terça-feira, 28 de julho de 2009

O PENSAMENTO DO DIA - Werneck Vianna

“Estes dois registros — o da Providência e o da “vontade política” — parecem oportunos quando se considera a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), às vésperas de comemorar seus 30 anos, no governo há quase oito, e que ora se credencia para disputar mais uma sucessão presidencial. Com efeito, o PT nasce, no início dos anos 1980, com destino declarado de ser um agente de ruptura com a herança perversa, sempre renovada em nossa história — “os quinhentos anos” perdidos —, a fim de instituir uma nova fundação para o país. O ator, ao recusar os caminhos da Providência, ele próprio se apresentava como providencial. A interpretação do país estaria feita, o que faltava era a vontade política de transformá-lo.

Oito anos incompletos de governo do PT, no entanto, a “viagem redonda” de seis séculos, de João 1º a Vargas, da metáfora de Faoro, parece retomar seu curso, como se o partido assumisse, inconscientemente, a tradição que pretendeu renegar.

Sintomático disso tanto a acomodação do seu sindicalismo às estruturas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como sua atual valorização do nacional-desenvolvimentismo, ideologia da modernização brasileira, cuja forma mais bem acabada se encontra nas formulações do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), agência de intelectuais criada, ao tempo do governo JK, como lugar de reflexão sobre os rumos a serem seguidos para os fins de desenvolver o país.”

(Luiz Werneck Vianna, no artigo A viagem (quase) redonda do PT)

Plebiscito ou eleição?

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

Embora tudo indicasse que a primeira campanha presidencial sem Lula depois de vinte anos fosse produzir uma miríade de candidatos, justamente como aconteceu em 1989, na primeira eleição direta para presidente depois do período militar, a cada dia fica mais clara a possibilidade de que a eleição do ano que vem seja disputada por apenas dois candidatos, Dilma Rousseff pelo governo, e o da oposição. O presidente Lula está fazendo tudo para que a eleição seja um plebiscito sobre seus oito anos de governo, e o governador paulista, José Serra, o mais provável candidato do PSDB, se vira para evitar essa conotação. Não quer disputar com o mito.

Existe a possibilidade real de ele desistir da candidatura se verificar que a estratégia de Lula deu certo e que o eleitorado o verá como o anti-Lula, e não como adversário de Dilma. É essa a lógica que o faz querer adiar ao máximo uma decisão sobre sua candidatura, mas ele corre o risco de cometer o mesmo erro de 2002, quando sua campanha tentou se equilibrar entre o continuísmo e a mudança.

Desta vez, tanto Serra quanto o governador de Minas, Aécio Neves, o outro aspirante à candidatura pela oposição, tentam passar para o eleitorado a mensagem de que não são contra Lula, muito pelo contrário. A tal ponto que Aécio cunhou a expressão "pós-Lula" para definir sua candidatura.

Apesar das demonstrações de apreço que o presidente Lula dá aos dois governadores tucanos, nada indica que a campanha para a sucessão de Lula venha a ser uma disputa entre cavalheiros e damas, e duas estratégias governistas já demonstram o contrário: o estímulo à candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo, e a difusão do "risco Serra", ambas estimuladas com entusiasmo pelo próprio Lula.

O presidente acha muita graça quando algum ministro seu chama a atenção para o temor que o mercado financeiro teria de uma vitória do governador paulista, principalmente pelas críticas à atuação do Banco Central. O Ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, é o maior propagador da piada, juntamente com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se vinga assim das críticas que recebe de Serra.

Também Ciro Gomes já dizia, em 2002, que sua missão principal na política é derrotar Serra, e a oportunidade de disputar a eleição para governador de São Paulo une o útil ao agradável na sua ótica política: estará solto no terreno de Serra, para atacar sua gestão, seja ele candidato à Presidência ou mesmo à reeleição.

E se for eleito governador, hipótese pouco provável, ganhará nova dimensão nacional que pode revigorar seu antigo plano de se candidatar a presidente.

O curioso é que corremos o risco de ver novamente, com sinal trocado, o mesmo tipo de campanha acontecida em 2002, só que desta vez, ironicamente, o papel conservador será da candidata oficial, para garantir aos agentes econômicos internos e externos que manterá a política econômica do governo Lula sem alterações, enquanto seus aliados estimularão os temores quanto a uma possível eleição de José Serra.

A oposição, por sua vez, terá a mesma postura que Lula teve em 2002, com mais credibilidade: garantir que nada mudará na política econômica, mas, caso Serra seja o candidato, não será possível - nem ele quererá - dissimular sua discordância com o que considera uma excessiva autonomia do Banco Central e uma política de juros errada, que estaria impedindo um maior crescimento da economia brasileira.

Na eleição de 2002, uma das táticas do governo tucano foi espalhar o temor de que a eleição de Lula levaria o país a se transformar em uma imensa Argentina, que àquela altura estava envolvida em uma grave crise econômica que começara três anos antes com a eleição de Fernando De La Rúa para a presidência, na sucessão de Carlos Menem.

O governo De la Rúa foi caracterizado por crise econômica permanente e movimentos populares violentos de protestos, enquanto internamente as diversas facções da coalizão que o sustentava se digladiavam por espaço político.

Acabou renunciando ao cargo, que foi assumido por Eduardo Duhalde, que fora o segundo colocado na eleição presidencial, numa decisão polêmica da Assembléia Legislativa.

Se em 2002, no governo Duhalde, o PSDB procurava atemorizar os eleitores com o caos na Argentina, hoje a oposição usa a mesma imagem para falar de supostas fragilidades políticas da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas comparando-a ao próprio De La Rúa, que não teve capacidade de conter os diversos grupos dentro de sua coalizão nem de superar a crise econômica.

Lula, por seu turno, mantém-se coerente com a posição de 2002, e vai mais além, escudado por uma popularidade espetacular no final do segundo mandato: continua controlando com mão de ferro o PT e a burocracia partidária, isolando as tendências mais à esquerda, que ou já abandonaram o partido ou hoje são francamente minoritárias, e ainda conta com a ajuda do mesmo José Dirceu que já foi seu principal escudeiro e hoje, cassado, reassume o papel de coordenador da campanha de Dilma Rousseff e volta à Executiva Nacional do PT.

Uma coligação com o PL do vice José Alencar, que foi arrancada a fórceps naquela ocasião, hoje parece brincadeira de criança diante do cheque em branco que Lula dá aos caciques do PMDB, sobretudo agora no episódio envolvendo o presidente do Senado, José Sarney.

Para Lula, cada vez mais as forças políticas organizadas em partidos só têm importância em dois momentos da campanha: no início, quando se fazem as coligações oficiais, para ganhar tempo na propaganda eleitoral, e ao final, para governar.

Durante a campanha, os eleitores se moveriam por influência da televisão e do rádio, e aos líderes políticos só caberia seguir a tendência dos eleitores. Daí a insistência no apoio do PMDB, e a aposta cega na transferência de sua popularidade.

Caminhando contra o vento

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Cristovam Buarque, Vitor Buaiz e Luiza Erundina, respectivamente governadores do Distrito Federal, Espírito Santo e prefeita de São Paulo, cada um a seu modo, época e circunstâncias sentiram na pele, na carne e nos ossos a dureza de governar quando o PT era um partido tão oposicionista que fazia oposição aos governantes que ele mesmo elegia.

Chegou a virar folclore o pendor petista à autocombustão. Certamente não por acaso, nenhum dos três citados - entre vários casos semelhantes - está hoje no PT.

Sem entrar no mérito dos equívocos de parte a parte, o registro serve apenas para lembrar como o PT mudou de lá para cá. Aprendeu a ser realista, pôs os pés no chão, conquistou a Presidência da República, deixou de ser rebelde diletante e, desde então, ganhou muitas eleições, poder, projeção, dinheiro, influência.

Em compensação, foi ao outro extremo e agora se expõe ao risco de perder a identidade por excesso de obediência ao comando do presidente Luiz Inácio da Silva de quem o partido é dependente, mas para quem o PT hoje é (ou talvez tenha sido sempre) só um meio para chegar a um fim.

Partidos que estão no governo, reza a norma, em geral pagam o preço da subserviência pragmática. São os primeiros a ceder espaço aos aliados, a abrir mão da própria opinião, a fazer qualquer negócio em nome da chamada governabilidade. Tendo a Presidência da República, qualquer sacrifício é válido.

Aconteceu com o PSDB no período Fernando Henrique Cardoso. Ficou em segundo plano, enquanto todas as gentilezas eram feitas para os parceiros PFL e PMDB. Ao fim, o que era na concepção original um "partido de quadros" bem formado acabou descaracterizado como tal.

O PT estaria no mesmo caminho se já não tivesse ido além e não estivesse indo cada vez mais fundo. A aura da combatividade e da defesa da boa ética o partido perdeu há algum tempo e parece não apenas conformado, mas bastante satisfeito com sua condição de legenda igual às outras.

Daqui em diante o que ocorre com o PT e que até então não se viu acontecer com partidos que estiveram no poder é a perda gradativa dos brios. O exemplo mais recente é o episódio José Sarney.

Depois de desautorizar a bancada do partido no Senado, o presidente simplesmente destituiu o senador Aloizio Mercadante da liderança ao duvidar publicamente de que a nota pedindo o afastamento de Sarney representasse a posição dos senadores petistas. Vale-se da impossibilidade de Mercadante reagir.

O que era uma agremiação viva, com energia partidária sempre em movimento, no momento é um partido com dono, em pânico ante a possibilidade de sair do poder e disposto a se submeter qualquer humilhação para tentar não retornar à planície.

É o único projeto em debate no PT. Não se ouve a defesa de uma só ideia que não seja a aceitação dos ditames do Palácio do Planalto. Quem resumiu a situação - aparentemente em tom acrítico - foi a ex-prefeita Marta Suplicy, no encontro do diretório paulista, que aprovou a abertura oficial de conversações para apoiar uma possível candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo.

Definindo-se como "soldado de um exército que tem general", Marta afirmou que quem "assinala a estratégia" do partido é Lula. A partir de qual premissa? A do que seja supostamente mais adequado ao êxito da candidatura Dilma Rousseff à Presidência da República.

Se a aliança sair, será a primeira vez que o PT deixará de disputar o governo de São Paulo, sua base e até outro dia mais forte reduto com excesso e não carência de candidatos. Todos dizimados por escândalos, mortos em combates nem sempre altivos na defesa do poder.

Valeu a pena?

