Folha de S. Paulo
Presidente adota comportamento errático para
tornar eventuais blefes mais críveis
Cientistas políticos são céticos em relação à
eficácia dessa tática em relações internacionais
Com suas investidas e recuos, Donald Trump se
consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos
jogos.
Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.
Mas será que essa estratégia funciona?
Cientistas políticos tendem a ser céticos quanto à sua eficácia nas relações
internacionais. Ela seria até meio perigosa, ampliando o risco de escaladas. A
lista de líderes ilustres que a utilizaram inclui Richard Nixon, Nikita
Kruschev, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, além de Trump, Putin e Kim Jong-un.
Ainda é cedo para falar dos três últimos, mas
os anteriores não terminaram bem. A atitude errática não ampliou
consideravelmente seu poder de dissuasão, e a mensagem que julgavam transmitir
nem sempre era a captada pelos oponentes.
Meu filho, que é fã de teoria dos jogos
expressa em longas equações, diz que, se analisada em contextos mais
específicos, nos quais o objetivo do governante esteja claramente definido, a
estratégia pode valer a pena. E o problema de Trump e de outros líderes de
potências é que eles operam com vários objetivos ao mesmo tempo. Há a
geopolítica, a disputa por território, acesso a matérias-primas, relações
comerciais etc. Há ainda a questão dos prazos (quatro anos ou quatro décadas) e
de quanto os interesses do dirigente se aproximam ou se afastam dos do país.
A minha impressão é que Trump, a fim de
enaltecer a própria biografia, sacrifica os interesses mais permanentes dos
EUA. Ele já afastou aliados, destruiu a ordem global sob a qual o país
prosperou, reduziu a capacidade das universidades de atrair cientistas, entre
outras loucuras.
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