domingo, 23 de outubro de 2022

Míriam Leitão - Por que Bolsonaro foge da economia

O Globo

Bolsonaro foge de debate sério sobre economia repetindo respostas inventadas que decorou. Não saberia explicar a frase de que não há fome no país

O ideal neste tempo final de campanha é que o país consiga se dedicar a temas que realmente importam, como a economia, o emprego, a luta contra a fome, o resgate da educação. Ontem, a coligação de Lula ganhou o direito de resposta concedido pelo plenário do TSE e tem pela frente essa vantagem nestes momentos decisivos. Estamos a uma semana do fim da mais violenta campanha eleitoral da história da democracia. O PT, na visão de muita gente do partido, foi para o campo que Bolsonaro quis, o de discutir falsos problemas e entrar na guerra de ataques sem fim e sem propósito.

— Mordemos a isca. Temos que sair disso. O tema é o emprego, a fome, o desenvolvimento, a educação. Assuntos que sempre foram nossos. Respeitamos as igrejas pentecostais, todas as igrejas, mas o que as pessoas querem saber é como o Brasil conseguirá acabar com a fome. Temos que recolocar a nossa agenda — reclamou um dos líderes políticos do PT incomodado com o espaço dado na campanha para rebater as acusações de banheiro unissex, aborto, fechamento de igrejas e outras mentiras de Bolsonaro.

Dorrit Harazin - Terceiro turno?

O Globo

Chegou nossa vez de garantir que o eleito pelos brasileiros no dia 30 tenha a segurança de ser empossado

Faltando a eternidade de sete dias até o Brasil cravar nas urnas que tipo de nação gostaria de chamar de sua, estamos em pico de ansiedade. Tateando. À falta de qualquer certeza, tornamo-nos sommeliers de pesquisas à procura de apaziguamento em seus muitos microdados. Se ficarmos só no geralzão das declarações de intenção de voto coletadas pelos institutos ao longo da semana, o ex-presidente Lula mantém a liderança. O candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, contudo, embicava para um empate técnico dentro da margem de erro estatístico. Placar do agregador de pesquisas divulgado pelo site Jota Info: Lula 47% , Bolsonaro 43%, 4% de indecisos.

É nessa estreiteza que mora o perigo.

Estivesse o Brasil respirando uma democracia a plenos pulmões, a vitória de qualquer candidato por uma diferença de alguns milhões de votos, ou menos, deveria significar contenda encerrada e sacramentada no mesmo dia. Restaria ao perdedor lamber suas feridas cívicas. Só que o clima eleitoral no Brasil de 2022 pode ser chamado de tudo, menos de lisamente democrático ou respeitoso do voto popular.

Merval Pereira - Um país dilacerado

O Globo

Agressividade e mentiras da campanha eleitoral refletem degradação do país

O país não está apenas dividido, mas dilacerado por suas contradições e seus erros históricos como a desigualdade. Uma campanha presidencial dominada por mentiras, meias-verdades, promessas descabidas e inexequíveis, além de uma agressividade acima de todos os limites civilizados, é o reflexo de um país que está à deriva, e assim permanecerá, seja qual for o resultado da eleição do próximo domingo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apesar dos esforços, tem fracassado no controle da campanha

Um candidato promete picanha e cerveja para todos, outro garante que dará aumento acima da inflação para todos, quando não o fez nos quatro anos em que governou. A defesa da democracia, imprescindível diante das ameaças recentes, tem sido feita também através de desmandos e ilegalidades do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), paradoxo que revela uma situação limite que precisa ser superada pelas instituições democráticas que, definitivamente, não estão funcionando.

Bernardo Mello Franco - O alerta do cardeal

O Globo

Insultado por extremistas, dom Odilo lembra a ascensão de regimes totalitários na Europa: "Conheço bastante a História"

Bibo Nunes é um bolsonarista raiz. Despreza a ciência, dissemina notícias falsas, aposta no discurso de ódio para se promover. O deputado do PL gaúcho topa tudo por uma polêmica. Já foi capaz de interromper uma homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada a tiros, para bater boca com parlamentares de esquerda.

A exemplo do capitão, Bibo vê na atividade política um atalho para se dar bem. Já torrou verba de gabinete para comer churrasco e espalhar outdoors com a própria foto. “Deputado não é para fazer economia. Se é para fazer economia, eu fico dormindo em casa”, justificou, numa entrevista à Zero Hora.

Em outro episódio, ele usou dinheiro público para alugar carros de luxo. “Sempre andei de Mercedes e BMW. Não vou abaixar meu estilo de vida só porque sou deputado”, esnobou.

Há poucos dias, Bibo superou seus próprios padrões de indignidade. Declarou que estudantes da Universidade Federal de Santa Maria mereciam ser queimados vivos. O bolsonarista se irritou com um protesto contra os cortes na educação superior. “É isso o que esses estudantes alienados, filhos de papai, merecem”, vociferou.

