quarta-feira, 17 de junho de 2026

Salário mínimo distrital e Tarifa Zero reduziriam pobreza no DF, por Jacy Afonso *

Correio Braziliense

A diferença de renda média entre os mais ricos e os mais pobres do DF é de 23,8 vezes. O salário mínimo regional e a Tarifa Zero poderiam ser adotados com rapidez pelo GDF para reduzir esse fosso social

O Distrito Federal ostenta o primeiro lugar no ranking de riqueza entre todas as unidades da Federação, com um PIB per capita de R$ 129,8 mil, mais que o dobro da média nacional (R$ 54 mil). No entanto, ao lado do PIB bilionário, o DF convive com uma pobreza estrutural que a torna a campeã brasileira em desigualdade social. 

Estudos tanto da Universidade de Brasília (UnB) como da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam Brasília também como uma das cidades com maior segregação socioespacial. A separação entre áreas ricas e pobres no DF é maior do que em cidades como Johannesburgo (África do Sul), historicamente marcada pelo apartheid.

Segundo dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), a renda média mensal dos moradores do Lago Sul é de R$ 12 mil. Do outro lado do abismo social, a média mensal do Sol Nascente é de R$ 684 e a da Estrutural, R$ 504. A diferença entre os mais ricos e os mais pobres é de 23,8 vezes. 

Dados da mesma pesquisa revelam que 35,1% da população economicamente ativa do DF ganham um salário mínimo ou menos. A segregação é ainda racial e de gênero. As mulheres ganham 26% menos que os homens, na média. Segundo a Pdad, a população negra recebe, em média, menos da metade do salário dos brancos.

Essa desigualdade estrutural escandalosa cresce com o tempo. Mas é urgentemente necessário revertê-la. Duas medidas que poderiam ser adotadas com rapidez pelo Governo do Distrito Federal (GDF) para reduzir esse fosso social são a criação de um salário mínimo distrital e a implementação da Tarifa Zero no transporte público.

E nada disso é novo, na verdade. O DF é a única das unidades mais ricas da Federação que não tem um salário mínimo regional. Ele já foi implementado por Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

O salário mínimo nacional em 2026 é de R$ 1.621. Em São Paulo, maior PIB estadual, mas a segunda renda média nacional (R$ 77,5 mil), o salário mínimo é de R$ 1.804. No Rio Grande do Sul, em  Santa Catarina e no Paraná, ele é definido por faixa profissional, podendo chegar, respectivamente, a  R$ 2.275,36,  R$ 1.978,00 e R$ 2.407,90. 

Se comparado com os PIBs de São Paulo e de Santa Catarina (com uma economia menor que a do DF), o salário mínimo no DF deveria ser algo em torno de R$ 3 mil. As experiências desses estados mostram que, ao aumentar o salário da base da pirâmide, não melhora apenas o nível de vida dos trabalhadores. Aumenta o consumo das famílias no comércio local, alavancando o crescimento econômico. 

O mesmo círculo virtuoso ocorre nas cerca de 150 cidades do país que adotaram a política de Tarifa Zero no transporte público. Estudo conduzido no fim de 2025 pelo Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (Geourb) e pelo Núcleo Brasília do INCT Observatório das Metrópoles, ambos vinculados à UnB, demonstra que é perfeitamente viável financeiramente a adoção da Tarifa Zero e que ela traz inúmeras vantagens. 

Segundo a Pdad 2024 Ampliada, 34,1% dos moradores do DF usam transporte público. São geralmente os mais pobres, que moram nas regiões administrativas mais afastadas. A maioria trabalha no Plano Piloto, perdendo muitas vezes mais de duas horas para chegar ao trabalho. 

Esses usuários, de acordo com o estudo dos especialistas da UnB, gastam em média R$ 260 mensais com passagens no DF. A Tarifa Zero liberaria esse dinheiro para alimentação, saúde, moradia e educação. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) indica que as cidades que já implantaram a Tarifa Zero registraram aumento nas vendas do comércio (de 25% a 36%), aumento no emprego e redução de desigualdades. Seria o equivalente a uma segunda Bolsa Família.

As passagens gratuitas no transporte público trariam ainda benefícios para a mobilidade urbana, para a saúde e para o meio ambiente, uma vez que facilitaria a redução do uso do automóvel (43,7% da população do DF usa automóvel para se locomover), além de diminuir congestionamentos, acidentes e emissões de carbono.

Por fim, a implementação da Tarifa Zero traria um ganho incomensurável aos trabalhadores e suas famílias. Sem o custo da passagem, haveria uma ampliação da possibilidade de mobilidade e direito de acesso à cidade, aos serviços públicos, à educação e aos bens culturais da capital.

*Jacy Afonso — ex-presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, ex-presidente da CUT/DF e ex-presidente do PT/DF

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