É a conta que muita gente no partido faz hoje em dia. Aceita-se o pressuposto de que a retirada de Ciro da disputa nacional possa aumentar o patrimônio de Dilma assim como Lula parte do princípio de que possa repetir com ela o que Paulo Maluf fez com Celso Pitta em São Paulo, simplesmente transferir votos. E o desempenho propriamente dito da candidata, sua empatia, ou não com eleitorado, não vale nada? Ao fim e ao cabo, é só o que vale numa eleição presidencial.

Se não der certo, se Dilma perder, se o PT aceitar entregar os melhores palanques de governos estaduais para o PMDB, o que será do partido na oposição, mesmo na hipótese de eleger grandes bancadas na Câmara e no Senado?

Terá poder para fustigar o governo federal, terá instrumentos de pressão para, ao molde atual do PMDB, continuar incrustado na máquina pública, mas não terá discurso, lideranças nem marca para fazer a política do partido.

Terá, sim, Lula a reinar como a grande figura da oposição, cujo governo será o tempo todo defendido. Em que termos as críticas serão feitas é um mistério, pois, depois de passar oito anos avalizando malfeitorias de toda sorte, o PT e Lula haverão de dar nó em pingo d?água para se sobressair no cotejo com quem quer que seja o sucessor e lhe cobrar a conduta mais correta.

É ou não é?

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Lula até tem razão quando pede cuidado com a biografia de investigados e relativiza os crimes: "Uma coisa é você matar, outra coisa é roubar, outra coisa é você pedir um emprego, outra coisa é relação de influências, outra coisa é o lobby", disse.

Ok. Realmente, Sarney empregar o namorado da neta no Senado não é igual a roubar e matar.

Mas...

É justo uma família tão rica fazer favores com dinheiro público? E os outros quase 40 familiares e apadrinhados (ao que se saiba) que os Sarney empregaram por aí?

É admissível uma associação dita beneficente e com o sugestivo nome de Amigos do Bom Menino das Mercês repassar recursos de patrocínio cultural para a Fundação José Sarney?

Especialmente sendo ambas ligadas à família?

É razoável que o primogênito, Fernando Sarney, seja simultaneamente secretário de Energia do Maranhão e dono de uma empresa fornecedora de postes de concreto para a mesma secretaria?

É verdade que Sarney é sócio da neta numa empresa (que tem sede na casa dele em Brasília) para comprar terras onde há indícios de gás e petróleo? O que há de causa e efeito entre a empresa, as terras e as nomeações de Sarney para o Minas e Energia e a Eletrobras?

É a serviço da oposição ou da mídia que a PF e a Receita estão fazendo essas devassas?

E o que dizer do estado de calamidade pública do Maranhão depois de meio século de domínio dos Sarney e de seus paus-mandados?

O promotor de Justiça Jorge Alberto de Oliveira Marum, de Sorocaba (SP), envia e-mail querendo entender a preocupação de Lula com umas biografias e não com outras: "Se o acusado é adversário do PT, podemos acusá-lo à vontade, como foi feito com Collor (1992), Ibsen Pinheiro, Eduardo Jorge, Yeda Crusius etc. Se ele for aliado do PT, como Collor (2009), Renan, Sarney e outros, não devemos tratá-los como pessoas comuns. É isso mesmo, senhor presidente?".

Taí. Boa pergunta.

Governo defende Sarney e desautoriza Mercadante

Gerson Camarotti, Luiza Damé e Maria Lima
DEU EM O GLOBO

Após reunião com o presidente Lula, o ministro José Múcio Monteiro afirmou que a nota divulgada pelo líder do PT, Aloizio Mercadante, semana passada, pedindo o afastamento de José Sarney da presidência do Senado não representa o pensamento da bancada do partido. No encontro, a nota foi classificada de inoportuna. O ministro reiterou o apoio do governo a Sarney, mas, para evitar desgaste do presidente Lula, a defesa pública do senador caberá agora à direção petista, que tentará enquadrar os parlamentares na orientação do Planalto. Sarney, passou o dia ontem em São Paulo, com a mulher, dona Marly, que sofreu uma cirurgia. A amigos, ele descartou a hipótese de renúncia e disse que, se cometeu crime ao contratar um parente, outros senadores também o fizeram.

Planalto x PT

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS

Para defender Sarney, ministro desautoriza nota de Mercadante que pedia afastamento do senador

OPalácio do Planalto desautorizou publicamente, ontem, o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), que na semana passada divulgara nota em que sugeria o afastamento do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), do cargo, por considerar graves os indícios concretos da participação do senador na edição de um ato secreto para nomear o namorado da neta para um cargo no Senado. Após reunião da coordenação política com o presidente Lula, ontem de manhã, o ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais) afirmou que a nota não representa a vontade da bancada de 12 senadores, mas apenas de um ou dois petistas. O líder do PT não se manifestou.

- O que avaliamos é que isso não é um movimento do PT. Imaginamos que seja um posicionamento de um ou dois senadores. Como o Senado está em recesso, muitos estão fora, estamos esperando que a poeira abaixe para conversarmos na próxima semana. Precisamos ver se houve um movimento da bancada inteira, visto que o presidente conversou com a bancada 15 dias antes disso tudo acontecer - disse Múcio.

O ministro disse ainda que o governo lamenta a situação vivida por Sarney, mas entende que o Senado "tem todos os pré-requisitos e todos os poderes" para resolver a crise. Sobre a hipótese de afastamento de Sarney, Múcio disse que a Casa decidirá "o que for melhor para o país". E reafirmou o apoio do governo ao senador:

- Não tenha dúvida nenhuma.

Segundo relatos, Lula ficou contrariado com a divulgação da nota em pleno recesso, classificando-a de inoportuna. Para o governo, Mercadante reavivou uma polêmica com o PMDB que estava superada. Na nota, o líder defende a apuração das conversas telefônicas de Sarney - combinando a contratação do namorado da neta - e diz que a bancada do PT "reafirma a sua posição de que o melhor caminho seria o pedido de licença da presidência da Casa por parte do senador José Sarney".

Para evitar um desgaste ainda maior de Lula, ficou acertado que o comando do PT tentaria enquadrar a bancada e assumiria a defesa de Sarney. Com o fim do recesso, dirigentes petistas devem procurar senadores do partido para mostrar que a posição da bancada pode interferir na aliança presidencial e na governabilidade.

Líder não consultou todos os petistas

Depois que o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), criticou duramente a nota de Mercadante, ontem foi a vez do líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP):

- Apoio integralmente a visão do presidente Lula, contrária ao afastamento de Sarney, que não está sendo empecilho para qualquer investigação. É preciso separar o que são as denúncias sobre as empresas da família Sarney do seu mandato de presidente do Senado. No exercício do mandato, não existe quebra de decoro.

Mercadante evitou polemizar. A interlocutores disse que a nota reflete o sentimento da maioria da bancada, mas reconheceu que não houve consulta a todos. Mas, ao contrário do que disse Múcio, a posição do líder contaria hoje com o apoio de sete dos 12 senadores da bancada.

Entre os que também apoiam publicamente o afastamento de Sarney estão Tião Viana (AC), Marina Silva (AC) e Eduardo Suplicy (SP). Internamente, também mostram desconforto com a permanência de Sarney no cargo Flávio Arns (PR), Paulo Paim (RS) e Fátima Cleide (RO). Paim não foi consultado por Mercadante, semana passada, mas não discorda do colega. Ele diz que a nota anterior, que também pedia a licença de Sarney, foi discutida pela bancada. E questões como o apoio à convocação de reunião extraordinária do Conselho de Ética são "posição individual de outros".

- Essa nota de agora não reflete o que a primeira diz. A posição da bancada continua sendo a da última reunião - disse Paim.

De folga em um sítio no interior de São Paulo, Mercadante não atendeu aos pedidos de entrevistas. Em seu twitter, as últimas postagens são sobre o casamento do filho. Diz: "Meu filho vai se casar. Não consigo pensar em mais nada."

A assessores, disse que consultou a líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (PT-SC), e ela teria concordado. Serys Schlessarenko (PT-MT) concordou com o teor da nota. Suplicy, que ajudou a consultar os senadores, disse que todos com quem conversou concordaram:

- Se o ministro José Múcio conversar com a bancada, ele vai ver que não apenas um ou dois apoiam a nota, que ela representa sim o pensamento da bancada. Eu mesmo conversei com o senador João Pedro (AM) por telefone, na Palestina, e ele concordou com o teor.

A falta que faz o "Sacro Colégio"

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A uma semana do fim do recesso, a crise do Senado continua tão ou mais grave do que antes. E o que é pior: não há ninguém à mão com autoridade política para negociar uma saída institucional satisfatória. Para o Senado e para a opinião pública. Enfraquecido, o atual Congresso está sob suspeição para tratar de assuntos que vão afetar as próximas gerações de brasileiros. A regulamentação da exploração das reservas do pré-sal, para citar apenas um exemplo.

A crise do Senado já seria ruim em si mesma, se não houvesse suspeita pior: a de que ela também está sendo manipulada por setores do Executivo e do PT para minar a candidatura da ministra Dilma Roussseff (Casa Civil) a presidente da República. Independente do mérito das denúncias contra o senador José Sarney, é fato que misturaram-se a crise do Senado e a sucessão presidencial de 2010.

É essa urdidura que explica que no Senado oposição - na guerra para reconquistar o poder perdido em 2002 - e governistas, esquerda e direita históricos, estejam taticamente do mesmo lado. Não é à toa que a oposição cobra a demissão de Tarso Genro, pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul, do ministério que manda na Polícia Federal (Justiça).

As acusações contra Sarney ocorrem na sequência do escândalo em que envolveu o presidente anterior, Renan Calheiros, enredado numa trama de best-seller com sexo e dinheiro, política e poder. Renan, por seu turno, entrou em cartaz depois dos "Aloprados", pastelão que nem de perto alcançou o sucesso e a bilheteria do "Mensalão".

Estar no Congresso hoje virou demérito. Veja-se a frase do senador Tasso Jereissati à revista Época, edição que está nas bancas: "Às vezes, eu sinto vergonha de ser senador". O senador José Sarney sem dúvida "se apequenou", como afirma Tasso à revista. Era ele quem sempre mencionava o "Sacro Colégio de Cardeais", um grupo de parlamentares de vários partidos que, por sua experiência e responsabilidade, como contou em livro o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, teria uma visão institucional - na hora das crises, era a eles que se devia apelar. O "Sacro Colégio" não há mais.

