O Estado de S. Paulo
A escolha do vice é também construção de narrativa. Mas a narrativa precisa ser crível
Qual é o perfil de vice mulher que o senador
e précandidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), deseja? Até agora,
os sinais não são nada animadores.
Depois da derrota de Jair Bolsonaro para Luiz
Inácio Lula da Silva em 2022, está evidente que o público feminino é um
problema para a campanha.
Conforme a mais recente pesquisa Meio/Ideia, 47,6% das mulheres pretendem votar em Lula no segundo turno e 39% em Flávio. Entre os homens, o cenário é mais equilibrado: 45,3% para Lula e 44% para Flávio.
Assessores do senador acreditam que uma vice
mulher pode ajudar a minimizar a imagem negativa de que o bolsonarismo é
machista e não tem agenda feminina. Nesta semana, Flávio disse em evento do
Grupo Voto que sua vice será, “preferencialmente”, uma mulher.
A escolha do vice não necessariamente traz
voto, mas é um aceno e também uma construção de narrativa. Lula soube explorar
isso muito bem ao mandar uma imagem de moderação ao público com José Alencar e,
depois, com Geraldo Alckmin (PSB-SP).
Mas a narrativa precisa ser crível.
Operadores políticos experientes dizem que a vice ideal seria a senadora Tereza
Cristina
(PP-MS), mas os bolsonaristas refutaram a
alternativa. A senadora já descartou a hipótese.
Tereza Cristina tem ampla experiência
parlamentar, pontes no agronegócio, no empresariado, nos partidos de centro e
no Supremo Tribunal Federal (STF).
Ela ajudaria a reverter a crise de
credibilidade que a candidatura de Flávio enfrenta desde o episódio do áudio
com Daniel Vorcaro, o encrencado dono do Master.
Ontem, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro sugeriu
o nome da deputada Julia Zanatta (PL-SC). Também já surgiu a possibilidade da
deputada Clarissa Tércio (PP-PE), que é evangélica.
As deputadas têm representatividade em suas
bases eleitorais, mas pregam para os já convertidos. Portanto, agregariam menos
que a senadora.
Flávio enfrenta ainda outro problema grave. A
ausência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na campanha, que diz estar
cuidando do marido, mas não esconde a antipatia pelo enteado. Michelle é, de
longe, o nome mais popular entre o público feminino de direita.
O bolsonarismo tem pânico de um vice forte.
Vive atormentado por fantasmas de que, em caso de vitória, seu presidente
poderia ser ejetado da cadeira pelo sistema em prol de um vice mais moderado.
Flávio não pode passar a impressão de que sua
vice mulher é apenas uma figura decorativa. Não pode ter medo da sua sombra. O
eleitorado feminino vai perceber.

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