terça-feira, 4 de agosto de 2026

Melhor evitar, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É abismante a hipótese de que os donos de partidos do que se chama de Centrão resistam a se aliar a Flávio Bolsonaro “por medo” do Supremo. Para além do já paralelamente constituído Tribunal Xandônico Eleitoral, seria o “fator STF” interferindo na eleição por meio de “recomendações”: juízes da Corte constitucional que usariam o poder togado para fazer carga sobre agentes políticos que têm foro por prerrogativa de função naquela mesma Corte constitucional.

“Recomendações” prudentes de quem controla a informação e a caneta para materializá-las em decisão serão “recomendações” autoritárias. “Recomendações” autoritárias daqueles que são os gestores dos tempos de inquéritos não serão recomendações.

Será impossível não especular sobre por que Flávio Dino mantém xandonicamente abertos os inquéritos relativos às corrupções do orçamento secreto, quando dispõe dos elementos para declarar inconstitucional a emenda de comissão, com todas as consequências para os parlamentares que lhe violaram o espírito republicano. “Recomendações” autoritárias não raro são entendidas como facas nos pescoços.

Publicou Malu Gaspar, no Globo, que os proprietários de PP e União Brasil estariam sob “pressão” de ministros do STF “para preferir não fazer aliança formal com a chapa do filho de Jair Bolsonaro – tanto pelo risco de serem alvo de algum tipo de retaliação em razão da opção eleitoral por adversário da Corte como pelo risco de o próprio Flávio vir a ser alvo de alguma medida judicial até o final da eleição”.

O “risco de serem alvo de algum tipo de retaliação” como consequência de aliança política compõe nova ode à função de ministro de tribunal constitucional submetida à agenda política. O juiz que poderia-deveria agir, que tem os instrumentos formais e as razões fundamentadas para punir – e que agirá, que agiria, para retaliar, jogando com as possibilidades enquanto corre aquele relógio específico das convenções partidárias.

Há vários motivos (dos dinheiros de Vorcaro até os trânsitos do crime organizado pelo governo do PL no Rio de Janeiro) para que um partido não se associe à casa de vidro de Flávio Bolsonaro; que, de resto, pode ter quantos adversários – inimigos, sob o discurso para conflito bolsonarista – quiser. O Supremo não pode ter adversários nem ser aquele que, detentor exclusivo da prerrogativa de autorizar operações, medidas cautelares e até prisões contra o senador investigado, previne agentes políticos sobre o risco de se aliar ao senador candidato.

Melhor acreditar que os ciros nogueiras não fecham com Flávio Bolsonaro porque um acordo de neutralidade com o PT lhes ameniza a ladeira de pedir votos no Nordeste contra Lula. Melhor acreditar que os ruedas e alcolumbres, senhores de bilhões em emendas parlamentares, não fecham com Flávio Bolsonaro porque podem prescindir de contratos prévios com candidaturas majoritárias.

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