segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Maquiavel

“Alexandre VI não pensou e não fez outra coisa senão enganar os homens, tendo sempre encontrado ocasião para assim proceder. Jamais existiu homem que possuísse maior segurança em asseverar, e que afirmasse com juramento mais solene o que, depois, não observaria. No entanto, os enganos sempre lhe correram à medida dos seus desejos, pois ele conhecia bem este lado da natureza humana”.


Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, 1513 , pág. 74 - Editora Nova Cultural, S. Paulo 1987)

Ricardo Noblat :: O jardineiro feliz

DEU EM O GLOBO

“Presidente, eu penso igual ao senhor”.
(Dilma Rousseff em diálogo ensaiado com Lula no programa do PT na televisão)

Jamais Lula foi tão franco e direto a respeito do assunto quanto na última quinta-feira em São Luís do Maranhão, reduto político de quem já foi chamado por ele de ladrão: “Não se trata de ter amigos ou não ter amigos. Não se trata de ter afinidade ideológica ou não ter afinidade ideológica. Se trata do pragmatismo da governança”. Perfeito!

Lula poderia ter admitido que existe limite para tudo.

Paulo Maluf estabeleceu o dele em casos onde aflorem os instintos mais primitivos: “Estupra, mas não mata”. Vai ver que não existem limites para Lula. Vai ver que seu índice de popularidade serve antes de tudo para justificar transgressões.

Em 2006, durante comício em Belém, Lula agradeceu o apoio de Jader Barbalho (PMDB) beijando sua mão.

As mãos de Jader — logo aquelas mãos! — haviam sido algemadas anos antes sob a suspeita de ter manuseado dinheiro público desviado irregularmente. Tem voto? Vem para meu jardim você também, vem...

Jader é hoje mais uma flor exuberante no quintal do jardineiro feliz onde estão reunidos Fernando Collor, José Sarney, Romero Jucá, Romeu Tuma, Sandro Mabel, Severino Cavalcanti, e por aí vai. Sem esquecer os mensaleiros. E a maior fatia do PMDB. Se colhidos formariam um belo ramalhete a ser depositado no altar da governança.

Esse não foi o Lula eleito presidente da República em 2002 pela maioria dos brasileiros.

O Lula escolhido batia duro na corrupção e prometia manter segura distância de corruptos.

Mas é fato que sempre existiu o Lula para quem vale tudo quando o poder está em jogo. Apenas havia sido disfarçado por artes da propaganda e do marketing.

A poucos meses de ser eleito presidente pela primeira vez, por exemplo, Lula testemunhou em um apartamento de Brasília a compra do apoio do PL à sua candidatura.

Custou pouco mais de R$ 6 milhões. Foi fechada por José Dirceu, Delúbio Soares e o deputado Valdemar Costa Neto, presidente do partido.

Apontado mais tarde pela CPI dos Correios como um baita mensaleiro, Valdemar renunciou ao mandato para escapar de ser cassado.

Dirceu foi demitido da chefia da Casa Civil — afinal, como Lula não sabia do mensalão, alguém tinha que saber. Cassaram-lhe o mandato de deputado. Delúbio está de volta como aspirante a deputado.

Com o escândalo do mensalão Lula extraiu uma lição perversa: para conservar o poder deveria ceder a todas as exigências dele. No primeiro mandato, por birra ou erro de cálculo, resistira a sentar no colo do PMDB — ou a pô-lo no colo.

No segundo escancarou as porteiras para o PMDB e mais 13 partidos. Sem essa de perder o poder.

Perdera Dirceu, que poderia sucedê-lo. E Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, pobre vítima do então presidente da Caixa Econômica Federal que, à sua revelia, quebrou o sigilo bancário de Francenildo da Costa, o caseiro que disse ter visto Palocci dezenas de vezes em uma mansão alegre de Brasília.

Não foi esse o entendimento do Supremo Tribunal Federal? Não se trata, por todos os méritos, da mais alta corte de homens sábios, justos e coerentes do país? E então? Puna-se o ex-presidente da Caixa porque Palocci já foi injustamente punido no rastro do escândalo turbinado pela mídia golpista.

Uma vez mandados às favas todos os escrúpulos, Lula olhou para Dilma Rousseff e disse: eis alguém que poderá me suceder para depois ser sucedido por mim. Nem Dilma se julgava tão capaz.

E Lula deve ter pensado: como filho do Brasil e um de muitos de Deus, estou certo.

Se não estivesse, Ele me daria algum sinal.

E Lula viu a oposição. Retificando: Lula não viu porque ela não existe. Viu uma gente medrosa, desarticulada, sem discurso e ao que parece conformada com o desastre que se avizinha. E Lula finalmente concluiu: Vai dar! Anote aí: Lula vencerá em 2010. Salvo se Dilma perder.

Charada? Não. Em 2002, Ciro Gomes perdeu para ele mesmo tantos foram os erros que cometeu. Dilma não está livre disso.

Fernando de Barros e Silva:: Aos tucanos, as batatas

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Faltando 17 dias para acabar o ano, PT e PSDB esperam as últimas pesquisas de 2009 para conhecer o impacto eleitoral dos programas que ambos exibiram recentemente na TV. É possível que a dianteira de José Serra, até hoje uma constante, não tenha sido abalada, mas os tucanos devem ter muito com que se preocupar. Consolida-se no meio político a percepção de que o governo entra em 2010 muito fortalecido -como favorito?

São três, em resumo, os fatores que projetam uma sombra de dúvidas sobre a liderança tucana: a alta popularidade de Lula, as previsões de crescimento substantivo para o próximo ano e as realizações do governo na área social, contra as quais a oposição não terá muito o que dizer sem passar vexame.

No PT, as interrogações se voltam para a capacidade que terá a candidata Dilma Rousseff de associar sua imagem à do Papai Noel que Lula se tornou. Já entre os tucanos, a dúvida é de outra ordem: o que dizer? O que defender? Como enfrentar o lulismo?

Ao PSDB não falta candidato -aliás, há dois, o que a essa altura já se tornou um problema. Falta, antes, uma candidatura com pauta convincente. A troca de elogios entre Serra e Aécio no jogral da TV pode ser interpretada (psicanaliticamente) como sintoma de algo assim: toma, que essa batata é sua.

O que resta à oposição? Além de aplaudir Lula e repetir que Dilma não é Lula, talvez restem as bandeiras da direita: o medo da violência urbana, a grita contra os impostos, a defesa da eficiência administrativa, a crítica ao gasto público e ao aparelhamento do Estado e por aí vai. Não parece muito animador.

Em 2006, quando o mensalão ainda estava fresco, Alckmin iniciou cheio de energia, prometendo decência e choque de gestão. Acabou humilhado, vestindo uma jaqueta coalhada de símbolos de estatais. Agora, com o DEM nu, ficou ainda mais difícil encontrar um modelito udenista para vestir a oposição no baile de 2010.

Aécio dá ultimato ao PSDB

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Governador cobra definição do concorrente tucano à Presidência ainda este mês. Caso contrário, anunciará candidatura ao Senado

Alessandra Mello

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, deu um ultimato ao seu colega de São Paulo, José Serra, e ao PSDB. Se o partido não definir quem será o candidato à Presidência da República ainda este ano, Aécio pode anunciar no fim do mês a intenção de disputar o Senado, e não mais o Palácio do Planalto. Aécio reiterou ao presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que não vai esperar até março pela escolha do concorrente tucano no páreo presidencial.

O governador mineiro vem pressionando a direção nacional da legenda para que o nome do candidato seja decidido o mais rápido possível, e não somente em março, como deseja Serra, também pré-candidato a presidente. Na sexta-feira, os dois presidenciáveis se encontrariam em Teresina (PI), com outros dirigentes da sigla, para discutir mais uma vez essa questão, mas a reunião acabou esvaziada por causa da ida de Serra para a convenção sobre mudanças climáticas, em Copenhague, na Dinamarca. Pelo menos essa foi a versão oficial divulgada a fim de acobertar a manutenção do impasse.

Aécio tem reiterado em todas as oportunidades que não pode esperar até março, pois seria tarde demais para atrair à chapa tucana partidos que fazem parte da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O secretário-geral do PSDB, deputado federal Rodrigo de Castro (MG), um dos principais aliados dele no partido, confirmou a intenção do governador de desistir da disputa à Presidência caso a legenda estenda até março sua decisão. “Para a proposta dele de ser candidato virar realidade, o governador precisa de tempo. Março é muito longe. Se nenhuma decisão for tomada até o fim deste mês, o governador deve anunciar seu destino ainda em dezembro”, afirmou Rodrigo de Castro.

Costura

Segundo o deputado, o governador tem um prazo-limite para costurar um arco amplo de alianças que agregue em torno de sua candidatura partidos aliados do presidente Lula. “Não dá para fazer isso em março.” O presidente do PSDB em Minas Gerais, deputado federal Nárcio Rodrigues, também quer agilidade da direção nacional na definição de quem deve disputar pelo PSDB. “Que eu saiba, não há nenhuma decisão do governador sobre seu futuro. Ela será tomada apenas em janeiro, como já previa nosso calendário”, afirmou.

Rodrigues acrescentou que o partido tem posições já definidas em Minas. “Não temos obsessão pela candidatura de Aécio Neves. Temos que decidir o mais rápido possível. Nosso prazo máximo é janeiro e temos de organizar boas alianças para o partido conquistar mais uma vez o governo do estado.” Já outro aliado do governador não acredita que o anúncio sobre o futuro seja feito oficialmente ainda este mês. Em sua avaliação, Aécio está apertando o cerco em torno da direção do PSDB para precipitar a decisão sobre quem será o candidato. “É mais ou menos assim: não me joguem na água que sou sapo”, comentou.

"Para a proposta dele de ser candidato virar realidade, o governador precisa de tempo. Março é muito longe"
(Rodrigo de Castro, deputado federal)

Fábio Wanderley Reis:: Participação, sociedade civil e Copenhague

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A ideia de uma democracia "deliberativa" tem sido contraposta (por Diana Mutz, por exemplo, no volume "Hearing the Other Side", de 2006) à da democracia "participativa" pela qual mais comumente se anseia. As duas envolvem exigências e supostos contrastantes. A primeira, centrada no debate autêntico como mecanismo de decisão, supõe justamente que se "ouça o outro lado" e seus argumentos e, portanto, a imersão em ambientes sociais heterogêneos quanto a perspectivas e opiniões. Já a segunda, ao estimular o envolvimento e a participação dos cidadãos nos assuntos públicos, acaba às voltas com os condicionamentos e correlatos sociopsicológicos desse desiderato.