Era gente como Paulo Brossard, Roberto Campos, Tancredo Neves, Jarbas Passarinho, Delfim Netto (quando o tremor de terra era na economia), o próprio Sarney e - indo um pouco mais atrás - Afonso Arinos, para citar apenas alguns nomes.

No Congresso todo podia-se contar uns 50 parlamentares com essa visão institucional acima dos partidos e sectarismos políticos. Sem saudosismos: o radicalismo, o jogo da sobrevivência eleitoral e o patrimonialismo são hoje a regra e contaminam as relações do atual Congresso.

O dr. Ulysses, como era chamado o deputado Ulysses Guimarães, presidente do ex-MDB e do PMDB, um dos cardeais mais influentes do "Sacro Colégio" na ditadura e na redemocratização, costumava dizer que uma Legislatura era sempre melhor que a anterior e pior que a próxima (ele falava "Congresso"). Muito bom como frase de efeito, provavelmente um exagero, mas desconcertantemente atual, quando se vê o Senado emparedado com as denúncias contra Sarney.

Os cardeais que pontificam a atual crise parecem mais preocupados com os holofotes da TV Senado, quando não estão eles próprios devendo explicação a seus eleitores sobre a extensão do envolvimento de cada um na crise.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-candidato a presidente da República, nome acima de suspeitas e educador respeitado, já conseguiu armar uma confusão que levou a uma discussão sobre o fechamento do Senado - tese, aliás, da corrente no PT do ministro que chefia a PF. Mas Cristovam Buarque também estava na lista dos favores de Agaciel Maia, o ex-todo-poderoso diretor do Senado.

O mesmo aconteceu com Artur Virgílio (AM), o líder do PSDB e o "ético" Pedro Simon (RS). Jereissati, que fez um governo premiado no Ceará, anda, também jogado na roda de moer da crise, anda enfurecido, quando poderia ser uma voz de equilíbrio.

O líder do Democratas (DEM), José Agripino, ficou repetitivo. E Eduardo Suplicy (PT-SP)? Tem razão Lula, o grande sustentáculo do presidente José Sarney: como é que ele ficou mais de 18 anos no Senado - está no 3º mandado - e não viu nada?

O comportamento errático da bancada do PT no Senado confunde mais do que explica a situação dos partidos na crise. Tendo o senador Aloizio Mercadante (SP) à frente, petistas querem o afastamento de Sarney do cargo. Nisso, estão juntinhos com o Democratas e PSDB, seus adversários na disputa de 2010. O DEM votou declaradamente em Sarney para presidente do Senado; o PSDB, contra. Assim como o PT.

Nem todos os senadores do PT defendem essa posição. Mas, pelo menos até agora, todos foram obrigados a engolir o apoio irrestrito que o presidente Lula deu a José Sarney, aliado de primeira hora de seu governo.

O apoio de Lula a Sarney é registrado nos partidos como resultado de um acordo para o apoio formal do PMDB a Dilma Rousseff nas eleições de 2010. Daí a ofensiva da oposição contra o presidente do Senado, na esperança de dividir os pemedebistas e eles fiquem sem candidato na sucessão presidencial do próximo ano.

Os ataques do PT a Sarney têm o mesmo efeito: enfraquecem a ala mais dilmista do partido (a bancada dos senadores) e também contribuem para que os pemedebistas cheguem rachados à eleição.

Sem porta de emergência, os senadores assistem passivos o esgarçamento das instituições: o Executivo é um poder de um escaninho só, apenas Lula fala; o Congresso está de joelhos, com o presidente do Senado pendurado na corda bamba do que Lula diz, e o Judiciário, quando extrapola sua função para além de interpretar a Constituição.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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A vez dos países emergentes

Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O cenário que começa a emergir da crise financeira global é de uma recuperação lenta e hesitante nos Estados Unidos, Europa e Japão, com desemprego elevado por muitos anos e forte elevação das suas dívidas públicas. O comércio mundial deverá permanecer por longo período deprimido devido, principalmente, ao fim do consumismo americano, com as famílias já elevando a taxa de poupança em sete pontos percentuais em relação ao PIB, queda muito forte em bens dependentes de crédito e muitos países privilegiando os empregos e mercados domésticos. Por outro lado, os países emergentes estão apresentando recuperação mais rápida e países como a China estão retomando crescimento em níveis surpreendentes. Este quadro já refletiu na expectativa dos investidores que, em busca de elevados retornos, direcionam seus recursos para países emergentes e para as commodities que vêm também apresentando recuperação surpreendente. Como ficará o Brasil neste quadro?

A recessão nos Estados Unidos, Europa e Japão deverá ser mais profunda e durar mais do que as experiências cíclicas anteriores do período pós-guerra, afinal, foi o colapso do sistema financeiro que causou a contração da economia real, e não o contrário. A recuperação deverá ocorrer somente a partir de meados de 2010, com crescimento muito lento e hesitante posteriormente. Imensos desequilíbrios terão que ser removidos para a economia voltar a funcionar normalmente. Muitos destes estarão operando para reduzir a taxa de crescimento destes países pelo menos no médio prazo, tais como redução no endividamento, desalavancagem e aumento da taxa de poupança do setor privado e política fiscal restritiva, necessária depois dos imensos déficits fiscais em 2009 e 2010.

As economias emergentes importaram a crise. O seu sistema financeiro não entrou em colapso e foi a queda nas suas exportações, devido à queda na demanda nos países desenvolvidos, que provocou a desaceleração das suas economias. A China, por exemplo, está apresentando uma recuperação surpreendente em forma de V, ainda que ninguém espere que volte a crescer a taxas pré-crise. Os países emergentes, ao acumularem reservas, tornaram-se, em maior ou menor grau, menos dependentes do financiamento externo. E, principalmente países com grande população, como a China, Índia e o Brasil, cada um de forma específica, estão explorando o mercado doméstico para promover a recuperação.

Em princípio, o alto potencial de crescimento dos países emergentes não foi afetado pela crise financeira global. Este potencial vem do processo de "catching-up", importando bens de capital e tecnologia para construir uma estrutura produtiva moderna, competitiva e realocando trabalhadores para empregos mais produtivos e melhor remunerados. Isso vem gerando grandes e contínuos ganhos de produtividade e um mercado doméstico dinâmico. A queda drástica no crédito externo e fluxo de capitais não afetará o seu crescimento potencial, pois estes países de alto crescimento com política cambial agressiva manterão superávit em transações correntes, o que no passado lhes permitiu acumular reservas cambiais gigantescas, constituindo seguro contra a própria crise.

Duas consequências importantes decorrem deste quadro: a manutenção de elevadas taxas de retorno nos investimentos nos emergentes e rápido crescimento da demanda de commodities. Ao atrair investidores em busca de alto retorno, disputará recursos financeiros com países mais ricos e deficitários e, certamente, provocará elevação na taxa real de juros de longo prazo. Como os países emergentes já haviam se tornado os maiores consumidores de commodities, respondendo com quase 60% do consumo global de petróleo e quase 70% do consumo de metais e alimentos, deverão manter em rápido crescimento a sua demanda. Assim, além do menor fluxo de capitais, o cenário será de taxa real de juros mais elevadas e preços de commodities também elevados.

A questão central é: como o Brasil deve se posicionar neste cenário? Que ajustes na política macroeconômica devemos adotar para garantir um crescimento sustentado e estável? Tomemos a China como referência: os chineses já se posicionaram mantendo a sua taxa de câmbio fixa ao dólar, ganhando competitividade global adicional com a depreciação do dólar e, com isso, estão substituindo importações. Além disso, estão implementando um vigoroso programa fiscal anticíclico, deslocando gradualmente o dinamismo para o mercado doméstico. Como há folga fiscal, não estão comprometendo o futuro. Utilizando parte de seus US$ 2 trilhões de reservas para comprar empresas no exterior, vão continuar ampliando sua participação no comércio mundial. A característica de sua política é que a taxa real de câmbio estável e competitiva é utilizada como instrumento estratégico de longo prazo para manter elevada a sua taxa de poupança, mantendo a sua independência em relação aos recursos financeiros externos. As políticas monetária e fiscal são anticíclicas e utilizadas como instrumentos de curto prazo para garantirem a estabilidade da economia.

O cenário é favorável para o Brasil. Temos um grande potencial de crescimento do mercado doméstico, somos grande exportadores de commodities e temos uma complexa estrutura industrial já montada no país. Mas o período de bonança externa acabou com crise e deverá prevalecer o novo cenário descrito acima. O Brasil vem ampliando a participação de commodities nas suas exportações e, com regime de câmbio flutuante, o real está cada vez mais atrelado ao preço das commodities, tornado-se uma moeda com comportamento anticíclico. A crise financeira e a retirada da pauta da inflação nos trouxe uma grande oportunidade para flexibilizar a política monetária e para levarmos o patamar de juros próximo ao nível internacional. Neste caso, ainda que com flutuações cíclicas, a taxa de câmbio no longo prazo poderia equilibrar o setor externo. Infelizmente, o Copom acaba de anunciar que não é para onde vamos caminhar.

Em plena recessão e sem nenhum risco inflacionário no horizonte, o Banco Central está cedendo às pressões do mercado financeiro, anunciando que 8,75% é uma taxa adequada às circunstâncias atuais. Com isso continuamos com a taxa real de juros num patamar dos mais altos do mundo, permitindo a apreciação da taxa de câmbio, tornando esta pró-cíclica, e tornando a indústria manufatureira vulnerável não só a flutuações imprevisíveis da taxa de câmbio, mas também a acirrada competição estrangeira. No curto prazo, a demanda dos emergentes por commodities pode dar fôlego à recuperação, mas no longo prazo vamos comprometer o "catching-up", pois este envolve aprendizagem tecnológica e diversificação da indústria, possível com exportação de manufaturados. Com apreciação cambial, voltaremos também a ter crises de balanço de pagamentos. Em relação ao nosso eterno problema fiscal, estamos longe de ter equilíbrio de longo prazo para ajudar a alcançar o equilíbrio externo e podermos atuar no curto prazo de forma anticíclica.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

Preço da concessão

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O maior problema do acordo com o Paraguai não é a concessão em si ao país vizinho, que pode e merece ter o apoio brasileiro para o seu desenvolvimento.

Há dificuldades técnicas concretas: hoje as distribuidoras do Sudeste são obrigadas a comprar de Itaipu. Deixarão de ser? Há também uma questão política: a concessão brasileira não encerrará a pressão paraguaia.

