O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
DEU NO JORNAL DO BRASIL

UM ESPAÇO VAZIO NAS RUAS
Villas-Bôas Corrêa
A melhor notícia dos últimos tempos, na contramão do povo encolhido e calejado pelo seriado de escândalos que pipocam nos três poderes, foi publicada na página A11 da edição de ontem do JB, enfeitado pelo título chamativo de Movimento Novo prega a renovação da Câmara do Rio.
Logo na abertura, as informações básicas: na marola de indignação com a matéria deste jornal sobre o alto custo dos vereadores cariocas, confrontado com a lista esquálida dos benefícios, foi lançado pelos líderes do Boicote ao IPTU, o movimento com o título chamativo de Vote Novo, que conta com a adesão de lideranças de seis bairros: Ipanema, Leblon, Leme, Humaitá, Copacabana e Méier.
É ainda pouco e nem poderia ser diferente. Mas a gritante oportunidade de cutucar a consciência da população para a crise ética que envolve no mesmo pacote, em níveis diferenciados, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, talvez embale no despertar da sonolência da cumplicidade omissa e saia para a rua, ocupe as praças públicas, arme barracas à frente do Congresso, das assembléias legislativas e das câmaras municipais – que são ou devem ser as casas do povo.
Em 60 anos de militância como repórter político não tenho lembrança de nada igual ou parecido. Não se apele para as comparações com os apagões da ditadura paisana do Estado Novo de Getúlio Vargas ou a fardada do rodízio dos cinco generais-presidente.
Mas para catar semelhanças e diferenças, pode-se comparar a apatia de agora com a brava mobilização dos estudantes que foram à luta nos idos de 60, com todos o risco da brutal repressão. Os caras-pintadas lideraram a passeata dos 100 mil, em 26 de julho de 1968, no governo do general-presidente Costa e Silva, na maior manifestação popular realizada no Rio e que ainda hoje é relembrada. A reação endureceu na violência e nas torturas até o espasmo do AI-5.
Agora, o quadro é inteiramente diferente. Não há sinais de vida nas águas paradas. Não podemos perder a oportunidade de uma cobrança do povo. E a hora de ir para a rua é exatamente agora, não amanhã ou depois.
Se o movimento Voto Novo não for adiante, seremos mais uma vez enganados pelo blá-blá-blá das promessas, das propostas mirabolantes que rolam das tribunas parlamentares com plenários vazios para a massificação nos programas milionários no soporífero horário de propaganda eleitoral.
A anunciada tentativa de mobilização do eleitor para valorizar o seu voto, como pano de chão para limpar a sujeira, necessita ser complementada pelo alerta para a tolice do voto em branco, que não é protesto, é a rendição do frouxo. Se o eleitor não sacar a arma do voto, está ajudando ao inimigo.
E as reivindicações básicas são de uma clareza de manhã de sol. O Congresso transformou-se no sepulcro das mordomias, das vantagens, das mutretas, das semanas de três dias úteis, da verba indenizatória para ressarcir despesas nos fins de semanas, dos gabinetes individuais entulhados de assessores, dos escândalos e das CPIs. Não satisfeitos, querem mais. Se a patuscada do bolsa defunto para as despesas como enterro de parlamentares não vingou, o baixo clero não se deu por vencido e promete novidades para depois da eleição.
A faxina do voto pode começar com a suspeição dos atuais parlamentares. Na eleição de outubro, de vereadores e prefeitos, o eleitor deve priorizar a renovação para injetar sangue novo no enfermo. E, com muito cuidado, selecionar as exceções para não cometer a injustiça de misturar o joio abundante com alguns grãos de trigo verde.
Villas-Bôas Corrêa
A melhor notícia dos últimos tempos, na contramão do povo encolhido e calejado pelo seriado de escândalos que pipocam nos três poderes, foi publicada na página A11 da edição de ontem do JB, enfeitado pelo título chamativo de Movimento Novo prega a renovação da Câmara do Rio.
Logo na abertura, as informações básicas: na marola de indignação com a matéria deste jornal sobre o alto custo dos vereadores cariocas, confrontado com a lista esquálida dos benefícios, foi lançado pelos líderes do Boicote ao IPTU, o movimento com o título chamativo de Vote Novo, que conta com a adesão de lideranças de seis bairros: Ipanema, Leblon, Leme, Humaitá, Copacabana e Méier.
É ainda pouco e nem poderia ser diferente. Mas a gritante oportunidade de cutucar a consciência da população para a crise ética que envolve no mesmo pacote, em níveis diferenciados, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, talvez embale no despertar da sonolência da cumplicidade omissa e saia para a rua, ocupe as praças públicas, arme barracas à frente do Congresso, das assembléias legislativas e das câmaras municipais – que são ou devem ser as casas do povo.
Em 60 anos de militância como repórter político não tenho lembrança de nada igual ou parecido. Não se apele para as comparações com os apagões da ditadura paisana do Estado Novo de Getúlio Vargas ou a fardada do rodízio dos cinco generais-presidente.
Mas para catar semelhanças e diferenças, pode-se comparar a apatia de agora com a brava mobilização dos estudantes que foram à luta nos idos de 60, com todos o risco da brutal repressão. Os caras-pintadas lideraram a passeata dos 100 mil, em 26 de julho de 1968, no governo do general-presidente Costa e Silva, na maior manifestação popular realizada no Rio e que ainda hoje é relembrada. A reação endureceu na violência e nas torturas até o espasmo do AI-5.
Agora, o quadro é inteiramente diferente. Não há sinais de vida nas águas paradas. Não podemos perder a oportunidade de uma cobrança do povo. E a hora de ir para a rua é exatamente agora, não amanhã ou depois.
Se o movimento Voto Novo não for adiante, seremos mais uma vez enganados pelo blá-blá-blá das promessas, das propostas mirabolantes que rolam das tribunas parlamentares com plenários vazios para a massificação nos programas milionários no soporífero horário de propaganda eleitoral.
A anunciada tentativa de mobilização do eleitor para valorizar o seu voto, como pano de chão para limpar a sujeira, necessita ser complementada pelo alerta para a tolice do voto em branco, que não é protesto, é a rendição do frouxo. Se o eleitor não sacar a arma do voto, está ajudando ao inimigo.
E as reivindicações básicas são de uma clareza de manhã de sol. O Congresso transformou-se no sepulcro das mordomias, das vantagens, das mutretas, das semanas de três dias úteis, da verba indenizatória para ressarcir despesas nos fins de semanas, dos gabinetes individuais entulhados de assessores, dos escândalos e das CPIs. Não satisfeitos, querem mais. Se a patuscada do bolsa defunto para as despesas como enterro de parlamentares não vingou, o baixo clero não se deu por vencido e promete novidades para depois da eleição.
A faxina do voto pode começar com a suspeição dos atuais parlamentares. Na eleição de outubro, de vereadores e prefeitos, o eleitor deve priorizar a renovação para injetar sangue novo no enfermo. E, com muito cuidado, selecionar as exceções para não cometer a injustiça de misturar o joio abundante com alguns grãos de trigo verde.
DEU EM O GLOBO

COM VIÉS DE ALTA
Miriam Leitão
A inflação entra no segundo semestre do ano já muito perto do teto da meta, os especialistas avisam que este é um período difícil, porque é a entressafra de vários alimentos e há ainda uma fila de tarifas esperando correção. O ministro Miguel Jorge, que entrevistei, comemorou os fortes investimentos no país. O Brasil vive este momento: a boa notícia dos investimentos; as sombras da inflação no horizonte.
Miriam Leitão
A inflação entra no segundo semestre do ano já muito perto do teto da meta, os especialistas avisam que este é um período difícil, porque é a entressafra de vários alimentos e há ainda uma fila de tarifas esperando correção. O ministro Miguel Jorge, que entrevistei, comemorou os fortes investimentos no país. O Brasil vive este momento: a boa notícia dos investimentos; as sombras da inflação no horizonte.
O ministro Miguel Jorge, em entrevista que me concedeu na Globonews, disse que, depois de anos com os estados brigando para ser a sede de uma refinaria da Petrobras, agora há quatro sendo instaladas no país. Depois de anos sem um novo alto-forno, a siderurgia brasileira está com vários projetos sendo iniciados. Tudo isso, claro, aumenta a demanda agregada. É boa notícia, mas a política antiinflacionária tem que ser mais cuidadosa.
Quando sair o IPCA de julho, o Brasil estará acima da meta, juntando-se a todos os outros países que adotam metas de inflação e que, este ano, já estouraram o limite. Uma grande parte disso é a inflação de alimentos, que respondeu por mais da metade da alta de junho.
Sobre o comportamento dos preços dos alimentos no segundo semestre, os especialistas com quem conversamos acham o seguinte: o feijão tem alguma chance de cair de preço. A segunda safra do ano foi ruim, mas a terceira, em outubro, pode vir melhor e ajudar. Essa queda seria um alívio; nos últimos 12 meses, segundo apurado pela RC Consultores, ele subiu 134%; enquanto o arroz, seu companheiro, teve alta de 75%. O tomate também encareceu muito, 123%; a diferença dele é que, por ser hortifrúti, tem uma volatilidade muito maior, e a cesta de produtos sempre permite que se escolha outros alimentos. O açúcar e o café ficaram mais comportados.
O feijão não é exatamente um tradable. Ainda que seja plantado em larga escala, o plantio e o consumo são nacionais. O que houve com ele não foi pressão externa, mas o fato de que, nos últimos anos, aumentou a demanda (com o aumento da renda) e a oferta não acompanhou. O problema é que não se tem de onde importar quando o feijão fica escasso aqui.
- No caso do arroz, até tem mais países produzindo no mundo, mas eles também não têm para exportar - conta Fabio Silveira, da RC Consultores. Este ano, o comércio internacional de arroz, que não passa de 7% de tudo o que é produzido, foi restrito ainda mais pela proibição de exportação adotada por alguns produtores.
Fabio acredita num terceiro trimestre de relativa estabilização dos grãos, mas com alta das carnes, que estarão na entressafra até outubro. No quarto trimestre, se os preços internacionais ficarem estáveis, pode começar a ocorrer uma queda no preço interno dos alimentos.
- Não vejo nova pressão forte altista mundial, a não ser que o mercado enlouqueça e todo mundo decida fugir para os ativos ligados a commodities - comenta.
Nos últimos dias, a soja está em alta em Chicago.
O professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, não acredita em queda dos preços de alimentos a curto prazo. Acha que, no caso do feijão, o mais provável é que ele não suba tanto, se for boa a última safra. No ano passado, foi exatamente nessa safra que as coisas desandaram, por excesso de chuva. O arroz não deve subir muito mais. As carnes é que estão pedindo atenção, pois elas têm subido tanto na safra quanto na entressafra (pelo índice da RC, em 12 meses, o boi subiu 53%; o frango, 21%; e os suínos, 84%). Ontem, no IPCA, foram o item que mais contribuiu para o resultado.
Sergio Vale, da MB Associados, diz que, depois de alguns saltos no preço, o mercado futuro de carnes até se acomodou um pouco, abaixo de R$95. Ele acha que poderá haver pressão na entressafra, ainda não incorporada nos futuros. O risco é de que, no segundo semestre, o "boi seja o que o arroz e o feijão foram nos últimos meses".
Para o professor Luiz Roberto, o IPA agrícola, que saiu na quarta-feira, preocupa; a alta dos alimentos continua muito forte no atacado:
- Se tivesse que fazer uma projeção para o segundo semestre, diria que é de incerteza, com viés de alta.
A previsão dele para 2008 é de um IPCA em 6,5% - no teto da meta. Fabio Silveira está com 6,3%. O IPCA de ontem veio 0,74%; isso fez o índice em 12 meses pular para 6,06%. Se for 0,7% no próximo mês, o país já vai ultrapassar o limite da meta.
- O problema é que, no segundo semestre, ainda terá muito preço administrado, como as tarifas de ônibus, que provavelmente terão aumentos após as eleições. Os serviços vão continuar pressionados e, quanto aos alimentos, ainda não se tem muita clareza, ainda que haja chances de que se acomodem um pouco - analisa o professor.
Com a inflação quase furando a meta, choques externos e crise de alimentos, este é um momento decisivo: se forem religados os mecanismos de indexação de salários, se os serviços conseguirem emplacar os reajustes que estão tentando, o país pode reavivar velhos fantasmas. Cena da vida real: o barbeiro do ministro Miguel Jorge reajustou o preço em 20%; e, neste caso, a demanda é inelástica, o ministro tem que cortar os cabelos de três em três semanas.
O ministro está entusiasmado, com razão, com os investimentos em andamento em vários setores e estados, pelo país afora. Para evitar que a boa notícia seja o combustível para a alta da inflação, é preciso que o governo contenha seus gastos.
DEU NO VALOR ECONÔMICO

DEMARCAÇÃO DE TERRITÓRIO
Maria Cristina Fernandes
As chances de um encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a cúpula do PSDB, a pretexto de uma proposta de consenso de reforma política, já estavam detonadas antes mesmo de surgirem as algemas de Daniel Dantas. PT e PSDB não chegarão a qualquer conclusão se o banqueiro do Opportunity teve atuação mais vistosa na privatização da telefonia ou no mensalão às vésperas de uma eleição municipal. É com as urnas de outubro abertas que os dois partidos medirão forças para 2010. Não se deve esperar que se produzam acordos políticos nessas circunstâncias.
Lula chegou a falar sobre o pretendido encontro com o governador de Minas, Aécio Neves, e a mencionar a intenção de convidar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem se reencontrara, dias antes, no velório de Ruth Cardoso.
