Folha de S. Paulo
No Brasil, nem sempre basta a um jogador ser
campeão do mundo para continuar lembrado
Os gols de Amarildo, herói de 1962, valem
menos que os 19 minutos de Vampeta em 2002
Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de 1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos. Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da CBF.
Alguns ex-jogadores, como Paulo Cezar, Carlos
Roberto e Luxemburgo, seus contemporâneos de Botafogo e Flamengo, o visitam.
Amarildo não está abandonado, mas esquecido. Ao falarem daquela Copa, todos
citam Garrincha, que de fato jogou por dois quando Pelé sofreu
a distensão na segunda partida, que o afastou pelo resto do torneio. Mas quem
entrou no lugar de Pelé foi um garoto de 22 anos, estreante na seleção e, de
cara, com o peso de substituir o maior do mundo.
Amarildo entrou contra a Espanha e fez os
dois gols da virada do Brasil por 2x1, levando a seleção à fase seguinte. Na
final, contra a Tchecoslováquia, foi ele quem, dois minutos depois de o Brasil
tomar 1x0, empatou o jogo e abriu o caminho para a vitória por 3x1 e o título.
Três gols em quatro partidas, uma raça que fez Nelson Rodrigues chamá-lo de "Possesso"
—possuído por uma força incontrolável— e, depois, uma bela carreira na Itália.
E então voltou para ser ignorado no Brasil.
O futebol despreza
o passado. Não se fala mais, por exemplo, em Zizinho, o craque que, um dia,
Pelé sonhou ser. As duas Copas que consagrariam Zizinho, em 1942 e 1946, não
aconteceram, por causa da guerra. A de 1950, da qual ele foi eleito o maior
jogador, o Brasil perdeu —e, no Brasil, é obrigatório ser campeão mundial.
Zizinho, assim como Leônidas, Heleno, Ademir Menezes, Julinho, Zico, Sócrates,
Falcão e Junior, não foi.
Amarildo ajudou a dar o bi ao Brasil. Mas nem
isso bastou. Aos olhos de hoje, é menos lembrado do que Vampeta,
"penta" por ter jogado 19 minutos em 2002.

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