Valor Econômico
Neutralidade dos partidos do Centrão é uma
das principais características desta eleição presidencial
Em 2022, apenas 69 deputados pertenciam a partidos que não lançaram e nem apoiaram nenhum dos candidatos a presidente da República. Neste ano, salvo algum movimento de última hora, serão 178. A decisão dos partidos do Centrão de se ausentar da eleição presidencial é uma das principais características desta sucessão. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu ampliar a sua frente, nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu a adesão de partidos que compuseram o governo do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e nem as demais candidaturas presidenciais de direita, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), saíram do isolamento.
Flávio tentou movimentos de última hora, na
reta final das convenções, com um palpite duplo. Convidou formalmente a
senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser sua vice e tentou uma oferta hostil
sobre o Republicanos, com a filiação da economista Daniella Marques à revelia
da direção nacional da sigla. O PP fechou a porta, com uma nota oficial
divulgada na sexta-feira (31) pela sigla reafirmando a sua decisão de
permanecer na neutralidade. O Republicanos deve ir pelo mesmo caminho na
convenção do partido programada para terça-feira (4). Flávio parece destinado a
formar a sua chapa com um nome do próprio PL.
Também está na legião dos sem-candidatos o
MDB, que no dia 27 de julho, oficializou a decisão de ficar neutro, pela
primeira vez desde 2006. Ao longo do ano, Lula demonstrou interesse em atrair o
partido, mas esbarrou na eterna divisão dos emedebistas e na decisão do
vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, de não trocar a presença na chapa
presidencial por um projeto eleitoral local em São Paulo. Alckmin sinalizou, no
começo do ano, que ou disputaria a reeleição, ou voltaria para casa. Sem ter a
vice para oferecer ao MDB, a conversa morreu no nascedouro.
Lula não fez movimentos para atrair ao seu
palanque o União Brasil ou o Republicanos. Apesar de ter aberto dez pastas em
seu Ministério para o Centrão, em nenhum momento esteve perto de expandir sua
aliança. O presidente formalizou a sua candidatura no domingo (2), agregando
apoio apenas do PDT à sua aliança original com o PSB e a federação entre o Psol
e o Rede.
Zema formalizou sua candidatura presidencial
em Brasília no dia 27, rodeado pelos bolsonaristas que compõem a sigla e sem
nome para vice. Zema tentou várias conversas para sair do isolamento. Sinalizou
que procuraria o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (DC),
fez um balão de ensaio ao sugerir o nome do empresário Geraldo Rufino (Podemos)
e falou com o escritor Augusto Cury, pré-candidato presidencial até segunda
ordem pelo Avante, com convenção prevista para esta segunda-feira (3) em São
Paulo. Por enquanto, segue sem vice. Ronaldo Caiado, formalizado no dia 25,
terá a companhia do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab. Renan Santos
(Missão), formalizado este sábado, também irá de chapa pura.
O descolamento do Centrão em relação à
eleição presidencial terá como principal consequência uma certeza: o presidente
que vier a ser eleito em outubro, seja quem for, governará em minoria na Câmara
e no Senado, em um país polarizado e provavelmente com uma popularidade de
saída não muito alta. Se o Congresso criou dificuldades para Dilma Rousseff,
Jair Bolsonaro e Lula, para ficar nos últimos três presidentes eleitos, estas
deverão escalar a partir de 2027, em um cenário mais adverso para o titular do
Palácio do Planalto.

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