sábado, 18 de dezembro de 2021

Dora Kramer: Aperte o cinto

Revista Veja

Turbulências políticas serão como mar de rosas diante do que promete 2022

Certos anos, quando acabam, proporcionam suspiros de alívio. Foi assim em 2020, de modo enganoso, pois se supôs ali que a pandemia arrefeceria. Agora, ao fim de 2021, nada autoriza a mesma ilusão nem ninguém provido de bom senso acredita que dias melhores virão em 2022 no quesito atribulações políticas.

Na teoria do mundo oficial, é uma campanha curta, 45 dias, segundo o permitido pela legislação. No universo paralelo da prática, tem sido a mais longa da história recente, com a duração exata do intervalo entre a eleição passada e a seguinte.

A razão sabemos: um presidente eleito sob forte rejeição que, à falta de atributos para reverter a situação, no lugar de governar se dedicou a seguir na condição de candidato criador de casos, imaginando assim alcançar a reeleição.

Jair Bolsonaro exagerou na dose do remédio, que virou veneno e o fez chegar a uma situação eleitoralmente não impossível, mas muito difícil ao fim de três anos de desgoverno. Os 21% de intenções de votos diante dos 48% de Luiz Inácio da Silva, segundo a última pesquisa do Ipec (ex-Ibope), nem são o obstáculo principal.

Mais grave para ele é a avaliação popular, cuja aprovação desde fevereiro caiu em média 10 pontos porcentuais nos itens eficácia governamental, desempenho pessoal e confiança na figura do presidente. Já vimos candidatos muito qualificados perderem eleições e governantes bem avaliados na função sofrerem derrotas. O contrário até hoje não se viu.

Marco Antonio Villa: Os piores anos das nossas vidas

Revista IstoÉ

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Bolsonaro não é um acidente, um acaso ou um fenômeno da natureza

É difícil supor que alguém tenha previsto, em 1º de janeiro de 2019, que teríamos três anos terríveis, os piores da história republicana. Imaginava-se que o Bolsonaro faria um governo ruim. Afinal, seria um milagre se aquele deputado do baixo clero, que, em momento algum (e foram 28 anos!), tinha se destacado pelo entendimento das complexas questões de Estado tivesse subitamente se convertido em um bom governante. Mas o pesadelo que estamos vivendo, com acontecimentos diários que nos envergonham no concerto das nações, ah, com a mais absoluta certeza nem o mais pessimista dos analistas poderia supor.

Pablo Ortellado: Polarização com terceira via?

O Globo

A terceira via é uma expressão adotada pelo jornalismo para se referir aos candidatos a presidente que representam uma alternativa a Lula e Bolsonaro. Esses candidatos podem estar mais à direita, como João Doria ou Sergio Moro, ou mais à esquerda, como Ciro Gomes. Mas o fato de os candidatos da terceira via criticarem simultaneamente Lula e Bolsonaro não significa necessariamente que apontem para o fim da polarização.

A polarização política não é um fenômeno eleitoral. É um fenômeno social que tem expressão eleitoral. Ela opõe cidadãos que abraçam identidades políticas construídas a partir da hostilidade ao adversário, e essa dinâmica antagonista se expressa eleitoralmente em dois candidatos concorrentes.

Até onde se sabe, a polarização brasileira gira em torno de um conjunto de identidades políticas mais ou menos alinhadas: de um lado, as de esquerda, de petista e de progressista; de outro, as de direita, de conservador e de patriota (entre outras). Quem adota uma ou algumas dessas identidades é um grupo de pessoas que podemos considerar pequeno, mas grande o suficiente para impactar o resto.

No dia a dia das mídias sociais, são os polarizados que difundirão notícias com viés partidário para além da bolha militante — eles são os responsáveis por levar as disputas de narrativas aos despolitizados que estão no Facebook e nos grupos de WhatsApp da família e dos amigos. São também os polarizados que durante o período eleitoral pedirão voto — ou serão consultados pelos despolitizados para ajudar a escolher candidato. Por falar muito, de maneira coordenada, e por ser muito ativa, a minoria polarizada dá o tom para o conjunto da sociedade.

Ascânio Seleme: Os aplausos da Fiesp

O Globo

Apenas 32% dos evangélicos aprovam o governo Bolsonaro, revelou o Datafolha; número chega a 50% entre empresários

Que Bolsonaro é um idiota, todo mundo sabe. Por isso, não surpreendeu quando disse no auditório da Federação das Indústrias de São Paulo que “ripou” a diretoria do Iphan porque o órgão havia interditado uma obra do seu amigo Luciano Hang. Também não foi novidade anunciar um crime que cometeu certo que nada vai acontecer, que foi isso o que ele fez ao revelar a “ripada”. O que surpreendeu foram os risos e os aplausos entusiasmados da plateia da Fiesp à fala cabulosa e absurda. Os presentes também gostaram de ouvir de Bolsonaro que ele colocou uma ministra no TST “que não vai dar trabalho para vocês”.

