quinta-feira, 30 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trégua nos preços, riscos à frente

Por Folha de S. Paulo

Prévia da inflação surpreende positivamente e melhora perspectivas para reduzir a taxa Selic

Convergência à meta ainda enfrente muitos obstáculos, sobretudo os relacionados ao desequilíbrio fiscal produzido pelo governo Lula

inflação enfim começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho, prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos.

O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano.

A desaceleração merece ser comemorada. Depois de meses em que alimentos pesaram no orçamento das famílias, produtos como tomate, batata e café registram quedas expressivas.

Mais importante, a melhora não ficou restrita aos itens mais voláteis. Medidas de inflação subjacente também mostram perda de fôlego, sugerindo que a desinflação ganha consistência.

As boas notícias levaram bancos e consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA de 2026. Mas as estimativas permanecem ao redor de 5%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC.

O cenário, portanto, recomenda cautela, não complacência. O Copom deve encontrar espaço para mais uma redução modesta da Selic, mas dificilmente poderá acelerar esse movimento.

O principal fator interno de preocupação é a política fiscal expansionista. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amplia estímulos para sustentar a atividade no período pré-eleitoral. Indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da FGV mostram que o impulso fiscal é muito superior ao sugerido pelo resultado primário das contas públicas.

Em uma economia próxima do pleno emprego, a alta dos gastos públicos tende a manter a demanda aquecida, dificultar o trabalho do BC e retardar a convergência da inflação para a meta.

Também não faltam ameaças externas. O retorno do fenômeno El Niño pode comprometer safras e reverter parte da recente queda dos preços dos alimentos.

Nos Estados Unidos, a disposição do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, de adotar uma postura mais dura contra a inflação aumenta a possibilidade de juros elevados por mais tempo. Se isso ocorrer, o diferencial de taxas exigido pelos investidores reduzirá o espaço para cortes mais profundos da Selic.

Some-se a esse quadro a instabilidade geopolítica. Uma escalada do conflito envolvendo o Irã poderia levar novamente o petróleo para acima de US$ 100 por barril, pressionando combustíveis, fretes e diversos preços.

A inflação oferece uma trégua e o Banco Central pode iniciar um ciclo gradual de redução dos juros, desde que mantenha a prudência. Sem disciplina fiscal, com riscos climáticos e geopolíticos relevantes e diante da perspectiva de uma política monetária mais dura nos EUA, o caminho para levar a inflação mais para o centro da meta continua estreito.

Kiev tenta ligar guerra na Ucrânia ao conflito no Irã

Por Folha de S. Paulo

Ao atacar navio da teocracia aliada de Putin, Zelenski ensaia nova tática para chamar a atenção de Trump

O Irã forneceu aos russos a tecnologia para construção de drones Shahed-136, que infernizam os céus ucranianos desde o início da guerra

Dos 36 grandes conflitos em curso no mundo hoje, segundo a métrica do britânico Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, 2 se destacam pela grande latitude de seu escopo geopolítico: a invasão russa da Ucrânia e a guerra no Irã.

No sábado passado (25), Kiev ensaiou uma fusão dos embates ao atacar um navio civil iraniano no mar Cáspio. O governo ucraniano disse que a embarcação transportava equipamentos destinados às forças de Vladimir Putin, aliado da teocracia sob ataque desde o fim de fevereiro.

Os ingredientes para essa aproximação já existiam. O Irã forneceu aos russos uma primeira leva e a tecnologia para construção dos drones Shahed-136, que infernizam os céus ucranianos desde o início da guerra, em 2022.

Neste ano, os ataques retaliatórios de Teerã contra aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico levaram as nações árabes a procurar Kiev atrás de auxílio. Afinal, poucos países do mundo estão tão acostumados a lidar com drones e mísseis quanto a Ucrânia.

Até aqui, contudo, a animosidade era mais retórica. O governo de Volodimir Zelenski fez um experimento: tentou atrair os EUA para um apoio renovado a seu esforço de guerra às vésperas da visita do presidente a Donald Trump, ocorrida na terça (28).

A lógica da estratégia era mostrar ao republicano que há interligação entre os conflitos, ainda que o apoio russo a Teerã seja limitado, e o Irã não tenha papel de relevo hoje no conflito europeu.

