domingo, 14 de junho de 2026

O que significa continuar humano? Por Hubert Alquéres*

Revista Será?

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, chamou atenção por um motivo incomum. Em vez de tratar de temas tradicionalmente associados à vida religiosa, o documento dedica-se à inteligência artificial, talvez a transformação tecnológica mais importante de nosso tempo.

A escolha não é casual. Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum, marco fundador da Doutrina Social da Igreja. Naquele momento, a Revolução Industrial alterava profundamente as relações de trabalho, a organização econômica e a própria vida social. A Igreja entendeu que não poderia permanecer indiferente diante de mudanças capazes de redefinir a condição humana.

Mais de um século depois, Leão XIV parece perceber que estamos diante de um desafio semelhante. Não se trata mais das máquinas que ampliam a força física dos trabalhadores, mas de sistemas capazes de executar tarefas intelectuais que, durante séculos, consideramos exclusivas dos seres humanos.

A inteligência artificial já escreve textos, traduz idiomas, produz imagens, realiza diagnósticos médicos, elabora projetos de engenharia, compõe músicas e responde a perguntas complexas. Seu avanço é tão rápido que muitos se perguntam quais profissões sobreviverão e quais serão transformadas ou substituídas.

Mas a pergunta mais importante é outra.

Se as máquinas podem realizar tantas atividades associadas à inteligência humana, o que continua sendo exclusivamente humano?

É justamente essa a reflexão que atravessa a encíclica.

O documento não é uma crítica à tecnologia. Tampouco é um manifesto contra a inteligência artificial. Ao contrário, reconhece seu enorme potencial para ampliar o conhecimento, melhorar serviços, acelerar descobertas científicas e contribuir para o desenvolvimento econômico.

O alerta do Papa é outro. A tecnologia não pode se transformar no critério pelo qual definimos o valor das pessoas ou o sentido da vida em sociedade.

Durante muito tempo associamos inteligência à capacidade de acumular informações e resolver problemas. A escola foi organizada para transmitir conhecimentos. As universidades foram concebidas para produzir e difundir saber especializado. O próprio sucesso acadêmico costuma ser medido pela capacidade de responder corretamente às perguntas formuladas.

A inteligência artificial desafia essa compreensão.

Ela demonstra que armazenar informações, identificar padrões e produzir respostas não esgota aquilo que entendemos por inteligência. Um sistema computacional pode processar milhões de dados em segundos. Pode até superar especialistas em tarefas específicas. Mas não possui consciência moral, responsabilidade ética ou capacidade de atribuir significado à própria existência.

Sabe responder. Não sabe compreender. E essa distinção tem profundas consequências para a educação.

Durante séculos, a escola organizou-se em torno da transmissão do conhecimento. É possível que a principal missão da escola do século XXI já não seja mais essa tarefa que as máquinas realizam cada vez melhor, mas sim a de formar pessoas capazes de julgar, interpretar, discernir e escolher.

Numa época em que respostas se tornaram abundantes, o desafio passa a ser formular boas perguntas.

Outro aspecto relevante da encíclica é sua crítica à idolatria da eficiência.

Vivemos em uma cultura que valoriza velocidade, produtividade e desempenho. A tecnologia frequentemente é apresentada como solução para todos os problemas justamente porque promete fazer mais, em menos tempo e com menor custo.

Entretanto, as experiências humanas mais importantes raramente obedecem a essa lógica. Educar uma criança exige tempo. Construir uma amizade exige tempo. Ler um romance exige tempo. Cuidar de um idoso exige tempo.

Nenhuma dessas atividades é eficiente no sentido econômico da palavra. Ainda assim, são elas que conferem profundidade e significado à existência humana.

Ao enfatizar esse ponto, Leão XIV parece advertir que uma sociedade organizada exclusivamente em torno da produtividade corre o risco de perder aquilo que a torna verdadeiramente humana.

A encíclica fala frequentemente da verdade, mas evita definições filosóficas abstratas. Em uma época marcada por algoritmos capazes de produzir versões concorrentes dos mesmos fatos, a preocupação do Papa parece mais prática do que teórica: sem algum compromisso compartilhado com a busca da verdade, tornam-se frágeis não apenas o conhecimento, mas também a convivência democrática.

A inteligência artificial pode multiplicar conteúdos em escala inédita. Mas continua sendo responsabilidade humana distinguir o verdadeiro do falso, o relevante do irrelevante, o justo do injusto. Mais uma vez, emerge uma questão educacional decisiva: desenvolver o pensamento crítico talvez seja mais importante do que acumular informações.

Chama atenção que, ao discutir a condição humana na era da inteligência artificial, Leão XIV tenha evitado ingressar nos chamadas debates culturais e morais que hoje dominam parte do debate público. O documento pouco se detém em temas como identidade, novas configurações familiares, aborto ou sexualidade. Seu foco está em outro lugar. Em vez de discutir quem somos a partir de nossas diferenças, a encíclica procura identificar aquilo que compartilhamos como seres humanos. Independentemente da posição que se adote sobre essa escolha, ela revela uma tentativa de deslocar o debate do campo das identidades para o da condição humana comum.

Há ainda um aspecto mais profundo.

Ao longo da história, diferentes revoluções científicas obrigaram a humanidade a rever sua imagem de si mesma. Copérnico mostrou que a Terra não ocupava o centro do universo. Darwin demonstrou que os seres humanos fazem parte da mesma história evolutiva das demais formas de vida.

Agora, a inteligência artificial nos confronta com outra descoberta desconfortável: muitas capacidades cognitivas que imaginávamos exclusivamente humanas podem ser reproduzidas por máquinas. Diante disso, a pergunta formulada pela encíclica deixa de ser tecnológica e se torna antropológica. O problema central não é determinar até onde a inteligência artificial poderá chegar. O verdadeiro desafio consiste em compreender quem desejamos continuar sendo.

Num momento em que governos, empresas e universidades discutem algoritmos, regulação e inovação, o Papa Leão XIV recoloca uma questão antiga no centro do debate contemporâneo.

O futuro não dependerá apenas da inteligência das máquinas. Dependerá, sobretudo, da sabedoria dos seres humanos que as criam, utilizam e regulam.

A inteligência artificial pode transformar profundamente o mundo. Mas continua em aberto a pergunta mais importante de todas: o que significa continuar humano em uma era de máquinas cada vez mais inteligentes?

*Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação

Revista Será? - ANO XIV Nº713, 12/6/2026

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