segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Moeda europeia ou estrangeira?:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

O erro fundamental do euro é o de ser uma moeda que os países não têm o poder soberano de emitir

O euro ainda pode ser salvo? Esta pergunta faz sentido porque há muitos analistas apressando-se a anunciar que o euro falhou e está condenado a desaparecer. Hoje está claro que o euro foi uma ideia arriscada, que afinal apresentou mais problemas do que soluções, mas é cedo para dizer que fracassou. Toda a questão nestes tempos anormais em que afligem a zona do euro está em saber se os europeus continuarão a ter uma "moeda estrangeira" como é hoje o euro ou a transformarão em uma moeda nacional europeia.

O erro fundamental do euro é o de ser uma moeda estrangeira -uma moeda que os países da zona do euro não têm o poder soberano de emitir. Ao adotar o euro, os países renunciaram à sua soberania, porque um requisito fundamental dela sempre foi a capacidade do Estado-nação de emitir dinheiro quando não tem alternativa para pagar suas dívidas. O exercício desse poder implica risco de inflação mas, no caso do euro, esse risco é pequeno. Certamente menor do que o custo que estão incorrendo os países europeus com esta crise.

Na última semana, em uma conferência internacional, o título de minha apresentação foi "No foreign finance, please", porque sei que nada foi pior para um país do que se endividar em moeda estrangeira. Em vez de promover o investimento e o desenvolvimento, o endividamento promove a apreciação cambial, o aumento do consumo, a fragilidade financeira e a crise do balanço de pagamentos. Os países em desenvolvimento se endividaram em moeda estrangeira por populismo cambial e porque equivocadamente acreditavam que deveriam "crescer com poupança externa". Já os países europeus se endividaram voluntariamente em moeda estrangeira -em moeda que o país não tem a soberania de emitir. Um perfeito contrassenso apoiado na suposta autorregulação dos mercados.

Mas os europeus ainda podem tornar o euro uma moeda nacional europeia. Para isto, é necessário que o Banco Central Europeu (BCE) faça o que estão fazendo os bancos centrais dos Estados Unidos e do Reino Unido e emita dinheiro para comprar os título dos países-membros. No caso da zona euro, compre até que sua taxa de juros atinja um nível normal -momento em que a crise estará terminada.

Isso implicará, como contrapartida, uma substancial diminuição da autonomia do país de incorrer em deficit fiscais, e em um severo monitoramento do endividamento privado que se reflete em conta corrente negativa dos países devedores dentro da zona.

Os alemães se opõem a esta monetização da dívida; têm medo de estimular a irresponsabilidade fiscal. Mas economistas alemães aprovaram a proposta que o BCE compre a dívida dos países até 60% do PIB, porque sabem qual o custo para seu país do colapso do euro: quase dois terços das exportações da Alemanha são realizadas para a zona do euro. Por enquanto, o Norte da Europa aproveitou o euro para exportar e investir, enquanto que o Sul, para importar e consumir. Ou essa síndrome perversa é corrigida pelo colapso do euro e a depreciação da moeda dos países devedores, ou é resolvida tornando o euro uma verdadeira moeda nacional europeia do Estado-multinação europeu em formação.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Casamento PSB e PT: uma união instável

Movimentações de Eduardo Campos pelo país afora fazem líderes petistas acenderem o sinal de alerta. Presidente socialista e governador de Pernambuco, ele mostra desenvoltura tanto na costura com legendas aliadas a Dilma quanto com as de oposição

Denise Rothenbug

Em recente reunião de petistas em São Paulo, o ex-ministro da Casa Civil e ex-presidente do PT José Dirceu fez soar o alarme. "Temos que ficar de olho nos movimentos do PSB. Mais dia, menos dia, eles vão buscar um projeto próprio", comentou, segundo petistas presentes. A seus amigos no PT, Dirceu tem dito que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, está dedicado a preparar esse projeto. O PT ficou preocupado e, em conversas reservadas, a cúpula do partido já se mostra atenta ao crescimento político de seu aliado histórico.

Dirceu fez essa análise com base nas alianças que o PSB prepara em várias capitais do país (leia quadro). Citou especificamente o Paraná, onde os socialistas são aliados do governador, Beto Richa (PSDB), de quem herdaram a prefeitura de Curitiba. Mencionou também o fato de o ministro da Integracão Nacional, Fernando Bezerra Coelho, ter transferido o título eleitoral para Recife, não só de forma a preparar uma candidatura ao governo do estado em 2014, como também para servir de ameaça ao PT, na hipótese de o partido de Lula não se entender para lançar um candidato a prefeito no ano que vem.

Nem é preciso ir muito longe de Brasília para averiguar a carreira solo do PSB e o esforço para se colocar como uma alternativa ao centro, entre o PSDB e o PT. Hoje, o partido de Eduardo Campos transita mais na política do que qualquer outro. O governador de Goiás, Marconi Perillo, esteve há alguns dias em Recife, visitando Eduardo Campos e preparando uma aliança para as eleições municipais em cidades goianas.

Metralhadora

Em Minas Gerais, a proximidade dos dois partidos também existe. O partido integra a equipe do governador, Antonio Anastasia (PSDB), embora parte dos socialistas veja o senador Aécio Neves (PSDB-MG) como adversário — caso, por exemplo, do ex-ministro Ciro Gomes.

]Em entrevista ao site Uol na última quinta-feira, Ciro revelou desejo de ser candidato, mais uma vez, a presidente da República e não poupou críticas ao PT, a Aécio e até a Eduardo Campos, a quem coloca como comandante do PSB por herança e não por talento.

A metralhadora giratória de Ciro, entretanto, preocupa menos o PT do que os movimentos silenciosos de Eduardo Campos. A proximidade com o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é uma delas. O governador pernambucano estimulou a formação do partido de Kassab e é hoje um aliado do prefeito.

Os petistas apostam que o PSB ficará com o prefeito na eleição municipal, se Kassab decidir lançar a candidatura de Guilherme Afif Domingos ou mesmo a do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que entrou no PSD paulistano, mas continua recolhido.

De público, entretanto, os petistas são comedidos ao se referir aos movimentos de Eduardo Campos: "O governador Eduardo Campos sempre foi da maior lealdade com o ex-presidente Lula e a presidente Dilma. Não vejo esse perigo. Ele estará conosco em 2014", afirma o líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Fadiga

Da parte dos socialistas, Campos apenas deu de ombros quando soube das preocupações dos petistas externadas por Dirceu. "Não é a primeira, nem será a última vez em que discordo dele", afirmou. Mas, a amigos, Campos vai além. Diz que querer crescer não é crime e que a aliança nacional com o PT vai muito bem, obrigado. Entretanto, nas conversas mais reservadas entre os integrantes do PSB, a aposta na fadiga de material do PT está grande e o futuro da relação entre os dois partidos é como um casamento, na visão do poeta: será infinita enquanto durar.

Situação nas capitais

São Paulo

O partido está próximo tanto do PSDB do governador Geraldo Alckmin quanto do PSD do prefeito Gilberto Kassab, e longe do PT. Não será surpresa se apoiar um candidato como Guilherme Afif Domingos, por exemplo.

Belo Horizonte

O PSB apostará na reeleição do prefeito Márcio Lacerda. Aguarda a definição do PT, mas a relação com o senador Aécio Neves, do PSDB mineiro, continua melhor do que com os petistas, divididos.

Rio de Janeiro

O PSB ainda não definiu o que fará. O deputado Romário insiste em ser candidato a prefeito.

Curitiba

O acordo é com o PSDB, do governador Beto Richa.

Porto Alegre

O PSB vai apoiar a candidatura da deputada Manuela D"Ávila (PCdoB-RS).

Recife

O plano A é apoiar o PT, mas se os petistas continuarem divididos, o PSB lançará candidato próprio.

Salvador

Não há planos de apoiar o PT, do governador Jaques Wagner.

Fortaleza

PSB planeja lançar candidato próprio.

Goiânia

PSB conversa com o PSDB, do governador Marconi Perillo.

FONTE CORREIO BRAZILIENSE

Briga do PSD com Maia chega ao STF

Após o presidente da Câmara destituir pessedista por duas vezes do comando da mesma comissão, deputado decide acionar o Supremo

Erich Decat

O clima de boa vizinhança entre integrantes do recém-criado PSD e o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), azedou. Na manhã de hoje, o deputado Sérgio Brito (PSD-BA) vai entrar com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a decisão do petista, que o destituiu — pela segunda vez — da presidência da Comissão de Fiscalização e Controle (CFC). "É uma atitude arbitrária, ditatorial. Não vou ficar calado", reclamou Brito.