Em público, a Ucrânia e o Irã prometeram evitar uma escalada. Mas na quarta (29), um terminal de gás natural no Egito foi atacado por drones, que atingiram dois navios, inclusive um dos EUA. Dois dias atrás, o local apareceu em um programa da rede estatal iraniana em um mapa de alvos para retaliação devido ao ataque da Ucrânia no mar Cáspio.

Tudo isso demonstra a volatilidade do cenário internacional, refletida nas projeções menores de crescimento econômico e na ameaça inflacionária representada pelo preço do petróleo.

O conflito no Oriente Médio é um exemplo disso. Após ameaçar escalar a guerra, Trump suspendeu os ataques que vinha promovendo, com retaliações correspondentes do Irã, em nome de um novo esforço que ele chamou de "conversas amigáveis".

A pausa durou poucos dias, e os ataques recomeçaram. Enquanto isso, Rússia e Ucrânia vivem a fase mais violenta da guerra, sem um horizonte claro de acordo patrocinado por Washington.
Sob Trump, a incerteza passou a ser o fator central num mundo que já estava imerso em atritos.

Congresso adotou agenda nefasta de retrocesso ambiental

Por O Globo

Num planeta acossado por tragédias climáticas, tramitam 13 propostas para reduzir áreas de conservação

A frequência e a intensidade crescentes dos eventos climáticos extremos — como as enchentes no Rio Grande do Sul ou as ondas de calor e incêndios florestais devastadores em curso na Europa — recomendam um zelo também crescente com a conservação do meio ambiente. Infelizmente, não é a visão que tem prevalecido no Congresso Nacional, onde prosperou nos últimos anos a agenda antiambiental, por meio de projetos que fragilizam a proteção da natureza.

Tramitam 13 propostas para reduzir Unidades de Conservação (UCs), alterar categorias ou extinguir áreas protegidas, revelou levantamento do GLOBO com apoio do Observatório de Leis da Frente Parlamentar Mista Ambientalista e da Rede Pró-UC. Entre 1988 e 2018, o Brasil registrou 46 iniciativas do tipo, diz a ONG WWF-Brasil. “O Congresso vem banalizando a redução de Unidades de Conservação e ignorando limites constitucionais já estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, afirma Douglas Montenegro, advogado da Rede Pró-UC.

Entre os projetos controversos, estão a redução de 40% da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, a anulação da ampliação da Estação Ecológica (Esec) de Taiamã, no Pantanal Mato-Grossense, — essencial para preservar espécies ameaçadas como a onça-pintada — e a diminuição da Área de Proteção (APA) Baleia Franca, em Santa Catarina (que abrange dez municípios e protege um dos principais corredores ecológicos do Litoral Sul). Há ainda propostas para reduzir o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e anular a criação do Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul.

No Jamanxim, o projeto, já aprovado na Câmara e no Senado, converte em Área de Proteção Ambiental (APA) 486 mil hectares retirados da floresta (do total de 1,3 milhão). A APA segue legislação mais flexível de ocupação e exploração econômica. A proposta, que não foi precedida de estudos técnicos, não tem qualquer relação com a obra da Ferrovia Ferrogrão — esta não afeta a floresta e foi referendada por decisão recente do STF. Objetiva essencialmente permitir a exploração agropecuária. Seus defensores alegam o intuito de resolver conflitos fundiários históricos — o trecho subtraído é ocupado por agricultores. Ora, obviamente não se deve resolver o problema chancelando uma ocupação irregular.

O avanço sem pudor sobre UCs em ano eleitoral adiciona mais um capítulo à agenda ambiental retrógrada do Congresso. Nos últimos anos, parlamentares têm se empenhado em desmontar o arcabouço legislativo de proteção, visto equivocadamente como entrave ao agronegócio e ao desenvolvimento. Em boa parte, têm conseguido seu objetivo, como ocorreu na flexibilização do licenciamento ambiental. Ignoram que uma legislação frouxa deixa o Brasil mais vulnerável às mudanças climáticas e restringe o mercado para exportações agrícolas.

