domingo, 3 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Cessar-fogo já entre Israel e Hamas

Folha de S. Paulo

Legítimo na origem, como resposta ao terrorismo, conflito deve parar devido ao número de mortos e à disparidade de força

Na quinta (29), militares israelenses atiraram contra palestinos durante distribuição de comida em Gaza, deixando mais de uma centena de mortos, segundo o Hamas, ou 10 vítimas, de acordo com Israel, em novo episódio lamentável de uma guerra sangrenta e desigual.

O incidente, que ainda tem de ser mais bem esclarecido, evidencia um dos aspectos cruéis do atual conflito: a assimetria no número de vítimas entre os dois lados.

O ato selvagem do grupo terrorista palestino, que deu origem à nova fase da guerra interminável na região, matou 1.269 pessoas, entre elas mulheres e crianças, no maior ataque sofrido por Israel; dos 253 sequestrados, bebês inclusive, muitos continuam desaparecidos.

A reação militar que se seguiu, justificável na origem, escalou para uma mortandade sem precedentes no conflito israelo-palestino, embalada pelo gabinete de extrema direita de Binyamin Netanyahu. Segundo autoridades palestinas, já são 30 mil os mortos em Gaza, a maioria mulheres e crianças.

Merval Pereira - Avanços democráticos

O Globo

Não chegamos à postura profissional de forças militares de países mais equilibrados democraticamente, mas estamos à frente quando se trata de investigar e punir a sedição

O depoimento de oito horas do ex-comandante do Exército Freire Gomes na Polícia Federal tem tudo para ser definidor dos rumos finais da investigação sobre a tentativa de golpe de janeiro de 2023. A escolha de não se calar no interrogatório, como a maioria dos militares que seguiu uma orientação explícita do ex-presidente Jair Bolsonaro, significa que o general quatro estrelas não tem o que esconder, colocando em evidência que a sua posição antigolpista não foi uma atitude oportunista.

O papel dos militares de alto escalão no plano golpista é um tema delicado que precisa ser destrinchado, pois não pode haver solução completa do caso sem que se constate a culpa de quem deixou que os acampamentos dos revoltosos crescessem no entorno dos principais quartéis. Foi essa decisão que permitiu todo o planejamento da marcha contra a Praça dos Três Poderes, quando claramente o policiamento recebeu instruções para proteger os manifestantes, e não reprimi-los, evidenciando que a intenção era cercar a praça, que deveria ter sido blindada.

Bernardo Mello Franco - A cruzada de Michelle

O Globo

Em comício na Paulista, ex-primeira-dama expôs projeto de dominação pela fé

Enquanto o marido clamava por anistia aos golpistas, Michelle Bolsonaro usou o comício da Avenida Paulista para promover outra causa: a supressão do Estado laico.

A ex-primeira-dama abriu o ato do último domingo, organizado pelo notório pastor Silas Malafaia. Do alto do trio elétrico, ela citou trechos da Bíblia, distribuiu aleluias e anunciou um projeto de dominação pela fé.

“Por um bom tempo, fomos negligentes a ponto de dizer que não poderiam misturar política com religião. E o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”, conclamou. “Nós te amamos, Pai. Nós te amamos e te pedimos que o Senhor estabeleça o seu reino no Brasil”, prosseguiu.

Luiz Carlos Azedo - Novo coronelismo mostra abuso de poder econômico e impunidade

Correio Braziliense

Desde o tsunami eleitoral de 2018, os partidos operam um movimento de blindagem eleitoral que se caracteriza pelo abuso do poder econômico e garantias de impunidade

Um presidente da República não pode ser investigado nem processado pelo Supremo Tribunal Federal no exercício do mandato. Somente o Congresso pode fazê-lo, por um processo de impeachment, seja por causa da compra irregular de um Fiat Elba, seja uma "pedalada fiscal", como aconteceu com os ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, respectivamente. É um processo político, cujo desfecho depende da consistência de sua base parlamentar. Ministros do STF também têm prerrogativas excepcionais, mas podem ter seus mandatos cassados pelo Senado.

Senadores e deputados não têm essa prerrogativa. Podem ser investigados e processados, como qualquer cidadão, mas apenas pelo Supremo. Agora, porém, a oposição e o baixo clero da Câmara se articularam para votar uma mudança constitucional que lhes garanta impunidade no exercício do mandato, obstruindo investigações da Polícia Federal (PF), que só ocorrem a mando do STF, por terem foro privilegiado. Além disso, querem acabar com esse mesmo foro para serem processados em primeira instância e, ainda, proibir decisões monocráticas sobre a constitucionalidade de suas deliberações e restringir o mandato dos ministros do Supremo.

