Folha de S. Paulo
Banco Central Europeu lança consulta pública
para ajudar a definir desenho de cédulas de euro
É preciso escolher entre personagens
históricos ou figuras de aves para estampar a frente das notas
O Banco Central Europeu (BCE) lançou consulta pública para ajudar a definir o desenho das futuras cédulas de euro. A questão mais premente é determinar se o anverso (frente) das notas será ilustrado por personalidades históricas ou por figuras de aves. O convite para votar foi feito a cidadãos europeus, mas qualquer um pode opinar. A consulta não tem efeito vinculante. A decisão final caberá ao BCE.
George
Steiner, em "Uma Ideia de Europa", tenta traçar uma distinção
entre o velho continente e os EUA a partir dos nomes de ruas. As vias europeias
tendem a homenagear políticos, artistas e cientistas do passado, enquanto as
americanas, quando não se limitam a desfilar números ordinais, costumam aludir
a nomes de árvores (pine, maple, oak). Para Steiner, essa diferença na
toponímia, amplificada pelo próprio traçado das vias, produz experiências
existenciais muito diversas.
Caminhar por ruas europeias é mergulhar na
história e ser constantemente assombrado por uma rede de fantasmas que evocam
memórias do passado, tanto as luminosas como as sufocantes. Nos EUA, a mesma
experiência se torna inarredavelmente pragmática, muito mais impessoal e
nominalmente desumanizada.
Minha intuição para o problema das notas
acompanha Steiner. Usar dinheiro é uma atividade peculiarmente humana e
irredutivelmente social. Faria muito mais sentido, assim, ilustrar as cédulas
com personagens do passado. Elas ganhariam densidade histórica e reforçariam os
vínculos comunitários.
Hesito um pouco antes de abraçar
completamente essa tese por uma razão conjuntural. Passamos a viver numa época,
ainda não a-histórica, mas dada a anacronismos e ávida por cancelamentos. Não é
difícil imaginar um cenário em que se descubra algo controverso acerca de uma
das figuras escolhidas para as notas que leve a uma reavaliação de seu papel
histórico. Aí, uma decisão tomada para unir os europeus se tornaria motivo de
cizânia.
Prefiro gente, mas reconheço que passarinhos
têm menor vulnerabilidade a cancelamentos.
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