O imbróglio entre o presidente da Câmara e integrantes do PSD se arrasta desde o último dia 9, quando Maia tirou Sérgio Brito do comando do colegiado. A decisão foi tomada com base no regimento interno da Casa: "O deputado que se desvincular de sua bancada perde automaticamente o direito à vaga que ocupava". Brito foi um dos parlamentares que migrou para o PSD. Além da perda da presidência, Marco Maia determinou a realização de nova eleição, feita na última quarta-feira. Na ocasião, Brito disputou com o deputado Filipe Pereira (PSC-RJ). O pleito terminou com 10 votos para cada lado e, no critério de desempate, Brito voltou a conquistar a cadeira, por ser o parlamentar mais velho. Conquistou, mas não levou.

No mesmo dia, foi destituído por Marco Maia, após o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) apresentar questão de ordem no plenário. Cunha lembrou que o comando das comissões temáticas da Casa é acertado no início de cada ano com base no tamanho das bancadas dos partidos. No entanto, a ordem de escolha da presidência dos colegiados não está prevista no regimento interno da Câmara, trata-se de um acordo entre os partidos.

Candidatura avulsa

Com base nesse acordo, a comissão deveria ser comandada por um integrante do PMDB, que, na ocasião, cedeu a vaga para o PSC, partido anterior de Brito. Com a migração do deputado para o PSD, ele teve que apresentar uma candidatura avulsa no pleito realizado na última quarta-feira. A candidatura foi contestada por Eduardo Cunha. Segundo ele, essa alternativa só pode ser utilizada nas eleições realizadas para a escolha do presidente da Câmara. A questão de ordem de Cunha foi acatada por Marco Maia.

"Não há fundamento jurídico. É uma aberração o que o Marco Maia está fazendo. É uma total falta de habilidade, ainda mais sabendo que temos apenas mais 13 dias úteis na Câmara. Ele está comprando uma briga que não é apenas contra mim, mas contra toda a bancada", ressaltou Sérgio Brito. "Vou entrar na segunda-feira com o mandado de segurança repressivo no Supremo e, na terça, com uma questão de ordem no plenário. Pela segunda vez, ganhei no voto", acrescentou.

Ao Correio, Marco Maia disse que vai manter a decisão, e que o PSD deve "respeitar" o acordo feito entre as legendas para não ser "atropelado". "Há um acordo firmando no início do ano entre todos os partidos. Esse acordo tem que ser respeitado, sob pena de haver massacre dos maiores sobre os menores", lembrou o presidente da Câmara.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

A mitomania e os fatos:: José Serra

Em entrevista dada à TV UOL na semana passada, Ciro Gomes, depois de manifestar seu preconceito contra São Paulo e contra o Rio de Janeiro, afirmou, de modo meio desconexo, como é de seu feitio, o seguinte:

O Serra, por exemplo, na Constituinte, cercou a Zona Franca de Manaus de restrições até ficar o sinal de que queria acabar. Desmontou o sistema de incentivos fiscais que compensariam o Nordeste das assimetrias competitivas. Briga com o Centro-Oeste e tal. Hoje, eu estou falando hoje… Porque o cara quer ser presidente da República e governava São Paulo e fazia dessas. Então essa é a questão prática.”

Esses fatos que ele menciona jamais aconteceram. Qualquer interessado pode pesquisar os anais da Constituinte ou a imprensa da época. Não encontrará nada do que ele diz a meu respeito. Não apresentei uma só emenda, não votei em uma só proposta, não proferi um só discurso com aquele conteúdo. E olhem que eu tinha certo peso na Constituinte, já que fui o relator dos capítulos sobre “Orçamento, Tributação e Finanças” e o parlamentar que obteve o maior índice de emendas aprovadas à nova Carta.

A Zona Franca de Manaus na Constituinte só ganhou sinal de maior fôlego, com um dispositivo que garantiu sua existência por mais 25 anos, posteriormente prorrogados. Isso decorreu de iniciativa liderada pelo relator geral da Constituinte, Bernardo Cabral. Ou seja, aconteceu exatamente ao contrário do que Ciro disse, ignorando a história e até mesmo a Constituição – bastaria que ele tivesse lido o artigo 40 das Disposições Constitucionais Transitórias.

Sobre o Nordeste, a verdade também está no avesso do que afirmou Ciro Gomes. O sistema de incentivos fiscais que beneficiava o Nordeste e outras regiões menos desenvolvidas permaneceu intocado. Na condição de relator, incluí na Constituição os dispositivos que criaram um grande fundo de desenvolvimento para o Norte, o Nordeste e o Centro Oeste, formado por 3% da arrecadação anual do IPI e do Imposto de Renda. Esse dinheiro deveria ser aplicado na iniciativa privada pelo Banco do Nordeste, pelo Banco da Amazônia e, no caso do Centro-Oeste, que não tinha banco regional, pelo Banco no Brasil.

Mas a verdade pode ainda ser mais detalhada, o que escancara a inverdade contada por Ciro Gomes: no relatório final da Comissão de Sistematização da Constituinte, esse fundo, aprovado pela minha comissão, foi desfeito. Inconformado, apresentei, então, Emenda em Plenário — a ES 34.213-4, de 5 de setembro de 1987—, conseguindo restabelecer o texto da Comissão de Orçamento, Tributação e Finanças.

Somente o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste comporta recursos de mais de R$ 4 bilhões por ano. Ao mesmo tempo, como os fundos fazem empréstimos com retorno, acumula-se um estoque de disponibilidade para crédito muito expressivo no Banco do Nordeste: era de cerca de R$ 10 bilhões em 2009.

Foi também como relator que coordenei os dispositivos que elevaram fortemente os Fundos de Participação de Estados e de Municípios, o FPE e o FPM. A fatia do FPE na arrecadação do IPI e do IR saltou de 14% para 21,5%. Como se sabe, a maior parte desse fundo – 85% – é hoje destinada ao Norte, ao Nordeste e ao Centro Oeste.

Assim, nos vinte anos seguintes à promulgação da nova Constituição, o Nordeste ampliou suas receitas recebidas via FPE de R$ 5,7 bilhões para R$ 24,6 bilhões (a preços de 2008). Desse aumento de quase R$ 20 bilhões, cerca de 50% — proporção ainda maior no caso do Ceará —decorreram das alterações constitucionais; o restante deveu-se ao crescimento real da arrecadação de IR e IPI.

Portanto, nos últimos anos, o Nordeste contou com recursos transferidos pelo governo federal superiores a R$ 10 bilhões somente por conta do aumento do FPE estabelecido pela Constituinte, no capítulo do qual fui o relator. Aliás, Ciro ignora que a Constituinte foi decisiva para descentralizar, da União para governos estaduais e muncipais, e para redistribuir, das regiões mais ricas para as menos desenvolvidas, os recursos tributários do Pais, tanto que as receitas dos governos dessas regiões cresceu mais rapidamente do que as dos governos das regiões mais desenvolvidas. Ou seja, a história real foi exatamente inversa da que ele relata.

Como fica evidente, a verdade está de um lado, Ciro Gomes está de outro; de um lado, estão os fatos; do outro, a imaginação fértil deste senhor, especialmente quando se refere a mim. Às vezes, suspeito que seja um caso clínico.


José Serra, ex-prefeito e ex-governador de S. Paulo

FONTE: JOSÉ SERRA

Mínimos sociais :: Aécio Neves

Em 7 de dezembro, a Loas (Lei Orgânica da Assistência Social) completa sua maioridade. Promulgada em 1993 pelo então presidente Itamar Franco, ela traz as principais garantias para a organização da rede de proteção social, que vem sendo construída de forma progressiva.

Desde Betinho, com a campanha contra a fome, passando pela Comunidade Solidária de dona Ruth Cardoso e pelas bolsas iniciais que se transformaram no Bolsa Família, não tem nos faltado esforços para fazermos essa travessia. E a sociedade tem sido parceira incansável dos governos.

Nesse tempo, alguns avanços foram possíveis. Foi a Loas, por exemplo, que possibilitou a existência do maior programa brasileiro de transferência de renda. Quem pensou no Bolsa Família errou.

Falo do BPC (Benefício da Prestação Continuada), voltado para idosos com mais de 65 anos e deficientes com renda mensal familiar per capita inferior a um quarto do salário mínimo. Implantado em 1996, pelo presidente Fernando Henrique, hoje ele é uma fundamental cobertura de proteção social no Brasil.