UCs não são criadas à toa. Servem para proteger flora e fauna, conter a pressão sobre a vegetação nativa, blindar mananciais fundamentais ao abastecimento e preservar o clima e o regime de chuvas essencial ao agronegócio. Por isso precisam ser mantidas, quando não ampliadas. Reduzi-las ou extingui-las representa um retrocesso — e traz riscos. É preciso barrar tais desvarios no nascedouro. A conta da irresponsabilidade já chegou num planeta acossado por tragédias climáticas cada vez mais intensas e frequentes.

É descabido sigilo de cem anos sobre visitas a Vorcaro na cadeia

Por O Globo

Lula criticava segredos durante gestão Bolsonaro, mas seu governo lança mão do mesmo expediente

Não faz sentido o sigilo de cem anos decretado sobre a lista de visitas recebidas na prisão por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enquanto esteve detido na Superintendência de Polícia Federal (PF) em Brasília. O pedido, feito pela coluna Ancelmo Gois, do GLOBO, via Lei de Acesso à Informação, foi negado pela PF. Depois de recurso da coluna Malu Gaspar, também do GLOBO, a mesma solicitação foi recusada pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. O que pode haver de tão bombástico numa simples lista para justificar sigilo de um século?

Os registros compreendem nome, CPF, data, horário e grau de parentesco dos visitantes. “Caracterizam-se como informações pessoais sensíveis à esfera privada tanto do visitante quanto do detento”, diz a PF em comunicado. “O tratamento de informações pessoais deve observar, de forma estrita, a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.” Lima e Silva alegou a necessidade de preservar informações “relacionadas à intimidade e à vida privada”. Mas o pedido para que fosse encaminhada a lista com tarjas protegendo dados sensíveis também foi negado pela PF.

É louvável o zelo da PF e do ministério com a intimidade dos presos. Mas qualquer dado relacionado a Vorcaro hoje é de interesse público. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou informações sobre suas prisões, relações com o poder, mensagens pessoais e até o financiamento ao filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Tudo pode ser relevante. O cidadão tem o direito de saber quem visitou o banqueiro na cadeia. Até porque não há nenhum crime em ter visitado Vorcaro.

A despeito de promessas de campanha, o atual governo continua a impor sigilos centenários. O mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que tanto criticou Bolsonaro pelos abusos lança mão do expediente. “Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder”, disse Lula em 2022. Uma vez no poder, o roteiro saiu diferente. O atual governo tem negado informações em patamares não muito diferentes do anterior.

Não é prática apenas do Executivo. O Senado negou pedido da coluna Malu Gaspar para informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa. Alegou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados e um decreto sobre acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra, e imagens detidas pelos órgãos e entidades”. No ano passado, o Senado já decretara sigilo de cem anos sobre entradas e saídas do lobista acusado de chefiar o esquema que lesou milhões de aposentados.

Vorcaro é acusado de ter liderado uma das maiores fraudes bancárias da História do país. Milhares de investidores tiveram de ser socorridos. Fundos de Previdência de servidores terão de recorrer aos cofres públicos. As investigações mostram que ele pagava uma milícia particular para intimidar e ameaçar quem o contrariasse, em especial jornalistas. E quem o visitou não é de interesse público?

O ataque dos ‘jabutis zumbis’

Por O Estado de S. Paulo

A toque de caixa, senadores aprovam projeto que obriga o País a contratar termoelétricas onde não há reservas ou gasodutos e que gera um custo extra de R$ 1,5 trilhão para as contas de luz

A resiliência de alguns jabutis no Congresso é impressionante. Algumas dessas emendas – inseridas em projetos de lei sem qualquer relação com o tema original do texto – são derrubadas e voltam como “zumbis”. Por exemplo, há iniciativas que ameaçam as contas de luz há tanto tempo que, muitas vezes, o que muda é apenas o parlamentar disposto a defendê-las.

É o caso do Projeto de Lei 5.017/2019. Destinado originalmente a conceder descontos especiais na tarifa de energia elétrica para irrigação, aquicultura e poços semiartesianos voltados ao consumo humano, o texto foi emendado com um jabuti que obriga a contratar termoelétricas em locais onde não há nem reservas de gás nem gasodutos, além de pequenas centrais hidrelétricas. O custo da brincadeira pode chegar a R$ 1,5 trilhão aos consumidores nos próximos 30 anos, segundo a Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia (Abrace).