Ponhamos de lado o que há de problemático na concepção de uma sociedade cujos cidadãos devam estar, "republicanamente", em mobilização permanente ou "nas ruas" (ou de uma universidade em que a legitimidade de decisões importantes se veja deslocada para os corredores e pátios, para mencionar um tipo específico de organização sujeito a problemas análogos entre nós): tal mobilização será no máximo um ponto talvez necessário de passagem rumo à sociedade cuja aparelhagem institucional democraticamente construída permita aos cidadãos ir para casa em paz, como tenho dito às vezes, na certeza de que seus interesses ou valores maiores estão assegurados. À parte isso, como Alessandro Pizzorno destaca há muito tempo, a participação política tende a dar-se "entre iguais" - e a favorecer condições em que a fusão e a efusão psicológicas entre os integrantes de grupos homogêneos e antagônicos tendem a substituir-se à tolerância e mesmo à racionalidade.

Com seus pressupostos implícitos de unanimidade e as pressões contrárias à divergência que daí resultam, a santificação frequente da "opinião pública" vai na mesma direção, não obstante o caráter fluido e fragmentário que os fenômenos assim rotulados na verdade apresentam.

Uma indagação de interesse é a de como tais questões se relacionam com a ideia de "sociedade civil", retomada e idealizada contra o Estado em meios de esquerda, desde há algum tempo, em nome de um "aprofundamento" da democracia. No Brasil, temos visto, por exemplo, o governo Lula avaliado em termos que destacam, com ânimo negativo, a continuidade de um Estado ativo e ambicioso, diante do qual a sociedade civil nunca poderia afirmar-se com autonomia.

É claro, por um lado, o que, não obstante os riscos indicados, os estímulos à participação dos "iguais", e a sociedade civil como arena disso, têm de positivo para a dinâmica democrática - e os partidos políticos, que os adeptos mais fervorosos da sociedade civil tendem a ver com reservas, são há tempos descritos como cumprindo a função de "vocalização" (junto ao Estado...) dos interesses correspondentes a "bases sociais" dadas, distinguidas justamente pelo compartilhamento de determinadas condições e perspectivas ou opiniões. Por outro lado, o papel das entidades que compõem a sociedade civil (incluindo ONGs e associações diversas, que agora felizmente vão além, entre nós, das indefectíveis OAB, ABI e CNBB dos tempos da ditadura) pode ser apreciado de um ângulo inequivocamente positivo se consideramos a "esfera pública", com ênfase no potencial libertário do fluxo de comunicação entre os cidadãos quando protegido tanto quanto possível, entre outras coisas, precisamente dos perigos da "opinião pública" e da psicologia de multidões: em vez do "unanimismo", um espaço onde os temas e problemas são postos em confronto e debatidos.

A reunião que agora ocorre em Copenhague evidencia as nuances da questão geral. É clara a importância das entidades da sociedade civil, em escala mundial, em sensibilizar para o problema ambiental que a reunião dramatiza e em trazê-lo à cena pública. Mas há ressalvas.

No plano doméstico de cada país, em primeiro lugar, são claras as dificuldades defrontadas mesmo pelos partidos "verdes", em decorrência do fato simples de que não basta "vocalizar" posições a que certas "bases" adiram homogeneamente: é preciso acenar aos cidadãos como tal, com a diversidade de problemas que os afetam, e poder assim cumprir também a função de "agregação" de interesses a que um partido autêntico não pode renunciar. Temos, em segundo lugar, a projeção disso no plano transnacional, onde surge o que há de crucialmente relevante e difícil no problema ambiental: não apenas interesses diferenciados e antagônicos em contraposição ativa, mas igualmente boas razões de debate e divergência na esfera pública mundial tomada no sentido mais nobre, com argumentos que vão em direções distintas - debate que os e-mails expostos por hackers apenas exacerbaram ao servir de instrumento no jogo dos interesses.

Seja como for, é óbvia a necessidade da criação de consensos e patente a falta que fazem, no plano em que os problemas devem resolver-se, o Estado e a institucionalização de mecanismos político-partidários de agregação de interesses e opiniões e de encaminhamento mais ou menos "automático" de decisões vinculantes. Como as crises econômicas e as questões nucleares, as urgências envolvidas no problema ambiental realçam de maneira angustiante o desafio de criarmos o efetivo equivalente funcional do Estado na escala planetária. Se há muitas razões de ceticismo, certamente não é a menor delas o fato de não podermos escapar, quanto ao desafio, do papel crucial de Estados nacionais não só de interesses distintos e estruturas de decisão diferenciadas, mas também desigualmente poderosos. Há indícios, contudo, de que a esfera pública mundial pode acabar mostrando sua serventia também quanto a isso.

Já em outra capital nórdica, como apontava Howard Fineman na edição eletrônica de "Newsweek" de 10 de dezembro, Obama agradecia o Nobel da paz falando de guerra tal qual Bush - talvez com boas razões de política doméstica, que fazer...

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Gaudêncio Torquato :: Reforma no freezer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma tática que funciona bem quando se quer armar uma pista falsa é parecer estar apoiando uma ideia que, na verdade, contraria o que a pessoa sente. O método é frequentemente usado por políticos e governantes na ressaca das crises. Exemplo?
A reforma política. Que aparece como esparadrapo para fechar a ferida aberta por escândalos, denúncias, gravações e máfias que agem nos porões da administração pública. O presidente Luiz Inácio, instado a falar sobre o mensalão do DEM, recomendou profunda mudança nos padrões políticos, lembrando que já enviou ao Congresso duas propostas.
A pista parece falsa. Fosse verdadeira, o chefe do Executivo já teria mobilizado seus exércitos para aprovar a matéria, como acaba de fazer com relação aos projetos do pré-sal. É evidente que a maioria dos políticos também não tem interesse em mudar as regras do jogo em pleno campeonato. Algo mais substantivo até poderia ser votado, tendo como parâmetro a aplicação de novas disposições em futuro distante. Batatas quentes como sistema de voto, fidelidade partidária, cláusula de barreira, financiamento de campanha são jogadas de uma mão para outra até esfriarem. Acabam sendo colocadas no freezer. E, assim, chegamos ao fim de 2009 no meio de mais um furacão mensaleiro, sob o lema "vamos deixar como está para ver como é que fica".

Por que a tão propalada reforma política não anda? A resposta começa com a lembrança de Maquiavel: "Nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de ter êxito ou mais perigoso de manejar do que dar início a uma nova ordem de coisas." Se imprimir nova disposição ao sistema político é tarefa complicada em qualquer democracia, imagine-se o grau de dificuldade que gera no meio de uma cultura inoculada pelo vírus patrimonialista, que costuma corroer as entranhas do Estado. Nossos representantes, como donatários do mandato, querem ter o direito de exercer e usufruir funções e benesses inerentes a ele. Por conseguinte, resistem a votar disposições que possam vir a limitar seu poder. Querem ter liberdade de pular de partidos a seu bel-prazer.

Fazer coligações com siglas aliadas e adversárias. Partidos pequenos, mesmo sem expressão eleitoral, devem continuar a existir? Ajustar a proporção da representação, tornando mais justa a relação entre número de votos conquistados pelos partidos e cadeiras obtidas, nem pensar. Como se sabe, por força de disposição constitucional, estabeleceu-se um mínimo de 8 e o máximo de 70 parlamentares por Estado, gerando desproporção média em torno de 10% na representação territorial.

Aos exemplos acima se somam outros que geram conflitos de visões, como o sistema de voto em lista fechada. Se alguns defendem a ideia de que esse mecanismo contribuiria para o fortalecimento partidário, outros argumentam com a hipótese de que o sistema reforçaria o mandonismo das cúpulas, que comporiam chapas com nomes de sua preferência numa ordem de importância. Formar um sistema misto, sendo uma parte eleita pelo atual modelo aberto e outra por meio de lista fechada, é algo polêmico. Em suma, o território pessoal prevalece sobre o espaço dos anseios coletivos e o mapa de qualificação dos partidos. De tão complexa, a dialética da mudança emperra. Chega-se, assim, ao diagnóstico: a reforma não sai porque não há vontade política suficiente; já a escassez de vontade decorre do particularismo que impregna a vida pública. Noutros termos, o declínio do conjunto partidário, a fragmentação de lideranças, o arrefecimento do engajamento das massas, a deterioração dos padrões e temáticas pontuais - patrocinadas pelo Executivo ou pinçadas de uma agenda de circunstâncias - impedem os projetos de caráter mais estrutural.

A análise pode ser feita sob outro prisma. A reforma política não evolui porque não se extrapola o ambiente onde é artificialmente trabalhada, no caso, o círculo dos três Poderes.

A matéria política circula por ali, saindo de uma Casa parlamentar para outra, às vezes sob o patrocínio do Palácio do Planalto e, eventualmente, ganhando um adicional - interpretações constitucionais - pelo Poder Judiciário. Em face das dúvidas e diante do acirramento de posições entre os próprios aliados, chega-se à acomodação para não votar a reforma política, mesmo com o reconhecimento de que ela é necessária. Não passa de falácia, portanto, a lembrança do presidente de que os projetos de minirreformas do Executivo não andaram. Do alto de sua imensa popularidade, liquidaria essa fatura se assim o quisesse.

Neste ponto, emerge a conclusão: enquanto for um evento centrífugo, de dentro para fora, a reforma não caminhará. Fator decisivo nessa teia é a pressão da sociedade. Para avançar a reforma carece de uma força centrípeta, articulada por entidades e movimentos. Acontece que a matéria política decepciona a sociedade. Este é mais um nó que deve ser desamarrado: o trem da mudança atrela-se à locomotiva social, mas para tanto os políticos devem dar bons exemplos e melhorar a representação. O que se sente é o contrário: comunidade desmotivada ante os escândalos que batem no conceito de mandatários de todas as esferas. Se os atores envolvidos na trama forem capazes de chegar a um consenso, a reforma tem condição de ser uma utopia. Da parte da sociedade, a mobilização passa pela integração de entidades de reconhecido prestígio com a organização de uma agenda focada nesse tema específico. Se o universo associativo se expande, na esteira de uma miríade de entidades, os campos de interesse variam, dificultando a convergência de abordagens e a defesa de projetos de alto interesse social.