Míriam Leitão - A fotografia da economia

O Globo

O ano passado cresceu mais do que o esperado, mas agora em 2024 o resultado será mais disseminado na economia, ainda que menor

Na economia, o ano passado foi melhor do que o esperado e este ano será melhor do que parece. A natureza do crescimento do PIB é diferente entre os dois anos. Em 2023, a alta de 2,9% foi concentrada em agricultura e indústria extrativa, este ano pode ser alavancada pela queda dos juros, pelo aumento do crédito e do consumo, um crescimento mais disseminado. Há lições importantes a serem tiradas do desempenho da economia. O mercado precisa melhorar seus modelos porque nos últimos três anos subestimou em sete pontos percentuais o crescimento do PIB, quando se compara o dado final com as projeções feitas no início de cada ano. O ministro Fernando Haddad fez um bom trabalho em superar as divisões internas e ao reverter o ceticismo do mercado, mas ainda tem batalhas decisivas pela frente.

Dorrit Harazim - Dia infame

O Globo

Fuzilaria virou gatilho para desencadear cobranças, pedidos de investigação e acusações por parte de aliados históricos de Israel

A última entrega de alimentos da ONU aos famintos da cidade de Gaza fora no dia 23 de janeiro. Perto de 250 mil civis palestinos vagavam entre as ruínas de suas vidas passadas havia 37 dias e 37 noites. Todo vestígio de comando ou estrutura administrativa havia sido erradicado pelos bombardeios e pela ocupação militar israelense. Mais de 1 milhão de famílias já haviam sido desterradas a fórceps para o sul. Os que permaneceram formavam um amontoado humano em meio ao nada, sem amanhã. O fundo do poço era ali: muitos alimentavam os filhos com ração animal, enquanto cães igualmente errantes se alimentavam de pedaços de carne humana entre destroços.

Foi nessas condições que Gaza chegou às primeiras horas da madrugada de quinta-feira, 29 de fevereiro deste ano bissexto. Dia infame.

Elio Gaspari - De Adolf Hitler@Reich para Lula@gov

O Globo

Prezado senhor,

Escrevo-lhe porque vi que depois de se meter numa briga com os judeus, o senhor se explicou dizendo que nunca falou no Holocausto. Indo-se à literalidade de suas falas, a razão está consigo. Recapitulo:

Em Adis Abeba o senhor disse o seguinte:

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino, não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus.”

Dias depois, ao se explicar, o senhor esclareceu:

“Não tentem interpretar a entrevista que eu dei. Leiam a entrevista e parem de me julgar a partir da fala do primeiro-ministro de Israel. (...) Primeiro que não disse a palavra Holocausto. Holocausto foi interpretação do primeiro-ministro de Israel. Não foi minha. A segunda coisa é a seguinte, morte é morte.”

Senhor presidente, desse jeito, tudo se resumiu a cinco palavras: “Hitler resolveu matar os judeus.” O senhor realmente acha que eu resolvi matar os judeus e disso resultou uma máquina que exterminou seis milhões de pessoas?

Eliane Cantanhêde – Entre o céu e o inferno

O Estado de S. Paulo

Freire Gomes está entre o céu e o inferno no golpe, o que não pode é intervenção corporativista do Superior Tribunal Militar; logo, o exemplo cruel de corporativismo no julgamento de oito militares que fuzilaram covardemente um músico e um catador de latinhas assusta e irrita

Enquanto todas expectativas em Brasília estavam voltadas para o depoimento do dia seguinte do ex-comandante do Exército, general Freire Gomes, à Polícia Federal, o Superior Tribunal Militar (STM) dava um exemplo lamentável e cruel de corporativismo no julgamento de oito militares que fuzilaram covardemente o músico Evaldo Rosa e o catador de latinhas Luciano Macedo, no Rio, em 2019.

Freire Gomes, que depôs durante oito horas à PF sobre a tentativa de golpe no governo Jair Bolsonaro, está numa espécie de limbo, de onde pode ir para o céu ou para o inferno, dependendo do que disse, do que não disse, das declarações de outros militares e das provas contundentes em mãos da polícia. Ou seja, seu destino depende do que realmente aconteceu e de qual foi a sua participação em tudo aquilo.

