Valor Econômico
O verdadeiro poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e dos cidadãos, tornou-se virtualmente global
Peço licença ao caro leitor de nosso Valor para invocar Carl
Schmitt, cientista político alemão, ideólogo do nazismo, em seu livro “O Nomos
da Terra”, publicado em 1950.
Schmitt demonstra que a dominância dos
Estados Unidos consolidaria, nas relações internacionais, a hegemonia
econômica. Isto implica necessariamente o surgimento de uma forte tendência a
ultrapassar e a negar as barreiras territoriais e políticas impostas pela
existência dos Estados Nacionais. Ele diz: “A soberania territorial se
transforma num espaço vazio, aberto aos processos socioeconômicos. O espaço da
potência econômica determina o campo de ação do direito das gentes”.
Schmitt vira pelo avesso a ideologia da globalização: o predomínio do econômico, ou seja, a lógica da expansão mercantil-capitalista, exige uma enorme concentração e centralização do poder e, por isso, políticas permanentemente agressivas em relação às pretensões de autodeterminação dos povos, às suas formas de vida e aos seus costumes.
Esse processo de transformação das relações
internacionais, isto é, entre Estados Nacionais, desmascara a separação entre o
político e o econômico no capitalismo e revela a natureza política da Economia
Política. Donald Trump e suas tarifas e ameaças ao Brasil revelam que “o poder
político” comanda as decisões econômicas.
O território global deve, portanto, ser
comandado pelo poder político abrigado, sobretudo, nos movimentos dos mercados
financeiros. Esse movimento da riqueza abstrata (monetária), da geração do
maior valor econômico possível, manifesta-se sob a forma de decisões políticas.
O pensamento econômico dominante é um ardil
da razão. Uma forma refinada de ocultar a trágica realidade de nosso tempo, a
crescente separação entre o poder real e a política democrática. O verdadeiro
poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e
dos cidadãos, graças à sua mobilidade cada vez mais desembaraçada, tornou-se
virtualmente global, ou melhor, extraterritorial.
A “mão invisível” celebrada pelos liberais
está, mais do que nunca, encarnada no capital financeiro globalizado. Os
critérios da política democrática e libertadora não se aplicam à agenda criada
pelas forças desse poder que circula entre as nações e circunscreve a
capacidade de ação dos governos escolhidos pela vontade popular.
Tais forças não são racionais nem
irracionais, simplesmente cumprem os desígnios de sua natureza, dilacerada
entre a “ganância infecciosa” e o súbito colapso da histamina.
Nessa configuração do poder global, a esfera
pública foi acuada: não pode buscar abrigo nos palácios de governantes
impotentes, sempre temerosos, ademais, das vociferações que desabam sobre suas
cabeças, emitidas pelas fortalezas inacessíveis que formam a “nova opinião”, as
grandes empresas de mídia. Para a vida privada sobraram os consolos do
narcisismo e do voyeurismo dos reality shows.
O século XXI nasceu com a suspeita de que
pode haver retrocesso, de que o progresso não é uma fatalidade
Esses processos visíveis e simultâneos de
crescente inacessibilidade do público e de espetacularização do privado
decorrem de uma sociabilidade “esvaziada”; construída pelos movimentos da mão
que guia o curso dos mercados. Em sua ciclotimia, ela nos condena a flutuar
entre a euforia e o horror, a ganância e o desespero.
“Não há alternativa”, proclamam os adeptos do
neoliberalismo. Sobre esse pano de fundo, Margaret Thatcher foi capaz de
anunciar a morte da sociedade e o triunfo do indivíduo.
É duvidoso que o indivíduo projetado pelo
Iluminismo tenha, de fato, triunfado. Triunfaram, sim, a insegurança e a
impotência. Tal sensação de insegurança é o resultado da invasão, em todas as
esferas da vida, das normas políticas que amparam os movimentos dos mercados,
como critérios dominantes de integração e de reconhecimento social. Nos países
em que os sistemas de proteção contra os frequentes “acidentes” ou falhas do
mercado são parciais ou estão em franca regressão, a insegurança assume formas
ameaçadoras ao convívio social.
Nos países em desenvolvimento, as políticas
de liberalização financeira, além de agravarem as condições de vida dos mais
pobres, também afetaram negativamente o crescimento econômico.
O romancista Carlos Fuentes, autor do livro
“Os Anos com Laura Díaz”, escolheu seu principal personagem: o século 20. Sobre
ele, diz o autor: “Há uma evidente crise universal da civilização. Hoje, os
países do Primeiro Mundo têm o seu Terceiro Mundo dentro de si. E países do
Terceiro Mundo têm o seu Primeiro Mundo embutido... A novidade é que existem
mais mundos terceiros dentro dos primeiros. É o mundo dos guetos, do descuido
com a velhice, da misoginia, da homofobia, dos preconceitos, da falta de
infraestrutura, da educação em declive, do crime, da insegurança, da droga”.
Para o cidadão afetado pelas consequências
das crises sociais, econômicas e políticas do século XXI, parece inteiramente
fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As
erráticas convulsões das bolsas de valores ou as misteriosas evoluções e
involuções dos preços de ativos e moedas podem destruir suas condições de vida.
O consenso dominante explica que, se não for
assim, sua vida pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si
mesma, um método eficaz de bloquear o imaginário social, numa comprovação
dolorosa de que as instituições econômicas-políticas abrigadas no Estado e,
portanto, criaturas da ação humana coletiva, adquirem dinâmicas próprias e
passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
O século XXI nasceu com a suspeita de que as coisas podem andar para trás, de que o progresso individual e coletivo não é uma fatalidade. Esse sentimento é cada vez mais intenso, sobretudo entre os países e as classes que sonharam, algum dia, com a afluência prometida no curto período do segundo pós-guerra, quando o capitalismo parecia civilizado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário