segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PSB é sigla que mais sobrevive no poder

Das 310 cidades onde o partido venceu em 2008, continuará na administração em 56%

Amanda Rossi, Daniel Bramatti

O PSB é o partido que mais sobreviveu no poder entre as duas últimas eleições municipais. Das 310 cidades onde venceu em 2008, a sigla continuará no comando de 126 delas e apoiará o prefeito eleito em outras 48 a partir de 2013. O partido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, vai se manter no poder ou estará aliado a ele em 56% das cidades que governa hoje.

No Brasil, apenas 30% das cidades continuarão sob o comando do mesmo partido eleito em 2008. Em outras 16%, o partido atualmente no poder estará na base de apoio do futuro prefeito. Ou seja, na maioria absoluta dos municípios (54%), as eleições de 2012 foram marcadas pela mudança - os vitoriosos foram candidatos sem vínculo com os eleitos há quatro anos.

Segundo maior sobrevivente, o PT manteve 39% das prefeituras conquistadas em 2008 e integrou coligações dos prefeitos eleitos por outras legendas em mais 10%.

A estratégia de sobrevivência do PSB lhe garantiu também o maior crescimento nas eleições de 2012. O partido é o que mais aumentou em número de prefeitos e dobrou seu eleitorado a governar.

No balanço de municípios perdidos e conquistados, o PSB tem saldo positivo. Perdeu o comando municipal em 136 e venceu em 315 cidades novas - nessas, tirou do poder prefeitos principalmente do PMDB e do PSDB. Metade das novas prefeituras está no Nordeste. Já era assim em 2008.

No Sudeste e no Sul, o PSB conseguiu se expandir graças sobretudo a alianças com candidatos de outras siglas. Foram 700 coligações vitoriosas em cidades onde não ocupava a prefeitura e onde pode, em tese, pleitear espaço na administração municipal.

São os casos das duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Em ambas, o PSB participou das coligações vencedoras, de Fernando Haddad (PT) e de Eduardo Paes (PMDB).

PMDB e PSDB perderam espaço no comando das prefeituras que já governam, mas conseguiram se manter próximos do poder via coligações. Eles seguraram a cadeira de prefeito em um terço dos municípios que governam e estão na base de apoio do prefeito eleito em pouco menos de 15% das demais cidades.

O DEM não sumiu do mapa graças às alianças com outras siglas. Com a maior queda em número de prefeitos eleitos, o partido só continuará comandando uma de cada cinco cidades onde venceu em 2008, mas se colocou ao lado de aliados vencedores em outras 22%. Mesmo assim, o saldo é negativo. O DEM perdeu o controle de quase 400 cidades, e vai ser coadjuvante em metade disso.

Considerando todas as cidades, não somente aquelas onde foi eleito em 2008, o DEM está presente em 1906 coligações vencedoras nas eleições 2012. Dessas, encabeça apenas 15% e será coadjuvante nas 85% restantes.

Partidos não chegam ao terceiro mandato em 90% dos municípios

Fragmentação partidária e desgaste administrativo colaboram para alta taxa de rotatividade de legendas nas prefeituras

Em Jundiaí, a cerca de 60 quilômetros da capital paulista, o PSDB ganhou todas as eleições municipais entre 1992 e 2008. Foram 20 anos de continuidade administrativa, até Pedro Bigardi (PC do B) quebrar a hegemonia tucana na cidade. Em Concórdia, no oeste catarinense, o PT venceu em 2000, 2004, 2008 e 2012, e caminha para 16 anos seguidos de controle da prefeitura.

Os dois casos são exceção no País. A regra é a alternância de partidos no poder local. De 2008 para 2012, em apenas 30% das cidades do País a mesma legenda foi a vitoriosa nas eleições municipais. Levando-se em conta as últimas três eleições, desde 2004, o índice de continuidade é de apenas 10%.

Uma das razões da alta rotatividade é a fragmentação do quadro partidário. Com quase três dezenas de siglas disputando o poder, as chances de controle hegemônico se reduzem.

Prefeitos também costumam dedicar mais energia à sua própria campanha de reeleição que a de correligionários. E há o fator desgaste, que abre espaço para que as oposições lancem mão do discurso da necessidade de renovação.

Ruptura. Em Porto Alegre, o PT venceu quatro eleições consecutivas a partir de 1988 e chegou a ser considerado imbatível. Mas, em 2002, o então prefeito Tarso Genro renunciou ao cargo para disputar o governo estadual e abriu a janela de oportunidade que a oposição esperava havia mais de uma década. Em 2004, José Fogaça, então no PPS, venceu no segundo turno com o apoio de todas as forças antipetistas da cidade.

Desde então, o partido tenta se recuperar, sem sucesso. Em 2012, o PT teve seu pior desempenho na capital gaúcha nos últimos 24 anos: menos de 10% dos votos válidos.

Outra ruptura aconteceu neste ano, em Campo Grande (MS), onde o candidato do PP, Alcides Bernal, pôs um fim à hegemonia do PMDB, que governou a cidade em uma sequência de cinco mandatos. Em São José dos Campos (SP), foi o PT quem desalojou o PSDB após 16 anos de continuidade administrativa, com a vitória de Carlinhos Almeida ainda no primeiro turno.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Em ato, grupo acusa presidente da CBF de ter delatado Herzog

Escracho. Manifestantes protestam na Avenida Paulista

Tatiana Farah

SÃO PAULO - O Levante Popular da Juventude realizou ontem, com movimentos sociais de esquerda, um escracho público diante do apartamento do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marín. Um grupo de cerca de 120 pessoas atravessou a Avenida Paulista, região central da capital paulista, entoando palavras de ordem até o condomínio de luxo do dirigente, na Zona Sul. Marín foi acusado pelos manifestantes de ser delator do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, assassinado em 1975 pela ditadura militar. Marín era, na época, deputado estadual pela Arena, que apoiava o regime.

Segundo os manifestantes, ele teria denunciado ao Comando de Caça aos Comunistas o trabalho crítico de Herzog à frente da TV Cultura. O dirigente também foi lembrado como vice-governador biônico de Paulo Maluf, a quem substituiu entre 1982 e 1983. Na ocasião, ele teria subido à tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo para defender a atuação do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops.

- Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é? Dedo-duro! - cantaram os manifestantes, que pediram que o dirigente os recebesse; segundo os seguranças do condomínio, Marín estava viajando.

