quarta-feira, 17 de junho de 2026

Novas revelações de Vorcaro acuam Ciro e rondam Motta no caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Mensagens mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz de Lisboa

As novas informações tornadas públicas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as investigações da Operação Compliance Zero, que investiga o caso Master, colocam o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), expoente do Centrão, em situação cada vez mais delicada perante a Justiça, ao mesmo tempo em que aproximam o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do perímetro das investigações.

O foco do relatório é a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, e Ciro. Segundo a Polícia Federal (PF), o parlamentar teria recebido uma série de vantagens econômicas enquanto atuava politicamente em favor dos interesses do banqueiro. Pagamentos mensais foram classificados pelos investigadores como uma espécie de “mesada”, que variaria entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além da aquisição de participação societária em empresa e do custeio de viagens internacionais de alto padrão.

Hospedagens em hotéis de luxo, voos em jatos particulares, refeições em restaurantes sofisticados e até compras de roupas para viagens de esqui foram pagos por Vorcaro, em Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel, nos Alpes Franceses, famosa por suas estações de esqui e hotéis de alto luxo. Os benefícios econômicos diretamente relacionados às viagens ultrapassam R$ 468 mil, sem contar os custos dos voos privados.

A PF sustenta que existe uma relação direta entre os benefícios recebidos e a atuação parlamentar de Ciro em favor dos interesses financeiros de Vorcaro e do Master. É justamente essa conexão que transforma os presentes, viagens e pagamentos em potenciais elementos de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

O busílis dessa conexão seria a chamada “Emenda Master”. Segundo a investigação, uma proposta de alteração da PEC 65/2023 teria sido elaborada pela própria assessoria do banco e, posteriormente, apresentada por Ciro no Senado. A emenda buscava modificar regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ampliava possibilidades de negócios para a instituição financeira investigada e transferia riscos ao sistema de garantia bancária. A PF afirma ter encontrado mensagens, metadados e minutas que indicariam que o texto protocolado pelo senador reproduzia integralmente a versão produzida pelo Master.

Também há suspeitas de ocultação patrimonial. De acordo com os investigadores, empresas familiares, circulação de recursos entre pessoas próximas, utilização de dinheiro em espécie e interposição de terceiros teriam sido empregados para dificultar o rastreamento financeiro dos benefícios recebidos. A suspeita é de que tais mecanismos pudessem caracterizar lavagem de capitais, tendo Ciro como possível beneficiário final.

Tour em Lisboa

Há também a investigação sobre um episódio envolvendo o transporte de R$ 350 mil em dinheiro vivo em uma aeronave ligada ao grupo de Vorcaro. O piloto afirmou ter ouvido referências ao nome de Ciro durante a operação. Embora a própria PF reconheça que ainda não há comprovação material da entrega dos recursos ao senador, o relato foi considerado compatível com o conjunto de fatos investigados e permanece sob apuração.

O mesmo relatório faz com que as investigações passem a rondar Hugo Motta. O presidente da Câmara aparece vinculado a uma viagem para Lisboa, em junho de 2024, cuja hospedagem teria sido paga por Vorcaro. Mensagens encontradas pela PF mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz Lisboa. Em outra mensagem, Vorcaro manifesta preocupação com privacidade e segurança do encontro, pedindo controle rigoroso do ambiente.

Os investigadores cruzaram as mensagens com documentos encontrados nos e-mails de Vorcaro. O confronto dos registros levou a PF à conclusão de que os pagamentos identificados correspondem efetivamente à hospedagem de Ciro e Motta em Lisboa. As diárias teriam custado cerca de R$ 18 mil. A situação do deputado, porém, é muito distinta da do senador. O relatório não atribui ao presidente da Câmara participação em esquemas de favorecimento legislativo, nem o aponta como beneficiário de pagamentos sistemáticos.

As novas revelações acuam Ciro e, ao mesmo tempo, rondam Motta porque o colocam pela primeira vez dentro do contexto factual das investigações, associado a benefícios pagos por Vorcaro e citado em comunicações consideradas relevantes pela PF. Nesse sentido, o relatório amplia o alcance político do caso Master e continua produzindo efeitos sobre figuras centrais do Congresso.

 

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