domingo, 2 de agosto de 2026

O maior mistério da eleição de 2026, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Neutralidade’ do Centrão custa caro; quem dá mais, o presidente Lula ou Flávio Bolsonaro?

Toda eleição tem lá seus mistérios e o maior de todos em 2026 é a conversa (ou conversas) entre o presidente Lula e o senador Ciro Nogueira, que deu uma cambalhota e tirou o PP e o próprio Centrão da candidatura de Flávio Bolsonaro e empurrou para o que chamam de “neutralidade”. Depois da reaproximação de Lula e Nogueira, a eleição nunca mais foi a mesma.

Nogueira, do Piauí, é um duplo recordista. Apoiou FHC, Lula, Dilma e Temer, até chefiar o que Jair Bolsonaro chamava de “coração” do seu governo, a Casa Civil. E esteve, de alguma forma, envolvido nos mais variados escândalos, desde a Lava Jato até o Banco Master. Foram sete esquemas de corrupção, cinco inquéritos e quatro denúncias formais, nenhuma condenação.

Soa ingênuo o novo acerto entre Lula e Nogueira ser só por conveniências eleitorais no Piauí, onde ele disputa a reeleição ao Senado. E “pragmático” é pouco para definir o “reencontro” entre eles, que, desde outros carnavais, vivem entre amor e ódio. Nogueira era o mais ácido crítico ao terceiro mandato de Lula. De repente, ficou mudo.

Entre os motivos do silêncio estão as fotos, trocas de mensagens, viagens carregadas de luxo e mesadas que somaram R$ 6 milhões do amigão Daniel Vorcaro para Nogueira, mas o toma lá dá cá com Lula certamente pesa e os efeitos políticos e eleitorais já emergem à luz do dia e nas campanhas.

Bastaram alguns telefonemas e Ciro Nogueira anunciou que o PP veta Tereza Cristina como vice, o que era um baita troféu de Flávio e uma assombração de Lula. Mulher, líder do agro, ex-ministra da Agricultura e com grande credibilidade, a senadora é “sonho de consumo” de Flávio e de qualquer candidato, mas ela, em sintonia com o partido, quer ser a primeira mulher a presidir o Senado.

Outro troféu de Flávio e assombração de Lula também está ruindo graças ao Centrão. O senador Cleitinho sempre negou ser candidato ao governo e dar palanque para Flávio em Minas e, agora, quando ele é que corre atrás do Republicanos para ser, é o partido que desdenha. A birra pesou mais do que a campanha de Flávio?

No dicionário da política, “neutralidade”, no caso do Centrão, ou direitão, é não se comprometer com Flávio, deixar as portas abertas para o favorito Lula, liberar qualquer aliança dos partidos nos Estados e aguardar as urnas para negociar, bem e caro, o apoio ao eleito no Congresso.

Fora do barco de Flávio, o Centrão pulou no de Tarcísio de Freitas, que tem 12 siglas em São Paulo. É o de sempre para o bloco e Ciro Nogueira: não importa quem, o passado e o presente, só o futuro e o “retorno” – principalmente financeiro. Quem dá mais?

 

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