- Marín, aguarde essa juventude nos sorteios da Copa, nos estádios. O dedo de Herzog estará apontado para você - discursou Aton Fon Filho, do Comitê Paulista Memória, Verdade e Justiça.

Fonte: O Globo

Menos mal - Rubens Ricupero

O balanço de 2012 mostra que o ano se destacou mais pelo mal evitado que pelo bem que se conseguiu fazer

O balanço de 2012 mostra que o ano se destaca mais pelo mal que se evitou do que pelo bem que se conseguiu fazer. É o que se vê nos três cenários decisivos do mundo: as eleições americanas, a crise europeia e a transição chinesa. Em todos eles há razões para satisfação relativa, melhor, porém, que as alternativas possíveis.

Uma vitória de Mitt Romney nos EUA ameaçaria agravar vários problemas explosivos. Representaria sério retrocesso histórico na questão do seguro de saúde e acentuaria a crescente desigualdade social da sociedade americana, polarizando ainda mais a vida política.

Abriria fase de turbulência de quatro ou cinco meses até a posse e atuação efetiva do novo governo, no momento em que a última coisa de que a economia mundial precisa é mais incerteza. Traria de volta à política externa alguns dos mais perigosos diplomatas da era Bush, aumentando o risco do desastre de um ataque ao Irã.

Na Europa, comparando este novembro com o do ano passado, quando o primeiro-ministro grego decidiu convocar o frustrado plebiscito sobre o ajuste, passaram-se 12 meses sem que se materializasse o anunciado colapso da Grécia ou a sua saída do euro.

A Itália e a Espanha lograram escapar do sufoco mais agudo e estão financiando a dívida a juros razoáveis. O anúncio do Banco Central Europeu, em outubro, de que bancará a compra da dívida dos países em aperto ajudou a normalizar os mercados. Com avanços e recuos, aos poucos toma forma a união bancária, que afastará ainda mais o perigo de um impasse financeiro.

Na China, a evolução para crescimento menos dependente do investimento e das exportações vem se configurando de modo controlado, e a economia evitou um pouso turbulento, estabilizando-se em torno de expansão entre 7% e 8 %. A transição de liderança se completa nestes dias sob bons auspícios; o discurso de Hu Jintao alertando que, se não for eliminada, a corrupção destruirá o domínio do partido serve para muitos outros, inclusive para o partido no poder no Brasil.

Na maioria das outras áreas, o juízo é semelhante. A substituição de Berlusconi por Monti foi melhor para a Itália e a de Sarkozy por Hollande, para a França; em ambos os casos, o mundo também ganhou. A Primavera Árabe não incendiou o Oriente Médio; gradualmente, com as dificuldades naturais, governos eleitos vão emergindo no Egito, na Tunísia, na Líbia. Não houve invasão ocidental da Síria ou do Irã.

É muito pouco? De fato, é. Os EUA não voltaram ao nível de produção e emprego de antes da crise nem promoveram a reforma profunda da financeirização da economia. A Europa não completou a unificação das políticas fiscais nem afastou de vez o risco do euro. A China está longe de progressos em democracia e direitos humanos correspondentes ao seu avanço econômico.

São desafios estruturais e penosos; demandam nível de consenso que as crises não produziram e talvez não produzam. Mas ter sabido evitar os desastres anunciados não é desprezível. Prova, ao menos, que aprendemos algo com a história e que a razão ainda é a melhor garantia contra a repetição dos erros.

Fonte: Folha de S. Paulo

Paulinho da viola - Timoneiro

A palavra mágica – Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra
.

domingo, 11 de novembro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Sérgio Cabral: choro

“O projeto de lei em si gera um colapso nas finanças do estado. É absolutamente inviável. O estado fecha as portas, não faz Olimpíadas, não faz Copa do Mundo, não paga a servidor público, aposentado, pensionista.”

Sérgio Cabral, governador. Sobre o projeto aprovado  que muda  as regras de distribuição dos royalties do  petróleo. 

Manchetes dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Congresso modifica 6 códigos de leis
Voto foi mais livre em favelas com UPP
SP registra mais homicídios que Rio
Desafio de Obama é manter legado
Novos prefeitos pagarão a conta
Usinas brigam na Amazônia
Condenação impede Valério de ser protegido

FOLHA DE S. PAULO
Preço leva passageiro a trocar avião por ônibus
Transição na China agrava censura e tira Google do ar
Banqueiro fazia equipe vender fundo de alto risco a clientes

O ESTADO DE S. PAULO
ONG ligada ao PC do B desviou recursos, revela empresário
Oposição quer resgatar discurso da privatização
Empresas no país perderam R$ 61 bi após intervenções
Contra inflação, é melhor cortar gasto, diz Arida
Região Nordeste vive a pior estiagem em 50 anos

CORREIO BRAZILIENSE
As domésticas que a abolição esqueceu
STF condena, mas Câmara nem pensa em cassar

ESTADO DE MINAS
Ninguém se entende nos planos de saúde
Espera por uma consulta pelo SUS dura quase um ano
Restauração ? Quem sabe no ano que vem...

ZERO HORA (RS)
Morte de PM custa R$600
Escrever à mão, um hábito em declínio

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
O "nó" dos hospitais universitários

O que pensa a mídia - Editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Programa de proteção a testemunhas não serve para Valério

Condenando a mais de 40 anos de prisão, operador do mensalão não se enquadra no perfil

Jailton de Carvalho


BRASÍLIA - O Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas, vinculado à Secretaria Nacional de Direitos Humanos, está de portas fechadas para Marcos Valério, mesmo que ele decida colaborar com investigações de casos conexos ao processo do mensalão. Dirigentes do programa informam que a lei 9.807 impede a entrada de pessoas condenadas no sistema de proteção.

Valério já foi condenado a 40 anos e seis meses de prisão no julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF). Nas últimas semanas, surgiram rumores de que ele estaria disposto a colaborar mais com as investigações sobre ex-dirigentes do PT e até mesmo se submeter às regras do programa de proteção a testemunha.

O advogado Marcelo Leonardo nega que Valério tenha interesse no programa. Disse que o cliente não cogita essa possibilidade. Mas nada diz sobre a suposta iniciativa do cliente de fazer novas denúncias contra ex-dirigentes do PT e contra o ex-presidente Lula. A Secretaria de Direitos Humanos informou que casos de réus condenados, como de Valério, estão vedados pela lei 9.807, que originou o programa.