Lula deixou em Minas a impressão de que não havia escolhido o melhor momento para fazer a proposta. Com uma pauta excessivamente aberta e sem que os partidos sequer tenham consenso interno sobre os temas da reforma, não tardaria quem visse no encontro o pacto entre um presidente que prepara seu retorno e dois presidenciáveis tucanos em revezamento pelo poder. E que tudo se resumiria ao fim da reeleição.
O ícone desta aproximação entre os dois partidos é a disputa na capital mineira. A inaudita disposição do presidente da República de subir neste palanque, revelada em sua passagem por Itajubá, dias atrás - "Vou participar pouco das eleições municipais, mas Belo Horizonte é uma das cidades que eu quero ir" - teve, no entanto, efeitos opostos sobre os dois principais artífices da aliança local, Aécio e o prefeito Fernando Pimentel (PT).
Entre os tucanos mineiros, a impressão é de que Lula foi até além do que se esperava na declaração de seu entusiasmo por uma coligação que, apesar de não ser oficialmente integrada pelo PSDB, tem, no Palácio da Liberdade, seu principal bunker. "A participação do governador Aécio é importante porque , certamente, vai ajudar a gente a eleger o candidato", disse, Lula, em Itajubá, já senhor da situação.
Assim como Lula, Aécio também tem uma intensa agenda de viagens para participar de eventos de campanhas municipais. Estreará em Curitiba, onde o PSDB tem o seu mais franco favorito nas capitais, o prefeito Beto Richa. No Rio, já mobilizou economistas da Casa das Garças, muitos dos quais ocuparam cargos de primeiro escalão no governo FHC, para ajudar o candidato do PV, Fernando Gabeira na elaboração de seu programa de governo. No início desta semana, recebeu um coordenador da campanha de Geraldo Alckmin, em São Paulo, para discutir os rumos da campanha. Apostou que o governador de São Paulo, José Serra, será levado a subir no palanque de Alckmin pela polarização que a imagem de Marta Suplicy colada a de Lula produzirá em São Paulo.
Se a desenvoltura de Lula no palanque belorizontino incomoda o PSDB mineiro, é, por outro lado, um desagravo ao prefeito Fernando Pimentel, que enfrentou todo o primeiro escalão mineiro do governo federal para manter a aliança com Aécio.
O encontro de Itajubá aconteceu um mês depois daquele que reuniu, no Palácio do Planalto, Lula, Pimentel, o vice-presidente José Alencar, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, e três ministros mineiros, Hélio Costa (Comunicações), Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), Luiz Dulci (Secretaria-Geral). Naquele encontro, motivado em grande parte pelo desvelo de Lula com Alencar, Pimentel ouviu a queixa generalizada de que o acordo havia sido costurado com Aécio à revelia de toda a base mineira do presidente. E a insistência para que se trocasse o candidato da aliança.
Conjuntura eleitoral desfavorece acordos
Ao final da reunião, o prefeito dirigiu-se a Lula e perguntou: "Então é isso que o sr. quer, presidente?". E ouviu dele: "É isso que eles querem". Pimentel voltou para BH e não moveu uma palha, mas o bombardeio continuou pelos jornais.
O acordo acabou saindo e, em Itajubá, Lula passou um pito nos mineiros da Esplanada: "Eu confesso que depois do PT de Minas aprovar - municipal, estadual - e depois da convenção aprovar, eu acho que a direção nacional do partido poderia tranquilamente apenas ter confirmado tudo o que aconteceu. Se tivesse que fazer uma repreensão ao Pimentel, que a fizesse em segredo, porque o jogo estava sendo feito à luz do dia, todo mundo sabia o que estava acontecendo em Minas Gerais".
A guerra dos petistas de Minas acabou conflagrando a pré-disputa pelo governo do Estado em 2010, que, apenas na base lulista, tem Pimentel, Hélio Costa e Patrus como candidatos. Dos três, o ministro das Comunicações é o que mais tem-se movimentado para montar sua base de prefeitos nessa campanha.
No campo petista, a aposta do grupo de Pimentel é que a disputa pelo comando do PT, em 2009, acabe minguando o poder de seus adversários locais no partido. Por esse raciocínio, o PT estaria dividido hoje entre aqueles que querem entregar a Lula o comando de sua sucessão, grupo em que estaria o prefeito de Belo Horizonte, e aqueles que vêem necessidade de o partido ter voz mais ativa no processo.
Na última eleição do PT, os grupos que não são automaticamente alinhados ao presidente avançaram numa conjuntura marcada pelo dossiê contra Serra, cuja produção envolveu próximos a Lula, carinhosamente chamados por ele de aloprados.
A expectativa dos grupos mais lulistas é de retomada majoritária do partido em 2009. Pelo tempo que separa a operação Satiagraha da sucessão petista é difícil imaginar relação de causa e feito, mas não terá sido a primeira vez que a Polícia Federal afeta uma disputa interna no partido. A diferença é que, na primeira vez, no caso do dossiê, o ministro da Justiça, a quem a PF deveria estar subordinada, não era filiado ao PT.
Com as cartas embaralhadas no petismo, cresce a chance de Lula, pela primeira vez, tirar da cartola o presidente que conduzirá o partido na escolha de seu sucessor. E a partir daí demarcar a distância que o separa do PSDB.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
Maria Cristina Fernandes
As chances de um encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a cúpula do PSDB, a pretexto de uma proposta de consenso de reforma política, já estavam detonadas antes mesmo de surgirem as algemas de Daniel Dantas. PT e PSDB não chegarão a qualquer conclusão se o banqueiro do Opportunity teve atuação mais vistosa na privatização da telefonia ou no mensalão às vésperas de uma eleição municipal. É com as urnas de outubro abertas que os dois partidos medirão forças para 2010. Não se deve esperar que se produzam acordos políticos nessas circunstâncias.
Lula chegou a falar sobre o pretendido encontro com o governador de Minas, Aécio Neves, e a mencionar a intenção de convidar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem se reencontrara, dias antes, no velório de Ruth Cardoso.
Lula deixou em Minas a impressão de que não havia escolhido o melhor momento para fazer a proposta. Com uma pauta excessivamente aberta e sem que os partidos sequer tenham consenso interno sobre os temas da reforma, não tardaria quem visse no encontro o pacto entre um presidente que prepara seu retorno e dois presidenciáveis tucanos em revezamento pelo poder. E que tudo se resumiria ao fim da reeleição.
O ícone desta aproximação entre os dois partidos é a disputa na capital mineira. A inaudita disposição do presidente da República de subir neste palanque, revelada em sua passagem por Itajubá, dias atrás - "Vou participar pouco das eleições municipais, mas Belo Horizonte é uma das cidades que eu quero ir" - teve, no entanto, efeitos opostos sobre os dois principais artífices da aliança local, Aécio e o prefeito Fernando Pimentel (PT).
Entre os tucanos mineiros, a impressão é de que Lula foi até além do que se esperava na declaração de seu entusiasmo por uma coligação que, apesar de não ser oficialmente integrada pelo PSDB, tem, no Palácio da Liberdade, seu principal bunker. "A participação do governador Aécio é importante porque , certamente, vai ajudar a gente a eleger o candidato", disse, Lula, em Itajubá, já senhor da situação.
Assim como Lula, Aécio também tem uma intensa agenda de viagens para participar de eventos de campanhas municipais. Estreará em Curitiba, onde o PSDB tem o seu mais franco favorito nas capitais, o prefeito Beto Richa. No Rio, já mobilizou economistas da Casa das Garças, muitos dos quais ocuparam cargos de primeiro escalão no governo FHC, para ajudar o candidato do PV, Fernando Gabeira na elaboração de seu programa de governo. No início desta semana, recebeu um coordenador da campanha de Geraldo Alckmin, em São Paulo, para discutir os rumos da campanha. Apostou que o governador de São Paulo, José Serra, será levado a subir no palanque de Alckmin pela polarização que a imagem de Marta Suplicy colada a de Lula produzirá em São Paulo.
Se a desenvoltura de Lula no palanque belorizontino incomoda o PSDB mineiro, é, por outro lado, um desagravo ao prefeito Fernando Pimentel, que enfrentou todo o primeiro escalão mineiro do governo federal para manter a aliança com Aécio.
O encontro de Itajubá aconteceu um mês depois daquele que reuniu, no Palácio do Planalto, Lula, Pimentel, o vice-presidente José Alencar, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, e três ministros mineiros, Hélio Costa (Comunicações), Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), Luiz Dulci (Secretaria-Geral). Naquele encontro, motivado em grande parte pelo desvelo de Lula com Alencar, Pimentel ouviu a queixa generalizada de que o acordo havia sido costurado com Aécio à revelia de toda a base mineira do presidente. E a insistência para que se trocasse o candidato da aliança.
Conjuntura eleitoral desfavorece acordos
Ao final da reunião, o prefeito dirigiu-se a Lula e perguntou: "Então é isso que o sr. quer, presidente?". E ouviu dele: "É isso que eles querem". Pimentel voltou para BH e não moveu uma palha, mas o bombardeio continuou pelos jornais.
O acordo acabou saindo e, em Itajubá, Lula passou um pito nos mineiros da Esplanada: "Eu confesso que depois do PT de Minas aprovar - municipal, estadual - e depois da convenção aprovar, eu acho que a direção nacional do partido poderia tranquilamente apenas ter confirmado tudo o que aconteceu. Se tivesse que fazer uma repreensão ao Pimentel, que a fizesse em segredo, porque o jogo estava sendo feito à luz do dia, todo mundo sabia o que estava acontecendo em Minas Gerais".
A guerra dos petistas de Minas acabou conflagrando a pré-disputa pelo governo do Estado em 2010, que, apenas na base lulista, tem Pimentel, Hélio Costa e Patrus como candidatos. Dos três, o ministro das Comunicações é o que mais tem-se movimentado para montar sua base de prefeitos nessa campanha.
No campo petista, a aposta do grupo de Pimentel é que a disputa pelo comando do PT, em 2009, acabe minguando o poder de seus adversários locais no partido. Por esse raciocínio, o PT estaria dividido hoje entre aqueles que querem entregar a Lula o comando de sua sucessão, grupo em que estaria o prefeito de Belo Horizonte, e aqueles que vêem necessidade de o partido ter voz mais ativa no processo.
Na última eleição do PT, os grupos que não são automaticamente alinhados ao presidente avançaram numa conjuntura marcada pelo dossiê contra Serra, cuja produção envolveu próximos a Lula, carinhosamente chamados por ele de aloprados.
A expectativa dos grupos mais lulistas é de retomada majoritária do partido em 2009. Pelo tempo que separa a operação Satiagraha da sucessão petista é difícil imaginar relação de causa e feito, mas não terá sido a primeira vez que a Polícia Federal afeta uma disputa interna no partido. A diferença é que, na primeira vez, no caso do dossiê, o ministro da Justiça, a quem a PF deveria estar subordinada, não era filiado ao PT.
Com as cartas embaralhadas no petismo, cresce a chance de Lula, pela primeira vez, tirar da cartola o presidente que conduzirá o partido na escolha de seu sucessor. E a partir daí demarcar a distância que o separa do PSDB.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O HOMEM QUE RACHA O PODER
Eliane Cantanhêde
BRASÍLIA - As pessoas comuns parecem unânimes contra Daniel Dantas, mas os poderes, os poderosos e os que se julgam poderosos se mostram furiosamente divididos em função dele e de sua prisão.
No governo, José Dirceu era pró-Daniel Dantas, e o também ministro Luiz Gushiken, anti. E ambos eram do Conselho Político de Lula. Durma-se com um barulho desses. Desde então, a divisão pró e anti-Dantas avançou pelo PT, chegou aos Poderes -e alimenta e é alimentada por blogs ditos independentes.
Comenta-se que há jornalistas se matando, uns a favor, outros contra o megabanqueiro baiano-carioca e tucano-petista. Diante das prisões dele, de sua irmã e de toda a cúpula do Opportunity, ao lado do ex-prefeito Celso Pitta e do eterno megainvestidor Naji Nahas (diz-me com quem andas...), as divisões explodem.
A Polícia Federal e a Procuradoria decidem contra Daniel Dantas, e o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, a favor, vociferando contra a "espetacularização" da prisões. Dantas acabou dividindo a própria Justiça, que evoluiu num balé prende-e-solta. Num dia, manda prender. No seguinte, manda soltar. No terceiro dia, prende de novo. E o que foi mais espetacular: a prisão de Dantas ou a decisão de Mendes de soltá-lo?
Enquanto isso, no Senado, Heráclito Fortes e Tasso Jereissati abrem o vozeirão para recriminar a prisão, e Pedro Simon faz caras, bocas e principalmente gestos em apoio à ação da PF.
O próprio PT dividiu-se entre os com e os sem-jantares com Daniel Dantas. Uns não param de se justificar, os outros ficaram subitamente sem voz. Perdida como cego no tiroteio de ministros, delegados, juízes, blogueiros, tucanos e petistas, a senadora Ideli Salvatti teve um lampejo acaciano.
Sabe por que Daniel Dantas divide o poder, os poderosos e os que se julgam poderosos? Porque é "o maior corruptor da história". Simples assim.
Eliane Cantanhêde
BRASÍLIA - As pessoas comuns parecem unânimes contra Daniel Dantas, mas os poderes, os poderosos e os que se julgam poderosos se mostram furiosamente divididos em função dele e de sua prisão.
No governo, José Dirceu era pró-Daniel Dantas, e o também ministro Luiz Gushiken, anti. E ambos eram do Conselho Político de Lula. Durma-se com um barulho desses. Desde então, a divisão pró e anti-Dantas avançou pelo PT, chegou aos Poderes -e alimenta e é alimentada por blogs ditos independentes.
Comenta-se que há jornalistas se matando, uns a favor, outros contra o megabanqueiro baiano-carioca e tucano-petista. Diante das prisões dele, de sua irmã e de toda a cúpula do Opportunity, ao lado do ex-prefeito Celso Pitta e do eterno megainvestidor Naji Nahas (diz-me com quem andas...), as divisões explodem.
