O Globo
Pode-se dizer que a corrida presidencial
começou para valer com a oficialização dos candidatos e suas chapas e com a
definição do quinhão de tempo de TV e rádio de cada um. Como sempre, os
discursos nas convenções, as escolhas de vices e a formação (ou não) de
coligações movimentaram o noticiário. Olhando bem, porém, à exceção das
tentativas de Argentina e Estados
Unidos de se enfronhar no processo eleitoral, que ainda podem
ter consequências, todo o resto cheira a mofo.
O tumulto na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), inaugurado com as revelações do caso “Dark Horse” e agravado pela briga pública com Michelle Bolsonaro, teve uma trégua com a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice. Os números da pesquisa Genial/Quaest divulgados ontem mostram que a relativa calmaria na campanha ajudou o candidato do PL a recuperar um pouco do terreno perdido para Lula.
Mas, se há uma certeza no mundo kardashiano
dos Bolsonaros, é que logo teremos novas tretas para movimentar as redes
sociais.
Lula, que concorre de novo com o mesmo vice,
declarou, no palco da convenção em que foi confirmado candidato, que agora vai.
No quarto mandato, ele vai ser “ousado”, “vai mudar coisa nesse país”, e “vai
ter briga com emenda parlamentar”.
Nem ele mesmo acredita no que diz, mas isso
não importa. De agora até o primeiro turno, jogará a bola para o lado e evitará
tomar gol, enquanto sua verdadeira estratégia de campanha vai sendo executada a
partir do Palácio do Planalto, com Desenrola 2.0,
Gás do Povo e o impulso do Move Brasil, entre outros programas destinados a
convencer o eleitor de que vale a pena mantê-lo no poder.
A ordem no comando da campanha é que Lula não
vá a debates ou sabatinas promovidas pelos veículos da imprensa profissional. A
prioridade na agenda é dos podcasts, em que ele costuma falar sem ser apertado
e pode passar recados sem interferências.
Flávio, por sua vez, já decidiu que só vai
aonde Lula for. Tudo isso favorece a manutenção do cenário de polarização
Lula/Flávio, com pouca diferença entre os dois nas intenções de voto — a menos,
é claro, que o imponderável venha a dar as caras.
A má notícia para ambos é que ele sempre
aparece, e nesta semana fez uma visita a Lula. Três inquéritos foram abertos no
Supremo Tribunal Federal para investigar suspeitas de tráfico de influência
envolvendo seu filho Zero Um, Fábio Luís Lula da Silva, mais conhecido como
Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete e coordenador
de campanha, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Companheiro
fiel de Lula desde antes da prisão, Marcola foi obrigado a admitir ter recebido
R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista do “Careca do INSS”
em Brasília (e,
pelo visto, no Palácio do Planalto).
Que Lulinha tenha se envolvido em novos rolos
depois de tudo o que já se documentou a respeito dele desde o caso Gamecorp,
não chega a ser surpresa para quem o conhece. Ainda assim, segundo o que se
ouve na campanha, o impacto de eventuais revelações sobre uma ligação entre ele
e o escândalo do INSS já estava “precificado”. Num dos podcasts a que
compareceu nos últimos dias, Lula recitou a frase já ensaiada:
“Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei
para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas. Se ele estiver
certo, ele vai ter ajuda minha. Se ele fizer coisa errada, ele sabe o que eu
passei”.
O que não estava precificado era o
envolvimento de Marcola no escândalo, e a saída dele da campanha não aplaca a
ansiedade no entorno de Lula. Quem conhece a fundo a história dos rolos de
Careca, Lulinha e Marcola no INSS aposta que vem mais coisa por aí. Até que
ponto esse caso pode machucar o desempenho de Lula na corrida eleitoral, ainda
é difícil dizer.
Ao mesmo tempo, ninguém que conheça bem a
dinâmica de uma eleição duvida que Flávio fatalmente será alvejado por novas
denúncias até o primeiro turno.
Numa disputa eleitoral tão apertada, cada
jogada conta pontos e, como a criatividade do roteirista do Brasil é infinita,
novos lances gerarão mais manchetes e podem, no limite, afetar o resultado
final do pleito.
Com tanto agito, pode parecer contraditório
dizer que a disputa deste ano cheira a mofo. Não é. O rumo que esta eleição tem
tomado é o mesmo das anteriores: uma sequência infindável de tretas, denúncias
e debates estéreis, em que os temas que realmente importam — do endividamento
da população à segurança pública, passando pelo problema fiscal e pelas deficiências
na educação — nunca são discutidos seriamente.
Entre tantas divergências, este é o único
ponto comum entre os candidatos que têm voto: os dois estão se empenhando para
atravessar a corrida sem submeter à população um projeto concreto de futuro.

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