Significa que aquele público, mais do que qualificado, com acesso à informação abundante e teoricamente capacitado para ver o mundo sob diversas óticas, inclusive a humanista, se lixa para o patrimônio histórico, para a justiça social e para a lei. Foi isso o que revelaram ao rir e aplaudir quando Bolsonaro disse que demitiu a diretoria porque técnicos do Iphan encontraram “azulejos” nas escavações e paralisaram a obra de Hang. Foi o que também demonstraram quando o presidente avisou que a nova ministra do TST não os incomodará. Claro que eles entenderam o recado e foi para o que aplaudiram. Em outras palavras, Bolsonaro disse que eles “podem infringir as normas trabalhistas à vontade que a ministra não vai se mexer”.

Carlos Góes: A recessão das mulheres

O Globo

Uma das lições da atual crise é que, ao decidir que setores abrem e fecham, é preciso levar em conta as consequências sociais da medida

A recessão da Covid é peculiar: ela não se assemelha a crises anteriores, e as políticas ótimas para responder à crise também são diferenciadas. Uma dessas peculiaridades, ainda pouco debatida no Brasil, é o fato de esta recessão ter afetado as mulheres no mercado de trabalho mais negativamente do que os homens.

Historicamente, os empregos masculinos são mais afetados por crises do que os empregos femininos. Há várias razões para isso.

Uma delas é o fato de que as mulheres entraram na força de trabalho tardiamente, em comparação aos homens, e só recentemente tem havido convergência nesses indicadores entre os sexos. Como, nas últimas décadas, a tendência de crescimento no emprego feminino tendeu a ser maior do que o masculino, em crises o emprego feminino continuava crescendo.

Os economistas Masao Fukui, Emi Nakamura e Jón Steinsson documentaram que, nos Estados Unidos, esse crescimento do emprego feminino em crises ocorreu até a década de 1990. Nas crises posteriores, o emprego feminino caiu, mas menos do que o masculino.

Carlos Alberto Sardenberg: Garantia de impunidade (2)

O Globo

A volta ao tema do sábado passado se justifica por dois motivos: primeiro, porque a Segunda Turma do STF continuou nesta semana o processo “liberou geral” de réus ou condenados pela Lava-Jato e operações afins; segundo, e mais importante, porque encontramos em comentários do professor Joaquim Falcão, jurista tão sábio quanto técnico, as palavras exatas para descrever o que acontece em tribunais superiores.

Começando pelo fato: na última terça-feira, a Segundona decidiu retirar da competência do juiz federal Marcelo Bretas o caso do empresário Jacob Barata Filho. Conhecido como o “Rei do Ônibus”, Barata já havia sido condenado por Bretas, com Sérgio Cabral, por fraudes e propinas variadas na concessão e administração do sistema de transportes do Rio. Mas, com relatoria de Gilmar Mendes, a Segunda Turma decidiu que o caso deveria ir para a Justiça estadual —e lá começar de novo.

O placar foi o de sempre, 3 a 1. Gilmar Mendes, o líder, Ricardo Lewandowski e Nunes Marques, de um lado; de outro, Edson Fachin, sempre voto vencido na tese de manter as decisões da Lava-Jato.

Oscar Vilhena Vieira: O Supremo não tem dono

Folha de S. Paulo

Caberá a Kassio Nunes e André Mendonça deixar claro que servem apenas à Constituição

O Supremo é uma criatura da Constituição, tal como o Congresso, as Forças Armadas ou o SUS. Suas atribuições não estão à disposição de quem quer que seja. Guardar a Constituição é sua missão precípua.

O presidente da República oferece reiteradas demonstrações de não se conformar com isso. Não bastassem os ataques e ameaças, a cada momento em que o tribunal impugna um de seus atos arbitrários ou contraria os interesses de seus acólitos, o presidente passou a se gabar, com a nomeação de um segundo ministro, de possuir 20% do tribunal, deixando claro a empresários embevecidos na Fiesp que, se reeleito, dobraria sua quota no tribunal.

Não se trata apenas de uma tosca manifestação de um arruaceiro. Bolsonaro segue fielmente a nova cartilha dos populistas autoritários, que determina a captura das instituições democráticas, especialmente aquelas responsáveis pela aplicação da lei.

Nesse contexto, muitos têm questionado a nomeação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o tribunal. A religião de qualquer ministro me parece um dado absolutamente irrelevante. O mais preocupante foram suas demonstrações de deslealdade constitucional ao exercer a autoridade pública, permitindo da elaboração de dossiês contra adversários do governo ao emprego da extinta lei de segurança nacional para intimidar jornalistas e opositores.

