quinta-feira, 24 de março de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto*: Oposição sem rumo numa conjuntura nova**

Neste março, sobressaltos voltam a bater à porta da oposição diante de sinais, trazidos por pesquisas mais recentes, de recuperação de expectativas favoráveis para a reeleição do Presidente da República.  Isso tem feito analistas suporem que estrategistas de Bolsonaro já decidiram que é o caminho das urnas o mais seguro para lograr a continuidade do atual governo e não os caminhos do golpismo e da arruaça. Estou entre aqueles que guardam distância de prognósticos desse tipo. Falta muito acontecer para que se possa dizer que as urnas passaram a ser o horizonte do continuísmo para o bolsonarismo e seu mito.

Disseminar otimismo faz parte de qualquer plano, inclusive de tentativas de deslegitimar as eleições. Mas até onde a vista alcança, mesmo com ajuda de bondades e maldades legislativas, uso eleitoral abusivo de agências de governo, golpes abaixo da cintura em adversários e um arsenal de transgressões e crimes - de fake news à violência política – que vençam a vigilância do Judiciário, não se vê cenário de reversão bastante da rejeição a Bolsonaro, cevada em três anos e meio e turbinada por agruras sociais do momento. Mas não apenas opositores lidam com essas evidências. Os russos também. O que farão?

O campo ideológico governista não deve ser subestimado no atributo de raciocinar. No palácio nem só o centrão raciocina, ainda que, com sua razão pragmática, governe mais que todos. Mas não cabem ilusões de que no duro núcleo do capitão se pratique uma razão do tipo razoável, que aceite a derrota sem apelar à subversão das regras do jogo ou, no limite, tentar acabar com ele. Sua razão calculista é cheia de razão. Sendo tosca, tem apetite destrutivo. A hipótese de ela ver as urnas como via principal tem feitio de plano B. O golpismo é a língua falada por uma força social que já tem vida fora do palácio. A eleição poderá virar seu plano A se houver milagre na economia ou suicídio da oposição. Sem isso, setores resilientes do palácio, sem perderem a noção da aritmética, calcularão a iminência da derrota, agirão de acordo com sua razão tosca e nenhum centrão os deterá. Chances de êxito da insensatez são bem duvidosas, mas supor que por saber disso o bolsonarismo recuará é ver ali uma razão razoável que lhe é estranha.  Se seu êxito não é provável, os estragos que pode causar à democracia o são.

William Waack: A recuperação de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Traz dificuldades para Lula, a terceira via e deixa o Centrão ainda mais confortável

Ainda que modesta, a recuperação de Jair Bolsonaro nas pesquisas encurtou o tempo e diminuiu as chances de alternativas ao atual presidente e a Lula, o favorito para ser o próximo. Ela matou também as chances de Lula vencer já no primeiro turno, o que submeterá o chefão petista a uma dificílima negociação antes do segundo – não para enfrentar Bolsonaro mas, sim, para tentar governar depois.

O “afunilamento” dos candidatos da terceira via está se dando pela percebida dificuldade de qualquer um deles em deslanchar, e não pela demonstração de muita força nas pesquisas. Até aqui esse afunilamento não levou a uma conjugação de esforços dos vários operadores políticos. Que permanecem dizendo haver tempo suficiente para consolidar uma alternativa à polarização.

Cristiano Romero: Por que petistas e tucanos não se uniram antes?

Valor Econômico

Se tivesse dependido apenas de Lula e FHC, aliança já teria ocorrido

A filiação do ex-governador Geraldo Alckmin ao PSB foi, sem dúvida, o fato político mais relevante da corrida presidencial até agora. O mais incrível foi ver Alckmin, ex-representante da ala conservadora do PSDB, derramar-se em elogios ao ex-presidente Lula (PT).

“É esta a grande causa do Brasil que nos une, que nos irmana, neste momento histórico. Temos que ter os olhos abertos para enxergar, a humildade para entender, que ele [Lula] é hoje o que melhor reflete e interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro”, discursou o ex-tucano, que saiu do PSDB para ser candidato a vice-presidente na chapa de Lula. “Não tenho dúvida de que o presidente Lula, se Deus quiser, eleito, vai reinserir o Brasil no cenário mundial, vai alargar o horizonte do desenvolvimento econômico e vai diminuir essa triste diferença social que nós temos no país.”

Nas redes sociais, além de o acontecimento de ontem ter sido um dos mais vistos e comentados, circularam chistes e piadas de todo tipo, “memes”, como se diz na internet. Apoiadores do petista e do novo “socialista” disseminaram imagens da novidade política. Num dos vídeos, avisa-se, em meio ao som de metralhadoras e antes de mostrar Alckmin discursando, que as cenas são “fortes”, recomenda-se a retirada de crianças da sala e observa-se de que não se trata de obra ficcional. No fim, uma pilhéria que se pretende epígrafe: “No Brasil, inverossímil é a vida e não a arte”.

