segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Jürgen Habermas: Ainda Potência


Entrevista
Thomas Assheuer
DEU NA FOLHA DE S. PAULO/ MAIS!

PARA O FILÓSOFO ALEMÃO JÜRGEN HABERMAS, FUTURO POLÍTICO DO PLANETA DEPENDERÁ DA POSIÇÃO QUE OS EUA ADOTAREM NOS PRÓXIMOS ANOS


O novo presidente precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street e se afastar dos reflexos de um novo protecionismo

Um dos mais importantes filósofos vivos, o alemão Jürgen Habermas fala nesta entrevista sobre os efeitos da atual crise financeira sobre o futuro dos Estados nacionais. Para ele, as mudanças que o sistema político mundial sofrerá nos próximos anos irá depender necessariamente das posições que os EUA -e seu novo presidente- irão adotar. Habermas defende que os EUA, mesmo enfraquecidos, ainda permanecerão como a superpotência liberal.

PERGUNTA - O sr. deve estar decepcionado com os EUA, que, em sua opinião, foram o cavalo de tração da nova ordem mundial.

JÜRGEN HABERMAS - O que nos resta a não ser apostar nesse cavalo de tração? Os Estados Unidos sairão enfraquecidos da dupla crise atual. Mas permanecerão por enquanto a superpotência liberal. A exportação mundial da própria forma de vida correspondeu ao universalismo falso, centralizado, dos velhos ricos. Em contraposição, a modernidade se alimenta do universalismo descentralizado do respeito igual por cada um. É do próprio interesse dos EUA não somente deixar de lado seu posicionamento contraproducente em relação à ONU, mas também colocar-se no topo do movimento reformista. Do ponto de vista histórico, a combinação de quatro fatores oferece uma constelação extraordinária: superpotência, mais antiga democracia na terra, a posse de um presidente liberal e visionário e uma cultura política na qual orientações normativas encontram um notável solo de ressonância. Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral, à autodestruição do neoliberalismo e também ao mau uso de uma consciência de excepcionalidade. Por que essa nação não poderia, como fez com tanta freqüência, recompor-se de novo e tentar integrar a tempo as grandes potências concorrentes de hoje -e potências mundiais de amanhã- em uma ordem internacional que prescinda de uma superpotência? Por que um presidente -que, saído de uma eleição decisiva, irá encontrar somente um espaço mínimo de ação- não desejaria, pelo menos na política externa, agarrar essa oportunidade razoável, essa oportunidade da razão?

PERGUNTA - Falando assim, o sr. não arrancaria mais do que um riso cansado dos chamados "realistas"...

HABERMAS - O novo presidente americano precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street no próprio partido; ele também deveria ser afastado dos reflexos evidentes de um novo protecionismo. E os EUA precisariam, para uma meia-volta tão radical, do impulso amigável de um aliado leal, mas autoconsciente. Só pode existir um Ocidente "bipolar", no sentido criativo, se a União Européia aprender a falar para fora com uma só voz. Em épocas de crise, talvez seja necessária uma perspectiva que tenha um alcance mais longo do que o conselho do "mainstream" embonecado do sucesso a qualquer custo.

PERGUNTA - O sistema financeiro internacional entrou em colapso, e há a ameaça de uma crise econômica mundial. O que mais o inquieta?

HABERMAS - O que mais me inquieta é a injustiça social, que consiste no fato de que os custos socializados oriundos da pane do sistema atingem da forma mais dura os grupos sociais mais vulneráveis. Assim, solicita-se da massa composta por aqueles que, de qualquer modo, não pertencem aos que lucram com a globalização que ela de novo pague pelas conseqüências, em termos da economia real, de uma falha funcional previsível do sistema financeiro. Também em escala mundial, esse destino punitivo efetua-se nos países mais fracos economicamente. Esse é o escândalo político. Mas apontar agora bodes expiatórios, isso, sem dúvida, considero hipocrisia. Também os especuladores comportaram-se de forma conseqüente, nos limites da lei, de acordo com a lógica, aceita socialmente, da maximização dos ganhos. A política se torna ridícula quando moraliza, em vez de se apoiar no direito coativo do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação voltada ao bem comum.

PERGUNTA - Para os neoliberais, o Estado é somente um parceiro no campo econômico e precisa se apequenar. Agora esse pensamento não tem mais crédito?

HABERMAS - Isso dependerá do desenrolar da crise, da capacidade de percepção, por parte dos partidos políticos, dos temas públicos.

PERGUNTA - Por que o bem-estar é hoje distribuído de forma tão desigual? O fim da ameaça comunista desinibiu o capitalismo ocidental?

HABERMAS - O capitalismo contido no âmbito dos Estados nacionais, cercado por políticas econômicas keynesianas, marcado por um bem-estar incomparável -do ponto de vista histórico-, já havia acabado logo após o abandono do câmbio fixo e do choque do petróleo. De fato, a ruína da União Soviética desencadeou um triunfalismo fatal no Ocidente. A sensação de ter razão, em termos da história mundial, tem um efeito sedutor. Neste caso, inchou uma doutrina político-econômica e a tornou uma visão de mundo que penetra em todas as esferas da vida.

PERGUNTA - De que o mundo sentiu falta depois de 1989? O capital simplesmente se tornou poderoso demais diante da política?

HABERMAS - Ficou claro para mim, ao longo dos anos 1990, que as capacidades políticas de ação precisavam crescer atrás dos mercados, no plano supranacional. À globalização econômica deveria ter seguido uma coordenação política mundial e a legitimação adicional das relações internacionais. Mas as primeiras peças adicionais já ficaram atoladas no governo de Bill Clinton. Desde o início da modernidade, o mercado e a política sempre precisaram se contrabalançar de forma que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se rompesse. Uma tensão entre capitalismo e democracia sempre existe porque mercado e política repousam sobre princípios opostos.

PERGUNTA - Mas o sr. insiste no cosmopolitismo de Kant e acolhe a idéia de uma política interna mundial, introduzida por Carl Friedrich von Weizsäcker. Isso soa bastante ilusório -basta que se observe o estado atual das Nações Unidas.

HABERMAS - Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente. De fato, o Conselho de Segurança, o Secretariado, as cortes de Justiça precisariam urgentemente entrar em forma para uma imposição global dos direitos humanos e da proibição da violência -em si já uma tarefa imensa. Nesse plano transnacional, há problemas de distribuição que não podem ser decididos do mesmo modo que infrações contra os direitos humanos ou violações de segurança internacional, mas precisam ser negociados de forma política.

PERGUNTA - Mas para isso já existe uma organização experimentada, que é o G-8.

HABERMAS - Isso é um clube exclusivo, no qual algumas dessas questões são discutidas de forma descomprometida. Entre as expectativas exageradas que se ligam a essas encenações e o resultado medíocre do espetáculo midiático sem conseqüências, existe uma desproporção traiçoeira.

PERGUNTA - O discurso sobre a "política interna mundial" soa antes como os sonhos de um vidente.

HABERMAS - Ainda ontem a maioria consideraria não realista aquilo que ocorre hoje: os governos europeus e asiáticos superam-se mutuamente em sugestões de regulamentações em vista da institucionalização insuficiente dos mercados financeiros.

PERGUNTA - Mesmo que novas competências fossem atribuídas ao Fundo Monetário Internacional, isso ainda não seria uma política interna mundial.

HABERMAS - Não quero fazer previsões; em vista dos problemas atuais, o que podemos fazer, na melhor das hipóteses, são considerações construtivas. Os Estados nacionais deveriam, de forma crescente e, com efeito, em seu próprio interesse, se perceber membros da comunidade internacional. Quando hoje falamos de "política", estamos amiúde falando da ação de governos que herdaram uma autoconcepção como atores coletivos, que decidem de forma soberana. Mas essa autoconcepção de um Leviatã, que, desde o século 17, se desenvolveu junto com o sistema de Estados europeu, hoje já não é mais vigorosa. O que chamávamos ontem de "política" muda diariamente seu estado.

PERGUNTA - Mas como isso se coaduna com o darwinismo social, que, como o sr. diz, se expande novamente na política internacional desde o 11 de Setembro?

HABERMAS - Talvez se devesse dar um passo atrás e observar uma conjuntura maior. Desde o final do século 18, o direito e a lei permearam o poder do governo, constituído politicamente, e lhe negaram, na circulação interior, o caráter substancial de um simples "poder". Mas ele guardou para si uma quantidade suficiente dessa substância, apesar da rede de organizações internacionais e da força de coesão crescente do direito internacional. Ainda assim, o conceito de "político", cunhado no âmbito do Estado nacional, está se liquefazendo. Na União Européia, por exemplo, os Estados-membros, no passado e no presente, guardam o monopólio da força e também transpõem, mais ou menos sem reclamações, o direito que é determinado na esfera supranacional. Essa mudança de forma do direito e da política também se relaciona a uma dinâmica capitalista que pode ser descrita como interação entre abertura forçada funcionalmente e fechamento sociointegrativo em níveis cada vez mais elevados.

PERGUNTA - O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

HABERMAS - O Estado social é uma proeza tardia e frágil. Os mercados e as redes de comunicação sempre em expansão já tiveram uma força de arrombamento, que, para o cidadão individual, é, ao mesmo tempo, individualizante e libertadora. A isso, porém, sempre seguiu uma reorganização das velhas relações de solidariedade numa moldura institucional expandida. Esse processo iniciou-se no início da modernidade, quando os estamentos dirigentes da Alta Idade Média se tornaram, passo a passo, parlamentares -como na Inglaterra- ou foram subjugados por reis absolutistas -como na França. Essa domesticação jurídica do Leviatã e do antagonismo entre as classes não foi simples. Mas, pelas mesmas razões, a bem-sucedida constitucionalização do Estado e da sociedade aponta hoje, após um surto de globalização econômica, para uma constitucionalização do direito internacional e da esfacelada sociedade mundial.


A íntegra desta entrevista saiu no "Die Zeit". Tradução de Erika Werner.

