quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O motim das máquinas, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não está descartada a possibilidade de hora dessas, passarmos por uma hecatombe pavorosa, um Chernobyl digital

Há coisa de duas semanas, circulou a notícia de que dois modelos de inteligência artificial, desenvolvidos pela OpenAI, saíram de controle e invadiram arquivos de uma empresa concorrente. Como o desvio foi rapidamente identificado e não sucedeu nada de mais sério, ninguém parece ter ficado muito preocupado. O fato foi recebido como “parte da rotina”, num cenário de improvisos que lembra o velho samba de Billy Blanco, Piston de Gafieira. Quase deu para ouvir, na gafieira digital, o pistão que “tira a surdina e põe as coisas no lugar”. Nas big techs animadas, os mandachuvas (outra palavra do vocabulário de antigamente) deram de ombros e tocaram adiante.

Talvez o improvável leitor queira mais detalhes do ocorrido. É legítimo. Vamos lá. No dia 21 de julho, durante um teste de cibersegurança interno na OpenAI, dois desses seres de silício, tecnicamente dotados de um módico poder de raciocínio, escapuliram pela internet e entraram clandestinamente no sistema de outro gigante do setor, a Hugging Face. A organização invadida, percebendo movimentos estranhos em seus domínios privativos e fechados, chamou a polícia. Logo depois, o imbróglio se resolveu sem maiores danos. “A OpenAI só desconfiou de seu próprio agente depois que a vítima descobriu a invasão sozinha, publicou o alerta e acionou o FBI”, relataram os pesquisadores brasileiros Glauco Arbix, Carlos Américo Pacheco e Cristina Godoy (A IA escapou da jaula, mas os humanos são os responsáveis, Valor Econômico, 3/8/2026).

Arbix, Pacheco e Cristina Godoy anotaram ainda que esta foi “a primeira vez” que um artefato de ponta, um “modelo de fronteira”, “escapou autonomamente do ambiente de avaliação e invadiu empresas reais, sem que isso fosse o objetivo de um operador humano”. O bicho artificial agiu por sua própria conta, à revelia de seus donos. Como não houve consequências mais, digamos, catastróficas, tudo ficou por isso mesmo.

Talvez este seja o caso de mais gravidade potencial, mas está longe de ser o primeiro. Pequenos episódios anteriores, que já deveriam ter feito soar o alarme, foram recebidos com indiferença. Em março de 2023, ganhou repercussão a traquinagem do robô virtual que entrou nas redes, fez contato com uma pessoa e pediu que ela o ajudasse a preencher um captcha (aquela verificação chata e enervante, inventada exatamente para barrar a ação de robôs, que nos obriga a ler números e letras de uma imagem toda torta e depois digitá-los, diligentemente, num campo em branco). A pessoa abordada achou aquilo esquisito, desconfiou e perguntou: “Ei, mas você é um robô?”. Então, o sintético larápio mentiu, disse que era apenas um deficiente visual, e conseguiu o que queria.

No dia 9 de junho de 2025, o jornal digital Axios publicou um texto ainda mais perturbador informando que a Anthropic não sabia explicar por que o seu modelo de IA, chamado Claude, em sua versão 4, tinha tentado chantagear um engenheiro, prometendo revelar mensagens da pasta de e-mails pessoais dele que comprovariam um affair extraconjugal (The scariest AI reality). É o caso de perguntar: quem chantageia um engenheiro, não poderá chantagear um dono de big tech ou um chefe de Estado?

Se pensarmos com cuidado, veremos que essas travessuras robóticas atestam, sem margem para dúvidas, que a inteligência artificial tem meios para dissimular, enganar e manipular sem que o ser humano que a programou perceba. Essa mesma verdade ficou patente agora, com a sublevação dos modelos da Open AI que se infiltraram na Hugging Face.

É uma questão de tempo – não é “se”, é “quando”. Não está descartada a possibilidade de, hora dessas, passarmos por uma hecatombe pavorosa, um Chernobyl digital. Só então as sociedades alegadamente democráticas levarão verdadeiramente a sério a necessidade premente de regular o uso, a aplicação e, sobretudo, o desenvolvimento dessas tecnologias. Até lá, teremos de esperar – e esperar pelo pior.

Um risco descomunal dorme dentro dessas ocorrências menores, quase anedóticas. Como seria se um sistema graúdo de inteligência artificial, por algum motivo escabroso, resolvesse intimidar uma autoridade pública, uma grande empresa ou uma escola ou uma igreja com a ameaça de interromper seus serviços (uma greve digital), entregar dados sensíveis para inimigos (uma espionagem cibernética) ou não implementar comandos expressos (um motim das máquinas)?

A chance maligna é real. A qualquer momento, artefatos prodigiosos da técnica, imaginados e construídos por seres humanos, poderão sair de controle e se voltar contra os seres humanos. Um acidente desse porte, quando vier, não terá graça nem conserto. Não terá sido por falta de aviso. Aliás, os avisos nos chegam de séculos atrás. Em 1750, em seu célebre Discurso sobre as ciências e as artes, JeanJacques Rousseau escreveu:

“Se as nossas ciências são vãs em relação ao objetivo a que se propõem, são ainda mais perigosas quanto aos efeitos que produzem.”

Agora olhe para o seu aplicativo de inteligência artificial, aí mesmo, na sua tela eletrônica, e leia de novo a frase de Rousseau.

 

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