O Globo
Quando não está bombardeando o distante Irã,
Trump está insultando os repórteres que cobrem o governo americano
A gente vive dizendo que o mundo anda
estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que
parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald
Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os
repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor.
Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa.
Em maio deste ano, em discurso na Academia da
Guarda Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve dificuldades em pronunciar
outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan, cometeu três erros em dez
minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se ao Irã, chamou o país de
República Islâmica do Japão. O inventário é longo. Tropeçou nas palavras stock
market (mercado de ações), anonymous (anônimo),
confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac.
Claro que isso traz uma discussão permanente
sobre seu poder cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os
repórteres na Casa Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências,
sobre o caso Epstein, sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase
diariamente, Trump chama um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não
contente em processar empresas e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV,
se esforça por humilhar os outros.
Recentemente, em discurso no jantar dos
correspondentes, resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter
Kaitlan Collins, da CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news,
dizendo que era uma pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para
ele odiá-la? Apenas faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra
tudo com acuidade:
— A pergunta mesmo o senhor não respondeu.
Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da
grandeza da América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os
Estados Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os
dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No
meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam.
É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me
um filme de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona
de carro e passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva
consigo todo o astral pesado.
O problema é que a Casa Branca não pode sair
do carro. Nem os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar
Trump falando sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para
a sensação de estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos
algoritmos que adoram uma baixaria.

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