No país das desigualdades, é preciso chamar a atenção para o desafio definido por essa lei e que ainda não foi cumprido. No seu primeiro artigo, a Loas diz que assistência social é direito do cidadão e dever do Estado, que deve prover os mínimos sociais para garantir o atendimento às necessidades básicas da população.

Considerado utópico por alguns, o artigo, porém, é claro na alocação dessa responsabilidade ao Estado. Depois de 18 anos e de algumas vitórias importantes, não fomos capazes, no entanto, de avançar de forma significativa nessa direção.

Assumir o compromisso com a busca da garantia dos mínimos sociais implica deixar de pensar apenas em quantas pessoas são atendidas por programas sociais para considerar quantas pessoas fizeram, de fato, a travessia segura entre a exclusão e a inclusão social sustentável.

Significa reconhecer que o combate à pobreza é um conjunto de proteções e seguranças sociais que vai além da transferência de renda.

Não podemos nunca perder o foco da amplitude da responsabilidade do Estado. Quem recebe os recursos do Bolsa Família, programa fundamental, deve também ter acesso às garantias sociais, de habitação, saúde, educação, entre outras.

A questão que se coloca é se o Brasil está viabilizando a transformação social da vida dos mais pobres ou se está fazendo só a gestão diária da pobreza, sem, porém, superá-la.

Os dados do Censo 2010 ajudam a dimensionar o desafio. Não há ufanismo que resista à realidade. Há muito trabalho pela frente, até um novo patamar real de desenvolvimento. Alcançá-lo deve ser um compromisso cada vez mais partilhado pelas esferas de governo.

Aécio Neves, senador (PSDB-MG)

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Getulio Vargas Neto se filia ao PPS no Rio e busca inspiração no avô

Neto do ex-presidente pode se candidatar a vereador ou a prefeito em 2012

Juliana Castro

RIO - Era um dia de céu nublado e tempo chuvoso quando Getulio Dornelles Vargas Neto entrou pelos corredores do Museu da República, abrigado no Palácio do Catete, Zona Sul do Rio, onde seu avô viveu os últimos momentos antes de sair da vida para entrar na História. O neto, um ex-pedetista, não esconde a admiração pelo avô-presidente, assim como não oculta que busca nele a inspiração para fazer bonito em seu retorno à política, agora no PPS.

Aos 55 anos, ele diz estar mais maduro para voltar ao mundo partidário e ao Rio, cidade em que nasceu e onde a família “fez história”, segundo suas palavras. Da mesma forma como foi levado pelo pai, Manuel Vargas - o Maneco, um dos cinco filhos de Getulio -, para Porto Alegre aos 13 anos, é ele quem hoje traz a mulher e os dois filhos, de 10 e 14 anos, para viver na capital fluminense. Formado em administração, vai comandar à distância sua fazenda e os negócios na área de agropecuária, enquanto faz uma nova investida na política.

Fundador do PDT, Getulio conheceu o gosto amargo da derrota na eleição para deputado estadual em 1986. Nunca mais tentou um cargo público. Abandonou o partido quando Leonel Brizola aceitou ser vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 1998, mas agora já se sente recuperado das desilusões.

Para vereador não teria muito problema, embora não seja muito a minha praia. Eu me vejo muito mais Executivo que Legislativo

Com a ideia fixa de voltar ao estado natal, concretizada há dois meses, o neto do ex-presidente quis retomar a atividade partidária para dar continuidade ao legado de “doutor Getulio”, como gosta de se referir ao avô que ele não conheceu. Antes de optar pelo PPS, manteve conversas com o PDT e o PTB de Roberto Jefferson, mas desistiu:

- São partidos que estão muito comprometidos - diz Getulio, que abandonou Porto Alegre, mas não o sotaque gaúcho adquirido ao longo de mais de 40 anos.

O novo filiado do PPS pode ser candidato à sucessão de Eduardo Paes, inspirado no pai, que foi prefeito de Porto Alegre em 1955. Disputaria com o deputado federal Stepan Nercessian a indicação do partido. Getulio desconversa sobre a possibilidade, mas deixa escapar:

- Para vereador não teria muito problema, embora não seja muito a minha praia. Eu me vejo muito mais no Executivo que no Legislativo. Mas quem disse que tem que ser agora? Por que não posso ficar três anos visitando o estado inteiro e sair candidato a governador?

Com o cenário indefinido, o presidente do PPS, Roberto Freire (SP), se limita apenas a analisar a aquisição do novo quadro, sem deixar de lado os afagos:

- Para o partido é uma honra ter uma pessoa com essa história, mesmo que não seja diretamente feita por ele. Não é uma filiação qualquer.

Jamais vou me desvincular do meu avô. Se eu acertar, não fiz mais que minha obrigação. Se eu errar, é o neto do Getulio Vargas quem está errando

Tão logo fez seu primeiro encontro com Freire, Getulio tomou a decisão de oficializar sua filiação. Em pouco tempo lá estava à espera de Raulino Oliveira, do diretório estadual, no Tribunal Regional do Rio (TRE-RJ) para agilizar os trâmites:

- Fiquei na porta esperando chegar o Getulio Vargas Neto e me aparece um sujeito baixo, de calça jeans, camisa, tênis e de mochila nas costas – diz Raulino, exaltando a simplicidade do novo colega de partido.

E é justamente numa receita simples que o neto do “pai dos pobres” vai apostar: pretende usar o vínculo familiar com o presidente nacionalista nas futuras campanhas.

- Jamais vou me desvincular do meu avô. E nem quero. Mas se eu acertar, não fiz mais que minha obrigação. Se eu errar, é o neto do Getulio Vargas quem está errando – afirma.

Além da baixa estatura em comum – Getulio jura que tem “em torno de 1,65m” –, o neto aponta outras semelhanças com o avô, como “o mesmo espírito democrático e a mesma simplicidade”. E reconhece que o ex-presidente “está bem mais acima” no sentido político.

Sem querer analisar erros e acertos dos governos getulistas, o mais novo político da praça repete como um mantra os elogios ao avô. Não lida bem com críticas ao ex-presidente, desde os tempos da adolescência. Rebateu professores e não aceitou bem quando teve de aprender nos livros didáticos histórias que ouvia na sala de casa. Dessa época, ficou apenas uma certeza que dura até hoje e que vai perdurar na aventura política.

- Não é fácil ser neto de Getulio Vargas – diz.

FONTE: O GLOBO

Acordar, viver:: Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

domingo, 20 de novembro de 2011

OPINIÃO DO DIA – Roberto Freire; a desigualdade e concentração

As desigualdades sociais e a concentração de renda continuam a desafiar uma nação que se pretende no século XXI, mas que grande parte de seu povo vive em condições do século XIX. A situação da saúde continua calamitosa, mesmo depois que o presidente Lula afirmou que o SUS “estava próximo da perfeição”. Vemos agora, pela ausência de saneamento em mais de 50% dos lares brasileiros, e pela completa ausência de uma efetiva política de Estado para superar tal condição, que estamos muito longe de alcançarmos esse trivial sinal de civilização.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente do PPS. O Censo e a falta de senso. Brasil Econômico 18/11/2011.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Nova corrida do ouro atrai US$ 2,4 bilhões para o Brasil
País não está pronto para dano ambiental
Superlotação e revoltas são ameaça nos presídios
Espanha: virada à direita pode gerar retrocesso

FOLHA DE S. PAULO
Cesáreas superam os partos normais pela 1ª vez no país
Altamira pede suspensão de Belo Monte
Ir à Justiça contra as aéreas dá certo em 60% dos casos

O ESTADO DE S. PAULO
Crise faz imigração legal para o Brasil crescer 52% em 1 ano
Endividado, brasileiro ganha mais crédito
Usina de contradições

CORREIO BRAZILIENSE
O drama das empresas à procura de pessoal
PF vai indiciar petroleira
Não viu porque não quis

ESTADO DE MINAS
"A alegria da minha vida foi arrancada"
Natal da crise festejado com presente vindo da Europa

ZERO HORA (RS)
Apreensão de armas não freia homicídios

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Os órfãos do crack

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

Espanha: virada à direita pode gerar retrocesso

A vitória iminente dos conservadores hoje na Espanha inquieta intelectuais, que prevêem retrocesso em conquistas sociais e mais protestos por conta do arrocho econômico.

