Revista Veja
Isolamento na campanha mostra o clã Bolsonaro
em inédita vulnerabilidade
Flávio
Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na
disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram
oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.
É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.
Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.
Um grupo de anônimos se reuniu no dia
seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da
pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado
autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther
Solano e Beto Vasques.
— Não conheço nenhum projeto nem ideia do
Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.
— Atrapalha muito que ele só tenha o passado
do pai dele… — atalhou outro.
— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma
visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na
disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula,
né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa
com o pai do Flávio.
Os pesquisadores deixaram suas impressões na
“ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança
permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem
propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e
previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua
desejada, mas (ele) não
conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio
precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso,
fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas,
para vencer, (a candidatura)
terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.
“Isolamento na campanha mostra o clã
Bolsonaro em inédita vulnerabilidade”
Ele continua sendo o candidato da oposição
mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás
de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5.
Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre
passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono
do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.
O principal oposicionista, no entanto, agora
está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato
designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de
vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de
golpe de Estado.
Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi
protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública,
coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos
Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que
nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.
Experimentou a solidão eleitoral no confuso e
frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou
procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma
forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem
(cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.
Deu tudo errado, e acabou abraçado ao
deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido
o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal
líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma
vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna
gratidão de Lira.
Até agora, ele fracassou naquilo que parecia
essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o
adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne
sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).
O isolamento do “candidato do pai” na
campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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