Mas, como diria o sábio chinês, uma caminhada de mil quilômetros começa com um primeiro passo. E como até nos pântanos nascem lindas flores, a esperança é que, no meio do lodo que escorre pelos desvãos institucionais, a reforma política desça do espaço etéreo das intenções para baixar em terra firme, limpando o nosso amanhã de vendilhões da política.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação

Com quem ficam os eleitores pró-Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
José Roberto de Toledo* e Daniel Bramatti*

Com 72% de aprovação do seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o principal ator de sua sucessão. Para acompanharmos a transformação de sua popularidade em votos para o candidato governista é preciso cruzar a intenção de voto nos presidenciáveis com a avaliação do governo. Até agora, essa transfusão corre a conta-gotas.

Cruzamentos da pesquisa CNI-Ibope obtidos pelo Estado mostram que apenas 21% dos que acham o governo Lula bom ou ótimo têm intenção de votar em Dilma Rousseff (PT). Um porcentual bem maior, 36%, afirma que votaria em José Serra (PSDB) se a eleição fosse hoje. O que faz mais de um terço dos que aprovam o governo pretenderem votar no principal candidato de oposição?

Há três respostas possíveis: 1) Não reconhecem Dilma como candidata de Lula, 2) Não enxergam a eventual eleição de Serra como uma mudança em relação a Lula, 3) Conhecem Dilma, mas não simpatizam com ela. Os cruzamentos da pesquisa CNI-Ibope indicam que as três são verdadeiras.

Dois em cada três eleitores pró-Lula conhecem pouco ou nada a candidata do PT (23%, "um pouco"; 30%, "só de nome"; 10%, nada; 2% não sabem). Mesmo entre os que a reconhecem como candidata do governo, a maior parte (24%) sabe "alguma coisa" sobre ela e seus atos. Só 11% dizem conhecê-la bem. O tempo de TV do PMDB no horário eleitoral, o maior entre todos os partidos, nunca valeu tanto.

Serra é muito mais conhecido pelo eleitorado governista: 30% dizem conhecê-lo bem, e 38% sabem "alguma coisa" sobre ele. No seu caso, isso é positivo. O tucano já tem 36% da intenção de voto entre os pró-Lula e potencial de chegar a 71% nesse segmento (só 29% se recusam a votar nele em qualquer hipótese). Hoje, não é visto pela maioria como uma "ameaça" ao status quo.

Para Dilma ter chances sobre Serra, ela precisará mais do que se tornar conhecida: precisará conquistar corações e mentes. Nada menos do que 35% dos que aprovam o governo Lula dizem que não votariam em Dilma "de jeito nenhum". Uma conta simples mostra que é fundamental para a candidata petista diminuir sua rejeição nesse segmento.

Hoje a ministra perde 25% do total do eleitorado apenas entre os que aprovam o governo. Se somarmos os que acham o governo regular, ruim ou péssimo e antipatizam com ela (15%), Dilma estará deixando de disputar 4 em cada 10 votos possíveis. Algo a que nenhum presidenciável pode se dar ao luxo.

Portanto, a transfusão da popularidade de Lula para Dilma depende de três variáveis: torná-la conhecida como candidata do governo, marcar Serra como o anti-Lula e melhorar a imagem da ministra entre os eleitores. O programa eleitoral do PT veiculado em cadeia de TV esta semana tentou fazer isso.

Ciro Gomes (PSB) é mais conhecido do eleitorado pró-Lula do que Dilma: 44% a 35%. Mesmo assim, tem um porcentual de intenção de voto menor do que o da ministra dentre os que aprovam o governo: 13% a 21%. Em compensação, tem quase o dobro de simpatizantes de Dilma entre os que acham o governo regular: 13% a 7%.

Isso mostra que a candidatura presidencial de Ciro, se não decolar nem naufragar de vez, pode servir aos interesses de Lula e ajudar Dilma: ele tem mais chances do que ela de conquistar votos entre os que desaprovam ou não se entusiasmam com o governo, um eleitorado que, sem ele no páreo, migraria para Serra.

Mas essa é uma estratégia que envolve riscos para Dilma. Se Ciro conseguir recuperar o ímpeto de sua campanha, voltará a disputar eleitores governistas com a ministra. No cenário oposto, de polarização aguda entre Dilma e Serra, os eleitores de Ciro podem antecipar o voto útil ainda no 1º turno e abandoná-lo, muitos deles em direção ao tucano.

Já Marina Silva (PV) permanece uma ilustre desconhecida do eleitor. Tem pouca penetração entre os pró-Lula e alta rejeição entre os opositores. Seu teto é baixo, seu discurso é limitado a um tema que não é telhado de vidro para o governo (ao menos não aos olhos do eleitorado) e seu tempo no horário eleitoral da TV é insuficiente para compensar essas desvantagens.

*José Roberto de Toledo é jornalista especializado em reportagens com uso de estatísticas e coordenador da Abraji

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Diário do Nordeste(CE)

Quércia vence e fortalece ala serrista do PMDB

DEU EM O GLOBO

Temer diz que decisão sobre aliança fica para junho e reclama da ideia de lista tríplice para vice: "Não foi uma fala feliz"

Sérgio Roxo

SÃO PAULO. O ex-governador Orestes Quércia foi reeleito para a presidência do PMDB no Estado de São Paulo — resultado que indica que a ala paulista do partido deve apoiar a candidatura de José Serra (PSDB) para a Presidência da República em 2010, mesmo que a direção nacional decida pela aliança com a ministra Dilma Rousseff (PT).

— Pretendemos ter candidato próprio a presidente. Se não for possível, seguiremos essa composição ( Como PSDB) que foi iniciada no ano passado com a eleição municipal (para prefeito de São Paulo) — afirmou Quércia.

O ex-governador derrotou o deputado federal Francisco Rossi por 597 a 73 na convenção de ontem, entre os representantes dos diretórios regionais do partido.

De acordo com o deputado federal Michel Temer, presidente nacional do PMDB e presidente da Câmara, a decisão sobre a posição do partido na eleição presidencial será tomada no mês de junho, durante convenção. Apontado como principal nome para ser o vice de Dilma, Temer, que faz parte da chapa de Quércia na convenção paulista do partido, afirmou, em discurso: — Temos três alas do nosso partido: uma que almeja apoio à candidata do governo (Dilma), outra que almeja um eventual apoio ao candidato da oposição (Serra), e outra, mais forte, mais significativa, mais expressiva, que patrioticamente quer a candidatura própria. Levarei essas ideias para a convenção nacional em junho.

Ele admite as negociações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas quer que o partido tenha maior espaço na aliança: — Temos um pré-compromisso com o PT e este pré-compromisso está sendo trabalhado enormemente, numa condição que é exatamente de não permitir que o PMDB seja uma figura periférica. Queremos ter participação na chapa, na formulação do plano de governo e no plano de campanha.

Temer criticou a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a forma como deve ser feita a definição do vice da ministra Dilma Rousseff (PT) na eleição do próximo ano. Na quinta-feira, em visita ao Maranhão, Lula defendeu que o PMDB indique três nomes para que Dilma escolha o seu companheiro de chapa na disputa de 2010.

“Jamais iríamos dizer o que o PT deve fazer ou não” — Não foi uma fala feliz. Jamais iríamos dizer o que o PT deve fazer ou não fazer. O PMDB que tem que decidir. Não me manifestei porque todo mundo diz que eu posso ser candidato a vice (na chapa de Dilma). Jamais falei. Aliás, o presidente Lula um dia me disse que eu deveria ser o vice. Eu respondi claramente: “presidente, vamos fechar a aliança e verificar qual o nome que melhor soma para a candidata”. Tenho responsabilidade e competência para dizer uma coisa dessa. Digo que sempre sou candidato a deputado federal. Não é preciso fazer uma sugestão ao PMDB dessa natureza, com todo o respeito que tenho pela sua fala e pelas suas posições — afirmou Temer.

Pelo acordo selado no ano passado com os tucanos, o PMDB indicou Alda Marco Antonio para vice na chapa vitoriosade Gilberto Kassab (DEM) para a prefeitura da capital paulista. O compromisso previa ainda que, na eleição de 2010, Quércia disputaria uma vaga no Senado e apoiaria um tucano a governador.

— Existe uma hipótese de composição com o Serra e com o PSDB para eu ser candidato a senador. Agora, se tivermos candidato a presidente, não será dessa forma. Todas as vezes em que eu defini a composição com os tucanos aqui em São Paulo, sempre ressalvei que, se houver candidatura própria, eu fico com o candidato do partido — disse o ex-governador.

Também presente à convenção, o governador do Paraná, Roberto Requião, que já se lançou candidato do PMDB a presidente da República, foi irônico ao comentar a declaração do presidente Lula: — Lançando a candidatura própria, o PMDB pode inverter a proposta que o PT fez aos nossos companheiros da direção nacional. O Lula nos propõe fazer uma lista tríplice para que a candidata escolha um vice. Proponho ao PT que faça uma lista sêxtupla, desde que não tenha nenhum nome vinculado ao capital financeiro, para que, dos seis nomes apresentados, possamos escolher o vice-presidente da República na chapa do PMDB.

Eleições no PMDB viram ato de repúdio a fala de Lula

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A eleição no PMDB paulista tornou-se um ato de repúdio a declarações do presidente Lula, que sugeriu ao partido a apresentação de lista tríplice com nomes para ocupar a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff.
Como resposta a Lula, os peemedebistas ameaçaram lançar candidatura própria ao Planalto. O ex-governador paulista Orestes Quércia foi reeleito presidente da legenda no Estado.

Em resposta a Lula, PMDB ameaça lançar candidatura

Durante eleição do novo presidente em SP, partido também cogita apoiar PSDB

Manifestações ocorreram após Lula sugerir que o PMDB apresentasse lista com nomes para concorrer como vice de Dilma Rousseff

José Alberto Bombig
Da Reportagem Local

A eleição do novo presidente do PMDB paulista transformou-se ontem em um ato de repúdio às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sugeriu ao partido apresentar uma lista tríplice, a ser apreciada pelo PT, com nomes passíveis de ocupar a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff.

