sexta-feira, 30 de julho de 2021

Alon Feuerwerker - Me ajuda a te ajudar

Revista Veja

Novos acordos políticos não resolvem o problema da reeleição

Suponhamos, por exercício intelectual, um Brasil sem a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 no Senado. O cenário para o governo estaria razoável. Os números da vacinação avançam e são expressivos, e as curvas de casos e mortes vêm caindo faz algum tempo. E todas as projeções são de recuperação robusta do produto interno bruto este ano, compensando com alguma margem a retração do ano passado.

Mas há a outra face da realidade. Iluminar o lado escuro da lua mostrará que os casos e mortes pelo novo coronavírus ainda vão em patamares altos. E o sofrimento social nascido do desemprego e da pobreza não dá sinal de arrefecer. Apesar disso, todas as pesquisas demonstram que vetores positivos começam a superar os negativos na resultante de percepção popular.

Falando nela, a política, a avaliação do presidente da República anda algo estacionada. Verdade que o ótimo+bom das pesquisas deslizou para em torno de um quarto do eleitorado, mas o número retorna ao resiliente um terço se juntarmos o “regular positivo”. Um terço que, aliás, tem sido o patamar da aprovação de Jair Bolsonaro e também a intenção de voto nele no segundo turno. Ou seja, o presidente parece ter chegado a um certo piso.

Luiz Carlos Azedo - O fantasma ao redor

Correio Braziliense

Um golpe que anteceda as eleições é improvável. Exigiria um cenário de radicalização política extrema e grande conturbação social, o que não é o caso até agora

O fantasma que ronda a democracia brasileira não é o do comunismo, como na antológica abertura do Manifesto, escrito em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels. Com o fim da guerra fria e a morte de Luís Carlos Prestes, e dos líderes da luta armada contra o regime militar na década de 1970, como Carlos Marighella, essa narrativa se tornou completamente inverossímil, até por falta de protagonistas, sendo necessário encontrar outros pretextos: o do presidente Jair Bolsonaro é o de um fantasioso plano de fraude eleitoral, tão imaginário quanto fora o plano forjado, em 1937, pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, para legitimar o golpe do Estado Novo, de Getúlio Vargas. General, Mourão seria um dos líderes da deposição de João Goulart pelos militares, em 1964.

Ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso voltou a defender o sistema eleitoral brasileiro, que “nunca foi alvo de fraude”, e denunciou o caráter golpista da narrativa de Bolsonaro, ao participar da inauguração da nova sede do Tribunal Regional Eleitoral do Acre. “O discurso de que ‘se eu perder houve fraude’, é um discurso de quem não aceita a democracia”, disse. Barroso também fez referência à denúncia apresentada pelo ex-candidato a presidente do PSDB Aécio Neves (MG), derrotado por Dilma Rousseff (PT) em 2014: “O candidato derrotado pediu auditoria, e o próprio partido reconheceu que não houve fraude. Nunca se documentou fraude. No dia que se documentar, a Justiça Eleitoral vai apurar imediatamente. Ninguém tem paixão por urnas, mas sim por eleições livres e limpas”.

César Felício - Rendição ou ruptura

Valor Econômico

Ainda não está clara a vitória da política no governo Bolsonaro

Tutelar presidentes sempre é uma prática arriscada, em qualquer dimensão de tempo e de espaço. A nomeação do senador Ciro Nogueira para a pasta da Casa Civil foi recebida dentro do Congresso, particularmente pelos seus correligionários, como uma capitulação de Jair Bolsonaro à “realpolitik”.

A presença de Nogueira como o condestável do governo junto ao Legislativo significaria o fim de diversas coisas: do flerte de Bolsonaro e das Forças Armadas com o golpe, caso se torne evidente que o cenário eleitoral de 2022 é de derrota; da aposta na crise institucional permanente com o Judiciário, uma tônica de Bolsonaro desde que tomou posse; no uso da radicalização ideológica como instrumento para intimidar expoentes da sociedade civil a se manifestarem livremente contra o governo. Todos fatores que deixaram o Brasil no plano institucional e de ambiente político muito mais perto do modelo de El Salvador do que o do Uruguai, por exemplo.

Teria se passado uma régua. Nogueira na Casa Civil significaria o novo marco zero. “A nomeação de Ciro Nogueira faz cessar todas as conspirações”, diz, por exemplo, o veterano senador Esperidião Amin (PP-SC), que atua na política desde que Bolsonaro era cadete nas Agulhas Negras. Para o otimista Amin, Nogueira no ministério deixa no passado o rumor de sabres que alertou Brasília nos últimos dois meses, com a militância bolsonarista do ministro da Defesa, Braga Netto. “Isso agora é passado, nunca existiu. Ou tudo segue existindo, mas muito menor” conclui. “Se não estivesse agora no governo um navegador dos sete mares como é Ciro Nogueira, podia-se pensar na radicalização. Mas agora não vamos simplesmente para uma distensão. Vamos para uma pacificação”, aposta.

José de Souza Martins* - A espada e o voto impresso

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Os militares prestariam um enorme serviço à pátria se modernizassem sua profissão e sua formação

É um equívoco político supor que os militares, enquanto militares, são autoridade privilegiada na opinião sobre o voto, quanto a ser impresso ou eletrônico. Esse é um assunto essencialmente civil porque é político. E a política é de todos os cidadãos, também deles enquanto tais.

Eles têm tanto direito de dar palpites em assuntos políticos e eleitorais quanto eu, educador, tenho direito de dar palpites sobre assuntos militares.

Em especial quanto à necessidade de modernização da formação das novas gerações de oficiais para que se atualizem quanto à sociedade e ao país a que devem servir. Pois já não é este o país instrumentalizado pela geopolítica da dominação americana e da Guerra Fria nem o da polarização ideológica dela decorrente, o do regime de 1964.