Luiz Carlos Azedo - O mundo que Michelle e Damares oferecem às mulheres

Correio Braziliense

Mesmo que não estejam de acordo com o comportamento da nova geração, a maioria não deseja que haja uma regressão aos costumes de sua adolescência, quando a virgindade era um tabu

Depois de algumas tentativas frustradas, consegui comprar na Livraria da Travessa, em Brasília, o livro Os Anos (Fósforo), premiadíssimo, da escritora francesa Annie Ernaux, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano. É uma mistura de crônicas do cotidiano e filosofia, numa “autobiografia impessoal” que reconstitui a evolução dos costumes da sociedade francesa, num período de 60 anos, que vai do imediato pós-guerra ao atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001.

Talvez a leitura nos ajude a entender um pouco melhor porque a maioria das mulheres não vota no presidente Jair Bolsonaro (PL), embora ele tenha duas cabos eleitorais poderosas — a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a recém-eleita senadora pelo Distrito Federal Damares Alves (Republicanos), ambas evangélicas.

Vinicius Torres Freire - O leite sujo e derramado na eleição

Folha de S. Paulo

Compra de votos custa mais do que gasto eleitoreiro; Justiça não se preparou para fakes

Está uma corrida maluca para se fazer a conta de quanto o governo Jair Bolsonaro (PL) gastou a fim de adquirir votos. Está um "barata voa" no TSE, afogado pela torrente de "fake news" e outras imundícies. É leite derramado, eram bolas cantadas.

Além disso, essas contas de gasto eleitoreiro são meio ingênuas e deixam transparecer uma ideia equivocada dos efeitos de políticas de governo. O TSE, por sua vez, quis conter a onda de sujeira com um balde e tomou um caldo, "hecatombado pela vaga da ressaca", para citar Mario Faustino (poeta, 1930-1962).

Bruno Boghossian - Cortando caminho

Folha de S. Paulo

Campanha quebra barreira da economia entre fiéis de baixa renda e investe em temas morais

A campanha de Jair Bolsonaro quebrou uma barreira e conseguiu abrir uma vantagem considerável sobre Lula entre os evangélicos mais pobres. Em meados do primeiro turno, o presidente era o favorito dos fiéis de renda média e alta, mas enfrentava uma disputa parelha na base da pirâmide. Agora, ele supera o petista por 27 pontos entre os eleitores desse grupo religioso que recebem até dois salários mínimos por mês.

Bolsonaro tem 61% das intenções de voto entre os evangélicos de baixa renda, contra 34% de Lula. As variações detectadas pelo Datafolha sugerem que o presidente vem ganhando musculatura nessa faixa, tendo ampliado em nove pontos a diferença sobre o petista na última semana.

Hélio Schwartsman - Como o mundo enriqueceu

Folha de S. Paulo

Dois séculos atrás, 94% dos terráqueos viviam com menos de US$ 2 por dia

Você, leitor, trocaria de lugar com um nobre inglês do ano 1200? É verdade que, se o fizesse, teria vários servos à sua disposição e teria acesso aos benefícios políticos de ser um membro do estamento superior. Mas teria de viver num castelo muito pouco confortável, veria vários de seus filhos morrerem na infância e teria uma grande chance de sucumbir por doenças hoje facilmente tratáveis. A diarreia matou dois reis ingleses; a varíola, outros dois. E o mundo era bem mais pobre também.

Dois séculos atrás, 94% dos terráqueos viviam com menos de US$ 2 por dia (dólares de 2016). Em 2015, menos de 10% da população mundial vivia com menos de US$ 1,90 por dia. Dez por cento de 8 bilhões é muita gente, e US$ 1,90 por dia está longe de ser o resgate de um rei, mas parece inegável que houve progresso.

Janio de Freitas - Os cofres públicos de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Uso do dinheiro público para seduzir eleitorado tipifica crime

É o cúmulo do atraso em uma sociedade que o futuro de um país com 156 milhões de eleitores, ou o futuro da mais influente potência mundial, seja subordinado à difusão de informações falsas. Cá e lá, essa nova arma antidemocracia encontrou adeptos e condições favoráveis como em nenhum outro país. Cá e lá, a direita mais desvairada domina, em número e falta de escrúpulos, o uso proveitoso dessa nova criminalidade que se sobrepõe até ao Estado perplexo e impotente.

Por aqui, não basta. A imoralidade predominante no poder de governo está em nível equivalente às republiquetas e tiranias mais indecentes, do passado e do presente. O uso do dinheiro público por Bolsonaro e Paulo Guedes, para seduzir segmentos do eleitorado, tipifica crime múltiplo. A começar por transgredir a proibição legal de medidas, no período eleitoral, favorecedoras do eleitorado a seduzir.