Ainda como resposta a Lula, os peemedebistas ameaçaram lançar uma candidatura própria ao Palácio do Planalto ou mesmo apoiar o PSDB dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

"Não foi uma fala feliz [a do presidente]. Nós jamais iríamos dizer ao PT o que o PT deve fazer. Aqui, há a soberania interna do PMDB. Podemos até, eventualmente, fazer uma lista com seis nomes, mas essa é uma decisão do PMDB", afirmou o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (SP), o principal cotado para o posto de vice de Dilma na corrida pela sucessão de Lula no ano que vem.

Segundo Temer, o próprio Lula chegou a dizer a ele que seu nome era a melhor opção. "É a primeira vez que estou me manifestando [sobre a declaração do presidente]. Não havia feito isso antes porque dizem que eu posso ser o vice, mas eu jamais disse isso", afirmou o peemedebista.

"Aliás, foi o presidente Lula quem um dia afirmou que eu poderia ser o vice. Eu respondi muito claramente: "Presidente, vamos primeiro fechar a aliança e, feito isso, vamos verificar qual o nome que melhor soma para a candidata". Ou seja, eu tenho tamanho, responsabilidade e competência para dizer uma coisa dessas", completou.

Ao discursar no evento de ontem, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, Temer defendeu a pré-candidatura do governador Roberto Requião (PR) ao Planalto.

"Eu levo essa ideia da candidatura própria à convenção", disse, acrescentando que a sigla não descarta aliança com o PSDB. E completou: "O PMDB não será ator coadjuvante em 2010, será ator principal".

Proposta

Na quinta-feira passada, no Maranhão, Lula apresentou a proposta da lista. "Você não pode empurrar para ela [Dilma] alguém que não tenha afinidade com ela, porque aí será a discórdia total."

As reações dos peemedebistas foram imediatas e ganharam apoio até de petistas.

"O presidente atual [Ricardo Berzoini] e o presidente eleito [José Eduardo Dutra] do PT foram a público no mesmo dia para dizer que o PMDB decidiria de acordo com as suas razões", afirmou Temer ontem.

Convidado de honra da eleição paulista, Roberto Requião também criticou o PT: "Talvez a gente ofereça ao PT a possibilidade de apresentar uma lista tríplice para complementar o vice do PMDB".

O ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, reeleito presidente da sigla no Estado, deixou aberta a possibilidade de o PMDB romper com o Planalto e correr rumo à oposição.

"Se não der certo a opção pelo Requião, vamos com José Serra [PSDB], pelo menos em São Paulo", afirmou ele.

Desde 2002, quando Lula se elegeu presidente pela primeira vez, PT e PMDB ensaiam, sem sucesso, uma aliança que engaje todos os setores dos dois partidos em uma campanha.

Neste ano, as siglas firmaram um pré-acordo com vistas a 2010, já que os peemedebistas integram a base aliada do atual governo federal.

Temer, historicamente, sempre foi apontado no PMDB como um dirigente com bom relacionamento com Serra, o líder nas pesquisas de intenção de voto para presidente.

Ontem, ele chegou a ser irônico ao comentar as relações com Lula: "Há que se definir quem é o candidato ou a candidata do PT". A convenção do PMDB, que vai definir os rumos do partido, está marcada para junho do ano que vem.

Pedro S. Malan :: Complexa transição

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

"A eleição de 2010 não pode se fazer em torno das pobres alternativas de ou voltar ao passado ou dar continuidade a Lula. A discussão precisa incorporar os horizontes do século 21 e a superação dos problemas que certamente restarão do seu governo." A pertinente observação é do ilustre ex-ministro Delfim Netto (Folha de S.Paulo, 11/11).

Sobre o século 21, um respeitado historiador inglês, Hobsbawm, observou que este teria começado com cerca de uma década de antecedência: "o breve século 20" teria tido seu tardio início com a Grande Guerra de 1914 e terminado com os eventos do início dos anos 90.

Tais eventos parecem dar razão a Hobsbawm: a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha; o colapso da URSS e a fragmentação de sua vasta zona de influência em mais de duas dezenas de países; a emergência da China como potência regional e global, após mais de 12 anos de reformas e de integração com a economia mundial; o avanço do processo de integração europeu com o acordo de Maastricht (1991) e a decisão de lançamento do euro ainda nos anos 90; o início das reformas econômicas modernizadoras na Índia; a renegociação da dívida externa do setor público de quase duas dezenas de países "emergentes"; e a transformação dos EUA de país credor do resto do mundo para a posição de devedor, agravada a partir de 1991, quando passou a incorrer em déficits crescentes em seu balanço de pagamentos.

Em seu conjunto, esses fatores levaram a uma expressiva redução da aversão ao risco e à uma extraordinária ampliação das oportunidades de comércio e investimento, doméstico e internacional, em áreas que passavam a se integrar à economia global. Adicionalmente, avanços tecnológicos nas áreas de informática e telecomunicações propiciaram antes impensáveis reduções de custo e aumentos de produtividade. E permitiram que, ao longo dos últimos 20 anos, centenas de milhões de pessoas passassem a ter acesso, em tempo real, a informações sobre eventos correntes, e sobre padrões de consumo, níveis de renda e riqueza, estilos de vida em outros países, levando a uma revolução de expectativas de milhões de recém-integrados à economia global.

Do ponto de vista econômico-estrutural, portanto, Hobsbawm estava certo: parece ter ocorrido uma reacomodação de placas tectônicas na economia mundial por volta do início dos anos 90, gerando um período sem precedentes de expansão da economia global, do comércio internacional (volumes e preços) e dos fluxos internacionais de capitais privados. Um ciclo de expansão global que, como notou Ken Rogoff, foi "o mais intenso, o mais longo e o mais amplamente disseminado da história moderna" - e cujo auge, é ainda Rogoff quem nota, foi alcançado no quinquênio 2003-2007 (algo que o lulo-petismo faz questão de ignorar). Auge de exuberância que, sabe-se bem hoje, contribuiu em boa medida para a grande crise global de 2008-2009, cujas consequências ainda se estarão fazendo sentir por alguns anos à frente.

O combate ao pânico avassalador que tomou conta de mercados financeiros e de governos em fins de 2008, e a busca da retomada da atividade econômica nos países desenvolvidos, foi feito à custa de uma historicamente sem precedentes intervenção do poder público - Tesouros e bancos centrais -, em termos de políticas expansionistas, fiscais, parafiscais e monetárias. Circunstâncias excepcionais exigem respostas excepcionais. Como Keynes sabia, e como sabem hoje os governos dos países desenvolvidos, essas medidas devem ter caráter transitório, até que se restabeleça a indispensável confiança dos investidores e consumidores privados.

Mas essas extraordinárias respostas de governos - que estão permitindo uma gradual superação da crise - têm levado ao que parece ser uma nova leitura de Hobsbawm: o século 20 estaria terminando só agora, com esta crise - e com o novo "paradigma" que emerge da forma como a crise vem sendo enfrentada.

Na sua vertente mais "econômica", o suposto "novo paradigma" conduz a uma reafirmação do papel do Estado, não apenas na superação da crise por meio de medidas extraordinárias - e temporárias, de caráter "contracíclico" -, como também do papel renovado de um Estado que passa a ser o elemento essencial para assegurar, ao longo do tempo, o desenvolvimento econômico e social acelerado.

Na sua vertente mais "política", o novo paradigma procura apresentar a crise atual como o último prego no caixão do "ideário" que teriam representado, nos anos 80 do século passado, Ronald Reagan e Margaret Thatcher. A "derrota" de ambos - e seus seguidores, vistos como legião - só agora teria sido consumada com o enterro, definitivo, das ideias de "Estado mínimo", da "desestruturação do bem-estar social" e do "fundamentalismo de mercado" - e de seus seguidores no Brasil, que seriam, para os militantes do lulo-petismo, em princípio, quaisquer oposicionistas.

A vertente "econômica", sobre o papel ampliado do Estado e de suas empresas, pode e deve ser amplamente debatida, esperemos que com um mínimo de honestidade intelectual e respeito aos fatos e aos outros. A vertente "política" mencionada no parágrafo anterior, ao contrário, é simplesmente um caso de flagrante desonestidade e indigência intelectual, desrespeito aos fatos e aos outros, tentativa de fazer com que uma mentira, e sua rotulagem barata e demagógica, se mil vezes repetida, possa chegar a assumir foros de veracidade para desavisados e adeptos de estereótipos e maniqueístas palavras de ordem.

É, no entanto, exatamente por conta desse exacerbado clima de palanque que vozes sensatas precisam insistir - como no texto que abre este artigo - na importância crucial de lançar um olhar objetivo para 2011 e adiante - o pós-Lula -, com foco nos problemas que este governo (como, aliás, fazem todos os governos) deixará para seu sucessor. Qualquer que seja seu nome, este não se chamará Lula.

Feliz Natal e bom 2010.

Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso

Com 98,3% das urnas apuradas, eleição presidencial vai a 2º turno no Chile

Direitista Sebastián Piñera é favorito no próximo pleito, em janeiro.

Candidato da situação disse sentir um 'apoio sólido' para seguir em frente.


Giovana Sanchez do G1, em Santiago

Um novo relatório oficial lido pelo subsecretário do Interior chileno, Patricio Rosende, à meia-noite desta segunda-feira (14), horário de Brasília, definiu que, com 98,3% das urnas apuradas, a eleição presidencial no Chile irá para segundo turno.

Vão concorrer o candidato da direita Sebastián Piñera, que está com 44%, e o oficialista Eduardo Frei, que obteve até agora 29,6%. O candidato independente Marco Enríquez-Ominami tem 20,1%. Eduardo Frei já foi presidente de 1994 a 2000, e Piñera é um empresário com uma fortuna avaliada em US$ 1 bilhão, segundo a revista Forbes.


As pesquisas já apontavam esse resultado, mas era esperada uma maior porcentagem de votos para a coalizão de esquerda Concertación, que governa o Chile há quase 20 anos, desde a queda do ex-ditador Augusto Pinochet.