José Eduardo Faria* - Emendas parlamentares corrompem a representatividade política

Folha de S. Paulo

Facções criminosas veem prefeituras como um novo mercado

Com a prerrogativa que a Constituição lhe dá para encaminhar ou engavetar o pedido de impeachment do presidente Lula, protocolado pela oposição recentemente, o presidente da Câmara dos DeputadosArthur Lira (PP-AL), ganhou mais força política para pressionar o Executivo a pagar emendas parlamentares individuais e de bancada até 30 de junho, quando começa o período eleitoral e a União é proibida de repassar transferências voluntárias para estados e municípios.

Ao receber o pedido, ele afirmou que o Orçamento não pode ficar nas mãos de "uma burocracia que não gasta sola de sapato percorrendo municípios do país". Sua afirmação suscita dois temas. Um trata da forma de governo, envolvendo a polêmica sobre a substituição do presidencialismo de coalizão por um semipresidencialista de fato. O outro trata das funções do Estado brasileiro.

Celso Rocha de Barros - A esquerda morreu?

Folha de S. Paulo

Quando olho para a esquerda, não vejo tanta acomodação a um sistema

Em entrevista à Folha, o filósofo Vladimir Safatle afirmou que "a esquerda política morreu como esquerda" e que "a extrema direita é hoje a única força política real no país". Enquanto a extrema direita manteria sua "capacidade de ruptura", a esquerda teria perdido sua capacidade de propor "igualdade dentro dos processos de produção e alguma forma de democracia direta".

A esquerda brasileira, obviamente, não morreu. Neste exato momento, Fernando Haddad briga para tornar a tributação brasileira mais progressiva, e acaba de propor no G20 a taxação global dos super-ricosMarina Silva certamente está entre as autoridades mundiais com melhor atuação contra o desmatamento e o aquecimento global. Há retrocessos conservadores em nomeações que ignoram a representatividade, e inúmeras áreas em que as resistências conservadoras impedem maiores progressos. Mas o terceiro governo Lula tem indicado mais, não menos, disposição para enfrentar brigas difíceis do que os governos petistas anteriores. Até porque não sobraram brigas fáceis.

Bruno Boghossian - Uma questão de nobreza

Folha de S. Paulo

Se a PF erra e abusa, deputados e senadores buscam medida para ficar fora do alcance de qualquer investigação

Não são muitos os admiradores de Carlos Jordy no alto clero da Câmara. O deputado é visto como um político barulhento e um agitador do golpe bolsonarista. Nenhuma restrição impediu que os chefes da Casa explorassem uma operação contra o parlamentar em benefício próprio.

PEC da blindagem ganhou corpo depois que a PF vasculhou o gabinete de Jordy em busca de provas de seu envolvimento com atos golpistas. Líderes de vários partidos trabalham para votar uma proposta que, na prática, poderia deixar deputados e senadores fora do alcance de qualquer investigação.

Muniz Sodré - Semeando fogo

Folha de S. Paulo

Lula, por coerência moral, deveria indignar-se também com Putin, Maduro e Ortega

"Deus conta as lágrimas das mulheres", registra o Talmude, belo livro da tradição judaica. A espessura enigmática da frase suscita várias interpretações, mas o sentido conflui para o pensamento da sensibilidade feminina como acréscimo de sabedoria e advertência para que se redobre o respeito à geração da espécie humana. Num poema sobre a tragédia nuclear ("A Rosa de Hiroshima"), Vinícius de Moraes exorta a que "pensem nas mulheres, rotas alteradas", assim como "pensem nas crianças, mudas telepáticas".

Os textos, de procedências tão diversas, vêm aos olhos junto com as notícias tenebrosas de Gaza, onde uma força militar poderosa faz terra arrasada de residências, edifícios e hospitais, até mesmo de filas de ajuda humanitária. As maiores vítimas, milhares, são mulheres e seus filhos, corpos despedaçados ou estripados como nas horripilantes incitações de divina vingança a Davi, o senhor da espada, no Velho Testamento. As crianças que sobrevivem aos escombros tornam-se mudas, sem lágrimas, mas telepáticas no sofrimento.

Vinicius Torres Freire - O delírio no PIBão do Lula

Folha de S. Paulo

Bom resultado de 2023 estimula onda de propaganda enganosa e de ignorância

economia cresceu bem em 2023. Para a propaganda oficial, foi o "PIBão do Lula".

Os replicantes da militância disseminaram o slogan e saíram à caça mesmo de quem apenas discutia o que é preciso fazer para que o crescimento seja maior. Tentavam linchar quem recorresse a um "foi bom, mas..." na conversa. Tem de haver rendição incondicional ao grande líder.