Priscila Guilayn

Intelectuais expõem inquietude frente à vitória prevista do PP

Espanhóis vão hoje às urnas em meio a insatisfação e poucas dúvidas sobre resultado

MADRI - Os espanhóis viram nos últimos três anos seus níveis de riqueza e perspectivas de futuro despencarem. Entre o pessimismo de muitos, o inconformismo de uns e a apatia de outros, os eleitores sabem que o pleito de hoje não se traduzirá em cinco milhões de postos de trabalho, o atual número de desempregados, o maior patamar da União Europeia. Mas sabem também que o precipício apareceu em pleno governo socialista e que o timoneiro deste, José Luis Rodríguez Zapatero, tentou colocar panos quentes, negando por meses uma crise que já existia.

A insatisfação do povo custou caro à esquerda espanhola, desenhando um quadro eleitoral passível de poucas surpresas nessas eleições gerais. Todas as pesquisas apontam para uma vitória esmagadora do Partido Popular (PP). E seu líder, Mariano Rajoy, já avisou que, uma vez na Presidência do Governo, a tesoura dos conservadores cortará de tudo, exceto as aposentadorias. A contenção das despesas públicas, no entanto, não é a única coisa que vai mudar na Espanha que emerge das urnas hoje.

Apesar de se declarar contente com o triunfo do PP, por "contar com a melhor equipe de economistas e as ideias mais claras para realizar as reformas radicais necessárias", o prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, declarou publicamente que não votará em Rajoy. Num polêmico artigo publicado no "El País", o peruano naturalizado espanhol se disse desconfiado de $"maiorias absolutas" como a que o PP está prestes a obter: entre 185 a 195 das cadeiras do Congresso de 350, segundo as pesquisas.

"Preocupa-me que sua ala mais conservadora, impulsionada por motivos religiosos, empurre o governo Rajoy a desfazer as reformas sociais mais avançadas aprovadas pelo governo de Rodríguez Zapatero e que, a meu juízo, fizeram progredir a cultura da liberdade na Espanha, como a lei que autoriza os casamentos gays, a ampliação da lei de aborto e os direitos da mulher, temas nos quais, hoje, a Espanha está na vanguarda", escreveu Vargas Llosa.

A polêmica veio quando, no mesmo artigo, o escritor declarou seu voto no partido minoritário União Progresso e Democracia (UPyD), fundado em 2007 pela ex-socialista Rosa Díez e pelo filósofo Fernando Savater. Contra os nacionalismos e a favor de um modelo federalista, a UPyD tem apenas uma deputada (Rosa Díez), mas pode ganhar pelo menos mais um assento se as urnas confirmarem as pesquisas.

O panorama eleitoral que se desenha dará aos conservadores poder suficiente para aprovar as leis que quiserem, diz o catedrático de Ciências Políticas Cesario Rodríguez Aguilera, autor de livros como "A crise do Estado socialista" e "Antecedentes, estratégias políticas e resultados eleitorais". Segundo ele, dessas eleições emergirá uma Espanha extremamente conservadora, que reforçará seus vínculos com a Igreja Católica.

— O PP terá as mãos livres para entregar cargos a pessoas alinhadas ao partido em diferentes instituições como o Tribunal Constitucional, o Conselho Geral do Poder Judicial e à empresa pública de comunicação Rádio e Televisão Espanhola. Assim, quando os socialistas voltarem ao poder, encontrarão uma predominância de conservadores em várias esferas. Esta será a herança — afirma Rodríguez Aguilera, que acrescenta: — Não podemos esquecer que o PP está em perfeita sintonia com a Igreja e, portanto, reforçará o caráter não laico de nosso sistema.

No âmbito socioeconômico, no entanto, o PP terá que seguir as políticas que a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu exigem. Ou seja, mais austeridade, mais ajustes. Saúde e educação, que têm sido alvo de crescente privatização em regiões governadas pelo PP, são apontadas como os primeiros alvos dos cortes orçamentários.

Preocupação com liderança tecnocrata

O filósofo Emilio Lledó, autor de livros como "A origem do diálogo e da ética", posicionou-se publicamente sobre o que considera um erro, o de apenas olhar pela economia, entregando sua salvação a tecnocratas que, muitas vezes, estão ou estiveram ligados a grandes empresas e cuja única meta seria perseguir o poder econômico. Aí, segundo Lledó, só restará uma saída para a Espanha: a cultura.

— Em "A República" e "A Política", Platão e Aristóteles dizem que a salvação dos Estados, dos povos e das nações se consegue através da decência e da cultura. Esta não é uma frase antiga. Vale para hoje. Como alguém que só pensa no que é privado pode defender o que é público? — indaga Lledó, para quem a Espanha melhorou em cultura e em decência.

O intelectual alerta, no entanto, que, apesar de estar em baixa, ideias franquistas ainda encontram força entre alguns políticos como defesa da educação privada, descrédito do que é público e desprezo pela igualdade de oportunidades.

O escritor Carlos Bardem, irmão do oscarizado ator Javier Bardem, é outro a declarar seu voto. Um dos maiores entusiastas dos Indignados, apostará no minoritário Esquerda Unida (IU), que deve passar de 2 para 11 deputados como reflexo do castigo aos socialistas.

— É preciso pressionar os socialistas a se posicionarem como uma força de esquerda. Nessas eleições está em jogo algo bem maior do que um presidente de Governo. Queremos uma mudança de modelo político e social.

Rodríguez Aguilera concorda que, governada pelo PP, a Espanha "relançará" o Movimento 15-M, que foi qualificado pelo ex-presidente de Governo, o conservador José María Aznar, como "extrema esquerda marginal anti-sistema". Segundo ele, o PP sairá desta eleição com uma oposição institucional muito fraca, mas vai se deparar com uma forte contestação nas ruas.

— Este movimento é muito inquietante para a direita. O PP será um governo forte, mas terá que contar com greves gerais, muitas manifestações e muitas ocupações das praças. A direita sempre fica muito nervosa com a desordem pública, mas terá que enfrentar esta realidade — prevê o cientista político.

Previsão é de que ruas reajam mais ao governo

Nem todos os integrantes da esquerda espanhola estão decepcionados com o Partido Socialista. O cineasta Agustín Díaz Yanes, que dirigiu Penélope Cruz, Victoria Abril e Gael García Bernal no filme "Sem notícias de Deus", apoia sem ressalvas Alfredo Pérez Rubalcaba, líder do PSOE, seu amigo desde os tempos de faculdade. Diz ainda não ter medo de uma vitória do PP.

— A democracia também é alternância e se o PP ganhar é porque os espanhóis votaram nele. Continuaremos mantendo o nosso direito de protestar. Minha previsão é: mais ajustes e mais contestação social.

Mas, mesmo com o apoio de boa parte dos eleitores, o que permitirá a manutenção de 115 das 169 cadeiras que hoje detém, o partido de Zapatero deverá ficar na geladeira, no mínimo, durante dois mandatos, segundo as previsões de analistas políticos. Ou seja, dificilmente, a primazia do Partido Popular, se as urnas confirmarem o favoritismo, vai durar menos de oito anos.

FONTE: O GLOBO.

'O Brasil é hoje a versão 2.0 da Espanha de 2003'

Para economista, Brasil segue o mesmo caminho adotado pela Espanha, de endividamento e de crescimento pelo crédito

MADRI - A Espanha é "irresgatável" e seus crescimento nos últimos anos foi "baseado numa ficção". O alerta é de uma das principais referências hoje na Espanha, o economista Santiago Nino Becerra, autor de dois livros sobre a crise econômica que afeta o país. Em entrevista ao Estado, o economista diz que um resgate para a Espanha custaria 800 bilhões à UE e ao FMI, dinheiro que "simplesmente não existe". Becerra também alerta que há sinais claros de que o Brasil está seguindo o mesmo caminho de endividamento e de crescimento pelo crédito adotado pela Espanha há dez anos. "O Brasil hoje é a Espanha de 2003, em versão 2.0."

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como, depois de anos de euforia, a Espanha chegou a essa situação? A festa não era real?

A festa em todo o mundo tem sido uma ficção e ainda é uma ficção nos países onde continua. Quando a capacidade de endividamento se esgotou, o pagamento da dívida se tornou impossível.

Como o sr. explica que ninguém na classe política viu essa ameaça e a criação de bolhas ?

Certamente sabiam. Mas tinham de ignorar essa possibilidade. O hiperendividamento era, desde o final dos anos 80, a única opção para crescer.

O sr. já alertava para os riscos em 2006. O que diziam as pessoas ao ouvir essa advertência?

Quem me escutava admitia que o crescimento da dívida era insustentável. Na Espanha, entre 1996 e 2005, a dívida privada cresceu 140%.

