domingo, 2 de agosto de 2026

Em Gaza, uma manobra política, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O acordo de desarmamento do Hamas, anunciado por Donald Trump e confirmado pelo grupo palestino, não representa avanço real rumo à solução do conflito na Faixa de Gaza, mas uma manobra política do Hamas – na qual Trump embarcou, por conveniência – para elevar as tensões entre Israel e os EUA e as pressões sobre o governo de Binyamin Netanyahu.

É a continuação do movimento iniciado pelo Hamas no dia 6, quando o grupo renunciou ao governo civil da Faixa de Gaza, em favor do Comitê Nacional para a Administração

de Gaza (NCAG). Composto por tecnocratas palestinos, o órgão faz parte do plano americano e tem o apoio do Conselho de Paz, presidido por Trump. Israel, no entanto, impede a entrada de seus integrantes no território da Faixa de Gaza.

Agora, o Hamas anuncia mais um passo no cumprimento do plano proposto por Trump – que, como é típico nos processos liderados pelo presidente americano, não é publicamente conhecido em sua íntegra, mas apenas por trechos vazados para a imprensa. Trump adapta seus objetivos aos resultados, a posteriori, para dar a aparência de sucesso.

O plano prevê o desarmamento do Hamas em troca da retirada de Israel da Faixa de Gaza. Ele é dividido em etapas. Primeiro, a polícia do Hamas entregaria suas armas ao NCAG, encarregado de formar uma nova força policial de palestinos da Faixa de Gaza treinados no exterior – o que também requer autorização de Israel, que cerca o território.

Depois, o Hamas entregaria foguetes, mísseis antiaéreos portáteis e antitanque, drones e morteiros, à custódia do comitê palestino. Por último, os militantes deporiam suas armas pessoais. Não parece estar claro em qual dessas fases a Força de Defesa de Israel, que ocupa dois terços da Faixa de Gaza, bateria em retirada.

VARIÁVEIS. Como aconteceu com o memorando de entendimento igualmente impreciso firmado com o Irã, as interpretações do acordo variam. O Hamas afirma que só deporá seu arsenal pesado depois da retirada israelense da Faixa de Gaza e só se desarmará definitivamente mediante a criação do Estado palestino.

Todos sabem que o atual governo israelense não aceita essas condições. Até as eleições de 27 de outubro em Israel, não haverá avanço nessa direção. Trump aproveita a suposta concessão do Hamas para anunciar uma vitória diplomática, no contexto do atoleiro em que está metido no Golfo Pérsico e do fracasso de suas gestões de paz no conflito entre Rússia e Ucrânia.

O presidente americano está profundamente irritado com o primeiro-ministro israelense, que considera que o arrastou para a armadilha no Irã, e não hesitará em culpar Netanyahu pelo fracasso do processo. •

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