Uma sociedade só consegue construir o
futuro se conservar memória suficiente para julgar o presente.
Mais prazo para se endividar
Por O Estado de S. Paulo
Governo prorroga Desenrola para o brasileiro
consumir mais durante a campanha eleitoral
O ministro da Fazenda, Dario Durigan,
confirmou que o prazo para adesão ao programa de renegociação de dívidas
Desenrola Brasil, que se encerraria em 3 de agosto, será prorrogado até o final
deste mês.
Assim, o Desenrola, atualmente em sua segunda
edição, continuará operando em pleno período de campanha eleitoral oficial, o
que só expõe o verdadeiro caráter do programa: render votos a Lula, e não tirar
em definitivo milhões de brasileiros do endividamento crônico que lhes rouba a
paz.
Tanto é assim que o ministro Durigan afirmou
que “esse prazo adicional vai ser importante, inclusive, para que as pessoas
que hoje estão tendo de acessar os programas de moto, carro, para trocar a sua
moto, o seu carro, possam resolver eventuais pendências previamente”. Ou seja,
o governo está ampliando o prazo para que brasileiros inadimplentes limpem seu
nome na praça e, logo em seguida, voltem a se endividar.
Além do Desenrola, a gestão petista lançou
mão nos últimos meses de uma série de medidas de estímulo ao crédito para que a
população vá às compras.
Dentre elas fazem parte o Move Brasil, ao
qual se referiu Durigan quando falou em acesso a motos e carros. Lançado em
maio primeiro para taxistas e motoristas de aplicativo trocarem seus veículos
por novos, e posteriormente expandido em junho para que motociclistas
substituam suas motos, o programa é uma das grandes apostas de Lula para
melhorar sua popularidade e conquistar a reeleição em outubro.
Até agora, porém, dos R$ 30 bilhões
reservados para o Move Brasil, apenas R$ 2,2 bilhões (7,3%) foram liberados, o
que despertou a ira do presidente. Em reunião, Lula cobrou os bancos públicos a
acelerarem a concessão de crédito aos taxistas e entregadores de aplicativo.
A Caixa Econômica Federal (CEF) está fazendo
sua parte nesse engodo eleitoral, ao considerar formal a renda de profissionais
que atuam em plataformas de mobilidade e delivery e que não têm vínculo
empregatício garantido por lei. Em comunicado, a Caixa afirmou “que a mudança
aperfeiçoa o processo de análise de crédito para esse público”.
Na verdade, o que se vê é o governo operando
em várias frentes para manter o estímulo ao consumo, seja por meio da oferta de
linhas de crédito subsidiadas, pela pressão sobre os bancos para que emprestem
mais e pela extensão estendendo o prazo de programas como o Desenrola.
Tudo isso só dificulta o trabalho do Banco
Central no combate à inflação. Não é à toa que os juros encontram-se no patamar
estratosférico de 14,25% ao ano.
Como se não bastasse, ao estender o prazo do
Desenrola para que a população volte a contrair dívidas, o governo apenas
contrata a necessidade de que novas edições do programa tenham de ser
relançadas nos próximos tempos.
Não há como a taxa Selic cair de forma sustentada, nem como o brasileiro furar o ciclo da inadimplência, se o governo trabalha incansavelmente para manter os juros altos, o que é determinante para que o comprometimento de renda e o atraso no pagamento de dívidas estejam nos níveis recordes registrados pelo Banco Central.
Recorrer à OMC é necessário, mas não tem
efeitos imediatos
Por Correio Braziliense
O processo estabelece uma posição jurídica,
reúne provas, fortalece eventuais negociações e impede que a medida
norte-americana seja naturalizada.
O Brasil fez o que deveria fazer ao recorrer
à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as novas tarifas impostas pelos
Estados Unidos aos produtos brasileiros. A iniciativa preserva os interesses
nacionais, documenta juridicamente a arbitrariedade norte-americana e reafirma
a opção histórica do país pelo multilateralismo. Entretanto, não se deve
alimentar muita esperança de que o processo leve Donald Trump a rever sua
decisão. O objetivo do presidente norte-americano é, inclusive, esvaziar a OMC
e substituir as regras negociadas coletivamente por uma política comercial
unilateral, protecionista e impositiva.