Se a besteira não tivesse consequências práticas, seria cômica.

Um terço do crescimento de 2023 veio diretamente da agropecuária. No mundo Mad Max oligofrênico das redes sociais, a gente lia que o agro foi muito bem em 2023 porque Lula fez o "maior Plano Safra da história". Mas o plano para a safra que inflou o PIB de 2023 fora o de 2022, no governo das trevas.

Entrevista com Pierre Rosanvallon. Nas mutações das democracias

 

Poesia | Segue o teu destino, de Fernando Pessoa

 

Música | Cavalo Marinho/Mundão - Banda de Pau e Corda & Quinteto Violado

 

sábado, 2 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

PIB positivo não deve obscurecer desafios do governo

O Globo

Ano começou com otimismo, mas economia ainda depende do cenário externo e da agenda de reformas

O ano de 2024 começou com excelentes notícias no campo econômico. A inflação cumpriu a meta em 2023 e tem ficado abaixo da expectativa neste ano. O desemprego caiu ao menor nível na última década. A arrecadação do governo bateu recorde e contribuiu para as contas públicas fecharem janeiro com superávit. Até a meta fiscal de déficit zero, antes considerada inviável, entrou no radar dos analistas de mercado (embora dentro da margem de tolerância de meio ponto percentual do PIB). Para completar, o IBGE divulgou ontem o resultado oficial de crescimento da economia no ano passado: 2,9%. Há indiscutivelmente motivos para comemorar, e todas as projeções para este ano têm sido revisadas para melhor.

O clima positivo reflete o trabalho competente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ele conquistou a confiança do mercado financeiro ao encarar com seriedade o desequilíbrio nas contas do Estado brasileiro. Este será o primeiro ano de teste do novo arcabouço fiscal, e Haddad conta com dois fatores favoráveis. O primeiro é a disciplina férrea com que o Banco Central tem conduzido o controle inflacionário, a despeito de todos os ataques que sofreu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A política monetária propiciou crescimento e queda no desemprego sem trazer risco para a inflação. O segundo é o cenário de desinflação global, com perspectiva de queda de juros nos Estados Unidos. Apesar de tudo isso, é preciso cautela na comemoração.

Cristovam Buarque* - Necessária sinfonia escolar

Revista Veja

Falta na educação a atenção que dedicamos ao Carnaval

Todo ano o Brasil se deslumbra com o desfile das escolas de samba. Além da emoção pela arte, o espectador se empolga com a engenharia e a gestão. É raro empreendimento mundial capaz de mobilizar milhares de figurantes em complexa coreografia, em tempo exato, movendo veículos, edifícios, esculturas, tudo em perfeita sincronia, graças a engenheiros, inventores, artistas e mecânicos trabalhando de forma organizada ao longo de meses. O observador se deslumbra com a arte e a técnica e se orgulha de ser compatriota do genial grupo. Contudo, quase ao mesmo tempo da celebração carnavalesca, deu-se o anúncio do Censo Escolar, retrato da má qualidade e desigualdade de outras escolas — as de nossas crianças.

Pablo Ortellado - Compromisso republicano

O Globo

Universidade precisa resgatar a confiança da parcela da população que é de direita

No último domingo, coordenei com meu colega Marcio Moretto uma pesquisa sobre os bolsonaristas mobilizados na Avenida Paulista. Medimos o tamanho da manifestação com fotos aéreas de drone, depois contamos os manifestantes com um software de inteligência artificial (IA). Com nossa equipe, realizamos 575 entrevistas investigando a demografia, a identidade política e a opinião dos manifestantes sobre uma série de questões políticas. Publicamos todos os resultados aqui no GLOBO. O trabalho deveria ser uma pesquisa acadêmica, distanciada, na medida do possível. Mas, como tratamos de temas políticos contemporâneos, fomos rapidamente tragados para o centro do debate político. Queria repartir aqui algumas reflexões sobre as dificuldades de fazer ciência social e divulgá-la num ambiente político carregado e polarizado.

Eduardo Affonso - O golpe do golpe

O Globo

O que nos salvou do ‘golpe cívico-militar’ não foi a resistência democrática, mas a incompetência atávica de jaíres, helenos, bragas...

Os “patriotas” que avançaram sobre a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não têm do que reclamar. Pediam um golpe — e o golpe veio. Não o que eles queriam dar, mas aquele em que acabaram por cair.