A Polícia Federal e a Procuradoria decidem contra Daniel Dantas, e o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, a favor, vociferando contra a "espetacularização" da prisões. Dantas acabou dividindo a própria Justiça, que evoluiu num balé prende-e-solta. Num dia, manda prender. No seguinte, manda soltar. No terceiro dia, prende de novo. E o que foi mais espetacular: a prisão de Dantas ou a decisão de Mendes de soltá-lo?
Enquanto isso, no Senado, Heráclito Fortes e Tasso Jereissati abrem o vozeirão para recriminar a prisão, e Pedro Simon faz caras, bocas e principalmente gestos em apoio à ação da PF.
O próprio PT dividiu-se entre os com e os sem-jantares com Daniel Dantas. Uns não param de se justificar, os outros ficaram subitamente sem voz. Perdida como cego no tiroteio de ministros, delegados, juízes, blogueiros, tucanos e petistas, a senadora Ideli Salvatti teve um lampejo acaciano.
Sabe por que Daniel Dantas divide o poder, os poderosos e os que se julgam poderosos? Porque é "o maior corruptor da história". Simples assim.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

QUANTO VALE UM BARRIL?
Clóvis Rossi
OSAKA - Diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser "inconcebível" que o preço do petróleo ande aí pelas alturas de US$ 140 o barril.
Clóvis Rossi
OSAKA - Diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser "inconcebível" que o preço do petróleo ande aí pelas alturas de US$ 140 o barril.
Sempre haverá quem ache que o presidente teve uma recaída e incorporou o caboclo sindicalista azedo e resmungão de tempos que não voltam mais.
Nada disso. Basta ler o que escreveu ontem Junichi Abe, redator-sênior do jornal "Yomiuri Shimbun", que não é órgão oficial de algum partido comunista: "A indústria do petróleo acredita que o preço do petróleo tecnicamente deveria estar entre US$ 70 e US$ 80 por barril, segundo cálculos baseados nos custos de produção e gerenciamento. A indústria acredita que fundos especulativos são responsáveis pelo fato de as forças de mercado terem puxado o petróleo muito além desse nível".
Muito bem. Se o presidente George Walker Bush acha mesmo que a culpa pela disparada de preços dos alimentos é do petróleo caro, se o petróleo está caro, ao menos em parte, pela especulação nos mercados futuros, o lógico seria tentar pôr algum tipo de limite à especulação, certo? Certo apenas para a sabedoria convencional. Para Bush, é errado mexer com as tais forças de mercado. De fato, não é uma ação fácil nem indolor, como diz Anatole Kaletsky, colunista do britânico "The Times": "A questão já não é se os preços do petróleo devem ser deixados a cargo do mercado, mas se intervenções políticas que atropelem as forças de mercado melhorarão ou piorarão a situação".
É uma dúvida relevante, para a qual a resposta só virá na eventualidade de ocorrerem as "intervenções políticas". Por ora, o que se sabe é que a alta combinada do petróleo e dos alimentos levou mais 100 milhões de pessoas à fome, nos cálculos de Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial, que está longe de ser um fanático do intervencionismo estatal.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

DEMOCRACIA E DIREITOS SOCIAIS
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
Em uma democracia moderna, o poder político, sobre ser exercido direta ou indiretamente pelo povo, deve ser empregado em seu benefício. Esse postulado foi enunciado por Péricles no século V a.C. quando afirmou que Atenas era uma democracia porque seu governo beneficiava os muitos e não os poucos. Uma democracia, a ateniense, direta é certo, mas na qual o povo era constituído apenas pelos homens com mais de 20 anos – excluídos as mulheres, os escravos, os estrangeiros.
No século 18, um mínimo de suficiência econômica pareceu condição essencial ao exercício do voto. Hamilton afirma em O federalista que "um poder sobre a subsistência de um homem equivale a um poder sobre sua vontade". E Kant considerou em A ciência do direito que o voto "pressupõe a independência ou auto-suficiência do indivíduo". Por isso a propriedade foi qualificação necessária à cidadania ativa, negada aos escravos, mulheres e despossuídos.
No século 19, a democracia foi estendida ao econômico-social, de modo a evitar que abrigasse, ou até estimulasse, desigualdades e injustiças impedindo ou viciando a liberdade política. Para Mill, a liberdade e a igualdade devem abarcar todos os homens e mulheres, independentemente de berço, raça, título ou fortuna. Antecipando-se aos direitos sociais contemporâneos, ele afirma: "Não deve haver párias em uma nação civilizada e madura. Nem pessoas desqualificadas, salvo por sua própria culpa". O socialismo prosperou nesse caldo de cultura, radicalizado por Marx (1875) em extremado igualitarismo, expresso no conhecido lema "de cada um segundo sua capacidade a cada um segundo suas necessidades".
Como desdobramento dessa evolução conceitual, passou-se a pleitear do Estado um sistema de ensino tão universal quanto o direito do voto, além de capaz de assegurar um padrão mínimo de escolaridade a todos. Somente a "educação liberal" – liberal porque voltada para formar o bom julgamento e a consciência crítica, ou seja, a inteligência do homem livre – poderia preparar o indivíduo ao exercício da cidadania. A Constituição brasileira, que completa 20 anos neste 2008, contempla amplamente esse e outros direitos sociais em seu generoso texto – tão generoso nos fins que comina quanto desatento em prover os meios para alcançá-los.
A filosofia política contemporânea enfatiza o exame da legitimidade e permanência da democracia e dos direitos sociais na sociedade "pós-metafísica". Ela rejeita o direito natural e vivencia profunda crise do espírito. O advento em governos populares, republicanos e representativos do nazismo e fascismo demonstrou o quanto equivocadas podem ser as escolhas eleitorais e os acordos políticos e quão frágeis são as democracias.
Dois destacados pensadores, John Rawls (Uma teoria da justiça, 1999) e Jürgen Habermas (Direito e democracia, 1997) dedicaram-se a esse tema. Suas idéias convergem. Para eles, o direito e a justiça fundamentam-se na autonomia moral dos cidadãos, nascem da cooperação e interação entre eles e se estabilizam em clima de liberdade e igualdade onde o uso da razão se orienta para o bem público. Cidadãos autônomos, agindo coletivamente, tornam-se intersubjetivamente responsáveis pelos princípios e normas a que eles individualmente se submetem. Devem movê-los a visão de seu próprio bem (do que é bom para eles) e o sentimento de justiça (sendo diferente do bom, o justo deve ser prioritário).
Para fortalecer as democracias não basta a vigência plena do Estado de Direito. Uma cultura política democrática e uma sociedade civil ativa e emancipada do Estado são igualmente necessárias. Elas são o espaço público da justificação que valida e legitima a moral, as leis e a justiça. Para Rawls e Habermas, a democracia é proposta de vida ética visando à realização do potencial de cada um em clima de dignidade e segurança. A Constituição deve ser o projeto de um Estado de Direito radicalizado pela democracia. A comunidade de princípios que assim se forma não se baseia em identidade compartilhada, mas na diversidade e pluralidade de modos de ser, ver, sentir e pensar que florescem com a liberdade. As liberdades fundamentais devem ser vistas em seu conjunto, colocando num mesmo plano os direitos políticos, civis e sociais.
» Roberto Cavalcanti de Albuquerque, ensaísta, é diretor do Instituto Nacional de Altos Estudos, Inae-Fórum Nacional (Rio de Janeiro)
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
Em uma democracia moderna, o poder político, sobre ser exercido direta ou indiretamente pelo povo, deve ser empregado em seu benefício. Esse postulado foi enunciado por Péricles no século V a.C. quando afirmou que Atenas era uma democracia porque seu governo beneficiava os muitos e não os poucos. Uma democracia, a ateniense, direta é certo, mas na qual o povo era constituído apenas pelos homens com mais de 20 anos – excluídos as mulheres, os escravos, os estrangeiros.
No século 18, um mínimo de suficiência econômica pareceu condição essencial ao exercício do voto. Hamilton afirma em O federalista que "um poder sobre a subsistência de um homem equivale a um poder sobre sua vontade". E Kant considerou em A ciência do direito que o voto "pressupõe a independência ou auto-suficiência do indivíduo". Por isso a propriedade foi qualificação necessária à cidadania ativa, negada aos escravos, mulheres e despossuídos.
No século 19, a democracia foi estendida ao econômico-social, de modo a evitar que abrigasse, ou até estimulasse, desigualdades e injustiças impedindo ou viciando a liberdade política. Para Mill, a liberdade e a igualdade devem abarcar todos os homens e mulheres, independentemente de berço, raça, título ou fortuna. Antecipando-se aos direitos sociais contemporâneos, ele afirma: "Não deve haver párias em uma nação civilizada e madura. Nem pessoas desqualificadas, salvo por sua própria culpa". O socialismo prosperou nesse caldo de cultura, radicalizado por Marx (1875) em extremado igualitarismo, expresso no conhecido lema "de cada um segundo sua capacidade a cada um segundo suas necessidades".
Como desdobramento dessa evolução conceitual, passou-se a pleitear do Estado um sistema de ensino tão universal quanto o direito do voto, além de capaz de assegurar um padrão mínimo de escolaridade a todos. Somente a "educação liberal" – liberal porque voltada para formar o bom julgamento e a consciência crítica, ou seja, a inteligência do homem livre – poderia preparar o indivíduo ao exercício da cidadania. A Constituição brasileira, que completa 20 anos neste 2008, contempla amplamente esse e outros direitos sociais em seu generoso texto – tão generoso nos fins que comina quanto desatento em prover os meios para alcançá-los.
A filosofia política contemporânea enfatiza o exame da legitimidade e permanência da democracia e dos direitos sociais na sociedade "pós-metafísica". Ela rejeita o direito natural e vivencia profunda crise do espírito. O advento em governos populares, republicanos e representativos do nazismo e fascismo demonstrou o quanto equivocadas podem ser as escolhas eleitorais e os acordos políticos e quão frágeis são as democracias.
Dois destacados pensadores, John Rawls (Uma teoria da justiça, 1999) e Jürgen Habermas (Direito e democracia, 1997) dedicaram-se a esse tema. Suas idéias convergem. Para eles, o direito e a justiça fundamentam-se na autonomia moral dos cidadãos, nascem da cooperação e interação entre eles e se estabilizam em clima de liberdade e igualdade onde o uso da razão se orienta para o bem público. Cidadãos autônomos, agindo coletivamente, tornam-se intersubjetivamente responsáveis pelos princípios e normas a que eles individualmente se submetem. Devem movê-los a visão de seu próprio bem (do que é bom para eles) e o sentimento de justiça (sendo diferente do bom, o justo deve ser prioritário).
Para fortalecer as democracias não basta a vigência plena do Estado de Direito. Uma cultura política democrática e uma sociedade civil ativa e emancipada do Estado são igualmente necessárias. Elas são o espaço público da justificação que valida e legitima a moral, as leis e a justiça. Para Rawls e Habermas, a democracia é proposta de vida ética visando à realização do potencial de cada um em clima de dignidade e segurança. A Constituição deve ser o projeto de um Estado de Direito radicalizado pela democracia. A comunidade de princípios que assim se forma não se baseia em identidade compartilhada, mas na diversidade e pluralidade de modos de ser, ver, sentir e pensar que florescem com a liberdade. As liberdades fundamentais devem ser vistas em seu conjunto, colocando num mesmo plano os direitos políticos, civis e sociais.
» Roberto Cavalcanti de Albuquerque, ensaísta, é diretor do Instituto Nacional de Altos Estudos, Inae-Fórum Nacional (Rio de Janeiro)
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

DEPOIS DE INGRID
Demétrio Magnoli
No dia do resgate de Ingrid Betancourt, quase todos, incluindo Hugo Chávez, felicitaram o governo colombiano pelo feito que realizou. Não o Brasil. Franklin Martins, conduzido ao cargo de secretário da Verdade Oficial por ter, como jornalista, negado as evidências do mensalão, preparou uma nota em tons fúnebres na qual o presidente Lula “manifestou satisfação” com a notícia e enviou “seu abraço fraternal” aos reféns libertados, mas não mencionou o governo da Colômbia. Horas depois, o ministro Celso Amorim engajou-se numa operação de contenção de danos, anunciando que Lula telefonaria ao presidente Álvaro Uribe para cumprimentá-lo.
Demétrio Magnoli
No dia do resgate de Ingrid Betancourt, quase todos, incluindo Hugo Chávez, felicitaram o governo colombiano pelo feito que realizou. Não o Brasil. Franklin Martins, conduzido ao cargo de secretário da Verdade Oficial por ter, como jornalista, negado as evidências do mensalão, preparou uma nota em tons fúnebres na qual o presidente Lula “manifestou satisfação” com a notícia e enviou “seu abraço fraternal” aos reféns libertados, mas não mencionou o governo da Colômbia. Horas depois, o ministro Celso Amorim engajou-se numa operação de contenção de danos, anunciando que Lula telefonaria ao presidente Álvaro Uribe para cumprimentá-lo.
O resgate dos reféns representou uma derrota política para Chávez e Lula. O caudilho venezuelano empenhava-se em intercambiar Betancourt pelo reconhecimento da guerrilha degenerada como parte beligerante. Lula, obviamente, não compartilha a visão chavista da restauração “bolivariana” da Grã-Colômbia, mas também buscava um caminho para evitar a falência completa das Farc. Secretamente, por meio dos contatos do PT com a direção das Farc, o governo brasileiro tentava articular a entrega dos reféns a Lula. Há poucas semanas, esse desfecho parecia iminente a seus promotores. Agora, saudando Uribe pelo resgate, Chávez ameniza os danos à sua imagem. A nota incompetente e ideológica de Franklin Martins, ao contrário, ilumina a política fracassada que deveria permanecer no escuro.