Para além do gracejo, importa entender o movimento político. Olhando-a em perspectiva, a união Lula-Alckmin, embora não traduza perfeitamente o encontro há muito esperado entre o PT e o PSDB, significa, sim, a aproximação entre essas duas forças da social-democracia brasileira - ainda que o ex-governador de São Paulo seja menos identificado com essa doutrina do que, por exemplo, o senador José Serra (PSDB-SP), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador Mário Covas, falecido em 2001.

Maria Cristina Fernandes: O pacto paulista

Valor Econômico

Vitória em São Paulo, que daria sobrevida ao bolsonarismo em caso de derrota nacional, já seria suficiente para um compromisso de apoio mútuo entre Haddad e Garcia

A crença de que a eleição presidencial se define em São Paulo tem movido erros e acertos de campanhas. Não é diferente este ano.

A filiação de Geraldo Alckmin ao PSB para compor a chapa presidencial petista e a escolha de Tarcísio Freitas, o ministro menos contaminado do bolsonarismo, para a disputa estadual são acertos. A disputa presidencial de João Doria, o quinto governador paulista a se perder no mesmo caminho desde a redemocratização, é erro.

Dele emerge a ameaça de derrota que paira sobre o PSDB na disputa pela manutenção do governo que o partido comanda há quase 27 anos.

Fernando Henrique Cardoso, o único tucano a chegar ao Palácio do Planalto, o fez sem escala no Bandeirantes. O PT, das quatro eleições presidenciais que ganhou, só em uma (2002) venceu também em São Paulo. A despeito desse histórico, uma vitória em São Paulo é estratégica.

A primeira razão é aritmética. O Amapá triplicou sua fatia no eleitorado nacional nos últimos 30 anos e chegou a 0,3% do total. Já São Paulo se manteve estável (21,7%) mas na condição de maior colégio eleitoral. É preciso juntar os sete Estados do Norte e os três Sul para emparelhá-lo.

Bruno Boghossian: Os recados de Alckmin

Folha de S. Paulo

Ex-tucano mostra primeiras pistas de como vai tentar convencer eleitor a migrar para chapa petista

Geraldo Alckmin assinou a filiação ao PSB com um discurso voltado para fora das fileiras da esquerda. Depois de meses de poucas palavras, o ex-tucano ensaiou as primeiras justificativas de sua migração para o campo de Lula e deu uma pista de como vai tentar convencer alguns de seus antigos pares a fazer o mesmo.

A principal função eleitoral de Alckmin será expandir o alcance da candidatura petista, atraindo eleitores que circulavam em sua antiga vizinhança tucana. O esforço inicial envolve reduzir as resistências de um grupo que, por décadas, foi alimentado à base de antipetismo.

O ex-governador quer zerar esse jogo. Alckmin disse três vezes que o país atravessa um "momento excepcional", como se pedisse autorização para enfrentar uma situação crítica com medidas emergenciais.

Luiz Carlos Azedo: O tucano Eduardo Leite e sua “sombra do futuro”

Correio Braziliense 

A conspiração para remover João Doria da disputa presidencial no PSDB vai de vento em popa. Parte das fichas está no tabuleiro eleitoral de São Paulo

O tempo urge para o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que precisa se decidir entre permanecer no PSDB ou migrar para o PSD, a convite do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Em ambos os casos, para ser candidato a presidente da República, Leite precisaria se desincompatibilizar do cargo até 2 de abril.

Na primeira opção, essa seria a única decisão sobre seu controle, pois sua candidatura dependerá da desistência do governador paulista João Doria. Na segunda, teria legenda garantida para disputar a Presidência, mas isso não significaria o apoio efetivo dos deputados e senadores do PSD.

Vamos por partes. No PSDB, Doria garante que não pretende desistir para outro tucano — se isso vier a ocorrer, será em favor de outro candidato da chamada terceira via que esteja em melhores condições eleitorais, ou seja, Sergio Moro (Podemos) ou Simone Tebet (MDB). O governador paulista se prepara para deixar o cargo, faz entregas e badala suas realizações, como as três mil escolas em horário integral, que considera seu grande legado na Educação. Não pensa na hipótese de disputar a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, garante aos aliados.

Merval Pereira: Aparelhamento evangélico

O Globo

Há quem considere que a deterioração do nosso sistema eleitoral teve início quando os partidos políticos descobriram uma maneira certa de eleger mais candidatos sem precisar de tantos votos quanto o quociente eleitoral exige. Passaram a procurar primeiro artistas, radialistas e jornalistas televisivos, depois jogadores de futebol, e atualmente os candidatos evangélicos têm a predominância.

A Frente Parlamentar Evangélica tem hoje 115 deputados federais, 13 senadores e uma meta ambiciosa: chegar a 30% do Congresso, acrescentando 40 deputados e 11 senadores à sua bancada. É um projeto de poder político preocupante, que chegou a escalar o governo da cidade do Rio de Janeiro como passo importante. Mas essa primeira empreitada foi um fracasso fenomenal com a gestão do bispo Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal.