Demétrio Magnoli: O Sistema

Folha de S. Paulo

Prova de fogo da pandemia deslocou-se da esfera da ciência para a da política

Meio século atrás, falava-se muito no Sistema, assim com maiúscula. Era, simplesmente, uma referência velada à ditadura militar, então no seu apogeu. O Sistema, porém, está de volta, em acepção bem mais antiga, invocada mundo afora pelas campanhas antivacinais: o "Estado profundo", isto é, uma ordem oculta cujas tramas opressivas precisariam ser desmascaradas. No fundo, trata-se de versão atualizada de um tema perene da política extremista.

"Ditadura sanitária", eis a síntese mobilizadora que cunharam. Na Holanda, um deputado da ultradireita populista classificou os não vacinados como "novos judeus", submetidos aos "novos nazistas". O paralelo infame circula em dezenas de países. Antes, o discurso extremista dizia que a pandemia era uma invenção do Sistema —ou seja, dos "comunistas" ou da "elite globalista". Hoje, assegura que as vacinas são frutos tóxicos da mesma conspiração de malfeitores engajados na destruição das nações e das liberdades.

Cristina Serra: Cinquenta tons de golpismo

Folha de S. Paulo

Tutela militar, ou a simples percepção dela, é anomalia a ser evitada a todo custo

Foi recebida com chocante naturalidade e, de certa forma, foi até comemorada por muita gente a notícia de que o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva assumirá em breve o cargo de diretor-geral do TSE. Nesta função, será o responsável pela organização da eleição de 2022, com sistema eletrônico de votação, alvo reiterado de ataques do presidente ao qual serviu não faz muito tempo.

Quem gostou da notícia argumentou que o general da reserva será um avalista da lisura do processo eleitoral e um muro de contenção contra declarada intenção de Bolsonaro de não aceitar outro resultado que não seja a sua vitória. Se a democracia brasileira precisa da chancela de um general para se garantir contra ameaças golpistas, isso só mostra o tamanho da nossa barafunda institucional.

Alvaro Costa e Silva: O engenheiro da autodestruição

Folha de S. Paulo

Para compensar o desprestígio entre os evangélicos, reajuste aos policiais vai custar R$ 2,8 bilhões

Espero que os médicos estejam dando a atenção devida à apneia do sono presidencial. Os últimos dias foram de provocar insônia em qualquer homem saudável e equilibrado, quanto mais em Bolsonaro.

Segundo o Datafolha, Lula lidera a corrida com 48% da preferência eleitoralal; se hoje fosse outubro de 2022, ele ganharia no primeiro turno. No Brasil da pobreza e da fome, 53% avaliam o governo como ruim ou péssimo. O presidente ainda sofreu um golpe inesperado: entre os evangélicos, pesquisas apontam um empate técnico entre Lula e Bolsonaro, sinal da transferência de votos do segundo para o primeiro. O engenheiro da destruição —do país, da democracia, dos sistemas jurídico e policial, da saúde da população— está se autodestruindo.

Hélio Schwartsman: Curto-circuito chileno

Folha de S. Paulo

País decide presidente neste domingo (19) e o futuro de 30 anos de convivência civilizada e alternância no poder

Os chilenos definem neste domingo seu próximo presidente. Decidem entre o direitista José Antonio Kast e o esquerdista Gabriel Boric. O primeiro é um extremista, pinochetista e admirador de Bolsonaro. Quanto ao segundo, seria errado classificá-lo como extremista, mas vem de uma ala da esquerda bem mais radical do que a dos últimos presidentes chilenos que se colocavam no campo progressista. Dados os currículos, a escolha me parece fácil, mas é forçoso reconhecer que algo deu errado no Chile.

O país, afinal, vinha experimentando um ciclo de mais de 30 anos de alternância entre dois grupos, um de centro-esquerda e outro conservador, mas ambos inequivocamente comprometidos com a democracia.

Mais importante, quando chegava ou voltava ao poder, nenhum deles se punha a desfazer o que a coalizão rival realizara. Essa convivência civilizada é um dos ingredientes do longo período de crescimento econômico vivido pelos chilenos, que fez com que o PIB per capita saltasse dos US$ 11 mil, no início dos anos 2000, para mais de US$ 25 mil em 2019. A pobreza extrema, que atingia 36% da população, despencou para 8,6%.

Bolívar Lamounier*: Treno por um país em permanente estupor

O Estado de S. Paulo.

Não há dúvida de que nossas instituições políticas atingiram o ponto mais baixo de sua história

Temi parecer pedante ao usar o substantivo treno (do grego thrênos, canto ou oração pungente) no título deste artigo, mas não me vem à mente outro termo que traduzisse o que sinto ao ver nosso país despencando morro abaixo, incapaz de responder à crise que há anos nos assola.