Democracia é assim (ou não é)


Wilson Figueiredo
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Sempre foram ambivalentes as relações do presidente Lula com os jornais. Tanto podem ser entendidas de um jeito como de outro. Há algum tempo Lula repete que, sem a imprensa, não teria chegado à Presidência. A despeito dela, foi reeleito e rejeitou o terceiro mandato. Desde o começo, a imprensa foi importante para a atividade política de Lula. As restrições da censura deram peso político ao líder sindical. Não foi uma revolução, longe disso, mas várias eleições perdidas levaram o presidente e o PT ao poder. Democracia é assim ou não é democracia.

O presidente Lula e a liberdade de imprensa se tornaram dependentes e inseparáveis, embora as relações entre ele e ela passem por crises periódicas. Foi o próprio Lula que se declarou o grande beneficiário da liberdade de informação e opinião sobre a qual se assenta a democracia que vamos edificando às caneladas. Trata-se, porém, de moldura para censurar a prioridade óbvia do jornalismo pelo ângulo crítico. Lula não se conforma com o privilégio das crises no noticiário, a precedência para o irreparável, a prioridade para o erro, o destaque para o crime, a soberania do negativo.

Ainda agora, pela enésima vez, o presidente aproveitou a oportunidade de uma esticada à usina de Tucuruí para se queixar de episódio ocorrido há quatro anos, quando da primeira visita às obras. A ênfase do noticiário em 2002 foi o gesto presidencial de comer com satisfação infantil um bombom e se atrapalhar com o papel que o envolvia. Como se livrar do papelucho? Lula optou por atirá-lo discretamente ao chão, e os fotógrafos não perderam a oportunidade. Queixa-se o presidente de que o bombom ofuscou a porção JK do seu governo. Com severidade, mas sem perder a delicadeza rude, Lula mostrou que desenvolvimentismo e bombons não são incompatíveis.

Antes e depois do ciclo militar, Brasil a dentro e Brasil a fora, Lula se beneficiou da liberdade de imprensa mais que qualquer outro. Dela se serviu e a ela serviu por serem, uma e outra, inseparáveis. Há quem entenda que Lula é assim para aplacar o ressentimento que o mensalão exacerbou no petismo. Que não se engane o presidente, como ocorre aos seus mais assíduos adversários, se pensar que os jornais o favoreceram por outra razão que não fosse o teor de interesse público, no sindicalismo com pompa e peleguismo, ou na presidência do PT. A Presidência apresenta Lula no perfil suavizado pelo mercado que o acolheu de braços abertos, depois daquela carta comovente que explicará no futuro o que tiver escapado ao presente.

Com o tempo, Lula passou de apedrejador a vitrina. O reconhecimento público da importância da imprensa é interesseiro e utilizado como atenuante para reclamar do jornalismo a preferência pelo ângulo desfavorável dos fatos. Ou o menos convencional. E nada pode ser mais convencional do que visita de governante a obras que, ainda na prancheta, lhe pareçam garantir sobrevida de pirâmides do Egito.

Que pode haver de novo numa visita a obras em andamento? Só mesmo o bombom que, uma vez saboreado, deixou o papel nas mãos presidenciais. No dia seguinte, lá estava na primeira página dos jornais o gesto inesquecível. O presidente há de convir que o cidadão tem o direito de estranhar que o mais alto posto na hierarquia republicana dê preferência ao chão quando tem no bolso do paletó espaço suficiente para abrigar o papelucho já sem o bombom. Presidente da república pilhado em flagrante é preciosidade imperdível para um repórter fotográfico a serviço do acaso.

Ensina a lição preliminar de jornalismo que a notícia não é o cachorro que morde o dono, mas o dono que tenha mordido o cachorro. Não há ditadura que faça valer o contrário. O jornalismo teria morrido prematuramente se fosse obrigado a se contentar com o óbvio. O presidente Costa e Silva e a condessa Pereira Carneiro, em almoço no Laranjeiras quando tais coisas ainda eram possíveis, conversavam sobre a contribuição da imprensa para afastar os fantasmas que assombravam a república. Dona Maurina testemunhou ao marechal as dificuldades do jornalismo em situações políticas desconfortáveis. E discorreu sobre o espírito crítico, mas construtivo, com que o JB lidava com governos. O presidente não economizou simpatia. Terminado o almoço, a condessa agradeceu a Costa e Silva a oportunidade de expor a teoria da crítica construtiva e o marechal não deixou por menos: "Dona Maurina, a crítica construtiva do JB é valiosa, mas eu gosto mesmo é de elogio".

O presidente Lula é também dado a franquezas, e não perde oportunidade de passar a impressão de acreditar mais na luta de classes do que na encíclica Rerum novarum. Até prova em contrário.

A face da nova geração


José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS


A significativa vitória do Partido Democrata, apoiada no desempenho eleitoral de Barack Obama, repõe no cenário político americano e no cenário político internacional a mística das grandes mudanças inspiradas no novo e difuso humanismo desta era pós-Guerra Fria, pós-socialista, a era das dissoluções de velhas linhas demarcatórias herdadas do mal resolvido século 20. Ainda não sabemos se a popularidade eleitoral de Obama se traduzirá em carisma que o tornará o que os historiadores de outro tempo definiam como epônimos, homens que dão nome a uma época. Sua circunstância o leva nessa direção.

Essa vitória repõe a questão das funções históricas da revolução cíclica das gerações, porque não resultou de mera peleja entre democratas e republicanos. Hillary Clinton representava a alternativa pendular. Na pessoa de Obama, as novas gerações, os recém-chegados à cena da história, os que estão cansados de esperar, encontraram sua identidade e a alternativa. A cada tanto tempo, uma geração já não compreende a língua, a mentalidade, os propósitos e os desacertos da geração anterior. Ousa, tenta mudanças, abre caminhos, inventa saídas, dá cor ao mundo cinzento do repetitivo.

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, a América e o mundo vêm tentando escapar das armadilhas políticas criadas no século 19, na difícil realização dos valores e direitos proclamados pela Revolução Francesa, ainda mal resolvidos nas primeiras décadas do século 20. Armadilhas condensadas na polarização perversa que se expressou na Guerra Fria. Prisioneiro dessa polarização, o mundo ocidental vem dando passos para libertar-se desse passado, criando um mundo novo em que os ideais de justiça social, democracia e liberdade se tornem realidades. Senhores e patrões de conflito esquizofrênico, Estados Unidos e União Soviética patinaram ao longo das décadas, negando nos conflitos que promoviam a visão de mundo que proclamavam. Barack Obama, na América, está sendo chamado a personificar a esperança da superação histórica, a esperança de uma nova era, em que o mundo se torne o que poderia ser e tem condições de ser e não tem sido.

Barack Obama representa uma outra América, a América que em silêncio, na corajosa obstinação da não-violência e dos movimentos sociais, teceu o belo rendilhado da esperança dos banidos do poder e dos privados dos direitos civis. A América que acompanhou com paciência o envelhecimento de uma concepção arrogante do homem, da vida e do mundo e que construiu uma alternativa moral para a injusta prepotência própria do demasiado e indevido poder.

Obama e sua esposa Michelle vêm da experiência social e política da militância no trabalho voluntário com os pobres e injustiçados. Foram socializados na cultura dos movimentos sociais, pela qual as novas gerações nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões e países educaram-se nos valores da generosidade, da partilha e da paz. Nesse sistema de valores puderam compreender o imenso abismo que nos separa das promessas das grandes revoluções que criaram o mundo moderno. Novas gerações que compreenderam a fraude política das dominações que anularam o século 20.

O século 19 demorou-se na maquiagem das conflitividades que herdou. Envelheceu sem transformar, diluiu-se em conflitos pendentes, não raro gerados pela própria expansão capitalista, como o conflito racial e o conflito religioso. As doutrinas sociais e políticas revelaram-se pobres em face de uma realidade social pluralista, regida por outras dinâmicas, resistente a binarismos simplistas como o do capitalismo contra o feudalismo, das colônias contra as metrópoles, do proletariado contra a burguesia. Em cada uma dessas polarizações havia e há muito mais do que os rótulos podem dizer.

É nesse grande cenário de mudanças que se pode compreender o que vem ocorrendo na América desde a libertação dos escravos e desde a Guerra Civil. A abertura do oeste americano à livre ocupação de colonos, com o Homestead Act, de 1862, a reforma agrária americana, com Lincoln no poder e a Secessão já em andamento, não produziu todos os seus efeitos modernizadores e emancipadores devido à resistência do escravismo sulista. A derrota do sul desencadeou mecanismos cruéis de recriação de desigualdades sociais com fundamento na raça, no limite a violência dos linchamentos, que se disseminaram e alcançaram não só negros, mas também judeus e imigrantes, sobretudo italianos. Foram as mulheres brancas das igrejas protestantes do sul que nos anos 1920 desencadearam o movimento social anti-racista, combatendo dentro de casa e denunciando publicamente o pretexto do estupro de mulheres brancas por homens negros para pendurar em árvores a estranha fruta de corpos negros balançando na brisa, da canção anti-racista escrita e musicada, em 1937, por Abel Meeropol, um professor judeu. "Strange fruit" foi consagrada pela cantora negra Billie Holyday e se tornou um hino martelando a consciência dos americanos.

A cultura em que foram educados Barack e Michelle Obama nasceu e se difundiu nas igrejas protestantes da América. Durante a campanha eleitoral, na visita altamente simbólica que Barack Obama fez à Igreja Batista Ebenezer, de Atlanta, em que Martin Luther King Jr. foi pastor, fez ele um discurso pautado pela mística da esperança, a dos humilhados e ofendidos. A fala de Obama tem sido e o foi novamente no discurso da vitória na madrugada do dia 5 de novembro, um extraordinário e competente retorno da política ao filtro da oratória protestante, de fundo bíblico. Nas manifestações de regozijo por sua vitória, aliás, foi possível ver inúmeras manifestações mais religiosas do que partidárias.

De certo modo, a revolta das gerações já havia eleito Kennedy que, porém, foi capturado pela poderosa máquina de um Estado governado mais pelo mercado do que pelo povo, mais pela guerra do que pela paz. Resta saber se Obama, no poder, terá como personificar as esperanças que reavivou e o sonho que sonhou.

*José de Souza Martins, Sociólogo, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é autor de Retratos do Silêncio, Coleção "Artistas da USP", Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008; Sociologia da Fotografia e da Imagem (Editora Contexto, 2008); A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008); A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008.

