sábado, 20 de junho de 2026

A humanidade dos jogos, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Devemos olhar para os que chegam vulneráveis, sem a estrela dos campeões. Olhemos para Curaçao ou mesmo para o Congo, que não disputava uma copa há mais de cinquenta anos. Olhemos para a Costa do Marfim e seu grande talento, o jogador Yan Diomande. Prestemos atenção em Cabo Verde e seu goleiro Vozinha

Uma semana de jogos da Copa do Mundo já nos permite reaprender uma das maiores belezas éticas do esporte: a de nos ajudar a nos tornar o que somos. É uma bela reflexão, que remonta à cultura clássica e que talvez explique por que diferentes civilizações sempre reservaram, em alguma medida, espaço para o jogo como afirmação dos laços da comunidade.

Para pensar sobre o tema, devemos esquecer os triunfos individuais e a altivez das equipes que já se sabem fortes por sua estrutura, sua história de sucessos. Devemos olhar para os que chegam vulneráveis, sem a estrela dos campeões. Olhemos para Curaçao ou mesmo para o Congo, que não disputava uma copa há mais de cinquenta anos. Olhemos para a Costa do Marfim e seu grande talento, o jogador Yan Diomande. Prestemos atenção em Cabo Verde e seu goleiro Vozinha.

O time de Curaçao perdeu da Alemanha por 7 a 1, mas celebrou o seu gol e seu primeiro jogo com a alegria dos imensos, revelando que o resultado da partida era irrelevante. Aquele gol era uma prova do time para si e para o seu país de seu valor e de sua capacidade de superação.

De acordo com a cultura grega, o atleta não compete apenas para vencer o outro, mas para revelar quem é, e, mais do que habilidade esportiva, temos no esporte a possibilidade de revelarmos a grandeza da coragem, da empatia, do respeito com o outro e com o grupo que representamos.

Por isso o empate de Cabo Verde foi tão significativo para o país: tornar impotente a poderosa Espanha com o protagonismo improvável de um goleiro já maduro, de um país sem tradição futebolística foi um imenso feito. Uma atenção especial com as seleções do continente africano revela que esses países, mais do que a pretensão de vencer, vivenciam com a copa um reencontro com formas de pertencimento historicamente feridas pela experiência colonial.

Por isso a carta de Yan Diomande à irmã falecida, publicada após o seu primeiro jogo, foi tão comovente. Ela conta uma história de superação desde a infância, toda a tragédia e a beleza de uma vida acidentada, mas iluminada por uma convicção forte.

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles ensina que a excelência humana, a virtude, não nos é dada pela natureza, é resultado do agir prático e da construção diária. Nos tornamos bons, exercitando a bondade, nos tornamos corajosos pela experiência da coragem diante de um desafio. Quando um jogo acontece, a arena se torna um palco onde, mais que o esporte, acompanhamos um espírito no exercício prático do desafio a si.

São essas vitórias, as muito humanas, que nos comovem. Na Copa, os melhores jogadores e jogos são aqueles que nos lembram do nosso potencial para sermos bons e virtuosos, e é esse vislumbre de humanidade que nos alegra.

*Professora de Direito na UFCE

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu sempre tive problema com esporte,eu tenho muita pena de quem perde,inclusive quando jogava.