sábado, 8 de agosto de 2026

O cérebro autoritário, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eduardo Bolsonaro diz que escolha de Gaspar para vice é escudo contra impeachment

Tal visão denota paranoia institucional, que é característica de personalidades autoritárias

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.

O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.

O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária"Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.

Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.

Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.

 

 

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