Foram vítimas do “conto do capitão”, não muito diferente das clássicas arapucas da crônica policial. Pensaram ter comprado um bilhete premiado: bastava acampar na porta de um quartel, cantar um hino, depredar alguns imóveis e depois resgatar o prêmio: uma ditadura para chamar de sua. Melhor que isso, só terreno na Lua.

Cerca de 2 mil foram presos. Mais de cem já receberam penas de três a 17 anos de cadeia, pelos crimes de associação criminosa armada, dano qualificado, tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e deterioração de patrimônio tombado. Já o grande golpista... esse discursa (livre, leve e ainda solto) na Avenida Paulista —depois de mandar irem dando o golpe enquanto ele apreciava a demolição das instituições, com R$ 800 mil no bolso, num condomínio em Miami. Se desse certo, ele assumia. Desse errado, não era dele a culpa do vexame.

Carlos Alberto Sardenberg - Lula quer todas as empresas

O Globo

O Estado regula a atividade econômica como um todo, não esta ou aquela empresa. Concede licenças, fiscaliza, cobra impostos

Já aconteceu uma vez. Lula conseguiu derrubar um presidente da Vale, Roger Agnelli, porque ele cometera a ousadia de encomendar navios de grande porte na China. Isso foi em 2011, quando Dilma já estava no Planalto, mas Lula cultivava uma longa bronca com o executivo. Este tocava a Vale — imaginem! — como se fosse uma empresa privada.

Como hoje, Lula queria uma companhia que se alinhasse com os planos do governo. Que comprasse insumos no mercado nacional, mesmo que fossem piores e mais caros, e que partisse para a produção de aço, o que desviaria recursos e energia do negócio principal, a mineração.

Tem mais: o governo petista estava empenhado em mais uma tentativa de construir navios no Brasil e contava com a Vale como compradora fiel. E Agnelli adquiriu não um, mas três enormes navios em estaleiros chineses, de capacidade internacionalmente reconhecida.

Fareed Zakaria* - Biden precisa dizer certas verdades

O Estado de S. Paulo

Ele mostraria aos EUA e ao mundo que ainda tem energia, clareza moral e sabedoria para liderar

Não é possível destruir o Hamas porque ele é uma ideia; e para derrotar uma ideia é preciso outra melhor

Quando o Hamas lançou seu terrível ataque terrorista contra Israel, o presidente Joe Biden tomou uma decisão com base em convicção e cálculo. Ele anunciou sua total solidariedade ao país. Biden deve ter calculado que a única maneira de ter alguma influência sobre Israel seria abraçá-lo de perto, mostrar empatia real, enviar-lhe as armas de que precisava e ganhar sua confiança para moldar uma resposta. Foi uma estratégia bem pensada, mas fracassou quase completamente.

Desde o início, o governo americano pediu aos israelenses que considerassem a proporcionalidade em sua resposta ao Hamas. Israel ouviu e prosseguiu com uma das mais extensas campanhas de bombardeio deste século contra uma população de cerca de 2,2 milhões que, segundo as próprias estimativas israelenses, continha cerca de 30 mil terroristas do Hamas. Segundo uma estimativa de janeiro, mais da metade dos edifícios em Gaza foram danificados ou destruídos.

Sergio Fausto* - Confusa ideologia antiocidental

O Estado de S. Paulo

O ‘decolonialismo’ substitui a perspectiva crítica pertinente pela fúria moral condenatória incapaz de separar joio do trigo

Nos últimos anos, tornou-se moda atribuir ao Ocidente grande parte dos males que acometem o mundo. A moda tem adeptos sobretudo na esquerda, mas também na extrema direita nacionalista sob influência do Kremlin. Num caso e noutro, o ataque ao Ocidente parte de ângulos opostos, mas converge para um alvo comum.

Aqui me interessa o campo da esquerda. Mal ou bem, com muitas contradições, nele se situaram forças que, desde a Revolução Francesa, impulsionaram conquistas civilizatórias da humanidade. Nele está uma nova geração de ativistas, ainda em formação, com energia para levar adiante, atualizando, o legado de gerações anteriores. Por isso, preocupa ver que ela se encanta com uma confusa ideologia antiocidental, que bateu asas a partir de uma vertente respeitável das ciências humanas: o “decolonialismo”, termo incorporado no Brasil diretamente do inglês e do francês, sem o “s” que permitiria descolonizá-lo.