Na segunda-feira, quando um novo governo assume o poder, há coisas que ele possa fazer diferente do governo atual para solucionar a crise?

Na segunda-feira, alguém ligará para Moncloa (palácio do governo) e perguntará pelo presidente do novo governo e dirá a ele que pegue papel e lápis para tomar nota do que terá de fazer o novo governo do Reino da Espanha. Isso se já não lhe foi dito.

Depois de Portugal, Irlanda e Grécia, a Espanha é resgatável?

A Espanha é irresgatável, assim como a Itália. Seriam necessários uns 800 bilhões. valor que simplesmente não existe.

Os planos de austeridade terão efeitos sociais profundos. Serão suficientes para tirar os países da crise?

O problema não é o gasto, e sim a arrecadação. Ao não crescer, a arrecadação é reduzida e a renda pública cai. Como os países europeus têm compromisso de déficit, a única possibilidade é o corte de gastos públicos, mesmo que isso deprima ainda mais a economia.

O Brasil vive um boom. A Espanha pode servir de lição sobre como não fazer as coisas?

Acredito que o Brasil vive uma situação virtual como a que viveu a Espanha de 1995 a 2007. Pelo que eu sei, a economia brasileira navega em um mar de créditos no qual o governo incentiva o consumo de tudo, como ocorreu na Espanha. Para "resolver" a questão da distribuição de renda, o Brasil deu acesso a crédito a um porcentual enorme da população. Algo parecido com o que ocorreu na Espanha. De 1997 a 2007, os salários reais dos espanhóis só cresceram 0,7%. Mas a população consumiu de tudo. Penso que o Brasil hoje é a Espanha em 2003, numa versão 2.0. / J.C.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Endividado, brasileiro ganha mais crédito

O governo incentiva o crédito para consumo num momento, em tese, delicado: nunca os brasileiros deveram tanto e comprometeram parcela tão grande do salário para pagar dívidas. Em média, cada um deve atualmente R$ 3.724 a financeiras e bancos

BC incentiva crédito no momento em que dívida de brasileiro bate recorde

Desde a crise de 2008, a dívida total dos brasileiros saltou 80,7% e o valor das parcelas pagas mensalmente cresceu 60%

Fernando Nakagawa

BRASÍLIA - O governo volta a incentivar o crédito para o consumo em um momento que, teoricamente, tem ingredientes arriscados: brasileiros nunca deveram tanto e nunca comprometeram parcela tão grande do salário para pagar as dívidas. Desde a crise de 2008, quando o governo aumentou a oferta de crédito para manter a economia aquecida, a dívida total dos brasileiros saltou 80,7% e o valor das parcelas pagas mensalmente cresceu 60%. Enquanto isso, o salário aumentou bem menos: 33,3%.

Dados do Banco Central revelam que o endividamento das famílias está no nível mais alto da história: pessoas físicas devem cerca de R$ 715,19 bilhões aos bancos em operações das mais simples, como o microcrédito e o cheque especial, até financiamentos longos, como o imobiliário e de veículos, passando pelo caro cartão de crédito.

Segundo o BC, cada brasileiro deve atualmente 41,8% da soma dos salários de um ano inteiro, um recorde. Há pouco mais de três anos, quando começou a crise de 2008, brasileiros deviam o correspondente a 32,2% de sua renda de 12 meses.

Pela metodologia usada nesses cálculos, o endividamento é o total das dívidas de uma família em relação à sua renda somada em um ano.

Seria como dizer que, na média, cada um dos mais de 192 milhões de brasileiros deve atualmente R$ 3.724 às financeiras e bancos. No início da crise passada, quando o Brasil tinha 2 milhões de habitantes a menos e o governo ainda não havia incentivado o crédito, o endividamento médio era de R$ 2.093.

Receituário repetido. O diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, disse no começo do mês que a instituição não está preocupada com o aumento do endividamento das famílias porque o prazo praticado pelos bancos cresceu e os juros têm caído. Além disso, o mercado de trabalho e a renda seguem em expansão. "Percebe-se que o endividamento das famílias cresce, mas o comprometimento da renda tem se mantido", disse na ocasião.

Nos últimos dias, o BC retirou parte das amarras impostas ao crédito no fim do ano passado. Com o objetivo de aumentar a demanda interna, foram anunciados incentivos para financiamentos voltados ao consumo - como o crédito para veículos, pessoal e consignado. Além disso, o juro básico da economia cai desde agosto com o mesmo objetivo de baratear o crédito, incentivar o consumo e, assim, reduzir os efeitos da crise internacional. O receituário é bem parecido com o usado na crise de 2008.

Mas o quadro tem, gradualmente, mudado. Apesar do esforço para incentivar a economia interna, as forças geradas pelo complicado quadro global têm aparecido cada vez mais: estoques elevados, produção industrial cada vez mais lenta e desaceleração na geração de empregos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Desaceleração contribui para elevar superávit

RIO - A desaceleração da economia brasileira também contribui com o forte resultado da balança comercial este ano. Com o resfriamento, o ritmo de crescimento das importações está caindo, ampliando o saldo comercial.

Segundo recente relatório do grupo financeiro Nomura, "a recente melhora geral na balança comercial foi impulsionada principalmente pelo crescimento mais fraco das importações, um reflexo da desaceleração do crescimento econômico". Assim, "o crescimento das exportações está razoavelmente estável, em torno de 30%, ano a ano, mas o crescimento das importações caiu de um pico de 44% em janeiro deste ano para 28%, agora".

O relatório também nota que o ritmo de crescimento das importações tanto de bens duráveis quanto de bens de capital caiu cerca de um terço desde os respectivos picos.

Os duráveis, que cresciam 56,5% em novembro de 2010, ante o mesmo mês do ano anterior, reduziram o ritmo para 37,7% em setembro. Já a desaceleração do ritmo de importação de bens de capital foi mais rápida: o pico, de 45,5%, foi em junho deste ano, e em setembro a velocidade já tinha caído para 30,3%. / F.D.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Dilma afirma que crise não pode paralisar direitos sociais

País não deve repetir "décadas perdidas", diz

Fábio Guibu

RECIFE - A presidente Dilma Rousseff disse ontem que vê na crise econômica internacional uma "espécie de repetição" do que chamou de "nossas duas décadas perdidas", em que a recessão, segundo ela, foi imposta como uma saída todos para os problemas.

"Nós ficamos 20 anos no Brasil aceitando, de uma triste forma, que as conquistas sociais fossem paralisadas pela necessidade de reciclagem das dívidas soberanas da América Latina", afirmou, em reunião com presidentes e representantes de dez países de África e América Latina, em Salvador (BA).

"Nós sabemos que esse processo não dá certo, ele leva à recessão, ao desemprego, a perdas de direitos, mas não tira os países da crise."

No encontro, Dilma conclamou os países da América Latina e do Caribe a uma ação conjunta para o enfrentamento da crise. Segundo ela, a instabilidade em países como EUA pode prejudicar "nossas conquistas sociais e agravar as desigualdades raciais".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Não viu porque não quis

Os escândalos que derrubaram quatro ministros do governo Dilma já haviam sido investigados pela Controladoria-Geral da União, que também tinha apontado irregularidades no Ministério do Trabalho.

Era só olhar os relatórios

Escândalos que derrubaram quatro ministros de Dilma já haviam sido investigados pela Controladoria-Geral da União. Roteiro é o mesmo agora no Trabalho

Karla Correia

Se o governo pudesse voltar no tempo até 15 de julho de 2008, a crise que hoje atinge o Ministério do Trabalho já poderia ser considerada assunto superado. Naquele dia, a Controladoria-Geral da União (CGU) concluiu relatório, enviado ao gabinete do ministro Carlos Lupi, no qual apontava irregularidades em um convênio firmado entre a pasta e a Fundação Pró-Cerrado na área de qualificação profissional. Em dezembro de 2010, o secretário de Prevenção da Corrupção da CGU, Mário Vinícius Spinelli, esteve no gabinete do então ministro do Turismo, Luiz Barretto. Tinha em mãos um parecer mostrando falhas graves em contratos assinados para capacitação de mão de obra e realização de eventos.