As novas gerações têm concepção própria de liberdade, de democracia e de esperança. Seria bom para o país levar isso em conta. Em vez da discussão ultrapassada e arcaica sobre voto impresso ou voto eletrônico, os militares prestariam um enorme serviço à pátria se modernizassem sua profissão e sua formação. E o país inteiro lhes ficaria agradecido, como já ficou em outras ocasiões.

Cristovam Buarque* - O espírito do tempo e a educação

Correio Braziliense

Em janeiro do ano passado, a Unesco criou um grupo de 15 pessoas para elaborar proposta sobre o futuro da educação no mundo. A diferença desta nova proposta para outras duas, décadas atrás, é o espírito do tempo atual. Os relatórios anteriores foram elaborados em momentos de evolução, sem as rupturas que temos em marcha no século XXI. Nos debates do grupo, do qual participo, estamos percebendo a necessidade de captar as mudanças adiante, de acordo com o espírito do tempo, as curvas que a história está fazendo.

Uma mudança diz respeito aos novos recursos tecnológicos, graças à computação, à telecomunicação, aos grandes acervos de imagem e som, à inteligência artificial, às redes sociais digitais e a tudo que permite levar a realidade para dentro da sala de aula, e fazer o ensino-aprendizagem à distância, de forma remota entre professores e alunos. O espírito deste tempo permite e induz à passagem da “aula teatral” – professor e quadro negro na presença dos alunos – para a “aula cinematográfica” - professor usando todos os modernos recursos audiovisuais e computacionais para uma aula dinâmica, presencial ou não. A escola do futuro não será apenas um aperfeiçoamento da atual, será uma “nova escola”. Da mesma forma que, um século atrás, a arte dramática descobriu o potencial do cinema, levando o teatro ao mundo inteiro e com uma linguagem que rompia os limites do palco.

Flávia Oliveira - Uma sobe e puxa a outra

O Globo

Minha filha e meu neto dormem no quarto ao lado, enquanto eu choro por Rebeca Andrade. Lembro meus descendentes, porque, na primeira entrevista (ao colega Carlos Gil, da TV Globo) após a conquista inédita para a ginástica artística brasileira, prata no peito, a medalhista reverenciou as atletas que pavimentaram o caminho da modalidade no Brasil, a família, os amigos, a equipe, a psicóloga. E a mãe, dona Rosa Santos, empregada doméstica, que criou sozinha sete filhos como tantas matriarcas brasileiras: “Antes de sair da barriga da minha mãe eu era grata”. O agradecimento de uma jovem negra pela própria vida, antes mesmo de vir à luz, guarda o sentido da existência na diáspora. Não é trivial para uma negra parir um filho no Brasil, país forjado na escravidão e, ainda hoje, habituado a explorar, depreciar, criminalizar, encarcerar, exterminar corpos que, com racismo, com tudo, representam 56% da população, maioria sub-representada. Sou, por isso, devota do útero das mulheres negras, senhoras do ventre do mundo, como nos ensinou o Salgueiro em mais de um carnaval.

A medalha de prata de Rebeca Andrade coroa um processo histórico que vem também de Tóquio, na Olimpíada de 1964. Foi na capital japonesa que dona Aída dos Santos, também negra, sem apoio, sem uniforme oficial, com traje adaptado, conquistou o quarto lugar no salto com vara. Foi a única mulher numa delegação com 67 homens. Não bastasse, nos brindou com a filha Valeskinha (Valeska dos Santos Menezes), ouro no volêi em Pequim 2008. Cinquenta e sete anos se passaram até Rebeca Andrade se tornar a primeira brasileira a conquistar uma medalha olímpica na ginástica artística. Nunca escondeu a inspiração em Daiane dos Santos, igualmente negra, dona do primeiro ouro do Brasil num campeonato mundial, na Califórnia (EUA), em 2003. Desde aquele agosto, o planeta sabe que o duplo twist carpado tem nome e sobrenome.

Como a ascensão de Ciro Nogueira altera os rumos do governo Bolsonaro

Escolha do senador para 'primeiro-ministro' representa a maior inflexão até hoje em método, imagem e, principalmente, estratégia eleitoral

Por Daniel Pereira / Revista Veja

Ao tomar posse no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro montou o governo sobre três pilares: os radicais, os militares e os superministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Essa arquitetura era coerente com o que o ele prometeu na campanha de 2018, quando se apresentou como candidato da extrema direita, enalteceu as Forças Armadas e defendeu a agenda liberal na economia e o combate à corrupção. Apesar dos quase trinta anos de experiência no Congresso e de seus sete mandatos de deputado federal, o ex-capitão, mesmo após vestir a faixa presidencial, insistiu na estratégia de atacar a “velha política” e na promessa de não negociar com os partidos, especialmente com os líderes do Centrão, considerados por ele a essência do fisiologismo. Sectário, Bolsonaro apostou desde o início no confronto, na tensão e até na intimidação. Jamais na moderação e no diálogo. Deu no que deu. Acossado por uma CPI e mais de uma centena de pedidos de impeachment, em desvantagem nas pesquisas eleitorais e com sua administração reprovada por metade da população, o presidente se viu obrigado a redesenhar completamente o seu governo — em nome, claro, de manter o poder.