A Casa Branca e o DA da Católica


Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO

No dia seguinte ao da queda de Saigon, ao chegar para o trabalho na UFMG, me dizia uma aluna, bem-humorada militante estudantil de esquerda, referindo-se à disputa eleitoral pelo controle do Diretório Acadêmico da então chamada Universidade Católica de Minas Gerais, ocorrida também na véspera: "Viu só? Tomamos Ho Chi Minh e o DA da Católica!" Juntava num grande "nós" de abrangência planetária o espetacular desfecho da guerra do Vietnã, que marcara longamente o panorama internacional, ao episódio de um cotidiano local de luta política estudantil.

O mundo girou, o Vietnã faz capitalismo, como a Rússia e a China, a esquerda há muito anda confusa - para não falar dos liberais de tempos mais recentes. Mas Barack Obama conquistou a Presidência dos Estados Unidos no dia 4, e o "nós" de minha ex-aluna empolga o mundo todo de modo raro, talvez inédito: emoção e choro, muito choro (com o ícone do rosto banhado de lágrimas de Jesse Jackson na televisão, ouvindo Obama no discurso da vitória em Chicago) por parte da população negra estadunidense, que vê no evento o auge simbólico da luta árdua pela restauração da dignidade e a promessa de superação definitiva do racismo; festa e emoção multi-racial pelo país afora; emoção e festa na África, na Europa, no Brasil...

Mas ressalte-se que a emoção compartilhada mundialmente tem substrato decisivo no fato da união que a liderança singular de Obama soube criar em torno de si em seu país, numa campanha em que o tom elevado da mensagem se combinou com grande eficácia e habilidade "instrumental" - e cujo produto mais imediato, aliás, o êxito da busca de apoio financeiro pela internet, possivelmente altera de vez os termos da discussão sobre financiamento de campanhas. Como mostram os dados, Obama conseguiu o feito raro entre candidatos Democratas de obter mais de 51% do voto popular. E, se venceu de maneira quase unânime entre os negros, obteve mais de dois terços do voto dos jovens de 18 a 29 anos, dois terços do voto dos eleitores latinos, ganhou o voto católico, o dos trabalhadores "blue-collar" (onde, em particular, se apontavam dificuldades quanto a sua "elegibilidade"), conquistou estados supostamente hostis e avançou mesmo no voto dos eleitores brancos em comparação com os dados a John Kerry em 2004. Não obstante a resistência da face mais negativa dos Estados Unidos e da política fascistizante em torno de "God, guns and gays" do Partido Republicano, é evidente o sentido, que todos têm ressaltado, em que Obama, além de sua peculiar história pessoal, se ajusta à transformação demográfica do país, na qual o mundo passa a poder melhor reconhecer-se.

Por mera coincidência, participei na manhã do dia 5, com a confirmação da vitória de Obama ainda fresca no noticiário matinal, de um debate na UFMG sobre "Democracia, raça e pobreza", em companhia do economista Ricardo Henriques e do rapper MV Bill. A presença forte de MV Bill (em quem se pode pretender ver semelhanças importantes com Obama, apesar de backgrounds e trajetórias muito distintas) ajudou a dar vivacidade ao debate, com as denúncias, que seus raps reiteram, da violência social e racial experimentada pessoalmente.

Mas pude ver e apontar equívocos que me parecem importantes (e que não se acomodam bem com a atividade social em que o próprio Bill se tem empenhado) quanto à questão geral de como situar-se, na perspectiva de construção de uma sociedade democrática, diante do muito que há de negativo nas relações de raças no Brasil. Em particular, o empenho, de ânimo beligerante (e compartilhado com o chamado Movimento Negro, embora Bill se dissocie explicitamente dele), de estabelecer linhas nítidas entre brancos e negros no interesse de favorecer um enfrentamento supostamente mais propício ao avanço dos negros: "por que, na imprensa brasileira, Obama é negro e Camila Pitanga é morena?"

Naturalmente, o que queremos é que raça (a condição de "negro", "moreno", "branco") seja simplesmente irrelevante do ponto de vista social - algo que Bill mesmo ilustrou no debate, de modo meio inconsistente, com o reconhecimento de que agora se tornou "incolor". Quanto a Obama, o importante é que nos Estados Unidos ele é inequivocamente um negro, justamente pela prevalência do critério implícito na proposta em que nosso Movimento Negro mimetiza o que nos acostumamos a ver de pior nos EUA: uma gota de sangue negro e se está contaminado pela feia doença da negritude. Como tenho escrito, a idéia de que uma gota de sangue negro faz de alguém um negro vale tanto quanto a de que uma gota de sangue branco faz de alguém um branco. Daí que não só seja "tecnicamente" difícil, nas condições da miscigenação brasileira, dizer quem é negro e quem não é, mas também que se torne especialmente odioso pretender separar negros de brancos, nos estratos pobres onde populações racialmente diversificadas mais convivem e se mesclam, para decidir quem deve receber bolsas, cotas ou promoção social em geral. Se vamos ter ação afirmativa, o que me parece indispensável como parte da atuação de um Estado orientado pela preocupação de compensar e talvez neutralizar a desigualdade, o critério não pode ser senão social - a promoção racial, como no exemplo exitoso de Cuba, virá como consequência da própria correlação entre raça e classe que advém do nosso pesado legado escravista. E cabe notar, já que o assunto é Obama, que essa é a posição manifestada por ele, na campanha, sobre o tema da ação afirmativa.

Voltando ao "nós" hiperbólico do começo, menos mal que no caso de agora seu alcance difira, em mais de um sentido, do de minha ex-aluna. Mas vale: ganhamos a Casa Branca. Pelo mundo afora, a conquista de seja o que for que equivalha aos DAs da Católica do dia-a-dia deve ficar mais fácil.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1143&portal=

domingo, 9 de novembro de 2008

Filósofo lança livro de memória em que reafirma sua condição de comunista


ENTREVISTA: LEANDRO KONDER
Idéias & Livros
Rodrigo de Almeida, JB Online

A crise do capitalismo é providencial

RIO - O filósofo Leandro Konder se diz um sobrevivente: comunista do século 20, tenta, neste início de século 21, reinterpretar os juízos e propostas formulados por Karl Marx no século 19.
O professor já se deu essa missão há alguns anos. Agora, lança um livro no qual não só revisa o comunismo como a própria condição de comunista. Chama-se Memórias de um intelectual comunista (Civilização Brasileira, 264 páginas, R$ 39) a obra que chega agora às livrarias.


Nela, Konder – um dos mais respeitados intelectuais do país – repassa histórias de sua vida: das lembranças de um garoto “programado para progredir” ao presente de saúde frágil (o Mal de Parkinson o obrigou a abandonar atividades políticas e acadêmicas).

A leveza de estilo e a franqueza da autocrítica estão lá – e se espelham na entrevista a seguir.

Jornal do Brasil: Estamos numa crise grave. O que comunistas têm a dizer?

Leandro Konder: Vejo de fora, pois quase não tenho atividade política por razões de saúde. Está faltando um embasamento teórico mais desenvolvido das forças da esquerda. Essa crise do capitalismo foi providencial, porque veio lembrar que o capitalismo também tem seus colapsos. Marx dizia: cada crise é diferente da anterior. Têm em comum o fato de serem crises. Temos de estar preparados para aproveitar essas crises. O que vamos fazer para superá-la, não sei. Cada crise tem seu ineditismo. Não estamos preparados para responder a ela. Nós, comunistas, nos espantamos tanto quanto a burguesia.

Jornal do Brasil: A começar do título, a questão do intelectual permeia todo o livro. O senhor escreve: “Posso reconhecer minha condição de intelectual sem cometer a tolice de me envaidecer com ela”. Por que a preocupação?

Leandro Konder: A crítica só se aprofunda mesmo quando acompanhada da autocrítica. E a autocrítica não é aquela encenação dos partidos comunistas. Os comunistas faziam a autocrítica em nome de vantagens imediatas, e acho que a autocrítica é algo mais sério.Envolve tanto uma crítica das circunstâncias presentes como o exame crítico daquilo que você vem fazendo. E o que você vem fazendo não é plenamente satisfatório. Nunca é plenamente satisfatório.

Jornal do Brasil: Por quê?

Leandro Konder: Porque a realidade é sempre mais rica do que a representação que fazemos dela. Falamos em autocrítica, mas não fazemos. Portanto, estou tentando contribuir para uma tomada de consciência e o fortalecimento da nossa coragem de fazer autocrítica. Vale para comunistas, para não-comunistas e para mim.

Jornal do Brasil: Qual a autocrítica necessária?

Leandro Konder: Nós, marxistas, temos sido insuficientemente críticos e ousados na visão de como transformar os nossos conceitos. A realidade mudou muito. Temos de olhar para a frente, criarmos novos conceitos, definirmos novas propostas de percepção e de análise da realidade. Estamos muito atrasados nessa autocrítica.

Jornal do Brasil: Em que Marx ainda faz sentido neste início de século?

Leandro Konder: A luta de classes ainda é convincente. Está vigente. As formas da luta de classes mudaram muito, hoje são muito sofisticadas. No tempo de Marx não existiam partidos de massa nem o sufrágio universal. São duas conquistas que mudaram o mundo. Marx morreu antes, não poderia levar em conta isso. Mas o Marx que mais me interessa é o filósofo. Sua concepção do homem e da História é bastante original e está viva. Agora, a visão que ele tinha da realidade política não corresponde à realidade de hoje. É uma realidade diferente. É preciso ir adiante.

Jornal do Brasil: O que significa “ir adiante”?

Leandro Konder: Trabalhar com categorias e conceitos que nos permitam revitalizar a esquerda, que está muito confusa, dilacerada, fragmentada. Uma boa teoria ajudaria a superar isso.

Jornal do Brasil: Essa fragmentação é resultado de uma teoria falha do presente, ou a teoria ficou falha em função dessa fragmentação?

Leandro Konder: Eu não diria que é resultado de uma teoria falha. É resultado de uma política falha. A teoria ajudaria a superar isso, se ela fosse revitalizada, aprofundada, como Marx fez com a teoria no tempo dele. Era preciso radicalizar a teoria de Marx. Radicalizar no bom sentido. Ir até a raiz. E a raiz do homem é o próprio homem, como diz Marx.