Muniz Sodré* - Hooligans na basílica

Folha de S. Paulo

Agrupados, são facções de palavrório e vandalismo, como vivandeiras de quartel

Uma imagem-choque do grotesco: bêbado, trajando verde e amarelo, homem de meia-idade com a foto do presidente numa caneca de chope provoca o entorno aos gritos de que aquele ali era "deus, sim". Ao fundo, uma matrona embriagada saltitava.

A cena poderia constar da micareta sob a sacada da embaixada brasileira no funeral da rainha. Só que ocorreu na basílica de Nossa Senhora Aparecida, no feriado nacional da padroeira, em meio às vaias contra a homilia do arcebispo e às agressões a jornalistas. Apesar das cores nacionais, a baderna violenta carrega um nome de origem inglesa: hooliganismo.

Entrevista | Professor Marco Nobre: ‘É preciso reconstruir a direita democrática’

Por Marcelo Godoy / O Estado de S. Paulo

Filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcos Nobre identifica uma singularidade na situação política atual do País: não estamos diante de uma polarização, mas de uma divisão. Ele explica. Polarização é que o existe quando forças opostas disputam o poder aceitando as regras do jogo democrático. A divisão ocorre quando essas regras parecem não mais serem suficientes para resolver as disputas e os conflitos que aparecem na democracia. As sociedades se aproximam então de soluções catastróficas, como a guerra civil, ou rumam para a construção de um novo pacto, que isole o extremismo que procura corroer a democracia para impor sua vontade à outra parte da nação. Nobre, que é presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e autor entre outros do livro Limites da Democracia, pensa que, no Brasil, esse impasse pode ser superado se o novo governo mudar a forma de construção de maioria no Congresso, não mais buscando formar uma supercoalizão, modelo que ele chama de peemedebização, que vigorou no País entre 1994 e 2013. Isso permitiria o surgimento de espaço para uma oposição democrática. “É preciso reconstruir a direita democrática e, sobretudo, que ela consiga a hegemonia do campo da direita.”

Eis aqui a íntegra de sua entrevista ao Estadão:

Eliane Cantanhêde – Divisor de águas

O Estado de S. Paulo

A pergunta de 2022 é: que país, que futuro e que mundo nós queremos?

É tenso, cansativo, às vezes irritante e até aterrorizante, mas é também um desafio fascinante acompanhar de perto as eleições de 2022, num grande momento histórico, um verdadeiro divisor de águas. Não se trata só de eleger o futuro presidente, o PT ou o PL, mas de definir o destino do País pelas próximas décadas, num mundo açoitado por ventos, chuvas e trovoadas.

Vivemos ditadura, Diretas Já, morte de Tancredo, Constituinte, ascensão, queda e retorno de Collor, transição segura de Itamar, estabilidade estruturante de Fernando Henrique, inclusão social e petrolão de Lula, desgoverno Dilma, instabilidade com Temer e concentração de poder e de absurdos de Bolsonaro. Em 2022, é diferente: um confronto de visões de mundo, de civilização.

Rolf Kuntz* - A política das trevas

O Estado de S. Paulo

Dois séculos depois da Independência, brasileiros vivem uma guerra santa incompatível com aCarta outorgada em 1824 por d. Pedro I.

De volta às trevas, o Brasil vai às urnas no meio de uma guerra santa, com a disputa contaminada por um discurso religioso prenhe de ódio e de preconceito. Mais de um século depois de proclamada a República, seguidores do presidente convertem o púlpito em palanque, renegando a noção de Estado laico. A separação entre religião, política e função pública foi muito bem estabelecida, no entanto, já na Constituição de 1891, a primeira do período republicano. Naquela Carta, a laicidade estatal é evidenciada na garantia da liberdade religiosa, na proibição de aliança entre igrejas e governos, no reconhecimento exclusivo do casamento civil, no caráter secular dos cemitérios e numa regra fundamental da educação. “Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos”, determinou o parágrafo 6.º do artigo 72.

Cacá Diegues - Tomara que não

O Globo

Nunca havia acontecido nada parecido antes no Brasil: a cultura virou um item que só interessa ao mercado

Semana passada, contei aqui uma história, de hábito contada pelo grande cineasta Nelson Pereira dos Santos, uma história que terminava sempre com um desfile de boas notícias sobre eleições que estivéssemos vivendo naquele momento, como estas que vivemos hoje. Nelson faleceu em abril de 2018, para desgraça de nossa cultura e do cinema em geral, deixando entre os que ficaram o exemplo de um enorme cineasta, inigualável intelectual e um crítico bem-humoradíssimo da criação feita entre nós e que valia a pena existir.

Nas histórias (ou estórias) dele havia sempre heróis clássicos, desses que a gente vivia citando, mesmo sem saber exatamente de onde eram, o que haviam dito das mulheres, dos amigos e da vida, em que esquina e para que turma jogavam depois a conversa fora. Ninguém ousava fazer tais perguntas a Nelson, mas era isso o que a gente comentava no meio dos sussurros comprovados.