Com a minirreforma ministerial, Bolsonaro entregou a “alma do governo”, como ele mesmo definiu numa entrevista, ao Centrão, com a nomeação do senador Ciro Nogueira (PI) para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. O grupo político do parlamentar, antes demonizado pelo mandatário, transformou-se em solução e, de quebra, protagonista quase solitário da nova administração, já que dos três pilares iniciais do governo restou apenas o núcleo militar, mesmo assim desidratado. Os radicais ficaram pelo caminho, e a figura dos superministros deixou de existir até como mera peça de ficção (veja o quadro). A aproximação com o Centrão começou em meados do ano passado e sempre foi regida pela seguinte equação: quanto mais o presidente se enfraquecia, mais ele estreitava laços com a “velha política”. Em março, as partes noivaram, com a nomeação da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo. Agora, casaram de vez. Um casamento de conveniência, daqueles em que os noivos superam sérias diferenças do passado. Um dos principais auxiliares do presidente, o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, associou o Centrão a um grupo de ladrões. Já Ciro Nogueira chamou Bolsonaro de fascista. O dote político envolvido no enlace facilitou o perdão.

Em seu pior momento desde o início do mandato, Bolsonaro aposta no Centrão para aprovar projetos prioritários no Congresso, garantir alguma estabilidade política, afastar o fantasma da perda da Presidência e conseguir uma estrutura de ponta para disputar a reeleição. Já os partidos do Centrão, como o PP de Ciro Nogueira, o PL e o Republicanos, que cresceram nas eleições municipais pegando carona em programas do governo federal, acham que com a aliança podem aumentar suas bancadas na Câmara dos Deputados, que são a fonte de seu poder de negociação. Se o candidato à reeleição for derrotado, nada impede essas legendas de aderir ao presidente eleito. Ou seja: o grupo não tem nada a perder — e pode ganhar ainda mais até a eleição. O próprio Ciro Nogueira apoiou Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. “Diferentemente de Sarney, de FHC, de Lula e até do primeiro mandato de Dilma Rousseff, Bolsonaro não tem nem de longe uma base organizada e tão articulada quanto a dos governos anteriores. Faltavam articuladores. Agora, com o Ciro Nogueira, os profissionais estão entrando em campo”, diz o cientista político Paulo Kramer, que ajudou a formular o plano de governo de Bolsonaro em 2018.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guerra e paz

Revista Veja

Novo chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira é um hábil negociador e adepto da ponderação. Mas sua tarefa não será fácil em um governo em eterno confronto

Tido como um dos mais competentes chefes de governo da história, Winston Churchill (1874-1965) era também um grande frasista. Entre as várias pérolas de sabedoria política ditas em sua carreira, o ex-primeiro-ministro britânico dizia: “Na vitória, seja magnânimo”. Para ele, o vencedor de uma batalha, fosse política ou por territórios, não deveria tripudiar sobre o perdedor, mas demonstrar um sentimento de grandeza que não apenas desanuviaria o ambiente como seria o ponto de partida de uma nova composição. Infelizmente, o presidente Jair Bolsonaro não vem comungando do mesmo pensamento. Depois de dois anos e sete meses na Presidência, eleito com uma vitória robusta, o atual ocupante do Palácio do Planalto tem escolhido até aqui um estilo de gestão baseado em permanente estado de guerra, atirando em inimigos (reais ou imaginários) quase diariamente, criando instabilidades desnecessárias e, muitas vezes, ameaçando as instituições. Com esse comportamento, Bolsonaro pretende agradar ao núcleo duro de sua base radical, mas comprometeu de tal forma a governabilidade que várias camadas que apoiaram sua candidatura em 2018 hoje procuram alternativas.

Poesia | Fernando Pessoa - Mestre, meu mestre querido

 

Música | Gal Costa | O que é que há

 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Opinião do dia - STF

“O STF não proibiu o governo federal de agir na pandemia! Uma mentira contada mil vezes não vira verdade”. (Resposta do Supremo Tribunal Federal ao presidente Jair Bolsonaro que o acusa de tê-lo proibido de combater a pandemia das Covid-19)

Merval Pereira - Políticos x militares

O Globo

O presidente Bolsonaro é um capitão reformado do Exército depois de episódios de indisciplina graves, incluindo acusações de terrorismo para reivindicar melhores salários, mas hoje comanda as Forças Armadas. Em seguida, Bolsonaro elegeu-se deputado federal, cargo que ocupou por 28 anos seguidos em partidos periféricos e alguns do Centrão, grupo político que hoje controla seu governo como base parlamentar.

Era parte do baixo clero mesmo no Centrão e se contentava com migalhas do butim. É comandante em chefe das Forças Armadas com prestígio inverso à liderança que tem entre os políticos. O presidente Bolsonaro quer ser dono de um partido político para controlar os fundos partidário e eleitoral, por isso tem dificuldade de conseguir quem o receba.

Esse foi o problema com o PSL, o segundo maior partido da Câmara por causa da eleição de Bolsonaro, mas que, como todos os outros, já tinha um dono, o empresário pernambucano Luciano Bivar, e houve um desentendimento por causa do dinheiro. O controle da verba dos fundos partidário e eleitoral é a base dos líderes partidários, e esse é um dos problemas do sistema brasileiro.

Das 33 legendas que fazem parte de nossa constelação partidária, os que ganhariam menos com o fundo eleitoral proposto — PMN, DC, PCB, PCO, PMB, PRTB, PSTU e UP — teriam R$ 3,5 milhões cada um, além do fundo partidário. PT e PSL, os maiores partidos da Câmara, ganhariam cerca de R$ 600 milhões cada um. Criam-se partidos para controlar os fundos e ganhar dinheiro fácil. A maioria dos donos de partidos quer usar o dinheiro para seus interesses pessoais, além dos políticos.

Malu Gaspar - Leão sem dentes contra o fundo eleitoral

O Globo

Já virou padrão: toda vez que é pego em contradição com o que ele mesmo defendia em 2018, Jair Bolsonaro diz que não teve escolha. Do contrário, “viriam para cima” dele. Foi o argumento que o presidente da República tirou da cartola ao explicar a seus seguidores, no cercadinho do Alvorada, o recuo sobre o fundo eleitoral de 2022, aprovado pelo Congresso há duas semanas — que pode chegar a R$ 5,7 bilhões.