Miguel Reale Júnior* - Discurso revelador

O Estado de S. Paulo

No domingo passado, ‘pobres coitados’ foram instrumentalizados, como massa de manobra, para satisfação da ambição política de um mito de pés de barro

As palavras de Jair Bolsonaro no domingo passado, na Avenida Paulista, apresentam três aspectos merecedores de realce. A tática bolsonarista consiste em juntar pessoas não a favor de algum programa ou projeto, mas sim contra algo configurado como ameaça, unindo desconhecidos por meio do medo de desgraça iminente. Tal se verifica na charla de Bolsonaro na reunião ministerial de 5 de julho de 2022, quando, em tom agressivo, disse: “Eu peço todo dia: não deixe o povo experimentar o que é comunismo, p**ra! Meu Deus, não deixe o povo experimentar o comunismo”.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro nas águas turvas do Congresso

Folha de S. Paulo

Movimento para minar o poder do STF é aliado do ex-presidente

O "passar a borracha em tudo" —lema do golpista cujo golpe de Estado fracassou, apesar da conspiração e das tentativas de execução— é menos um pedido de arrego que a certeza de que parte singular do Congresso navega nas mesmas águas turvas.

Em outubro do ano passado, o general Hamilton Mourão apresentou no Senado projeto de lei propondo anistia para acusados e condenados pela insurreição fascista que depredou as sedes dos Três Poderes. Mesmo afastado do círculo íntimo do ex-presidente, Mourão jamais escondeu suas simpatias autocráticas. O projeto está em consulta popular, e direita e esquerda digladiam-se nas redes para ter a maioria.

Dora Kramer - Dando sorte ao azar

Folha de S. Paulo

Lula precisa disponibilizar ouvidos e abrir os olhos à sua volta se quiser ser reeleito

Depois de se recusar a comentar ato bolsonarista de 25 de fevereiro e deixar que a plateia vaiasse a jornalista que o perguntou a respeito, o presidente Luiz Inácio da Silva reconheceu a magnitude da manifestação: "Foi grande, é só ver a imagem".

Ficasse por aí teria rendido, ainda que tardia, homenagem ao realismo. Mas não. Preferiu a via de um contraproducente combate a "essa gente" que, pontuou, estava lá para defender o golpe.

Conclusão imprecisa —não se pesquisou quantos ali eram golpistas— e imprudente para quem se elegeu por ínfima margem e precisa atrair ao menos parte de toda gente brasileira se quiser ser reeleito.

Demétrio Magnoli - Mutualismo na Paulista

Folha de S. Paulo

A manifestação promovida por Bolsonaro deve ser definida como um ato de chantagem

Mutualismo, em biologia, é a relação simbiótica entre diferentes espécies na qual cada uma delas extrai benefícios. Na Paulista, domingo passado, Bolsonaro e seus aliados –Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, potenciais candidatos presidenciais– exercitaram o mutualismo. Bolsonaro conseguiu exibir-se como líder da direita. Os aliados sem princípios marcaram pontos junto ao eleitorado do ex-presidente.

A manifestação deve ser definida como um ato de chantagem. A eficiente demonstração de força popular não teve nenhum outro objetivo político senão pressionar o Congresso e o Judiciário a aceitarem uma barganha indecente. Bolsonaro ofereceu "pacificação" e "conciliação" em troca da impunidade para ele e seu cortejo, acrescida pelo perdão aos soldadinhos idiotas do 8 de janeiro.

Vinicius Torres Freire - Na festa surpresa da economia, país não investiu nada no futuro

Folha de S. Paulo

Investimento produtivo foi dos mais baixos do século e é risco maior para 2024

Já fizemos bastante festinha para o resultado bom e muitíssimo inesperado do crescimento da economia em 2023. Discutimos muito o que se passou no curto prazo (ainda não entendemos direito) e o que pode ser de 2024. Olhando um pouco além da próxima esquina, aparece um aviso de congestionamento econômico: a taxa de investimento caiu no ano passado; é de apenas 16,5% do PIB.

Taxa de investimento: é o quanto da renda (do PIB) de determinado ano foi gasto em aumento da capacidade de produção de bens e serviços. Isto é, em novas casas, em instalações produtivas e outras obras de construção civil, em novas fábricas, em máquinas, equipamentos, "softwares".

Pois bem, repetindo: a taxa de investimento foi de 16,5% do PIB. É a menor do século, fora os anos do final da Grande Recessão e da economia ainda deprimida de 2017-2019.