Apresentado na Câmara em 2015, o projeto foi aprovado pelos deputados em 2019 e estava na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado desde 2021. A inglória missão de relatar o projeto agora coube ao senador Hermes Klann (PL-SC), suplente de Jorge Seif (PL-SC), licenciado do cargo desde o início de maio. Até então um ilustre desconhecido nos corredores de Brasília, o senador Klann assumiu a relatoria no dia 14 de julho. Sem perder tempo, apresentou seu parecer no mesmo dia – que, na verdade, era um texto elaborado por um dos relatores anteriores, o senador Marcos Rogério (PL-RO), já com os jabutis devidamente embutidos nas contas de luz. Rogério, presidente da comissão, prontamente o submeteu ao colegiado, e o texto foi aprovado em votação simbólica – antes da qual, para coroar a chanchada, faltou luz. A pantomima não durou nem dez minutos. Nem senadores da base aliada nem da oposição manifestaram alguma objeção à proposta.

Diante das controvérsias que gerou após ser aprovado na comissão, o texto provavelmente terá de passar antes pelas Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e de Assuntos Econômicos (CAE) antes de chegar ao plenário do Senado e voltar à Câmara para uma última análise. Isso pode até atrasar a tramitação da proposta, mas que o leitor não se deixe enganar.

Afinal, como já dissemos neste espaço, é exatamente assim que nascem – e neste caso em particular, ressuscitam – os jabutis. Com algumas atualizações e modificações, essa mesma iniciativa aparece e reaparece na forma de emendas em projetos de lei e medidas provisórias há quase dez anos, especialmente em anos eleitorais, quando o Legislativo costuma aprovar absurdos desse tipo a toque de caixa, abaixo do radar da opinião pública.

No passado, o País já podia recorrer a projetos mais baratos para o abastecimento de energia. Hoje, com o aumento da presença de fontes renováveis no sistema, o cenário é mais desafiador, mas nem por isso justifica a contratação compulsória dessas usinas. Em um mesmo dia, pode haver sobra e falta de eletricidade, de forma que operar o sistema elétrico requer dos órgãos técnicos do setor mais flexibilidade para acionar e desligar usinas e evitar apagões – o oposto do que o projeto do Congresso propõe.

É inacreditável que os parlamentares estejam dispostos a repassar mais esse custo para os consumidores. O governo Lula, por sua vez, não apenas faz vista grossa a essas práticas do Congresso como também compactua com elas. Os leilões de reserva de capacidade realizados em março, que contrataram muito mais usinas que o necessário, são prova disso.

É assim, à base de lobbies e em detrimento da segurança e da confiabilidade do sistema, que o setor elétrico tem operado já há anos. Com energia limpa em abundância, o País tem uma vantagem comparativa única que poderia ser usada como um instrumento para atração de investimentos e para o crescimento da economia. Lamentavelmente, a escolha preferencial tem sido o atraso e a estagnação.

Devemos negociar com todos

Por O Estado de S. Paulo

Diante do tarifaço dos EUA, o Brasil age bem ao buscar acordos com Coreia do Sul e China via Mercosul, mas isso não pode excluir o diálogo com americanos nem a abertura da economia

Em meio aos efeitos da nova ofensiva tarifária do presidente dos EUA, Donald Trump, Brasil e Coreia do Sul concordaram em acelerar negociações para viabilizar um acordo comercial através do Mercosul, tema discutido na recente reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega sul-coreano Lee Jae Myung, em Brasília.

Uma outra possibilidade de parceria, entre o Mercosul e a China, também voltou a ganhar visibilidade após telefonema de Lula ao presidente chinês, Xi Jinping. Avançam ainda negociações com o Canadá, outro país fortemente punido por Trump.

Isso mostra que, felizmente, o Brasil, a exemplo de outros países afetados pelo tarifaço americano, não ficou parado e foi buscar alternativas. Por mais barulho e atenção que a politização desmedida dos tempos atuais gere, o espaço para negociações continua aberto. E negociar, mais do que nunca, é fundamental.