“Estão excluídos da proteção os indivíduos cuja personalidade ou conduta seja incompatível com as restrições de comportamento exigidas pelo programa, os condenados que estejam cumprindo pena e os indiciados ou acusados sob prisão cautelar em qualquer de suas modalidades. Tal exclusão não trará prejuízo a eventual prestação de medidas de preservação da integridade física desses indivíduos por parte dos órgãos de segurança pública”, diz um trecho do artigo 2º da lei. A entrada de Valério estaria, então, vedada porque ele já foi condenado no mensalão.

Para um ministro do STF, a inclusão de Valério poderia até ser discutida em relação a outros casos, não o do mensalão, em fase final de julgamento.

— Há outros processos em que ele pode vir a colaborar — disse o ministro.

PGR: não há motivos para proteção

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse não ver motivos para oferecer proteção especial a Valério. Ele não teria feito nenhuma revelação que tenha colocado sua vida em risco.

O advogado de Valério disse, porém, que a expectativa de seu cliente está relacionada à redução da pena pela colaboração que teria dado no início das investigações do mensalão, em 2005, e não no programa de proteção a testemunhas.

— São coisas diferentes: proteção a testemunhas e réu colaborador. Ele nunca cogitou disso (programa de proteção) — disse Marcelo Leonardo.

O programa de proteção a testemunhas às vezes parece atraente para testemunhas sob investigação, mas nem sempre os interessados se ajustam às normas do serviço. Alguns desistem antes de formalizar a entrada no programa. Um dos casos mais notórios de desistência é do caseiro Francenildo Santos Costa, que teve o sigilo bancário violado por ex-auxiliares do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Francenildo, após preencher uma ficha e fornecer cópias de documentos pessoais, mudou de ideia, ao ser informado sobre algumas normas, como não dar entrevistas ou aparecer em público. Naquele período, em 2006, o caseiro queria prestar depoimento contra Palocci na CPI dos Bingos e cancelou o ingresso no programa.

O ex-secretário de Assuntos Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa, delator do mensalão do DEM, também rejeitou o programa, porém, pelo alto valor das revelações que fez teve um tratamento diferenciado. Em 2009, Barbosa causou um terremoto político na capital federal com denúncias contra o então governador José Roberto Arruda e boa parte dos deputados da Câmara Legislativa. Arruda foi preso e perdeu o mandato. O ex-vice-governador Paulo Octávio também deixou o governo por conta das acusações.

As denúncias resultaram na perda do mandato de três deputados distritais. Interessado nas informações do ex-secretário, o Ministério Público Federal encontrou uma fórmula para mantê-lo em permanente colaboração e protegido da ira dos réus atingidos pelas investigações: Barbosa tem proteção policial e algumas restrições na vida social. Mas não precisou trocar de identidade ou mudar de cidade, caso de algumas testemunhas com elevado risco de morrer.

Fonte: O Globo

Garzón: erra quem aceita ‘doses de corrupção’ numa democracia

Ex-juiz espanhol defendeu possibilidade de réus condenados no mensalão recorrerem à OEA

Vinicius Sassine

BRASÍLIA - Todo comportamento de corrupção deve ser punido com contundência, ao mesmo tempo em que determinados mecanismos de transparência e limpeza nunca devem ser quebrados. É o que afirmou no sábado o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón sobre o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). As declarações foram dadas após o ex-magistrado ter participado da 15ª Conferência Internacional Anticorrupção, encerrada ontem em Brasília.

Baltasar Garzón é um jurista internacional famoso pelas investigações de casos de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro nacional e contra os direitos humanos. Ganhou projeção quando, em outubro de 1998, decretou a prisão do ex-ditador do Chile, Augusto Pinochet, em razão das mortes e tortura contra cidadãos espanhóis.

Garzón está impedido de exercer o cargo de juiz por decisão da Suprema Corte da Espanha, em razão de escutas supostamente ilegais numa investigação. Hoje, advoga em causas de direitos humanos e defende o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, refugiado na embaixada do Equador em Londres.

As condenações no julgamento do mensalão nortearam boa parte das discussões do painel que contou com a presença de Garzón. A conferência foi sobre o papel das pessoas no combate à corrupção.

— Não sou dos que dizem que certas doses de corrupção são necessárias para que a democracia funcione. Qualquer aproveitamento da coisa pública como uma espécie de patrimonialização deve ser combatido, e os feitos criminais devem ser analisados de forma contundente — disse o ex-juiz, após participar do painel, ao ser questionado sobre o julgamento do mensalão pelo STF. — Esse é um processo que está sub judice, e o mínimo que eu posso dizer é que, depois do julgamento, as decisões serão valoradas pelo povo, pela crítica, pelos meios de comunicação, ou seja, pelos instrumentos de uma democracia que servem como mecanismos de controle.

Garzón defendeu a possibilidade de os réus condenados no mensalão recorrerem contra as condenações na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA). Advogados dos réus manifestam essa intenção desde o início das primeiras decisões pelos ministros do STF. Alguns ministros, como o relator do processo, Joaquim Barbosa, criticam a iniciativa.

— A dupla instância, a possibilidade de que outro tribunal valore os feitos, é um direito do cidadão. Pode haver um erro de apreciação, uma configuração de má-fé, qualquer irregularidade (no julgamento do mensalão). Os membros da Corte Suprema são pessoas — afirmou o ex-juiz. Segundo Garzón, decisões na OEA são “vinculantes” e suplantariam as decisões do STF

O próprio jurista diz não descartar uma tentativa de reverter a decisão do tribunal da Espanha que decidiu por seu afastamento do exercício do cargo de juiz por 11 anos. Um recurso foi proposto na Corte Europeia de Direitos Humanos. Enquanto isso, Garzón atua na fundação internacional que leva seu nome e que defende os direitos humanos e a Justiça universal, com foco no combate ao crime organizado. Na Espanha, a entidade atua contra a xenofobia.

Um dos palestrantes ao lado de Garzón, o jornalista e escritor Misha Glenny afirmou que o julgamento representa um “divisor de águas” para o país:

— Se o Brasil conseguir institucionalizar esse tipo de investigação e condenação por corrupção, passará a gozar de vantagem política sobre a Índia, a China e a Rússia (os outros Brics).