A nota do Brasil expressou o desejo de “reconciliação de todos os colombianos”, senha que equivale à solicitação de negociações com as Farc. A versão explícita está na nota emitida pelo PT, que declara apoio à “inserção dos guerrilheiros e de seus simpatizantes na vida pública” por meio de “uma saída pacífica negociada para este conflito que dura décadas, com raízes sociais e políticas profundas”. A fórmula reverbera a política da nova direção das Farc, mas significa o oposto do que decidiram os colombianos em duas eleições sucessivas. Democraticamente, a Colômbia renunciou à opção, já experimentada, de negociações com as Farc. Seu governo oferece perdão aos que depuserem as armas, mas promete processar os chefes do grupo associado ao narcotráfico e responsável por violações continuadas dos direitos humanos.
Capturada pelos ideólogos petistas, a política sul-americana do Brasil insiste em desconhecer a existência de um Estado soberano e democrático na Colômbia. A nota oficial não faz menção a esse Estado, enquanto a nota do PT indica que as almejadas negociações com as Farc propiciariam “a construção de instituições democráticas profundamente renovadas” no país vizinho. É uma curiosa solicitação, emanada de um partido que jamais usa a palavra democracia quando se refere a Cuba e que aplaudiu, formalmente, a cassação de uma emissora de TV na Venezuela.
A trajetória que culminou com o resgate se iniciou pelo ataque à base do número 2 das Farc, Raúl Reyes, no lado equatoriano da fronteira. Depois daquilo, acossada pela forças do governo, a guerrilha experimentou um processo de fragmentação que continua a se desenrolar. A cinematográfica versão oficial sobre o resgate deve ser lida como o capítulo público de uma história mais complexa, coberta pelo sigilo típico das ações de inteligência. Há indícios de que o resgate envolveu um ato de traição de dirigentes das Farc que se descolam do controle de seus chefes. A Colômbia conseguiu tudo isso enfrentando um isolamento diplomático regional imposto por Chávez e pelo equatoriano Rafael Correa.
As estratégias do PT seriam pouco relevantes se não se infiltrassem, através do assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, na política externa brasileira. Ao participar, na condição de coadjuvante, da operação de isolamento do governo colombiano, o Brasil trocou os interesses nacionais permanentes pelos delírios ideológicos que atravessam um partido incapaz de romper com o castrismo e o chavismo. As duas metas geopolíticas mais antigas do Brasil na América do Sul são evitar tanto uma coalizão antibrasileira de Repúblicas hispânicas quanto uma destacada presença militar de potências externas nos países vizinhos. O tratamento dispensado até aqui pelo governo Lula a Uribe empurra a Colômbia para uma aliança cada vez mais exclusiva com os EUA.
Os ideólogos petistas condenam os seqüestros promovidos pelas Farc, mas suas análises políticas sobre a América Latina se organizam sobre os mesmos conceitos e a mesma linguagem utilizados pelo grupo de origens stalinistas. Ofuscados por um antiamericanismo anacrônico, eles são impotentes para compreender que o governo Uribe lastreia a sua popularidade na realização de um programa de reconstrução da Colômbia. Quando Uribe assumiu a presidência, o Estado colombiano havia perdido o monopólio da violência legítima, que é a base da vida das nações.
Hoje, sob a vigência das liberdades públicas, os grupos paramilitares de extermínio foram desarticulados e as Farc se encontram nos seus estertores. Há muito a ser feito num país onde sindicalistas ainda são assassinados periódica e impunemente. Mas os colombianos recuperaram a possibilidade de viver numa comunidade política assentada sobre regras democráticas.
A Colômbia encontra-se diante de uma nova encruzilhada. A iniciativa de setores próximos a Uribe de patrocinar um terceiro mandato presidencial não deve ser identificada ao referendo constitucional chavista do ano passado, no qual se pretendia nada menos que implantar uma ditadura na Venezuela. Mas a emergência de um caudilhismo uribista solaparia as instituições democráticas na Colômbia e serviria como pretexto perfeito para o relançamento do projeto ditatorial de Chávez. O governo brasileiro, que nada viu de errado na pretensão do venezuelano, está impedido de se pronunciar sobre o ensaio continuísta colombiano.
*Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SONHO DE VERÃO
Eliane Cantanhêde
Eliane Cantanhêde
BOGOTÁ - A sensação aqui na Colômbia é que não são apenas as Farc que estão se desmilingüindo. As oposições também.
O senador Gustavo Petro, do Pólo Democrático Alternativo, discorda firmemente. Também, pudera. Aos 48 anos, ele é a estrela oposicionista em ascensão e figura nas pesquisas como um dos presidenciáveis potenciais para 2010. Petro se apoia em um tripé:
1 - Sem Uribe na disputa, os cinco primeiros nomes em intenções de voto eram independentes e do Pólo, dispostos a marchar numa frente democrática e oposicionista onde Ingrid Betancourt, por exemplo, poderia brilhar. Juntos, eles tinham 35% nas pesquisas anteriores à ação espetacular de resgate dos reféns. Perderam circunstancialmente, mas vão se recuperar.
2 - O presidente Álvaro Uribe, duro, de direita e alinhado incondicionalmente a Washington, é resultado direto das Farc. Farc fortes, Uribe forte. Com as Farc em declínio, Uribe perde o discurso e, ao longo do tempo, pode perder até mesmo o sentido. Além de correr o risco de ficar sem os bilhões de dólares norte-americanos.
3 - Sem o foco único do combate à guerrilha, que domina tudo e todos, o povo vai naturalmente voltar a cobrar o que todo povo cobra, em especial aqui na América Latina: mais empregos e menos custo de vida.
Aparentemente, está acontecendo o contrário.
Por enquanto, são sonhos de verão de uma oposição acuada e que não sabe para onde correr. O fato concreto na política colombiana hoje é que Uribe está com a faca e o queijo na mão para mudar a Constituição mais uma vez e disputar o terceiro mandato. Na pesquisa Gallup de ontem, sua popularidade bateu em 85% -um recorde.
Mas não custa repetir que, em política, mais ainda do que em todo o resto, nunca se sabe o dia de amanhã. Muita água ainda pode rolar até as eleições de 2010. E espera-se que só água, não tiros.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

CLIMA, PREÇOS E REALISMO
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi
HOKKAIDO - Coube ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva injetar uma certa dose de realismo na reunião de cúpula entre o G5 (Brasil, China, Índia, África do Sul e México) e o G8, o exclusivo clubão dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia.
Começou lendo tabela sobre quanto cada país relevante emite de CO2 (gás carbônico), um dos gases que causam o efeito estufa e, por extensão, o aquecimento global, o grande fantasma para o futuro do planeta.
E terminou pondo na sala de debates a palavra "especulação" para se referir a uma das causas da disparada de preços do petróleo e dos alimentos, o grande fantasma no presente do planeta.Não que a tabela que Lula leu seja novidade. Os dados são de 2005.
Foram coletados por um instituto norte-americano de energia, o que retira da iniciativa do presidente uma eventual suspeita de que estivesse querendo proteger o Brasil.Os EUA são, sabidamente, o maior emissor de gases, o que o levantamento confirma.
Até agora, no entanto, países ricos e pobres ficavam discutindo o fantasma na base de "se você fizer, eu faço. Se não, nada feito". E nada se fazia mesmo. Agora, diz Lula, deve-se armar uma "base numérica real" a partir da qual formular cursos de ação.
Quanto à especulação, é uma palavra quase tabu na mesa dos grandes. Tanto que, na cúpula do G8 de 2007, Angela Merkel, a chanceler alemã, queria que o G8 adotasse uma regulação mais rígida e um código de conduta (voluntário) para os agentes dos mercados financeiros. Foi derrotada e o assunto sumiu da agenda.
Lula (e também o presidente mexicano Felipe Calderón) o recolocou ontem. Como seus discursos serão (ou não) aceitos dirá muito sobre a perspectiva de uma efetiva mudança (ou não) na diretoria econômica do planeta.
DEU EM O GLOBO

DEUS FEZ A SUA PARTE
Carlos Alberto Sardenberg
Carlos Alberto Sardenberg
Visto de fora, com a vantagem da distância que embaça os detalhes, o Brasil parece muito bem. Visto em perspectiva global, parece excepcionalmente bem.
De que o mundo precisa e vai continuar precisando? No essencial, de alimentos e energia. Ora, o Brasil já é grande produtor e exportador de alimentos, tem terras e capacidade para melhorar sua posição. Energia, o país já tem para o gasto, ou quase, e pode se tornar grande fornecedor mundial.
Há aqui, aliás, outra combinação que favorece o Brasil. O mundo quer também energia verde - e o país já tem desenvolvida a capacidade de produção do etanol da cana-de-açúcar.
É verdade que essa energia tem alcance limitado. Nem plantando toda a terra agricultável do mundo com cana seria possível produzir o etanol necessário para mover a frota mundial de automóveis. O etanol será mistura para a gasolina. Vai daí que o petróleo continuará sendo a principal fonte para os carros, assim como para a indústria global. Tudo bem, a mão de Deus colocou o Brasil nesse jogo.
Pelo que apontam as recentes descobertas de óleo na camada de pré-sal, o país poderá ser um exportador importante de petróleo já por volta de 2015. Conforme as estimativas de técnicos da Petrobras, não seria difícil alcançar vendas externas líquidas de 1 milhão de barris/dia. Mas, leitores e leitoras terão reparado, é tudo na base do "pode ser". Há países não abençoados por Deus, com escassos recursos, que souberam crescer e enriquecer. Japão e Coréia do Sul, por exemplo.
E não é preciso procurar muito para encontrar nações abençoadas mergulhadas em guerras, atraso e miséria. Ou com um crescimento lento e mal distribuído.
Eis uma boa comparação: Israel, sem uma gota de petróleo, com pouca terra boa para plantar, em meio a um deserto, tem uma renda per capita em torno de US$23 mil. É quase o dobro da Arábia Saudita (US$13 mil/ano), entretanto, a maior produtora e exportadora mundial de petróleo. E ainda tem gás, minério de ferro, ouro e cobre.
A história mostra que não é fácil transformar recursos naturais em riqueza da qual as pessoas possam desfrutar. E quando um país consegue combinar a bênção da Natureza com a capacidade da população e a sabedoria de seus líderes, simplesmente decola, como aconteceu com os EUA.
Portanto, o problema brasileiro hoje é como lidar com toda essa potencialidade. O primeiro desafio é não começar a brigar desde já por uma riqueza que ainda não existe.
Qual nosso problema principal? Mobilizar investimentos.
Tome-se o caso do petróleo. Sabe-se onde está e já se conhece, no essencial, a tecnologia necessária para retirá-lo de lá. Mas para fazer isso é preciso construir/ comprar/ alugar sondas, navios, oleodutos, gasodutos e refinarias. Além de formar e contratar o pessoal.
Haja capital.
Há capital no Brasil, mas está longe, muito longe de ser o suficiente. Serão necessários investimentos estrangeiros de porte. Logo, o modelo de exploração precisa atrair o investidor e garantir que a empresa bem-sucedida no negócio poderá fazer e levar o lucro para seus acionistas.
Após a descoberta dos novos campos, o governo brasileiro passou a discutir não exatamente o modelo de exploração, mas quanto disso tudo - que ainda não existe - vai ficar para o Estado. Governos estaduais e prefeituras já cobiçam essa mesma riqueza do futuro.
Já se discute sobre uma nova estatal, por exemplo, que seria a dona exclusiva dos novos campos. Mau começo.
Mesmo porque o atual modelo - leilão e concessão de campos - já se mostrou muito eficiente no que é necessário, aumentar investimentos, nacionais e internacionais, e a produção.
Mas os novos campos vão dar muito dinheiro, comenta-se, não é possível deixar tudo isso para os gringos ou para os capitalistas nacionais. Mas quanto maior o lucro, mais impostos o governo recolhe. E para fazer o lucro, são necessários os investimentos que geram desenvolvimento, emprego e renda aqui mesmo.
Em resumo, é preciso abrir espaço e criar condições para o investimento privado, nacional e internacional, e estatal, da Petrobras.
Quanto aos alimentos? Aí é mais fácil. A terra está aí, é só criar condições para a expansão do agronegócio. Quase se poderia dizer: não atrapalhar o agronegócio.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.
DEU EM O GLOBO

QUANDO A POLÍCIA MATA...
Julita Lemgruber
Julita Lemgruber
Em 2001 o condado de Los Angeles foi obrigado pela Justiça a pagar cerca de sete milhões de dólares em indenizações a vítimas de violência policial - que incluíam desde 12 pessoas mortas pela arma de um policial até 22 submetidas a "força excessiva", mesmo sem seqüelas duradouras, em alguma ação da polícia. Seis anos depois, o condado desembolsava em indenizações desse tipo cerca de três milhões de dólares, ou seja, menos da metade da quantia anterior. E as 5 vítimas letais da polícia em 2007 também representavam menos da metade do número registrado em 2001.
O que mudou ao longo desses anos? O governo de Los Angeles contratou os serviços de Merrick Bobb, conhecido e respeitado advogado, para atuar como auditor independente e monitorar as ações da polícia local. Desenvolveu-se no condado um sistema de controle do disparo de arma de fogo, em que cada policial deve registrar, ao final do dia, cada tiro disparado e até mesmo cada vez que a arma foi sacada do coldre. Tornou-se obrigatório relatar minuciosamente os fatos que motivaram o uso da arma, e também outros incidentes em que se avalie ter havido emprego excessivo da força, sendo tais relatórios revistos pelas chefias e discutidos com os policiais.
Na década de 1990 várias cidades norte-americanas tiveram de pagar indenizações milionárias a vítimas de violência policial. De Nova York a Filadélfia, de Detroit a Los Angeles, centenas de milhões de dólares dos contribuintes foram gastos com isso. Apenas como exemplo, uma pessoa mordida por um cão da polícia recebeu indenização de 100 mil dólares. Como reconhecem estudiosos das polícias dos EUA, a sangria de recursos provocada por ações judiciais dessa natureza foi um estímulo decisivo à adoção, em várias partes do país, de estratégias de controle externo voltadas explicitamente para reduzir a violência e a corrupção policiais. O princípio que está por trás é muito simples: em cada episódio de abuso, excesso ou desvio, a culpa não recai apenas sobre os agentes diretamente envolvidos nem só sobre os seus superiores imediatos, mas também sobre o estado, município ou condado responsável pela polícia e pela política de segurança. Quando esse princípio se traduz em responsabilização judicial e em pesado ônus financeiro, cria-se uma forte motivação para que os governos invistam efetivamente na mudança de comportamento dos seus policiais.
A espantosa continuidade dos episódios de violência policial no Rio de Janeiro mostra a urgência de responsabilizarmos as autoridades fluminenses pelos resultados da sua opção por uma política de confronto como suposto método de redução da criminalidade. Não basta mais culpar apenas os policiais individualmente nem o seu treinamento precário. É preciso admitir que a morte de tantos inocentes, inclusive crianças pequenas - como Ramon, de 6 anos, na Favela do Muquiço, e João Roberto, de 3, metralhado na Tijuca - decorre da mesma política que tem provocado centenas de mortes, nunca suficientemente investigadas, de reais ou pretensos bandidos.
Policiais devem imediatamente passar por treinamento intensivo em técnicas de abordagem e sua ação nas ruas deve começar urgentemente a ser monitorada nos moldes do que se começou a fazer em muitas cidades dos Estados Unidos e da Europa, por meio de mecanismos de controle externo independentes e autônomos. Mas, para que isso saia do discurso e chegue à prática, é necessário, entre outras coisas, responsabilizar judicialmente o Estado, obrigando-o ao pagamento de altas indenizações, que não fiquem nas filas dos precatórios, pelas vítimas letais e não letais da violência que ele incentiva com a sua política belicista. Se considerarmos que a polícia fluminense matou, só no ano de 2007, 1.330 pessoas em alegados confrontos, sem contar as que deixou seriamente feridas, poderemos imaginar o montante de indenizações a serem pagas caso essa polícia atuasse em Los Angeles.
JULITA LEMGRUBER é socióloga e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC/UCAM).

NA ESTATÍSTICA, MORRE QUEM RESISTE À PRISÃO
Maria Inês Nassif
Chamar a operação policial que resultou na morte de João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, de "desastrosa", como o fez a Secretaria de Segurança Pública do Rio, é usar de um cruel eufemismo. Os desastres da política de segurança pública do Rio se repetem incansavelmente, governo após governo. A violência policial não é um fenômeno exclusivamente fluminense, isso é inegável, mas os números mostram que a vitimização da população "civil" (aquela que não é polícia, nem militar, nem bandida) no Estado atinge proporções assustadoras. Em 2007, segundo dados oficiais, a polícia matou cerca de 1300 pessoas no Estado do Rio; todas essas mortes foram classificadas como "resistência seguida de morte" e poucas resultaram em algum tipo de investigação dos envolvidos. É a polícia que mais mata no mundo.
Segundo relatório de 2007 da Anistia Internacional, nos anos de governo dos Garotinho (Anthony, de 1999 a 2001; Rosinha, de 2003 a 2006) a taxa de homicídios manteve a média de 6 mil assassinatos por ano; as mortes por ações policiais ficaram em cerca de mil anuais. As ocorrências registradas como "resistência seguida de morte" eram próximas a 300 em 1997 - marido e mulher mais do que triplicaram esses números. A Anistia Internacional também aponta a grande expansão de áreas controladas por milícias formadas por policiais, guardas prisionais e bombeiros fora de serviço no último ano do governo Rosinha, quando esses grupos conquistaram, no enfrentamento, áreas dominadas pelo tráfico. No último mês de 2006, as milícias controlavam 92 das 500 favelas da cidade. Sérgio Cabral, em seu primeiro ano de governo, superou a marca dos Garotinho em pessoas mortas em operações policiais. As milícias continuam onde estavam.
Para efeito de estatística, João Roberto, com seus três anos de idade, foi morto porque resistiu à prisão. Até pouco tempo, eram assim considerados também as vítimas de balas perdidas, em confrontos entre policiais e bandidos. A operação policial que resultou na morte do menino, e todas as outras que tingiram de sangue as páginas policiais dos jornais, são a prova da fragilidade da população "civil" frente a uma autonomia cada vez maior das forças de segurança - fruto de uma política militarista de segurança, da impunidade dos policiais e do apoio de parcela da sociedade a ações altamente ofensivas, desde que restritas geograficamente a regiões mais pobres.
O alto índice de criminalidade do Rio e o controle de favelas pelo tráfico, de um lado; e de outro o apelo de setores conservadores por medidas repressivas radicais, capazes de cortar "pela raiz" as razões da insegurança, transformaram a segurança pública do Rio em um instrumento de ação política. As grandes operações policiais e militares, que resultam na ocupação e isolamento de populações inteiras de favelas por dias, têm sido a resposta dada pelos governos à população que não mora nas favelas. Há um seccionamento sistemático das duas clientelas políticas. A violência policial, todavia, as une. Hoje, uma criança de classe média é vulnerável a uma ação policial assim como uma criança que mora na favela (embora existam mais chances do morador de favela ser atingido).
Grandes operações são apenas shows
Ignacio Cano, em estudo de 1997 ("Letalidade da ação policial no Rio de Janeiro"), faz um levantamento dos registros de óbito na capital entre janeiro de 1993 a julho de 1996 e chega a outros números que comprovam a truculência da ação policial. Segundo ele, os "opositores" mortos em ações policiais foram da ordem de 242; os feridos, 410; e os que escaparam ilesos, 294. Isto é, em operações teoricamente destinadas a prender transgressores da lei, a regra seguida pela polícia é matar. A maioria das vítimas morreu antes de chegar ao hospital. A análise dos laudos cadavéricos mostra o uso excessivo da força ou aponta sinais de execução (quatro disparos ou mais; tiros letais, nas costas ou na cabeça, em vez de disparos para imobilizar o "opositor", nas pernas, por exemplo). Em vários dos casos de policiais que atiraram pelas costas das vítimas, eles foram promovidos por bravura. Tanto no Rio como em São Paulo, segundo a Anistia, não mais do que 1% das ocorrências de morte em ações policiais vão a tribunais.
Os governos sucessivos do Rio não fizeram uma política de segurança eficiente - aliás, sequer chegaram a formular efetivamente políticas de segurança -, não controlaram suas polícias nem atenderam as populações carentes que precisam da presença física do Estado nas suas comunidades sob pena de ficarem reféns de traficantes ou milicianos. Para escamotear a ineficiência, o poder público do Estado dissemina a idéia de que polícia boa é aquela que atua "com rigor"; que política de segurança é operação militar em favela; que "bravura" policial é dar tiro nas costas. O Rio chega, dessa forma, a uma situação insustentável. O Estado, e em particular sua capital, são a prova mais acabada de que truculência, em segurança pública, não é sinônimo de eficiência. E que os shows pirotécnicos das grandes operações policiais-militares são apenas isso - shows pirotécnicos.
Geraldo Kassab
Cometi o erro, na coluna de 3/7, de chamar o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de Geraldo Kassab - à la vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman, misturei o nome do prefeito e candidato à reeleição pelo DEM e o do candidato tucano, Geraldo Alckmin. Peço desculpas a ambos.
Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
Maria Inês Nassif
Chamar a operação policial que resultou na morte de João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, de "desastrosa", como o fez a Secretaria de Segurança Pública do Rio, é usar de um cruel eufemismo. Os desastres da política de segurança pública do Rio se repetem incansavelmente, governo após governo. A violência policial não é um fenômeno exclusivamente fluminense, isso é inegável, mas os números mostram que a vitimização da população "civil" (aquela que não é polícia, nem militar, nem bandida) no Estado atinge proporções assustadoras. Em 2007, segundo dados oficiais, a polícia matou cerca de 1300 pessoas no Estado do Rio; todas essas mortes foram classificadas como "resistência seguida de morte" e poucas resultaram em algum tipo de investigação dos envolvidos. É a polícia que mais mata no mundo.
Segundo relatório de 2007 da Anistia Internacional, nos anos de governo dos Garotinho (Anthony, de 1999 a 2001; Rosinha, de 2003 a 2006) a taxa de homicídios manteve a média de 6 mil assassinatos por ano; as mortes por ações policiais ficaram em cerca de mil anuais. As ocorrências registradas como "resistência seguida de morte" eram próximas a 300 em 1997 - marido e mulher mais do que triplicaram esses números. A Anistia Internacional também aponta a grande expansão de áreas controladas por milícias formadas por policiais, guardas prisionais e bombeiros fora de serviço no último ano do governo Rosinha, quando esses grupos conquistaram, no enfrentamento, áreas dominadas pelo tráfico. No último mês de 2006, as milícias controlavam 92 das 500 favelas da cidade. Sérgio Cabral, em seu primeiro ano de governo, superou a marca dos Garotinho em pessoas mortas em operações policiais. As milícias continuam onde estavam.
Para efeito de estatística, João Roberto, com seus três anos de idade, foi morto porque resistiu à prisão. Até pouco tempo, eram assim considerados também as vítimas de balas perdidas, em confrontos entre policiais e bandidos. A operação policial que resultou na morte do menino, e todas as outras que tingiram de sangue as páginas policiais dos jornais, são a prova da fragilidade da população "civil" frente a uma autonomia cada vez maior das forças de segurança - fruto de uma política militarista de segurança, da impunidade dos policiais e do apoio de parcela da sociedade a ações altamente ofensivas, desde que restritas geograficamente a regiões mais pobres.
O alto índice de criminalidade do Rio e o controle de favelas pelo tráfico, de um lado; e de outro o apelo de setores conservadores por medidas repressivas radicais, capazes de cortar "pela raiz" as razões da insegurança, transformaram a segurança pública do Rio em um instrumento de ação política. As grandes operações policiais e militares, que resultam na ocupação e isolamento de populações inteiras de favelas por dias, têm sido a resposta dada pelos governos à população que não mora nas favelas. Há um seccionamento sistemático das duas clientelas políticas. A violência policial, todavia, as une. Hoje, uma criança de classe média é vulnerável a uma ação policial assim como uma criança que mora na favela (embora existam mais chances do morador de favela ser atingido).
Grandes operações são apenas shows
Ignacio Cano, em estudo de 1997 ("Letalidade da ação policial no Rio de Janeiro"), faz um levantamento dos registros de óbito na capital entre janeiro de 1993 a julho de 1996 e chega a outros números que comprovam a truculência da ação policial. Segundo ele, os "opositores" mortos em ações policiais foram da ordem de 242; os feridos, 410; e os que escaparam ilesos, 294. Isto é, em operações teoricamente destinadas a prender transgressores da lei, a regra seguida pela polícia é matar. A maioria das vítimas morreu antes de chegar ao hospital. A análise dos laudos cadavéricos mostra o uso excessivo da força ou aponta sinais de execução (quatro disparos ou mais; tiros letais, nas costas ou na cabeça, em vez de disparos para imobilizar o "opositor", nas pernas, por exemplo). Em vários dos casos de policiais que atiraram pelas costas das vítimas, eles foram promovidos por bravura. Tanto no Rio como em São Paulo, segundo a Anistia, não mais do que 1% das ocorrências de morte em ações policiais vão a tribunais.
Os governos sucessivos do Rio não fizeram uma política de segurança eficiente - aliás, sequer chegaram a formular efetivamente políticas de segurança -, não controlaram suas polícias nem atenderam as populações carentes que precisam da presença física do Estado nas suas comunidades sob pena de ficarem reféns de traficantes ou milicianos. Para escamotear a ineficiência, o poder público do Estado dissemina a idéia de que polícia boa é aquela que atua "com rigor"; que política de segurança é operação militar em favela; que "bravura" policial é dar tiro nas costas. O Rio chega, dessa forma, a uma situação insustentável. O Estado, e em particular sua capital, são a prova mais acabada de que truculência, em segurança pública, não é sinônimo de eficiência. E que os shows pirotécnicos das grandes operações policiais-militares são apenas isso - shows pirotécnicos.
Geraldo Kassab
Cometi o erro, na coluna de 3/7, de chamar o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de Geraldo Kassab - à la vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman, misturei o nome do prefeito e candidato à reeleição pelo DEM e o do candidato tucano, Geraldo Alckmin. Peço desculpas a ambos.
Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
quarta-feira, 9 de julho de 2008
POESIA DO DIA

A ROSA DE HIROXIMA
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Quem é:
Diplomata, poeta, compositor, nasceu em 19/10/1913 e morreu em 9/7/1980.
Quem é:
Diplomata, poeta, compositor, nasceu em 19/10/1913 e morreu em 9/7/1980.
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1021&portal=
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1021&portal=
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

LEMBRAI-VOS DE 1932
Luiz Carlos Azedo
Luiz Carlos Azedo
O movimento gerou um bairrismo que acabou se voltando contra os paulistas, não foi capaz de unir São Paulo em torno de um mesmo projeto político
Virou lugar comum atribuir a São Paulo os desencontros da política nacional. O povoado foi fundado em 1553, por jesuíta Manoel do Nóbrega. Com a ajuda de José de Anchieta, do polígamo João Ramalho e de seu sogro, o cacique Tibiriçá, o povoado nasceu à margem do projeto oficial de colonização comandado por Mem de Sá e à revelia do Bispo Sardinha, aquele que foi comido pelos caetés (ou tupinambás, há controvérsias). Mas tornou-se o epicentro da vida econômica e social brasileira a partir da década de 50. Hoje, São Paulo supostamente decide os destinos políticos e sociais pela força do seu poder econômico e de seus 28 milhões de eleitores, ou seja, 22% dos 125 milhões de cidadãos aptos a participarem das eleições no país.