Segundo o governo brasileiro, Washington
violou o princípio da nação mais favorecida, previsto no Artigo I do Acordo
Geral sobre Tarifas e Comércio, ao tratar produtos brasileiros de maneira menos
favorável do que mercadorias semelhantes originárias de outros países. A
acusação é de que foram aplicadas sanções com base em avaliações unilaterais,
ignorando o sistema de solução de controvérsias da OMC. A argumentação
brasileira é consistente, mas o problema é político.
O Órgão de Apelação da OMC está paralisado
desde dezembro de 2019, quando os mandatos de seus últimos integrantes
expiraram sem que novos árbitros fossem nomeados. Washington bloqueou sistematicamente
a recomposição do tribunal, impedindo a confirmação de decisões comerciais
desfavoráveis aos EUA. Assim, quando um país prejudicado recorre, a disputa
fica suspensa por tempo indeterminado. Em 2025, os Estados Unidos voltaram a
impedir a retomada do órgão, apesar do apoio de 130 países à sua recomposição.
Recorrer à OMC, porém, é necessário mesmo sem
a expectativa de uma solução imediata. O processo estabelece uma posição
jurídica, reúne provas, fortalece eventuais negociações e impede que a medida
norte-americana seja naturalizada. O Brasil não pode aceitar como legítima a
substituição de compromissos internacionais pela vontade de uma potência. Trump
utiliza tarifas como instrumentos de coerção política: estabelece custos econômicos,
exige concessões e negocia bilateralmente a partir da assimetria de poder entre
os Estados Unidos e cada país atingido.
A justificativa oficial é combater supostas
práticas brasileiras consideradas "injustas",
"discriminatórias" ou prejudiciais às empresas norte-americanas. Com
base nas acusações, o Escritório do Representante Comercial dos Estados
Unidos (USTR, na sigla em inglês) impôs uma tarifa de 25% sobre determinados
produtos brasileiros. Essa narrativa, porém, não se sustenta. Os Estados Unidos
acumulam há 15 anos superávits no comércio de bens e serviços com o Brasil.
O pano de fundo é geopolítico. Washington
pretende conter a expansão econômica, tecnológica e diplomática da China na
América do Sul, região em que Pequim se tornou o principal parceiro comercial
de vários países e ampliou investimentos em energia, infraestrutura, mineração,
telecomunicações e tecnologia. O Brasil é a maior economia sul-americana,
integra os Brics, participa do G20 e procura manter relações simultâneas com
Estados Unidos, União Europeia, China e demais polos de poder. Essa autonomia
não nasceu no governo Lula. A diplomacia brasileira sempre procurou preservar
margem própria de decisão.
A atuação do secretário de Estado, Marco Rubio, deve ser compreendida dentro dessa estratégia. No caso brasileiro, o tarifaço também passou a interferir objetivamente na disputa presidencial. Rubio acusou o governo Lula de não negociar de boa-fé, enquanto o governo brasileiro atribuiu motivação eleitoral às sanções. O propósito político parece ser isolar o Brasil na América do Sul e criar condições favoráveis à eleição de um governo automaticamente alinhado aos Estados Unidos.
Lulinha e a autonomia da Polícia Federal
Por O Povo (CE)
Advogados do filho do presidente Lula afirmam
que a abertura de investigações tem motivação política
Autorizada pelo ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), André Mendonça, a Polícia Federal (PF) iniciou
investigações para verificar se o empresário Fábio Luís Lula da Silva praticou
corrupção ou tráfico de influência envolvendo órgãos públicos.
Fábio, conhecido como Lulinha, é o
filho mais velho do presidente Lula, que já declarou que não vai interferir de
maneira alguma nos procedimentos investigatórios e judiciais para favorecer o
filho. O presidente ainda garantiu que Lulinha, que mora na Espanha, estará à
disposição da Justiça quando for chamado.
Esse processo, apesar de ser um desdobramento
da Operação Sem Desconto, não se refere aos débitos fraudulentos na conta
dos aposentados do INSS. Até agora, apesar de menções ao seu nome, nada
foi encontrado ligando Fábio Luís ao escândalo.
A suspeita é que Lulinha tenha atuado no
Ministério da Saúde para intermediar interesses quanto à comercialização de
cannabis medicinal. A PF apura possíveis conexões do filho do presidente para
favorecer Antônio Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS",
ele, sim, envolvido nas fraudes contra aposentados.
A investigação contra Lulinha, às vésperas da
campanha eleitoral, causará prejuízo à pré-candidatura à reeleição do
presidente Lula, mesmo que ele não seja responsável pelas atividades do filho.