O governo brasileiro diz que o aumento de 213% no preço pago pelo Brasil na cessão de energia não será repassado aos consumidores do país. Ora, é preciso desconhecer o básico em economia para achar que existe um preço que ninguém paga.

Se o Paraguai vai receber mais de US$ 200 milhões a mais por ano, o dinheiro sairá de algum lugar. Se não for da tarifa, sairá do Tesouro. E o Tesouro somos todos nós contribuintes. Portanto, será pago pelos brasileiros.

É bom lembrar que a cessão de energia é apenas uma parte do que se paga ao Paraguai. A Eletrobrás paga o preço de US$ 42,5 por megawatt/hora, mas sobre isso há também royalties, encargos de administração e supervisão. A cláusula de cessão de energia é um outro acréscimo que está no anexo C do acordo.

A lei que obriga as distribuidoras brasileiras a comprar a energia gerada por Itaipu é de 1973. Fica uma dúvida: se o Paraguai pode vender parcelas crescentes de energia no mercado livre, como fica a obrigatoriedade das distribuidoras? Há outra dúvida já resolvida.

O Brasil aceitou que o Paraguai possa usar, ao vender no mercado livre, a mesma estrada que se usa atualmente: o sistema integrado de Furnas. O problema é que no mercado livre não há preço mínimo, a energia tem que ser contratada, o preço oscila, e tanto sobe quanto desce.

O próprio fato de entrar mais energia no mercado livre pode derrubar o preço.

Está entrando aí Jirau, que apostou no mercado livre para oferecer preço mais baixo na licitação. E a recessão está reduzindo o consumo. Como o Paraguai depende dessa receita para cobrir boa parte do orçamento público, é bom que isso fique muito claro, antes que haja problemas.

O Brasil também concordou que Itaipu construa para o Paraguai, com empréstimo do BNDES, a linha de transmissão de Ciudad del Este a Assunção, de 500 kv.

O Paraguai terá 13 anos para pagar. A obra é necessária e justa. Afinal, o país que tem essa quantidade de energia tem também um suprimento deficiente que provoca apagões diários no verão, e não tem insumo para atrair investimentos.

Esta é a melhor parte do projeto do governo brasileiro para a negociação. Não era justo nem sustentável essa situação. Porém, não pode ser visto pelo Paraguai como compensação por uma suposta “usurpação” brasileira. Tem que ficar claro que é uma ação de boa vontade porque interessa a todos o desenvolvimento paraguaio.

O governo Lula negocia de forma errada com os países menores da região. Parece ter uma culpa original, como se tivesse vergonha de ser grande, ou acreditasse no discurso de ocasião de que somos imperialistas. O Brasil não é. Em todo esse processo, desde a negociação do acordo, a construção da usina, a operação de forma compartilhada do empreendimento, em todos os detalhes, o Brasil não se comporta como uma potência colonialista. Pelo contrário.

O Paraguai de vez em quando ameaça ir a cortes internacionais discutir o tratado. Ora, que vá. O Brasil deveria querer que não pairem dúvidas sobre a legitimidade do acordo, porque como ficará claro que o tratado é juridicamente perfeito, o país poderá fazer suas propostas em bases mais maduras.

O presidente Lugo tem problemas. Falarei dos problemas políticos. Sua base política é pulverizada em vários pequenos partidos, de diversas tendências, algumas bem radicais. Ele precisa, para manter um mínimo de governabilidade, do apoio do adversário Lino Oviedo. O general que já tentou um golpe no passado, já morou no Brasil, e voltou para fazer política legalmente no país, virou o pêndulo. Ele aceita dar apoio ao governo — mas não quer cargos — mas estuda caso a caso esse respaldo.

Lugo tem feito um governo considerado pelos analistas como “medíocre”, não tem quadros de competência comprovada, e a máquina continua dominada pelo vetusto Partido Colorado, que está no poder desde os tempos da ditadura de Stroessner.

Lugo precisa apresentar o acordo assinado neste fim de semana como uma redenção nacional, como uma prova de ele venceu o gigante, como nunca antes na história desse Paraguai. Desta forma ele se fortalece, mas ao mesmo tempo fortalece a ideia de que o Brasil é devedor de compensações ao país. Logo, os paraguaios concluirão que isso não basta, que outras exigências podem ser feitas.

Querer o desenvolvimento do Paraguai, todos querem.

Mas não temos compensações a fazer. O Brasil ao decidir pela construção de Itaipu naquele ponto, e não em outra parte do rio, ganhou um pouco mais de potência, mas também criou para o Paraguai um ativo que ele não tinha ainda. O Brasil emprestou o dinheiro para o Paraguai integralizar a parte dele; pegou empréstimos internacionais; deu o aval do Tesouro; construiu a usina; e divide a administração da empresa de forma paritária. Não tem do que se envergonhar.

Com Alvaro Gribel

Chávez articula para governar por decreto

Janaína Figueiredo • Buenos Aires
DEU EM O GLOBO

Presidente venezuelano pede que Parlamento aprove nova Lei Habilitante

Com a firme decisão de acelerar os tempos de sua revolução bolivariana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, solicitou à Assembleia Nacional (o congresso venezuelano) a aprovação de uma nova Lei Habilitante, que permitirá ao chefe de Estado governar por decreto. O polêmico instrumento legislativo já foi utilizado quatro vezes por Chávez, a última entre fevereiro de 2007 e agosto do ano passado.

Com a nova Lei Habilitante, ontem defendida por importantes dirigentes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o governo bolivariano pretende implementar medidas em diversos setores do país, entre eles educação, trabalho e economia. Um dos projetos que integraria a lista de iniciativas chavistas seria o que prevê a criação da chamada propriedade social, que, de acordo com documentos que há várias semanas circulam em Caracas, estabelece a “utilidade pública e interesse social de bens materiais e infraestruturas que possam ser declarados propriedade social, para garantir, por meio da produção socialista, a satisfação das necessidades sociais e materiais da população”.

— Se vocês consideram que são necessários reforços, então me habilitem novamente e vamos acelerar o trabalho — declarou Chávez no fim de semana passado, no Congresso.

O presidente venezuelano pediu, ainda, que sua ampla maioria parlamentar anule todas as leis “contrarrevolucionárias” antes de 2010, ano em que seu governo deverá disputar novas eleições legislativas e poderia perder o controle da Assembleia Nacional.

— Peço que acelerem a discussão e aprovem as leis revolucionárias em todos os âmbitos da atividade nacional — afirmou Chávez.

A atitude do presidente foi questionada pela oposição, que em 2004 optou por não participar da última eleição legislativa e desde então tem uma presença simbólica no Congresso do país (apenas oito deputados). O líder do partido Podemos, Ismael Garcia, exaliado do governo chavista, acusou Chávez de buscar impor um sistema personalista e dar uma fachada democrática a seu governo.

— A farsa está chegando ao fim — disse Garcia, que lembrou a derrota sofrida pelo chavismo no referendo sobre o projeto de reforma constitucional, em 2007

Oposição teme mudanças nas eleições de 2010

O projeto do governo incluía várias iniciativas que o presidente acabou adotando por decreto ou com o apoio de sua folgada maioria parlamentar, por exemplo, a Lei de Distrito Federal. A norma criou a figura de chefe de governo do Distrito Capital, autoridade designada pelo presidente do país, que assumiu funções que antes eram exclusivas da Prefeitura Metropolitana de Caracas, hoje em mãos da oposição.

— Esta Carta Magna que é participativa, descentralizada e democrática não é mais útil para o projeto autoritário e militarista encarnado pelo presidente — enfatizou Garcia.

Para o deputado opositor, o governo pede uma nova Lei Habilitante “porque esta Constituição (aprovada em 1999, pelo governo chavista) já não lhes serve”. Garcia acredita que com uma Lei Habilitante, o presidente venezuelano avançará na aplicação de uma Lei de Educação, de Propriedade Social e, também, numa nova Lei Eleitoral: — Para continuar com seu projeto, Chávez deve recorrer a um conjunto de leis que não estão amparadas pela Constituição.

O principal temor da oposição é que uma eventual nova Lei Eleitoral favoreça os candidatos do governo nas eleições legislativas do ano que vem.

— Em 2010 teremos duas opções: ou não haverá eleições ou elas serão realizadas, mas aplicando uma norma que beneficie o chavismo, mesmo quando ele não conte com o favoritismo da sociedade — assegurou Garcia.

Já representantes da bancada chavista disseram estar preparados para votar uma nova Lei Habilitante.

— Consideramos positivo o pedido do presidente — disse o deputado Alberto Castelar.

Congresso hondurenho debate acordo

Ricardo Galhardo Enviado especial
DEU EM O GLOBO

Mas analistas duvidam que recondução de Zelaya à Presidência seja aceita

TEGUCIGALPA. O Congresso Nacional de Honduras começou a debater oficialmente, ontem, o Acordo de San José, elaborado pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, como proposta de solução para a crise política hondurenha.

Os parlamentares decidiram criar uma comissão que terá dois dias para avaliar as propostas do ponto de vista jurídico. Na semana passada, o presidente interino, Roberto Micheletti, disse que precisava submeter o texto aos demais poderes do país antes de tomar uma decisão.

Para analistas políticos, Micheletti está apenas tentando ganhar tempo.

— A ninguém interessa mais ganhar tempo do que a Micheletti. O Congresso finge que debate para ganhar tempo. Este acordo não será firmado por uma razão simples: prevê a reintegração de Manuel Zelaya ao poder. Posso adiantar o resultado deste debate. O Congresso vai aceitar todos os pontos menos a reintegração. Não interessa a ninguém, nem ao Partido Liberal (ao qual Zelaya é filiado), a reintegração — disse ao GLOBO Gautama Fonseca, militante histórico do Partido Liberal e ex-ministro por três vezes.

A restituição de Zelaya, a criação de um governo de coalizão, o fim do projeto de convocar uma Assembleia Constituinte e a anistia a todos os envolvidos no episódio que levou a um golpe de Estado no dia 28 de junho são os principais pontos do acordo. O texto também será submetido hoje à Suprema Corte hondurenha, que acusa Zelaya de traição à pátria por desrespeitar uma cláusula pétrea da Constituição ao propor uma consulta popular com o objetivo de abrir caminho para uma reeleição.

Poucos líderes partidários se manifestaram publicamente sobre o acordo ontem de manhã.