Os candidatos agora oficiais ao segundo turno já se pronunciaram e disseram estar dispostos a conquistar o apoio que falta para vencer as eleições de janeiro.

A presidente Michelle Bachelet pediu aos candidatos que façam uma campanha que "privilegie o debate de ideias."

Analistas apontam a dificuldade da direita em conseguir o apoio necessário para sair vitoriosa na próxima etapa das eleições, já que se espera que os 20% de Marco-Enríquez vá para a esquerda - ele próprio deixou o Partido Socialista em junho deste ano para concorrer de maneira independente as eleições.

Questionado pelo G1 sobre a conquista de novos eleitores, o economista e membro da coalizão direitista Juan Andres Fontaine disse que "a mensagem de mudança está chegando aos cidadãos" e que os 6% que lhes faltam serão alcançados. "Marco Enríquez tem muitos pontos de seu programa em comum com o nosso."

A votação foi calma e sem registro de incidentes graves. O canal TVN relatou que um homem idoso teve um ataque cardíaco durante a votação, e outros incidentes menores foram relatados pelo país.

Chávez ataca ''ameaças'' de Hillary à região

AFP E Efe, Havana

Em discurso na cúpula da Alba, em Cuba, líder venezuelano qualifica alerta dos EUA a países que se aproximam do Irã de "ofensiva imperial"

Em discurso ontem na 8º Cúpula da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), em Havana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, qualificou de "ameaças" e "ofensiva imperial" os alertas de Washington a países latino-americanos que se aproximam do Irã. Na quinta-feira, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, havia afirmado que o "flerte" com Teerã era uma "má ideia" e teria "consequências".

"As declarações da senhora Clinton são uma ameaça sobretudo contra a Venezuela e a Bolívia.

Trata-se de sinais evidentes de uma ofensiva imperial que busca frear o avanço de forças progressistas", atacou Chávez.

Anfitrião do encontro, o presidente cubano, Raúl Castro, abriu a reunião denunciando a "ofensiva hegemônica" dos EUA na América Latina por meio da instalação de bases militares na região. Os dois chefes de Estado também criticaram os países que apoiaram as eleições do dia 29 em Honduras, realizadas pelo governo de facto.

Além dos líderes de Cuba e Venezuela, participam da cúpula os presidentes boliviano, Evo Morales e nicaraguense, Daniel Ortega. Representantes do Equador e do governo deposto de Honduras também estão presentes no encontro, que termina hoje.

Raúl citou a Colômbia como exemplo de país "subordinado aos interesses do império". "Um confronto de forças históricas se intensifica na América Latina. De um lado, há um modelo político e econômico herdeiro do colonialismo e neocolonialismo. Do lado oposto, há o avanço de forças políticas revolucionárias e progressistas."

Líderes bolivarianos discutirão hoje temas como a cúpula de Copenhague sobre o aquecimento global, o golpe contra o presidente Manuel Zelaya e acordos entre Washington e Bogotá.

"Devemos fortalecer a Alba de todos os pontos de vista", disse Raúl.

Paulinho da Viola - Talismã

domingo, 13 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Raimundo Santos

“O aproveitamento da noção gramsciana de revolução passiva no campo pecebista veio dar inteligibilidade à estratégia de reformismo progressivo do PCB, cuja importância foi posta em evidência durante os duros anos da resistência ao regime de 1964”.


(Raimundo Santos, Prof.da UFRRJ, na Mesa-redonda "Gramsci e a esquerda contemporânea". Lançamento do livro A importância da tradição pecebista (edit. FAP), no campus da Universidade Rural do Rio de Janeiro, 24/11/09).

Merval Pereira:: Obama no divã

DEU EM O GLOBO

O discurso do presidente dos Estados Unidos Barack Obama ao receber o Prêmio Nobel da Paz em Oslo remete a uma famosa troca de correspondência em 1932, entre o criador da psicanálise, Sigmund Freud, que não recebeu o Nobel, e ninguém menos que Albert Einstein, o Prêmio Nobel de Física de 1921: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?”, foi o tema proposto para os dois pela Liga das Nações, a precursora da ONU, sobre o qual já escrevi aqui na coluna

As angústias existenciais reveladas por Obama em seu discurso, quando se depara com o paradoxo de que “a crença de que a paz é desejável raramente é suficiente para atingi-la”; ou então quando afirma que “haverá momentos em que os países acharão o uso da força não apenas necessário, mas moralmente justificado”, são enfrentadas por Freud.

Diz ele a certa altura da correspondência: “Por paradoxal que possa parecer, devese admitir que a guerra poderia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz ‘perene’, pois está em condições de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras”.

Embora admita que “os resultados da conquista são geralmente de curta duração”, Freud constata que algumas guerras “contribuíram para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas quais um novo sistema de leis solucionou os conflitos”.

Ele cita as conquistas dos romanos, que deram aos países próximos ao Mediterrâneo “a inestimável pax romana, e a ambição dos reis franceses de ampliar os seus domínios criou uma França pacificamente unida e florescente”.

Para Freud, o ponto de partida é a relação entre o direito e o poder, que ele prefere chamar de violência.

“Atualmente, direito e poder se nos afiguram como antíteses.

No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra”, diz Freud, para fazer uma análise da evolução do uso da violência para resolver os conflitos no reino animal, “do qual o homem não tem motivos por que se excluir”.

Sua análise mostra que inicialmente houve “a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada pelo intelecto”.

Essa violência, segundo Freud, acabou sendo contraposta pela descoberta de que a união faz a força.

No entanto, “a justiça da comunidade passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes”.

Ao mesmo tempo em que detentores do poder querem estar acima das leis, os membros oprimidos fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos.

Quando Obama adverte em seu discurso que as pessoas não se enganem pois “a maldade existe”, retomando tese muito grata à política externa anterior de George W. Bush, que identificava a existência de paísesbandidos para justificar as guerras preventivas, tem na análise de Freud um suporte importante: “Nem todas as guerras são passíveis de condenação em igual medida, de vez que existem países e nações que estão preparados para a destruição impiedosa de outros, esses outros devem ser armados para a guerra”.

Na sua carta a Freud, Einstein arrisca uma análise psicológica sobre a razão de o homem aceitar ir para a guerra, a ponto de sacrificar a vida: “O homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição.

Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais”.

Depois de dizer que “de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens”, Freud passa a analisar “nosso instinto destrutivo”, que “está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada”.

Freud descreve para Einstein, então, sucintamente, a “teoria dos instintos”, que acabara de ser formulada. Os instintos humanos seriam de dois tipos: os eróticos, que tendem a preservar e unir, e os destrutivos, que tendem à destruição e a matar.

“Nenhum desses instintos é menos essencial que o outro”, ressalta Freud. “Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra”.

O “instinto de morte” teria sua contrapartida nos instintos eróticos, que representariam “o esforço de viver”.

Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes para Freud: “o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas consequentes vantagens e perigos”.

A guerra se constitui, nessa análise, “na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela”.

E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista?, pergunta Freud, que acredita que “pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das consequências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra”.

Tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra, escreveu Freud, dando respaldo à esperança deixada por Obama em seu discurso, a de “buscar um mundo como ele deve ser, com a fagulha do divino que ainda se move em cada uma de nossas almas”.

Dora Kramer:: Aviso aos navegantes

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma fala infeliz, mas absolutamente circunstancial, do presidente Luiz Inácio da Silva acabou propiciando ao PMDB a oportunidade que o partido esperava para marcar posição junto ao PT e lembrar que a hostilidade não é uma boa conselheira em casos de alianças partidárias para fins eleitorais.

Ao responder a um jornalista, no Maranhão, se preferia para vice de Dilma Rousseff o presidente da Câmara, Michel Temer, ou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, Lula escapuliu da saia-justa vestindo outra justíssima: disse que o melhor mesmo seria o PMDB apresentar ao PT uma lista tríplice de pretendentes.

Isso exatamente num momento de estresse alto no PMDB. Por causa da citação de nomes da direção do partido, Temer inclusive, em vídeos apreendidos pela Polícia Federal na operação que flagrou corrupção no governo do Distrito Federal, e pelos problemas surgidos na composição da parceria entre PT e PMDB nos Estados.

Foi interpretado como uma afronta ao presidente licenciado do partido, em princípio definido como o mais provável indicado à vaga de vice, e uma intromissão indevida na dinâmica interna do PMDB.

Ademais, o clima entre os pemedebistas é de aguda desconfiança em relação aos petistas. Acham que o PT se sente confiante demais porque a indefinição da candidatura do PSDB, em tese, deixaria o PMDB por ora sem alternativa.

Temem também que o partido esteja sendo usado apenas para fortalecer a candidatura de Dilma para, mais à frente, se ela se firmar ou até mesmo assumir a dianteira, ser deixado de lado.

A fala de Lula provocou irritação, mas não é, na visão de um dirigente do PMDB, o que diz ou deixa de dizer o presidente em suas nem sempre coerentes e consistentes declarações, o que vai definir o destino da aliança.

"A aliança mela ou prospera dependendo do encaminhamento das negociações nos Estados", diz um integrante do alto comando do PMDB que recebeu vários telefonemas de explicações sobre o que dissera o presidente, entendeu a circunstância, mas continuou achando que havia muito de "conversa mole" nas justificativas do PT.

De concreto, aponta esse dirigente, o que existe são mais problemas que soluções nos Estados. Em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, onde se discutia a possibilidade de coligação, tudo caminha para candidaturas próprias.

Para o PMDB, que não tem projeto nacional e vive da força regional, é crucial ter candidaturas estaduais fortes para "puxar" a eleição de senadores e deputados.

Ocorre que para o PT, sem Lula como candidato e correndo o risco de perder a Presidência da República, as eleições regionais também são essenciais.

Meio a contragosto, o PMDB até compreende. Mas reivindica, no mínimo, que existam regras claras para onde houver dois palanques: a isonomia de tratamento por parte da candidata a presidente é o ponto principal. Se fizer declaração em favor do candidato do PT também terá de fazer em relação ao nome do PMDB, o mesmo se aplicando às visitas aos Estados e participação no programa do horário gratuito de rádio e televisão.

Nada disso está sendo discutido e, por isso o PMDB aproveitou a oportunidade para "endurecer", dramatizando o efeito da declaração de Lula.

