O Estado de S. Paulo
O acordo de desarmamento do Hamas, anunciado
por Donald Trump e confirmado pelo grupo palestino, não representa avanço real
rumo à solução do conflito na Faixa de Gaza, mas uma manobra política do Hamas
– na qual Trump embarcou, por conveniência – para elevar as tensões entre
Israel e os EUA e as pressões sobre o governo de Binyamin Netanyahu.
É a continuação do movimento iniciado pelo
Hamas no dia 6, quando o grupo renunciou ao governo civil da Faixa de Gaza, em
favor do Comitê Nacional para a Administração
de Gaza (NCAG). Composto por tecnocratas palestinos, o órgão faz parte do plano americano e tem o apoio do Conselho de Paz, presidido por Trump. Israel, no entanto, impede a entrada de seus integrantes no território da Faixa de Gaza.
Agora, o Hamas anuncia mais um passo no
cumprimento do plano proposto por Trump – que, como é típico nos processos
liderados pelo presidente americano, não é publicamente conhecido em sua
íntegra, mas apenas por trechos vazados para a imprensa. Trump adapta seus
objetivos aos resultados, a posteriori, para dar a aparência de sucesso.
O plano prevê o desarmamento do Hamas em
troca da retirada de Israel da Faixa de Gaza. Ele é dividido em etapas.
Primeiro, a polícia do Hamas entregaria suas armas ao NCAG, encarregado de
formar uma nova força policial de palestinos da Faixa de Gaza treinados no
exterior – o que também requer autorização de Israel, que cerca o território.
Depois, o Hamas entregaria foguetes, mísseis
antiaéreos portáteis e antitanque, drones e morteiros, à custódia do comitê
palestino. Por último, os militantes deporiam suas armas pessoais. Não parece
estar claro em qual dessas fases a Força de Defesa de Israel, que ocupa dois
terços da Faixa de Gaza, bateria em retirada.
VARIÁVEIS. Como aconteceu com o memorando de
entendimento igualmente impreciso firmado com o Irã, as interpretações do
acordo variam. O Hamas afirma que só deporá seu arsenal pesado depois da
retirada israelense da Faixa de Gaza e só se desarmará definitivamente mediante
a criação do Estado palestino.
Todos sabem que o atual governo israelense
não aceita essas condições. Até as eleições de 27 de outubro em Israel, não
haverá avanço nessa direção. Trump aproveita a suposta concessão do Hamas para
anunciar uma vitória diplomática, no contexto do atoleiro em que está metido no
Golfo Pérsico e do fracasso de suas gestões de paz no conflito entre Rússia e
Ucrânia.
O presidente americano está profundamente irritado com o primeiro-ministro israelense, que considera que o arrastou para a armadilha no Irã, e não hesitará em culpar Netanyahu pelo fracasso do processo. •

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