No entanto, a Polícia Federal e o STF agem corretamente ao não pautar o seu
trabalho pelo calendário eleitoral e, sim, de acordo com o tempo de cada
processo.
Os advogados de Lulinha afirmam que a
abertura de investigações tem motivação política, argumento repetido em casos
desse tipo. No decorrer do processo, os advogados terão a oportunidade de fazer
provas do que dizem.
Mesmo com essa ação visando diretamente o
filho do presidente Lula, a oposição tenta pôr em dúvida o trabalho das
instituições. O pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro (PL),
reclamou da suposta demora nas investigações. "Já imaginaram se fosse o
filho do presidente Jair Bolsonaro?", perguntou, como forma de questionar
a PF e o STF. A propósito, o inquérito que investiga o destino do dinheiro que
Flávio pediu a Daniel Vorcaro, supostamente para financiar o filme "Dark
horse", também está demorando?
Além disso, Flávio deve ter se esquecido da
famosa reunião ministerial de 22/4/2020, quando o pai dele, Jair Bolsonaro,
então presidente, disse que poderia trocar até ministro para evitar que familiares
e aliados fossem investigados, demonstrando seu ânimo de intervir de qualquer
modo na Polícia Federal. Na época, Flávio estava tentando explicar as supostas
"rachadinhas" em seu gabinete.
É justo, portanto, reconhecer — ainda que exista um princípio de crise entre a PF e o STF —, que os tempos mudaram, com a Polícia Federal dispondo de autonomia para realizar suas investigações, o que ficará mais uma vez comprovado se o presidente Lula se comportar em acordo com suas palavras no decorrer do processo que o seu filho responde.
Por Revista Será? (PE)
A política externa dos candidatos a presidente da República deve ter uma influência secundária na decisão dos eleitores, preocupados, antes de tudo, com os grandes problemas e desafios internos do Brasil. Mesmo assim, os partidos de oposição têm, reiteradamente (quase sempre com razão), criticado as posições do presidente Lula da Silva orientadas pela sua simpatia e convergência ideológica com países considerados de esquerda, incluindo algumas ditaduras. Além da inclinação exagerada do governo Lula pelo BRICS, bloco cheio de governos autocráticos, os casos mais emblemáticos foram a tolerância de Lula com a invasão da Ucrânia pela Rússia e o apoio explícito que dava aos governos autoritários da Venezuela. Nos dois últimos anos, contudo, a política externa do governo Lula tem demonstrado independência e evitado as decisões orientadas pelas afinidades ideológicas. O presidente Lula ainda repete os discursos anti-imperialistas carregados de populismo que, no entanto, não tem definido a política externa brasileira, conduzida de forma competente pelo Itamaraty.
No outro extremo da polarização político-eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro se apresenta, de fato, como o candidato de Donald Trump e, mais diretamente, do Secretário de Estado, Marco Rúbio, com as suas agressões comerciais ao Brasil e os ataques verbais ao presidente Lula. Além do desastroso e incompetente presidente dos Estados Unidos, que interfere, sistematicamente nos assuntos internos do Brasil, Flávio conta com dois outros aliados nada recomendáveis para um candidato a presidente do Brasil. Na Convenção do PL-Partido Liberal, Flávio Bolsonaro recebeu o apoio do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, um comprovado criminoso de guerra e acusado por corrupção em Israel. Você é um “grande campeão do Brasil (….) e eu sei que vai levar o Brasil a voos cada vez mais altos”, afirmou Netanyahu através de vídeo apresentado na Convenção.
Mais bombástica e impactante foi a performance do presidente da Argentina, Javier Milei, distribuindo grosserias e impropérios contra o governo e o presidente Lula. A simples participação de Milei num evento político-eleitoral, defendendo a candidatura de um dos contendores, viola o princípio de respeito à soberania das nações. Mais grave ainda porque, em vez de se limitar a elogiar o seu candidato (ou não tinha o que elogiar?), o discurso performático de Milei foi uma peça recheada de agressões ao presidente da República e a um ministro do Supremo Tribunal Federal. O que se pode esperar de um candidato a presidente da República que dá sinais claros de subserviência e adesão incondicional ao império do Norte, um candidato que conta como grandes aliados externos, um devastador do futuro do planeta (Trump), um criminoso de guerra (Netenyahu) e um desequilibrado (El Loco Milei)?

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