Duas derrotas
Manoel da Nóbrega queria interiorizar a empresa colonial, motivou a saga dos bandeirantes em busca das minas de ouro e diamantes e do contrabando na Bacia do Prata. O Tietê ajudava, rumava para o sertão. A primeira confusão foi a Guerra dos Emboabas (1707-1709), uma disputa pelo controle das jazidas de ouro das Minas Gerais. Comandados por Borba Gato, os bandeirantes queriam exclusividade para explorar as minas que haviam descoberto. Houve reação dos portugueses e imigrantes das demais partes do Brasil, sobretudo os baianos, pejorativamente apelidados de “emboabas” ( em tupi, aves pernaltas) por causa das pederneiras. Os bandeirantes foram derrotados num banho de sangue.
A segunda grande derrota dos paulistas foi Revolução Constitucionalista de 1932, que hoje é comemorada com toda pompa. É apresentada como se fosse um embate entre “constitucionalistas” e “fascistas”. A polarização militar eclodiu em 9 de Julho — e durou até 2 de outubro —, quando o país ainda vivia a ressaca da Revolução de 1930. Iniciou a radicalização política que resultou na Intentona Comunista de 1935, comandada pelo capitão Luís Carlos Prestes, e no Estado Novo, em 1937, que consolidou a ditadura Vargas. No fim da República Velha, a elite tradicional paulista, apesar de poderosa, estava isolada. Enfrentava a oposição das camadas médias, dos tenentes e das demais oligarquias do país, inclusive de Minas Gerais, com quem compartilhara o poder durante décadas.
Quem ganhou?
A defesa da Constituição de fato unia os paulistas. As oligarquias do PRP, o Partido Democrático, os comunistas e intelectuais paulistas, em torno da mesma palavra de ordem, defendiam interesses divergentes. O levante militar foi derrotado pelas forças federais e caracterizado como uma reação conservadora, que a antiga União Democrática Nacional (UDN) se encarregou de representar até 1964. Os paulistas foram irremediavelmente divididos pela Era Vargas. A década de 1930 acabou marcada pela reorganização do Estado, fruto da crise do poder oligárquico, o surgimento de novas camadas sociais e a urbanização, no contexto da reordenação da economia mundial após a recessão de 1929 e da II Grande Guerra. Quem saiu ganhando? As oligarquias, o novo empresariado ou a massa trabalhadora? É difícil avaliar.
A revolução de 1932 gerou um bairrismo que acabou se voltando contra os paulistas, não foi capaz de unir São Paulo em torno de um projeto político nacional. Com exceção da eleição de Jânio Quadros, em 1960, quando o PTB e o movimento sindical rifaram o general Lott e fizeram a dobradinha Jan-Jan (Jango na vice), São Paulo jamais marchou em bloco nas eleições presidenciais. Foi assim na vitória de Collor, que derrotou Ulisses Guimarães, Mário Covas e Lula em São Paulo. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso, cujos dois mandatos presidenciais não impediram a ascensão de Lula à Presidência. Está sendo assim com o governador José Serra, candidato à sucessão de Lula, que rachou o PSDB e se vê diante da ameaça de uma espetacular recuperação do PT nas eleições das grandes cidades paulistas, a começar pela capital. A divisão do país começa em São Paulo.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O NOVE DE JULHO
José Serra
José Serra
Recordar 1932 não é só remexer no velho baú da história. É mais que isso: é uma bela data da história do Brasil e de São Paulo
NA MINHA infância e adolescência, a Revolução Constitucionalista de 1932 era algo muito presente. Eu conhecia pessoas e tinha professores que haviam apoiado o movimento e até participado dos combates. No colégio estadual em que estudava, eram feitos trabalhos e exposições. A bandeira paulista era hasteada com orgulho. Até competições esportivas aconteciam, como a Volta Ciclística 9 de Julho, quando dezenas de ciclistas percorriam o Estado durante quase um mês.
As gerações foram se sucedendo, e a revolução foi caindo no esquecimento. Além do tempo, a ditadura pós-1964 contribuiu para esse apagamento histórico, pois não tinha nenhuma afinidade eletiva com a defesa das liberdades democráticas e de um regime constitucional. A comemoração do 9 de Julho foi se transformando em um ato desprovido de sentido, e o movimento de 1932, empurrado para uma espécie de limbo da história.
O fato é que a abordagem do significado histórico da revolução de 1932 -que representou a maior guerra já havida dentro do território brasileiro- ficou, numa primeira fase, prisioneira de uma armadilha ideológica.
Uns a identificaram com um suposto separatismo, coberto de antivarguismo, e um movimento saudoso da Primeira República. Outros, embora defendessem o 9 de Julho, o fizeram com teses reacionárias, o que facilitou a demonização do movimento. Mas a retomada de seus valores originários -a democracia e a liberdade-, dentro de suas complexidades e ambigüidades, tem merecido, felizmente, maior ênfase em anos recentes.
No seu início, o movimento não ficou restrito a São Paulo: contava com apoio em outros Estados. Mas as hesitações, de um lado, e a rápida ação do governo federal, do outro, acabaram isolando-o militarmente. Iniciada a guerra, as oposições civis nesses Estados foram silenciadas. Os interventores, nomeados pelo poder central, podiam ser demitidos a qualquer hora.
O isolamento paulista acabou permitindo que lhe fosse pespegada a pecha de "separatista". Em momento nenhum, porém, os líderes constitucionalistas apresentaram proposta nesse sentido. A ênfase do movimento foi a defesa intransigente da "reconstitucionalização" do país e a convocação de eleições livres, com voto secreto. O Brasil vivia sob um regime de exceção, a Constituição estava suspensa, o Judiciário, sem autonomia, e o Legislativo, desativado.
A promessa de convocação das eleições para a Assembléia Constituinte estava sob ameaça constante dos setores governamentais mais autoritários. Dizia-se a todo o momento que o calendário eleitoral proposto em fevereiro de 1932 não seria cumprido.
Os "tenentistas" de 1930 tinham plena consciência de que sua força política dependia da permanência do regime de exceção. A legalidade constitucional contrariaria seus propósitos, pois protegeria a liberdade de opinião, de organização partidária e de imprensa -muitos jornais tiveram suas sedes empasteladas, a exemplo do "Diário Carioca", em 1932.
Até então, em 110 anos de vida independente, o Brasil não vivera um regime de plena democracia representativa. No Segundo Reinado, tivéramos um parlamentarismo limitado, e grande parte da população livre era excluída das eleições. A Primeira República ampliara o censo eleitoral, mas sem adotar o voto secreto, facilitando fraudes eleitorais e desconhecendo direitos da oposição. Os acontecimentos de 1932, portanto, expressaram a continuidade da ruptura com a velha ordem -um brado contra as promessas não cumpridas, anunciadas em 3/10/30, no bojo da revolução que encerrara a República Velha.
É claro que existiam contradições, ambigüidades, no interior do movimento de 32 -setores mais conservadores se opunham a mudanças políticas que estavam ocorrendo. Não havia uma visão monolítica. Mas a hegemonia era exercida por setores identificados com valores democráticos, com a modernidade de então, e isso explica o amplo apoio obtido em todas as camadas sociais.
O livro "1932: Imagens de uma Revolução", do historiador Marco Villa, mostra, nos documentos e nas fotografias de passeatas, atos públicos e campos de batalha, a ampla configuração social e étnica dos participantes do movimento.
Boris Fausto, na introdução ao livro de Villa, aponta uma característica curiosa dos textos escritos no calor da hora da guerra paulista: "A voz amplamente dominante é a dos vencidos, e não a dos vencedores (...) Se [o movimento revolucionário] não passou, para os vencedores, de uma trágica rebeldia, foi, para os vencidos, um exemplo de participação dos cidadãos em defesa dos mais altos ideais". E se acabou obtendo a vitória na derrota, pois se impossibilitou que o vencedor postergasse o calendário eleitoral, garantindo-se as eleições de maio de 1933 para a instalação da Assembléia Nacional Constituinte.
O comandante militar da revolução foi um gaúcho, o general Bertoldo Klinger. No Vale do Paraíba, as tropas foram lideradas por um carioca, o coronel Euclydes Figueiredo. Havia batalhões com mineiros, baianos, pernambucanos. A participação da juventude dava ao movimento um ar de esperança na construção de um país democrático. Mais uma vez, estava sendo jogada a sorte do Brasil. Após a independência e a República, o desafio era o compromisso intransigente e inegociável com a democracia.
Enganam-se os que imaginam que recordar 1932 é simplesmente remexer no velho baú da história. É muito mais que isso: é uma bela data da história do Brasil e de São Paulo. Seus sinônimos são a liberdade, o voto secreto, a eleição livre, a independência dos três Poderes, a Constituição.
JOSÉ SERRA , 66, é o governador de São Paulo.
DEU EM O GLOBO
O TEATRO DO DOUTOR CABRAL CUSTA CARO
Elio Gaspari
Elio Gaspari
O que há no Rio de Janeiro não é uma crise da política de enfrentamento do governador Sérgio Cabral, é a crise da marquetagem do doutor Cabral. Montou-se um teatro, como se a política de segurança pública da cidade fosse um seriado de televisão. A bem da justiça, reconheça-se que nessa arte Cabral não é o único diretor de cena. É apenas o de maior desempenho.
Em menos de um mês a cidade teve três crimes chocantes. Todos envolveram agentes da ordem e neles se misturaram elitismo, demofobia e inépcia. O que faltou foi polícia.
Primeiro foi a chacina da Mineira. Um tenente e dez militares do Exército entregaram três cidadãos a uma quadrilha de traficantes e assassinos. À primeira vista, havia no Morro da Providência uma ação federal de segurança. Coisa de Nosso Guia. Muita gente boa parecia viver seu momento Tropa-de-elite: afinal o Exército subira o morro.
Teatro. O Exército dava segurança aos trabalhadores das empreiteiras (em cujo plantel o "movimento" tinha uma cota). Há dezenas de obras sem Exército nos morros do Rio. Se isso fosse nada, o desfile era parte do book do senador Marcelo Crivella.
O Comando do Leste confunde cidadãos com "elementos", mas vá lá. Difícil será entender por que escalava para o Morro da Providência um jovem tenente que morava nas fímbrias das favelas Águia de Ouro e Fazendinha, em Inhaúma. Um primo de sua mulher já estivera preso por tráfico de drogas. Não se deve julgar um oficial saído da Academia das Agulhas Negras pelo seu padrão residencial, muito menos pela parentela. No entanto, uma boa política de recursos humanos recomendaria, em benefício do jovem tenente, que ficasse longe do morro.
Dias depois, o guarda-costas do filho de uma procuradora matou um jovem com um tiro no peito numa briga de porta de boate. O assassino é um PM que trabalha há oito anos na segurança de procuradores do Estado. Ele estava há sete com a família. Nenhum serviço policial sério mantém agentes numa atividade desse tipo durante oito anos. Um guarda-costas com sete anos de casa não é mais um agente policial, é um agregado.
Tanto no Morro da Providência como na porta da boate Baronetti os crimes foram antecedidos por falhas de gente que está em cargos de comando ou chefia.
Os PMs que mataram o menino João Roberto Amorim Soares achavam que estavam numa cena de enfrentamento, na qual só um lado atira.
Decidiram que havia bandidos no carro da família Soares, assim como o tenente da Providência decidiu que a galera da Mineira deveria dar um "susto" na sua carga. O enfrentamento dessa gente não é com os bandidos. É com o "outro", um cidadão que repentinamente perde seus direitos em nome de um estado de emergência produzido pela administração do medo a serviço da marquetagem política.
Nenhuma pessoa de bom senso pode achar que está mais segura numa cidade onde um coronel da PM (Marcus Jardim) disse que 2007 deveria ser "o ano dos três Ps: Pan, PAC e Pau". Esse mesmo representante das forças da ordem presenteou um funcionário da ONU com uma miniatura do "Caveirão". É perigosa qualquer cidade onde o governador diga que uma favela é "fábrica de marginais".
Acreditar que os enfrentamentos da polícia de Sérgio Cabral têm algo a ver com uma política de segurança pública é correr atrás do papel de bobo.
ELIO GASPARI é jornalista.
DEU NO JORNAL DO BRASIL
A REFORMA POLÍTICA PARA OS OUTROS
Villas-Bôas Corrêa
Villas-Bôas Corrêa
Equilibrado na corda bamba amarrada em índices contraditórios que confirmam os recordes crescentes da popularidade do presidente Lula e advertem para os saltos da renascente inflação a arranhar em 9,1%, a renda das famílias espremidas entre 1 e 2,5 salários mínimos – segundo os cálculos da Fundação Getúlio Vargas para os últimos 12 meses – o governo deu meia-trava para uma reavaliação da tática política e abrir a picada para novos caminhos.
Na reunião do G8, na longínqua Rusutsu, no Japão, o veto dos Estados Unidos e da Itália, barrou a inclusão dos emergentes do G5, compostos por países de grande população, entre os quais o Brasil, além da China, Índia, África do Sul e México no seleto grupo dos sete países mais ricos e da Rússia.
Na retaguarda brasiliense, com o início da campanha para as eleições de prefeitos e vereadores em outubro, Lula despertou para a urgência de sacudir a poeira do imobilismo e armar as estratégias para a temporada que se anuncia com indicadores de turbulências.