Nelly Jerez, do Partido Nacionalista (oposição a Zelaya), classificou a anistia ao presidente deposto como uma “bofetada”.

Zelaya ameaça voltar à fronteira mas recua Entrincheirado em um hotel em Ocotal, na Nicarágua, Zelaya disse que não há hipótese de negociação com os golpistas e ameaçou mais uma vez voltar à fronteira, mas voltou atrás. A estratégia do governo interino de bloquear os acessos à fronteira e de decretar sucessivos toques de recolher tem dado resultado. A mídia local tem dado cada vez menos espaço ao presidente deposto e as manifestações se restringem a sindicalistas e a movimentos populares.

—É nosso dever lutar um dia, dois dias, um mês, seis meses, um ano, dez anos... vamos fazer — disse ele ontem.

Para piorar a situação de Zelaya, a oposição ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, ameaça com processos contra a presença do hondurenho no país.

— Zelaya busca a mídia por desespero devido à falta de ações efetivas da OEA e da ONU — avaliou Fonseca.

O presidente pediu que o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) proteja os manifestantes que chegam à Nicarágua por pequenas estradas nas montanhas hondurenhas.

Ontem, os EUA insistiram na restituição de Zelaya ao poder. Mas o país, que criticou a forma como Zelaya ameaçou entrar em Honduras, não se comprometeu a ampliar sanções contra o governo interino, numa medida encarada como um sinal de mais tolerância de Washington com os golpistas

Chico Buarque - Vai Passar

Bom Dia!
Vale a pena ver o vídeo

Clique o link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=bjk0iIWqFzc

segunda-feira, 27 de julho de 2009

PENSAMENTO DO DIA – Werneck Vianna

“Não haveria mais por que interpretar o mundo, pois os filósofos, diz Marx na 11ª. tese sobre Feuerbach, já fizeram isso — exemplar a obra de Hegel —, cabendo, agora, transformá-lo. A ação consciente dos homens já não deveria ser prisioneira da Providência nem vítima dos ardis com que a história parece se voltar contra as intenções dos humanos, tomando rumos que escapariam inteiramente do seu cálculo.”

(Luiz Werneck Vianna, no artigo A viagem (quase) redonda do PT)

O outono do patriarca

Marco Antonio Villa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente Lula tem razão: Sarney não é igual à maioria dos brasileiros. Ainda bem. Quem é Sarney? Ele é o símbolo maior do atraso

NA PRESIDÊNCIA do Senado, José Sarney conseguiu o impossível: ser pior do que alguns dos seus antecessores, como Antonio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros, que acabaram defenestrados. Todos negaram as acusações que pesavam sobre eles. Pareciam inabaláveis, tal qual Sarney.

Porém, o velho coronel do Maranhão está conseguindo se manter no cargo por mais tempo do que seus velhos amigos. Afinal, como disse o presidente Lula, ele não é igual a nós, ele tem uma história. Lula tem razão: Sarney não é igual à maioria dos brasileiros. Ainda bem. Quem é Sarney? José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu em 1930, ano da revolução que mudou o Brasil. Paradoxalmente, ele é o símbolo maior do atraso, do passado que nunca passa, da antirrevolução.

Fez a pequena política local até chegar, em 1958, ao Rio de Janeiro, como deputado federal, ainda jovem, eleito pela UDN. Participou pouco dos debates, nunca foi um bom orador. A voz soava mal, as ideias eram ultrapassadas e sem nenhuma novidade, o raciocínio era lento e era pobre sua linguagem gestual. Não tinha nada que o destacasse.

Na grave conjuntura de 1963-1964, raramente apareceu nos debates. Omitiu-se. Preferiu as sombras, aguardando hora mais tranquila. Candidatou-se ao governo do Maranhão em 1965 e venceu com o apoio dos novos donos do poder, os militares. Depois foi para o Senado -e lá ficou por quase 15 anos.

Se consultarmos os anais daquela Casa, raramente veremos Sarney participando de um debate. A sua preocupação central não eram os grandes problemas nacionais, nada disso. Seu pensamento e sua ação política estavam na província. Controlava as nomeações e os recursos orçamentários. Dessa forma, conservou sua força política local graças à influência que mantinha na capital federal.

Mas o coronel era hábil. Não queria ser um novo Vitorino Freire, o mandão que o antecedeu. Buscou dar um verniz intelectual ao poder discricionário que exercia na província. Isso pode explicar a publicação de romances e contos, a entrada para a Academia Brasileira de Letras e o estabelecimento de amplo círculo de relações sociais com intelectuais e jornalistas.

No Sul do país mostrava seu lado cosmopolita, falando de poesia e filosofia. Na província voltava ao natural, não precisava de nenhum figurino: era o senhor do baraço e do cutelo. Que digam os oposicionistas -e foram tantos- que sofreram a violência do mandão local. Lá, durante mais de 40 anos de poder, o interesse público nunca esteve separado do interesse da família Sarney e de sua parentela.

Por um acaso da história, acabou presidente da República. Durante os comícios da Aliança Democrática, em 1984, ficava escondido no palanque. Quando era anunciada a sua presença, era vaiado impiedosamente. Afinal, servira fielmente o regime militar por 20 anos.

A sua Presidência foi um desastre completo. Três planos de estabilização econômica. E todos fracassaram. Terminou o governo com a inflação próxima de uma taxa de 100% ao mês. Omitiu-se quanto aos principais problemas. No ocaso do governo foi instalada no Congresso Nacional uma CPI para apurar casos de corrupção, com graves acusações à gestão presidencial e a sua família, em especial seu genro, Jorge Murad.

O desprestígio era tão acentuado que nenhum candidato às eleições presidenciais de 1989 -e eram mais de uma dúzia- buscou seu apoio. Mas o oligarca sobreviveu. Buscou um mandato de senador no recém-criado Amapá. Precisava como nunca da imunidade parlamentar.

O tempo passou e a memória nacional foi se apagando, como sempre. O oligarca, em uma curiosa metamorfose, transformou-se em estadista. Encontraram até qualidades no seu período presidencial. Não tinha sido um indeciso. Não, nada disso. Fora um conciliador, avalista da transição para a democracia.

No governo Lula, mandou mais do que na sua Presidência. Conseguiu até depor o governador Jackson Lago, que teve a ousadia de vencer nas urnas a sua filha. A sua cunhada, presidente do TRE, anulou a eleição e, pior, obteve a chancela do TSE.

Contudo, não há farsa que perdure na história. O que foi revelado pela mídia nacional não é nenhuma novidade para os maranhenses. Lá, o rei está nu há muito tempo.

No encerramento do semestre legislativo, Sarney discursou para um plenário vazio. Não houve palmas ou apupos. Desceu e caminhou pelo corredor, silenciosamente. Nas galerias não havia um simples espectador. O velho oligarca estava só. Parou e, como se dissesse adeus, dirigiu-se para seu gabinete: a tragicomédia está chegando ao fim.

MARCO ANTONIO VILLA, 54, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".

Pai patrão

Ricardo Noblat
DEU EM O GLOBO

"O desejo de glória é a última coisa que mesmo os sábios são capazes de abandonar" ( Tácito, historiador e jusrista romano )

Diga se o PT pode achar graça nisto: Lula pôs na cabeça que uma mulher, executiva, de temperamento forte, estreitamente ligada a ele, seria a melhor aposta para sucedê-lo. Relevou o fato de ela nunca ter disputado uma eleição, não ter feito carreira dentro do PT, não ter carisma, nem trânsito fácil entre os partidos que apoiam o governo.

Para elegê-la, caberia ao PT curvar-se obsequioso às decisões de Lula. Por exemplo: assistir sem chiar a ocupação pelo PMDB de cargos-chaves na administração pública. Ceder ao PMDB a vaga de vice na chapa à Presidência da República. Ceder também a candidatura ao governo nos Estados onde o PMDB for mais forte. E, por fim, socorrer o PMDB em suas atribulações. Afinal, pelo poder supremo tudo vale.

Em 2002, para ganhar o apoio à sua candidatura do PL de José de Alencar, Lula avalizou o pagamento ao partido de R$ 6 milhões. O negócio foi conduzido por Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e José Dirceu, na época coordenador da campanha de Lula. Enquanto eles conversavam em um quarto de apartamento de Brasília com o deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL, Lula e Alencar esperavam no terraço o desfecho da negociação.

O PT aborreceu-se, mas engoliu a seco a indicação de Dilma Rousseff para presidente da República. Fazer o quê? Não tinha um candidato natural. Nem coragem para desafiar Lula. Engoliu também a ideia de que o lugar de vice na chapa de Dilma é do PMDB. Antes havia engolido a entrega ao PMDB de seis ministérios e de algumas centenas de cargos que, juntos, movimentam algo como R$ 240 bilhões por ano.

Agora empanturrado, diante do risco de sofrer uma indigestão, o PT ameaça regurgitar o socorro a José Sarney (PMDB-AP) e a montagem de palanques estaduais na condição de coadjuvante do PMDB. O chamego do PT com o PMDB é novidade. Há 20 anos, candidato a presidente pela primeira vez, Lula desprezou o apoio do PMDB. Em 2002, foi o PMDB que desprezou o apoio a Lula preferindo a companhia do PSDB de José Serra.

O exercício do poder tem lá muitas vantagens, mas desgasta. O PT coleciona cicatrizes dolorosas desde que subiu a rampa do Palácio do Planalto. A pior delas tem a ver com seu papel de protagonista em alguns dos mais rumorosos escândalos políticos recentes. Foi pelo ralo a imagem construída pelo PT de partido campeão da ética, aferrado a sólidos valores compartilhados pela maioria dos seus militantes.

Se amanhã o PT quiser retomar o discurso contra a corrupção ouvirá uma gargalhada nacional. Se disser que está disposto a se livrar das más companhias, simplesmente não será ouvido. A situação do PT não faz diferença para Lula que se descolou dele. Em 2014, se ceder à tentação de concorrer à Presidência pela sexta vez, Lula se apresentará como candidato preferencial de uma ampla coligação de partidos. O PT será apenas mais um.

É por isso que o partido esboça uma reação às cobranças de Lula. Por ora ainda tímida, é verdade. Tome-se o caso de Sarney, abandonado pelo PSDB, DEM, PDT, PSB e por senadores do próprio PMDB. Sarney mentiu a seus pares quando negou qualquer ingerência na Fundação José Sarney. E mentiu novamente ao dizer que jamais houve atos secretos. Gravação o liga a ato secreto que empregou no Senado o namoradinho da neta.