Não há dúvida de que nossas instituições políticas atingiram o ponto mais baixo de sua história. No Executivo, um presidente que fez o que podia para dificultar o trabalho dos agentes de saúde no combate à pandemia, só pensa em se reeleger e ornamenta seu desapreço pela liturgia do cargo que ocupa com tiradas do mais duvidoso humor. No Legislativo, o presidente da Câmara parece pensar que sua função se exaure na tarefa de barrar o mais que justificado impeachment de Jair Bolsonaro. No Judiciário, desde a tragicômica exegese lewandowskiana do artigo 52 (inciso 15, parágrafo único) da Constituição federal de 1988, adrede concebida para beneficiar Dilma Rousseff no episódio do impeachment, só o que vimos foi uma interminável melopeia entoada com o único objetivo de obscurecer as falcatruas perpetradas pelo sr. Luiz Inácio Lula da Silva, notadamente na Petrobras, e admitir sua elegibilidade para a Presidência da República em 2022. O resultado de tudo isso serão, provavelmente, mais oito anos de Lula e a continuidade da idiota polaridade entre ele e Bolsonaro, que teve início na eleição presidencial de 2018.

João Gabriel de Lima: As escolhas do eleitor

O Estado de S. Paulo.

São eles – brasileiros que vivem no ‘império da necessidade’ – que decidem a eleição

Dois lances de xadrez marcaram, nesta semana, o jogo da campanha eleitoral de 2022. O primeiro foi a saída de Geraldo Alckmin do PSDB. Se realmente for vice de Lula, teremos uma reedição do namoro tucano-petista da virada dos anos 1980/1990 – vá para onde for, Alckmin, herdeiro de Mario Covas, sempre carregará um pedaço do PSDB consigo. O segundo foi o anúncio da equipe econômica de João Doria – tucano que não se bica com Alckmin – incluindo nomes como Ana Carla Abrão, colunista do Estadão, Zeina Latif e Henrique Meirelles.

Os políticos jogam seu xadrez, mas quem decide os pleitos são os eleitores. O que os leva, afinal, a escolher este ou aquele candidato?

Adriana Fernandes: A falta de sinais de Lula sobre a economia

O Estado de S. Paulo.

Não é por estar à frente nas pesquisas que Lula vencerá sem dizer o que fará na economia

A possibilidade de o ex-governador Geraldo Alckmin ser o candidato a vice na chapa do ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito muitos se perguntarem se essa eventual aliança política para as eleições de 2022 pode se estender ao campo econômico ou ficaria restrita aos acordos para a formação dos palanques regionais.

Líder nas pesquisas com uma distância grande do presidente Jair Bolsonaro, Lula tem dado poucas pistas de como será o seu programa econômico. Em 2003, ele montou uma equipe econômica que passou por cima de muitas das ideias defendidas pelos economistas mais influentes do partido.

A estratégia agora do PT está sendo a de seguir com o debate interno (muito acalorado e disputado) em torno do programa e deixar para bem mais tarde posicionamentos sobre o que pretende fazer em 2023 na economia, caso confirme o atual favoritismo e ganhe as eleições.

“Na campanha paralela dos economistas, temos neoliberalismo selvagem de discurso: Guedes neoliberalismo progressista de planilha: Meirelles, Pastore, Arminio e Cia (C’est là même chose) novo desenvolvimentismo fiscalista: Marconi e Benevides e no PT o debate segue”, postou essa semana o ex-ministro da Fazenda do PT Nelson Barbosa, numa mensagem quase subliminar para dizer o seguinte: não é agora.

Marcus Pestana* - Anastasia e Rodrigo Pacheco recuperam o protagonismo de Minas

Minas Gerais sempre ocupou papel central nas grandes decisões políticas nacionais. A aliança com Vargas na revolução de 1930, o desenvolvimentismo de JK, a presença de Aureliano Chaves na vice-presidência, a liderança de Tancredo Neves na crise de 1961 e na transição democrática, a atuação destacada dos parlamentares mineiros em toda a história republicana são provas inequívocas disso: Itamar Franco e o Plano Real. Minas sempre foi uma espécie de síntese do Brasil, sinônimo de equilíbrio, serenidade, diálogo e compromisso com o interesse público e nacional.

Em tempos de polarização radical e estéril, onde adversários são tratados como inimigos e os espaços de diálogo se encurtam perigosamente, Minas tem feito falta ao Brasil.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS:

Anvisa dá exemplo de coragem

O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro já deixou claro que não aceita os limites de seu poder. Que as instituições tenham a bravura da Anvisa e recordem ao presidente que ele não pode tudo

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso da vacina da Pfizer contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos de idade. Foi o que bastou para que o presidente Jair Bolsonaro, inimigo declarado da vacinação para qualquer idade, partisse para a intimidação explícita dos responsáveis pela decisão da Anvisa.