Além de anunciar a criação de um grupo de trabalho com os sul-coreanos para viabilizar um acordo com o Mercosul, o Brasil também informou que uma missão técnica da Coreia do Sul visitará frigoríficos brasileiros já no mês que vem, para avaliar as condições sanitárias. O entendimento pode elevar as exportações de proteína animal do Brasil para a Coreia do Sul.

Os dois países assinaram ainda um memorando de entendimento para ampliar a cooperação na área de mineração. Quanto mais interessados em seus minerais críticos o Brasil cativar, melhor será sua posição para firmar acordos de fornecimento desses recursos, indo além da simples transferência de tal riqueza para um comprador externo. Detentor da segunda maior reserva de minerais críticos do planeta, atrás somente da China, o Brasil atrai a cobiça de fabricantes globais de carros elétricos e equipamentos tecnológicos, altamente dependentes dos minerais críticos.

Já a sinalização de que há disposição tanto do Brasil quanto da China para um acordo comercial via Mercosul é mais um efeito colateral das tarifas dos EUA. Ao castigar o Brasil de maneira particularmente dura, o presidente Trump inadvertidamente empurrou o Brasil cada vez mais em direção à China. Pode ser que essa consequência leve o governo americano a ampliar a lista de isenções de produtos brasileiros taxados.

Buscar mais mercados é a saída óbvia para contornar a pressão dos EUA, mas isso não significa que o Brasil, se for bem-sucedido, possa se dar ao luxo de não lutar para voltar ao mercado americano – especialmente porque a pauta de exportação brasileira para os EUA é mais sofisticada que para outros parceiros.

Por outro lado, uma negociação entre o Mercosul e a China também joga luz sobre o que importa na “crise política sem precedentes” entre Brasil e Argentina. Por mais que o presidente argentino, Javier Milei, maldiga o Mercosul, ele segue no bloco. E como bloco o Mercosul tem mais possibilidades de negociar um acordo vantajoso com a China do que a Argentina teria negociando sozinha. Conhecido como “louco”, Milei tem sido bastante racional na relação com os chineses, a despeito de seu alinhamento ideológico total com os EUA de Trump.

Ao Brasil, porém, não basta apenas buscar novos parceiros porque Trump retomou sua cruzada protecionista. A conquista de novos mercados é um imperativo, que deve sempre nortear a política externa e econômica brasileira.

E a atração de novos parceiros passa pela abertura da nossa economia, conhecida como uma das mais fechadas do mundo. Enquanto a média global de corrente comercial – soma de exportações e importações – é de 56,6% do PIB, a brasileira é de apenas 35,5% do PIB, segundo dados do Banco Mundial.

Mais do que atrair parceiros, é preciso saber mantê-los. Hoje, mesmo países que já têm relações de longa data com o Brasil encontram dificuldade para navegar as enormes barreiras protecionistas que por aqui vigoram. Está mais do que na hora de o Brasil se abrir ao mundo.

A fé que move as políticas públicas

Por O Estado de S. Paulo

Fracasso do Reforma Casa Brasil é incapaz de abalar a crença de Lula em suas medidas eleitoreiras

Uma reportagem publicada recentemente pelo Estadão informa que o setor de construção ficou frustrado com os resultados do Programa Reforma Casa Brasil. Anunciada pelo governo Lula em outubro do ano passado, a iniciativa conta com um orçamento de R$ 40 bilhões, mas apenas R$ 1,3 bilhão havia sido contratado até maio. Um governo responsável teria examinado as razões por trás do fracasso do programa antes de ajustar seus critérios e, no limite, poderia até mesmo suspendê-lo para análise e eventual reformulação.

Mas o governo Lula, guiado pelas pesquisas e de olho exclusivamente nas eleições, prontamente ampliou o prazo dos financiamentos de 60 para 72 meses, elevou o limite de renda familiar para enquadramento de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil e reduziu a taxa de juros de 1,17% para 0,99% ao mês. O montante contratado até subiu para R$ 2,7 bilhões até o dia 16 de julho, mas o fato é que apenas 6,7% do orçamento do programa foi executado até agora. Decepcionada, a indústria de materiais de construção reduziu sua projeção de crescimento neste ano de 1,9% para 0,5%.