Cristovam Buarque* - Não assustemos ao mundo

Blog do Noblat / Metrópoles

Um candidato a favor da ditadura, da tortura, praticante da corrupção, da manipulação de mentiras, desprezo aos pobres e doentes

O Brasil assusta ao mundo que não entende as razões para um dos maiores exportadores de alimentos ter uma imensa população de famintos. Agora, assusta com o fato de que uma das democracias com maior número de eleitores chega na véspera das eleições para Presidência da República com um candidato a favor da ditadura, da tortura, praticante da corrupção, da manipulação de mentiras, desprezo aos pobres e doentes, perseguidor de meninas que ele considera prostitutas pelo simples fato de serem imigrantes venezuelanas, e no lugar de tomar medidas para protegê-las, tenta tirar proveito da tragédia.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Ameaça autocrática

Folha de S. Paulo

Concentrar poder é o verdadeiro programa de governo de Jair Bolsonaro

Nunca foi tão avassaladora a maioria de brasileiros que consideram a democracia a melhor forma de governo, de 79% segundo o Datafolha. Nunca na Nova República um presidente ameaçou a estabilidade constitucional como o atual mandatário.

Jair Bolsonaro (PL) valeu-se do cargo para constranger e ameaçar Poderes independentes, insultar autoridades e propagar uma farsa contra o sistema eleitoral diante de brasileiros e estrangeiros.

Promoveu tratamentos ineficazes de uma doença letal, retardou a aquisição de vacinas, debochou de famílias enlutadas, protegeu os filhos de investigações e atiçou militares contra o poder civil.

Conclamou arruaceiros a cercarem as seções de votação no próximo domingo (30).

A agenda que deveria ser a do futuro —educação, saúde, infraestrutura, inovação, redução da pobreza e das desigualdades— ocupou-se de temas que já deveriam estar superados. A sociedade e as instituições tiveram de gastar energia preciosa para proteger regras básicas da convivência democrática.

Agora, como nos outros oito pleitos presidenciais realizados desde 1989, os votos serão dados livremente, a apuração revelará a vontade majoritária, e o eleito tomará posse e governará com as prerrogativas e as obrigações de chefe de Estado.

Esperar que o próprio candidato à recondução tenha compreendido e acatado os limites do mandato seria pouco realista diante do que se vê desde 2019.

É melhor trabalhar com a hipótese corroborada pela experiência —tornar-se autocrata é o verdadeiro programa de governo de Jair Bolsonaro para um eventual segundo mandato.

Poesia | Bertold Brecht - Se os tubarões fossem homens

 

Música | Caetano Veloso, Gilberto Gil - Desde que o samba é samba

 

sábado, 22 de outubro de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - Votar pelo futuro

O Estado de S. Paulo

O voto em Lula nesta eleição é, no mínimo, uma medida cautelar, uma manifestação de cuidado e preocupação com o Brasil.

Não é correto nem digno, nesta hora dramática em que vivemos no Brasil, silenciar sobre o que está em jogo no segundo turno das eleições presidenciais.

Não estamos diante de uma disputa qualquer, de uma competição entre dois candidatos que se posicionam com um idêntico respeito pelas regras democráticas. Lula e Bolsonaro são pontos antípodas de uma disputa que transcorre de modo imperfeito, sem muita clareza e sem densidade. O embate entre eles se tem feito em tom de ataques recíprocos, sem preocupações programáticas ou de esclarecimento público. Tudo tem sido levado para o palco eleitoral – da liberdade religiosa às convicções morais –, o que dificulta o discernimento e as escolhas da população.

A batalha eleitoral de 2022 é entre democracia e autoritarismo, civilidade e barbárie.

O que está em disputa hoje, muito mais do que em outros momentos de nossa experiência como Estado democrático, é uma ideia de País e, sobretudo, de governo.

O Brasil não vai acabar, por mais que esteja à beira do precipício. Tem resiliência e recursos para seguir em frente. Mas pode continuar piorando, o que será trágico. Estamos ficando para trás em diversos setores estratégicos, como o ambiental, o científico e o tecnológico. Áreas sociais estratégicas – saúde e educação, antes de tudo – foram desconstruídas e abandonadas à própria sorte. Nossa imagem no mundo nunca foi pior, consequência de uma política externa feita com rancor, sem diplomacia e baseada em postulações ideológicas. As agressões à democracia, às instituições do Estado, à civilidade, ao decoro público foram tantas que, se continuarem a se repetir, farão do Brasil uma caricatura.

Bolívar Lamounier* - Equilíbrio pelo terror

O Estado de S. Paulo

Em Brasília ele não acontece todos os dias. É intermitente e cheio de mistérios. Entra em estado de suspensão como o erário mostra sua face dadivosa.

Equilíbrio pelo terror é uma situação comum na história dos povos, em todos os níveis, na política e em cada escaninho da sociedade.