Depois de reagir indignado ao valor, que classificou como “enorme”, uma “casca de banana”, uma “jabuticaba”, Bolsonaro surgiu nesta segunda-feira no cercadinho bem mais manso e circunspecto. “Vou deixar claro (sic) uma coisa: vai ser vetado o excesso do que a lei garante, tá? É de quase 4 bilhões o fundo. O extra de 2 bilhões vai ser vetado. Se eu vetar o que está na lei, eu tô incurso na lei de responsabilidade.”

Todo mundo sabe que o presidente é pródigo em espalhar desinformação, mas essa aí constaria fácil numa coletânea de melhores momentos. Primeiro porque, hoje, não há nenhuma lei dizendo que o fundo eleitoral para 2022 tem de ser de R$ 4 bilhões.

Nos últimos dias, consultei especialistas em legislação eleitoral e deputados de vários partidos. Não encontrei ninguém que soubesse apontar de que lei o presidente Bolsonaro está falando. Portanto, se não há lei, evidentemente não há excesso de R$ 2 bilhões.

Míriam Leitão - As incertezas permanecem

O Globo

O PIB no segundo trimestre pode ter ficado estagnado ou ser até ligeiramente negativo. A economia cresceu mais do que o esperado no primeiro trimestre, mas não era a retomada, ou o início do crescimento sustentado. Era uma recuperação da queda do ano passado. A indústria foi muito afetada pela falta de peças e componentes, especialmente o setor automotivo. A agricultura enfrentou a mesma seca que reduziu o nível dos reservatórios das hidrelétricas, a inflação elevada em itens essenciais, como combustíveis e energia, tem tirado renda das famílias. O Banco Central iniciou um ciclo de alta dos juros em uma velocidade mais rápida do que o esperado. E o vírus continua rondando, agora com sua nova variante.

Nos bancos e consultorias, o cenário mais frequente é de que o PIB deste ano será mesmo de 5%, mas o de 2022 será em torno de 2%. Há muitos focos de incerteza. A recuperação existe, mas é desigual entre os setores e pode estar perdendo fôlego na margem, como dizem os economistas. No início do ano, a indústria surpreendeu, e os serviços decepcionaram. Quando saírem os dados do segundo tri, a indústria pode mostrar números no vermelho, e os serviços devem ficar no azul, pela reabertura da economia.

Luiz Carlos Azedo - Dualidade de políticas

Correio Braziliense

Goebbels dizia que uma mentira repetida mil vezes vira verdade, o que parece ser uma máxima da política de comunicação de Bolsonaro nas redes sociais

Um episódio emblemático demonstra que o governo Bolsonaro passará a ter duas políticas, que podem se antagonizar no decorrer do processo. No mesmo dia em que o novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), sentava na cadeira de ministro, a Secretaria de Comunicação da Presidência divulgou nas redes sociais uma mensagem comemorativa do Dia do Agricultor, com uma foto de um homem armado com um rifle, em vez das tradicionais imagens de agricultores exibindo as mãos calejadas, suas ferramentas de trabalho ou mesmo um trator. Diante da repercussão negativa, a nota foi substituída por uma tabela com indicadores de invasões de terra. Para bom entendedor, foi um recado subliminar de que a paz no campo seria obtida fazendo justiça pelas próprias mãos.

Sabe-se que Bolsonaro governa com um grupo de generais de sua confiança — Luiz Ramos, transferido para a Secretaria-Geral da Presidência; Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI); e o general Braga Netto, ministro da Defesa — e o clã formado com os filhos Flávio (senador), Eduardo (deputado federal) e Carlos (vereador), o verdadeiro responsável pela política de comunicação do governo e operador das redes sociais de Bolsonaro. Foi dele, provavelmente, a ideia de publicar a foto. Como em outros momentos do governo, toda vez que Bolsonaro se afasta da narrativa de sua campanha eleitoral, como agora, ao empoderar o Centrão no Palácio do Planalto, logo surge alguma coisa que sinaliza para a base bolsonarista que o presidente não abandonou seus compromissos de extrema-direita.

Ricardo Noblat - Ameaça de golpe militar envelheceu em menos de uma semana

Blog do Noblat / Metrópoles

Nesse meio tempo, o interlocutor do ministro Braga Netto, da Defesa, virou chefe da Casa Civil e desalojou dali o general Luiz Eduardo Ramos

E assim se passaram sete dias desde que se soube da ameaça de golpe militar feita pelo general Braga Netto, com o apoio dos comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica. Sutil para seus padrões, o presidente Jair Bolsonaro limitou-se a repetir que “o povo” reagirá se a eleição do próximo ano “não for democrática”.

Em reportagem publicada na última quinta-feira, dia 22, o jornal O Estado de S. Paulo contou que Braga Netto, por meio de um interlocutor, mandara um duro e surpreendente recado para Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados: sem a adoção do voto impresso não haverá eleições no ano que vem.

Braga Netto foi chefe da Casa Civil da Presidência da República e é o ministro da Defesa. Em nota oficial a propósito da reportagem, desmentiu que fosse homem capaz de usar interlocutor para mandar recado a quem quer que seja, reafirmou o compromisso dos militares com a Constituição, mas alertou:

“A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo Governo Federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema”.

Transcorridos sete dias, sabe-se que o general usou, sim, um interlocutor para mandar transmitir seu recado a Lira – o senador Ciro Nogueira (PP-PI), promovido por Bolsonaro a chefe da Casa Civil da Presidência da República; e que Lira advertiu Bolsonaro que não contasse com ele para enterrar a democracia.