O curto histórico descrito nesta nota evidencia o padrão pernicioso que orienta as políticas públicas no País há décadas. Em muitos casos, em vez de identificar um problema, avaliar suas causas, traçar metas e propor medidas que conduzam aos resultados almejados, a solução mágica já está pronta, à espera de um suposto problema a ser resolvido.

Para justificar o Reforma Casa Brasil, por exemplo, o governo mencionou a necessidade de reduzir o déficit habitacional brasileiro, elevar o estoque de unidades qualificadas e prover fontes de financiamento imobiliário às classes baixa e média. São, de fato, problemas conhecidos da economia brasileira.

Resolvê-los, no entanto, requer mais que intenção. E a julgar pelos resultados, o Reforma Casa Brasil era mais uma demanda da indústria de materiais de construção do que de famílias propensas a executar obras em seus lares – ao menos neste momento, em que o nível de endividamento e a inadimplência voltaram a registrar recorde.

Com o orçamento apertado e a renda consumida por outras dívidas, compreende-se que a disposição das famílias para fazer obras seja baixa. O setor de materiais de construção explicou que as reformas têm sido feitas aos poucos, de forma que haja tempo para recuperar o fôlego financeiro até assumir um novo compromisso.

Mas nem mesmo a realidade é capaz de abalar a crença do governo no programa. A despeito de os números dizerem o oposto, o Ministério das Cidades afirma que “o programa tem alcançado efeitos desejáveis até o momento”.

Como um disco riscado, o governo Lula recorre incessantemente a medidas já testadas e reprovadas no passado. Rever gastos públicos, aprovar reformas estruturais e reequilibrar as contas públicas de forma a conter a trajetória da dívida pública permitiria criar condições para que o País tivesse juros mais baixos.

Assim, não apenas os interessados em reformar suas casas poderiam assumir empréstimos com taxas mais civilizadas e prazos de pagamento mais longos, mas toda a sociedade e para qualquer objetivo.

Fed mantém o juro, que não deve subir tão cedo

Por Valor Econômico

Os rendimentos dos Treasuries subiram e as ações caíram nos EUA, com os investidores vendo uma inclinação do Fed em não agir antes das eleições de meio de mandato de novembro

O Federal Reserve (Fed), sob o comando de Kevin Warsh, manteve ontem a taxa de juros básica americana na faixa de 3,50% a 3,75%, em uma decisão amplamente esperada, apesar de uma inflação persistentemente acima da meta de 2% e de preços de energia elevados, impulsionados pelas guerras na Ucrânia e no Irã. Dos 12 membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, três votaram a favor de um aumento de 0,25 ponto percentual para enfrentar a pressão inflacionária. Em seu discurso sobre a decisão de política monetária, Warsh declarou que o comitê não tem “nenhuma tolerância” com uma inflação elevada e ressaltou o compromisso da autoridade monetária em trazer a inflação para a meta de 2%. Mas observou que não se pode resolver em nove semanas mais de cinco anos de inflação acima da meta.

Warsh, que comandou sua segunda reunião de política monetária como presidente do Fed, foi nomeado pelo presidente Donald Trump, que, desde o seu retorno à Casa Branca, tem exercido forte pressão sobre o banco central americano para reduzir as taxas de juros em vez de aumentá-las. Contudo, o cenário externo altamente volátil, alimentado pelas ações intempestivas do próprio Trump, não permitem a Warsh afrouxar a política monetária, sob o risco de minar a credibilidade do Fed. Ontem, os preços do petróleo Brent subiram quase 8%, para acima de US$ 90 o barril, após Trump prometer dar uma “surra” no Irã em retaliação ao “ataque surpresa” contra as forças americanas, ameaçando uma escalada ainda maior do conflito no Oriente Médio.

Manter o juro estável é o máximo que Warsh consegue entregar para Trump neste momento. Em um reconhecimento, o presidente declarou ontem que Warsh estava fazendo um trabalho fantástico. “Ele é um sujeito brilhante”, disse Trump a repórteres no Salão Oval, após o anúncio da decisão de política monetária.