Depois de três anos acumulando poeira, sem que nada fosse feito, o primeiro relatório vem à tona no inferno astral vivido por Carlos Lupi, depois que sua relação com o dirigente da Pró-Cerrado, Adair Meira, foi revelada pela imprensa. Hoje, Lupi contempla o mesmo abismo no qual o ex-ministro do Turismo Pedro Novais caiu, abatido por uma crise iniciada com uma operação da Polícia Federal sobre os mesmos problemas que já tinham sido detectados pela CGU e encorpada com uma saraivada de denúncias divulgadas no noticiário. O roteiro é o mesmo dos escândalos que derrubaram outros quatro ministros envolvidos em denúncias de corrupção. “O governo sabia antecipadamente das irregularidades em praticamente todos os escândalos que foram divulgados pela imprensa”, afirma Spinelli.

O problema é que esse conhecimento só resulta em algum tipo de penalidade contra um integrante do alto escalão do governo quando se torna alvo de denúncias apresentadas na imprensa. Equipados com estruturas de peso, órgãos de fiscalização, como a CGU e o Tribunal de Contas da União (TCU), produzem uma profusão de informações sobre irregularidades em obras e contratos que tornam difícil para qualquer governante afirmar que desconhece problemas em qualquer ministério. Um dado que a CGU tem orgulho de divulgar é o número de servidores federais que foram afastados de seus cargos nos últimos oito anos pelo governo, por evidências de envolvimento em corrupção. “São mais de 3,5 mil funcionários”, contabiliza o secretário.

Mas as investigações prévias da CGU e do TCU ainda não abateram nenhum ministro. Por mais que o governo tenha ciência antecipada de denúncias envolvendo uma pasta, e por mais perto que elas passem do titular do cargo, o ministro só sucumbe depois de bombardeado pela imprensa. “Em muitos casos, falta aquele detalhe que liga o ministro ao caso”, argumenta Spinelli. “Não temos a possibilidade de interferir para substituir ninguém. A decisão é da Presidência da República”, explica o secretário-geral de Controle Externo do TCU, Guilherme La Rocque.

Superfaturamento

“O ato de afastar um ministro tem implicações políticas sérias para um presidente. É uma decisão que vai ferir diretamente o representante de um partido aliado que, em um governo de coalizão, vai ter poder para dar o troco em votações no Congresso”, analisa o especialista em administração pública da Universidade de São Paulo Isaías Custódio.

Tomem-se por exemplo as denúncias envolvendo o Ministério do Turismo. Sócio de uma das empresas beneficiadas pelos contratos com irregularidades apontadas pela CGU, a MGP Brasil, o servidor Luciano Paixão da Costa deixou o cargo tão logo o relatório chegou ao conhecimento do ex-ministro Luiz Barreto. Mais de nove meses depois, o ministro Pedro Novais teve sua posição ameaçada quando o secretário executivo da pasta, Frederico da Silva Costa, foi preso durante a Operação Voucher da Polícia Federal. Conquistou uma sobrevida por contar com apoio dentro de seu partido, o PMDB; e de padrinhos como o vice-presidente da República, Michel Temer, e o líder da legenda na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). Mas só foi cair mesmo quando a imprensa divulgou que a mulher dele, Maria Helena de Melo, mantivera irregularmente um funcionário da Câmara como seu motorista particular.

Outro caso notório é o do ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento. Indícios do esquema de cobrança de propina supostamente instalado por seu partido, o PR, dentro da pasta, já eram conhecidos da CGU, que investigava a possível ocorrência de superfaturamento em obras da BR-116, no Rio Grande do Sul; da BR-260, em Santa Catarina; e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, tocada pela estatal Valec — citada no centro do escândalo que derrubou Nascimento. Três meses depois da queda do ministro, a CGU divulgou relatório detalhando as irregularidades nos contratos dessas obras. “Um relatório desse leva muito mais tempo que isso para ser concluído. Já estávamos acompanhando a movimentação no Ministério dos Transportes havia muito tempo”, diz Spinelli.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Manual de sobrevivência de um ministro

Com base na experiência do dominó de titulares da Esplanada derrubados por denúncias, o Correio publica cartilha para mostrar o que fizeram os governistas que conseguiram superar os tremores políticos na gestão de Dilma Rousseff

Josie Jeronimo

Seis ministros caíram e um agoniza na UTI política do Palácio do Planalto, tentando ganhar sobrevida pelo menos até a reforma nas pastas, marcada para fevereiro de 2012. De junho pra cá, a praga que atinge a Esplanada dos Ministérios revela que parte do primeiro escalão da presidente Dilma Rousseff morreu vítima de um conjunto de sintomas que se repete escândalo após escândalo.

Os que conseguem sobreviver à crise adotam a fórmula "bom senso e separação entre público e privado" para evitar encrencas. O estado das artes da longevidade ministerial não é um mistério. Os ministros que continuarão na foto oficial do próximo ano são aqueles que perguntarão quem é o dono do avião antes de pegar caronas em jatinhos, acompanharão o destino do dinheiro que sai dos cofres públicos e não usarão recursos humanos e materiais das pastas que comandam para resolver problemas domésticos.

O manual de sobrevivência dos ministros também mostra que separar a vida partidária da ministerial contribui para a tranquilidade da gestão, assim como a temperança, remédio milagroso contra o suicídio verborrágico. Todos os itens de segurança foram esquecidos pelos ministros afastados.

Tudo começou na Casa Civil. Antonio Palocci não conseguiu explicar como aumentou em 20 vezes seu patrimônio, graças ao sucesso de sua empresa de consultoria, e abriu a porteira da reforma ministerial antes da hora. Menos de um mês depois da queda de Palocci, foi a vez de Alfredo Nascimento ser acusado de transformar o Ministério dos Transportes em uma sucursal da tesouraria do Partido da República. Denúncias de obras superfaturadas, farra dos aditivos e o sucesso empresarial do filho na área de infraestrutura derrubaram o ministro.

Jatinho

Na Defesa, foi a verborragia que custou o cargo de Nelson Jobim. O ex-ministro declarou voto no adversário de Dilma nas eleições de 2010 e colocou em dúvida a envergadura política da ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. O mau agouro de agosto que atingiu Jobim também pegou o ex-titular da Agricultura Wagner Rossi. As denúncias contra a pasta começaram na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e chegaram ao ministro quando o Correio revelou que Rossi utilizava o jatinho de empresa beneficiada por políticas do ministério para viagens pessoais.

Em seguida, foi a vez de Pedro Novais, que já chegou com aviso-prévio assinado à pasta de Turismo depois de ser pego usando verba indenizatória da Câmara para pagar despesas em motel. Novais aguentou operação da Polícia Federal, que prendeu até mesmo seu número dois em investigação de desvio de recursos em convênios, mas sucumbiu ao flagrante fotográfico que mostrou motorista contratado com dinheiro público prestando serviços domésticos a sua mulher.

De ONGs e ongueiros foi vítima o ex-ministro do Esporte Orlando Silva. Um ex-policial militar e presidente de entidade que tem convênios com a pasta acusou Orlando de receber propina na garagem do ministério. Loteamento político da pasta e problemas com ONGs no Programa Segundo Tempo também contaram para o afastamento do ministro.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

A enorme paciência de Dilma com Lupi

Isolado por aliados, ministro do PDT deve ser mantido pelo Planalto até fevereiro, mas mesmo governistas admitem que imunidade não resistiria a uma nova denúncia

Paulo de Tarso Lyra

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, conseguiu sobreviver, a duras penas, a mais uma semana de tiroteio. Depois de fotos e um vídeo mostrarem que ele voara em uma aeronave King Air ao lado do empresário Adair Meira, presidente da Fundação Pró-Cerrado, até mesmo o partido de Lupi, o PDT, jogou a toalha e admitiu que o melhor seria procurar outro nome para o ministério. Dilma, no entanto, subverteu as expectativas, chamou Lupi para uma nova conversa no Palácio do Planalto, e decidiu dar-lhe uma nova chance. Como confidenciou ao Correio um interlocutor da presidente, Dilma está "com uma paciência enorme com o ministro, embora ele não esteja imune a uma nova denúncia".

A novela Lupi repete, até o momento, o roteiro de outros ministros que acabaram sendo exonerados. Surge uma denúncia, o ministro exonera pessoas próximas, promete empenho nas investigações, é chamado pela presidente e dá as primeiras explicações. O bombardeio prossegue até que se torne insuportável. "Todo mundo sabe o fim dessa novela", lembrou um assessor palaciano.

A presidente, no entanto, tenta surpreender os analistas e manter Lupi na pasta até a reforma ministerial prevista para o início do ano que vem. Ela não quer ceder às pressões de parte do PDT, que se mobiliza para indicar um novo nome. Além disso, segundo pessoas próximas da presidente, o receio de Dilma é ceder mais uma vez e ficar refém da rotina de denúncias contra integrantes do primeiro escalão. "No dia em que Lupi for demitido, os mesmos jornais que estamparem a notícia vão trazer novas denúncias contra um outro ministro. E tudo vai começar novamente", ressaltou um aliado de Dilma.