William Waack - Bolsonaro terceira via

O Estado de S. Paulo

O Centrão tem a chave do cofre, do palácio e do destino de um candidato

A terceira via está aí: é Bolsonaro como candidato do Centrão. Os caciques dessa massa amorfa fisiológica, oportunista e que vive (desde sempre) mamando nas tetas do Estado jamais tiveram tanto poder. Possuíam a chave do cofre desde as emendas do relator. Agora obtiveram também a chave do palácio e um nome no qual parte importante dos caciques partidários confia para manter o atual continuísmo.

Bolsonaro vai continuar vociferando impropriedades, estupidezes e bravatas para manter seu núcleo duro de apoio (que diminuiu consideravelmente nos últimos dois anos). É da natureza dele e fútil esperar qualquer alteração – no máximo uma moderação de estilo dependendo do momento de maior ou menor desequilíbrio pessoal. Trata-se de um irrecuperável personagem político.

Para o Centrão não é Lula que surge como peso “contrário” a ser oferecido contra Bolsonaro. Mas, sim, um Bolsonaro domado, controlado e dedicado a atender as plateias do clientelismo por meio do qual sobrevive o Centrão (entendido como as forças políticas sempre próximas aos cofres e máquinas públicas). Em outras palavras, a alternativa entre o Bolsonaro que se conhece e o Lula que se conhece é o Bolsonaro do Centrão.

As principais agendas de Bolsonaro – se é que existiram de forma articulada – foram diluídas em pontos de interesse do Centrão. Uma das mais destacadas, a política econômica de Guedes, que os mercados já não ouvem (foi substituído pelo presidente do Banco Central), tem como eixo central hoje montar programas assistenciais e emergenciais que atendem ,obviamente, a necessidades humanitárias – mas de natureza claramente eleitoreira.

José Pastore* - O embate entre governo e o Sistema S

O Estado de S. Paulo

O governo quer o dinheiro, e não a expertise das entidades do Sistema S

Mais uma vez trava-se um embate entre o governo e o chamado Sistema S. O governo quer usar 30% dos recursos das suas entidades (R$ 6 bilhões anuais) para pagar bolsas de estudo para jovens a serem treinados em serviço, nas empresas. As entidades querem ajudar o governo, oferecendo o que elas vêm fazendo ao longo de 80 anos: transmitir conhecimentos e valores humanos. Mas o governo quer o dinheiro, e não a expertise. O que dizer?

O projeto do governo tem mérito. O domínio de uma profissão é essencial para o primeiro emprego. Mas treinar em serviço é tarefa complexa. A simples transferência de recursos não garante a transferência de habilidades. Além da boa vontade, os gestores precisam saber como ensinar e como avaliar os jovens – tarefas que as entidades do Sistema S conhecem de cor e salteado. Por isso, penso que a parceria mais produtiva seria a de atrelar aquelas entidades em treinamentos presenciais e online para os próprios jovens, e apoiar didaticamente os gestores, ajustando os treinamentos à realidade de cada momento, porque o alvo é móvel.

Eugênio Bucci* - Cuba dos meus afetos

O Estado de S. Paulo

Escritor condena o autoritarismo na ilha. Concordo. Chega de silêncio obsequioso

Por ter tido uma formação trotskista, ganhei um salvo-conduto no limiar da juventude: nunca precisei bater continência a Fidel Castro para provar que não compactuava com o imperialismo. Nós, militantes da IV Internacional, não aceitávamos que as escolhas políticas fossem binárias: isso ou aquilo, preto ou branco. No nosso código, era possível combinar dois combates: um contra exploração capitalista e outro contra a burocracia soviética. Denunciávamos a opressão do capital sobre os “famélicos da Terra” e nos opúnhamos à degeneração totalitária dos Estados operários. A luta contra o Tio Sam não nos obrigava a baixar a cabeça para o Kremlin, Mao Tsé-tung ou as ovelhas com suposta consciência de classe na Albânia.

Enquanto Jean-Paul Sartre olhava para a estampa de Che Guevara e se derretia, anunciando ter encontrado no guapo guerrilheiro o fenótipo do “ser humano mais completo do nosso tempo”, nós, os trotskistas, desconfiávamos. Enquanto os stalinistas faziam do culto à personalidade uma religião e da obediência o suprassumo da virtude, os trotskistas admiravam a capacidade de discordar e a disposição para carregar solitariamente, se necessário, o fardo das próprias convicções. Gostávamos da ideia de revolução, das multidões escorrendo pelas ruas e rompendo as comportas, mas não elogiávamos o enrijecimento do Estado, a transformação de um rebelde em comissário engravatado, a polícia dos costumes.

Ruy Castro - A história na mesa ao lado

Folha de S. Paulo

Está vendo aqueles três sujeitos? Estão vendendo 400 milhões de doses de vacina a Bolsonaro

Na madrugada de 25 de abril de 1974, a ditadura portuguesa, de matiz fascista, velha de 48 anos e sustentando uma guerra colonial perdida, roncava em seus palácios enquanto tropas do Exército, comandadas por um grupo de capitães e majores, entravam em Lisboa para derrubá-la. O cérebro da operação era o major Otelo Saraiva de Carvalho, 37 anos. Em 12 horas, como ele previra, o regime caiu —era a Revolução dos Cravos. Pela década seguinte, Otelo, são ou não, com ou contra seus camaradas, não se concedeu descanso. Sua morte, no dia 25, aos 84 anos, lhe trouxe a paz.

Carol Pires - Predadores da liberdade

Folha de S. Paulo

Ao chamar a imprensa de inimiga, Bolsonaro alimenta a hostilidade da militância

Jair Bolsonaro costuma atacar o que exige dele ética e transparência —medidas sanitárias, o regime democrático, mas principalmente a imprensa.