A bagunça do quadro partidário, com a inconsistência de legendas sem programas ou compromissos ideológicos que se embaralham nas mais extravagantes e incoerentes alianças municipais, abriu os olhos presidenciais e arregalou as butucas de ministros para a saída mágica da ressurreição da reforma política, que dorme o sono de anos de esquecimento nas gavetas do Congresso e no arquivo morto do Palácio do Planalto.
Da paralisia ao açodamento já se anunciam as primeiras medidas. Lula, com a alma nova depois da reconciliação com o seu antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, resolveu convidar todos os ex-presidentes para recolher os conselhos da experiência. Cientistas políticos, representantes da OAB, do Judiciário serão convocados a oferecer sugestões.
Nem só de flores o governo enfeita a mesa do debate sobre a renegada. O ministro Tarso Genro, da Justiça, promete o empenho em tempo integral para compor o maior acordo possível e juntar na bancada reformista representantes do governo e da oposição.
Trata-se de uma virada completa, a mudança da água para o vinho. E com a singularidade do seu lançamento no mais impróprio dos momentos, no começo da campanha para a eleição municipal que mobiliza os governos estaduais, além se senadores e deputados federais.
O tranco da realidade repõe as coisas na mediocridade da rotina. O próprio ministro Tarso Genro se incumbe de furar o balão, com o adendo lançado nas inconfidências encomendadas, como a pedra que se joga na água para assustar os peixes: para facilitar a aprovação da reforma política, uma das idéias que faísca como brilhante em anel de milionário é fixar a entrada em vigor para três eleições depois da sua aprovação.
Francamente, depois de tantas potocas, das muitas promessas em todas as campanhas, sempre adiadas e jamais cumpridas, a estapafúrdia sugestão de uma mobilização nacional para aprovar a reforma política para depois de três eleições presidenciais, ou 12 anos é uma patusca e leviana manobra diversionista.
O governo propõe a reforma política para os outros. Para ele, continua a orgia dos senadores e deputados sem votos, eleitos na garupa do candidato para valer; nas mordomias, mutretas e das CPIs para apurar os escândalos que não mandam ninguém para a cadeia da crise moral e ética que respinga nos três poderes.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

AS BALEIAS SE MOVEM. DEVAGAR
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi
HOKKAIDO - O G5, um informal clube das grandes economias ditas emergentes (Brasil, China, Índia, África do Sul e México, que somam 42% da população e 12% da economia mundial), está ensaiando deixar de ser o convidado de pedra do mundo rico nas cúpulas do G8, que reúne os sete países mais ricos do planeta e a Rússia, agregada por ter deixado de ser comunista.
Ontem, o time do G5 reuniu-se no Grand Hotel de Sapporo, a uns 200 quilômetros do Windsor Spa Hotel, no qual terminava a cúpula do G8. Hoje, os emergentes saem de Sapporo para o luxuoso Windsor, para dialogar com os ricos, mas sem poder influir nas decisões destes, na medida em que o comunicado final do G8 já foi divulgado.
De todo modo, o G5 começou a estudar a hipótese de se reunir meses antes das cúpulas do G8, exatamente para dar tempo de preparar posições conjuntas e fazê-las chegar aos ricos na esperança de influenciar suas tomadas de posição. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu o Brasil como sede desse encontro.
Na prática, o que se está vendo é uma coreografia de poder na governança global. Líderes como o presidente francês Nicolas Sarkozy já perceberam o óbvio: não adianta tomar decisões que não comprometam pelo menos China e Índia, com suas populações superiores a 1 bilhão de pessoas, as únicas que superam essa marca. Mas a engrenagem mundial move-se lentamente, muito mais lentamente do que as crises. Por isso, o G5 vai continuar jogando numa, digamos, segunda divisão pelo menos até o próximo encontro dos dois Gs, já marcado para a Sardenha, na Itália.
Pior: fica adiada indefinidamente a hipótese de uma ação coordenada entre esses 13 países para enfrentar o desafio do presente (a disparada de preços do petróleo e dos alimentos) e do futuro (o aquecimento global).
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O PARADOXO DE URIBE
Cláudio Gonçalves Couto
A libertação de Ingrid Betancourt do cativeiro em que era mantida pelas Farc foi, inegavelmente, uma retumbante vitória do presidente colombiano, Álvaro Uribe, e uma acachapante derrota da guerrilha. Esta já vinha bastante debilitada nos últimos tempos em virtude de três fatores indissociáveis: (1) a forte ofensiva militar que o governo da Colômbia tem promovido contra ela desde o início da administração de Uribe; (2) a perda de seus principais líderes, alguns deles mortos em ações inseridas no bojo da própria ofensiva militar; (3) a desmoralização do movimento perante a população colombiana e no exterior. Esta desmoralização, por sua vez, é uma decorrência tanto da perda de sentido de movimentos armados desse tipo num contexto de difusão de regimes democráticos mundo afora, quanto dos expedientes específicos de que lançam mão as Farc para atingir seus objetivos: o seqüestro de civis e o estabelecimento de laços com o narcotráfico.
Deste modo, o resgate de Betancourt e outros quatorze seqüestrados - sejam lá quais tenham sido os verdadeiros expedientes de que lançou mão o governo colombiano para sua consecução - não pode ser compreendido senão num contexto de debilitação constante da organização que os mantinha reféns. Alguns falam na mobilização de milhões de dólares para subornar guerrilheiros venais; outros apontam uma conspiração que já se havia armado há mais tempo, aguardando apenas o momento propício para o bote; é há ainda quem, num arroubo de formalismo jurisdicista, chegue até mesmo a criticar a farsa do helicóptero militar pintado de branco como forma de enganar guerrilheiros incautos, apontando-a como uma violação de leis internacionais que regulam conflitos armados; sem mencionar, claro, as justificáveis suspeitas de que tenha havido participação militar americana no episódio, apesar das negativas oficiais colombianas (o embaixador americano em Bogotá falou em sentido contrário a elas). Tudo isto é de somenos importância diante de um fato irretorquível: o presidente Uribe tem tido sucesso em sua empreitada de derrotar as Farc por meio da força.
A vitória de Uribe tem um alcance muito mais importante do que a mera debilitação de um grupo verdadeiramente criminoso - pois que se respalda num discurso de reivindicação de legitimidade política para o uso da força, mas que na verdade tem-se mantido vivo em decorrência de práticas que o colocam ao lado de meliantes comuns. Ora, os reféns políticos das Farc - incluídos aqueles agora libertados - não passam de 50. Já os seqüestrados comuns - com fins de extorsão das famílias - são mais de 700. Como neste caso não se pode falar em algo minimamente próximo de "prisioneiros políticos" ou "prisioneiros de guerra", torna-se difícil categorizar a ação da guerrilha de outra forma que não seja como meramente criminosa. O mesmo vale no que concerne ao envolvimento dos guerrilheiros com o tráfico de armas e drogas.
Derrota das Farc é uma vitória da soberania
Todavia, a ação de Uribe tem mais importância do que a derrota de um bando de meliantes porque, a despeito de seu banditismo, as Farc há muitos anos impedem o pleno exercício da soberania pelo Estado colombiano - por deter o monopólio do uso (reivindicado como) legítimo da força em vasta parte do território daquele país. Caso venha a derrotar de forma definitiva os narcoguerrilheiros, o presidente Uribe tornará viável, após muitas décadas, o exercício da soberania estatal. Considerando este fato, torna-se realmente curioso que alguns critiquem a estratégia colombiana de aceitação da ajuda militar americana como uma perigosa concessão ao "imperialismo" estadunidense. Ora, o imperialismo é algo indesejável na medida em que leva à violação da soberania nacional; mas, na medida em que o "imperialismo" surge como força auxiliar na luta pelo restabelecimento do poder soberano solapado pela ação de guerrilheiros ao longo de anos, fica claro que o perigo real é outro.
Sendo assim, se de fato vencer ou, ao menos, estabelecer as condições efetivas para uma eventual vitória final, como parece ser o caso, Uribe lançará as bases para que o Estado colombiano se estabeleça de forma definitiva em toda a amplitude de seu território. Isto, por si só, já lhe garantiria o título histórico nada desprezível de "estadista" - se por isto entendermos uma definição para aqueles que constroem, ou reconstroem, Estados.
Todavia, nem tudo são flores. Surfando na onda da imensa popularidade auferida com suas seguidas vitórias contra as Farc (além do bom momento econômico vivido pela Colômbia e da redução da criminalidade urbana), Uribe também lança as bases para um projeto pessoal de poder que não é nada atraente - ao menos de uma perspectiva preocupada com a democracia. Não há democracia plena sem um Estado efetivo, mas um Estado efetivo, por si só, não é condição suficiente para a democracia. Outros estadistas, na América Latina e alhures (vejam-se os casos de Vargas, Bismarck, Atatürk etc.), ao mesmo tempo em que erigiram Estados, fizeram-no sem dar a menor importância à construção de instituições democráticas - muito pelo contrário. Cada um deles, a seu modo, procurou reforçar o próprio poder como forma de viabilizar a continuidade de sua portentosa obra, mas também para assegurar simplesmente a sua própria condição de governante inconteste.
Comparado aos grandes construtores de Estados que a história nos legou, Uribe vive uma situação potencialmente menos perigosa para a democracia: a Colômbia é, dentre os países latino-americanos, um dos que têm regimes competitivos mais longevos - ao lado da Costa Rica e da Venezuela. Todavia, isto por si só não é garantia de que a democracia perdure ou de que não sofra fortes abalos - como mostra o exemplo venezuelano, com Chávez. Aliás, por ironia, é justamente a popularidade do presidente que parece ser a principal fonte da ameaça ao "governo do povo": hoje, 79% dos colombianos apoiariam um terceiro mandato para o presidente colombiano. Paradoxalmente, se isto vingar, Uribe pode começar a desconstruir por uma via o que tão bem sucedidamente vem construindo por outra: o fortalecimento do Estado democrático na Colômbia.
Cláudio Gonçalves Couto é professor de Ciência Política da PUC-SP e da FGV-SP. A titular da coluna, às quartas-feiras, Rosângela Bittar, está em férias
Cláudio Gonçalves Couto
A libertação de Ingrid Betancourt do cativeiro em que era mantida pelas Farc foi, inegavelmente, uma retumbante vitória do presidente colombiano, Álvaro Uribe, e uma acachapante derrota da guerrilha. Esta já vinha bastante debilitada nos últimos tempos em virtude de três fatores indissociáveis: (1) a forte ofensiva militar que o governo da Colômbia tem promovido contra ela desde o início da administração de Uribe; (2) a perda de seus principais líderes, alguns deles mortos em ações inseridas no bojo da própria ofensiva militar; (3) a desmoralização do movimento perante a população colombiana e no exterior. Esta desmoralização, por sua vez, é uma decorrência tanto da perda de sentido de movimentos armados desse tipo num contexto de difusão de regimes democráticos mundo afora, quanto dos expedientes específicos de que lançam mão as Farc para atingir seus objetivos: o seqüestro de civis e o estabelecimento de laços com o narcotráfico.
Deste modo, o resgate de Betancourt e outros quatorze seqüestrados - sejam lá quais tenham sido os verdadeiros expedientes de que lançou mão o governo colombiano para sua consecução - não pode ser compreendido senão num contexto de debilitação constante da organização que os mantinha reféns. Alguns falam na mobilização de milhões de dólares para subornar guerrilheiros venais; outros apontam uma conspiração que já se havia armado há mais tempo, aguardando apenas o momento propício para o bote; é há ainda quem, num arroubo de formalismo jurisdicista, chegue até mesmo a criticar a farsa do helicóptero militar pintado de branco como forma de enganar guerrilheiros incautos, apontando-a como uma violação de leis internacionais que regulam conflitos armados; sem mencionar, claro, as justificáveis suspeitas de que tenha havido participação militar americana no episódio, apesar das negativas oficiais colombianas (o embaixador americano em Bogotá falou em sentido contrário a elas). Tudo isto é de somenos importância diante de um fato irretorquível: o presidente Uribe tem tido sucesso em sua empreitada de derrotar as Farc por meio da força.
A vitória de Uribe tem um alcance muito mais importante do que a mera debilitação de um grupo verdadeiramente criminoso - pois que se respalda num discurso de reivindicação de legitimidade política para o uso da força, mas que na verdade tem-se mantido vivo em decorrência de práticas que o colocam ao lado de meliantes comuns. Ora, os reféns políticos das Farc - incluídos aqueles agora libertados - não passam de 50. Já os seqüestrados comuns - com fins de extorsão das famílias - são mais de 700. Como neste caso não se pode falar em algo minimamente próximo de "prisioneiros políticos" ou "prisioneiros de guerra", torna-se difícil categorizar a ação da guerrilha de outra forma que não seja como meramente criminosa. O mesmo vale no que concerne ao envolvimento dos guerrilheiros com o tráfico de armas e drogas.
Derrota das Farc é uma vitória da soberania
Todavia, a ação de Uribe tem mais importância do que a derrota de um bando de meliantes porque, a despeito de seu banditismo, as Farc há muitos anos impedem o pleno exercício da soberania pelo Estado colombiano - por deter o monopólio do uso (reivindicado como) legítimo da força em vasta parte do território daquele país. Caso venha a derrotar de forma definitiva os narcoguerrilheiros, o presidente Uribe tornará viável, após muitas décadas, o exercício da soberania estatal. Considerando este fato, torna-se realmente curioso que alguns critiquem a estratégia colombiana de aceitação da ajuda militar americana como uma perigosa concessão ao "imperialismo" estadunidense. Ora, o imperialismo é algo indesejável na medida em que leva à violação da soberania nacional; mas, na medida em que o "imperialismo" surge como força auxiliar na luta pelo restabelecimento do poder soberano solapado pela ação de guerrilheiros ao longo de anos, fica claro que o perigo real é outro.