Malu Gaspar: Um governo por uma barra de ouro

O Globo

É difícil prever no que vai dar o escândalo que se abateu nos últimos dias sobre o Ministério da Educação. Mas é fácil perceber que, nesse caso, demitir Milton Ribeiro pode não ser suficiente para fazer o escândalo se distanciar do Palácio do Planalto. E não apenas porque Ribeiro diz, na reunião com prefeitos que teve o áudio exibido pela Folha de S.Paulo, que atender os pedidos de liberação de verba do pastor e lobista Gilmar Santos "foi um pedido especial" do presidente da República.

Os registros públicos das agendas de Bolsonaro mostram que, quando Milton Ribeiro assumiu o cargo, o pastor já tinha acesso livre ao Palácio do Planalto. Gilmar já havia sido recebido duas vezes antes de Ribeiro chegar ao ministério. E depois da terceira visita a Bolsonaro, deixou o Palácio e foi direto para o MEC falar com Ribeiro.

O ministro mal tinha completado dois meses de mandato quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) agradeceu ao pastor pelo apoio à família, num vídeo publicado nas redes sociais: "Se não fossem pessoas como o senhor, certamente a nossa guerra aqui na disputa do poder em Brasília seria muito mais complicada".

Eugênio Bucci*: A confusão que favorece a tirania

O Estado de S. Paulo.

A indústria da desinformação a serviço dos regimes de força não precisa construir credibilidade, apenas semeia o descrédito generalizado

Num artigo publicado no dia 11 de março no The Washington Post, a colunista Margaret Sullivan expôs com clareza singular uma das táticas mais insidiosas dos líderes autoritários. Especialista em mídia e imprensa, temas de suas colunas no Post, a jornalista demonstra que, para autocratas como Vladimir Putin, há algo de mais valioso do que fazer com que as pessoas acreditem neles: este algo de mais valioso é fazer com que as pessoas não acreditem em mais nada e em mais ninguém. Resumida assim, a fórmula parece um contrassenso. Como, afinal de contas, um tirano pode arregimentar apoio popular, se não faz por merecer a confiança irrestrita das multidões?

Antes de responder, lembremos que nós, aqui no Brasil, conhecemos de perto esse tipo de mando. Neste ponto, vamos nos afastar da linha de argumentação de Margaret Sullivan. Olhemos para o nosso país e vamos entender o contrassenso. Não temos aqui, nos trópicos, um sósia perfeito de Vladimir Putin, mas é inegável que anda nestas terras um personagem que almeja virar Putin quando crescer. Pois então: como é que esses sujeitos agregam seguidores?

José Serra*: ‘Alea jacta est’

O Estado de S. Paulo.

Os argumentos contra os jogos de azar nunca foram tão bem fundamentados cientificamente como atualmente

As propostas de legalização de cassinos, bingos e jogos de azar se sucedem com insistência. Sempre derrotadas, voltam a assombrar no ano seguinte. A bola da vez nesta roleta é o Projeto de Lei n.º 442, que acaba de ser aprovado na Câmara e, agora, tramita no Senado.

Eu tenho me batido contra essas propostas há muito. E o faço não por afã moralista ou para ser carola, como os proponentes da jogatina gostam de caracterizar seus adversários. Na verdade, impedir que a jogatina se alastre no Brasil não tem nada de reacionário. Os argumentos econômicos e de saúde pública contra os jogos de azar nunca foram tão bem fundamentados cientificamente como atualmente. E pretendo desenvolvê-los aqui.

Primeiro, gostaria de sublinhar a dificílima conjuntura que o País – e o mundo – atravessa. Os problemas gerados pela pandemia e seu controle são de uma extensão e complexidade talvez inéditas nas duas últimas décadas. A inflação se acelera mundialmente. Os custos dos alimentos e das matérias-primas tiveram alta expressiva e, ao que parece, duradoura. Temos, ainda, a situação de uma perigosa – e imprevisível – guerra em plena Europa. Diante de tantas premências e desafios, é quase inconcebível que a Câmara dos Deputados tenha adotado o regime de urgência para a deliberação dessa proposição.

Ruy Castro: Bolsolão para principiantes

Folha de S. Paulo

Conheça o novo termo do Dicionário Brasileiro da Corrupção

A palavra já existe há mais de um ano, mas ainda não tinha pegado. Volta agora com tudo: Bolsolão. O último —até este momento— escândalo de corrupção do governo Bolsonaro consagrará o termo, primo-irmão de dois anteriores que já constam dos dicionários, o mensalão e o petrolão. Neste momento, o Bolsolão está sendo protagonizado por dois ou três vigaristas amigos do presidente, acusados de desviar o dinheiro da merenda e das bolsas de estudos para fins outros. Mas o elenco promete aumentar —ou você acha que o único ministério que Bolsonaro reduziu a balcão de negócios é o da Educação?

Vinicius Torres Freire: Real se valoriza, mas ainda está fraco

Folha de S. Paulo

Por ora, taxa de câmbio refresca pouco o calor da caldeira que é a inflação mundial

O real foi a moeda que mais se valorizou neste ano, entre as 38 acompanhadas pelo FMI, todas as que interessam, o dinheiro de países que fazem o PIB global quase inteiro. Na média de março em relação à média de dezembro de 2021, o dólar caiu quase 11%. As comparações são de valores nominais (ou seja, não descontam inflações nem corrigem a taxa de câmbio por outros fatores relevantes).