Nesta semana, ele entrou para a lista dos "predadores da liberdade", organizada pela Repórteres Sem Fronteiras, da qual fazem parte o venezuelano Nicolás Maduro, o cubano Miguel Díaz-Canel, o chinês Xi Jinping e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, suspeito de ordenar o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018.

Maria Hermínia Tavares - Manobra de intimidação

Folha de S. Paulo

As iniciativas do procurador-geral e do ministro contra Conrado Hübner são tentativas de intimidar opositores

No salão principal da Fundação Fernando Henrique Cardoso, uma parede inteira é ocupada por caricaturas e charges dos tempos em que o sociólogo foi presidente da República. Todas com críticas mordazes ao que tenha dito ou feito, algumas ultrapassando a linha do respeito devido —como convém a essa forma de jornalismo que, a bem da democracia, é sempre de oposição e, com frequência, desconhece limites.

Nunca o então titular do Planalto recorreu à Justiça para atar as mãos de um cartunista mais atrevido. Do mesmo modo, o seu sucessor, Lula, descartou conselhos para que expulsasse o correspondente Larry Rother, do New York Times, por ter escrito que o petista apreciava um trago.

Figuras públicas tem de lidar com o escrutínio diário e expressões virulentas de oposição verbal; se forem democratas e cientes de suas funções aceitarão as verrinas, por saber que engolir críticas, além de um ato de grandeza pessoal, é prova de apreço pela liberdade de expressão. Aquele é, no essencial, reconhecimento do direito à opinião da qual se discorda. Não é, definitivamente, o caso do procurador-geral da República, Augusto Aras, tampouco do ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques. Os dois se abespinharam com artigos do colunista desta Folha Conrado Hübner Mendes, professor de direito na USP.

Conrado Hübner Mendes* - Cadê a nossa liberdade?

Folha de S. Paulo

A sua está despencando; a de Bolsonaro nunca encontrou limites

Todo autocrata enche a boca para falar de liberdade. O autocrata brasileiro chama juiz de imbecil e pedófilo em nome da liberdade; ameaça fechar tribunal e encher boca de jornalista de porrada em nome da liberdade; aponta fraude sem provas nas eleições que venceu e impõe condições às próximas em nome da liberdade; sugere a você morrer asfixiado em nome da sua liberdade “post mortem”. “Ela não é dissociada do oxigênio que respiramos”, já disse.

Quando Bolsonaro perguntou esses dias “cadê nossa liberdade?”, ele se referia à liberdade de divulgar notícia falsa. Afinal, se o gabinete do ódio, que chama de “gabinete da liberdade”, sofre tímidas restrições de plataformas privadas para desinformar sobre a pandemia e manipular nossas emoções políticas, restava só ensaiar uma canetada contra as redes.

A liberdade econômica, princesa de Paulo Guedes, encontra seus limites no fígado de Bolsonaro e no bolso do centrão. E vice-versa. Serve para uma Havan, não para qualquer Facebook.

Apesar da insistência dos profetas da democracia “risco zero”, que tentam nos tranquilizar e recalibram seus detectores de “instituições funcionando” para que os gritos das ruas e os sussurros dos generais sejam ignorados, o Brasil lidera a terceira onda de autocratização no mundo. Assim concluiu o relatório “Autocratização se torna viral”, produzido pelo centro de pesquisa V-Dem (Varieties of Democracy).

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro como apêndice do PP

Valor Econômico

Progressistas só quer do presidente o que não tem: voto

A posse do senador do PP do Piauí, Ciro Nogueira, na Casa Civil marca um ponto de não retorno para o partido. Já não se aposta mais que o Progressistas abandone o barco do presidente Jair Bolsonaro. O que não significa que tenham, como destino, o mesmo porto.

O plano A do PP passou a ser a reeleição do presidente, a ser vendido como um “centrista” capaz de abocanhar a terceira via. Sob duas condições. Que o vice, ao contrário do atual, não sirva de seguro contra o impeachment e que Bolsonaro não vá para o PP, onde engoliria o fundo eleitoral.

A verba é fundamental para a meta onipresente do Progressistas em todos os planos do alfabeto: eleger uma bancada capaz não apenas de liderar a reeleição de Arthur Lira (AL) à presidência da Câmara como de tornar o partido incontornável. Para que o eleito em 2022, seja quem for, coma na sua mão.

Some-se ao fundo eleitoral o inchaço das emendas parlamentares operado por Lira e está montado o apoio transpartidário à sua recondução à Mesa da Câmara.

Para levar a cabo suas ambições, o PP elegeu três alvos. O primeiro deles são os militares, que o partido expôs à execração política na armadilha que resultou na carta desastrada do ministro da Defesa atestando a legitimidade do voto impresso. O movimento ainda se vale das auditorias do Tribunal de Contas da União, pródigo em encontrar uma infinidade de benesses e malfeitos da corporação armada, e da CPI, empenhada em pegar a tropa do general Eduardo Pazuello na Saúde.

Ao espalhar armadilhas para os militares, os parlamentares também buscam cumplicidade com o Supremo. Alvo permanente da zanga fardada, a Corte tem reagido ao avanço das emendas parlamentares sobre o Orçamento público.

Pacheco planeja acelerar aprovação

Presidente do Senado quer evitar que a CPI da Covid domine todas as atenções no próximo semestre

Por Vandson Lima / Valor Econômico

BRASÍLIA - Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) quer evitar que a CPI da Covid domine todas as atenções no próximo semestre e pretende acelerar a aprovação da parte da reforma tributária que cabe à Casa. Ele tem acompanhado as discussões da equipe econômica e do relator, Roberto Rocha (PSDB-MA) - ontem foi realizada mais uma - e é particularmente favorável a uma reforma mais ampla, em linha com o que defende o mercado e que abarque tanto impostos federais quanto estaduais e municipais.

