O Globo
Ex-assessor de Lula concluiu que o ambiente
era propício — e os incentivos para transgredir superavam com folga os freios
Por que as pessoas se suicidam? Por que têm filhos? Por que cometem crimes? O economista Gary Becker se fez todas essas perguntas para, a partir delas, construir modelos matemáticos capazes de gerar previsões. Interessava-lhe, sobretudo, a natureza humana — e como os humanos fazem escolhas. A resposta que formulou para a última questão — por que alguém comete um crime? — foi um dos eixos da obra que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia, em 1992. No modelo de Becker, três fatores influem na decisão de infringir a lei: o benefício desejado, a probabilidade de ser apanhado e a punição prevista. Quanto maiores o risco e o castigo, menor o incentivo para perseguir o benefício. Mas, se o benefício é grande e as chances de ser pego pequenas, o tamanho do castigo perde importância.
Isso não significa que Becker, leitor de
Schopenhauer e Dostoiévski, acreditasse que a natureza humana pudesse caber
numa equação. Ele queria demonstrar como as paixões — vaidade, ressentimento,
desejo de poder, prestígio, necessidade de aprovação do grupo e mesmo o mero
prazer de transgredir — operam sob determinados freios ou incentivos.
Tome-se o caso de Marco Aurélio Santana
Ribeiro, desafortunadamente apelidado Marcola. Ex-chefe de gabinete do
presidente Lula, ele admitiu ter recebido de uma lobista de Brasília R$ 249
mil. Afirma que o valor foi um empréstimo, já quitado. Admita-se como
verdadeira a versão de Marcola e, ainda assim, será inescapável concluir que o
dono da chave do gabinete presidencial optou por tirar vantagem indevida de seu
cargo. Na leitura mais benevolente, pediu dinheiro a alguém cujos negócios
dependiam de acesso ao governo e que, portanto, pela natureza da atividade, não
poderia negar-lhe o favor — sem falar na taxa de juros que, a se provar a tese
do empréstimo, certamente foi mais camarada que as do mercado.
O que faria Marcola — estudioso de ciências
políticas, dedicado funcionário do Planalto, homem de confiança e assessor
direto de Lula — a incorrer em tão flagrante falta ética? E ainda mais em ano
de eleição, sabendo que a um assessor presidencial não basta ser honesto, há
que parecer honesto também?
Marcola, hoje com 49 anos, filiou-se ao PT
aos 23 e, desde então, viveu e trabalhou dentro da sigla. Há 11 anos assessora
Lula diretamente. Nesse período, viu poucas e boas. Vieram a Lava-Jato e as
revelações do petrolão, o escândalo da JBS, a prisão e a soltura de Lula. Gente
graúda foi para a cadeia, reputações viraram pó, fortunas minguaram. Mas, com
muita frequência, o inverso ocorreu: proscritos retornaram triunfantes à arena,
condenados e delatores recuperaram liberdade e patrimônio, decisões foram
anuladas, inquéritos foram para as calendas.
Foi o caso de Fábio Luís da Silva, o Lulinha.
Nas duas primeiras vezes em que ele foi acusado de tráfico de influência, em
2005 e 2019, não chegou nem mesmo a se tornar réu — os inquéritos foram
arquivados. Agora, pela terceira vez em 20 anos, o mesmo filho de Lula volta ao
centro das atenções, desta vez na companhia de Roberta Luchsinger, a lobista
benfeitora de Marcola. Contra ele, a mesma suspeita fundamental: que as
vultosas quantias recebidas não pagavam por seus serviços, mas pelo acesso ao
governo do pai.
No modelo de Becker, a decisão de transgredir
pertence ao indivíduo, mas o benefício, o risco e a punição que ele enxerga
são, em grande parte, definidos pelo comportamento das instituições — governos,
Congresso, tribunais e órgãos de controle. Para quem se pergunta por que
Marcola escolheu fazer o que fez — arriscando seu cargo, sua reputação e a de
seu chefe —, a resposta de Becker talvez fosse que ele simplesmente confirmou
seu modelo. Do posto avançado que ocupava, o ex-assessor presidencial olhou em
torno e fez as contas. Concluiu que o ambiente era propício — e os incentivos
para transgredir superavam com folga os freios.

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