Fonte: O Globo

Ministros veem demora para concluir julgamento do mensalão

Daniel Roncaglia

SÃO PAULO - Os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) demonstraram ontem pouco otimismo para o rápido término do julgamento do mensalão.

Eles afirmaram ainda que é certo que o caso não acabará de ser analisado na gestão do presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto, que se aposenta compulsoriamente na próxima semana.

Após a condenação de 25 réus, o Supremo só terminou de calcular até o momento a pena de três envolvidos do chamado núcleo publicitário.

"Sou um homem otimista por educação e por atividade. Mas creio que o veredicto final só virá em 2013", disse o ministro Marco Aurélio Mello.

Ele voltou a criticar o tempo levado para julgar o caso dizendo que o STF virou um "tribunal de processo único".

Para o ministro, a ação teria acabado se houvesse desmembramento, com o julgamento somente dos três réus com foro privilegiado.

Marco Aurélio disse que o relator do mensalão e futuro presidente da corte, Joaquim Barbosa, terá de coordenar o ritmo da ação sem jogar suas decisões "goela abaixo" dos colegas de plenário.

"Não estamos ali para o relator colocar a matéria e sermos vaquinhas de presépio para dizer amém", afirmou Marco Aurélio.

O ministro Gilmar Mendes disse que só por um "milagre" o caso será concluído na gestão Britto.

Ele ainda destacou o cuidado com que a ação está sendo julgada. "Tanto é que muitos já estão cansados, inclusive os telespectadores, de ouvir tanta repetição."

Para o ministro, o julgamento demonstra a necessidade de os juízes se reinventarem e usarem discursos menos longos. "Temos de mudar a forma de julgar e encontrar meios mais céleres de julgamento", afirmou.

O ministro Luiz Fux disse que já foi mais otimista para o fim rápido do caso. Segundo ele, haverá uma revisão das penas ao fim da dosimetria, o que pode significar mudança em punições estabelecidas. "Queremos fazer um pente-fino na decisão para não deixar que escape irregularidades."

Fonte: Folha de S. Paulo

'O Valério achava que nunca seria condenado'

Testemunha do mensalão diz que vive hoje no anonimato para 'não sofrer preconceito'

Bruno Lupion

Ex-secretária do operador do mensalão e uma das testemunhas-chave do escândalo, Fernanda Karina Somaggio não descarta que o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza "esteja blefando" ao ter prestado novo depoimento à Procuradoria-Geral da República e pedir benefícios que o livrem da prisão. "Ele sabe jogar", disse, em entrevista exclusiva ao Estado, sobre o ex-chefe. "Ele achava que nunca seria condenado, como era a praxe antigamente."

A ex-secretária de Valério prefere hoje ser chamada de Fernanda, e não de Karina, como ficou conhecida há sete anos. É assim que seus novos amigos a chamam. Os vizinhos sequer sabem que ela foi personagem de um dos maiores escândalos políticos do País, hoje em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Ela quer assim. Tanto que, em vez de encontrar a reportagem em casa - uma chácara na Grande São Paulo (ela não divulga a cidade) -, preferiu dar a entrevista na capital.

Fernanda era a portadora da agenda dos encontros de Valério com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o ex-secretário-geral do partido, Silvio Pereira. Foi testemunha ocular de malas de dinheiro e, em depoimento de mais de 12 horas na CPI dos Correios, trouxe a público detalhes do esquema de compra de apoio político no Congresso no início do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A notoriedade teve consequências. Após estampar capas de revistas, a carreira de secretária executiva naufragou, o pai foi assassinado em circunstâncias atípicas e o casamento acabou. Hoje, Fernanda vive com o novo marido e a filha de 16 anos e cuida de seus seis cavalos.

Ao relembrar o que viveu na SMPB, agência de Valério, a ex-secretária recorda que documentos foram destruídos, diz que os réus do núcleo operacional (ou publicitário) sabiam o que estavam fazendo e que nunca ouviu menção ao nome do ex-presidente, agora citado pelo empresário ao Ministério Público. "Eu não soube de nada com o nome do Lula."

A sra. foi uma das primeiras pessoas a denunciar o mensalão e seu depoimento ajudou a comprovar o esquema. Como avalia o julgamento?

Foi um passo para a democracia, para as pessoas começarem a ver que existe Justiça para todo mundo. Se a gente for analisar toda a história do Brasil, nunca tinha acontecido (de políticos importantes serem condenados). Pode não parecer, mas é o nosso dinheiro que vai fazer falta na outra ponta, que é a ponta de quem precisa de atendimento médico, de segurança. O Brasil ainda tem muito o que evoluir, mas já deu o primeiro passo. A cultura da corrupção, da compra de voto, do "pagou, eu alivio", tem que se extinguir.

Há quem critique um suposto excesso de rigor dos ministros. A sra. concorda?

Acho que os ministros estão certos, que eles estão lá para representar o que a população sente. Acho que toda a população gostaria desse rigor que está sendo imposto. Com todas as pessoas que eu converso, das quais muitas nem sabem quem eu sou, vejo que pensam a mesma coisa. Nós gostaríamos de uma Justiça rigorosa com todos. Na política, acho que já teve impacto nessa eleição, com a Lei da Ficha Limpa. Se não tivesse tido todo o episódio do mensalão, a população não teria pedido pela Ficha Limpa. Foi um passo.

O empresário Marcos Valério deu novo depoimento ao Ministério Público em que menciona o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel. A sra. acha que ele pode ter novas revelações a fazer?

Não sei de nenhum fato novo. Ele é articulador, conhece todos os meandros. Tanto que montou um esquema do tamanho que é. Ele sabe jogar. Talvez esteja blefando. Talvez não. Ele achava que nunca seria condenado, como era a praxe antigamente.

A sra. acha que ele já entregou tudo o que tinha?

Para chegar na pena de 40 anos, acho que a polícia já pegou muita coisa. Mas teve muito documento queimado, muito documento sumiu. Se existiam documentos que foram escondidos, eu não estava junto, eu não sei.


Marcos Valério pode ter provas para implicar Lula no mensalão?

Se existe prova, não conheço. Eu não soube de nada com o nome do Lula.

Alguma vez a sra. ouviu falar no nome de Celso Daniel quando trabalhava na SMPB?

Não, só o normal que tinha saído na imprensa. Por mim não passou nada nem sobre o Lula nem sobre o Celso Daniel. Nunca ninguém falou, nunca vi, nunca preenchi, nunca liguei para nada em relação aos dois nomes.