Oito dos 12 senadores do PT são candidatos à reeleição. Que tal serem apontados durante a campanha como aqueles que salvaram Sarney da degola? Quanto a abrir espaço para o PMDB nos Estados, o PT rumina em silêncio: e se Dilma perder? E se parte do PMDB largá-la de mão no meio da campanha ou mesmo antes? Que vantagem teria levado Maria? É a eleição de governador que costuma puxar a eleição de senadores e deputados. E então?

Lula tem gordura suficiente para perder se insistir em bancar Sarney. E não perderá nenhuma se Dilma perder ou se o PT sair enfraquecido das eleições estaduais. O PT não poderá se dar a esse luxo.

Sarney por fio (charge)


Sem PT, Sarney pode ser afastado

Isabel Braga e Cristiane Jungblut
DEU EM O GLOBO

Fragilizado por novas denúncias, presidente do Senado é cobrado até por aliados da base Após as últimas denúncias e sem a certeza de contar com o apoio do PT, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), não teria mais os 41 votos necessários para barrar em plenário as iniciativas para retirá-lo do cargo. Até aliados do governo cobram uma solução definitiva e pressionam Sarney a tomar uma posição até agosto. O presidente Lula deve discutir a crise no Senado na reunião de hoje da coordenação política.

Sarney por um triz

Presidente do Senado perde apoio entre aliados, que cobram solução rápida para crise

Fragilizado e sem a certeza de ainda ter maioria consolidada no Senado, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), está sendo pressionado a decidir seu destino político em agosto, quando acaba o recesso do Congresso. Aliados da base governista no Senado apostam que Sarney não resistirá à pressão cada vez mais forte das ruas e tentarão articular uma solução negociada com o próprio Sarney. Hoje, o presidente do Senado não tem mais a certeza de que dispõe dos 41 votos necessários para barrar, no plenário da Casa, qualquer iniciativa de retirá-lo do cargo. Hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discute a crise do Senado em reunião com ministros da coordenação política.

- O mês de agosto é um mês decisivo para o Senado. Precisamos dar um desfecho para a crise. O recesso está demonstrando a necessidade de posições mais firmes dos senadores, em sintonia com a população que cobra a saída de Sarney - afirmou o senador Renato Casagrande (PSB-ES).

A reunião antecipada do Conselho de Ética, antes do fim do recesso, está praticamente descartada. Mas, segundo Casagrande, ex-membro do Conselho, haverá uma batalha quando os conselheiros voltarem a se reunir. Isso porque o grupo de Sarney defende que, se o presidente do colegiado, Paulo Duque (PMDB-RJ), decidir engavetar as representações contra o presidente da Casa, o único recurso possível é levar o tema ao plenário do Conselho. Mas o entendimento é que o regimento prevê recurso ao plenário do Senado. Nesse caso, Sarney precisa ter 41 votos (entre os 80 colegas) para impedir tanto a abertura de processo, em caso de recurso, como de cassação. E sua base de apoio, sem o DEM e provavelmente sem o PT, está em torno de 40 votos.

- Eles, os aliados do presidente Sarney, dizem que o caso morre no Conselho. Mas, em tese, caberia recurso ao plenário da Casa. Se o Conselho aprovar a abertura de processo por quebra de decoro, Sarney é afastado automaticamente da presidência até o fim do processo, em plenário - explica Casagrande.

Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, Lula não deve fazer novas defesas públicas de Sarney, mas ainda quer a manutenção do aliado no comando do Senado, por temer que a oposição assuma o cargo em caso de licença. Nem mesmo os aliados acreditam que Lula volte a enquadrar o PT, cobrando um novo recuo da bancada no Senado, depois da nota do líder, senador Aloizio Mercadante (SP), pedindo a afastamento de Sarney até o esclarecimento das denúncias. Mas Lula, afirmam interlocutores, interpretou a nota não como uma mudança de postura da bancada, e sim como uma manifestação de Mercadante como líder.

Sarney ainda terá a semana do recesso parlamentar, mas em agosto tudo será retomado. Há os que avaliam que ele deverá seguir o mesmo caminho de Jader Barbalho (PMDB-PA) e Renan Calheiros (PMDB-AL), renunciando à presidência da Casa, depois de resistir, para manter o cargo de senador. Mesmo ressalvando a força de Sarney e a capacidade de dar a volta por cima, alguns senadores acreditam que a pressão forte das ruas poderá fazer com que os integrantes do Conselho de Ética forcem uma solução acordada, que evite maior desgaste.

A cúpula do PMDB monitora o desgaste imposto ao presidente do Senado, que em conversas tem reiterado que sua prioridade, neste momento, é a saúde de dona Marly, sua mulher, que está desde ontem internada no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde deverá ser submetida a uma cirurgia ortopédica. Sarney está em São Paulo, acompanhando a situação de dona Marly.

O presidente do Senado continua disposto a não sair do cargo. Segundo um cacique do PMDB, o problema é que não haveria um nome de consenso dentro do partido, e com o aval de Lula, para um substituto.

- Partidariamente, não existe isso (decisão de renúncia). Se Sarney decidir, ele é o dono do mandato. E acho que ele não renunciará, ele está firme na presidência - afirmou o senador Wellington Salgado (PMDB-MG).

Integrantes do PMDB acreditam que, se a situação piorar, antes de se falar em renúncia, teria que se analisar a possibilidade de uma licença de Sarney. Isso poderia retirar o senador da linha de tiro, mas complicaria a situação do governo, que não aceita a oposição no comando da Casa (o vice-presidente do Senado é o senador tucano Marconi Perillo). Para um aliado do presidente do Senado, "além do desafio pessoal de Sarney, há o problema da governabilidade de Lula".

De volta da viagem ao Paraguai, Lula se reúne com a coordenação política hoje, às 10h. O ministro das Relações Institucionais, José Múcio, disse apenas que o presidente conversará "sobre tudo" com sua equipe.

- O presidente já disse qual é a posição dele e, evidentemente, não vai analisar cada episódio. Esta semana vamos saber se (a nota) foi uma posição isolada ou da bancada do PT em si - disse Múcio.

O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), demonstrou irritação com o tom da nota de Mercadante e afirmou que não conversou com ele sobre isso:

- A posição do partido é de que o que está denunciado seja apurado. Mas fazer qualquer movimentação para constranger o presidente Sarney a se licenciar é fazer parte do jogo daqueles que sempre querem retirar a pessoa do cargo. Agora, o presidente Sarney tem total autonomia para decidir - disse Berzoini, afirmando que a licença de Sarney poderia "criar uma insegurança no comando do Senado", porque quem assumiria a Casa seria Perillo (GO).

O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), disse que só na volta do recesso haverá novas reuniões para tratar do assunto e que eles e o PSDB já decidiram o que fazer: novas representações no Conselho de Ética. Para ele, esta semana, o necessário é saber até onde vai a separação de Lula e do PT.

- O Lula, num primeiro momento, entregou ao PT a responsabilidade de manter Sarney, e agora o Mercadante devolveu a responsabilidade a Lula - disse Agripino.

Na mesma linha, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), é cético. Ele acredita que, apesar do desgaste de Sarney, a base conseguirá adiar as reuniões do Conselho de Ética. E confirmou que o PSDB transformará as denúncias do líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), em representações junto ao Conselho de Ética.

- Lula fez discurso de solidariedade, e o PT faz discurso crítico - disse o tucano, cobrando uma definição.

2010 ameaça blindagem de Sarney

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Governistas contam 45 votos a favor do peemedebista, mas 37 estão pressionados por ter de disputar eleição

A uma semana do fim do recesso parlamentar, o cerco em torno do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), começa a se fechar com o aumento da pressão para que ele renuncie ao comando da Casa. Aliados de Sarney avaliam que as férias dos senadores fragilizaram ainda mais a situação do peemedebista. Afinal, 54 senadores - dois terços do total de 81 parlamentares - vão disputar as eleições em 2010 e retornam na semana que vem de suas bases com cobranças de eleitores, como a contratação do namorado da neta de Sarney por ato secreto, como relevou o Estado.

Os supostos estragos do recesso na blindagem feita pelos governistas para manutenção de Sarney no cargo começam a ser sentidos em todos os partidos da base aliada. Até o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi aconselhado a não defendê-lo mais com tanta veemência. Levantamento feito por governistas aponta que hoje Sarney conta com 45 votos seguros a seu favor, na eventualidade de processo de cassação chegar ao plenário do Senado.

Esses mesmos governistas alertam que, desses 45 senadores, nada menos do que 37 são candidatos nas eleições do ano que vem, o que os deixaria mais suscetíveis à mudança de opinião. Daí, o aumento da pressão para o afastamento.

Nessa situação encontra-se, por exemplo, o PMDB. Dos 19 senadores do partido, 16 perdem o mandato no ano que vem - apenas Jarbas Vasconcelos (PE), Pedro Simon (RS) e próprio Sarney têm mais quatro anos pela frente. Por isso, parte dos peemedebistas estaria mais preocupada agora em garantir a sua reeleição em 2010.

Um dos primeiros a ensaiar a retirada foi o ex-presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), que defendeu claramente o afastamento do presidente do Senado do cargo, na semana passada. "O Garibaldi ocupou a presidência e gostou e, agora, está com a nostalgia de voltar para o cargo", disse o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), integrante da tropa de choque de Sarney e do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL). Garibaldi acredita que poderá ser o sucessor de Sarney no comando da Casa, caso ele renuncie.

A tropa de choque do PMDB tenta minimizar a perda de apoio de Sarney junto aos aliados. "Apenas os senadores que estão no ocaso político e em final de carreira que estão com essa preocupação em potencializar a crise no Senado", afirmou ontem o senador Almeida Lima (PMDB-SE). "Não estou dizendo que não existam cobranças nas ruas, mas a temperatura é de tranquilidade e chegarei de volta ao Senado do mesmo jeito que saí", completou Lima, que enfrentará uma difícil disputa por uma nova vaga no Senado no ano que vem.

"Não achamos que a situação esteja se complicando. Estamos de recesso e está tudo normal", desconversou o líder Renan Calheiros. Apesar da aparente despreocupação, ele estaria cogitando reunir-se esta semana com Sarney. A ideia seria aproveitar a estadia do presidente do Senado em São Paulo, que acompanha sua mulher numa operação no Hospital Sírio Libanês, para o encontro.