Sem investimento, é difícil que a economia cresça sem estresse mais adiante, se crescer. Estresse: mais inflação ou também mais déficit externo. Déficit externo: mais comprar do que vender bens e serviços ao exterior. O déficit pode crescer, mas até um limite.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Da Paulista ao Paraíso

CartaCapital

“O grande perigo para os homens”, dizia Nietzsche, “são os indivíduos doentios, não os maus, não os predadores” 

A estação Paraíso do metrô de São Paulo registrou um episódio que deveria incitar a curiosidade dos sociólogos, psicanalistas e outros estudiosos da sociedade. A massa travestida de verde-amarelo aguardava o comboio. O trem chegou à plataforma com os vagões ocupados pela turma da Gaviões da Fiel. Os verde-amarelistas agitaram as pernas para entrar. Postados às portas dos vagões, os corintianos repetiram: “Não vão entrar, não vão entrar”.

Não entraram, nem sequer tentaram.

Ao observar os trejeitos e maus jeitos da tropa abrigada na Avenida Paulista, os esgares de seus símiles europeus e norte-americanos, é legítimo perguntar se o Brasil e o mundo não estariam prestes a reproduzir os processos sociais magistralmente analisados por Hanna ­Arendt no clássico As Origens do Totalitarismo. Arendt ocupa-se, sobretudo, da emergência do nazismo e do stalinismo como fenômenos do igualitarismo totalitário que vocifera: “Se você não é igual a mim, não tem direito a existir”.

Alfredo Maciel da Silveira - “É a economia idiota”

It's the economy, stupid" (É a economia, idiota) é uma pequena variação da frase "The economy, stupid" (A economia, idiota), cunhada em 1992 por James Carville então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush presidente dos Estados Unidos na época.

Eu ando "surtando" com a pasmaceira do Gov. Federal! Já tendo passado um ano, naturalmente esgotou-se o “crédito” que eu e toda a “torcida do Flamengo” lhe déramos. E como me considero membro do “EIR – Exército Intelectual de Reserva”, já estou na idade de poder soltar por aqui minha norma “culto-chula”.

Meu “problema” é o “jeito Lula” de fazer política.

Tenho sempre repetido. Ele tinha o José Alencar, pra fazer articulação com a indústria e setores produtivos. Teria também o apoio de FHC para apoiar reformas pontuais no Congresso.

Mas preferiu comprar o Centrão com o Mensalão. E agora com o troca-troca das emendas parlamentares.

É o que ele sabe fazer.

Ele não sabe usar a capacidade de pressão do empresariado, inclusive o multinacional, claro, para direcionar os Liras, Alcolumbres, etc, num jogo de “ganha-ganha.” Hoje é: "Farinha pouca, meu PIB primeiro".

Agora tem Tebet (que sumiu) e Alckmin. Mas não conta com eles na questão estratégica principal. Fazer o país crescer sustentadamente a 5% aa ou mais, o que seria bom pra todo mundo!

Lula hoje não tem nenhum INSTRUMENTO para acelerar a taxa de crescimento.

A única decisão autônoma (portanto instrumental) de gasto é o investimento público. Vá lá: Habitação, Saneamento, financiados por dinheiro público não orçamentário (Cx Econômica). Mais os investimentos de uma ou outra empresa pública, (caso óbvio da Petrobras).

Mas é muito pouco.

Marcus Pestana* - Os municípios, a democracia e o bem-estar da população

Faltam apenas sete meses para as eleições municipais. Pelo impacto na qualidade de vida da população, pelo tipo de organização federativa no Brasil e pela maior proximidade com o dia a dia da comunidade, o poder local é um espaço essencial na execução das políticas públicas e um elo central no funcionamento de nossa democracia.

Escolher bem prefeitos e vereadores é garantir um alicerce sólido para a entrega de qualidade e eficiência à população, nos diversos campos de intervenção do setor público. Em um país continental como o Brasil, a descentralização das políticas públicas é essencial para seu sucesso. Foi esse o caminho consagrado pela Constituição Federal de 1988 e pioneiramente adotado com sucesso pelo SUS, que tem no município seu centro de gravidade. Posteriormente, a assistência social e a segurança pública, perseguiram a mesma estratégia de descentralização das ações e integração federativa.

Poesia | Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Roda Viva, de Chico Buarque

 

sexta-feira, 1 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Ministério Público não pode defender regalias

Folha de S. Paulo

Conselho que deveria fiscalizar e disciplinar age como órgão corporativo em temas como o do auxílio-moradia

Toda atenção é pouca quando um órgão com o histórico do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) edita portarias e resoluções que versam sobre pagamentos a promotores e procuradores.

No papel, a instituição surgiu para incrementar a fiscalização administrativa e disciplinar do Ministério Público; na prática, sua conduta se distingue pouco daquela esperada de uma entidade corporativa.

Em novembro passado, por exemplo, o conselho lutou contra a transparência e dificultou a busca de dados sobre remuneração de membros do Ministério Público.

Anos antes, fez ainda pior: autorizou que a licença-prêmio fosse convertida em pecúnia, uma medida que, de 2019 a 2022, custou R$ 439 milhões aos cofres públicos.

Fernando Gabeira - A desolação da realidade num país polarizado

O Estado de S. Paulo

A quem apelar, quando os polos caminham com um tipo de visão de mundo que a ideologia torna impenetrável às críticas?

“É assim que ele pode entrar / na desolação da realidade.” Esse verso de Yeats certamente foi escrito pensando numa Europa com a religião em declínio e sem entusiasmo pelas expressões seculares da salvação através de projetos políticos. No Brasil, a religião ainda é muito forte, como também o são as esperanças milenaristas num mundo completamente novo. No entanto, é possível usar o verso de Yeats e falar da desolação da realidade num país cujo traço político é a polarização, movida por ásperas redes sociais.

Começando pelo mais simples: a polarização traz inimizade entre pessoas com ideias diferentes, e isso não é bom. Vivemos uma epidemia de dengue que poderia ser mais bem combatida com iniciativas de vizinhança destinadas a remover os focos de proliferação do mosquito. Como realizar isso entre vizinhos que se detestam?

Alguns brasileiros esperam uma política externa mais próxima dos rumos definidos na redemocratização, sobretudo um discreto estímulo à solução pacífica dos conflitos. Estão condenados a não encontrar isso.

Luiz Carlos Azedo - Governo Lula tem duas políticas, a do PT e a dos outros

Correio Braziliense

Por necessidade, Lula é obrigado a administrar complexas relações com partidos de centro-direita que apoiaram Bolsonaro e, agora, são o fiel da balança no Congresso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com apoio dos partidos de centro que rejeitaram a reeleição de Bolsonaro, mas cuja densidade eleitoral foi e continua sendo muito pequena nas disputas majoritárias. Representado no governo pela ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), que recebeu apoio do MDB, da federação PSDB-Cidadania e do União Brasil, esse bloco não é suficiente para garantir a estabilidade do governo. Por necessidade, Lula é obrigado a administrar complexas relações com partidos de centro-direita que apoiaram Bolsonaro e, agora, são o fiel da balança no Congresso, principalmente na Câmara, como o PP e o PR.

Bernardo Mello Franco – Palpite infeliz

O Globo

Às vésperas dos 60 anos do golpe de 1964, Lula informou que não está interessado em “ficar discutindo o passado”. “Isso já faz parte da História, já causou o sofrimento que causou”, disse o presidente. “Não vou ficar me remoendo. Vou tentar tocar esse país para a frente”, acrescentou, em entrevista à RedeTV!.

A declaração agradou militares e ofendeu parentes de vítimas da ditadura. “É um desrespeito. A reação dos familiares é essa: um sentimento de traição”, resumiu o músico Leo Alves, neto de desaparecido político. Seu avô, o jornalista Mário Alves, foi torturado e morto no DOI-Codi do Rio.

Na cerimônia de posse, Lula foi aplaudido ao repetir o bordão “Ditadura nunca mais”. O discurso animou entidades que defendem os direitos humanos, mas não se traduziu em ações práticas. De concreto, o Exército deixou de comemorar o aniversário do golpe. Não fez mais que a obrigação. Quem vive do dinheiro dos impostos deve obediência à lei e respeito à democracia.

Vera Magalhães - Projeto dos apps frustra promessa de Lula

O Globo

Realidade se mostrou mais complexa que tentativa de impor lógica antiga a modelo novo de relação de trabalho

A negociação de mais de um ano entre governo, empresas, sindicatos pouco representativos e organizados e trabalhadores informais dispersos em torno da ideia da regulamentação trabalhista de motoristas e entregadores por aplicativos talvez seja o exemplo mais acabado da dificuldade do PT de operar com suas velhas lideranças num mundo que passou por uma enorme transformação nos 7 anos em que o partido ficou longe do poder.

Lula fez do tema uma das suas principais bandeiras, tanto na campanha presidencial quanto em sua plataforma de reinserção como liderança global. Mas a tentativa árdua, circular e muitas vezes improdutiva, ao longo de 2023 e até agora, de construir um projeto de lei para formalização e proteção previdenciária desses trabalhadores mostrou que nem como candidato nem como presidente ele foi apresentado a todos os dados e às nuances que cercam essa nova e tão disseminada atividade.