É a história econômica mais relevante dos tempos que correm, pois o país não tem política econômica propriamente dita, estando à deriva ou na inércia. No que importa, restam apenas as decisões do Banco Central, agora quase a reboque do que vai acontecer com os preços mundiais de commodities. No mais, existe sempre a possibilidade de o governo aloprar além do que já se sabe e estourar as contas a fim de ganhar uns votos.

Maria Hermínia Tavares: Na América do Sul, hora de rever os desafios

Folha de S. Paulo

A pacífica coexistência contrasta com a dificuldade de gerar uma região mais coesa

Estudiosos da economia mundial anunciam que a era de ouro da globalização, iniciada nos anos 1990, está chegando ao fim, por ter sido golpeada, primeiro, pela pandemia da Covid-19; agora, pela invasão russa da Ucrânia. O economista Dani Rodrik, da Universidade Harvard, por exemplo, em entrevista ao jornal Valor, argumenta que a conjugação de ambos os eventos alçou os cálculos geopolíticos e as preocupações com a segurança nacional ao lugar ocupado pela integração econômica e financeira globais. O efeito, diz ele, será a reposição das regiões como esfera privilegiada de organização das cadeias produtivas e trocas internacionais.

Míriam Leitão: Refazendo a Amazônia

O Globo

Cinco milhões e duzentos mil hectares da Amazônia, que se regeneraram depois de desmatados, não competem com a agricultura. Podem, portanto, ser destinados à restauração. Essa é a conclusão da nova pesquisa do Imazon, dentro da série de estudos Amazônia 2030. A descoberta dos pesquisadores é um passo adiante do estudo recentemente divulgado, mostrando que 7,2 milhões de hectares estão em processo avançado de regeneração. Com as políticas certas, esse renascimento ajudará o Brasil a cumprir as metas do Acordo de Paris e permitirá a muitos produtores resolverem seu passivo ambiental.

— O grande potencial da Amazônia para a restauração é a partir da vegetação nativa. E isso por quê? Porque as sementes estão sendo dispersadas, animais estão circulando entre fragmentos, isso cria um ambiente muito favorável. Em algumas áreas, claro, será necessária intervenção — explicou o engenheiro agrônomo e pesquisador do Imazon Paulo Amaral.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Milton Ribeiro precisa sair com urgência do MEC

O Globo

Ficou insustentável a permanência de Milton Ribeiro à frente do Ministério da Educação diante da escandalosa denúncia de corrupção na pasta. Apesar de não ocuparem cargos, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura atuaram de forma decisiva — e nada republicana — para destinar, a prefeitos amigos, os cobiçados recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Feita na semana passada pelo jornal O Estado de S. Paulo, a revelação de que, como na pasta da Saúde, também havia no Ministério da Educação um “gabinete paralelo” vinculado ao presidente Jair Bolsonaro foi corroborada por conversa gravada numa reunião com prefeitos, divulgada na segunda-feira pela Folha de S. Paulo. Na gravação, Ribeiro diz que a prioridade é atender em primeiro lugar “aos municípios que mais precisam” e, em segundo, “a todos os que são amigos do pastor Gilmar”. “Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do Gilmar”, afirma.

Poesia | Fernando Pessoa: Perdi-me ( Por Maria Bethânia)

 

Música | Chico Buarque - Na Carreira

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

Bruno Boghossian: Por trás de fachada conservadora

Folha de S. Paulo

Negociação de verba se encaixa em plataforma ideológica do governo Bolsonaro no MEC

Jair Bolsonaro distorceu as funções do Ministério da Educação quando submeteu o ensino do país à cartilha de grupos religiosos. Com um pastor no comando do órgão, o governo quis decidir o que pode ser dito na escola e cobrado em provas oficiais. Por trás dessa fachada conservadora, havia outros interesses em jogo.

Há mais de um ano, líderes evangélicos controlam uma cota milionária de verbas no ministério, como mostrou o jornal O Estado de S. Paulo. Os pastores Gilmar dos Santos e Arilton Moura não ocupam cargos oficiais, mas definem a agenda de autoridades da pasta e negociam a liberação de dinheiro para municípios.

Silvia Matos*: A fragilidade da renda

Folha de S. Paulo

A pandemia prejudicou mais os trabalhadores informais e pouco escolarizados

Conforme esperado, o processo de normalização da economia segue em frente, ainda que com contratempos. De acordo com o último dado divulgado pelo IBGE e analisado pela equipe de mercado de trabalho do FGV-Ibre, o emprego em janeiro último já estava no mesmo patamar de fevereiro de 2020, antes da pandemia. A recuperação do emprego tem sido mais generalizada, tanto para trabalhadores formais quanto para informais.