Em transmissão pela internet, Bolsonaro, depois de admitir que não tem poder para interferir na agência, exigiu saber os nomes de quem participou do processo para, então, “divulgar os nomes dessas pessoas para que todo mundo tome conhecimento quem são essas pessoas e obviamente forme o seu juízo”.

Não é preciso ser especialista em bolsonarismo para deduzir que o objetivo de Bolsonaro, usando seu poder e sua visibilidade como presidente, é atiçar os cães das redes sociais a destruir a reputação profissional e arruinar a vida privada dos funcionários da Anvisa.

Tal comportamento, obviamente incompatível com o exercício da Presidência da República, é ademais a reiteração da confusão deliberada que Bolsonaro faz entre seus desejos pessoais e decisões de Estado.

Felizmente, a Anvisa não se deixou intimidar. Em atitude corajosa, num notável contraste com a pusilanimidade de Bolsonaro, a agência emitiu uma nota oficial em que, referindo-se explicitamente às declarações do presidente, informou que “repudia e repele com veemência qualquer ameaça, explícita ou velada, que venha constranger, intimidar ou comprometer o livre exercício das atividades regulatórias e o sustento de nossas vidas e famílias: o nosso trabalho, que é proteger a saúde do cidadão”.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda a hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia…

Música | Mariana Aydar + Fejuca: Medo Bobo / Aqui em Casa

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: A vacina nos salvou de Bolsonaro

O Globo

O ano de 2021 foi salvo única e exclusivamente pela vacina. Foi ela, chegando finalmente e contra todas as ações possíveis por parte do governo federal, que nos salvou não só do vírus, mas de um acometimento ainda mais grave do mal que é Jair Bolsonaro.

Devemos à vacina, de sua elaboração em tempo recorde à tão esperada aplicação, aos fabricantes, aos cientistas, ao Butantan, aos governadores — e aí sobretudo ao de São Paulo, João Doria, é preciso dar a César o que é de César —, aos senadores da CPI da Covid e à imprensa. Sem esse consórcio atuando em desafio à disposição permanente de Bolsonaro e de seus ministros em melar a imunização, sabe-se lá a que número de mortos poderíamos ter chegado.

Mas eis que, mesmo diante da constatação óbvia até para terraplanistas irrecuperáveis, Bolsonaro segue barbarizando e espalhando sandices a respeito da imunização contra a Covid-19.

Cheguei a conferir se era a conta mesmo do presidente da República, e não a de um fake, que postara, em resposta a um post do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que tratava de ferrovias (!), um comentário de um anônimo chamando as vacinas de “porcarias”. Não era um fake. Era Bolsonaro. Claro que era Bolsonaro.

Flávia Oliveira: Bolsonaro nem com vacina

O Globo

O par de pesquisas de intenção de voto na sequência da confirmação de candidaturas (supostamente) robustas da terceira via — entre as quais o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro (Podemos) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ganhador das prévias tucanas — mostrou um eleitorado disposto a dar a Luiz Inácio Lula da Silva uma inédita vitória no primeiro turno. Tanto Ipec (ex-Ibope) quanto Datafolha trouxeram o petista com proporção de votos muito superior à soma dos adversários. Chama a atenção a pontuação alta do ex-presidente na consulta espontânea, em que o eleitor informa o escolhido sem ser apresentado à lista de nomes. No levantamento do Ipec, Lula é preferido de 40% do eleitorado, o dobro do atual ocupante do Planalto.

O governo de Jair Bolsonaro é ruim, e os brasileiros escancaram nas pesquisas o que o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, teimam em ignorar. O fracasso econômico explica muito da impopularidade do presidente (55% de avaliação ruim ou péssima). São 13,5 milhões de desempregados, 7,8 milhões com oferta de trabalho insuficiente, 5,1 milhões de desalentados, quatro em dez brasileiros na informalidade. O rendimento habitual dos ocupados despencou 11% em um ano. A inflação voltou ao patamar de dois dígitos, a gasolina subiu 50% em 12 meses, os juros só fazem subir, a comida está pela hora da morte. Metade da população enfrenta algum nível de insegurança alimentar, 19 milhões passam fome.

Bernardo Mello Franco: Réu confesso

O Globo

A interferência de Jair Bolsonaro no Iphan resume num episódio quatro faces de seu governo: desprezo à lei, desmonte das instituições, orgulho da ignorância, crença na impunidade.

Na quarta-feira, o presidente narrou um caso ocorrido no fim de 2019. O empresário Luciano Hang, bolsonarista de carteirinha, reclamou de um contratempo nos negócios. Teve que interromper a construção de uma loja em Rio Grande (RS) após a descoberta de um sítio arqueológico.

“Apareceu um pedaço de azulejo durante as escavações. Chegou o Iphan e interditou a obra”, disse Bolsonaro. “Liguei para o ministro da pasta: ‘Que trem é esse?’, porque não sou tão inteligente como meus ministros. ‘O que é Iphan, com ph?’”, prosseguiu.

“Explicaram para mim, tomei conhecimento, ripei todo mundo do Iphan. Botei outro cara lá. O Iphan não dá mais dor de cabeça pra gente”, gabou-se o presidente. A fala foi aplaudida por empresários que se aglomeravam para ouvi-lo na Fiesp.

Eliane Cantanhêde: Um General no TSE?

O Estado de S. Paulo

Pôr um general no TSE reduz ataques às eleições e ameaças de golpes à la Trump

Com o ex-presidente Lula chegando perto de 50% das intenções de voto e o presidente Jair Bolsonaro empacando em 21% a 22%, segundo o Ipec e o Datafolha, o mundo político e jurídico volta a temer, e a discutir seriamente, o risco de um golpe contra o resultado das urnas. Algo à la Trump, com ataques reais ao Congresso ou ao Supremo.

Assim, foi uma jogada de mestre, articulada pelos ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, a escolha do general Fernando Azevedo e Silva para a direção-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no ano das eleições. Ele é da turma de Bolsonaro no Exército, mas um chegou ao posto máximo, o outro foi repelido ainda jovem.

General de quatro-estrelas da reserva, Azevedo e Silva foi ministro da Defesa e, ao contrário do também general Santos Cruz, não saiu atirando ao ser demitido pelo capitão Bolsonaro. Mas nunca saiu de Brasília, atento à situação. Rejeitou convites da iniciativa privada e até de políticos, mas não resistiu ao dever cívico de emprestar o nome, a credibilidade e a patente contra eventuais ameaças à democracia.

César Felício: Só Lula se move no ano

Valor Econômico

Petista cresce e adversários variam na margem de erro

Só existe um movimento nas pesquisas em 2021: o crescimento de Luiz Inácio Lula da Silva. De resto, nada de novo no front. O Datafolha de ontem trouxe Lula com 48%, Bolsonaro com 22%, Sergio Moro com 9%, Ciro Gomes com 7% e João Doria com 4%. Em maio, Lula tinha sete pontos a menos, Bolsonaro um, Moro dois, Ciro um e Doria um. Havia outros candidatos e a comparação é imperfeita, mas o quinteto estava lá.

O Datafolha é uma pesquisa presencial. Lula costuma pontuar mais alto em pesquisas assim do que nos levantamentos feitos por entrevistas telefônicas. Mas a curva, que é o que importa, tem sido rigorosamente a mesma, independentemente do método.

Em 12 de março deste ano, quatro dias depois de Lula da Silva recuperar seus direitos políticos, a pesquisa XP/Ipespe mostrava Bolsonaro na liderança eleitoral, com 27%, o petista com 25%, Moro 10%, Ciro 9% e Doria 3%. No dia 26 de novembro, a rodada da pesquisa trazia Lula na liderança com 15 pontos a mais e todos os outros quatro variando na margem de erro.

Com um detalhe, lembrado pelo cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe: a rejeição a Lula não mudou ao longo do ano. Segundo o Ipespe, 47% dos pesquisados diziam em abril que a probabilidade de votarem em Lula era nenhuma. Sete meses depois, o percentual é 45%. No Datafolha, a rejeição é medida de modo diferente, com múltipla escolha pelo pesquisado. O percentual contra Lula é menor, mas também estável no longo prazo. Era 36% em maio e é 34% agora. Bolsonaro foi de 54% para 60%.

Naercio Menezes Filho*: Retrospectiva 2021

Valor Econômico

Além da pandemia, as políticas do governo federal estão provocando retrocessos em várias áreas

Está na hora de fazermos um balanço de 2021. A maioria das notícias nesse ano foram negativas, destacando-se a volta da fome em grande escala, que achávamos que havia terminado por aqui. Uma das únicas notícias positivas foi o avanço da vacinação em todo o país, apesar dos apelos contrários do presidente. O que aconteceu de mais importante em 2021? O que podemos esperar para 2022?

Neste ano que se encerra ainda sofremos bastante os efeitos da pandemia, que foram ampliados pelas políticas equivocadas do governo federal em várias áreas. Esses fatores estão provocando um teste de estresse contínuo no arcabouço institucional e social construídos no Brasil nos últimos 30 anos. Nesse período, construímos um sistema público de saúde gratuito, que ajudou a diminuir bastante a mortalidade, e um programa de vacinação exemplar. Esse sistema, aliado à descoberta de novas vacinas em tempo recorde, fez com que conseguíssemos vacinar grande parte da população brasileira, mais do que em muitos países mais desenvolvidos. Este ano muitos moradores de bairros ricos entraram num posto de saúde pela primeira vez na vida.

Maria Cristina Fernandes: Moro e seus mitos americanos

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Livro do ex-ministro revela adesão à versão oficial da história dos EUA, das guerras com o México à eficácia

“Depois da intervenção do presidente, não havia mais por que permanecer. Era a última trincheira, meu Álamo.” Sergio Moro já havia fechado os olhos ao relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Nele, reportavam-se operações suspeitas de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro na Alerj, além do cheque de R$ 89 mil depositado na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, por Fabrício Queiroz, o operador das rachadinhas do então deputado estadual.

O ex-ministro também já tinha engolido a transferência do Coaf para a Pasta da Economia, a recusa do presidente em vetar as mudanças do Congresso no seu projeto anticrime e a troca do superintendente da Polícia Federal do Rio. A trincheira, no relato de Moro, caiu quando Jair Bolsonaro avançou sobre a direção-geral da PF.

A analogia usada pelo ex-ministro diz pouco sobre sua saída e muito sobre sua adesão aos 50 tons do ufanismo americano. Estaria livre para propagar o mito, que aglutina da carreira de Lyndon Johnson à ascensão da extrema direita americana, não fosse sua pré-candidatura. A adesão de um postulante à Presidência do Brasil ao mito do Álamo sugere, no mínimo, despreparo para a lida das relações de poder na política internacional.

José de Souza Martins*: Intolerância e violência

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Brasil passa por empobrecimento de sua sociabilidade

Diversos episódios de violência contra pessoas indefesas e frágeis revelam um aspecto problemático da realidade social brasileira. São aqueles casos que poderiam ter sido evitados se tomados alguns cuidados autoprotetivos em relação às vítimas potenciais. Se uma desconfiada prudência fosse adotada pelas famílias em face dos perigos da modernidade.

A falta desses cuidados revela-nos uma sociedade ignorante em relação ao que é o mundo moderno. Por isso destituída de uma consciência crítica imprescindível para viver e sobreviver participativamente nos dias de hoje.

Quanto a isso, nos países civilizados as ciências humanas são decisivas na formação da personalidade tanto dos pais quanto dos filhos. Principalmente quanto à consciência social em relação ao que é a sociedade que nos forma e nos conforma.

O mundo atual é o mundo que perdeu ou está perdendo de modo socialmente desigual os valores sociais da tradição e das identidades coletivas e a consciência dos limites e condições do que é e não é possível ser e fazer. O Brasil é um país que passa por acentuado empobrecimento de sua sociabilidade, o que se evidencia nas manifestações de violência autodestrutiva daí decorrente.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro perde para si mesmo

Folha de S. Paulo

Cerca de 60% do eleitorado não votaria de jeito nenhum no presidente

rejeição a Jair Bolsonaro (PL) parece o fato mais relevante do Datafolha sobre a eleição de presidente. Faltam pouco mais de nove meses para o primeiro turno, ainda haverá dança de candidatos e, não raro, os números de dezembro se desfazem ao longo do ano eleitoral. Por ora, de mais importante, a pesquisa mostra que Bolsonaro perde para si mesmo quando fica sozinho no palco.

Em segundo lugar, o Datafolha mostra que os candidatos de terceira ou quinta via não fazem cócegas nos líderes da disputa, Lula e esse tipo que ocupa a cadeira de presidente.

A questão decorrente é o que Bolsonaro vai aprontar no desespero, caso a grande repulsa persista até meados do ano que vem. O governismo tem poucos recursos políticos decentes ou normais para reverter a situação.

Reinaldo Azevedo - Datafolha evidencia que o centro é Lula

Folha de S. Paulo

Se o petista salivasse rancor, faria o jogo dos seus inimigos; prefere acenar a Alckmin

Em 2022, o centro é Lula. Também por isso aparece com 47% ou 48% das intenções de voto no Datafolha. Não estou, por exemplo, plenamente convencido de que Geraldo Alckmin vá mesmo ser o vice na chapa encabeçada pelo ex-presidente, mas a coisa em si nem é tão importante. O dado mais relevante é o fato de a composição ser debatida a sério.

O petista lidera todos os levantamentos desde que seu nome voltou a ser testado pelos institutos de pesquisa. Nos números do Ipec, divulgados na quarta, tem 40% dos votos espontâneos. No Datafolha, 32%. Segundo ambos, venceria no primeiro turno.

Faltam ainda dez meses para a disputa, eu sei. Pode-se escrever isso de outro modo: falta menos de um ano. Neste texto, não conto com prisões arbitrárias e facadas à margem da história que fazem história.

Hélio Schwartsman - Biologia eleitoral

Folha de S. Paulo

O casamento entre Lula e Alckmin não seria uma 3ª via, mas talvez a 2,5ª

Uma aliança entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin já parece mais que um balão de ensaio. Eles se cortejam e a cópula desponta como uma possibilidade real.

