Folha de S. Paulo
A ciência política registra que a mistura do
esporte com eleição só prospera em regimes autoritários
O histórico de 32 anos que o desempenho do
Brasil no Mundial não influi na decisão do eleitorado
Iniciada a Copa do
Mundo, os políticos precisarão dar tratos às cacholas para manter acesa a
chama de uma campanha eleitoral cuja antecipação não mobiliza a maioria da
população. Desinteresse que tende a se aprofundar durante as próximas semanas.
O torneio termina em 19 de julho, véspera do início das convenções partidárias que até o dia 5 de agosto deverão ter definidas as respectivas candidaturas majoritárias e proporcionais.
Candidatos a presidente, governadores,
senador e deputado não ficarão parados. Vão procurar preencher o tempo, ocupar
espaço, disputar o noticiário e certamente o farão usando referências e alusões
ao futebol por mais forçadas e artificiais que pareçam aos torcedores.
Provavelmente voltará à cena um tema
recorrente desde 1994, quando as nossas eleições presidenciais passaram a
coincidir com a Copa: o desempenho do Brasil no campeonato tem reflexo no
resultado da eleição?
O histórico desses 32 anos diz que não. A
literatura da ciência política registra esse tipo de conexão em regimes
autoritários. Vimos por aqui a ligação do ditador Garrastazu
Médici com a euforia da conquista do tri em 1970, mas na época das
trevas não havia eleição.
O tetra veio no mesmo ano de 1994 em
que Fernando
Henrique Cardoso, candidato do governo Itamar Franco, ganhou no primeiro
turno, mas o mérito foi do Plano Real. Quatro anos depois, FH repetiu o feito,
tendo o Brasil perdido a final para a França.
Conquistado o penta em 2002, o governo não
fez o sucessor e perdeu para o petista Luiz Inácio da Silva, que foi reeleito
em 2006, com a seleção sendo derrotada nas quartas de final.
Em 2010, nova eliminação brasileira na mesma
fase e Lula elege Dilma Rousseff, que se reelege a despeito do vexame do 7 a 1
em 2014 na Copa em casa.
Em 2018, o país de novo caiu nas quartas, o
governo Michel Temer não estava na disputa e em 2022 o Mundial do Qatar ocorreu
no fim do ano, depois da eleição de Lula em outubro.
A despeito do demonstrado, o tema voltará a
ser demandado.

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