Como a sra. vê a gestão do PT no governo federal?

Eu já doei pro PT, eu era petista. Existem figuras dentro do PT que realmente são de tirar o chapéu, por exemplo a Dilma (Rousseff), mas existem outras pessoas, por exemplo o Delúbio, que não são. O PT fez muito pelo Brasil, mas os outros partidos também fizeram. Existem pessoas boas e ruins em todos os partidos. E existem pessoas que realmente dão a vida para trabalhar na política, porque querem ver um País melhor. Dentro do PT existem pessoas assim, e dentro do PSDB, do PMDB, do PV, vale para todos.

Os ex-sócios de Valério Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, o advogado Rogério Tolentino e a diretora Simone Vasconcelos tiveram suas penas definidas pelo Supremo Tribunal Federal. A sra. acha que são penas adequadas?

Segundo os ministros, sim. São eles que ponderam. Se você fez, você tem que pagar. Acho que os ministros do STF fizeram um excelente trabalho. Eles colocaram a população brasileira para pensar. Por mim, todos eles deveriam pagar da mesma maneira, porque sabiam o que estava acontecendo. Os três sócios sabiam de exatamente tudo, tirando a Simone, que era mandada.

Simone também deveria ser presa?

Ela tinha discernimento do que era certo e do que era errado. Ela não fez porque mandaram e (ela) tinha medo de perder o emprego. Ela fez porque sabia que estava fazendo aquilo, e o que ela estava fazendo era errado. Então ela tem que pagar pelo que ela fez.

Valério chegou a pedir para a sra. fazer algo ilícito? A sra. negou?

Sim, foi o motivo de eu ter saído de lá. Quando comecei a indagar sobre certas atitudes dentro da empresa, isso começou a irritar todo mundo, inclusive o Marcos Valério. Porque ele era sem educação, ele mandava e pronto. Quer fazer, faz, não quer, junte suas coisas e vai embora. Eu achei que a melhor coisa era a segunda opção.

Seu pai foi assassinado em Mococa (SP) durante o processo do mensalão e a polícia concluiu que o crime teria ocorrido durante uma tentativa de assalto. O que a sra. pensa a respeito?

A investigação é cheia de buracos. Para um fato que ocorreu numa cidade que, na época, não tinha tanta violência, deveria ter sido apurado de uma maneira mais profunda. Tanto que existe o fato de a polícia de São Paulo ter ido para Minas pegar os dois assassinos. E os criminosos chamaram pelo meu nome. Era para eu estar lá naquela hora, naquele dia, na casa do meu pai. E por causa do destino ele ligou pedindo para eu não ir.

Para a sra., então, não foi um crime comum?

Não, nunca foi. Apesar de todo o inquérito ter dito que sim. Mas nunca foi. Poderia ter sido alguma coisa não para chegar a assassinato, mas para intimidar mesmo. E o ônus pela morte do meu pai é meu.

Que impacto a denúncia do mensalão teve na sua vida?

Eu fiz porque achava que era o certo. Não levei nenhum tipo de vantagem, muito pelo contrário, só levei ônus. Acabou com a minha vida profissional, com a minha vida familiar e com a minha vida pessoal. O dinheiro que eu tinha usei para pagar advogado. Hoje, moro num lugar que ninguém sabe, as pessoas não sabem quem eu sou, as pessoas com quem eu convivo não me chamam de Karina. Isso foi o ônus do mensalão, viver no anonimato para não sofrer o preconceito das pessoas.

Qual preconceito?

De achar que eu queria tirar alguma vantagem. Teve todo o episódio da Playboy. Não existiu isso, de querer posar (nua). Nunca houve esse intuito. Mas caiu na mídia e já viu, um feijão vira uma árvore. Eu não ganhei dinheiro, eu me separei, o meu pai morreu e eu vivo no anonimato. O que eu tirei de vantagem nisso? Se eu faria de novo? Faria, tudo de novo, porque é o certo.

A sra. se sentiu vítima de machismo nesse episódio?

Não, nunca, eu sou mulher e acho que mulher é muito mais forte do que homem, por mais que queiram falar que não. O que acontece é que as pessoas, por ignorância, talvez não entendam esse fato, de que eu fiz porque achava que era o certo. Eu fui julgada. Hoje eu não julgo, aprendi a não julgar as pessoas, porque eu fui julgada.


Fonte: O Estado de S. Paulo

ONG ligada ao PC do B desviou recursos, revela empresário

Contratada por R$ 4,65 milhões para fornecer alimentos a iniciativas do Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, entre 2009 e 2010, a JJ Logística Empresarial Ltda. foi usada para desviar quase 90% desse valor, diz o dono da empresa, João Batista Vieira Machado. O empresário disse ao repórter Alfredo Junqueira que sua empresa fazia parte de esquema de fraudes que abasteceu políticos em Brasília, Santa Catarina e Rio. A empresa, segundo ele, foi subcontratada pelo Instituto Contato, dirigido por integrantes do PC do B de Santa Catarina e que manteve dois convênios com o ministério. Documentação, à qual o Estado teve acesso, mostra que a JJ Logística pagou contas de condomínio, faturas de lojas de material de construção e de tinta. O Ministério do Esporte vai apurar as denúncias

Empresário diz que ONG desviou 90% de contrato do Ministério do Esporte

Subcontratado por entidade ligada ao PC do B, João Batista Machado afirma que dinheiro que serviria para pagar alimentação de crianças Foi parar nas mãos de políticos

O dono de uma empresa subcontratada para fornecer alimentos a crianças atendidas por um programa de esportes do governo federal diz que cerca de 90% dos R$ 4,65 milhões que recebeu dos cofres públicos entre 2009 e 2010 foram desviados para políticos de Brasília, Santa Catarina e Rio.

"Era tudo roubo. Vi maços de dinheiro serem distribuídos", afirma o dono da JJ Logística Empresarial Ltda., João Batista Vieira Machado, em entrevista exclusiva ao Estado.

Machado diz que foi usado em um esquema montado para fraudar o Segundo Tempo, programa do Ministério do Esporte que atende crianças em atividades físicas em horário extraescolar.

A microempresa sediada no município de Tanguá, na região metropolitana do Rio, foi subcontratada pelo Instituto Contato, entidade sem fins lucrativos dirigida por integrantes do PC do B de Santa Catarina que mantinha dois convênios com o Ministério do Esporte. Machado tinha de fornecer lanches para as crianças.