Embora alguns analistas tenham descrito a decisão de manutenção do juro como sendo “hawkish hold” (manutenção com viés de alta), por conta dos três votos dissidentes a favor de um aperto monetário, a reação dos mercados financeiros refletiu a expectativa de um Fed mais inclinado à manutenção nas próximas duas reuniões antes das eleições legislativas de meio de mandato, nas quais os republicanos buscarão manter a maioria nas duas casas do Congresso em um cenário desafiador de crescente preocupação dos americanos com os rumos da economia.

No mercado de bônus, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 30 anos - que acompanha as expectativas de inflação - saltaram para 5,20%, nível mais alto em dois meses, enquanto as ações registraram perdas significativas - o Dow Jones recuou 2,19%, o S&P 500, 1,52% e o Nasdaq, 1,74% -, com os operadores vendo a inclinação para uma abordagem mais lenta de aumento das taxas de juros como insuficiente para conter a inflação. O dólar caiu para seu nível mais baixo em quase uma semana.

Aparentemente, os “bond vigilants” não ficaram impressionados pela afirmação de Warsh de que não hesitará em agir se a inflação permanecer elevada. Os participantes do mercado ainda interpretaram a repetida declaração de Warsh de que as condições monetárias nos EUA estão mais apertadas hoje, com a alta dos juros dos Treasuries desde a reunião de junho, como uma indicação de que ele não está com pressa em elevar as taxas de curto prazo que o Fed efetivamente controla.

Durante a entrevista coletiva à imprensa, Warsh reafirmou sua decisão de eliminar o “forward guidance” de política monetária, argumentando que, no intervalo entre as duas últimas reuniões do Fed, o mercado reagiu a dados econômicos reais, “aprendendo a jogar com a bola e não com o juiz”. Ele rebateu as críticas de que a falta de “foward guidance” torne o processo de decisão mais opaco no Fed, o que elevaria o risco de a autoridade monetária pegar os mercados de surpresa. “Surpresas não são o objetivo”, afirmou Warsh. Ele sempre foi um crítico da postura de abertura de seus antecessores, afirmando que eles tornaram os mercados excessivamente dependentes das sinalizações do Fed sobre a direção das taxas de juros.

É sintomático que a guinada por menos transparência e mais opacidade no processo decisório do Fed ocorra durante o governo de Trump, que é avesso à “accountability” (responsabilidade, prestação de contas) e que tem borrado cada vez mais as linhas que separam o público do privado. É preocupante que essa mudança ocorra num momento desafiador para o Fed, de prolongamento das guerras no Irã e na Ucrânia e de aumento significativo do endividamento público e privado nos EUA. Warsh deixou claro que a tendência é de mais opacidade. Até mesmo as entrevistas coletivas pós decisão de política monetária podem estar com os seus dias contatos. Ao ser questionado sobre o tema, Warsh se limitou a dizer que está comprometido com esse encontro com a imprensa “este ano”.

Horizonte de desafios no cenário regional

Por Correio Braziliense

O vencedor da corrida ao Planalto terá de se debruçar desde logo sobre uma conjuntura regional que se sobrepõe a um panorama global de guerras e conflitos que ensaiam entrelaçar-se

A crise diplomática aberta com a Argentina, depois das declarações do presidente Javier Milei em visita não oficial ao país, ilustra nos tons mais berrantes o cenário regional que aguarda o próximo governo brasileiro, na virada do ano. Paralelamente, entram em cena, na vizinhança imediata, mais dois governos de direita alinhados em alguma medida a Donald Trump: Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

Para além de eventual incidência no debate eleitoral que deslancha por aqui, a guinada política na América do Sul — e na América Latina, em geral — terá peso fundamental na formulação da política externa para os próximos anos. Desde logo, porque o presidente eleito em outubro deverá contracenar com Trump na Casa Branca por metade do mandato. Seja quem for o titular do Planalto, terá de fazer interface com uma agenda de orientação cristalina: o lema, em Washington, é reafirmar a hegemonia no Hemisfério, inclusive como parte da disputa com a China pela hegemonia global.

Se na relação bilateral predomina hoje a guerra das tarifas, ao longo dos meses tende a ganhar terreno outra guerra — contra o crime organizado transnacional, especialmente o narcotráfico. Milei, Keiko e De la Espriella fazem coro com Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai) e José Antonio Kast (Chile) na adesão ao modelo de "mão dura" adotado em El Salvador por Nayib Bukele — outro trumpista raiz. A presidente peruana anunciou, no discurso de posse, o envio dos militares para "recuperar" as regiões do país conflagradas pela violência.

