terça-feira, 4 de agosto de 2026

Economia e Política, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

O verdadeiro poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e dos cidadãos, tornou-se virtualmente global

Peço licença ao caro leitor de nosso Valor para invocar Carl Schmitt, cientista político alemão, ideólogo do nazismo, em seu livro “O Nomos da Terra”, publicado em 1950.

Schmitt demonstra que a dominância dos Estados Unidos consolidaria, nas relações internacionais, a hegemonia econômica. Isto implica necessariamente o surgimento de uma forte tendência a ultrapassar e a negar as barreiras territoriais e políticas impostas pela existência dos Estados Nacionais. Ele diz: “A soberania territorial se transforma num espaço vazio, aberto aos processos socioeconômicos. O espaço da potência econômica determina o campo de ação do direito das gentes”.

Schmitt vira pelo avesso a ideologia da globalização: o predomínio do econômico, ou seja, a lógica da expansão mercantil-capitalista, exige uma enorme concentração e centralização do poder e, por isso, políticas permanentemente agressivas em relação às pretensões de autodeterminação dos povos, às suas formas de vida e aos seus costumes.

Esse processo de transformação das relações internacionais, isto é, entre Estados Nacionais, desmascara a separação entre o político e o econômico no capitalismo e revela a natureza política da Economia Política. Donald Trump e suas tarifas e ameaças ao Brasil revelam que “o poder político” comanda as decisões econômicas.

O território global deve, portanto, ser comandado pelo poder político abrigado, sobretudo, nos movimentos dos mercados financeiros. Esse movimento da riqueza abstrata (monetária), da geração do maior valor econômico possível, manifesta-se sob a forma de decisões políticas.

O pensamento econômico dominante é um ardil da razão. Uma forma refinada de ocultar a trágica realidade de nosso tempo, a crescente separação entre o poder real e a política democrática. O verdadeiro poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e dos cidadãos, graças à sua mobilidade cada vez mais desembaraçada, tornou-se virtualmente global, ou melhor, extraterritorial.

A “mão invisível” celebrada pelos liberais está, mais do que nunca, encarnada no capital financeiro globalizado. Os critérios da política democrática e libertadora não se aplicam à agenda criada pelas forças desse poder que circula entre as nações e circunscreve a capacidade de ação dos governos escolhidos pela vontade popular.

Tais forças não são racionais nem irracionais, simplesmente cumprem os desígnios de sua natureza, dilacerada entre a “ganância infecciosa” e o súbito colapso da histamina.

Nessa configuração do poder global, a esfera pública foi acuada: não pode buscar abrigo nos palácios de governantes impotentes, sempre temerosos, ademais, das vociferações que desabam sobre suas cabeças, emitidas pelas fortalezas inacessíveis que formam a “nova opinião”, as grandes empresas de mídia. Para a vida privada sobraram os consolos do narcisismo e do voyeurismo dos reality shows.

O século XXI nasceu com a suspeita de que pode haver retrocesso, de que o progresso não é uma fatalidade

Esses processos visíveis e simultâneos de crescente inacessibilidade do público e de espetacularização do privado decorrem de uma sociabilidade “esvaziada”; construída pelos movimentos da mão que guia o curso dos mercados. Em sua ciclotimia, ela nos condena a flutuar entre a euforia e o horror, a ganância e o desespero.

“Não há alternativa”, proclamam os adeptos do neoliberalismo. Sobre esse pano de fundo, Margaret Thatcher foi capaz de anunciar a morte da sociedade e o triunfo do indivíduo.

É duvidoso que o indivíduo projetado pelo Iluminismo tenha, de fato, triunfado. Triunfaram, sim, a insegurança e a impotência. Tal sensação de insegurança é o resultado da invasão, em todas as esferas da vida, das normas políticas que amparam os movimentos dos mercados, como critérios dominantes de integração e de reconhecimento social. Nos países em que os sistemas de proteção contra os frequentes “acidentes” ou falhas do mercado são parciais ou estão em franca regressão, a insegurança assume formas ameaçadoras ao convívio social.

Nos países em desenvolvimento, as políticas de liberalização financeira, além de agravarem as condições de vida dos mais pobres, também afetaram negativamente o crescimento econômico.

O romancista Carlos Fuentes, autor do livro “Os Anos com Laura Díaz”, escolheu seu principal personagem: o século 20. Sobre ele, diz o autor: “Há uma evidente crise universal da civilização. Hoje, os países do Primeiro Mundo têm o seu Terceiro Mundo dentro de si. E países do Terceiro Mundo têm o seu Primeiro Mundo embutido... A novidade é que existem mais mundos terceiros dentro dos primeiros. É o mundo dos guetos, do descuido com a velhice, da misoginia, da homofobia, dos preconceitos, da falta de infraestrutura, da educação em declive, do crime, da insegurança, da droga”.

Para o cidadão afetado pelas consequências das crises sociais, econômicas e políticas do século XXI, parece inteiramente fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas convulsões das bolsas de valores ou as misteriosas evoluções e involuções dos preços de ativos e moedas podem destruir suas condições de vida.

O consenso dominante explica que, se não for assim, sua vida pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesma, um método eficaz de bloquear o imaginário social, numa comprovação dolorosa de que as instituições econômicas-políticas abrigadas no Estado e, portanto, criaturas da ação humana coletiva, adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

O século XXI nasceu com a suspeita de que as coisas podem andar para trás, de que o progresso individual e coletivo não é uma fatalidade. Esse sentimento é cada vez mais intenso, sobretudo entre os países e as classes que sonharam, algum dia, com a afluência prometida no curto período do segundo pós-guerra, quando o capitalismo parecia civilizado.

Nenhum comentário: