Ex-ministro pede desfiliação do PT; defesa do ex-presidente apresenta recibos de aluguel com datas inexistentes
Fundador do PT e ex-homem forte dos governos Lula e Dilma, o ex-ministro Antonio Palocci pediu desligamento do partido e, em carta de quatro páginas, criticou duramente o ex-presidente Lula. “Até quando vamos fingir acreditar na auto-proclamação do ‘homem mais honesto do país’?”, perguntou o ex-ministro. “Somos um partido ou uma seita?”. Palocci relatou ainda “o choque ao ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos do seu governo”. O ex-ministro tinha sido suspenso do PT depois de fazer acusações a Lula, em busca de delação premiada. Recibos de aluguel entregues pela defesa do ex-presidente à Justiça trazem incorreções, como datas que não existem e repetidos erros de digitação. -
Palocci decide sair do PT e ataca: ‘Somos um partido ou uma seita?’
Em carta, ex-ministro afirma que Lula ‘sucumbiu ao pior da política’
Dimitrius Dantas e Thiago Herdy | O Globo
-SÃO PAULO- O ex-ministro Antonio Palocci se adiantou ao processo de expulsão iniciado pelo PT na semana passada e decidiu sair oficialmente do partido. Em carta de quatro páginas enviada da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso há um ano, Palocci admitiu que cometeu ilegalidades, atacou o ex-presidente Lula e sugeriu que o PT, assim como ele, passe a colaborar com a Justiça em um acordo de leniência.
Com palavras fortes, Palocci comparou a devoção de petistas, em meio ao escândalo de corrupção, à pratica de uma seita religiosa. Disse ainda que houve um desmonte moral do ex-presidente e que a corrupção foi tratada “apenas como um detalhe” por Lula.
“Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’, enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!!) são atribuídos a Dona Marisa? Afinal, somos um partido sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?", escreveu Palocci.
O ex-ministro aproveitou a carta para fazer uma retrospectiva do crescimento do partido, desde a chegada ao poder, em 2002, até os primeiros momentos em que, segundo ele, viu Lula “sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos do seu governo”. Para o ex-ministro, conquistas foram deixadas de lado para priorizar a corrupção no governo.
“‘O cara’, nas palavras de Barack Obama, dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do ‘tudo pode’, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos”, escreveu.
A carta de desfiliação de Palocci é mais um capítulo da relação entre o partido e o ex-ministro, desgastada após o anúncio de Palocci, que decidiu colaborar com as investigações da Lava-Jato. A relação entre ambos foi rompida de vez após o interrogatório do ex-ministro no último dia 6. Entre as acusações feitas contra Lula, estava um “pacto de sangue” firmado entre o ex-presidente e a Odebrecht que envolvia vantagens como o sítio de Atibaia e R$ 300 milhões para campanhas do partido.