A boa vontade de Dilma com Lupi não significa uma relação política anterior. Apesar de a presidente ter começado sua carreira política no PDT, eles não eram próximos nos tempos em que dividiam a mesma legenda. Dilma militava no Rio Grande do Sul e foi secretária dos governos de Alceu Collares (PDT) e de Olívio Dutra (PT). Lupi foi tesoureiro do partido e vice-presidente da legenda. Com atuação mais concentrada no Rio de Janeiro, só aparecia nos Pampas acompanhado do presidente pedetista Leonel Brizola.

Neopetista

Quando o PDT rompeu com o governo Olívio, Dilma recusou-se a deixar o posto no governo e teve de pedir desfiliação do partido. Ela foi muito criticada pela direção nacional do PDT e acabou, pela sua lealdade ao então governador gaúcho, filiando-se ao PT. A divisão seguiu em 2002, quando Dilma apoiou Lula e o PDT coligou-se com Ciro Gomes.

Quando Brizola morreu, em junho de 2004, Lupi assumiu a direção partidária e conseguiu unificar os diretórios gaúcho e fluminense, que viviam às turras por ciúmes mútuos do fundador da legenda. Em 2006, Dilma e Lupi começaram a se aproximar um pouco, quando o então presidente do PDT convenceu o partido a, no segundo turno, apoiar Lula contra o tucano Geraldo Alckmin, apesar dos protestos de Paulo Pereira da Silva.

Dessa vez, foi Lupi quem teve a lealdade premiada. Lula o escolheu para ser ministro do Trabalho. Em 2010, o PDT manteve o passo ao lado dos petistas e se estabeleceu como primeira legenda a anunciar apoio à candidatura de Dilma Rousseff a presidente. "Lupi costurou esse apoio antes mesmo de o PT confirmar que estaria com ela", lembra o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS), um dos cotados para a pasta em 2012.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Crescimento de Eduardo Campos incomoda PT

Petistas temem que governador, do PSB, se fortaleça a ponto de se tornar uma opção viável para a Presidência

Gerson Camarotti

BRASÍLIA. Aliado histórico do PT, o PSB se prepara para deixar de ser um apêndice do maior partido do país ao final do atual ciclo petista no comando do Brasil, em 2018. A cúpula petista está extremamente incomodada com os sinais de força política e da movimentação precoce do governador Eduardo Campos (PE), 46 anos, presidente do PSB. O comando do PT reconhece que Campos pode crescer e se tornar adversário do projeto político petista não só em 2018, mas até antes disso.

As articulações de Campos começam a ser vistas com desconfiança por dirigentes petistas, como o ex-chefe da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu, que tem feito alertas internos sobre o crescimento do PSB e as pretensões de Campos.

A preocupação ganhou força nos últimos dias com a declaração do ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE), que considera natural um futuro rompimento entre PSB e PT. Apesar da desconfiança petista, Campos tem recebido nos bastidores estímulo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para se transformar em alternativa no futuro. Isso na lógica lulista de que é melhor criar alternativas dentro da própria base governista que possam defender o seu legado.

- O PSB vai apoiar o governo Dilma. Mas, para as eleições de 2018, todas as possibilidades estão na mesa. O que interessa para o PT é o projeto de 2014. Há uma tensão nessa relação. Mas não é uma tensão que seja capaz de levar para um afastamento neste momento - reconheceu o líder do PT, deputado Paulo Teixeira (SP).

Segundo os socialistas, Campos trabalha com o esgotamento do PT nos próximos anos, mas com a manutenção da forte influência do lulismo. A estratégia do PSB é consolidar o governador pernambucano como opção ao PT. O reconhecimento é que, em 2014, as chances de Campos seriam remotas, e uma candidatura presidencial só aconteceria com a desistência da presidente Dilma Rousseff ou de Lula.

Nas palavras de um interlocutor do governador pernambucano, para 2018, Campos quer estar pronto para ser uma opção competitiva.

FONTE: O GLOBO

'Todos podem crescer', afirma líder do PSB

Campos se alia com adversários do PT e ganha força política

Gerson Camarotti

BRASÍLIA. O plano do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, é ganhar visibilidade e acumular forças para enfrentar concorrentes do PT e do PSDB. A eleição de sua mãe, a ex-deputada Ana Arraes (PSB-PE), para vaga de ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) faz parte dessa estratégia, embora seja considerada agressiva em determinados meios políticos.

- O PT sempre foi majoritário na base aliada. Mas não há eternidade na política. Isso só acontece nas ditaduras. O PT precisa ter espírito democrático para entender que todos podem crescer. E, se o PSB tiver um projeto próprio no futuro, o PT tem que avaliar que é melhor que o governo fique nas mãos de aliados que nas de adversários - diz o líder do PSB no Senado, Antonio Carlos Valadares (SE).

É isso que incomoda o PT, pois, no cenário atual, apesar do desejo de continuar no comando do país, a legenda não tem nomes para suceder à presidente Dilma Rousseff, depois de uma eventual reeleição em 2014.

Nos bastidores, Campos tem dito que o PSB é aliado fiel do governo petista nas horas boas e nas de dificuldade, como em votações impopulares no Congresso ou durante o escândalo do mensalão. Mas sempre frisa que não é uma relação de subserviência, como deseja o PT.

Boas relações com Aécio, Kassab e Sérgio Guerra

Campos tem enfatizado o crescimento do PSB e sua estratégia para fortalecer a legenda em 2012, com meta de eleger entre dez e 12 prefeitos de capitais, o que assusta o PT. Em outra ação ousada, Campos tem feito parceria com adversários históricos do PT.

A aliança estratégica com o PSD do prefeito Gilberto Kassab chamou atenção do PT. Em São Paulo, o PSB já faz parte do governo do tucano Geraldo Alckmin. Em Minas Gerais, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), está perto de restabelecer aliança com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), causando forte atrito com o PT local.

Em outros estados, também cresce a parceria entre tucanos e socialistas. Alianças entre os dois partidos estão consolidadas em Paraná, Alagoas e Paraíba para a sucessão municipal. O governador Beto Richa (PSDB-PR) anunciou apoio à reeleição do prefeito de Curitiba, Luciano Ducci (PSB).

Na eleição de 2010, o incômodo do PT com as boas relações do PSB com o PSDB foi tal que forçou Ciro Gomes a se afastar do seu padrinho, o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) nas eleições estaduais. Em Recife, Campos tem se reaproximado de um antigo aliado: o deputado Sérgio Guerra, presidente do PSDB. Também em Recife, o PSB ameaça lançar a candidatura do ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional). O presidente do PT, Rui Falcão, já citou o risco de quebra de aliança em Recife e Fortaleza.

FONTE: O GLOBO

Marisa Monte - Para ver as meninas (Paulinho da Viola)

A moral do dinheiro:: Merval Pereira

Em tempos de "indignados" acampados em praças ao redor do planeta, cuja mais perfeita tradução é o "Ocupem Wall Street", que de Nova York se espalhou por diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo, nada mais atual do que a exposição "Dinheiro e Beleza. Banqueiros, Botticelli e a fogueira das vaidades", em exibição até 22 de janeiro no belíssimo Palazzo Strozzi, um dos mais finos exemplos da arquitetura da Renascença, no centro de Florença, na Itália.

Um dos aspectos abordados na exposição é a usura, que desde a Antiquidade até hoje separa a economia da moralidade, no centro dos debates dos "indignados" atuais, que consideram que o capitalismo precisa de regulamentações e amarras contra a especulação financeira.

Os curadores da exposição, Ludovica Sebregondi e Tim Parks, têm visões distintas a partir de suas origens: ela é uma historiadora com formação católica, ele um jornalista protestante. Seus textos, nos quais me baseei para escrever esta coluna, orientam toda a exposição. A partir da criação do florin de ouro, em 1252, que se transformou na principal medida de valor em toda Europa, trazendo para Florença grande prestígio e provando-se importante trunfo para os comerciantes e banqueiros da cidade, a exibição percorre dois séculos e meio "da mais resplandecente época da história de Florença", que experimentou nesse período rápido desenvolvimento econômico.

A atividade de emprestar dinheiro era das poucas permitidas aos judeus - a outra era a medicina -, e sempre foi vista de maneira negativa.