Apesar da pressão do presidente Lula, a bancada do PT está disposta a abandonar Sarney. Assim como no PMDB, a maioria dos petistas é candidata à reeleição: nove do total de 12 senadores. O primeiro passo foi dado na sexta-feira quando, em nota, o líder do partido, senador Aloizio Mercadante (SP), defendeu a licença de Sarney. "A cobrança da população é muito grande. A situação do presidente Sarney está muito delicada. Quem andou pelas ruas nesse recesso viu isso", disse ontem o senador Renato Casagrande (PSB-ES).

Uma "colocação" no Senado

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Tem sido ressaltado, com razão, o traço de manifestação "oligárquica" e patrimonialista que se pode apontar nas ações que são objeto das denúncias recentes no Senado, com destaque para o papel do senador José Sarney. Como avaliar esse traço do ponto de vista do que tende a aparecer como crise ética geral do país, na suposição de que ela exista como algo especial no momento, como propõe certa tese de "perda de qualidade" atual em nossa vida política?

Um ângulo pelo qual a questão pode ser tomada é o de como esse caráter oligárquico, ou a própria crise ética de hoje, se relaciona com a ideia de que teríamos, no Brasil, uma "cultura" geral anômica e uma propensão à desatenção para com as normas em diversos planos: a criminalidade e a violência crescentes, com as formas que assumem especialmente nas camadas populares; o ânimo de "esperteza" e as maracutaias próprias dos setores de classe média e mais altos; e até a instabilidade político-institucional que temos experimentado há tempos, evidenciando fragilidade das instituições e vigência problemática do aparato legal pertinente.

Seria a corrupção "oligárquica" simplesmente uma manifestação dessa cultura? Ou caberia antes, de certa forma, inverter a linha de causalidade e ligar o quadro geral de anomia justamente à secular estrutura aristocratizante e elitista que produziria, em primeiro lugar, a disposição oligárquica (e os meios...) em certa parcela da população?

Há outro ângulo que o exame do problema geral sugere: o ângulo dado pela assimetria que a sociologia da política, mesmo da política dos países de maior tradição democrática, há muito indica existir quanto ao papel de diferentes estratos sociais, com graus de informação e envolvimento políticos diversos, na operação das instituições políticas da democracia. A tese, que dados diversos corroboram, é a de que minorias ativas se contrapõem a maiorias apáticas, com as fronteiras do debate político sendo estabelecidas por minorias sensíveis às questões políticas e delimitando espaços dentro dos quais as maiorias seriam amplamente manipuladas - donde a consequência (como propõe David Elkins com base em dados canadenses, por exemplo) de que o problema da estabilidade democrática dependeria da agregação que se venha a realizar entre aquelas minorias, e não do grau de apoio às instituições na coletividade em geral. A questão é de se haveria uma assimetria de efeitos equivalentes também no que se refere especificamente ao aspecto ético: o decisivo é o que vem "de cima"?

Falei aqui há pouco do convencionalismo na adesão às normas da coletividade, em contraste com uma postura liberal mais exigente e atenta à autonomia dos cidadãos e a sua capacidade de obter certo distanciamento em relação às normas socialmente dadas ou impostas. Na ótica de agora, o problema está em que o convencionalismo pode expressar justamente a assimetria e redundar na conformação moral (eventualmente na subjugação moral) de alguns pelos outros: será que o ethos "oligárquico" é o ethos há muito dominante e difuso, na verdade? Quantos não terão considerado simplesmente familiar, em vez de impróprio ou chocante, o revelado na fita em que a neta de Sarney aciona com desenvoltura os parentes para obter por meios expeditos uma "colocação" no Senado, como se dizia antigamente, para o namorado? Não é de hoje que Hélio Jaguaribe, por exemplo, nos fala do nosso estado cartorial, inflado artificialmente como instrumento, entre outras coisas, da política de clientelas - cujos mecanismos penetrantes operam também bem abaixo do nível de comando da máquina dos poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário.

Naturalmente, a violência no nível popular é a negação desse convencionalismo conformista de raiz oligárquica. Na medida em que se difunde e adquire ela própria certa feição de "cultura" nova, ela tenderá possivelmente a aparecer cada vez mais como ameaça à "elite" - lembrem-se os "dias de periferia" a que teve de submeter-se a classe média paulistana, há algum tempo, pela ação violenta de comandos criminosos. E essa difusão, dada a natureza do problema e a eficácia potencial da ação de poucos, não tem que significar que o "povão" como tal se torne violento ou aprove a violência - mesmo se, infelizmente, isso de fato ocorre em ampla medida, como mostram os dados sobre o desapreço pelos direitos civis, forte nos estratos populares justamente como outra manifestação perversa de convencionalismo em condições de desigualdade e assimetria, nas quais os supostos associados à democracia na própria "elite" excluem a adesão à visão de direitos civis assegurados igualitariamente para todos.

Do ponto de vista de "que fazer", não há como lidar com a afirmação da dimensão violenta de nossa cultura negativa sem, em perspectiva de prazo mais longo, contemplar a execução eficaz de políticas social-democráticas - e, em perspectiva de curto prazo, o recurso necessário também à máquina de repressão do Estado, oxalá tornada a um tempo mais eficiente e democrática em sua ação. Quanto à face convencional-oligárquica da crise ética, conjunturalmente talvez mais visível agora mas de raízes talvez perenes, há quando nada uma espécie de contraface positiva das desigualdades e assimetrias sociais com que se vincula: pela própria lógica da operação dessas assimetrias, provavelmente basta, para que as ações que se consiga empreender junto à aparelhagem legislativa e fiscalizadora do Estado venham a ter efeitos gerais e profundos, que elas se dirijam com firmeza aos malfeitos da "elite". Claro, há o paradoxo de que em princípio é a própria elite, como se sugeriu acima, a conformar os rumos da política e da administração. Estamos vendo, porém, que de repente é possível por um Sarney na berlinda. Ou um Daniel Dantas.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Gabeira analisa candidatura em função das 'chances reais' de vitória de Cabral

Ana Paula Grabois, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Quase eleito como prefeito no ano passado ao prometer um estilo de política diferente aos cariocas, o deputado Fernando Gabeira (PV) procura manter o jeitão apolítico, mas nunca esteve tão próximo das confabulações eleitorais. Afinado com o PSDB desde o início da campanha municipal de 2008, partido que o vê como palanque ideal para a candidatura presidencial do governador José Serra no Estado, o deputado agora aguarda o desenlace dos arranjos regionais para decidir se sai candidato ao Palácio da Guanabara, como querem os tucanos e o DEM, ou se tenta um vaga no Senado.

Gabeira recebeu o Valor com o estilo usual: camisa estampada, jeans e tênis de camurça. Além dele e da mulher, moram no apartamento duas gatas. A decoração é despojada, sem luxo, embora fique na valorizada Ipanema, na zona sul carioca. Mineiro de Juiz de Fora, 68 anos de idade, se diz cansado de Brasília, onde cumpre o quarto mandato consecutivo na Câmara Federal.

"Tem que ter sanidade mental para ouvir esse discursos durante 15 anos", diz.

O ambiente do Planalto Central, onde apenas se respira política, não é um atrativo para Gabeira.

Acha até monótono. Por isso, desenvolveu um hobby, a fotografia. Está montando o que chama de diário visual da capital federal e de suas idas, vindas e esperas nos aeroportos. Divaga sobre as perspectivas de sua carreira dizendo vislumbrar até a possibilidade de abandonar a política para fazer assessoria em temas nos quais se concentrou nos últimos anos, como ambiente, política externa e transparência política.

Crítico da corrupção no Congresso, acabou na lista dos deputados que se beneficiaram da farra das passagens aéreas na Câmara. Ele deu de presente uma passagem para uma das duas filhas, a que mora no Rio, visitar a outra no Havaí. Logo depois, foi acusado de beneficiar a mulher em contrato de prestação de serviços de internet pago com a verba indenizatória de seu gabinete.

Gabeira, que diz possuir como bens apenas "duas motocicletas e uma bicicleta", não enxerga eventuais impactos negativos sobre seus eleitores, especialmente sobre aqueles conquistados na eleição passada, boa parte desencantados com a política e de perfil mais conservador. "Quero prestar contas. No caso da passagem, devolvi o dinheiro. Foram R$ 86 mil de crédito. Apresentei ao Temer (Michel Temer, presidente da Câmara) as normas, que acabaram sendo adotadas e que reduziram os gastos. Foram medidas claras de reparação", explicou o deputado. "Me sinto numa posição muito melhor do que os ingleses", brinca o deputado, numa referência aos escândalos recentes no Parlamento inglês envolvendo gastos supérfluos dos parlamentares.

Sobre a mulher, Neila Tavares, disse ter contratado seus serviços quando ainda namoravam.

Depois de casados, o contrato acabou, diz.

Pioneiro na divulgação das doações de campanha na internet durante as eleições, Gabeira não viu espaço político para inserir o tema na recente mudança na lei eleitoral, pois havia uma grande parcela de parlamentares defensora da anistia a todas as multas eleitorais. "Quem está neste afã de anistiar quem foi multado está querendo reduzir ao máximo essa possibilidade (de controle)", afirmou.

Praticamente um estranho no ninho dentro do PV, não acompanha sempre o voto da bancada de 13 deputados. "Sou oposição, eles (o governo) apoiaram meu adversário, Eduardo Paes, no Rio", diz. O PV faz parte da base do governo, tem a pasta da Cultura nas mãos de Juca Ferreira e não apoia a eventual candidatura de Gabeira ao governo do Rio. Prefere a disputa por uma cadeira do Senado. O PV também já se pronunciou a favor de uma candidatura própria à Presidência da República, em favor da senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, ainda no PT.

O deputado, porém, parece mais interessado em aliar-se aos tucanos. "Não tenho uma posição formada. Temos conversado com o PSDB. Fomos, toda a bancada do PV, almoçar com o Aécio (Neves, governador de Minas Gerais) e estamos combinando um almoço com o (José) Serra (governador de São Paulo)", disse. O que vai pesar na escolha da eventual candidatura para concorrer com o governador Sérgio Cabral, candidato à reeleição pelo PMDB, são as chances reais de vitória. "Candidatura só para marcar posição não me interessa".

Vê Cabral como candidato "muito forte" num contexto de mais dificuldades em financiar campanhas devido à crise. "Ele tem a máquina e grandes fornecedores que, de certa maneira, são gratos ao governo por sua parceria. Vamos examinar porque não quero levar a população do Rio, do Estado, que me acompanharia, a uma nova derrota", diz o deputado.