Ou seja, há uma boa notícia em termos de geração de emprego, pois o choque sobre a economia foi muito desigual, afetando muito mais os setores intensivos em trabalho e de baixa produtividade, atingindo mais os trabalhadores informais e pouco escolarizados. Julho de 2020, por exemplo, foi o fundo do poço em termos de emprego: a população ocupada no setor privado estava 14% abaixo do valor registrado no mesmo período do ano anterior. O setor informal contribuiu com quase 2/3 desta queda, enquanto o setor formal contribui com a menor parcela, de 1/3.

Vinicius Torres Freire: Guerra e economia no resto do mundo

Folha de S. Paulo

Para alguns economistas, Brasil pode faturar uns trocados com alta de commodities

guerra na Ucrânia tende a beneficiar o crescimento da economia brasileira no curtíssimo prazo —digamos, até o final do ano. O argumento zanza faz uns dez dias por relatórios de conjuntura escritos por economistas de bancos.

Nem é argumento novo: preços de commodities em alta costumam estar associados a um crescimento maior no Brasil. O país exporta petróleo, grãos, minério e carnes.

Qual o tamanho da melhoria? Alguns décimos de porcentagem. O bastante para o país não fechar o ano no vermelho, com encolhimento do PIB.

Hélio Schwartsman: Putin veio para confundir

Folha de S. Paulo

Alas da esquerda o apoiam por causa do antiamericanismo

Vladimir Putin bagunçou de vez aquilo que já andava meio confuso. Falo da dicotomia esquerda-direita. O autocrata russo recebe o apoio de várias alas da esquerda mundial por causa principalmente do antiamericanismo. Já a direita celebra Putin porque ele é, bem, de direita... Duas de suas características mais salientes são o conservadorismo e o autoritarismo.

Quão úteis ainda são as noções de esquerda e direita? Elas surgiram como um achado empírico. Na França pré-revolucionária, os deputados que se sentavam à direita da cadeira reservada ao rei na Assembleia (nobres e clero) defendiam as teses conservadoras, e os que se sentavam à esquerda (a burguesia) queriam mudanças. Eram, portanto, conceitos bastante informativos, já que a distinção era nítida e dava conta dos principais dilemas políticos.

Fernando Exman: Bolsonaro sai à caça do voto do jovem eleitor

Valor Econômico

Novo escândalo na pasta da Educação prejudica estratégia

Súbito, o presidente Jair Bolsonaro avisa que a participação do advogado-geral da União ficará para uma próxima oportunidade e chama à mesa uma auxiliar pouco conhecida do brasileiro médio.

Até havia pautas mais quentes para o chefe do Executivo abordar na “live”, transmitida pelas redes sociais na última quinta-feira. Mas, a participação da titular da Secretaria Nacional da Juventude tornara-se prioritária: Bolsonaro precisa melhorar a sua imagem entre os jovens. Com urgência. A “live” tornava-se um laboratório para a construção do discurso que será apresentado durante a campanha eleitoral.

É um desafio considerável. Até fevereiro, a quantidade de eleitores com 16 a 24 anos aptos a votar chegava a 19,3 milhões. Um número que ainda pode aumentar.

Armando Castelar Pinheiro*: Uma nova ordem econômica mundial?

Valor Econômico

A busca da eficiência perde peso na definição da política econômica, em prol de objetivos considerados estratégicos

Este começo de década não tem sido fácil. Primeiro, a pandemia da covid-19, que já ceifou seis milhões de vidas no mundo, sendo 655 mil no Brasil. Agora, essa terrível guerra na Ucrânia, que já custou alguns milhares de vidas, sendo pelo menos 600 civis, além de grande destruição e sofrimento humano.

É uma estranha coincidência que, há um século, a humanidade passou por um par de crises semelhantes, com a Gripe Espanhola e a I Grande Guerra. Essas crises deslancharam uma progressiva, mas grande mudança na maioria dos países, que levou a políticas econômicas bem menos liberais. O caso mais extremo foi o dos países comunistas, em especial dos que formaram a União Soviética, mas houve em toda parte mais intervenção do Estado na economia, seja via empresas estatais, seja via mais e mais intrusivas regulações.

Será que viveremos algo semelhante também neste século? Minha visão é que sim. Que já está em curso uma nova e significativa mudança na ordem econômica mundial, que ganhará contornos mais claros nos próximos anos. Penso que três forças principais têm empurrado essa mudança.

Uma é a utilização de instrumentos de política econômica como “armas” com fins geopolíticos. Isso vem de algum tempo, com a imposição de sanções econômicas diversas a países, e seus governantes, que desrespeitam políticas estabelecidas pelos governos das nações com maior poderio econômico e, em geral, militar, que são desenhadas de forma a pressionar governos e empresas de outros países a também a elas aderir. Um exemplo são as sanções econômicas impostas ao Irã.

Roberto DaMatta*: Amor e guerra

O Estado de S. Paulo.

Como só nós, humanos, temos guerra, então ela deve morar em algum lugar da nossa (in)consciência

O amor é amplo e claro como a luz do dia. A guerra é o oposto. Ela é nublada e sofre com sua própria nebulosidade, que cega o agressor e o agredido. No entanto, somente nós, humanos, temos guerras de modo que ela deve morar em algum lugar do nosso coração, da nossa alma e da nossa (in)consciência.