Nessa tensão, "doações para a salvação da alma" tornaram-se comuns, dirigidas à caridade ou às artes. A Igreja tinha preocupação de proteger pessoas em dificuldades financeiras, e os franciscanos, a partir de 1462, ajudaram a estabelecer instituições que impediam a usura.

O famoso óleo de Marinus van Reymerswaele, de 1540, "Os usurários", do Museu Stibbert de Florença, faz parte da exposição.

As imagens de usurários queimando no fogo do inferno perturbavam tanto emprestadores quanto tomadores de empréstimos.

A "carta de troca" surgiu para permitir que fosse dado um empréstimo em troca de pagamento de juros sem que parecesse usura. Por mais de 200 anos ela permitiu a banqueiros lucrarem sem se sentirem usurários. Funcionava assim: se alguém queria trocar florins por libras inglesas, por exemplo, os florins eram dados em Florença e as libras recebidas em Londres.

A viagem para Londres demorava 90 dias, e nesse período, a taxa de troca se alterava, produzindo lucro. Muitas vezes nem era preciso viajar.

Outro quadro de Marinus van Reymerswaele, "O cambista e sua mulher", de 1540, do Museu Nacional de Bargello, em Florença, também está na exposição, e já mostra uma mudança na percepção.

O cambista já não é uma figura grotesca como no quadro "Os usurários". A "carta de troca" tornou-se o principal instrumento de crédito e financiava o comércio internacional. Os banqueiros passaram a atuar também como comerciantes.

Segundo a curadora Ludovica Sebregondi, a tensão entre a exigência da Igreja de sobriedade e o amor pelo luxo produziu obras de artes sublimes nos séculos XIV e XV.

O estabelecimento de uma moeda como medida de valor de todas as coisas, ao mesmo tempo em que permitiu comparações entre, por exemplo, um barril de vinho e uma prece por um ser amado doente, trouxe uma sensação de desconforto, especialmente porque na época as diferenças sociais eram tidas como expressões da vontade divina.

Eram frequentes as queixas no século XIV de que um camponês podia usar seu dinheiro para mudar-se para um local melhor ou até mesmo "abrir as portas do paraíso".

O livre uso do dinheiro ameaçava ao mesmo tempo o status quo e a metafísica cristã, ironiza Tim Parks, outro dos curadores da mostra.

Um exemplo dessa tensão é o quadro de Botticelli "Madona e a criança", pintado para ajudar as preces de um cliente privado, coisa que só os muito ricos podiam pagar. A Madona, embora tenha dado à luz em uma manjedoura, está ricamente vestida.

A partir do século XIII, com a disseminação do comércio e das demandas de consumo, os símbolos de riqueza foram se multiplicando, e aumentando também aqueles que tinham condições de exibir sua riqueza, criando uma tensão com os ensinamentos da Igreja que definiam as classes sociais como desejos divinos.

Foi então baixada uma legislação que pretendia limitar a exibição da riqueza não apenas em roupas e ornamentos, mas também em festas, banquetes, batismos e funerais.

O século XIV trouxe duas novidades: cavaleiros, doutores, médicos, juízes e suas mulheres tinham permissão de ostentar suas riquezas, e tornou-se aceitável que se burlasse a lei desde que se pagasse uma multa, o que ajudava a encher os cofres públicos.

A crise da sociedade Florentina no final do século está ligada à disputa entre os Medici e o frade Girolano Savonarola. A luta entre Lorenzo e o frade de Ferrara marca o final do século XV.

Uma das peças mais bonitas da exposição é "Cristo crucificado", uma têmpera em molde pintado dos dois lados por Botticelli, de 1496, que tem tudo a ver com a pregação de Savonarola. Em 1497 e 1498 ele organizou duas fogueiras de coisas "vãs, lascivas e desonestas" na Piazza della Signoria em Florença. A polêmica que contribuiu para a sua derrocada e execução.

Para a Igreja na época, o usurário peca porque vende o intervalo de tempo entre o momento em que empresta o dinheiro e o recebe de volta, com lucro. Ele, portanto, negocia o tempo, que pertence a Deus. Mas havia exceções: Tomás de Aquino estabeleceu as condições para que contratos legítimos pudessem cobrar juros, e Bernardino de Siena fez a distinção entre um usurário e um banqueiro, cujo negócio permitia a circulação da riqueza, ainda hoje base do sistema financeiro.

Condenada pela Igreja, que proibia a reprodução do dinheiro sem a produção ou transformação de bens, a usura provoca a pergunta no ar até hoje: onde acaba a compensação justa e começa o lucro que destrói vidas?

FONTE: O GLOBO

Tira, põe, deixa ficar:: Dora Kramer

O processo de tomada de decisão da presidente Dilma Rousseff é de difícil compreensão, mas exibe uma característica visível a olho nu: não é, recorrendo a Fernando Pessoa, um poema em linha reta.

Desde as primeiras decisões bem no início do governo até suas atitudes nessa obra inacabada de escândalos em série na Esplanada dos Ministérios, Dilma se notabiliza pelo vaivém.

Com a mesma assertividade com que sinaliza numa direção, em seguida segue no rumo oposto.

Numa versão otimista, isso revela personalidade maleável, embora não seja esse traço de seu perfil o que seus próprios auxiliares ressaltam quando relatam episódios da mais absoluta intransigência no trato cotidiano.

Os fatos mostram uma realidade diferente, alvo de críticas por parte de aliados: pressionada, Dilma avança ou recua nem sempre tomando a resolução que seria a mais adequada, mas sim aquela que as circunstâncias a obrigam a tomar.

Ocorreu quando da votação do Código Florestal na Câmara, obrigando a liderança do governo a desfazer um acordo na última hora em plenário.

Aconteceu no caso da prorrogação do prazo para pagamento de emendas parlamentares de 2009: primeiro anunciou de maneira peremptória que não prorrogaria, mas dois dias depois foi obrigada a mandar dizer o contrário ante a reação negativa dos partidos aliados.

Em maio, foi a vez da lei de acesso à informação. Dilma declarou-se contra o sigilo eterno, mudou de opinião - tendo como porta-voz a ministra Ideli Salvatti - para agradar aos senadores Fernando Collor e José Sarney, mas, diante da posição favorável à liberação dos militares e do Itamaraty, voltou a defender o texto que, afinal, sancionou na sexta-feira pondo fim ao sigilo eterno.

Depois disso, tomaram conta da cena as idas e as vindas nos casos dos ministros envolvidos em escândalos. A todos eles emprestou apoio num primeiro momento para terminar por demiti-los pelas mesmas razões que os levaram à berlinda, alongando o tempo de desgaste.

Seria Dilma uma pessoa indecisa? Não parece. O problema talvez esteja na ausência de um "entorno" experiente, na falta de um conselheiro como Lula teve em Márcio Thomaz Bastos e no temor que impõe à equipe, que, intimidada, prefere deixar a presidente errar sozinha a correr o risco da humilhação.

Apesar dos pesares. Marta Suplicy é antipática? Sabe ser. Arrogante? Como ninguém. Inadequada com as palavras? Às raias da inconveniência.

Diga-se o que for, goste-se dela ou não, uma coisa é certa: a senadora é das raras pessoas no PT que não segue a cartilha do Amém. Tem tutano.

Mas escorrega onde outros colegas de vários partidos também tropeçam: ao sobrevalorizar o cargo executivo em detrimento do mandato parlamentar.

Marta enfrentou uma eleição difícil, quase perde para um adversário de coalizão de nível (político) sofrível, e poderia muito bem dar-se por orgulhosa de ter sido escolhida para representar São Paulo no Senado.

Sem precisar entrar em atrito inútil no partido ou diminuir-se por nomeação em ministério.

Bipartidarismo. Em longa entrevista - que ainda merece novos comentários - à repórter Raquel Ulhôa, do jornal Valor Econômico, Ciro Gomes afirmou ter ouvido de Lula a ideia de formar um só partido açambarcando as legendas hoje sob área de influência do PT: "A intenção é aniquilar essas frações", disse.

Testemunhas de que Ciro não exagera são diversos jornalistas que no início do primeiro mandato tiveram dois encontros com o então presidente em que ele disse o mesmo.

Defendeu a volta do bipartidarismo durante café da manhã no Palácio do Planalto e reafirmou simpatia à tese em jantar meses depois. Lula nunca mais voltou a falar do assunto em público, o que não significa que tenha abandonado a ideia.

O papel lateral que os partidos da base tiveram nos dois governos de Lula e continuam tendo com Dilma, sem participação efetiva no núcleo de poder, indica apreço ao projeto.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO