Correio Braziliense
A diferença de renda média entre os mais
ricos e os mais pobres do DF é de 23,8 vezes. O salário mínimo regional e a
Tarifa Zero poderiam ser adotados com rapidez pelo GDF para reduzir esse fosso
social
O Distrito Federal ostenta o primeiro lugar
no ranking de riqueza entre todas as unidades da Federação, com um PIB per
capita de R$ 129,8 mil, mais que o dobro da média nacional (R$ 54 mil). No
entanto, ao lado do PIB bilionário, o DF convive com uma pobreza estrutural que
a torna a campeã brasileira em desigualdade social.
Estudos tanto da Universidade de Brasília (UnB) como da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam Brasília também como uma das cidades com maior segregação socioespacial. A separação entre áreas ricas e pobres no DF é maior do que em cidades como Johannesburgo (África do Sul), historicamente marcada pelo apartheid.
Segundo dados da Pesquisa Distrital por
Amostra de Domicílios (Pdad), a renda média mensal dos moradores do Lago Sul é
de R$ 12 mil. Do outro lado do abismo social, a média mensal do Sol Nascente é
de R$ 684 e a da Estrutural, R$ 504. A diferença entre os mais ricos e os mais
pobres é de 23,8 vezes.
Dados da mesma pesquisa revelam que 35,1% da
população economicamente ativa do DF ganham um salário mínimo ou menos. A
segregação é ainda racial e de gênero. As mulheres ganham 26% menos que os
homens, na média. Segundo a Pdad, a população negra recebe, em média, menos da
metade do salário dos brancos.
Essa desigualdade estrutural escandalosa
cresce com o tempo. Mas é urgentemente necessário revertê-la. Duas medidas que
poderiam ser adotadas com rapidez pelo Governo do Distrito Federal (GDF) para
reduzir esse fosso social são a criação de um salário mínimo distrital e a
implementação da Tarifa Zero no transporte público.
E nada disso é novo, na verdade. O DF é a
única das unidades mais ricas da Federação que não tem um salário mínimo
regional. Ele já foi implementado por Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do
Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.
O salário mínimo nacional em 2026 é de R$
1.621. Em São Paulo, maior PIB estadual, mas a segunda renda média nacional (R$
77,5 mil), o salário mínimo é de R$ 1.804. No Rio Grande do Sul, em Santa
Catarina e no Paraná, ele é definido por faixa profissional, podendo chegar,
respectivamente, a R$ 2.275,36, R$ 1.978,00 e R$ 2.407,90.
Se comparado com os PIBs de São Paulo e de
Santa Catarina (com uma economia menor que a do DF), o salário mínimo no DF
deveria ser algo em torno de R$ 3 mil. As experiências desses estados mostram
que, ao aumentar o salário da base da pirâmide, não melhora apenas o nível de
vida dos trabalhadores. Aumenta o consumo das famílias no comércio local,
alavancando o crescimento econômico.
O mesmo círculo virtuoso ocorre nas cerca de
150 cidades do país que adotaram a política de Tarifa Zero no transporte
público. Estudo conduzido no fim de 2025 pelo Grupo de Pesquisa Geopolítica e
Urbanização Periférica (Geourb) e pelo Núcleo Brasília do INCT Observatório das
Metrópoles, ambos vinculados à UnB, demonstra que é perfeitamente viável
financeiramente a adoção da Tarifa Zero e que ela traz inúmeras
vantagens.
Segundo a Pdad 2024 Ampliada, 34,1% dos
moradores do DF usam transporte público. São geralmente os mais pobres, que
moram nas regiões administrativas mais afastadas. A maioria trabalha no Plano
Piloto, perdendo muitas vezes mais de duas horas para chegar ao trabalho.
Esses usuários, de acordo com o estudo dos
especialistas da UnB, gastam em média R$ 260 mensais com passagens no DF. A
Tarifa Zero liberaria esse dinheiro para alimentação, saúde, moradia e
educação. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) indica que as cidades que já
implantaram a Tarifa Zero registraram aumento nas vendas do comércio (de 25% a
36%), aumento no emprego e redução de desigualdades. Seria o equivalente a
uma segunda Bolsa Família.
As passagens gratuitas no transporte público
trariam ainda benefícios para a mobilidade urbana, para a saúde e para o meio
ambiente, uma vez que facilitaria a redução do uso do automóvel (43,7% da
população do DF usa automóvel para se locomover), além de diminuir
congestionamentos, acidentes e emissões de carbono.
Por fim, a implementação da Tarifa Zero
traria um ganho incomensurável aos trabalhadores e suas famílias. Sem o custo
da passagem, haveria uma ampliação da possibilidade de mobilidade e direito de
acesso à cidade, aos serviços públicos, à educação e aos bens culturais da
capital.
*Jacy Afonso — ex-presidente do
Sindicato dos Bancários de Brasília, ex-presidente da CUT/DF e ex-presidente do
PT/DF

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