Jornal do Brasil: Passa pelos atores políticos?

Leandro Konder: Quem faz política passa por dois momentos inevitáveis: o conflito e a negociação. Na parte da negociação entra o capítulo das alianças. Há de fazer alianças, mas alianças aceitáveis. Mas quando se fazem alianças amplas demais o povo desconfia. Você sacrifica sua própria identidade aos olhos da população. Não se pode ampliar sem limites.

Jornal do Brasil: O senhor se refere ao governo do presidente Lula?

Leandro Konder: Acho o Lula um fenômeno que precisa ser estudado. Não me animaria a fazer a análise do fenômeno agora. Não sou cientista político.

Jornal do Brasil: O senhor descreve a sua decepção com o PT.

Leandro Konder: Gostei da idéia de um partido de esquerda radical, com identidade própria e ao mesmo tempo pós-leninista. Mas, com algumas alianças que fez, o PT virou um pouco o partido pós-tudo. Aí não dá.

Jornal do Brasil: O senhor escreve: ser comunista não é repetir, no século 21, propostas e juízos formulados por Marx no século 19. E o que significa ser comunista hoje?

Leandro Konder: Se conservo a concepção marxista do homem e da História, sou comunista. Posso discordar de Marx em vários pontos, mas o fundamental é que ele está me dando a concepção do homem e da história. A concepção do homem é ser o mesmo sujeito que se faz nas circunstâncias que lhe são impostas. Nasci no Brasil, sou um homem do século 20, sobrevivente no século 21, então essa concepção do homem me ajuda a não adotar esquemas explicativos baseados numa relação de causa e efeito. A concepção da história é a ação, a práxis, a atividade construtiva do homem. O homem transforma a realidade e se transforma.

Jornal do Brasil: O comunismo entrou muito cedo em sua vida. O senhor conta que, de início, lhe parecia uma estranha religião. Mas percebia os comunistas reunidos em torno do seu pai como “seres humanos iguais aos outros”.

Leandro Konder: As crianças enxergam coisas que os adultos não vêem. Os comunistas eram, no fundo, muito parecidos com os não-comunistas. Então havia certa relatividade do conceito. Essa relatividade não era aceita pelo sistema, vivíamos numa sociedade que funcionava com um sistema intolerante. Os comunistas eram perseguidos, presos, espancados.Os partidos comunistas hoje existem legalmente e participam do jogo eleitoral. Ninguém vai gritar: “Prendam os comunistas!”. Exceto os malucos da direita, que são bem mais malucos do que os da esquerda.

Jornal do Brasil: Isso criou um grande estigma.

Leandro Konder: O anticomunista continua com vitalidade maior do que o comunista. A direita mantém um núcleo anticomunista que está vivo, que exer2ce uma influência enorme, muito maior do que a esquerda.

Jornal do Brasil: A que se deve essa diferença?

Leandro Konder: A direita é pragmática. Tem um órgão de grande sensibilidade, a carteira, que acusa a diminuição dos lucros. Quando acusa, toma medidas práticas para acabar com isso. E, em geral, culpa os comunistas.

Jornal do Brasil: No livro o senhor expõe a sua doença e descreve as limitações. Não teve receio da exposição?

Leandro Konder: A partir de um certo nível de participação na vida coletiva, temos de abrir mão de algumas situações nas quais tendemos a nos proteger demais da publicidade. Não podemos nos limitar a sermos políticos na esfera política e defender a intimidade na outra esfera. O intelectual tem de estar exposto, discutir seus males e os da sociedade. Eu me coloco diante dessa necessidade de expor esse mal, que é a doença.

Serra: “Torço para que o pior da crise tenha passado”


Entrevista: José Serra
Maria Isabel Hammes e Sebastião Ribeiro
DEU NO ZERO HORA (RS)


Considerado um dos maiores vencedores das eleições de 2008 por conta da conquista da prefeitura paulistana pelo seu afilhado político Gilberto Kassab (DEM), o governador de São Paulo, José Serra, parece avesso a análises políticas.

Em entrevista telefônica concedida a Zero Hora, o principal nome do PSDB para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fez cerimônia para cortar a conversa quando o assunto foi a eleição de 2010. Questionado sobre a possibilidade de concorrer, deu uma guinada na entrevista.

– Você sabe que fizemos um programa aqui muito interessante para professores? – esquivou-se, referindo-se ao financiamento para que docentes paulistas comprem laptops.

Economista formado pela Universidade do Chile e com mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o governador paulista brincou que está de férias da profissão, e se esforçou para se apresentar como administrador eficiente e desenvolvimentista. Não deixou, no entanto, de estabelecer o contraponto à atual política econômica do governo federal.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Zero Hora – O governo federal tem apresentado uma série de medidas para dar liquidez e destravar o crédito, como liberar R$ 4 bilhões para financiar a compra de veículos. As medidas foram suficientes ou o crédito ainda está empoçado?

José Serra – O crédito está empoçado, sem dúvida. Aí tem de usar as instituições públicas: Banco do Brasil, Nossa Caixa. Com a taxa de juros do Brasil, é muito mais fácil pegar o dinheiro e, em vez de emprestar, aplicar em juros. Temos a maior taxa de juros do mundo. Aliás, é o único país com uma taxa assim, porque todos os outros países baixaram no meio da crise, e o Brasil, não.

ZH
– O senhor teria feito diferente?

Serra – Teria diminuído (a taxa de juros).

ZH – O Brasil não estaria em pior situação sem as medidas apresentadas pelo governo?

Serra – São bem-intencionadas, mas tem de se ficar mais em cima e atuar mais diretamente.

ZH – O senhor é um estudioso da crise de 29. Há comparação entre aquela crise e a atual?

Serra – A crise de 29 se prolongou por uma década. Não sei se a atual terá essa profundidade. Isso ninguém sabe, a incerteza é muito grande. No Brasil, a crise impactou por escassez de crédito e também por causa da política anterior do Banco Central de juros siderais e taxa de câmbio arrochada. Os exportadores começaram a perder dinheiro e foram criados mecanismos de compensação. Então, o exportador começou a antecipar receita de exportação com empréstimo. Digamos: vendo o produto e vou receber em fevereiro. Pego dólar hoje, troco por reais e aplico na maior taxa de juros do mundo. E, no final do processo, quando vou comprar dólar para pagar a quem emprestou, compro um dólar mais barato por causa da sobrevalorização. Esse esquema eliminou o cálculo econômico da transação, que envolve produção, custo, produtividade. Criou um esquema de especulação, ou melhor, financeiro com o beneplácito do BC. No momento em que, em vez de ganhar dinheiro vendendo, você ganha especulando, pode cometer exageros. Mas isso foi conseqüência da política errada do Banco Central.

ZH – O Banco Central acertou em ter uma política dura que possibilitou o aumento das reservas e, com isso, deixou o Brasil em posição mais confortável?

Serra – Bom, mas as reservas, se não tivesse arrocho cambial, seriam até mais elevadas. Porque já estamos com déficit em conta corrente. O Brasil conseguiu o milagre de produzir déficit de conta corrente no balanço de pagamentos com alta de preços dos nossos produtos de exportação. Isso é uma façanha mundial, um caso para se fazer tese de mestrado. Como um país gera déficit comercial tendo alta dos preços dos seus produtos?

ZH – Analistas já dizem que o pior da crise passou. O senhor concorda?

Serra – Não sei. Torço para que o pior da crise tenha passado. Agora, acho que aqui dentro temos de fazer o máximo para manter linhas de crédito, manter investimentos públicos, que é o que estamos fazendo no Estado. E ajudar na mobilização do crédito. A intenção do Ministério da Fazenda é a melhor possível, e a gente tem de ajudar e colaborar.

ZH – Economistas dizem que com eleição de Barack Obama nos Estados Unidos, agora que já se sabe o programa dele, isso pode ajudar a debelar a crise.

Serra – Tomara. Espero que estejam certos. A mudança de presidente em si não resolve. Tomara que venha um programa econômico mais consistente. Na campanha, Obama não apresentou nenhuma idéia nova a esse respeito. Nem o candidato derrotado John McCain.

ZH – Muitos especialistas consideram que os efeitos da crise são para o ano que vem. E o senhor?

Serra – Também acho que efeitos da desaceleração vão ser sentidos a partir do primeiro trimestre do ano que vem. Mas não tenho acompanhado as projeções do PIB (Produto Interno Bruto). Porque prever PIB a gente faz quando é obrigado a fazer. Como estou de férias da profissão de economista (risos), fazer previsão é sempre muito incômodo. Vai ter desaceleração, mas o tamanho eu espero que seja pequeno.

ZH – O senhor lançou um programa para estimular compra de tratores. Como pode ser importante para o Rio Grande do Sul?

Serra – Metade da produção nacional de tratores vem do Rio Grande. Nesse programa, combinamos com a Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) um desconto médio de 20% nos equipamentos por conta da quantidade. A exigência é ter um índice de nacionalização de 60%. A Nossa Caixa vai colocar R$ 400 milhões para crédito. A taxa de juros vai ser subsidiada pelo Estado. Demanda (para compra de máquinas) tem, o que não tem é crédito.

ZH – Como o senhor avalia a série de medidas apresentada pelo governo para destravar o crédito?

Serra – Nós (Estado de São Paulo) vamos apresentar um programa para veículos, semana que vem, pela Nossa Caixa. Não posso dizer ainda o montante, mas vai ser grande, substancial.

ZH – O governo Lula está com alta aprovação popular, mas ainda não tinha enfrentado crise econômica. Isso muda alguma coisa no cenário para a eleição de 2010?

Serra – Não vou analisar isso.

ZH – Mas a vitória do prefeito Gilberto Kassab (DEM) à prefeitura de São Paulo não lhe fortalece?

Serra – Foi uma vitória dele, porque fez uma boa gestão. Houve uma aprovação da gestão, que uma parte foi minha, porque fui prefeito por 15 meses e, de alguma maneira, delineamos o programa de governo, embora Kassab tenha feito inovações, ampliações. Ele foi eleito por causa disso, não por causa de 2010. Agora, acho que é um pouco cedo para dar volta nisso (no tema da eleição). Não para a imprensa. Agora, quero me concentrar no governo e nas coisas que estamos fazendo. Você sabe que fizemos um programa aqui muito interessante para professores? É assim: todas as professoras que quiserem se inscrevem para comprar laptop. Negociamos com produtores desconto que chega a 38%, a Nossa Caixa financia a professora, e ela paga no máximo R$ 60 por mês, com juro zero.

ZH
– Como o senhor tem acompanhado daí o governo da Yeda Crusius?

Serra – Tudo que sei é que Yeda faz excelente administração na área econômico-financeira.

ZH – Mas tem dificuldade de conseguir apoio político e popular.

Serra – Política é outro departamento, mas acho que pouco a pouco vai avançando.

Palco eleitoral antecipado

Tiago Pariz
DEU NO ESTADO DE MINAS


OPOSIÇÃO

Adversários do presidente Lula mudam estratégia e apostam num discurso propositivo para criticar maneira como a administração petista conduz o país diante das turbulências na economia mundial


Brasília – A oposição pega carona na crise financeira internacional para tirar proveito político mirando a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. PSDB, PPS e DEM abrem caminho para se encontrar no palco eleitoral antecipado e apresentar um discurso alternativo ao vendido pelos emissários do lulo-petismo. E esperam com isso mais votos em 2010.

Não é por acaso que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), tem vindo a público para criticar a maneira como o governo federal lida com as turbulências econômicas, propondo um choque de gestão. A oposição adotou o discurso da necessidade de corte de gastos e controle das finanças públicas como alternativa para enfrentar as incertezas internacionais.

“É preciso uma agenda que responda de forma eficiente aos desafios da crise internacional, principalmente com o que tem a ver com emprego e salário dos brasileiros”, disse o líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal (SP).

A oposição, ao se tornar propositiva, quer retirar das costas as críticas de que aposta no “quanto pior melhor”. Como a estratégia de exagerar os defeitos do governo do presidente Lula para ganhar votos tem se mostrado ineficaz, o discurso foi abrandado e tornado maleável aos ouvidos do eleitor.

“A crise é grave e vai ter conseqüências negativas. E o Brasil pode reduzir essas conseqüências negativas. Vamos municiando o governo com instrumentos necessários. Mas o governo tem que fazer a sua parte limitando a gastança”, sustentou José Aníbal.

Debate


Coincidência ou não, a oposição tem sido chamada para discutir com integrantes do governo as principais iniciativas de combate à crise, como a medida provisória que dava mais poderes ao Banco Central e a MP nº 443, que autoriza o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a adquirirem instituições financeiras em dificuldades.

O líder do PPS, Fernando Coruja (SC), afirmou que o espaço só foi conquistado com insistentes pedidos de audiências com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. “O governo não nos chamou, nós que fomos atrás dele. Percebemos que era preciso nos reunir e dar uma visão pro-ativa para ajudar o país a sair da crise”, afirmou o líder do PPS.

A brecha política criada com as incertezas animou tanto os adversários do Palácio do Planalto que, agora, eles querem manter, na Câmara, o debate monotemático sobre a crise. “A principal pauta é a crise. Todos os outros assuntos, como reforma tributária, estão em segundo plano”, afirmou Coruja. Nesse rol, nem a proposta de emenda constitucional que altera o rito de tramitação das MPs é prioritária.

O líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), ironizou os opositores. “O José Aníbal quer paralisar o Congresso Nacional em torno da crise. Não quer votar mais nada, nem a expansão das universidades”, disse o petista, citando o projeto de lei que cria 8,4 mil cargos ao Ministério da Educação, a maioria para beneficiar universidades federais. “Os tucanos gostam dessa visão de combater a crise cortando gasto, diminuir o estado. Queremos intensificar o papel anticíclico das medidas para limitar os efeitos da crise”, disse Fontana.

Querendo ou não, essa é a primeira vez que a oposição conseguiu apresentar um discurso diferente e não se mostrar perdida no debate com o governo, como ficou evidente na eleição de 2006, quando Lula disputou com Geraldo Alckmin (PSDB). Naquele momento, os tucanos ficaram na defensiva e não conseguiram se desvencilhar da pecha de “privatistas”. Agora, pelo menos, amplificam as idéias que defendiam quando eram governo.

PT discute antecipar lançamento de Dilma

Luiza Damé
DEU EM O GLOBO

Berzoini diz que podem surgir outros nomes

BRASÍLIA. Reunido ontem-ontem durante todo o dia, o Diretório Nacional do PT começou a discutir a oportunidade de antecipar o lançamento da candidatura da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão presidencial. Embora dirigentes do partido tenham defendido a necessidade de anunciar logo a candidatura de Dilma, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), ponderou que a legenda não pode impedir o lançamento de outros nomes:

- É natural que o debate seja feito. O nome mais óbvio é o da ministra Dilma. É o nome do presidente Lula; tem uma boa relação com o PT; tem postura, compromisso com o governo, compromisso com o PT e disponibilidade para o debate. Ninguém é contra a candidatura da ministra, mas não podemos democraticamente excluir outra candidatura.

O PT decidiu manter as eleições internas - para a escolha das novas direções nacional, estaduais e municipais do partido - em 22 de novembro de 2009, numa vitória do grupo de Berzoini. Setores do partido defendiam a antecipação do Processo de Eleição Direta (PED). Um grupo menor pregou o adiamento para 2011, para não haver coincidência com o debate da sucessão de Lula. Oficialmente, o candidato do partido será decidido apenas no congresso. Também foi convocado o 4º Congresso Nacional do PT para fevereiro de 2010.

O líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), é um dos que defendem que o PT deve decidir o mais rapidamente possível seu candidato para facilitar as negociações com os aliados.

- Para o PT dialogar com seus aliados, é importante definir sua candidatura. Nosso adversário está 99% definido - disse Fontana, citando o governador de São Paulo, José Serra, potencial candidato do PSDB.

Para Fontana, aliado de Dilma, a sucessão, está "na boca do povo" e os militantes petistas cobram uma definição, já que esta será a primeira eleição presidencial que Lula não disputará:

- O PT tem que acelerar (a decisão), sem se afobar.

O partido analisou o resultado das eleições municipais e concluiu que é preciso se reaproximar da classe média - eleitorado tradicional do PT, que se afastou do partido em cidades como Porto Alegre e São Paulo.

O realismo de José Dirceu


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O PT deve ter consciência de que a sucessão começou e a legenda hoje, em qualquer cenário, luta para chegar ao segundo turno

Ninguém ganha eleição de véspera, por maior que seja o favoritismo. O governador paulista José Serra (PSDB-SP) sabe disso. Mantém a liderança nas pesquisas e tem o fascínio de quem já exerce a expectativa do poder, mas a eleição está longe ainda e muita água correrá por baixo da ponte. É melhor ter cautela com o “já ganhou”.

Os tucanos

Serra é o primeiro na fila de candidatos ao Palácio do Planalto. Perdeu a eleição para Lula em 2002 e reconstrói, pedra por pedra, o caminho rumo à Praça dos Três Poderes. Primeiro como prefeito de São Paulo, depois como governador paulista. Foi o grande vitorioso nas eleições passadas, quando atropelou o candidato tucano Geraldo Alckmin, com quem dividia a liderança do PSDB, e conseguiu viabilizar a reeleição do prefeito Gilberto Kassab, consolidando sua aliança com o DEM. Agora, se finge de morto e tenta construir pontes junto ao presidente Lula, como nessa operação de venda da Nossa Caixa para o Banco do Brasil. Sinaliza que não pretende fazer um governo de ajuste de contas com os petistas como gostariam tucanos e alguns de seus aliados. Economista, o perfil de Serra parece talhado para comandar o país numa situação de crise econômica mundial.

O problema de Serra se chama Aécio Neves, o governador mineiro que encerra a gestão com altos índices de popularidade. A vitória do prefeito Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, graças ao apoio de Aécio e do prefeito Fernando Pimentel, aponta uma política de alianças de sinal trocado para o PSDB. Aécio propõe uma reaproximação entre tucanos e petistas numa espécie de ponto futuro, no qual faria um governo “pós-Lula”. Aécio encarna o sonho da elite mineira de voltar ao centro do poder político, frustrado duas vezes com as mortes de Juscelino Kubitschek, num desastre de automóvel , ainda nos tempos da ditadura militar; e de Tancredo Neves, avô do governador mineiro, que foi eleito no colégio eleitoral que pôs um ponto final ao regime autoritário e faleceu antes da posse. O governador de Minas é um candidato viável eleitoralmente, mas sem legenda para concorrer. Tem que escolher entre sair do PSDB ou desistir da candidatura à Presidência em 2010.

Os petistas

Outro pólo da sucessão de 2010 é o PT, que tem o poder mas não dispõe de um candidato competitivo, nem aceita apoiar um aliado. A candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, inventada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até agora não decolou. Entre os aliados do governo no Congresso, a avaliação é a de que Dilma é uma candidata para perder. Com o apoio de Lula, porém, ela tem plenas condições de consolidar sua candidatura no PT. Isso ocorre porque a ex-ministra do Turismo Marta Suplicy foi derrotada nas eleições para a prefeitura de São Paulo. O ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci (PT-SP) também está fora do jogo por causa do processo no qual é acusado de violar o sigilo bancário de um caseiro. Para as lideranças petistas, principalmente paulistas, ambos seriam melhor opção do que Dilma, cujo carro-chefe de campanha andará mais devagar por causa da crise econômica mundial: o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

As outras alternativas são improváveis devido à cultura petista. A primeira seria mudar radicalmente o jogo e investir na candidatura do ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes (PSB), que se mantém como um nome competitivo eleitoralmente, mas está cada vez mais isolado na base governista e nunca foi aceito pelo PT. A segunda, buscar uma aproximação com Aécio Neves, nos termos propostos pelo prefeito Fernando Pimentel, de Belo Horizonte. Quando a cúpula do PMDB investe na filiação de Aécio, como fizeram o presidente da legenda, deputado Michel Temer (PMDB-SP), e o líder da bancada na Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), sonha com o melhor dos mundos: manter a legenda no governo durante a campanha de 2010, consolidar a aliança com o PT e indicar o candidato a sucessor de Lula. O problema é que ninguém confia no PMDB, nem mesmo Aécio.

Vítima de suas idiossincrasias e longe do poder, o ex-deputado cassado José Dirceu parecer ser o primeiro líder petista a cair na real. Para ele, o PT deve ter consciência de que a sucessão começou e a legenda hoje, em qualquer cenário, luta para chegar ao segundo turno. “Esse já é o quadro real — um cenário com quatro candidaturas ao Palácio do Planalto: a do PT, provavelmente a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Rousseff; a do PMDB, Aécio Neves; a do PSDB, José Serra; e, por fim, a do PSB, o deputado Ciro Gomes (CE). Sem falar na hipótese de uma chapa tucana Serra-Aécio, com um candidato do DEM a governador de São Paulo. Há, ainda, a possibilidade real de uma aliança Aécio-PSB com o deputado Ciro Gomes de candidato a vice-presidente”, prevê Dirceu em seu blog.

O mundo em festa


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Irrelevante determinar quem rotulou o século 20 como o Século Americano, muito menos sua exata duração. O que importa é a inclusão da jornada que se encerrou na madrugada de 5 de Novembro de 2008 como uma das horas estelares da história da humanidade.

A revolução pelo voto que elegeu Barack Hussein Obama como primeiro presidente negro dos EUA não é um capítulo exclusivo da história americana. É a materialização de uma longa luta contra a tirania cujo início pode remontar a Platão e confunde-se com a própria história da civilização ocidental.

Instrumentado pelo eleitor americano este foi um fenômeno mundial, primeira conquista política da era da globalização até agora circunscrita à esfera econômica. A explosão de alegria foi cósmica, vibraram (e certamente ainda vibram) todos os discriminados, todos os marginalizados, todos os silenciados e todos aqueles que embora autorizados a comparecer às urnas sabem que as suas vontades e seus votos são invariavelmente manipulados e pervertidos.

Doravante tudo será possível, todos os sonhos de mudança estão autorizados, todas as esperanças passam a ser tangíveis -- desde que exibidas e transcorridas no território da democracia genuína. Foi sepultada a multissecular mentira de que os fins justificam os meios, desmascarada a grande balela de que alguns iluminados têm o poder de falar por todos.

Gigantescas as dificuldades aguardam Barack Hussein Obama. As expectativas que criou e continua a produzir incessantemente levarão muito tempo para serem atendidas. Ele acaba de conquistar o emprego mais difícil do mercado de trabalho mundial. Seus primeiros cem ou mil dias podem ser decepcionantes e até amargos. Os demônios e fantasmas soltos há tanto tempo são resistentes, impregnaram profundamente nossa forma de viver, não basta controlá-los apenas, será preciso rever o funcionamento deste rolo compressor barulhento que retirou do homem moderno a sua ferramenta mais preciosa: a capacidade de cogitar, escolher.

Os "realistas" já começaram a cobrar, cansaram-se do simbolismo e da retórica, querem medidas concretas, soluções instantâneas, bolsas em disparada e mercados novamente excitados. No Brasil já há quem diga que se a vitória de Obama não se converter imediatamente no fim dos subsídios agrícolas (sobretudo aos produtores de etanol), ela será decorativa, inútil.

Besteira: esta nova fase da revolução americana precisa ser acompanhada por revoluções regionais, espontâneas, concomitantes, complementares, sobretudo em paragens onde a demagogia impede verdadeiras mudanças e inovações.

O simbolismo e a retórica sequer completaram uma semana, ainda têm muito a oferecer, o seu potencial de convocação e mobilização está praticamente intocado. O discurso em que John McCain admitiu a derrota - peça política da maior importância - ainda não foi devidamente examinado, digerido e apreendido. Nele embute-se um dos conceitos basilares do processo democrático: não há vencidos, todos participam, todos são vencedores. Por mais pesado que tenha sido o embate.

A era dos extremismos (que na realidade é a era dos revanchismos) só poderá ser encerrada quando tornar-se cristalina e palpável a plataforma pós-racial, pós-ideológica e pós-fanática que escancarou as portas da Casa Branca a um candidato negro. É possível que estejamos fabricando simultaneamente um novo Renascimento, um novo humanismo, um novo iluminismo e um novo romantismo, para isso é indispensável vivenciar, desfrutar e gozar todos os aspectos e desdobramentos de um momento tão grandioso e significativo.

Quando, em 8 de Maio de 1945, acabou a catástrofe européia, mal houve tempo para saudar a paz. A guerra fria já ensaiava os seus primeiros passos. Desta vez, é importante inebriar-se. Faz sentido perceber que tudo faz sentido, tem jeito, solução.

Este é um raro momento nos últimos 100 anos em que os niilistas estão cabisbaixos e acabrunhados. É preciso aproveitá-lo plenamente.

» Alberto Dines é jornalista

Erro de avaliação


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O presidente eleito Barack Obama deve participar do jantar de encerramento da reunião do G-20 no próximo sábado, convocado pelo presidente George Bush para discutir a crise internacional. Essa reunião está sendo considerada pelo governo brasileiro como o primeiro passo para a ampliação do grupo decisório internacional que hoje é restrito ao G-8, formado pelos países desenvolvidos - Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá - e mais a Rússia. Do grupo de nações emergentes convidadas para a reunião, formado por Brasil, Arábia Saudita, África do Sul, Argentina, Austrália, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia, sairão os novos integrantes do fórum internacional ampliado que a crise econômica que assola o mundo está tornando inevitável.

Um passo também considerado mais provável hoje do que antes é a reformulação dos organismos multilaterais, como o FMI, o Banco Mundial e até mesmo o Conselho de Segurança da ONU.

O Brasil, que já contava com uma maior aceitação por parte do atual governo dos Estados Unidos para sua pretensão de ter um assento permanente no Conselho, terá que testar a tendência do futuro governo de Barack Obama.

Pelo menos em princípio, a futura administração será mais favorável à ampliação desses organismos internacionais, dentro de uma ótica multipolar que, na prática, já se impõe com a nova realidade de uma crise nascida dentro dos Estados Unidos e que se espalhou pelo mundo.

As questões diplomáticas mais delicadas, como a divisão geopolítica de poder, podem ter uma solução facilitada diante da necessidade de se obter avanços concretos em curto espaço de tempo.

O grupo formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão se coloca como a melhor alternativa de representatividade regional para o Conselho da ONU, acrescido do apoio dos países africanos, que teriam um representante na África do Sul.

Mas mesmo esse grupo é objeto de contestação de outros países: a China veta a entrada do Japão, o Paquistão não aceita a Índia, países europeus contestam a representatividade da Alemanha, o Egito quer ser o representante africano e, na própria região onde o Brasil é líder natural, Argentina e México não nos aceitam como representante automático.

Para reforçar a liderança regional de maneira inconteste, o Brasil precisaria, na ótica de observadores internacionais, impor-se na América do Sul, onde está sendo contestado cada vez mais por supostos aliados como Evo Morales, na Bolívia; Correa, no Equador; os Kirchner, na Argentina, e outros que tais, todos submetidos à influência ideológica e financeira de Hugo Chávez, da Venezuela.

O Brasil não estaria usando sua força política para controlar as tendências autoritárias desses líderes. Embora a diplomacia brasileira se recuse a aceitar esse tipo de crítica, há indicações de que setores da diplomacia americana entendem que Lula, defendendo a tese de que só se mantendo próximo pode negociar com esses países, na verdade está mesmo é cercado por governos autoritários, sem conseguir controlar a situação.

Evo Morales e Chávez, que estimulam o confronto permanente, inclusive com os Estados Unidos, seriam o contrário de Lula, conciliador e representante de uma esquerda moderna. O presidente eleito Barack Obama já definiu a Venezuela como um dos "estados bandidos", juntamente com o Irã, e o Brasil vai precisar se posicionar se quiser exercer um papel de destaque na mediação da futura administração americana com a América do Sul.

Lula, por sua vez, comentou em sua recente visita a Cuba que Obama mostrará a que realmente veio de acordo com a atitude que tomar em relação ao embargo econômico à ilha. E não foi por acaso que exortou o futuro presidente americano a acabar com o bloqueio econômico ao país do ditador Fidel.

Por enquanto, a posição brasileira tem sido a de defender a tese de que a América do Sul, diferentemente de outros continentes como África e Ásia, só tem governos eleitos democraticamente, embora haja diferenças de tensão, e alguns países sejam mais polarizados politicamente que outros.

Com relação à Venezuela, a posição do governo brasileiro nas conversas diplomáticas tem sido a de atribuir a tensão à oposição, que tentou tirar Chávez do poder através de um golpe.

A abordagem diplomática brasileira chega a ressaltar que mesmo nos Estados Unidos, exemplo de democracia, houve uma situação tão polarizada politicamente no século XIX que culminou em uma guerra civil.

A exclusão das minorias dos benefícios do desenvolvimento, os indígenas no caso da Bolívia, e a classe trabalhadora no Brasil, é que fez com que surgissem na região esses governos populares, na ótica da diplomacia brasileira.

Mas temos na América do Sul mecanismos de diálogo que previnem os conflitos armados, e os presidentes da região têm a capacidade hoje de conversar pessoalmente, muitas vezes em reuniões marcadas de improviso, para resolver conflitos.

A futura política do governo Obama para a América Latina pode assumir uma faceta menos belicosa no combate ao narcotráfico e ao terrorismo na Colômbia e no México, segundo informações de analistas próximos à nova administração. Substituindo as armas por incentivos econômicos para o desenvolvimento daqueles países, seria reduzida a tensão política na região.

Mas, ao assumir a tese de que a vitória de Obama tem o mesmo significado que a ascensão dos governos de esquerda na América Latina nos últimos anos, e, mais que isso, ao alimentar expectativas de que um governo de Obama terá tendências de esquerda, os governantes sul-americanos, inclusive Lula, podem estar cometendo um grave erro de avaliação política.

Vira-lata? Nem tanto


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Barack Obama recebeu cumprimentos de todo o mundo, até do controvertido Irã, mas só deu nove telefonemas no primeiro lote de agradecimentos: para França, Reino Unido, Alemanha, Coréia do Sul, Israel, Japão, Austrália e os vizinhos Canadá e México -único agraciado da América Latina.