A mensagem subjacente à nota de repúdio "à intromissão" é resumida por um pemedebista na frase do velho ditado: "Em tempo de murici, cada um cuida de si."

"Não estamos falando de carinho nem de amizade, estamos tratando de política e, se for para exacerbar no pragmatismo, o governador José Serra está bem à frente nas pesquisas."

Uma ameaça?

Não, um lembrete de que quem não tem alternativa é o PT, pois a candidatura está definida. Ao PMDB resta a opção do PSDB.

Como uma ala do partido já está comprometida com a oposição, a cúpula quer deixar bem claro que, se não for bem atendida, não terá condições de convencer os delegados do PMDB a aprovar a oficialização da aliança com o PT.

Sinuca ao Sul

O PSDB nacional quer se aliar no Rio Grande do Sul ao PMDB, com José Fogaça candidato, que não quer nem ouvir falar em ser apoiado pela governadora tucana Yeda Crusius, que afirma à direção de seu partido que sua situação "está melhorando" e, por isso, tende a concorrer à reeleição.

O que deixará ao candidato a presidente no seguinte dilema: como subir no palanque da correligionária politicamente fragilizada por denúncias de corrupção no governo e deixar de lado a companhia do bem avaliado prefeito Fogaça?

Ofensiva no Rio

O tucanato não desistiu de Fernando Gabeira como candidato a governador no Rio. São Paulo está acertado, de Minas cuida Aécio Neves, mas no terceiro colégio eleitoral do País o PSDB está ainda sem palanque e não vê saída a não ser Gabeira. Convencê-lo será tarefa de José Serra.

Eliane Cantanhêde: Chuva, lama e rejeição

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - As chuvas castigam todo o país, mas seus efeitos têm sido particularmente cruéis em redutos tucanos, como São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, enquanto a lama escorre do governo do parceiro DEM no Distrito Federal. Chuva e lama na oposição.

Mas, para o governo, a coisa também não foi boa na semana passada. O PIB de 1,3% no 3º trimestre atordoou a área econômica, deixou no ar o temor de resultado negativo no ano e mostrou que a recuperação não é essa maravilha toda alardeada. Marolinha daria num Pibão em 2009. Pibinho dá marola em 2010.

E, se os tucanos se debatem entre Serra e Aécio, o próprio Lula colocou uma interrogação no nome de Temer para a vice de Dilma. Com Temer citado nas fitas dos panetones, e PT e PMDB se digladiando nos Estados, tende a crescer a candidatura própria de Requião. Não é para valer, mas serve como trava para o PMDB lulista.

O Ibope também provocou uma leve reversão de expectativa. O natural seria que Serra continuasse perdendo um ponto daqui, outro dali -como acontece, a um ano da eleição, com quem tem índices altos, ainda não se declarou candidato e está fora dos principais holofotes.

Mas ocorreu o contrário, e ele oscilou para cima, com 38%.

No caso de Dilma, o mais natural é que, partindo de um patamar baixo, ela continuasse subindo quanto mais perto da eleição, mais conhecida, mais identificada com Lula. Mas ela oscilou favoravelmente apenas dois pontos, para 17%.

O que interessa nem é o número de hoje, é o potencial de amanhã. Serra, conhecido por 69%, tem a menor rejeição (29%). Dilma, agora já conhecida por 32%, tem a maior (41%).

Isso pode indicar que o eleitorado é receptivo a Serra e, quando vai sabendo quem é Dilma, menos tende a votar nela.

A oposição andava tensa, e o governo, tranquilo. Com 2010 bem aí à porta, os dois andam nervosos.

Alberto Dines :: Magma republicano

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Fenômeno vulcânico que ocorre a grande profundidade e produz uma massa mineral pastosa em estado de ebulição. Resfriada, se petrifica e assume as mais estranhas formas. Para sempre.

Quinta-feira foi dia de assistir a mais um espasmo das entranhas da terra e o resíduo que expeliu juntou-se irremediavelmente aos que, a partir de fevereiro deformam as instituições do Estado brasileiro. Um vulcão silencioso, pertinaz e pútrido desfigura com incrível persistência a frágil estrutura democrática que em 1985 substituiu o regime militar.

É uma aberração jurídica a decisão (na verdade, indecisão) do Supremo Tribunal Federal diante do recurso apresentado pelo jornal O Estado de S. Paulo contra a censura prévia imposta pelo Tribunal de Justiça de Brasília. Um maneirismo bacharelesco aprovado por 6 a 3 considerou descabido o recurso apresentado pelo jornal e desconsiderou o flagrante atentado à Constituição perpetrado há 133 dias consecutivos pelos censores togados da Capital em benefício do clã Sarney.

Com o pretexto de julgar apenas o cabimento do recurso, o ministro-relator Cezar Peluso (vice-presidente da Casa) acabou escancarando os seus preconceitos ao afirmar que a liberdade de expressão não é absoluta e que a mordaça imposta ao jornalão não configura uma censura judicial. Sem qualquer constrangimento e imaginando que o cidadão brasileiro não tem discernimento para perceber manhas e artimanhas forenses, o Meritíssimo mergulhou de cabeça no mérito da questão. E como já se esperava, foi coadjuvado pelo eminente presidente do STF, Gilmar Mendes, cujo desprezo pelo exercício do jornalismo tornou-se notório quando comparou jornalistas a chefes de cozinha.

Apenas três ministros (os bravos Celso de Melo, Carlos Ayres Brito e Carmen Lúcia) se revoltaram contra o arquivamento do recurso do Estadão enquanto permanece intacto e impune o atentado à Constituição e ao estado de direito democrático perpetrado pelo desembargador Dácio Vieira do Tribunal de Justiça brasiliense, amigo dileto dos Sarney. O ministro Marco Aurélio de Melo, geralmente independente, participou dos debates e não votou. Fica devendo à sociedade uma explicação convincente sobre a preocupante omissão.

Mais do que o Legislativo e o Executivo, o Judiciário é uma referência sobre o que é justo e injusto, certo e errado. Mesmo quando recorre ao rebuscado e bizarro linguajar processual, a suprema corte funciona como instituição balizadora, destinada a emitir sinais e paradigmas que, de alguma forma, alcançarão o cidadão.

A mensagem burocrática, imprecisa, eivada de suspeições e visivelmente irresponsável enunciada nesta quinta-feira pelo STF completa um quadro institucional desolador. O senador José Sarney, pivô da censura e beneficiário direto das mutretas jurídicas, está completamente desmoralizado e, não contente com o último lance da sua biografia política, arrasta para a lama as duas casas legislativas federais. O correligionário Michel Temer, presidente da Câmara, sempre beneficiado pelas sombras, finalmente apareceu sob a luz dos holofotes envolvido no turbilhão de favores do propinoduto de Brasília.

O colossal escândalo protagonizado pelo governador do DF, José Roberto Arruda, serviu para escancarar a precariedade do sistema partidário. O DEM, Democratas, a partir do nome e da sigla, é uma piada. Não é conservador, não é progressista, não é ambientalista, ruralista, católico ou evangélico: é apenas feudal. Ou medieval. Só difere dos demais porque é um microcosmo do pântano ideológico em cima do qual flutuam as três dezenas de partidos.

O quadro completa-se com um Executivo tão obcecado pelo marketing eleitoral que não consegue pensar no dia seguinte. Com o pé no acelerador, acerta e erra com um formidável entusiasmo esquecido das esquinas da vida. Esquecido, sobretudo, dos imprevistos estragos que a irrupção contínua de magma provoca na superfície.

» Alberto Dines é jornalista

Sérgio Augusto:: Às favas com a livre imprensa

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Uma corrente contra a liberdade de informação percorre quase toda a América Latina, do México à Argentina

Por seis votos a três, o Supremo Tribunal Federal ratificou, na quinta-feira, a mordaça imposta ao Estado pelo desembargador Dácio Vieira no fim de julho, e este jornal continuou proibido de publicar reportagens sobre a Operação Barrica, que investigou o empresário Fernando Sarney, filho mais velho do senador José Sarney. Como hoje faz 41 anos que o Ato Institucional nº 5 foi assinado, já tem gente desconfiada de que dezembro, e não novembro (quando se decretou o Estado Novo, em 1937), talvez seja "o mais cruel dos meses" para a Justiça brasileira.

Ao pôr seu jamegão no AI-5, o então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, cunhou este imortal desabafo: "Às favas com os escrúpulos de consciência"- e a ditadura militar atarraxou as cravelhas. Nada do mesmo teor foi dito durante ou após o julgamento de quinta-feira, mas uma frase do decano do STF, Celso de Mello, um dos três magistrados que não engoliram os argumentos de "inviolabilidade da honra e da intimidade" invocados pelo desembargador, não me sai da cabeça: "O poder geral de cautela é o novo nome da censura em nosso país".

Se bem entendi, o ministro quis dizer que o direito pleno à liberdade de expressão, consagrado pelo Supremo com a derrubada da Lei de Imprensa em abril, foi mandado às favas por seis dos seus colegas porque estes entenderam que a defesa acauteladora da honra e da intimidade, ainda que de réus com o lastro de indiciamentos de Fernando Sarney, vale mais que o seu, o nosso direito de ser plenamente informado sobre um caso que envolve os crimes de formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Resumo da ópera: a liberdade de imprensa, ao contrário da honra e da intimidade, não é mais inviolável no Brasil. Haja vista as 16 decisões judiciais que, ao longo do último ano, amordaçaram periódicos de vários pontos do País.

A volta da censura, agora recauchutada com o adjunto "cautelar", não surgiu do nada, é fruto de "visões autoritárias" que ainda perduram no aparelho de Estado, na avaliação do ministro Ayres Britto, e segue a corrente anti-imprensa que percorre quase todo o continente, do México à Argentina, passando pela Venezuela (em apenas dez meses de governo, Hugo Chávez fechou 34 emissoras de rádio e estimulou 107 ataques a meios de comunicação e jornalistas, números dignos de uma ditadura militar) e pelas reiteradas críticas do presidente Lula ao ceticismo, ao "azedume" e à mania dos nossos jornalistas de fiscalizar, que audácia!, os três Poderes.

Perdi a conta de quantas vezes, em seus sete anos de governo, Lula gozou, desqualificou e deu maus conselhos aos profissionais da informação. A última foi na segunda-feira, durante a entrega de um prêmio conferido ao presidente por uma... revista. Um ato de indelicadeza, para dizer o mínimo.