A entrada recente do senador Ciro Nogueira (PP-PI) no comando da Casa Civil é vista como um fator que pode impulsionar a proposta. Isso porque a matéria está emperrada desde março de 2020, quando foi instalada uma comissão especial mista sobre o tema. Emplacar sua aprovação seria uma mostra inequívoca de força do novo articulador político do governo de Jair Bolsonaro.

“Confio na Justiça Eleitoral, confio no sistema”, diz Lira

Presidente da Câmara dos Deputados defende manutenção do calendário eleitoral

Por Raphael Di Cunto / Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou ontem que é completamente comprometido com a democracia no país e que o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, já desmentiu qualquer ameaça à realização das eleições em 2022 se não for aprovada a proposta de emenda constitucional (PEC) do voto impresso.

“[Eu] Não precisava ser claro [ao negar o caso nas redes sociais] porque o próprio ministro, em nota oficial, desmentiu o acontecido. Eu não participei da conversa”, disse Lira, em entrevista à GloboNews. “O ministro deixou claro que não fez e, naquele momento, a mim, de maneira muito coerente, não cabia tocar fogo num momento de recesso. Cabe, sim, tratar do que interessa: teremos sempre a eleição como forma de escolher nossos dirigentes no Brasil”, reforçou.

O jornal “O Estado de S. Paulo” publicou na semana passada que um presidente de partido levou a Lira, no começo de julho, uma ameaça feita pelo ministro da Defesa, ao lado dos comandantes das Forças Armadas, de que não ocorreriam eleições em 2022 se a PEC que exige a impressão de um comprovante do voto para futura auditagem não fosse aprovada pelo Congresso. Braga Netto negou em nota a ameaça e disse que não se comunica com presidentes dos Poderes através de intermediários, mas defendeu o debate “legítimo” sobre a PEC. Lira respondeu a matéria nas redes sociais e não negou que tenha ouvido a ameaça, mas defendeu que o julgamento dos eleitores sobre os políticos ocorrerá nas urnas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Partido do Governo

Folha de S. Paulo

Ex-Arena, PP chega ao coração do Planalto e se torna sigla mais forte do centrão

Na reorganização partidária dos estertores da ditadura militar, no início dos anos 1980, o Partido Democrático Social (PDS) herdou o grupo político que até então sustentava o regime na forma da Aliança Renovadora Nacional (Arena).

Com o fim do governo dos generais, em 1985, de sua costela mais dissidente saiu o PFL (Partido da Frente Liberal), que por fim desaguou no atual Democratas.

Já o ramo original passou por fusões envolvendo cinco agremiações e se tornou Partido Progressista Brasileiro (PPB). Sua estrela era o presidenciável derrotado dos militares em 1985, Paulo Maluf.

O partido, hoje Progressistas (abreviado como PP), apoiou todos os governos desde a redemocratização, com mais ou menos poder —o ápice até aqui havia sido sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Com a chegada de seu presidente, o senador Ciro Nogueira (PI), à Casa Civil, sela a união que já ocorria na prática desde 2020 sob Jair Bolsonaro na mais alta posição atingida em décadas de adesismo: o coração do governo.

Não só. A agremiação controla a Câmara, na figura do alagoano Arthur Lira, que exerce comando férreo e serve por ora como um elusivo seguro contra o impeachment. É um novo patamar de poder para o chamado centrão, que ganha um partido dominante entre os cerca de dez (não há conta exata) que compõem o bloco.

É certa novidade, dado que o caráter gelatinoso do grupo associado ao mesmo tempo à fisiologia e à governabilidade sempre privilegiou caciques, não siglas.

Ademais, a eventual filiação de Bolsonaro, sob fogo dos interessados em manter alianças regionais com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, garantiria ao Progressistas poder momentâneo enorme.

Poesia | Mario Quintana - Quem sabe um dia

 

Música | Alceu Valença - Como dois animais

 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Vera Magalhães - Guedes virou apêndice

O Globo

Pouco importa que Paulo Guedes encontre justificativas para qualquer disparate que saia da cabeça de Jair Bolsonaro. Ou que regateie quanto aceita perder de aparato de seu ministério não para gerar empregos no país, mas para empregar Onyx Lorenzoni.

Esses sinais externos de esvaziamento são apenas isso, sintomas. O cerne do momento vivido pelo ministro da Economia — não de hoje, mas há tempos — é que a sua política, aquela reformista, liberal, privatizante, vendida na campanha e até hoje enunciada em entrevistas cada vez mais desprovidas de capacidade de convencer mesmo os dispostos a acreditar, morreu na bacia das almas do pragmatismo político.

Bolsonaro nem tenta mais disfarçar: disse que a Casa Civil é o ministério mais importante do governo. E ele está sendo dado numa bandeja de prata ao partido que é o expoente mais poderoso do antes excomungado Centrão.

Para isso, Bolsonaro não hesitou em despachar o general Ramos e em arrancar mais um naco do poder e da imagem pública do seu antes “Posto Ipiranga”.

Guedes deve saber, em algum recôndito de sua consciência ainda não capturado pelo bolsonarismo que a tudo corrompe, que seu papel hoje no arranjo para manter o presidente vivo é acessório, quando não francamente indesejável.