Encontramos o par Amor & Guerra logo que tomamos consciência do mundo e, com ela, da vida. A vida tem perfumes e podridão. Tem bondade e maldade. A vida, com seu curso sempre surpreendente, é, por isso mesmo, “vida”: novidade, mudança, repressão, surpresa – aquilo que acontece fora de nós ou que, ao contrário, fazemos de “caso pensado” – de modo cuidadosamente planificado, como nas seduções. Aliás, como disse o dramaturgo inglês do século 16 John Lyly: “All is fair in love and war” (tudo é válido no amor e na guerra).

Não é, pois, por acaso que, no Brasil, damos “cantadas” e mandamos flores para as pessoas que desejamos. Cantar é harmonizar escrita e melodia, o que não é fácil de executar e muito mais difícil de inventar.

Luiz Carlos Azedo: Envolvimento de Lula na Lava-Jato virou calúnia

Correio Braziliense

Ex-chefe da Operação, Dallagnol foi condenado pelo STJ a indenizar o ex-presidente por danos morais, avaliados em R$ 75 mil, mais juros e correção monetária, o que deve superar os R$ 100 mil

Para nove em cada 10 marqueteiros, as pesquisas de opinião estão mostrando que a disputa eleitoral entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera os levantamentos, e o presidente Jair Bolsonaro, em recuperação, tende a se decidir no confronto de rejeições. É aí que a decisão de ontem, por 4 a 1, da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), contra o ex-procurador federal Deltan Dallagnol, pode transformar a Lava-Jato num ativo da campanha de Lula contra seus desafetos, justamente o tema que é a sua maior vulnerabilidade para manter uma rejeição menor do que a de Bolsonaro.

O ex-chefe da Operação Lava-Jato foi condenado a indenizar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por danos morais, avaliados em R$ 75 mil, mais juros e correção monetária, o que deve superar os R$ 100 mil, conforme o relatório do ministro Luís Felipe Salomão. A razão do pedido de indenização foi a entrevista coletiva da Lava-Jato na qual o Ministério Público acusou o petista de corrupção e lavagem de dinheiro, no famoso caso do tríplex de Guarujá (SP). Lula chegou a ser condenado pelo então juiz federal Sergio Moro, porém a sentença foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Votaram a favor da indenização os ministros Raul Araújo, Antônio Carlos Ferreira e Marco Buzzi. A ministra Maria Isabel Gallotti divergiu dos colegas.

Elio Gaspari: Bolsonaro precisa de Lula

O Globo

O capitão depende dos erros dos comissários

Há um novo Bolsonaro na praça. É muito parecido com os anteriores, mas tem a marca do candidato. Abandonou algumas causas perdidas, parou de falar das vacinas e esqueceu a cloroquina. Tenta se dissociar do aumento dos combustíveis: “Vilões são a roubalheira na Petrobras e o ICMS”.

A falta de fôlego dos candidatos da terceira via levam-no para a desejada polarização Bolsonaro x Lula. Há quatro anos, o comissariado petista achava que Bolsonaro seria o candidato mais fácil de derrotar. Deu no que deu.

Apresentar Lula como uma ameaça às instituições democráticas é uma carta amarelada. Ele governou o país por oito anos sem ofendê-las. Ameaças houve, aqui e ali, sem a ênfase e a insistência das investidas de Bolsonaro.

As campanhas eleitorais têm suas dinâmicas próprias. Se caixas, tempo de televisão e as costuras dos primeiros meses do ano decidissem a parada, o Brasil estaria sendo governado por Geraldo Alckmin. Cada candidato precisa dos erros do outro, e nem sempre os erros são percebidos como tais.

Em janeiro, o deputado Rui Falcão, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, quadro que passou pelo poder sem se lambuzar, disse ao repórter Ranier Bragon que a campanha, por “aguerrida”, precisaria da “construção de comitês de defesa da eleição do Lula que permaneçam depois como comitês de apoio do programa de transformação”.

Vera Magalhães: Farda e Bíblia como currículo

O Globo

O governo Jair Bolsonaro avança em seu último ano reiterando vícios de origem que foram vendidos na campanha e comprados nas urnas como se virtudes fossem. Nesta semana, dois deles ganharam as manchetes: a contaminação política das Forças Armadas e a disseminação do lobby evangélico para abrir portas e lotear recursos públicos nos ministérios.

Em nenhum desses casos, se pode acusar Bolsonaro de ter escondido o jogo para se eleger. Ele escolheu um general como seu vice em 2018 e afirmou com todas as letras que militares ocupariam vários postos em sua gestão. Também deixou claro que a aproximação com os evangélicos era um projeto político, usando um moralismo reacionário chamado falsamente de conservadorismo como justificativa.

Essas duas frentes seguem como pilares importantes do projeto reeleitoral. A antecipação de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, será o vice no lugar de Hamilton Mourão é o ápice de um movimento de infiltração de ideias, práticas e projetos políticos no papel das Forças Armadas determinado pela Constituição.

