Um filme grandioso, como se os céus se
abrirem aos sons das trombetas. Os jovens talvez desconheçam a importância da
música num cinema, uma vez que deveriam estar com os ouvidos aprimorados para
escutar. Em “O Dia D”, Steven Spielberg volta ao universo da ficção científica
com sua parceria consagrada com o compositor John Williams. Ambos iniciaram
esse diálogo artístico desde “Louca Escapada” (1974) em tempos do último ano do
Presidente Nixon, que renunciou por causa do escândalo chamado como Caso
Watergate (caso de espionagem de um Presidente da República de seus adversários
políticos). Sintomaticamente, o citado político republicano, que ganhou notoriedade
nos anos 70 norte-americanos pela valorização dos valores familiares desse
mesmo país, aparece enquadrado numa das cenas do filme de 2026. Portanto, ouvir
a trilha do filme é uma oportunidade de fazer conexões com filmes e momentos
políticos globalizados desde a crise do Petróleo (1973).
“O Dia D” é uma lição de leitura de um Weber
desconhecido até pelos consultores de campanhas eleitorais, que ensina o
momento ideal para o tempo em política, como sempre o faz o personagem Hugo. Um
filme em que o tema da ética da convicção e da ética da responsabilidade
comparece numa perspectiva que poderia permitir uma polarização de linhas
políticas, mas a clivagem da “guerra de movimento” na primeira parte do filme
vai se deixando ceder para a reflexão que motiva uma “guerra de posição” até ao
clímax final do filme. Consequentemente,
“Esse tipo de homem político ‘por vocação’,
no sentido próprio do termo, não constitui de maneira alguma, em país algum, a
única figura determinante do empreendimento político e da luta pelo poder. O
fator decisivo reside, antes, na natureza dos meios de que dispõem os homens
políticos. De que modo conseguem as forças políticas dominantes afirmar sua
autoridade? Essa indagação diz respeito a todos os tipos de dominação e vale,
consequentemente, para todas as formas de dominação política, seja
tradicionalista, legalista ou carismática.” (Max Weber, Ciência e
Política: duas vocações. p. 59)
Nessa movimentação de ritmo, Spielberg faz
muito bem o uso de “Listen”, “Memory”, “Negotiation”, “Empaty” entre outras
composições instrumentais de Williams. A trilha musical abre o caminho para que
cheguemos a “Casa” (“Home”) que outro personagem de Spielberg certa vez clamou
por ter direito de voltar. Todavia, assim foi sua cinebiografia de 1974 até
1982. Os títulos demonstram a dimensão de um grande material de referências no
filme que agora está presente nos cinemas. Vejamos: “Tubarão” (1975), “Contatos
Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “1941 – Uma Guerra Muito Louca” (1979),
“Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e “E.T.: O
Extraterrestre” (1982). Assim, ampliamos em muito as possibilidades
interpretativas do filme que não se restringe ao mundo da ficção científica ou
ao suspense ou a ação, porém faz parte de um programa em apelo a moderação dos
seres humanos para que possam parar e ouvir determinadas opiniões/revelações.
O filme se inscreve numa cultura política
liberal democrática estadunidense com uma grande conexão com um ponto
importante sobre o papel do intelectual diante de um tema de interesse público.
Muito presente em personagens do diretor que muito questiona a sociedade da
ganância e do espetáculo. Além disso, o fator religioso comparece na obra com a
presença de uma “noviça rebelde” de outra linhagem além de um personagem com o
nome de um patriarca do livro de Gênesis. Portanto, A ética protestante e
o espírito do capitalismo é outra referência weberiana nesse filme em que
o público juvenil deve ver no compromisso com a leitura de uma realidade para
não se deixar iludir por falsas profecias e análise de uma dificuldade de
diálogo com os evangélicos na política. Afinal,
“(…)os camaradas artesãos católicos mostram
uma tendência mais acentuada a permanecer no artesanato, tornando-se portanto
mestres artesãos com frequência relativamente maior, ao passo que os
protestantes afluem em medida relativamente maior para as fábricas para aí
ocupar os escalões superiores do operariado qualificado e dos postos
administrativos. Nesses casos, a relação de causalidade repousa sem dúvida no
fato de que a peculiaridade espiritual inculcada pela educação, e aqui vale
dizer, a direção conferida à educação pela atmosfera religiosa da região de
origem e da casa paterna, determinou a escolha da profissão e o subseqüente
destino profissional.” (Max Weber, A ética protestante e o espírito do
capitalismo, pp. 32-33)
Afirmemos que essa resistência weberiana no
filme nos convoque para que observemos que as forças da autocracia estão
empurrando a existência da humanidade para um momento decisivo. Essa é uma
convocação no qual é decisivo que se “Escute”, mas a primeiramente “Veja” no
filme aquilo que deve motivar as novas gerações a ler e agir. Saibamos o
momento de destruir os celulares.
*Vagner Gomes é doutorando do PPGCP/UNIRIO.

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