Figura nos planos de vários deles, se não todos, a perspectiva de cooperação operacional com os Estados Unidos na abordagem militar da segurança pública. Pela perspectiva de Washington, esse movimento se desdobra na direção de estabelecer ou restaurar a presença militar no continente. Nos próximos anos, ainda com Trump no comando, uma rede de bases norte-americanas poderá estar em funcionamento de norte a sul das fronteiras. Sem falar na recente reativação da IV Frota, com jurisdição sobre as Américas: nos últimos meses, ela mostrou ao que veio afundando barcos na costa da Venezuela e da Colômbia e impondo o bloqueio de petróleo contra Cuba. 

É de múltiplos desafios o horizonte que se desenha para o vencedor da corrida ao Planalto em outubro. Os candidatos que despontam como favoritos apontam em direção opostas, na pauta externa. Mas subirão ao palco no mesmo cenário. Cada qual com sua abordagem, terá de se debruçar desde logo sobre uma conjuntura regional que se sobrepõe a um panorama global de guerras e conflitos que ensaiam entrelaçar-se. Não bastará enfileirar argumentos para o debate de campanha. Mais que isso, será preciso ter ideias claras e fundamentadas para conduzir o país em um período que se anuncia acidentado e pouco previsível.

Resposta rápida para conter as facções

Por O Povo (CE)

As iniciativas para conter a influência das facções na política têm de ser cada vez mais rigorosas, pois trata-se de defender a sociedade de delinquentes perigosos, que tem como objetivo sequestrar as instituições públicas para submetê-las ao comando do crime

O combate à influência das facções criminosas nas eleições de outubro é crucial para garantir a segurança e a integridade das eleições que se aproximam.

É cada vez mais comum a infiltração desses grupos criminosos nos poderes Legislativo e Executivo, principalmente em cidades de menor porte, supostamente por haver menos fiscalização dos órgãos públicos nesse segmento.

O fato é que se tornou generalizada a ação do crime organizado apresentando candidatos ligados às facções ou cooptando políticos que se deixam corromper.

Contribui de maneira decisiva para evitar a infiltração de organizações criminosas nas eleições as ações conjuntas da Polícia Federal (PF), Ministério Público e outros órgãos públicos para identificar e levar à Justiça integrantes ou representantes dessas facções.

Um exemplo da ofensiva legal contra os grupos criminosos foi a operação realizada nesta terça-feira pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará, composta pela PF, Polícias Civil, Militar e Penal do Ceará e pela Secretaria Nacional de Polícias Penais. Durante a operação foram realizados mandados de busca e apreensão nas cidades de Iguatu, Ocara e Horizonte. As investigações referem-se a supostas irregularidades ocorridas nas eleições de 2022 e 2024.

Além das ações da Polícia Federal, que ocorrem em vários estados brasileiros, outra ofensiva parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com a legislação eleitoral, o fato de um candidato ser acusado ou mesmo réu não o impede de candidatar-se.

No entanto, precedentes do TSE apontam que, no caso de organizações criminosas, não seria necessária uma condenação para impedir uma candidatura. "A robustez dos elementos fáticos que denotem a participação do pretenso candidato em milícias ou organizações armadas é suficiente para obstar a candidatura", declarou ao O POVO o procurador Regional Eleitoral no Ceará, Celso Costa Lima Verde Leal. Portanto, nesses casos, segundo o procurador, "o TSE deixou claro não ser necessária uma condenação criminal colegiada ou transitada em julgado contra o candidato, diferenciando essa vedação das regras estritas da Lei das Inelegibilidades".

Essas iniciativas para conter a influência das facções na política têm de ser cada vez mais rigorosas, pois trata-se de defender a sociedade de delinquentes perigosos, que tem como objetivo sequestrar as instituições públicas para submetê-las ao comando do crime.

A velocidade com que essas organizações criminosas disseminam-se por todo o País, tornando-se cada vez mais poderosas e violentas, exige uma resposta rápida, com o uso de todos os instrumentos legais disponíveis para barrar seus intentos criminosos.

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