Bernardo Mello Franco: O fundamentalismo de resultados

O Globo

Há duas semanas, Jair Bolsonaro abriu o Palácio da Alvorada para um grupo de líderes evangélicos. A conversa tratou pouco de fé e muito de política. Em busca de apoio à reeleição, o presidente prometeu submeter suas decisões à vontade dos pastores. “Eu dirijo a nação para o lado que os senhores assim desejarem”, afirmou.

O escândalo no MEC mostra que o compromisso não se limita às chamadas pautas conservadoras. Também inclui o acesso privilegiado aos cofres públicos. Em gravação revelada pela Folha de S.Paulo, o ministro da Educação descreveu o funcionamento de uma rede de tráfico de influência. Disse ter ordens para direcionar verbas a “amigos do pastor Gilmar”.

No áudio, Milton Ribeiro contou ter recebido um “pedido especial” de Bolsonaro. O ministro é pastor presbiteriano e assumiu o cargo com a bênção da bancada da Bíblia, que agora finge desconhecê-lo.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Nem a Vale apoia PL da mineração em terra indígena

O Globo

Convém ao Congresso prestar atenção à manifestação da Vale a respeito do PL 191, que tenta regulamentar a exploração mineral em terras indígenas. A maior mineradora do país, em tese uma das principais interessadas na ampliação de seus negócios de extração de minério, revelou à colunista do GLOBO Míriam Leitão ser contra o projeto e afirmou que a mineração nessas terras só poderia ser realizada mediante consentimento, com apoio num “marco regulatório que contemple a participação e autonomia dos povos indígenas”. Embora tenham evitado manifestações públicas, outras grandes mineradoras também se dizem contrárias à aprovação.

Só esse fato já justificaria um exame mais cauteloso do texto que tramita na Câmara em regime de urgência. Em vez disso, tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o presidente da Casa, deputado Arthur Lira (PP-AL), têm procurado dar celeridade à aprovação, sob o pretexto de que, como a guerra na Ucrânia pôs em risco o fornecimento de fertilizantes ao Brasil, é necessário ao país garantir autossuficiência nos minerais necessários a produzi-los.

Poesia | Carlos Pena Filho: A palavra

Navegador de bruma e de incerteza,
Humilde me convoco e visto audácia
E te procuro em mares de silêncio
Onde, precisa e límpida, resides.

Frágil, sempre me perco, pois retenho
Em minhas mãos desconcertados rumos
E vagos instrumentos de procura
Que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,
Desprendo-me do ouro do meu sangue
E da ferrugem simples dos meus ossos,
E te aguardo com loucos estandartes
Coloridos por festas e batalhas.

Aí, reúno a argúcia dos meus dedos
E a precisão astuta dos meus olhos
E fabrico estas rosas de alumínio
Que, por serem metal, negam-se flores
Mas, por não serem rosas, são mais belas
Por conta do artifício que as inventa.

Às vezes permaneces insolúvel
Além da chuva que reveste o tempo
E que alimenta o musgo das paredes
Onde, serena e lúcida, te inscreves.

Inútil procurar-te neste instante,
Pois muito mais que um peixe és arredia
Em cardumes escapas pelos dedos
Deixando apenas uma promessa leve
De que a manhã não tarda e que na vida
Vale mais o sabor de reconquista.

Então, te vejo como sempre foste,
Além de peixe e mais que saltimbanco,
Forma imprecisa que ninguém distingue
Mas que a tudo resiste e se apresenta
Tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado
E dividido em faces, mais te cerco
E se não te domino então contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
E sei que és mais que astúcia e movimento,
Aérea estátua de silêncio e bruma

Música | Geraldo Azevedo: Tanto querer (Geraldo Azevedo e Nando do Cordel)

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Merval Pereira: Chapa quente

O Globo

A questão já não é saber quem será o vice escolhido por Bolsonaro na campanha à reeleição, mas ressaltar por que ele foi escolhido. O general Braga Netto, atual ministro da Defesa, não dará um voto a mais para a chapa, enquanto o general Hamilton Mourão, atual vice, a esta altura já poderia ampliar o eleitorado de Bolsonaro pelas razões inversas às que levaram o presidente a substituí-lo por Braga Netto.

Quando compôs a chapa para concorrer em 2018, Bolsonaro cogitou nomes de políticos, mas acabou se convencendo de que colocar um general de quatro estrelas seria uma maneira de desencorajar aventureiros que porventura ambicionassem seu lugar. Mourão era um general linha-dura, que já havia sido punido pelo Exército por ter, mais de uma vez, insinuado que os militares poderiam entrar em ação caso a esquerda “saísse da linha”. Tratou um “autogolpe” como parte do jogo e, assim como Bolsonaro, tinha o coronel Ustra como seu herói, justificando certa vez que “heróis também matam”.