Isso diz muito do que tende a ser a política externa de Obama: não se esperem dele invasões de países alheios nem que dê de ombros para protocolos climáticos, mas talvez tenha sido excessiva a expectativa de mais abertura para emergentes.

Sai Bush, entra Obama, mas a crise migra de um para o outro e os EUA continuam sendo os EUA.

Como diz Celso Amorim, os EUA podem até ficar mais humildes com a crise, mas nunca serão franciscanos. Têm tanto poder que a tentação do unilateralismo está na alma, seja republicana, seja democrata.

Na primeira entrevista depois de eleito, Obama falou com simpatia dos "vira-latas, como eu", mas escolheu telefonar para os Buldogs, Hottweilers, Labradores e, claro, fez política de boa-vizinhança.

Onde ficam os orgulhosos emergentes? E o Brasil, líder da América do Sul? A região está e vai continuar fora do foco de Washington, até porque Obama tem prioridades na fila, desde costurar a classe média, esgarçada com menos 240 mil empregos num mês, até se mostrar para os parceiros que importam.

Para Amorim, a reunião do G-20 no próximo sábado será o "grande teste" do multilateralista Obama, cuja liderança será decisiva para mudar o funcionamento e a própria essência de organismos como o FMI. Eles sempre fiscalizaram os pobres, mas quem tem o poder sobre a vida de milhões são os ricos.

Amorim avisa que a reunião não pode ser só "para tirar foto", e Guido Mantega dispensa idas ao G-8 "só para o cafezinho". Mas, mesmo que consiga uns minutinhos com Obama, Lula vai a Washington justamente para isso: tirar foto e tomar cafezinho. Colombiano, claro.

O primeiro teste


Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Barack Obama tem de definir as coisas que fará caso seu antecessor não as faça até o fim do mandato, em janeiro

A POUCO MAIS de dois meses da posse, a reunião do G20 em Washington, no dia 15 deste mês, será o primeiro teste de Obama, mesmo não estando fisicamente presente. Não lhe será possível ignorar as medidas que o moribundo governo de Bush tenha de tomar, sozinho ou em coordenação com outros. O problema é que, não possuindo a efetividade do poder, é limitada sua capacidade de influir para a adoção das decisões corretas ou para assegurar sua acertada execução. Um fiasco corroeria a mágica da vitória antes até do inevitável desgaste que sempre acompanha o choque entre a esperança e a realidade.

Foi por temer esse desgaste precoce que Franklin Roosevelt rejeitou o apelo do presidente Herbert Hoover para se tornar o co-fiador das ações que o governo anunciou naquele catastrófico ano de 1932. Na época, havia uma espera de cinco meses entre a eleição e a posse. Devido a esse precedente, os norte-americanos emendaram a Constituição, tarefa rara e difícil nos Estados Unidos, a fim de abreviar a espera pela metade.

Ainda assim é demasiada, sobretudo em hora de excepcional gravidade como a atual. Não se vê como um presidente considerado o pior, ou o segundo pior, da história americana consiga devolver à população a confiança, cuja perda é um dos elementos centrais da crise. Essa é uma das únicas situações em que se desejaria que os Estados Unidos fossem como a Argentina, onde o presidente Alfonsín antecipou o fim do mandato a fim de permitir que o sucessor controlasse a hiperinflação. O que resta a Obama é deixar claras as coisas que fará caso o antecessor não as faça. A primeira delas é um pacote fiscal de estímulo ao consumo. Não parece impossível que o governo Bush possa adiantar algo nesse sentido. Mais improvável é que se avance nos temas sociais em favor das vítimas da crise imobiliária, do alívio tributário às faixas mais baixas, da prioridade na criação de empregos.

Emergem assim, aos poucos, os contornos da opção preferencial pelos órfãos e pelas vítimas da era Reagan, do ciclo de injustiça, de desigualdade e de favorecimento ao setor financeiro que se denominou irrisoriamente de "revolução" conservadora. A era que se inicia com a vitória de Obama e a ressurreição do Partido Democrata volta ao espírito da frase de Abraham Lincoln: entre o dólar e o homem, é preciso escolher o homem.

É nisso que Obama revela fidelidade à força feminina que fez dele o que é. Abandonado pelo pai aos dois anos de idade, o presidente eleito é o símbolo de milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo que foram criadas pela mãe e, em seu caso, pela avó materna. Sua ligação com as políticas sociais iniciadas por Roosevelt e ampliadas por Johnson é tão profunda como a do general Colin Powell, que sem elas, conforme declarou, jamais teria saído do gueto. A respeito de Obama falou-se muito de raça e de nova geração, mas não se mencionou o mais significativo da sua inspiração íntima: a jovem mãe, que lutou como organizadora social em favor de mulheres marginalizadas, e a avó, sustentáculo de uma família onde as figuras masculinas eram ausentes ou fracas.

Ele representa uma tendência social característica do nosso tempo: as famílias dirigidas por mulheres, que sobrevivem e produzem gente forte graças ao que William Faulkner exprimiu com espanto, ao ouvir a história de vida de uma prostituta: "A mulher é indestrutível!"

RUBENS RICUPERO, 71, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sábado, 8 de novembro de 2008

A sucessão e, ainda, a Frente Democrática


Vagner Gomes de Souza[1]

Givaldo Siqueira está de parabéns pelo seu artigo “O PPS E A SUCESSÃO” pois um ator político não deve ficar aguardando os fatos. Ao contrário, um partido político democrático da esquerda sempre deve pleitear dirigir os elementos de fortuna da conjuntura. Entretanto, seu ponto de vista poderia ser complementado com algumas considerações sobre a conjuntura nacional. Assim, sugerimos que uma atuação política no pleito de 2010 deve partir de uma reafirmação da política partidária em relação ao Governo Federal.

Vamos completar 20 anos de hegemonia economicista na gestão pública brasileira. O Governo Collor inaugurou esse mundo pragmático pela via radical do neoliberalismo, o que afastou as forças políticas da tradição republicana. Entretanto, a luta política democrática foi colocada em segundo plano pela ideologia do “choque de capitalismo” divulgada pela candidatura do PSDB em 1989.

A transição do Governo Itamar foi uma oportunidade perdida diante da hiperinflação que abriu caminho ao Plano Real. Não percebíamos o quanto a sociedade havia transformado nos anos 80 com a emergência de uma classe média urbana sem valores cívicos. Essa foi a base da opinião pública que se calou diante das privatizações das empresas estatais (particularmente a telefonia) e se afastou da atuação em esferas públicas (associativismo de bairros, sindicatos, partidos políticos, etc.). Não fizemos um programa para essa nova classe média que entendeu a política cada vez mais de forma americanizada. Assim, a instituição da reeleição fortaleceu uma tendência ao bipartidarismo na competição da Presidência da República entre as duas vertentes dessa nova classe média liberal e utilitarista (PT e PSDB).

Não há grandes mudanças na correlação das classes sociais no intervalo de 1994 (primeira eleição de FHC) e 2006 (segunda eleição de Lula). Enfim, as mudanças ocorreram para se conservar a lógica do economicismo em que o desenvolvimentismo, aos poucos, foi reinventado a serviço dos interesses da burguesia financeira cada vez mais internacionalizada após o PROER. A falta de mudanças estaria associada a uma incapacidade na atuação no interior do processo transformista de nossa sociedade, o que foi resultado de uma postura sempre eleitoreira dos diversos partidos políticos do campo democrático e progressista.

Esse segundo Governo Lula aprendeu, com a crise política do “mensalão”, a ampliar seu campo de aliança política e social com grande capacidade de cooptação de lideranças políticas e intelectuais em torno do desenvolvimentismo economicista. Nesse caso, não é estranho as tendências pró-Lula no PSDB (vide o caso de Belo Horizonte) e no PPS (segundo indicações do artigo de Givaldo Siqueira), pois desenvolvimentismo e eleitoralismo é o casamento do conformismo no capitalismo brasileiro. Não há espaço para a “grande política” diante da ausência de uma política que aprofunde contradições na base social do atual governo. Entretanto, a chamada oposição (PSDB/DEM/PPS) segue o legado da liberdade dos modernos, ou seja, não formulou uma política pública que interpele a nova classe média dos anos pós-transição democrática e os “emergentes sociais” do governo Lula (conhecidos como “lulistas”, pois discordo com a simplificação “protofascista”).

Há elementos de um “fascismo de mercado” que o simples compromisso com o desenvolvimentismo não implicará na abertura das mudanças na rota política brasileira. Portanto, não apoiamos uma adesão a oposição de centro liberal (PSDB/DEM) pelas velhas linhas da estratégia democrática e nacional, pois isso seria um adesismo semelhante ao reingresso a base governista ou ao apoio da alternativa mineira. Por outro lado, não há elementos favoráveis a uma candidatura própria de opinião ou no campo oposicionista da velha esquerda (PSOL/PSTU/PCB/PCO).

Consideramos que a sociedade necessita de um processo de reformismo democrático que ainda não recebeu atenção da nova classe média. Essa nova classe social encontra-se eleitoralmente polarizada entre governismo e oposicionismo, mas verificamos que sua força majoritária está à margem da disputa eleitoral tendendo para valores conservadores caso não seja interpelada politicamente. A estratégia passa pela transformação democrática com o aprofundamento dos princípios estabelecidos na Constituição de 1988.

Devemos formular uma constituinte de uma nova força política que seja tenha uma dinâmica eleitoral e que reforce o associativismo da sociedade civil nas camadas médias e nas periferias do capitalismo. Uma política de transformação social com política, cultura e juventude o que está para além de uma simples posição por uma candidatura presidencial em 2010. Hoje, é necessária a fundação do PCB (“partido da constituição brasileira”), portanto a Frente Democrática ainda é a melhor alternativa para fazer chegar a nossa formulação política até as forças políticas em disputa.

Nesse sentido, justificaríamos nossa aproximação com as forças políticas do “centro político liberal” pela política do reformismo democrático que compreenda o novo papel do judiciário brasileiro em mobilizar os interesses dessa nova classe média e dos “emergentes sociais” que vivem à margem do associativismo. O aprofundamento da democracia passa por um Judiciário forte e que adquira canais fortes de participação da sociedade – isso não implica no controle externo do judiciário. Na verdade, há uma possibilidade de americanizarmos esse judiciário com instrumentos até eleitorais (vide o exemplo do Juiz de Paz eleito citado na Carta de 1988 e ainda não regulamentado).