Claro, ele é mais facilmente perceptível no topo da pirâmide mundial de poder, naquela altitude onde lorpas e pascácios se divertem com a hipótese de destruírem o planeta. Imaginam tal situação, caem na gargalhada e, em seguida, sérios, diante das câmeras, aterrorizam os mortais comuns com a mensagem de que cedo ou tarde, de fato, transformarão a Terra num monte de pedrinhas. No momento atual, é esse o espetáculo em cartaz em Moscou, disponível nas melhores casas do ramo. Não tendo como distinguir o que é realidade e o que é teatro, nos apavoramos, óbvio, pois sabemos que o sr. Vladimir Putin não bate bem da cabeça. A devastação que já impingiu à Ucrânia nos força a crer que está falando sério.

Mas, como antecipei, a busca do equilíbrio pelo terror acontece até nos menores nichos da vida animal. Garotos igualmente exímios no manejo do estilingue, em geral, preferem agredir seus amigos ineptos, pois têm ciência de que rivais exímios lhes darão o troco. Um touro bravio quase sempre opta por esperar sua vez a impedir outro também bravio que já se aproximou de uma garbosa novilha.

Oscar Vilhena Vieira* - Democratas contra a democracia?

Folha de S. Paulo

Nem todas as pessoas entendem a democracia de uma mesma forma

O que leva uma parcela de eleitores que se manifestam favoráveis à democracia a escolherem governantes autoritários, que desprezam valores democráticos e atacam sistematicamente as suas instituições, como vem ocorrendo em países tão distintos como Estados UnidosHungria ou Brasil?

Nada menos que 79% dos brasileiros, conforme o último levantamento realizado pelo Datafolha, apontam a democracia como a melhor forma de governo. Para apenas 5%, a ditadura é melhor regime. Como explicar, então, um apoio significativo a um candidato abertamente autoritário como Bolsonaro?

Hélio Schwartsman - Quem precisa de ditadores?

Folha de S. Paulo

Ala bolsonarista do Novo entende que Amoêdo difamou a imagem do partido

Há um problema com os liberais brasileiros. Eles parecem não saber o que é liberalismo. A demonstração de ignorância desta vez vem do Novo, partido que se vende como agremiação genuinamente liberal. Pois bem, lideranças do Novo pedem a expulsão do fundador da legenda, João Amoêdo, por ter declarado voto em Lula. A sigla havia liberado seus filiados a se posicionarem como quisessem no segundo turno, mas a ala bolsonarista do partido, francamente majoritária, entende que Amoêdo difamou a imagem ou reputação do Novo, o que, pelo estatuto, é infração que pode gerar expulsão.

Cristina Serra - Máquinas do ódio contra o eleitor

Folha de S. Paulo

Bastou o TSE tentar cumprir melhor o seu papel para ser criticado por falta de transparência

O TSE ampliou seus poderes para atuar contra uma imensa e complexa rede criminosa de propagação de mentiras, distorções e manipulações operada pela candidatura da extrema direita. Antes tarde do que muito tarde.

A transmissão massiva de desinformação é concatenada em vários níveis pela campanha de Bolsonaro com o intuito de tentar nocautear o adversário, que se vê obrigado a esclarecer falsidades o tempo todo, além, claro, de desestabilizar o sistema eleitoral.

Ao não divulgar sua avaliação sobre a eleição no primeiro turno, o ministério da Defesa contribui para a fermentação de teorias conspiratórias sobre as urnas. Não divulga, simplesmente, porque não tem como reprovar a urna eletrônica. Mas, ao postergar suas conclusões, age para semear dúvidas e suspense.

Alvaro Costa e Silva – Quem é o bandido?

Folha de S. Paulo

Campanha de Bolsonaro bate recorde de mentiras e desumaniza moradores de favelas

Carimbo do bolsonarismo, a mentira consome o Brasil desde 2018. Só agora, na boca do segundo turno, o TSE resolveu agir de forma dura e ágil, investigando o "ecossistema de desinformação" a favor do candidato governista e determinando a desmonetização de canais e a retirada de fake news no prazo de duas horas. Os suspeitos contumazes — Bolsonaro e seu filho Carlos estão na lista, claro — terão de dar explicações à Justiça Eleitoral.

Uma coisa é certa: as notícias falsas, até 30 de outubro, vão aumentar, assim como a insanidade delas. Na véspera do primeiro turno, uma reportagem mentirosa —segundo a qual o líder do PCC, Marcola, teria declarado voto em Lula — atingiu milhões de visualizações no YouTube até ser excluída, por ordem do TSE, na manhã do dia de votação.

Demétrio Magnoli - Meios e fins

Folha de S. Paulo

Os fins justificam os meios, assegura a crença de pessoas que se imaginam moralmente superiores

"O tema dessa campanha não é economia, são os temas propostos por Bolsonaro, o que significa que o presidente venceu o debate desta eleição". Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, não erra no diagnóstico. Na TV e nas redes sociais, a campanha de Lula emula a linguagem do bolsonarismo. Segundo a síntese do ministro, "Lula não está lutando no campo dele; está travando uma eleição no campo adversário".

