Revista Piauí, nº 239 – agosto, 2026
A necessidade de líderes com “uma certa ideia
do Brasil”
Em seu discurso no lançamento da pedra
inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no
grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso
provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas
com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O
presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo,
como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.
Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.
Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais
complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na
pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede
de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais
quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar
que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial
dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e
a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas
leves.
Melhoramos, mas agora nos falta a confiança
no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer
de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração
viverá melhor do que a deles.
Por que perdemos a confiança no futuro?
Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é
um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora
contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.
Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão,
a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento.
Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em
novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança
escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas
que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da
democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões.
Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas
instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais,
tem causas e manifestações específicas em cada país.
A confiança do Brasil em si mesmo não
despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do
lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os
primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à
democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e
expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a
realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a
repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de
desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da
governabilidade.
Com o Plano Real, com as reformas
institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao
término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula,
que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história,
nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou
a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC
e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas
em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise
financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento,
mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo
aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da
revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos
sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um
exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do
Brasil, mas representativo do sentimento da época.
O processo desandou nos anos subsequentes, em
especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e
crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no
país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o
elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o
quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da
confiança.
Na economia, se deu uma reversão drástica das
expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na
política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida
entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de
“passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a
“destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de
2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do
Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não
avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em
cadeia, e cumulativas.
A mobilidade social ascendente dos governos
Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais
intensa do que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve
ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos
primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de
políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas,
a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para
ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de
ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de
classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e
profissional.
Nos estratos de classe média e alta já mais
bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de
irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela
percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais
intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média”
eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade
política, recorria à retórica do nós contra eles.
Assentados em bases relativamente frágeis, os
sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão
de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de
que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da
receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para
retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado
estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O
consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma
geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes,
comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança
e patrimônio.
Nada mais distante de uma vida previsível e
estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de
trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas,
símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção
abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova
moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.
No acidentado terreno do crescimento
brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também
a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a
evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da
economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e
tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias
privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na
evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem
com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e
filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente.
Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ ou
trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional
distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra
escala, China e Índia.
Como se fosse pouco, o medo da violência do
crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das
principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime
organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar
parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema
político e no aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e
desmoralização da autoridade pública.
No aumento da descrença com o país, o
crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo
qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a
economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da
renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o
país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia,
segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades,
mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de
objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan
dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua
capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa
afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã
ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.
Convém não exagerar no pessimismo quanto à
qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às
investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da
conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de
vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid
provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação
conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado
resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal
do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar
duas reformas importantes.
Feitas as ressalvas, não há como negar que o
desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são
declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para
realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo
federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso
abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o
correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de
suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo
prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se
desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de
poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição
dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos
parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto,
matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma
hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde
da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram
subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses
político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por
fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como
responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de
interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.
Esse quadro complica a chamada
governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas
a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque
entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza
e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em
rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da
mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência
artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de
geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e
corporativos de curto prazo?
Mais preocupante é que o quadro de relativo
desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das
virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos
reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso
e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão
desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções
públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de
competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a
frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar
em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.
Não é preciso idealizar o passado – o Brasil,
assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de
Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas
ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles
que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo
voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.
Ao lançar a pedra inaugural da nova capital,
JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o
país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de
consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de
indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ ou das
corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que
antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?
Se me refiro a Brasília, não é porque a
deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como
centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o
conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se
encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes
republicanas está por toda parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um
fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular
intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras
democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os
barões ladrões do século xix retornam à cena sob novas vestes, operando agora
em escala global, em aliança com a Casa Branca.
De novo, não quero exagerar: sempre haverá
aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou
coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a
dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o
fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco
transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas
eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte
principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações
permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.
Coexiste com essas tendências a expansão de
uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania
nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros,
econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo
e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes
republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no
aparelho estatal.
A que distância estaríamos do que o
historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento
maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O
conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em
que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito
são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas
e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.
Não chegamos a essa situação-limite, mas é
preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das
lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los
ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo
populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em
prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a
política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.
Reformas institucionais que reduzam os
incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma
delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso.
Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da
decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a
possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em
liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta
com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza,
assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado,
encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer
lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar
apoio político e social a seu favor.
Sem reconstrução da credibilidade na
autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a
sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência.
Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a
sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do
Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a
combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não
ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e
amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais,
por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou
naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.
Já aprendemos, espero, que não há salvadores
da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em
certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da
centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns
promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo
processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.
Não é necessário que surja um De Gaulle. O
Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não
contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de
um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da
autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio
das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio,
quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle
tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as
suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência
à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa
ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente,
De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua
grandeza.”
Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto
pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza
sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos
em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos
uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade
política, inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema
internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa
e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias
comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos
países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no
mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência
alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz
de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e
privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e
nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.
Além de uma certa ideia do percurso do Brasil
em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre
o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de
grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país
qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e
econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma,
elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar
relevante no sistema internacional.
Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram
nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos
de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do
país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a
inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que
levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje
premissas inegociáveis.
Não estamos mais na etapa de implantação da
infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo
duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de
ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar
um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência
aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles
setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de
alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio
ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas
sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na
cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para
tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias
digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital
autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado
pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.
O salto que precisamos dar requer novas
estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois
se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários.
Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem
capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado
e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado
para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma
administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar
essa urgência.
Tão importante quanto definir prioridades e
propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em
matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública,
incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e
aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma
história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um
ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda
mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que
ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os
nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias
divergências.
Projetados contra esse pano de fundo, nenhum
dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente
para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a
diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável.
Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as
instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente
contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua
família.
A derrota política desse clã familiar é
condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado
na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura
militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma
crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria
a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e
subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em
particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do
desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A
direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores
beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não
teve coragem de lutar.
Lula cometeu muitos erros ao longo de uma
trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido
positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame
campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base
para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua
própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando
Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.
Lula é uma estrela em extinção que ainda
emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física
e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao
passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem
coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita
fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do
crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.
Parece também não se dar conta de que, a essa
altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância
possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam
de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o
stf. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois
de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu
governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal,
Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu
chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece
teimar em reapresentar).
Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer
entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma,
prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações
geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder
no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para
enfrentá-las.
Para 2030, teremos quatro anos para renovar o
quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e
superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos
problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será
pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.
*Diretor-Geral da Fundação FHC, é membro do Gacint-USP

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