Oito meses depois de terminada a campanha municipal, reconhece como seu principal erro o episódio no qual disse ser a vereadora Lucinha (PSDB) dona de pensamento suburbano. A frase, ouvida por jornalistas sem que ele tivesse percebido, acabou virando combustível para o adversário, Eduardo Paes (PMDB), vencer a disputa.

De gestos suaves e voz tranquila, o ex-guerrilheiro, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em troca da libertação de 15 presos políticos em 1969, tem visão extremamente crítica ao governo e ao PT, partido do qual foi filiado de 2001 a 2003. Em um texto intitulado "Última Sessão" publicado no último dia 17 em seu blog e também no jornal "Folha de São Paulo", o deputado do PV defende a saída do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) do cargo e mira sua metralhadora para o PT. "A estrela vermelha, para mim, não tem sentido. Eu a vi nos tanques sérvios que atiravam nos civis e em nós, repórteres. Agarrados à estrela vermelha, perpetraram crimes horrendos sob o título de limpeza étnica. Assim como a suástica, estrelas vermelhas levam ao desastre, quando se decide obedecer cegamente a um projeto de poder", diz um trecho do texto.

Gabeira adquiriu postura mais moderada ao defender as questões ambientais. Chega a se colocar fora dos grupo dos ecologistas e vê avanços na Medida Provisória 458, conhecida como MP da Grilagem, diante da falta de regulamentação anterior. A MP foi criticada por conceder algumas vantagens aos ruralistas. "Para negociar essa MP, com todas as suas dificuldades, em primeiro lugar foi preciso quebrar a resistência de representantes do agronegócio. Eles achavam que o governo queria chamar os proprietários para confiscar as terras. A gente mostrou que não, que se o governo quisesse, era só confiscar. Por outro lado, tinha também os ecologistas, que queriam uma lei bastante dura. E eu dizia que se a gente fizesse uma lei muito dura, ainda que passasse, as pessoas iriam preferir continuar na clandestinidade", explicou.

O assunto, diz ele, deverá ser tratado com cautela pelos candidatos a presidente do PT e do PSDB, de olho no capital eleitoral ruralista. Em 2006, foi nos Estados de base predominantemente rural que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu no primeiro turno para o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Aprendeu a lição e assumiu o segundo mandato disposto a fazer mais concessões aos ruralistas e disputar esse terreno com a oposição.

"Os dois lados precisam e vão fazer concessões. O discurso centrista vai predominar", afirma o deputado do PV. Por enquanto, Gabeira aproveita o recesso de dez dias na Câmara viajando ao interior do Estado, onde tem pouca popularidade. Visitará Niterói e cidades da região Serrana, localidades onde obteve boa votação como deputado. Pretende entender melhor as demandas desses eleitorado e fazer um "trabalho de aproximação".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Imigração e nacionalismo

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Aos imigrantes não resta alternativa senão lutar para que o país respeite seu direito ao multiculturalismo

A EMIGRAÇÃO dos povos pobres para os países ricos é hoje fenômeno social global que mostra o caráter inescapável do nacionalismo. O mundo seria mais belo se fosse uma grande comunidade e não existissem nações, mas isso só acontecerá quando as desigualdades diminuírem a ponto de se estabelecer um Estado mundial.

Enquanto isso não ocorrer, o nacionalismo estará entre nós e tanto poderá significar a legitimação do poder dos povos mais poderosos sobre os demais (imperialismo) quanto a ideologia necessária para que os povos mais fracos se defendam. Tanto poderá ser um nacionalismo étnico e agressivo quanto um patriotismo defensivo.

O nacionalismo é a ideologia de formação do Estado-Nação. Alguém é nacionalista se preenche duas condições: primeiro, se entende que é obrigação do governo de seu país defender os interesses dos seus habitantes e, segundo, se considera que, ao tomar decisões, esse governo deve pensar por conta própria em vez de se submeter aos conselhos e pressões dos países mais ricos. Assim definido, o nacionalismo é econômico e pode ser apenas defensivo. Já o nacionalismo econômico agressivo caracteriza os países ricos que exploram os mais fracos, mas seus cidadãos acreditam que os estão ajudando ou bem orientando.

Quanto ao nacionalismo étnico, é o nacionalismo perverso das pessoas e povos que discriminam de acordo com o critério da raça, da religião ou da origem nacional. É o nacionalismo que afirma que cada conjunto étnico homogêneo deve ter seu próprio Estado-Nação; é o nacionalismo que, ao rejeitar a imigração, se confunde com o nacionalismo econômico.

O nacionalismo econômico é inevitável porque o mundo e cada indivíduo estão organizados em famílias, organizações e países que competem e colaboram entre si. Dificilmente será reeleito um governo de um país rico se não tomar decisões de acordo com os interesses nacionais.

Nesses países, o nacionalismo hoje é econômico e étnico. Poucos são os cidadãos que têm dúvida de qual seja o papel de seu governo, poucos são os que reconhecem a exploração dos países mais fracos, e muitos são aqueles que discriminam e rejeitam os imigrantes.

Todos defendem seus salários que sofrem concorrência do trabalho barato dos imigrantes, e felizmente um número muito menor defende sua "pureza étnica". Na Europa e no Japão, existe um verdadeiro cerco contra os imigrantes. Nos EUA, o quadro é apenas um pouco melhor. Na Itália, uma nova lei acaba de classificar a situação de imigrante clandestino como crime.

Os imigrantes ficam sujeitos não apenas a serem extraditados mas, adicionalmente, a cumprir pena por terem imigrado.

Existem naturalmente aqueles que não estão de acordo com essa discriminação, como mostra um belo filme francês em exibição em São Paulo, "Bem-Vindo". Na Europa, os partidos de esquerda resistem a essa discriminação, mas essa é talvez a principal razão por que têm tido maus resultados eleitorais.

Em certos casos, a única defesa contra o nacionalismo dos outros é o nosso nacionalismo, é nos organizarmos como Estado-Nação. Mas essa alternativa não existe para os imigrantes. Não lhes resta alternativa senão, de um lado, se integrarem nas sociedades para onde emigram e, de outro, lutar para que o país respeite seu direito ao multiculturalismo. Ambos são processos sociais e políticos difíceis, plenos de contradições. Enquanto não se completarem, haverá muito sofrimento dos imigrantes e muita tensão social nos países ricos.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Zelaya recua e fica na Nicarágua

Ricardo Galhardo
DEU EM O GLOBO

Presidente desiste de acampar na fronteira; Exército abre caminho para volta pacífica

Depois de anunciar com estardalhaço que ficaria acampado na fronteira da Nicarágua até reunir muitos partidários e conseguir entrar em seu país, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, mudou de ideia e voltou ao hotel onde está hospedado desde o golpe de estado, em Ocotal, a 26 quilômetros da fronteira.

A mobilização de manifestantes favoráveis a seu retorno também diminuiu. Milhares de militares estão espalhados nas estradas que ligam a capital, Tegucigalpa, à Nicarágua, proibindo a passagem dos partidários de Zelaya. Todos os carros são revistados e os passageiros obrigados a se identificar. Nem a família do presidente deposto consegue atravessar os bloqueios.

O Exército de Honduras, no entanto, assegurou ontem que respalda o processo de negociação política para a crise. Embora Zelaya tenha sido preso e deportado por militares, o Exército reiterou "o apoio irrestrito aos resultados das (negociações em Costa Rica), de acordo com a nossa Constituição e demais leis", abrindo caminho para a volta do presidente.

Depois de receber críticas do governo dos EUA e da Organização dos Estados Americanos (OEA) por tentar voltar a Honduras à força, Zelaya também baixou o tom das declarações. Ontem, sentado sobre o capô de um jipe, com um megafone em uma mão e a carteira de identidade na outra, pediu resistência pacífica ao golpe.

- Esta é a arma dos democratas. Com ela vamos vencer a ditadura - disse ele, brandindo o documento.

Embora tenha se recusado a revelar seus próximos passos, o presidente deposto deu sinais de que não pretende repetir as cenas que protagonizou na sexta-feira e de que vai aguardar a pressão da comunidade internacional sobre o governo golpista encabeçado por Roberto Micheletti.

- Há muitas coisas a serem feitas daqui (da Nicarágua). Temos que falar com muitos governos de muitos países - disse ele a uma plateia que não ultrapassava 50 pessoas, em Ocotal. - Além disso, há a minha família.

Há três dias a mulher de Zelaya, Xiomara Castro, seus dois filhos, sua mãe e sua sogra tentam chegar a Las Manos, na fronteira, mas são impedidos pelas tropas. O comandante das Forças Armadas, Romeo Vásquez, que apoiou o golpe, ofereceu transporte aéreo a Xiomara mas ela recusou.

- Querem me tirar no meu país - acusou ela, que tem passado as noites em casas de partidários à beira da rodovia Panamericana.

Ontem foi a vez do presidente da Costa Rica, Oscar Arias, principal articulador da tentativa de acordo entre Zelaya e os golpistas, criticar seu comportamento midiático.

- Este não é o caminho para a reconciliação do país - disse Arias em entrevista ao jornal "El País".
Presidente cobra postura dos EUA

De cima do capô de seu jipe branco, Zelaya negou que tenha recebido qualquer convite da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, para uma reunião. Por outro lado, ele cobrou uma postura mais incisiva dos EUA em relação ao governo golpista.

- A secretária Clinton que enfrente a ditadura com força para sabermos verdadeiramente qual é a posição dos EUA diante deste golpe de estado - cobrou Zelaya.

Além da tranquilidade na fronteira, as mobilizações também diminuiram nos pontos de bloqueio onde ocorreram enfrentamentos durante a semana. A única exceção foi a localidade de Vila San Francisco, onde foi enterrado ontem o jovem Pedro Magdiel, de 23 anos, pró-Zelaya, encontrado morto em El Paraíso. Dois homens identificados como policiais infiltrados foram detidos por manifestantes e quase foram linchados durante o enterro. Segundo a Cruz Vermelha internacional, quatro pessoas (dois policiais e dois civis) ficaram feridas nos confrontos do final de semana.

Ontem, pelo menos uma centena de partidários de Zelaya que optaram por atravessar as montanhas para fugir dos bloqueios chegaram à Nicarágua. Com uma perna quebrada devido a uma queda no caminho, a professora Maria Paz Zúniga lamentou a falta de manifestantes:

- Esperava ver mais gente.