O dono da JJ Logística, porém, afirmou ao Estado ter fornecido alimentos cujo valor atingiu apenas R$ 498 mil. Os outros R$ 4,15 milhões saídos dos cofres públicos federais que teriam de ser usados para o fornecimento de lanches para as crianças acabaram desviados "para fins políticos", segundo as palavras de Machado.

Irregularidades no Programa Segundo Tempo já custaram o cargo do então ministro do Esporte Orlando Silva, demitido pela presidente Dilma Rousseff em outubro do ano passado - a pasta hoje é comandada por Aldo Rebelo, também do PC do B. No último dia 7 de outubro, Orlando não conseguiu se eleger para o cargo de vereador de São Paulo.

O dono da JJ Logística aponta como responsáveis pelos desvios a ONG catarinense que a subcontratou e o empresário José Renato Fernandez Rocha, o Zeca, ex-assessor parlamentar do deputado federal Dr. Paulo Cesar (PSD-RJ).

"O dinheiro vinha do Ministério do Esporte para a ONG de Santa Catarina, que passava para cá. Daqui sacava o dinheiro e mandava de volta para Brasília e Santa Catarina. Retornava o dinheiro todo", afirma o empresário. "O José Renato (Fernandez Rocha) sacava o dinheiro, colocava numa sacola e levava tudo embora para Brasília e Santa Catarina", diz o dono da JJ Logística, que alega não saber exatamente para quais políticos o dinheiro era encaminhado.

Um terceiro personagem, identificado pelo denunciante como Wellington Monteiro, era o articulador entre as pontas do esquema no Rio, Brasília e Santa Catarina.

Mentira anterior

Em fevereiro de 2011, o Estado revelou as primeiras irregularidades envolvendo o Instituto Contato. Além de problemas formais e de prazo na execução dos projetos, a reportagem mostrou que a entidade promovia aulas de tênis na rua e com raquetes de plástico e fornecia suco fora do prazo de validade. Procurado na época, Machado confirmou que fornecia lanches para a ONG catarinense, mas citou os desvios. "Fui orientado pelo José Renato a mentir naquela ocasião", diz Machado.

O dono da JJ Logística afirma ter sido "laranja" do esquema. Ele diz que se apresentará amanhã à Polícia Federal para prestar depoimento. Machado também promete levar documentos para as autoridades: notas fiscais, contrato social e alterações e cópias de cheques emitidos.

A documentação, a qual o Estado teve acesso, mostra que a JJ Logística pagou no período em que recebia repasses do Programa Segundo Tempo contas de condomínio em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio, faturas de lojas de material de construção, oficinas mecânicas e lojas de tinta. Todos os cheques são assinados por Fernandez Rocha, que também usou as folhas para sacar quase R$ 2 milhões.

O contrato social mostra que foi Fernandez Rocha quem fundou a JJ Logística em abril de 2005. Mesmo depois que a transferiu para João Machado em fevereiro de 2008, continuou assinando os cheques da companhia. Além de atuar na JJ Logística, Fernandez Rocha também é sócio da MLH Comercial Ltda. A empresa recebeu R$ 1,35 milhão da ONG ligada ao PC do B.

Machado diz ter decidido denunciar o esquema por ter sido enganado por Fernandez Rocha. "Éramos amigos, mas quero botar eles na cadeia. Peguei empréstimos de R$ 280 mil e agora me viraram as costas", diz o empresário. "O Segundo Tempo é complicado. É por isso que decidi falar. Para me livrar ou para me enterrar mais. Porque depois que você entra numa dessas, você fica vulnerável com esses caboclos e pode tomar um tiro a qualquer momento."

Empresa também deu recibo para gastos de deputado

As fraudes com a JJ Logística Empresarial não se limitaram ao Programa Segundo Tempo, segundo João Batista Machado. O deputado Dr. Paulo Cesar (PSD-RJ) usou notas e recibos da empresa para justificar gastos com verba de gabinete e despesas em sua campanha eleitoral de 2010, no total de R$ 52,5 mil. De acordo com o empresário, no entanto, nenhum serviço foi prestado ao parlamentar. “Tudo nota fria”, disse Machado. “O doutor ( Paulo Cesar) pegou as notas com a empresa quando ele foi candidato. E em Brasília também. É tudo nota fria. O doutor pecou nisso aí”, afirmou. Na prestação de contas da campanha de Dr. Paulo Cesar, a JJ Logística consta como fornecedora de imóvel para locação. Um cheque no valor de R$ 20 mil teria remunerado a empresa, segundo informações dadas pelo parlamentar – eleito pelo PR – à Justiça Eleitoral. O deputado também usou três recibos da JJ Logística para justificar o uso de R$ 32,5 mil de sua cota parlamentar. Neste caso, a justificativa foi a “divulgação da atividade parlamentar”. O deputado garantiu que os serviços foram prestados. “Eu tenho as notas e recebi o serviço”, disse o parlamentar. Ele afirmou que entrou em contato com a JJ Logística por intermédio de seu então assessor José Renato Fernandez Rocha. Sobre o fato de ter enviado o assessor com passagens pagas pela Câmara quatro vezes a Santa Catarina, sede do Instituto Contato, o deputado argumentou que costuma mandar seus auxiliares a outros Estados para ajudá-lo na elaboração e relatoria de projetos de lei. “Às vezes eu não posso ouvir os diversos segmentos interessados no projeto.” Paulo Cesar não soube dizer em que projeto Fernandez Rocha o auxiliou indo quatro vezes a Santa Catarina./ A.J.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Presidência destinou verba a jornais que não existem

Publicações fictícias receberam R$ 135,6 mil da cota de publicidade federal

Empresa de SP é a 11ª no ranking de pagamentos, mas seus títulos são ignorados por mercado e bancas

Breno Costa, Leandro Colon, Fabio Leite

SÃO PAULO, BRASÍLIA - A Presidência da República gastou R$ 135,6 mil para fazer publicidade oficial em cinco jornais de São Paulo que não existem.

As publicações fictícias são vinculadas à Laujar Empresa Jornalística S/C Ltda, com sede registrada num imóvel fechado e vazio, em São Bernardo do Campo (SP).

Essa empresa aparece em 11º lugar num ranking de 1.132 empresas que, desde o início do governo Dilma Rousseff, receberam recursos públicos da Presidência para veicular propaganda do governo em diários impressos.

Embora esteja à frente de empresas responsáveis por publicações de ampla circulação e tradição no país, como o gaúcho "Zero Hora" e o carioca "O Dia", a Laujar não publica nenhum jornal.

Os cinco títulos da empresa beneficiados pela Presidência inexistem em bancas do ABC Paulista, onde supostamente são editados, não são cadastrados em nenhum sindicato de nenhuma categoria do universo editorial e são completamente desconhecidos de jornalistas e jornaleiros da região.

Também não aparecem em cadastros municipais de jornais aptos a fazer publicidade de prefeituras.

Semelhança

Além disso, exemplares enviados à Presidência como provas de que as publicações existem contêm sinais de serem forjados.

A Laujar mandou as supostas edições do dia 15 de março do ano passado do "Jornal do ABC Paulista", "O Dia de Guarulhos", "Gazeta de Osasco", "Diário de Cubatão" e "O Paulistano".

Todas elas têm os mesmos textos -a única diferença é o nome da publicação.

Uma das "reportagens" apresentadas contém declarações do então ministro do Trabalho, Carlos Lupi, dadas no próprio dia 15. O que torna impossível a impressão ter ocorrido na data informada nos jornais.

Na verdade, o texto é uma cópia de uma nota publicada no site da Folha na tarde daquele dia.

As impressões têm também um suposto anúncio de meia página da Unimed. A empresa de planos de saúde, no entanto, informou à Folha que nunca fez publicidade em nenhum dos "jornais" da empresa Laujar.

Também há registros de pagamentos efetuados pela Caixa Econômica Federal à empresa, mas os valores não foram divulgados pelo banco federal.

Checagem

Para comprovar a existência de uma publicação que receberá dinheiro público para veicular propaganda federal, o governo exige apenas o envio de seis exemplares de datas aleatórias, definidas pela Secom, que é a Secretaria de Comunicação Social da Presidência.

Além disso, o órgão pede documento, registrado em cartório, no qual é o próprio responsável pelo veículo quem atesta sua tiragem.

A Laujar, por exemplo, declarou que seus jornais tinham uma tiragem total de 250 mil exemplares, vendidos por R$ 2,50 cada.

Se a informação fosse verdadeira, as supostas publicações da empresa teriam, juntas, uma circulação parecida com a do jornal "O Globo", a quinta maior do país.

A Secom informou que, em maio, excluiu a empresa de seu cadastro.

Não pela inexistência dos cinco "jornais", entretanto, mas porque segundo o órgão eles não falavam sobre questões específicas dos municípios onde circulavam.

Com isso, diz a secretaria da Presidência, a empresa não cumpriu o princípio da "regionalização" na distribuição de verbas publicitárias.

Fonte: Folha de s. Paulo

STF condena, mas Câmara nem pensa em cassar

Os deputados João Paulo Cunha, Pedro Henry, Valdemar Costa Neto e José Genoino (suplente) estão entre os réus no Supremo, mas a chance de eles perderem o mandato pode virar queda de braço

O difícil é cassar

Com três deputados e um suplente condenados na Ação Penal 470, Câmara tem histórico de absolvição. Desde 2005, quatro dos 111 parlamentares processados no Conselho de Ética perderam o mandato

Juliana Colares

Com a proximidade do fim do julgamento da Ação Penal 470, a principal dúvida é sobre o futuro político dos deputados federais condenados no escândalo do mensalão. O assunto é controverso, mas o entendimento vigente no Legislativo é de que um parlamentar só perde o mandato se o Congresso decidir pela cassação, mesmo quando há condenação judicial. Como a Câmara dos Deputados irá se comportar diante de um caso tão polêmico, ninguém sabe. Olhando para o passado, no entanto, vê-se uma Casa que arquiva muito e pune pouco. Nos últimos oito anos, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar instaurou 111 processos. Apenas quatro culminaram com a perda de mandato, 3,6% do total.

Entre 1949 e 2011, 179 deputados federais acabaram cassados. A maior parte (150) foi punida durante o período militar. Desde 2005, quando o mensalão veio à tona, 11 parlamentares perderam o mandato. Sete por conta de decisões judiciais, das quais quatro oriundas da Justiça Eleitoral. É o caso do único cassado em 2011: Chico das Verduras (PRP-RR), punido por compra de votos. Em 2012, três deputados responderam a processos no Conselho de Ética. Nenhum perdeu o mandato. Nos três casos as representações foram arquivadas sem nem sequer chegarem a ser investigadas. Há, ainda, situações em que o Conselho de Ética aprova o parecer pela cassação, mas o plenário da Câmara mantém o parlamentar na função. A perda de mandato pode ser declarada com maioria absoluta dos votos (257 dos 513 deputados) ou pela Mesa Diretora, no caso, por exemplo, das condenações feitas pela Justiça Eleitoral.

O caso do mensalão, no entanto, entra em uma exceção prevista no Regimento Interno da Câmara. O artigo 240 da legislação diz que nos casos de condenação criminal com sentença transitada em julgado, a representação deve ser encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). O resultado final, no entanto, continua sendo decidido em plenário, em votação secreta.

Opinião pública
Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, João Paulo Peixoto defende que o futuro dos deputados condenados no caso do mensalão não pode ser deduzido a partir do histórico de baixa punição observado nos últimos anos. “Esse processo tem características especiais. A exposição junto à opinião pública deu dimensão e simbolismo forte ao caso do mensalão e eu não acredito que o plenário possa julgar eventuais processos de cassação (de envolvidos na Ação Penal 470) da forma como julgou outros casos”, disse. Foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal os deputados Pedro Henry (PP-MT), João Paulo Cunha (PT-SP) e Valdemar Costa Neto (PR-SP). Ex-presidente do PT, o suplente José Genoino (SP) deve assumir o cargo de deputado em 1º de janeiro, apesar de pessoas próximas a ele afirmarem que o desgaste sofrido durante o julgamento possa fazê-lo desistir de voltar à Câmara.

Até agora, o mensalão provocou a cassação de três parlamentares. Roberto Jefferson (PTB-RJ), que teve 313 votos pela perda de mandato e 156 pela absolvição; o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu (PT-SP), com o placar de 340 a 108; e Pedro Corrêa (PP-PE), que teve 261 votos contrários à manutenção do mandato e 166 a favor. O plenário da Casa não agiu com tanto rigor com outros seis envolvidos no caso do mensalão. Romeu Queiroz (PTB-MG), Professor Luizinho (PT-SP), João Magno (PT-MG), João Paulo Cunha (PT-SP), José Janene (PP-SP) e Pedro Henry (PP-MT) foram absolvidos pela Casa.

Sobre as futuras decisões a respeito escândalo, João Paulo Peixoto defende que “dificilmente a Câmara vai contra o trabalho de sete anos do STF”. Mas quando o assunto é o histórico recente da Casa, o cientista político Rafael Cortez ,da Tendência Consultoria e professor da PUC-SP, afirma que a formação da base governista na Câmara não interfere somente na votação de projetos, mas na decisão a respeito de casos de cassação. “Certamente, o processo de perda de mandato é um processo político”. Para ele, o voto secreto, nesses casos, diminui o “custo da decisão”. Cortez também acredita que, em alguns casos, o voto pela absolvição de um parlamentar pode ser usado como “moeda de troca” em defesa de outros interesses.

Presidente do Conselho de Ética, o deputado José Carlos Araújo defende o fim do voto secreto. “Ele favorece a absolvição. Ninguém tem coragem de se expor, em determinados casos”, afirmou. No colegiado que preside, assim como no âmbito da CCJ, o voto é aberto. A PEC 86, que acaba com o escrutínio secreto em casos de perda de mandato, começou a tramitar no Senado em setembro de 2007. Foi aprovada em julho de 2012 e encaminhada à Câmara, onde aguarda para ser apreciada, votada em plenário e, enfim, virar lei.

Quem é quem

Saiba quais são os deputados federais condenados no julgamento do mensalão. As penas ainda não foram calculadas
João Paulo Cunha
(PT-SP)
Ex-presidente da Câmara
» Foi condenado por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro
Pedro Henry
(PP-MT)
Ex-líder do PP na Câmara
» Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro
Valdemar Costa Neto
(PR-SP)
Ex-presidente do Partido Liberal (atual PR)
» Condenado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

SUPLENTE
José Genoino
(PT-SP)
Ex-presidente do Partido dos Trabalhadores
» Condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha


Fonte: Correio Braziliense

Corrupção e política - Merval Pereira

A luta contra a corrupção foi um tema comum nos últimos dias em várias dimensões, especialmente sua relação com a atividade política. Pelo inusitado da situação, chamou a atenção do mundo a advertência do presidente chinês Hu Jintao, no discurso de abertura do XVIII Congresso do Partido Comunista da China (PCC), de que a corrupção que afeta a sociedade chinesa, classificada de endêmica, "pode provocar a derrubada do Partido e do Estado".

A solução para o problema, segundo ele, passa pelo aperfeiçoamento do sistema democrático chinês, "com o objetivo de garantir que o povo possa ter eleições e decisões democráticas". Embora a democracia de que fala Hu Jintao tenha pouco a ver com a que se conhece no Ocidente, é interessante notar que ele identifica na ampliação das "decisões democráticas" uma das formas de derrotar a corrupção no país.

Na vida real, a China enfrenta denúncias de escândalos de corrupção na política que são divulgadas seletivamente. O líder Bo Xilai, que deveria estar tendo um papel de destaque no atual Congresso, foi expulso do partido e está preso sob acusações diversas, inclusive de assassinato.

Já as informações da imprensa internacional, especialmente do New York Times, sobre enriquecimento de parentes do futuro presidente Xi Jinping e do primeiro-ministro Wen Jiabao são censuradas no país.

Também a presidente Dilma Rousseff encontrou no discurso de abertura da conferência internacional anticorrupção, que o Brasil sedia pela primeira vez, um momento ideal para falar indiretamente dos efeitos do processo de mensalão na política brasileira, especialmente depois que as eleições municipais revelaram um número acima da média histórica de votos brancos, nulos e abstenções:

"O combate ao malfeito não pode ser usado para atacar a credibilidade da ação política tão importante nas sociedades modernas, complexas e desafiadoras. O discurso anticorrupção não deve se confundir com o discurso antipolítica, ou antiestado, que serve a outros interesses. Deve, ao contrário, valorizar a política, a esfera pública, a ética, o conflito democrático entre projetos que nela tem de ter lugar. Deve reconhecer o papel do Estado como instrumento importante para o desenvolvimento, a transparência e a participação política."

Um pronunciamento perfeito, que separa as questões de Estado das partidárias e dá uma dimensão valorizada da atividade política, muito além do toma lá dá cá a que a própria presidente cede na rotina diária de seu governo.

Recentemente, em uma entrevista ao Prosa e Verso, do GLOBO, por ocasião de seus 80 anos, o intelectual público Eduardo Portella já repudiava a associação automática entre política e corrupção:

- Há um desinteresse político do intelectual. Não que ele deva ser político, mas deve estar o tempo todo assistido por uma consciência política e deve tomar decisões de repercussão política. Isso é fundamental. Alguns são alienados por natureza, interessados apenas em fazer seu sonetinho. Outros são céticos estruturais, é a turma do voto em branco. E há quem seja desconfiado porque confunde política com mensalão. O mensalão é um absurdo da vida política, mas o exercício da política é necessidade da democracia.

O publicitário Jorge Maranhão, dedicado à causa da cidadania e coordenador da ONG Voz do Cidadão, acha que a presidente Dilma tem sido mais feliz como chefe de Estado do que de governo. "A impressão que se tem é a de que se entrincheira na função de chefe de Estado para evitar o embate duro e nem sempre limpo e leal da política cotidiana." Mesmo na barganha de cargos em campanhas eleitorais, Maranhão ressalta que "ela não cede além dos cargos do Poder Executivo, de resto direito seu, mas evitando o jogo para os cargos das demais instituições de estado".

Para ele, sua consciência funcional é inequívoca "quando não submete a políticas de governo de interesse partidário as políticas de Estado de interesse público, como quando se relaciona com instituições como as Forças Armadas, os Tribunais de Justiça, o Ministério Público, a Receita Federal, o Banco Central e a Polícia Federal, por exemplo".

Mais recentemente, Maranhão lembra que a presidente tem feito prevalecer uma política de Estado também com as instituições de controle e gestão, "e aí é que tem feito toda a diferença, reconhecida, inclusive, por organismos multilaterais da área".

Fonte: O Globo