A gosma oriunda da campanha bolsonarista espalhou-se por toda a comunicação eleitoral, dos dois lados. Sob o "efeito Janones", a campanha lulista transitou da qualificação de "genocida", aplicada ao presidente desde a pandemia, para sugestões de que ele teria inclinações ao canibalismo e à pedofilia. Jogo empatado? Diferentes pesquisas, que registram discretas quedas nos índices de rejeição a Bolsonaro, indicam que não. O jogo "no campo adversário" sempre serve ao adversário – eis uma regra universal da política.

Ascânio Seleme - Mentir pode?

O Globo

O pleno do TSE ganhou uma responsabilidade que transcende esta eleição e marcará todos os pleitos de agora em diante

O Tribunal Superior Eleitoral terá de responder em decisão colegiada se candidatos podem mentir em campanhas eleitorais. A decisão será balizadora do futuro, de resto bastante ameaçado em razão da própria mentira que se transformou no principal capital eleitoral de Jair Bolsonaro. Ao remeter para o plenário a decisão sobre o pedido de direito de resposta feito pelo PT, a ministra Maria Cláudia Bucchianeri não apenas transferiu ao colegiado uma decisão que podia ser sua (e que foi até ela voltar atrás), mas deu ao pleno do TSE uma responsabilidade que transcende esta eleição e marcará todos os pleitos de agora em diante.

O caso submetido a Maria Cláudia Bucchianeri é restrito a afirmações formais feitas em inserções da campanha de Bolsonaro e que o PT julga mentirosas. Mas a decisão que o tribunal tomar ao se reunir para decidir a questão será mais ampla do que isso. Se o plenário não der o direito de resposta a ilações claramente falsas estará autorizando a mentira. A ministra voltou atrás da decisão inicial por não suportar a pressão política feita pela campanha e pelos partidos que apoiam o presidente. A obrigação do colegiado é ser mais forte e refratário a pressões do que um ministro individualmente.

Carlos Alberto Sardenberg - Onde buscar os votos que faltam?

O Globo

No primeiro governo, petista contou com a colaboração de líderes do agronegócio. Perdeu parte do apoio, mas tem como recuperá-lo

Então somos quase todos democratas, pelo Datafolha. Nada menos que 79% dos brasileiros, nível recorde, se declaram pela democracia. Mas certamente não se entendem na questão essencial: de que regime mesmo estamos falando?

Ocorre que 80% dos eleitores de Bolsonaro dizem apoiar a democracia. Considerando os votos do primeiro turno, isso dá quase 42 milhões. É claro que não todos, mas muitos desse grupo, a começar pelo próprio presidente Bolsonaro, acham que já existe uma quase ditadura no Brasil, a do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente quando se trata do ministro Alexandre de Moraes.

Portanto, para essa turma, fechar o Supremo ou afastar juízes dessa Corte seria defender a liberdade e, pois, a democracia.

Se alguém acha que isso faz sentido, pode se incluir naquele grupo.

Entre os eleitores de Lula, 78% manifestam preferência pela democracia. Também pela votação do primeiro turno, são quase 45 milhões de eleitores. Em números absolutos, mais que entre os bolsonaristas. Em proporção, menos, mas está, digamos, na margem de erro. É claro que não todos, mas muitos do grupo lulista acham que quem vota no Bolsonaro é fascista.

Pablo Ortellado - O TSE vira alvo

O Globo

Em caso de derrota, eles alegarão que perderam no tapetão

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tomou uma série de medidas para tentar controlar a difusão de desinformação no segundo turno. O bolsonarismo reagiu acusando-o de parcialidade e ampliando os ataques à Justiça Eleitoral — usando até mais desinformação.

A Corte tomou três medidas na última semana para punir a onda de desinformação. A primeira, atendendo a um pedido da coligação de Lula, foi suspender a monetização de quatro grandes canais bolsonaristas no YouTube —Foco do Brasil, Folha Política, Brasil Paralelo e Dr. News — e impedir que as empresas que os administram impulsionem conteúdos sobre Lula ou Bolsonaro nas mídias sociais. A Brasil Paralelo sozinha gastou mais de R$ 700 mil em impulsionamento de conteúdos políticos apenas em outubro. Além disso, o TSE determinou o adiamento para depois da eleição do lançamento de um documentário da Brasil Paralelo sobre a facada em Bolsonaro.

Paulo Sternick* - Déficit de bom senso

O Globo

Primeiro turno sofreu influxo de reação primitiva do imaginário de um eleitorado aterrorizado pela ascensão da esquerda

Jorge Luís Borges dizia ser suficiente ler jornais a cada cem anos. Fatos realmente importantes aconteceriam raramente. Mas a vida mudou, e hoje o jornal — a mídia em geral — é indispensável fonte de informação e análise do peculiar e acelerado mundo que nos cerca. Trecho de uma letra de Dua Lipa, na música “Future nostalgia”, aponta para um assombroso espírito de mutação: “Eu sei que você está morrendo tentando me entender; meu nome está na ponta da sua língua; continua correndo na sua boca; você deseja uma fórmula, mas não aguenta meu som”.

O som do futuro pode ser inaudível, mas ensurdece. Estar na ponta da língua, sem conseguir dizer, resume o impasse entre o mal-estar e sua tradução simbólica. Somos atônitos prisioneiros de um indizível, soterrados em meio aos espectros do futuro. Mas nem tudo é obscuro. O recente artigo de Paul Krugman no New York Times — “Por que a libra britânica está tomando uma surra?” — é autêntica aula de economia e também de psicologia financeira. Pergunta Krugman:

— Então, o que explica a súbita queda da libra?

Uma resposta que lhe agradou veio do economista Dario Perkins, do centro financeiro de Londres:

— O problema com o orçamento não é seu impulso inflacionário, mas sua “idiotice”. Uma economia administrada por idiotas tem de pagar pelo “risco extra”.

Eduardo Affonso - O Brasil mais profundo

O Globo

Um país arcaico, avesso à mudança, agarrado à propriedade privada, obcecado com segurança

Uma justificativa para que sejam Lula e Bolsonaro os candidatos que chegaram ao segundo turno é que, cada um a seu modo, ambos representam o Brasil profundo.

Um Brasil arcaico, avesso à mudança, agarrado à propriedade privada, obcecado com segurança, refém dos valores herdados dos tataravós — um Brasil simples, que se veria traduzido num homem comum, como Bolsonaro. Ou um Brasil que luta contra a adversidade, a miséria, o desamparo e anseia por um líder messiânico, carismático, um pai dos pobres — um Brasil humilde, que se reconheceria num homem do povo, como Lula.

Mas Bolsonaro não é simples: é simplório. Lula não é do povo: é populista.

O Brasil profundo não tem nada a ver com esse das profundezas de onde emergiram janones, tiburis, nikolas, kicis, damares, zambellis, ninas, bolsonaros. O Brasil profundo é conservador, não reacionário. É religioso, não fanático. Quer justiça, não justiçamento. Prefere a liberdade à ditadura, o honesto ao corrupto, o sincero ao hipócrita, o sério ao fanfarrão. Não gosta da mentira, tampouco simpatiza com a censura. Cadê esse Brasil no segundo turno?

João Gabriel de Lima* - A direita e a ‘direita do B’

O Estado de S. Paulo

Direita e esquerda se uniram por achar que é hora de voltar a conversar sobre problemas concretos

A direita brasileira se dividiu. Uma parte está com Bolsonaro, outra apoia Lula. O cisma nas direitas, que surpreendeu os brasileiros, é fenômeno mundial. Na Europa, já faz algum tempo que a política deixou de ter dois lados. O espectro ideológico se divide em três: esquerda, direita e direita radical – ou “populist radical right” (PRR), no jargão dos cientistas políticos.

A direita tradicional diverge da esquerda em temas econômicos: prefere o setor privado como motor da economia, e não o Estado, e vê a prosperidade como principal fator de inclusão social, e não as políticas distributivas. O partido que representa a direita na Espanha é o PP, Partido Popular. Em Portugal é o PSD, Partido Social Democrata. No Brasil, os votos da direita costumavam desembocar no PSDB.

A direita radical tem pouco em comum com a tradicional. Seu foco são a guerra cultural e o ataque aos consensos do mundo moderno. Na Europa, opõe=se ao multiculturalismo e defende restrições à imigração. Na América Latina, a obsessão é a pauta de costumes – a expressão “ideologia de gênero”, pouco usada na Europa, foi criada num congresso episcopal no Peru.

Adriana Fernandes - Consignado, caldeirão prestes a explodir

O Estado de S. Paulo 

Consignado do Auxílio Brasil se transformou em ferramenta de campanha

Os beneficiários do programa Auxílio Brasil são alvo de um verdadeiro bombardeio de fake news nessa reta final das eleições presidenciais. A artilharia pesada tem causado pânico e medo na população mais vulnerável do País.

A escalada das notícias mentirosas atreladas às eleições por conta do crédito consignado vinculado ao programa social atingiu um exacerbado grau de desfaçatez e crueldade com essa população de baixa renda.

Atraídos para grupos fechados de Whatsapp, os beneficiários do Auxílio Brasil, que estão literalmente desesperados para receber o dinheiro do consignado – a despeito do custo altíssimo, com juros de mais de 50% ao ano –, ficam à mercê das mentiras de toda a sorte que circulam aos milhões nas redes sociais.

