quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O efeito bumerangue da escolha de Gaspar, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Escolha de vice mostra Flávio Bolsonaro de costas para as mulheres e agarrado na pauta da corrupção que também pode ricochetear em sua candidatura

“Na maior parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são justamente as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso, quando eu ficar velhinho quem vai tomar conta de mim são elas”.

O candidato do PL à Presidência fez este preâmbulo ao anunciar o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. A visão tacanha sobre o papel da mulher é uma das explicações sobre o risco tomado por Flávio Bolsonaro com a escolha.

No último dia da CPMI do INSS, depois de o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) irromper a sessão acusando-o de estuprador, Gaspar, que foi o relator da comissão, negou a acusação. Atribuiu o protagonismo a um primo e fez exame de DNA que, disse, não comprovaria a paternidade da criança. Em vídeo, a filha em questão confirmou sua versão.

Como o crime de “estupro de vulnerável” pressupõe apenas a existência de uma relação sexual com um menor de 14 anos, o deputado e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram uma notícia-crime no Supremo Tribunal Federal que é relatada pelo ministro Gilmar Mendes, em segredo de justiça.

O relator pediu um parecer da Procuradoria-Geral da República, que, por sua vez, solicitou diligências à Polícia Federal. A campanha eleitoral transcorrerá, portanto, com esta investigação em aberto.

Outra explicação para o risco é a tensão nunca superada de sua relação com a ex-primeira-dama. A pesquisa Genial/Quaest divulgada no mesmo dia do anúncio de Gaspar mostra que a reconciliação entre Flávio e Michelle Bolsonaro foi aprovada por seis em cada dez eleitores. Em um mês passou de 38% para 46% a proporção daqueles que acreditam em mais chance de vitória em função do apoio da ex-primeira-dama ao enteado.

A despeito de Michelle ter publicado mensagem em apoio a Gaspar, a escolha desagradou a seu grupo. A presença da ex-primeira-dama ou de uma aliada consolidaria a imagem de conciliação aprovada pelo eleitorado.

A disputa pelo espólio do pai parece superar, em importância, aquela pela Presidência da República. A desconfiança foi resumida, no X, pelo irmão foragido, Eduardo Bolsonaro: “Com Alfredo Gaspar, não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro”.

A pauta da segurança pública tampouco parece ser suficiente para explicar a escolha. Promotor público e ex-procurador-geral de Justiça do Estado, Gaspar era um expoente da linha dura quando foi escolhido para secretário de segurança da gestão Renan Filho (MDB) em Alagoas com êxito na redução de homicídios.

A despeito de a pauta ter apelo regional, pela escalada da violência em Estados governados pelo PT, como Ceará e Bahia, políticos da região apostam que o sobrenome Bolsonaro dispensa adendos quando o objetivo é sinalizar para a radicalização da política de segurança. Gaspar, nesta matéria, é anil sobre o azul.

Sua saída da disputa alagoana pelo Senado facilita, sim, a candidatura do deputado Arthur Lira (PP), que deixa de ter um concorrente no eleitorado de direita. Por mais pretensões que Lira cultive, porém, não seria capaz de levar o candidato do PL a sacrificar a escolha de um vice mais producente para resolver um imbróglio estadual.

Ainda mais em Alagoas, onde verbas destinadas por Gaspar em emendas Pix nunca chegaram aos pretendidos fins. Auditoria do TCU identificou que R$ 6,2 milhões destinados ao município de São José da Laje sumiram sem que fossem registradas obras ou serviços deles decorrentes. O parlamentar nega ser investigado e atribui à prefeitura a responsabilidade pela execução dos recursos.

Resta, portanto, uma única motivação para a escolha de Gaspar, a relatoria da CPMI do INSS, que trouxe à tona o envolvimento de Fábio Luís da Silva, filho do presidente da República, com a lobista Roberta Luchsinger. O fôlego tomado por Flávio nas pesquisas tem este carimbo.

A preocupação com corrupção numa campanha com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre o prejudica, não importa se seu adversário tiver recebido de um corruptor um valor 244 vezes superior àquele que seu ex-chefe de gabinete o fez. Tampouco importa se o valor do imprevidente Marco Aurélio Santana foi devolvido e o de Flávio teve destino incerto. Todo respingo em Lula vira enchente.

É nisso que o PL aposta com a escolha de Gaspar, um relator que arquivou o requerimento de convocação do cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel. A CPI tinha evidências fartas da participação de Zettel no manejo de R$ 40 milhões de um esquema que também envolvia desvio do crédito consignado. No leque de destinatários dos recursos operados pelo cunhado de Vorcaro se incluem até a campanha de 2022 de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

A escolha de Alfredo Gaspar, portanto, sugere que Flávio Bolsonaro se agarrará à mesma pauta que motivou a ascensão do seu pai à Presidência oito anos atrás. A diferença é que, de lá para cá, no poder e fora dele, o bolsonarismo acumulou muitas contas a pagar neste escaninho.

O bombardeio sobre Flávio está concentrado em Renan Santos (Missão). A campanha de Lula já estava decidida a partir pra cima do candidato do PL tão logo seu registro eleitoral fosse irremediável. O sinal enviado com a escolha do vice é declaração de guerra.

A chapa pura de Flávio o deixa em desvantagem em relação ao tempo de Lula no rádio e TV. De um lado estará um presidente cujo entorno parece acometido pela amnésia do que se viu em Curitiba. Do outro, um adversário cujo escritório de advocacia ainda nem entrou no jogo.

 

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