quarta-feira, 17 de junho de 2026

Quer ser presidente? Me dê motivo, por Mauricio Moura

O Globo

É uma ilusão achar que cinco milhões de eleitores decisivos não querem dinheiro, só amor sincero

Tim Maia, famoso cantor brasileiro que revolucionou a música popular com sua voz inconfundível e uma fusão rítmica que uniu black music americana ao samba e baião. Uma das mais famosas canções do artista é “Me dê motivo”. Certamente uma metáfora do estado mental dos eleitores que devem decidir a eleição presidencial de 2026.

Em um ambiente amplamente dividido, entre os que aprovam e desaprovam o governo federal, entre os que acreditam ou não que Lula merece continuar, entre os que se dizem lulistas ou antipetistas ou qualquer outra divisão produzida pela decisão binária que o sistema eleitoral brasileiro proporciona, acreditamos que esse grupo realmente persuasível não passa de 3% do eleitorado. Do Leme ao Pontal, esses são quase cinco milhões de eleitores ainda órfãos de um motivo para decidir seu voto. O que, então, vai conquistar as mentes e corações desse grupo crítico?

O PT venceu inúmeras eleições presidenciais com argumentos econômicos contundentes. Em 2002, Lula prometeu gerar dez milhões de empregos para vencer José Serra (que prometia somente oito milhões). Em 2006, a reeleição veio na esteira da escala do Bolsa Família, um programa de transferência de renda amplamente popular. Naquela disputa, o petismo ampliou e mudou o perfil da sua base eleitoral.

Em 2010, Dilma Rousseff, apresentada como a mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), prometia um crescimento chinês; o que nunca se materializou. Em 2014, sem o crescimento, o argumento era a manutenção dos programas sociais e dos empregos. Em 2022, Lula voltou com a promessa de reestabelecer o consumo dos mais pobres com a metáfora da picanha e cerveja.

Do outro lado, Fernando Henrique venceu duas eleições (1994 e 1998) em primeiro turno como bastião da defesa contra a inflação. A derrubada da inflação foi o cabo eleitoral mais eficiente da história do país.

Já Fernando Collor, autointitulado “caçador de marajás” em 1989, e Jair Bolsonaro, em 2018 se colocando como de fora do sistema, tiveram o combate à corrupção como pilar central de suas campanhas. Num passado mais distante, Jânio Quadros também teve êxito nacional se apresentando como de fora do sistema e varredor da corrupção. Um posicionamento bem mais mundano que os 50 anos em 5 de Juscelino Kubitschek.

Até o momento, nenhum candidato fez acender o farol dos eleitores decisivos. O PT que sempre vendeu esperança de prosperidade econômica corre o risco de ir para as eleições oferecendo um reajuste da tabela do IR, um programa de refinanciamento de dívidas, uma redução (depois de aumentar) de taxa de blusinhas e uma promessa de se trabalhar menos no futuro (se, quando e como o Congresso permitir). Para eleitor que “gostava tanto de você” (ou do PT) e votou em Lula em 2022, isso ainda parece pouco para aliviar o sentimento das durezas econômicas do dia a dia.

Do outro lado, nem um descobridor dos sete mares sabe qual a esperança econômica a oposição irá oferecer na campanha. Não basta somente ventilar que vão tirar o PT. Esse argumento que ao tirar o PT tudo melhora nunca foi vencedor (nem realista). Também é difícil imaginar, em 2026, que a vitória virá com a bandeira de combate à corrupção. Com o escândalo do Master, poucos em Brasília se sentem em um ambiente azul da cor do mar nessa área. Em alguns casos, membros da oposição estão mais próximos de virar “réu confesso”.

Portanto, é uma ilusão achar que esses cinco milhões de eleitores decisivos não querem dinheiro, só amor sincero. A economia será decisiva novamente. Será fundamental para a conquista dos 3% que as candidaturas ofereçam um projeto real, uma ideia inspiradora, uma esperança de vida, com melhores oportunidades, menos dívidas e mais conforto. Ou, se tudo isso for muito difícil a essa altura, que tal somente um motivo. Um motivo que se sustente na rua, na chuva, na fazenda e nas urnas.

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