Se o presidente se restringir, como deve se restringir, às agressões verbais, sairemos lucrando. Sorte nossa que, embora já tenha manifestado desejo de criar "algum mecanismo de controle externo da mídia", Lula ainda não foi contaminado pelo vírus do bolivarismo chavista, como Evo Morales e, de certo modo, Cristina Kirchner. Mas ele parece longe de compreender que a imprensa, como nos ensinou Millôr Fernandes, é oposição - "e o resto é armazém de secos & molhados".

Poucas vezes, em tempos de guerra ou paz, a liberdade de imprensa esteve tão ameaçada como agora. Em plena revolução digital, com os meios de comunicação cada vez mais sofisticados, abundantes, eficazes e pervasivos, uma conjura de forças políticas e econômicas, ideologias nacionalistas, fundamentalismos religiosos e criminalidade organizada se desdobra para evitar que a informação jornalística cumpra seu destino manifesto, que é buscar e transmitir sem restrições a verdade dos fatos. Com armas e métodos os mais variados, coagem, intimidam, censuram, prendem, agridem, torturam e até matam jornalistas.

É flagelo universal, mais frequente em regimes totalitários ou autoritários, como China, Irã, Eritreia, Cuba, Venezuela, e em democracias fragilmente consolidadas, como Rússia, México, Colômbia.

Em 3 de novembro o jornalista José Antuna foi estrangulado em Durango (México) por haver denunciado ligações da polícia com o tráfico de drogas. Sobre seu cadáver, os esbirros puseram um cartaz, com um recado intimidatório para os colegas de Antuna: "Foi nisso que deu eu escrever o que não devia. Cuidem bem de seus textos". Três semanas depois, nas Filipinas, 24 jornalistas foram trucidados, com mais 30 pessoas, num sequestro envolvendo um poderoso clã familiar de Mindanao.

Pela última contagem da ONG internacional Repórteres Sem Fronteira, chega a 178 o número de jornalistas presos injustamente no mundo inteiro; presos por terem escrito "o que não deviam". A China divide com o Irã a medalha de ouro da repressão à imprensa: 88 jornalistas encarcerados, 58 dos quais atuantes na blogosfera, entre eles o ativista de direitos humanos Hu Hia, cumprindo pena de três anos e meio por "incitar à subversão" em seus artigos online. Cuba vem logo atrás, com 24 jornalistas condenados a penas entre 14 e 22 anos. Seguem-se Mianmar, Turcomenistão, Coreia do Norte e Eritreia. Não é inexpressiva, nesse ranking, a posição do Marrocos (redações fechadas, jornalistas presos e obrigados a pagar multas extorsivas), da Argélia e da Tunísia.

No ranking exclusivo da repressão à internet, a campeã é a Arábia Saudita, seguida dos habituais suspeitos (Mianmar, China, Coreia do Norte, Cuba, Irã, Tunísia, Turcomenistão), reforçados pelo Egito, Usbequistão, Síria e Vietnã. Todos eles transformaram a rede numa vigiada intranet, inventando assim a blogosfera de segurança máxima.

Mercado investe em Meirelles como opção para ser vice de Dilma

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Prêmios e elogios internacionais tentam elevar cotação do presidente do BC, ainda um emergente na bolsa do PMDB

Ataque especulativo inclui ações da própria candidata, Dilma Rousseff, que, em conversas com banqueiros, admite chance de parceria

Marcio Aith
Da Reportagem Local

Se o investidor internacional votasse no Brasil ou tivesse influência nas complexas engrenagens do PMDB, partido ao qual se filiou, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, poderia ser suavemente indicado a vice na chapa presidencial encabeçada pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).

Num prazo de apenas duas semanas, Meirelles recebeu sinais eloquentes de prestígio do que se convencionou chamar de comunidade financeira global -um grupo formado por bancos, fundos de investimento e organismos multilaterais.

No último dia 2, técnicos do FMI (Fundo Monetário Internacional) definiram publicamente como "exemplar" o papel do brasileiro no combate à crise financeira mundial.

Informa o copioso estudo da organização que se notabilizou por admoestar gerações de tecnocratas brasileiras desde a década de 80: "A aparente eficácia das medidas adotadas pelo BC do Brasil para garantir a liquidez em dólares sugere que elas podem se tornar instrumento padrão de bancos centrais".

Sete dias depois, o BIS, banco central dos bancos centrais, aceitou o Brasil como membro de um seleto grupo de países responsável por identificar fontes potenciais de estresse nos mercados financeiros.

De menino levado, o Brasil foi promovido a monitor do BIS. Motivo: a firme supervisão bancária brasileira, nas mãos de Meirelles e sua equipe.

Às duas distinções somam-se outros prêmios, convites e jantares com os quais bancos e investidores tentam demonstrar apreço ao ex-presidente do BankBoston no momento em que o presidente do BC tenta migrar da economia para a política após ter-se transformado num dos integrantes mais longevos do governo Lula.

No evento mais exclusivo ao qual compareceu, em setembro passado, no Reform Club, clube inglês fundado no século 19, Meirelles foi até instado por um dos anfitriões a candidatar-se não a vice de Dilma, mas à Presidência da República.

Com a onda de elogios e a recente menção de caciques do PMDB em escândalos, o nome Meirelles, cristão-novo no partido, volta a ser mencionado como alternativa para compor, com Dilma, a chapa PT-PMDB à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por isso, a declaração do presidente sugerindo que o partido entregasse a Dilma uma lista tríplice de possíveis vices foi lida por alguns como uma tentativa de inflar o nome do titular do Banco Central, o que causou uma imediata reação da cúpula do PMDB.

A própria ministra tem aventado cada vez mais essa possibilidade em encontros com o setor privado. Ao explicar como seria sua política econômica, caso seja eleita, Dilma travou, em uma dessas reuniões, o seguinte diálogo com Pedro Moreira Salles, do Itaú Unibanco:

"Qual seria sua equipe econômica?", questionou o banqueiro. "Seria essa que está aí.

Dizem até que o Meirelles pode ser meu vice", respondeu ela.

Surpreso, Moreira Salles insistiu: "E pode, ministra?" E ela: "Pode, uai. E por que não?"

Sem lastro

O problema para viabilizar a opção Meirelles é o enorme abismo que separa seu prestígio internacional de sua inexperiência no partido que escolheu para reentrar na política, em setembro passado -ele teve curta experiência no PSDB, em 2002, quando foi eleito deputado federal, para logo renunciar.

Meirelles tem dito que aceitou de Lula só duas recomendações quando informou sua disposição de se filiar ao PMDB: não concorrer ao governo de Goiás e ficar no BC até março de 2010, prazo para a desincompatibilização das autoridades que vão disputar eleições.

Quanto à possibilidade de buscar a candidatura a vice de Dilma, Meirelles disse, numa entrevista em outubro, ser esta uma "oportunidade e destino, e não um ato de vontade".

Destino ou vontade, essa alternativa tem como principal obstáculo os "donos" do partido -além de Michel Temer, o líder da legenda na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), e os deputados Eduardo Cunha (RJ) e Tadeu Filippelli (DF).

Até a semana passada, todos diziam que o PMDB "nunca" vai indicar Meirelles a vice.

CHARGE - O ex...

Jornal do Commercio (PE)

Clóvis Rossi :: O verdadeiro "o cara"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Se não estiver em surto de megalomania, o presidente Lula deveria devolver a seu colega Barack Obama aquela brincadeira sobre ser "o cara". Para quem já esqueceu, Obama cumprimentou Lula, durante o G20 de abril, em Londres, apontando-o como o mais popular do mundo.

Não é que, agora, a pesquisa Latinobarómetro mostra que "o cara", o presidente mais popular, pelo menos na América Latina, é Obama, e não Lula? Obama levou nota 7, contra 6,4 do brasileiro.

Para um subcontinente que cansou-se de gritar "yankees, go home", não deixa de ser revelador que os que continuam com tais gritos sejam os últimos da fila, a saber: Daniel Ortega (Nicarágua), com 4,3; Fidel Castro (Cuba), 4; e Hugo Chávez (Venezuela), 3,9.

Parece decorrência natural do fato de que 59% dos consultados acham que a democracia é o melhor dos regimes. O teor de democracia em Cuba é zero, enquanto nos dois outros países do fim da fila ele é bastante turvo.

Parece também que o público não comprou todo o alarido contra a mídia feito por diferentes governos da região e pela própria mídia chapa-branca: rádio, TV e jornais são mais confiáveis do que todas as instituições da política. Perdemos apenas para a igreja, mas ganhamos dos governos, dos governos locais, da administração pública, dos Congressos, dos partidos políticos (aliás, os que menos confiança despertam no público).

*****
Por falar em megalomania, se Guido Mantega diz que o PIB brasileiro é um "pibão", como devemos tratar o PIB chinês?

Afinal, o PIB do Brasil encolhe ou anda de lado neste ano, ao passo que o da China crescerá 8,5%, pouco mais ou pouco menos.

Aliás, ao contrário da propaganda oficial brasileira, que diz que fomos os primeiros a sair da recessão, a China nem entrou nela.

Graziela Melo :: Dias pardos (poema)

Pardos
Os dias
Se vão

Ao longo
Do meu
Viver

O entra
E sai
Da agonia

Olhando
A casa
Vazia

Desde
A noite
Ao sol
Nascer

Os sons
Longínquos
Da alma

Exíguos
E já
Rarefeitos

Se assemelham
Aos tristes
Sinos

Que badalam
Na solidão

Quando o sol
Já vai
Fugindo

E o céu
Se avermelha
Antes da
Escuridão

Rio de Janeiro, 12/12/2009

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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Conferência prega a volta dos cabides de emprego

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que começa amanhã em Brasília, juntará propostas polêmicas, como controle social sobre a mídia e recriação de estatais como a Embrafilme. O Ministério das Comunicações também quer a volta das delegacias regionais, que, segundo a pasta, facilitariam a fiscalização do setor de radiodifusão. Extintas em 2002, as delegacias distribuíam empregos em prol do apadrinhamento político.