Eliane Cantanhêde: Temer e um ‘pacto nacional’

O Estado de S. Paulo

‘As pesquisas de hoje não são as de amanhã’, diz Temer, que aposta numa ‘coluna do meio’

As coisas não estão fáceis. Aliás, andam muito complicadas. É por isso que o ex-presidente Michel Temer tem sido procurado por todos os presidenciáveis, exceto o petista Lula, e defende que só há uma solução para quem se eleger presidente da República em outubro: propor um pacto nacional consistente para reconstruir as condições políticas e o País.

Um pacto com presidentes de Poderes, partidos, governadores, empresários e as frentes da sociedade civil, mas principalmente dirigido para os derrotados e seus seguidores, para o(a) eleito(a) ter condições de governabilidade, poder virar a página e escrever o futuro, depois de uma polarização tão destrutiva.

Se o ex-presidente Lula vencer, os bolsonaristas estarão em pé de guerra contra as urnas eletrônicas, o Supremo, o TSE, o eleito e o novo governo. Se o presidente Jair Bolsonaro conquistar a reeleição, os petistas vão lotar as ruas, pintar e bordar.

Luiz Carlos Azedo: Cargo de vice requer confiança e cálculo político

Correio Braziliense

O vice é uma decisão estratégica. Lula escolheu Geraldo Alckmin, um ex-adversário, democrata e conciliador; Bolsonaro quer Braga Neto no lugar de Mourão, para agradar militares e a extrema direita

A montagem de chapas presidenciais no Brasil republicano é uma engenharia que mira dois cenários: o das eleições, no qual o companheiro de chapa pode atrair ou tirar votos; e o da governabilidade, por causa do histórico de presidentes destituídos. A lista de vice-presidentes que assumiram o poder é grande. Começou logo após a proclamação da República (1989), com Floriano Peixoto, um marechal, eleito em 25 de fevereiro de 1891, pelo Congresso Constituinte. Em 3 de novembro de 1891, o marechal Deodoro da Fonseca, presidente da República, dissolveu o Congresso. Como resposta, houve a chamada Revolta da Armada, sob comando do almirante Custódio de Melo, que ameaçou bombardear o Rio de Janeiro, caso Deodoro não renunciasse. Em 23 de novembro, Deodoro renunciou, e Floriano assumiu o posto.

Nilo Peçanha foi o segundo a assumir. Fora eleito vice em 1º de março de 1906, na chapa de Afonso Pena, que faleceu em 14 de junho de 1909, cerca de um ano e meio antes de seu mandato terminar, em consequência de uma pneumonia. Vice no segundo mandato de Rodrigues Alves, Delfim Moreira assumiu o poder interinamente em 1º de março de 1918, porque o presidente da República, com febre amarela, estava incapacitado. Com a morte de Rodrigues Alves, em 16 de janeiro de 1919, nova eleição foi realizada, porque não havia se completado dois anos de mandato.

Carlos Andreazza: Menos tetas, mais leite

O Globo

Este GLOBO noticiou que partidos políticos têm menos cargos diretos na administração federal que em governos passados. O Centrão maneja menos tetas na máquina do que manobravam as legendas que sustentaram os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Diga-se que ter menos tetas para mamar não significará menos leite na boca. São, sim, menos tetas. Nunca foi tão farto o leite. Chegaremos lá.

Aos dados. Levantamento feito pelos pesquisadores Sérgio Praça e Karine Belarmino informa que, de quase 4 mil indicados a altos postos comissionados em dezembro de 2021, apenas 9% seriam vinculados a algum partido. Em 2015, sob Dilma, eram 25%. Com Temer, entre 20,5% e 23% (2016 a 2018).

Teria acabado a mamata? Hum. E a cota dos militares, naturalmente sem partido, nessa distribuição de cadeiras? Cargos continuam a ser ofertados a aliados, certo? Apenas não mais tanto a filiados a partidos, né? Chegaremos lá também.

Antes, outra pergunta: o que é o Centrão? Conforme ora difundido pelo senso comum, o que é?

Cristina Serra: O Telegram se enquadrou?

Folha de S. Paulo

Ainda é muito cedo para concluir que sim

É muito cedo para concluir que sim, mas a pressão exercida pelo ministro do STF Alexandre de Moraes começou a dar resultado. Até dias atrás, o Telegram se comportava como uma empresa fora da lei, useiro e vezeiro em ignorar decisões do Judiciário ou em atendê-las a seu bel-prazer e conveniência. Não tinha sequer representante no Brasil, embora já houvesse constituído, desde 2015, um escritório de advocacia para cuidar do registro de sua marca junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, como revelou a Folha.

Diante do bloqueio iminente, e dos prejuízos decorrentes, o aplicativo prófugo apressou-se a dar explicações. Uma delas é a desculpa pouco crível de que não respondera ao STF e ao TSE porque as mensagens teriam se perdido na caixa de um e-mail geral da empresa.

O aperto judicial tirou o Telegram da semiclandestinidade em que atuava. A empresa nomeou um advogado para representá-la, comprometeu-se a monitorar os cem canais mais populares do seu submundo digital e a iniciar um processo de moderação de conteúdo.