terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lições do massacre. Por Fernando Gabeira

O Globo

As revoltas de agora em Teerã trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens

O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela liberdade.

Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi, é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma autobiografia interessante, “Things I've been silent about” (Coisas sobre as quais silenciei).

O livro revela o panorama intelectual do país antes da Revolução Islâmica. Azar Nafisi tinha uma posição privilegiada, pois sua mãe fora parlamentar e o pai, prefeito de Teerã. No livro, ela se preocupa muito com o futuro das filhas criadas numa atmosfera familiar liberal, que poderiam ter um futuro terrível na ascensão dos aiatolás. Interessante ver ilustrações, ainda em 1980, com fotos de mulheres, inclusive a autora, protestando contra o código de vestimentas muçulmano.

Isso me ajudou a entender o forte movimento de mulheres do Irã que mais tarde, em 2022, sacudiu o país. Não só uma jovem foi morta pelo regime na época, como esse tipo de assassinato prosseguiu nos dois anos posteriores. As mulheres são a principal força de oposição ao regime teocrático.

Mas as revoltas de agora trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens, aparentemente a maioria dos mortos pela repressão. Seus corpos eram levados de caminhão à morgue de Kahrizak, no sul de Teerã. São dados obtidos pelo jornal Le Monde por meio de testemunhas dos massacres.

Assim como as mulheres são atingidas por um tipo de repressão específica da visão de mundo dos aiatolás, os jovens agora se rebelam contra a falta de perspectiva dramatizada pela crise econômica.

Há outro fator nas revoltas de agora, algo que ainda não era sentido tanto no tempo em que o pai de Azar Nafisi foi prefeito de Teerã: a crise hídrica. Não há água suficiente na cidade e noutros pontos do país. O assunto é de tal gravidade que se chegou a pensar em transferir a capital para outro ponto do país. Mas como fazer a mudança de 10 milhões de pessoas na capital e mais de 4 milhões na área metropolitana? É um problema insuperável, pois os mananciais já estão esgotados. A falta de água, a crise econômica e a permanente opressão das mulheres, num país pressionado por Israel e pelos Estados Unidos, são o cenário de uma crise permanente, apesar da crueldade do sistema teocrático.

A resposta do governo brasileiro ao massacre foi tímida por causa dos laços políticos e comerciais. Os setores progressistas, feministas inclusive, não se comovem quando a opressão e crueldade acontecem no campo adversário dos Estados Unidos. Essa é uma grande vulnerabilidade do campo de esquerda. A sensibilidade seletiva nos leva a caminhos muito perigosos em termos nacionais.

Considera-se a corrupção nas altas esferas como tema sem importância histórica, com isso a credibilidade das instituições vai para o vinagre, até no Supremo Tribunal Federal. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para ver como não só há indignação, como também desalento em relação ao país, pródigo em escândalos. É o prelúdio de aventuras messiânicas.


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