Conferência de comunicação quer recriar cabides estatais de emprego

A volta das delegacias regionais do Ministério das Comunicações aumenta a distribuição de cargos entre políticos

João Domingos

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que começa amanhã, em Brasília, vai juntar, numa mesma assembleia, propostas polêmicas - controle social sobre a mídia, recriação de estatais extintas há quase 20 anos, como a Embrafilme - e reivindicações puramente corporativistas, como a tentativa de recriar velhos cabides de emprego.

Uma das propostas do Ministério das Comunicações, que é um dos patrocinadores da Confecom, pede de volta as delegacias regionais da pasta, extintas em 2002. O ministério alegou, em uma de suas teses apresentadas à conferência, que o retorno das delegacias facilitará a fiscalização das empresas de radiodifusão - caracterizadas por dar emprego a apadrinhados políticos de quem ocupa o poder em Brasília ou nos Estados. Hoje a incumbência legal da fiscalização é da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e não do ministério.

Já o Ministério da Saúde propõe que, num eventual marco regulatório para o setor de comunicação, se estabeleça que as redes de TV e de rádio sejam obrigadas a baixar o preço de seus espaços publicitários durante as crises de saúde pública. "Durante emergências, o governo é muito onerado", queixou-se a pasta da Saúde ao expor uma de suas teses à Confecom. Hoje o ministro de Estado já pode convocar rede nacional, sem ônus, para falar das políticas de sua pasta, seja sobre epidemias e pandemias, seja sobre programas culturais ou até de pesca.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participará da cerimônia de abertura da 1ª Confecom, convocada por ele em abril. A conferência custará cerca de R$ 8 milhões à União. De amanhã a quinta-feira, 1.539 delegados vão debater propostas para uma política nacional de comunicação - todos ficarão hospedados na rede hoteleira da capital, sempre custeados pelo poder público. A representatividade da conferência, no entanto, ficou comprometida, porque seis das oito entidades empresariais abandonaram a Confecom em agosto.

Para o vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder, um dos organizadores da Confecom, a saída das entidades empresariais foi uma tentativa de sabotagem ao evento. "Mas eles não tiveram êxito. A Confecom vai acontecer, apesar da saída deles." Schröder disse que de nenhuma forma a conferência vai propor uma espécie de controle que censure os meios de comunicação, temor dos setores empresariais.

"Isso não ocorrerá. Temos é de encontrar formas de fazer com que o brasileiro leia mais. Por um erro de política governamental, no passado o Brasil foi privilegiado no setor de audiovisual. É uma vergonha ser um dos países que menos leem no mundo; é vergonhoso um jornal nacional, como o Estado, rodar apenas 300 mil exemplares. É preciso ler mais.

Temos de sair da barbárie", pregou ele.

Há cerca de um mês o setor de ONGs aprovou suas propostas. A principal é a criação de um Conselho Nacional de Comunicação, a ser composto por usuários (50%), trabalhadores do setor (25%) e empresas (25%), destinado a regulamentar e aprovar concessões para os diversos serviços na área de comunicações. As ONGs propõem ainda a criação de um comitê, subordinado ao conselho, para analisar os processos de outorga - um dos objetivos da conferência é pressionar a favor das rádios e TVs comunitárias. Elas querem descriminalizar as emissoras piratas e propõem inundar o País com canais de TVs públicos. Pela tese, para cada concessão de TV privada, devem ser criadas quatro TVs públicas.

Seis entidades abandonam evento

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em agosto, seis entidades que congregam os grupos de comunicação dos setores de rádio e TV, jornais, revistas e internet se retiraram da 1.ª Confecom. As empresas disseram que a conferência era um jogo marcado, pois os sindicalistas e as ONGs, aliados aos representantes do governo, pretendiam expor o setor a um massacre público. Para o grupo, a insistência dos outros setores de fazer um controle social da mídia, "seja lá o que isso queira dizer", era uma censura.
Ao comunicar sua saída, as empresas emitiram nota conjunta. Anunciaram ser defensoras dos preceitos constitucionais da livre iniciativa, da liberdade de expressão, do direito à informação e da legalidade. Afirmaram que até o princípio da livre iniciativa foi usado como um obstáculo pelas outras entidades para a confecção do estatuto da Confecom. Desse modo, decidiram sair para não atrapalhar a realização da conferência.

Deixaram a conferência: Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão (Abert), Associação Brasileira de Internet (Abranet), Associação Brasileira de TV por Assinatura, Associação dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil, Associação Nacional dos Editores de Revistas e Associação Nacional de Jornais (ANJ). Todas anunciaram que só vão se pronunciar sobre a conferência depois de seu término e de observarem os resultados.

Governo reforça investimento em veículos regionais

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Dos R$ 616 milhões de propaganda deste ano, R$ 100 milhões foram para essas mídias

O apelo por uma maior participação das mídias regionais e das TVs comunitárias no bolo da propaganda do governo, feito pela maioria das propostas apresentadas à 1ª Confecom, nem precisaria ser levado ao encontro. O governo já atende aos meios de comunicações regionais e passará a fazer publicidade nas TVs comunitárias.

Dos R$ 616.221.846 destinados às TVs, rádios, jornais, internet, revistas e outdoors, neste ano, cerca de R$ 100 milhões pagaram a publicidade em mídias regionais, informou Ottoni Fernandes Júnior, subchefe-executivo da Secretaria da Comunicação do Governo (Secom).

Desde o início do segundo mandato do presidente Lula, o governo mudou seu eixo de propaganda. Passou a valorizar os veículos regionais, sob o argumento de que pretende democratizar a distribuição das verbas de publicidade.

Segundo informações da Secom, com 1.015 novos veículos cadastrados de 2008 para cá - acréscimo de 20,78% em relação ao ano passado -, o governo consolidou seu cadastro de veículos de mídia, base de sua política de regionalização de investimentos em publicidade.

O cadastro envolve veículos sediados em municípios com até 20 mil habitantes. Em 2008, o governo anunciava em 2.597 rádios; agora, foram cadastradas 2.750. Também no ano passado 1.273 jornais tinham anúncios do governo. Outros 862 foram incorporados e já podem contar com os anúncios, desde que comprovem circulação periódica. Ao todo, o governo cadastrou 4.885 veículos.

Cadastrados, os veículos se tornam aptos a receber propaganda institucional e material distribuído pela Secretaria de Imprensa do governo, como fotos de Lula e dos ministros e o conteúdo do programa Bom Dia, Ministro, na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).

Há críticas quanto ao uso político das notícias enviadas. O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), afirma que é uma forma de o governo fazer propaganda de seus feitos, de sua candidata e de todas as realizações de Lula. "É a consolidação de um forte material de propaganda nos meios de comunicação das pequenas cidades."

Para Ottoni, não é nada disso. "Não dá para negar que o governo está fazendo justiça ao distribuir a verba da propaganda. Queriam que somente os veículos das grandes cidades continuassem recebendo as verbas, mas isso não é democrático", diz. "O governo não pergunta qual é a cor da emissora ou jornal, se são ligados ou não a algum partido. Quer saber é se tem audiência ou circulação."

Luiz Gonzaga Belluzzo:: Etnografia e Política de Wall Street

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O Legislativo americano colaborou para desmontar os controles e enfraquecer as agências reguladoras

Antropóloga formada em Princeton, Karen Ho publicou um livro digno de figurar nas estantes dos leitores mais exigentes: "Liquidated, An Ethnography of Wall Street" (Duke University Press, 2009). Ela apresenta, em linguagem clara e acessível, os resultados de uma pesquisa realizada na tribo dos senhores da finança global. Nos bastidores dos "abstratos" e fracassados modelos de risco e de precificação de ativos movimentava-se a soberba de indivíduos de carne e osso, convencidos de sua supremacia social, intelectual e moral. O protagonista central da epopeia malograda é o "investment banker".

Não se trata do banqueiro tradicional, mas do executivo ou alto funcionário do banco de investimento, recrutado nas universidades da Yvy League, sobretudo em Princeton e em Harvard. Essa é figura nuclear do surto de criatividade agressiva que levou o planeta à catástrofe financeira. Movidos a bônus de grosso calibre, submetidos a um ritmo de trabalho alucinante e a uma concorrência darwinista (ameaçados de perder o emprego), esses personagens construíram um consenso cego e desprovido de autocrítica a respeito de suas virtudes e qualidades.

Os sabichões formados em Princeton e em Harvard usaram e abusaram do que Karen Ho chama os modelos sofisticados de "inovações de curto prazo, sem nenhuma estratégia". Um modo gentil de designar a ganância engalanada de letras gregas. Essas "manobras de alto nível" não desprezavam escaramuças mais grosseiras, como recomendar aos clientes a aquisição de ações que formavam suas próprias carteiras ou "pegar a laço" devedores sem condições de servir as dívidas contraídas.

Mas nada teria funcionado sem a colaboração dos republicanos Reagan e Bushs 1 e 2, mais o democrata Clinton. Com o auxílio deles, o lobby de Wall Street voltou a dominar os plenários do Congresso e os escritórios do Executivo. O Legislativo dos EUA colaborou decisivamente para desmontar os controles e enfraquecer a capacidade de supervisão e de controle das agências reguladoras.

A lei Sarbannes-Oxley foi aprovada a contragosto, depois da sucessão de escândalos corporativos, as peripécias da Enron, Worldcom e outras menos votadas. Considerada excessivamente rigorosa por Henry Paulson, o secretário do Tesouro dos EUA, a lei ficou na marca do pênalti até 2007. Dura ou não, ela foi impotente para conter a explosão do crédito que levou à exasperação as práticas "criativas" e frequentemente fraudulentas dos mercados. Os criativos inventaram "novidades", manipularam preços de ativos, engambelaram clientes e devedores "sem lenço nem documento".

Terminava o artigo quando soube que a Câmara aprovou o projeto de regulamentação financeira. Há sinais de que os legisladores levaram em conta as provas contundentes da promiscuidade entre desregulamentação e as tropelias audaciosas e arriscadas. Ainda assim, barbas de molho: mesmo depois da salvadora intervenção do governo, a cultura de Wall Street não perdeu a pose. Voltou à soberba de sempre, disposta a usar quaisquer argumentos para desqualificar as críticas aos métodos usados no ciclo financeiro recente.

Luiz Gonzaga Belluzzo , 67, é professor titular de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).