Elio Gaspari - Brigar com vice é mau negócio

O Globo / Folha de S. Paulo

O Brasil não precisa de mais esse rolo

Em apenas dois meses, Bolsonaro ameaçou não realizar eleições, insultou senadores da CPI, disse que faltou maconha nos protestos contra seu governo e queixou-se da Receita Federal por ter ido “com muita sede ao pote” num projeto que não é dela, mas do ministro da Economia do seu governo. É compreensível que uma pessoa capaz de acreditar que a cloroquina remedeia a Covid-19 e que as vacinas são experimentais acredite em bizarrices. Ex-aluno da Academia Militar das Agulhas Negras, somou -4 com +5, obteve um +9 e viu no desempenho econômico do seu governo “um milagre”: “É inacreditável”.

Atitudes inacreditáveis, porém pontuais, são uma coisa, mas presidente atacando seu vice publicamente é coisa perigosa, que, além de tudo, traz falta de sorte. Bolsonaro disse que seu vice, Hamilton Mourão, “por vezes atrapalha”. Comparou-o a um cunhado: “Você casa e tem de aturar (...), não pode mandar o cunhado embora”. Ao contrário do que acontece com seus cunhados, quem escolheu Mourão para vice foi ele. Aturá-lo faz parte da ordem constitucional.

Bernardo Mello Franco - Liga dos párias

O Globo

Em entrevista ao CQC, o então deputado Jair Bolsonaro classificou Adolf Hitler como um “grande estrategista”. A gravação voltou a circular nesta segunda, depois que ele posou para fotos com uma representante da extrema direita alemã.

Beatrix von Storch é vice-líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido populista e xenófobo. Em março, a sigla passou a ser investigada sob suspeita de abrigar neonazistas e conspirar contra a democracia alemã.

A deputada é neta de Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças de Hitler. Ele foi preso pelas tropas aliadas e condenado por crimes de guerra no Tribunal de Nuremberg.

Parentesco não é destino, mas Von Storch parece compartilhar parte do ideário do avô. Ela se elegeu com falas contra imigrantes e já foi suspensa de uma rede social por incitar o ódio contra muçulmanos.

Líderes de países democráticos evitam se encontrar com a turma da AfD. Os extremistas só costumam ser recebidos por párias como o ditador sírio Bashar al-Assad e o autocrata bielorruso Alexander Lukashenko. Agora conseguiram montar seu palanque no Palácio do Planalto.

A família Bolsonaro sonhava integrar um movimento global de extrema direita. Com as derrotas do americano Donald Trump e do italiano Matteo Salvini, sobrou a companhia de figuras periféricas como o premiê húngaro Vikor Orbán e os aloprados da AfD.

Zeina Latif - Está uma farra danada

O Globo

A conquista da chefia da Casa Civil, coração do governo, é o caminho mais seguro para as ambições do Centrão

É amplamente reconhecido que a excessiva fragmentação partidária constrange a governabilidade do presidente, pois dificulta a conquista de apoio majoritário no Legislativo. Como aponta Carlos Pereira, a saída encontrada pelos constituintes para conciliar multipartidarismo e presidencialismo foi delegar mais poderes ao Executivo.

 Permitiu-se assim coalizões pós-eleitorais, ao que Sérgio Abranches denominou “presidencialismo de coalizão”. Trata-se de dividir recursos políticos com aliados, como cargos e recursos, em troca de apoio. Não é uma exclusividade brasileira, mas talvez aqui a dependência seja maior.

As reformas eleitorais dos últimos anos começam a surtir efeito, mas há um longo caminho adiante. As cláusulas de desempenho e a proibição de coligações eleitorais para cargos legislativos têm levado à redução do número de partidos. Em 2018, atingiu-se o pico de 30 partidos no Congresso; atualmente são 24 — cifra muito distante dos 12 em 1986.

Luiz Carlos Azedo - O pacto com o Centrão

Correio Braziliense

Bolsonaro não vai matar a fome de elefantes com alface. O PP é o antigo PDS, originário da Arena, partido do regime militar, mas o Centrão tem outras legendas

O presidente Jair Bolsonaro confirmou, na manhã de ontem, depois de duas horas e meia de conversa, a indicação do senador Ciro Nogueira (PI), presidente doPP, para o estratégico cargo de ministro-chefe da Casa Civil do Palácio do Planalto. Entre suas tarefas, estão a coordenação dos principais programas do governo, a participação nas decisões sobre remanejamento de verbas do Orçamento, a construção de alianças regionais e a articulação com o Congresso Nacional, na qual terá dois objetivos prioritárias: domar a CPI da Covid no Senado, em que os governistas estão em minoria, e articular a aprovação do voto impresso na Câmara. São duas missões quase impossíveis, a esta altura do campeonato.

O repertório de mudanças bem-sucedidas no Palácio do Planalto, em momentos de apuros, não é pequeno. Entretanto, também houve fracassos. Um deles ocorreu no governo Collor, quando o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, assumiu a recém-criada Secretaria de Governo. Collor tentara manter seu governo afastado do jogo político-partidário e, por meio de medidas provisórias, viabilizar seu programa. Entretanto, no início de 1992, o recrudescimento da inflação, o crescimento do desemprego e as denúncias envolvendo membros do governo levaram-no a buscar uma base parlamentar que lhe assegurasse apoio.

Havia duas hipóteses: ceder alguns postos ao PSDB, que fracassou; ou trazer para o governo o PDS (atual PP), o PTB e o PL, a solução adotada. Entretanto, Pedro Collor, irmão do presidente, denunciou a existência de vasto esquema de corrupção no interior do governo, que teria sido montado por Paulo César Farias, o PC, ex-tesoureiro de sua campanha presidencial. Em consequência, uma CPI no Congresso começou a investigar o governo. Na ocasião, Bornhausen afirmou: “As CPIs nunca deram em nada”. No final de agosto, porém, aconselhou Collor a renunciar ao mandato. O resto da história todos já sabem.