No momento, eles fazem movimentos análogos ao da sinalização sexual biológica para reforçar suas posições. Lula posa como imbatível para tentar levar Alckmin para o posto de vice pagando o menor dote possível, isto é, sem o PT abrir mão de lançar candidato ao governo de São Paulo. O petista sugere que tem todas as condições de vencer já no primeiro turno e que o ex-governador paulista não agrega tantos votos assim. Não valeria o risco de afastar eleitores de esquerda que torcem o nariz para o agora ex-tucano.

Verdade, mas só em parte. Alckmin teve poucos votos como candidato a presidente em 2018 e deve ter menos ainda fora do PSDB. Tende a zero, porém, o risco de o eleitor de esquerda deixar de votar em Lula no ano que vem. Para tirar Bolsonaro, votaria até no cabo Daciolo.

Mauro Paulino: Fidelidade a Lula e Bolsonaro reduz espaço para terceira via

Petista tem 48% no 1º turno, seguido do atual presidente (22%), Moro (9%) e Ciro (7%)

Mauro Paulino e Alessandro Janoni / Folha de S. Paulo

(Diretor-geral do Datafolha e Diretor de Pesquisas do Datafolha)

Tanto o favoritismo de Lula (PT) quanto a manutenção dos índices de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas Datafolha de intenção de voto para a eleição presidencial do próximo ano têm um ponto em comum –o grau de fidelidade de segmentos significativos do eleitorado de ambos os candidatos.

Os dois já partem de um patamar cristalizado, de difícil conversão para outros nomes.

Para se ter uma ideia do desafio que a chamada terceira via enfrenta, o petista é lembrado na intenção de voto espontânea (sem a apresentação do cartão com os candidatos) por mais de um terço dos brasileiros, pouco menos do que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) alcançava na pergunta estimulada em dezembro de 1997, ano anterior à sua reeleição em primeiro turno.

Bruno Boghossian: Efeito Moro

Folha de S. Paulo

Largada do ex-juiz reforça liderança do petista e expõe sinais de divisão na direita

A estreia de Sergio Moro na corrida presidencial não produziu o terremoto que seus apoiadores esperavam. Ao contrário, os primeiros números depois de sua largada consolidam a liderança de Lula e realçam fragilidades do ex-juiz e da candidatura de Jair Bolsonaro.

O petista aumentou sua vantagem sobre os adversários, segundo a nova pesquisa do Datafolha. Com 48% das intenções de voto, ele aparece com chances de vencer a disputa no primeiro turno. Lula tem mais que o dobro do índice de Bolsonaro e abriu uma margem significativa sobre o atual presidente entre eleitores de baixa renda: 56% contra 16%.

Os dados confirmam que o derretimento da economia favorece a candidatura do ex-presidente e sugerem que, até agora, nenhum oponente foi capaz de ativar o antipetismo como motor eleitoral.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS:

Quase na mesma

Folha de S. Paulo

Com Lula na frente e Bolsonaro estável, Datafolha apura impacto restrito de Moro

A nova pesquisa Datafolha indica que a entrada do ex-juiz Sergio Moro na disputa presidencial acirra a concorrência na faixa da chamada terceira via, mas não altera o cenário mais amplo que vem se repetindo nas últimas sondagens.

Novamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com folga as intenções de voto para o Planalto em 2022. O petista, em cenário com Jair Bolsonaro (PL), Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB), tem a preferência de 48% do eleitorado —fatia que supera a soma dos demais.

Bolsonaro permanece em segundo lugar, com 22%. O mandatário sofreu grande desgaste ao longo do ano e seu apoio vai se reduzindo à base eleitoral mais ideológica e fiel.

Distantes dos dois protagonistas, surgem os nomes que se acotovelam em busca de um lugar ao sol que possa eventualmente levá-los a um segundo turno. Os resultados até aqui não são animadores para esses postulantes.

Nesse pelotão, Moro, que experimentou um momento de considerável exposição ao se filiar ao Podemos e se apresentar como futuro candidato, não foi de todo mal ao marcar 9% das intenções. Resta saber se e como poderá evoluir.

O veterano Ciro empata na margem de erro com o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, com 7%. Já Doria colhe 4% das intenções, percentual fraco em se tratando do governador do estado mais rico da Federação —e nome que frequentou o noticiário de maneira positiva ao liderar esforços pela imunização contra a Covid-19.

É sempre prudente sublinhar que a pesquisa reflete o momento em que se realiza. A dez meses do pleito, não pode ser vista como um desenho que se repetirá nas urnas.

Poesia | Graziela Melo: O que faço

O que

eu faço?

 

Como faço?

 

Quanto faço,

disfarço

 

e logo

logo

 

me desmonto,

me desfaço

 

em dor

e pranto,

 

me desintegro

 

me despedaço

 

me destroço

em mil

pedaços!