Quem acompanha nos grupos abertos ou consegue entrar nos fechados pode identificar o estado de caos social que está se formando em torno do empréstimo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Apoio recorde à democracia tem de ser lido com cautela

O Globo

Repúdio à ditadura atinge maior nível desde 1989, mas não está claro como brasileiro define regime democrático

É sem dúvida um alento saber que, a poucos dias do segundo turno das eleições, o apoio à democracia atingiu no Brasil o ápice na série histórica medida pelo Datafolha desde 1989. No indicador mais relevante, apenas 5% afirmam que “sob algumas circunstâncias” uma ditadura pode ser melhor (eram 20% em 2018 e 12% em 2020). Para 79% dos entrevistados, a democracia é sempre melhor que qualquer outra forma de governo.

O repúdio à ditadura é maior entre os brasileiros que no resto da América Latina. De acordo com os últimos dados disponíveis no Latinobarómetro, apurados em 2020, 24% dos paraguaios, 22% dos mexicanos, 13% dos argentinos e 12% dos chilenos aceitariam uma ditadura “sob algumas circunstâncias” (na média latino-americana, eram 13%). Num país com histórico recente de regime ditatorial, em meio à guerra suja da campanha eleitoral, os resultados são motivo para comemoração.

Mesmo assim, a leitura da pesquisa exige cautela. Ela não revela o que cada entrevistado entende por democracia. É bem possível que a maioria apoie o regime democrático pensando estritamente no direito de depositar seu voto na urna. Embora primordiais, eleições não encerram a questão, pois infelizmente não impedem que democracias sejam solapadas. Consultas populares de Hugo Chávez na Venezuela ou Viktor Orbán na Hungria sufocaram a oposição. Manipulando a opinião pública , ambos eternizaram seus regimes no poder. As ditaduras com tanques nas ruas saíram de moda. Até o russo Vladimir Putin se dá ao trabalho de realizar eleições periódicas.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Um boi vê os homens

 

Música | Verônica Ferriani e Swami Jr. - Corsário (João Bosco e Aldir Blanc

 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Entrevista | Steven Levitsky: Lula não é comparável a Bolsonaro

Cientista político americano diz que Lula deveria ter feitos acenos a empresariado no 1º turno

Por Alex Ribeiro / Valor Econômico

SÃO PAULO - O professor da Universidade de Harvard Steven Levitsky diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa fazer acenos à classe média e ao setor privado, com maior detalhamento de sua agenda econômica, para ampliar o apoio no segundo turno das eleições.

“Penso que o Lula foi excessivamente confiante no primeiro turno, presumindo que iria vencer com uma vantagem maior do que ele venceu”, afirma em entrevista ao Valor Levitsky, coautor do livro “Como as Democracias Morrem”, com Daniel Ziblatt, que identificou o novo padrão usado pelos autocratas para subverter os regimes democráticos.

“Sem dúvida, [Lula] precisa de acenos para obter o apoio da classe média e do empresariado de que ele precisa para vencer a eleição e para governar”, afirma. “Ele deveria ter feito todas essas coisas no primeiro turno.”

Já na eleição de 2018 Levistsky disse que Jair Bolsonaro é uma ameaça à democracia e, agora, ele vem sustentando que um novo mandato permitirá ao presidente ganhar o controle sobre instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF). “Acho que a democracia brasileira é robusta para sobreviver a isso que passou”, afirma ele. “Mas, oito anos, não sei. Acho que o Brasil pode perder a democracia.”

Alguns empresários e setores da Faria Lima vêm citando receios de retrocessos na agenda econômica, como o risco da volta do populismo, para não apoiar Lula. Levitsky acha que o petista, caso seja eleito, vai pegar uma situação econômica difícil. Mas, pondera, é “experiente e pragmático” e deverá responder à crise da mesma forma como fez de 2003 a 2010, “com responsabilidade na área macroeconômica”.

Ainda assim, diz, considera “legítimo” que o setor privado tenha desconfiança sobre a futura agenda de Lula, depois da crise ocorrida no governo Dilma Rousseff - por isso a necessidade de dar garantias de responsabilidade macroeconômica para o eleitorado.

Corrupção é outro tema que Lula deveria assumir mais compromissos. “É muito importante, se o PT quiser se manter como um dos mais importantes partidos políticos, fazer uma autocrítica e se renovar, desenvolvendo compromissos públicos e críveis para combater a corrupção”, afirma. “Não os vi fazendo isso.”

Levitsky considera uma “desonestidade” afirmar que Lula se assemelha a Bolsonaro na falta de credenciais democráticas, porque o partido defende a regulação da mídia ou porque o ex-presidente ensaiou deportar um jornalista estrangeiro.

“Não sei como essas pessoas defendem esses argumentos, se você olhar o que aconteceu de 2003 a 2010”, afirma. “Não existe um cientista político na Terra que acha que o Lula é comparável ao Bolsonaro.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.