Sendo assim, se de fato vencer ou, ao menos, estabelecer as condições efetivas para uma eventual vitória final, como parece ser o caso, Uribe lançará as bases para que o Estado colombiano se estabeleça de forma definitiva em toda a amplitude de seu território. Isto, por si só, já lhe garantiria o título histórico nada desprezível de "estadista" - se por isto entendermos uma definição para aqueles que constroem, ou reconstroem, Estados.
Todavia, nem tudo são flores. Surfando na onda da imensa popularidade auferida com suas seguidas vitórias contra as Farc (além do bom momento econômico vivido pela Colômbia e da redução da criminalidade urbana), Uribe também lança as bases para um projeto pessoal de poder que não é nada atraente - ao menos de uma perspectiva preocupada com a democracia. Não há democracia plena sem um Estado efetivo, mas um Estado efetivo, por si só, não é condição suficiente para a democracia. Outros estadistas, na América Latina e alhures (vejam-se os casos de Vargas, Bismarck, Atatürk etc.), ao mesmo tempo em que erigiram Estados, fizeram-no sem dar a menor importância à construção de instituições democráticas - muito pelo contrário. Cada um deles, a seu modo, procurou reforçar o próprio poder como forma de viabilizar a continuidade de sua portentosa obra, mas também para assegurar simplesmente a sua própria condição de governante inconteste.
Comparado aos grandes construtores de Estados que a história nos legou, Uribe vive uma situação potencialmente menos perigosa para a democracia: a Colômbia é, dentre os países latino-americanos, um dos que têm regimes competitivos mais longevos - ao lado da Costa Rica e da Venezuela. Todavia, isto por si só não é garantia de que a democracia perdure ou de que não sofra fortes abalos - como mostra o exemplo venezuelano, com Chávez. Aliás, por ironia, é justamente a popularidade do presidente que parece ser a principal fonte da ameaça ao "governo do povo": hoje, 79% dos colombianos apoiariam um terceiro mandato para o presidente colombiano. Paradoxalmente, se isto vingar, Uribe pode começar a desconstruir por uma via o que tão bem sucedidamente vem construindo por outra: o fortalecimento do Estado democrático na Colômbia.
Cláudio Gonçalves Couto é professor de Ciência Política da PUC-SP e da FGV-SP. A titular da coluna, às quartas-feiras, Rosângela Bittar, está em férias
terça-feira, 8 de julho de 2008
POESIA DO DIA
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1020&portal=
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DEU EM O GLOBO

VELHAS LIÇÕES
Míriam Leitão
Míriam Leitão
Há dois pontos inescapáveis sobre inflação: ela atinge mais duramente os mais pobres, como mostrou ontem novamente a FGV, e ela não pode ser subestimada. Tivemos índices muito piores que os de agora, mesmo assim é preciso continuar alerta. Erraram todos os ministros que disseram coisas como: é apenas um repique, um soluço, culpa do chuchu, coisa de especuladores, é uma alta atípica, inflação do feijãozinho, exagero da imprensa.
Quando a inflação começa a subir, é sempre um risco. Os dados de ontem do IPC-C1, índice da Fundação Getúlio Vargas, mostram que, em 12 meses, a inflação das famílias com renda entre 1 e 2,5 salários mínimos ficou em 9,1%. Isso significa que, em um ano, quase 10% da renda dessas pessoas evaporou. A inflação de alimentos, por esse mesmo índice, foi de 18,9%, também em 12 meses. O inimigo não é trivial, ainda que não tenha a mesma dimensão do passado.
Num país que teve inflação tão alta durante tanto tempo, os mecanismos de recriação dos círculos viciosos ainda não estão completamente enferrujados. O Brasil foi o país do mundo que mais aperfeiçoou a tecnologia de extrair inflação da inflação, através dos mecanismos de indexação. Quatorze anos é bastante tempo, mas ainda não o suficiente para apagar a memória coletiva.
Até porque o país não está completamente desindexado. Os aluguéis e contratos prevêem mecanismos de correção em 12 meses. As tarifas públicas são reajustadas, em alguns casos, duas vezes por ano. Planos de saúde sobem sistematicamente acima da inflação. Mensalidades escolares, também. Uma parte da dívida pública é corrigida pelos índices de inflação.
Hoje os fornecedores de matérias-primas, insumos e serviços começam a querer reindexar pelos índices mais altos, e nem todos os compradores estão conseguindo evitar essas pressões. Atualmente, os mecanismos de correção são mais lentos, contudo, se a inflação começar a subir, os fornecedores de serviços e contratos vão encurtar o tempo entre uma correção e outra. Isso é o perigo a ser evitado.
Há pressões de custos e há pressões de demanda. O petróleo está vivendo um choque internacional de grandes proporções, e vários derivados têm aumentos mensais decididos pela Petrobras; outros têm reajustes que são passados automaticamente de acordo com os preços internacionais, como na petroquímica.
O mundo vive uma escalada dos preços de alguns alimentos. O Brasil é grande produtor e exportador de soja, carne, açúcar, café, milho, mas isso não nos protege. O que subir lá fora subirá aqui dentro. O produtor só venderá o produto aqui se for vantajoso financeiramente. Isso faz com que os preços internos sejam contaminados pelas cotações internacionais.
A situação não é desesperadamente ruim como já foi no passado, porém é preciso avaliar que: há choques externos, o país está vivendo um momento de aumento de consumo e de crédito e o governo ampliou seus gastos. O Banco Central tem tido independência para agir, mas vem atuando sozinho nessa luta. Não se luta contra a inflação com uma arma só. Levar a alta de preços a sério e pensar em prevenir novos aumentos não é o mesmo que fazer terrorismo. Erra quem pensa que o problema vai desaparecer sem estratégia, sem um bom diagnóstico, sem atuação coerente do governo, apenas ficando todos calmos.
A política de metas de inflação foi extremamente bem-sucedida. Implantada num momento em que a política de câmbio fixo havia implodido; em que dez em cada dez economistas estrangeiros acreditavam que o país corria o risco de volta da hiperinflação, essa política de metas nos conduziu à inflação descendente. Funciona bem há 9 anos. Nada foi tão longo e teve tanto êxito na luta contra a inflação no Brasil quanto as metas de inflação. O congelamento que durou mais tempo fracassou em 9 meses; o câmbio fixo foi fundamental para quebrar a inércia, mas entrou em colapso no fim do quarto ano e de muitas crises.
A nossa inflação de agora não tem a mesma dimensão, nem de longe, da que já nos sufocou. Evidentemente que não é o caso de fazer estoques e correr para compra de bens que representem reservas de valor. Esse reflexo condicionado daquele passado não estava ocorrendo nem ao consumidor, nem aos analistas quando o ministro da Fazenda falou do assunto, num total despropósito.
A inflação dos dias atuais não tem nada a ver com aquelas emergências do passado. É uma inflação global, com dois choques importantes de preços, e que encontra a economia brasileira aquecida, um boom de crédito, os ministros batendo cabeça em teses contraditórias sobre o que fazer neste momento e os gastos públicos em expansão. Esses ingredientes são suficientes para que a alta de preços se eleve a dois dígitos. E isso é que deve ser evitado.
É hora de cabeça fria, de compreensão exata desse fenômeno, e também de evitar qualquer inclinação à subestimação do que está acontecendo. Este é um país que conhece bem o fenômeno inflacionário e sabe como, individualmente, deve se proteger dele. O perigo é que, quando todos individualmente se sentem protegidos, é que a inflação dispara mesmo. As lições de momentos extremos que vivemos devem servir de base; apesar de estarmos com 6,5% de inflação. O desafio é mantê-la nesse nível, mirar uma convergência lenta para o centro da meta e não deixá-la subir gradualmente.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
A COLÔMBIA APÓS AS FARC
Ricardo Vélez Rodríguez
A recente libertação de 15 reféns das Farc pelo Exército da Colômbia marcou uma etapa definitiva na luta do Estado contra os narcoterroristas. A penetração dos agentes de inteligência militar nos mais altos círculos da organização criminosa sinalizou claramente que golpes cada vez mais fortes serão desferidos contra os marginais. Resta à organização guerrilheira acolher a desmobilização proposta pelo governo colombiano, submetendo-se à lei, ou simplesmente esperar por sua aniquilação, como aconteceu com o Sendero Luminoso, no Peru, na década passada. Em decorrência disso, pode-se falar, neste momento, do que será o panorama político colombiano pós-Farc.
Ricardo Vélez Rodríguez
A recente libertação de 15 reféns das Farc pelo Exército da Colômbia marcou uma etapa definitiva na luta do Estado contra os narcoterroristas. A penetração dos agentes de inteligência militar nos mais altos círculos da organização criminosa sinalizou claramente que golpes cada vez mais fortes serão desferidos contra os marginais. Resta à organização guerrilheira acolher a desmobilização proposta pelo governo colombiano, submetendo-se à lei, ou simplesmente esperar por sua aniquilação, como aconteceu com o Sendero Luminoso, no Peru, na década passada. Em decorrência disso, pode-se falar, neste momento, do que será o panorama político colombiano pós-Farc.
A primeira coisa que devemos levar em consideração é que o combate à narcoguerrilha não foi opção isolada de um governante corajoso como o presidente Álvaro Uribe Vélez. Essa determinação foi, fundamentalmente, uma decisão da sociedade colombiana, cansada já da maré montante da violência que os narcoterroristas impuseram ao país vizinho. A escalada do terror, na Colômbia, tocou fundo. Ou imperava de vez a barbárie, ou a sociedade reagia com heroísmo em prol da sua sobrevivência. Essa reação social começou a se verificar 15 anos atrás, em duas frentes: de um lado, no clamor popular pela modernização das Forças Armadas e, de outro, na revitalização do tecido municipal.
Como se trata de um processo que está revolucionando o panorama político da América Latina, tal o grau de profundidade com que as mudanças estão ocorrendo na Colômbia, vale a pena ilustrar um pouco ambos os pontos.
Modernização das Forças Armadas - Engana-se quem pensa que tudo se iniciou com o atual governo. Nas administrações anteriores, notadamente nas de César Gaviria e Andrés Pastrana, começou a haver uma crescente pressão da sociedade para que se processasse, em primeiro lugar, a modernização da Polícia Nacional. Foram grandes os esforços empenhados para substituir as tradicionalmente corruptas forças policiais, ligadas aos interesses menores dos caciques políticos ou, o que era pior, ao crime organizado. Somente em Bogotá, nos anos 1990, foram postos no olho da rua, em apenas um ano, mais de 2 mil agentes. Desse esforço emergiu uma Polícia Nacional com rosto novo, que deu combate frontal aos cartéis da droga, o de Medellín e o de Cáli. Esse processo ficou registrado no livro Jaque Mate (Xeque-Mate), do general Rosso José Serrano, que comandou a reforma organizacional da polícia colombiana.
O passo seguinte seria a reforma das Forças Armadas. O Plano Colômbia significou o início dessa reforma. O caminho definido foi a profissionalização dos militares, com a organização de uma Fuerza de Despliegue Rápido, a Fudra, de aproximadamente 15 mil homens, que mudou o ritmo e a iniciativa dos combates, com a ajuda tecnológica dos Estados Unidos, que montaram complexo sistema de controle do espaço aéreo, uma espécie de Sivam, a partir da região de Três Esquinas, ao sul do país, justamente o lugar onde as Farc eram mais poderosas. A recente operação de comandos revelou que a modernização das Forças Armadas abarca o terreno da inteligência militar, de forma prioritária.
Revitalização do tecido municipal - Este aspecto das reformas colombianas é menos visível, mas não menos importante. No início da década de 90, várias pequenas cidades que tinham sofrido a chantagem armada dos narcoguerrilheiros decidiram agir por conta própria, estabelecendo "pactos de sobrevivência", uma espécie de Constituição municipal que visava a garantir a segurança dos cidadãos. Assim, foram-se gestando os movimentos cívicos batizados de "Como Vamos", que têm sido fundamentais para o andamento da boa administração municipal em Bogotá, Cáli, Medellín, Cartagena, etc.
Concluindo: Uribe Vélez soube capitalizar ambas as iniciativas. O modo de governar desse jovem presidente consiste em se deslocar semanalmente para vários municípios, onde se reúne com prefeitos, vereadores e pessoas comuns, a fim de fazer um balanço dos principais problemas enfrentados pela comunidade, nas áreas de saneamento, educação, saúde, segurança, habitação e transportes. O presidente, em companhia dos seus ministros, traça linhas de ação para resolver os problemas apresentados pela comunidade, tendo como objetivo básico o restabelecimento da "segurança democrática", mediante a presença permanente da Polícia Nacional em cada município.
É assim que Álvaro Uribe tem construído a sua popularidade, não com ações assistencialistas, mas promovendo o efetivo desenvolvimento. É um modelo de democracia direta e de gestão central dos problemas, ao mesmo tempo. Uribe arrebatou à esquerda a sua bandeira da denominada democracia participativa. E se apropriou do princípio conservador do restabelecimento da ordem. Inicia a fase final do seu segundo mandato com uma popularidade que beira os 92%.
A Colômbia não é mais a mesma. Porque as suas opções fundamentais - modernização das Forças Armadas para preservação da "segurança democrática" e revitalização do tecido municipal - são decisões da sociedade, garantindo um novo tipo dinâmico de democracia participativa. A estabilidade é a marca registrada desse processo, que se traduz em taxas de crescimento econômico, que beiram 7% ao ano.
Ricardo Vélez Rodríguez, coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas ?Paulino Soares de Sousa" da Universidade Federal de Juiz de Fora, é membro da Academia Brasileira de Filosofia (Rio de Janeiro) e do Instituto de Humanidades (Londrina
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