Além disso, o modelo legislativo brasileiro merece ser mais democratizado por uma Reforma Política e Eleitoral que deve contar com um programa mínimo que inove com as chamadas “candidaturas independentes” nas listas partidárias. Por isso, há espaço para diversas candidaturas de opinião nas eleições parlamentares de 2010 que force uma “guinada” do desenvolvimentismo para o democratismo econômico e social. 2010 deve ser o início do ciclo do “Choque de Democracia” e, ainda, com a Frente Democrática.

[1] Mestre em Sociologia

O TECNICISMO COMO FIM


Wilame Jansen
Escritor, paraibano


Darwin tinha razão. Meu micro ficou velho aos 3 anos de idade. Tive de substituí-lo por um jovem poderoso, veloz e com mais utilidades que bombril. Meu televisor está condenado à morte ainda na flor da idade, vem aí o digital.

Aposentei uma coleção de máquinas de calcular que me acompanharam na profissão por longo tempo. Elas ficaram, a cada geração, mais capazes, mais velozes e, ao longo do tempo, diminuíram de tamanho até... desaparecerem.

Hoje, encontram-se escondidas em computadores, celulares e até em máquinas fotográficas. Não falo da velha Kodak (velho já era), falo das novas, das que fazem tudo em tempo real: fotografam e remetem imagens para visualização ou impressão.

Não é a mudança que é importante, e sim, a velocidade da mudança. Na telefonia, a operadora X troca o celular do cliente a cada 6 meses, sem custo. São atitudes surpreendentes da agressiva competição globalizada. A operadora X está apenas fazendo o que as outras fazem

Não há tempo a perder, o mercado – novo ente transcendental – é ávido por novos produtos. As pessoas querem comprar qualquer coisa nova. Comprar não é mais um meio desse consumidor contumaz. É um fim, é a própria felicidade. Uma vez alcançada, essa efêmera e frustrante felicidade tem necessidade de perseguir nova compra. E o ciclo da competição globalizada se completa em suposta harmonia, cada vez mais veloz. E essa velocidade custa caro às empresas, obrigadas a comprar ou desenvolver tecnologias para atender a esse ritmo alucinante, se quiserem apenas sobreviver.

Hoje, até a pesquisa nos dá a impressão de se voltar exclusivamente para atender essa urgência constante da técnica em atender à competição. E a técnica em si não está, como nunca esteve, preocupada com os objetivos superiores da humanidade. Por outro lado, era a Ciência quem nos prometia a felicidade pelo conhecimento do mundo. Refiro-me aos modernos: iluministas, positivistas - esses nomes significativos inventados pelos geniais Descartes, Look, Kant, etc. Mas zombaram da harmonia cósmica, parcelaram o mundo para melhor analisá-lo e apostaram no desenvolvimento da humanidade exclusivamente pela técnica. E deu no que deu.

E aí? Como interferir nessa ciranda? O capitalismo globalizado fragiliza as nações e só permite a interferência dos governos nas crises por ele mesmo criadas. Quando o negócio fica preto, desenterram Keynes, como agora, socializando os prejuízos. As pessoas que entram no pesado jogo do consumismo só se preocupam em ganhar dinheiro, o máximo que puder, e administrar seus cartões de crédito a fim de alcançarem aquela felicidade efêmera e, por isso, frustrante.

Aparentemente, são indivíduos isolados que, mesmo residindo em médios e grandes centros urbanos, não participam de qualquer tipo de associativismo e não se interessam por assuntos que digam respeito ao destino da humanidade. Digo aparentemente, porque me parece não ser o comportamento da maioria.

A eleição, ontem, de Barak Obama me faz reportar (noutra dimensão, claro) a votação extraordinária de Gabeira, no Rio. Ambas deverão ser objeto de muita reflexão e estudos pra quem é do ramo.

Em seminário de avaliação das últimas eleições brasileiras, semana passada, em Brasília, tive a oportunidade de assistir o depoimento do companheiro Raulino, assessor da campanha de Gabeira, explicando a estratégia utilizada para o sucesso daquela campanha. Em síntese: Gabeira, um intelectual antenado com o mundo, deixou de lado a lógica dos partidos (o que a população já fez há anos) e falou para as redes sociais de interesses comuns, ou seja, praticou o que os teóricos estão chamando de a democracia das minorias. E foi ouvido.

Três cientistas sociais de fama internacional escreveram sobre o assunto: Marilyn Fergusson (Conspiração Aquariana), Anderson e Alvin Toffler (A Terceira Onda), por coincidência, todos em 1980. Portanto, há 28 anos discutiram coisas que os partidos brasileiros, até hoje, nem desconfiam.

Alguns movimentos sociais fazem parte dessas redes, mas não são apenas eles. Há redes permanentes e redes temporárias, que lutam por um objetivo e se extinguem tão logo alcançam o que querem. Há toda uma teoria que justificam as redes, em cima dos novos paradigmas (abordei o assunto no livro Na curva do rio). Alguns marxistas apontam as mudanças nas relações de produção como a causa mais profunda desses movimentos.

Pois bem, Gabeira falou para essa gente, por fora e por cima dos partidos. E foram essas redes que defenderam ele e o Kassab, quando os dois foram agredidos por preconceituosos.


Wilame Jansen lançou recetemente, em Recife, seu novo romance, "Na Curva do Rio"

É preciso ignorar idéias conservadoras


Paul Krugman
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Novo presidente dos EUA não deve temer um deslocamento para a esquerda

Se a eleição de nosso primeiro presidente negro não o comoveu, há algo errado com você. Mas será que a eleição marcará também um ponto de inflexão real na política? Barack Obama pode realmente introduzir uma nova era de políticas progressistas? Sim, ele pode.

Nesse momento, muitos analistas estão conclamando Obama a pensar pequeno. Alguns usam argumentos com base política: os EUA ainda são um país conservador e os eleitores punirão os democratas se eles se deslocarem para a esquerda. Outros dizem que a crise financeira e econômica não permite, por exemplo, reformar o sistema de saúde.

Esperemos que Obama tenha o bom senso de ignorar esse conselho.

Sobre o argumento político: se alguém duvidar de que tivemos um grande realinhamento político, seria bom que observasse o que aconteceu com o Congresso. Após a eleição de 2004, houve declarações de que entramos numa era de predomínio prolongado, talvez permanente, dos republicanos. Desde então, os democratas tiveram vitórias sucessivas, conquistando pelo menos 12 cadeiras no Senado e mais de 50 na Câmara - contando agora com uma maioria no Congresso que o Partido Republicano jamais teve em seu reinado de 12 anos.

Tenham em mente também que a eleição presidencial deste ano foi um claro referendo sobre filosofias políticas - e a filosofia progressista venceu.

A melhor maneira de destacar a importância desse fato talvez seja contrastar a campanha deste ano com a anterior. Em 2004, o presidente George W. Bush escondeu sua verdadeira agenda.

Ele concorreu basicamente como um defensor do país contra terroristas casados com gays, deixando até seus partidários confusos quando anunciou, logo após o fim da votação, que sua prioridade inicial seria a privatização da Previdência Social. Não era nisso que as pessoas achavam que estavam votando e a campanha da privatização rapidamente degenerou de um rolo compressor a uma farsa.

Neste ano, porém, Obama concorreu com uma plataforma de garantia de assistência à saúde e diminuição de impostos para a classe média, financiadas com aumento de impostos para os ricos.

O republicano John McCain acusou seu adversário de ser socialista e "redistribuidor", mas os americanos votaram nele mesmo assim. Esse é um mandato real.

E quanto ao argumento de que a crise econômica inviabilizará uma agenda progressista? Bem, não resta dúvida de que combater a crise custará muito dinheiro. Salvar o sistema financeiro provavelmente exigirá grandes despesas além dos fundos já desembolsados. E, por cima disso, precisamos urgentemente de um programa de aumento dos gastos públicos para impulsionar a produção e o emprego. O déficit orçamentário federal poderá alcançar US$ 1 trilhão no próximo ano? Sim.

Mas os manuais de economia dizem que é correto, na verdade apropriado, incorrer em déficits temporários diante de uma economia deprimida. Durante esse período, um ou dois anos no vermelho não deveriam obstruir o caminho de um plano de saúde que, mesmo que rapidamente sancionado em lei, provavelmente não entrará em vigor antes de 2011.

Além disso, a resposta à crise econômica é, em si, uma chance de avançar na agenda progressista.

Agora, o governo de Barack Obama não deveria imitar o hábito da administração Bush de transformar tudo e qualquer coisa em argumento para suas políticas preferidas. (Recessão? A economia precisa de ajuda - vamos cortar os impostos dos ricos! Recuperação? Os cortes de impostos dos ricos funcionam - então, vamos cortar um pouco mais.)

Mas seria justo a nova administração assinalar como a ideologia conservadora - a crença de que a ganância é sempre boa - ajudou a provocar essa crise. Nunca soou mais verdadeiro o que Franklin D. Roosevelt disse em seu segundo discurso de posse: "Nós sempre soubemos que o interesse próprio imprudente era má moral; agora sabemos que é má economia."

E acontece que o momento em que vivemos agora é um daqueles em que o inverso também é verdadeiro, e boa moral é também boa economia. Ajudar os mais necessitados num tempo de crise com uma expansão do seguro-saúde e do seguro-desemprego é a coisa moralmente certa a fazer. É também uma forma muito mais efetiva de estimular a economia do que reduzir os impostos sobre ganhos de capital.

Fornecer ajuda a governos estaduais e municipais em dificuldade para que eles possam manter os serviços públicos essenciais é importante para os que dependem desse tipo de assistência; é também uma maneira de evitar perdas de empregos e limitar a profundidade da recessão econômica.

Assim, uma agenda progressista séria - podem chamá-la de um novo New Deal - não só é economicamente possível, é exatamente do que a economia necessita.

Assim, o resumo da ópera é que Barack Obama não deve ouvir as pessoas que tentam assustá-lo para ser um presidente que não faz nada. Ele tem um mandato político; ele tem a boa economia do seu lado. Pode-se dizer que a única coisa que ele tem a temer é o próprio medo.

*Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, é colunista do ?New York Times?