terça-feira, 13 de outubro de 2009

REFLEXÃO DO DIA

“A imprensa livre pode, naturalmente, ser boa ou má. Mas é certíssimo que, sem liberdade, só pode ser má.”
(Albert Camus)

Fonte: Resistencia, rebelião e morte.

No bambolê do PMDB

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Os aliados da candidatura Dilma Roussef já não têm com o que se preocupar: aquele problema da falta de jogo de cintura ao qual aludiu certa vez o PMDB oferecendo à ministra de presente um bambolê, está devidamente resolvido.

Maleabilidade é o que a ministra-chefe da Casa Civil mais exibe ultimamente. Reza em qualquer altar - seja católico, evangélico, do Senhor do Bonfim ou do Círio de Nazaré -, defende José Sarney com desenvoltura, elogia Jader Barbalho com veemência pedindo mais respeito no trato que se dá ao PMDB e, prova definitiva de que já dança ao ritmo da música exigida, aderiu ao princípio de que aos amigos do poder tudo é permitido.

"Acho que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém", pontificou com originalidade a respeito das gravações da Polícia Federal, reproduzidas pela Folha de S. Paulo, mostrando como parentes e amigos do presidente do Senado, José Sarney, mandam e desmandam na agenda do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

"No Brasil", lecionou, "nós temos o hábito de pegar uma denúncia qualquer e sair condenando."

Inadmissível, não é verdade? "Pegar uma denúncia qualquer" que a Polícia Federal qualifica de tráfico de influência e ilustra em inquérito com as vozes do ex-ministro Silas Rondeau (afastado do cargo por suspeita de corrupção) e do empresário Fernando Sarney (há dois anos investigado pela PF) e "sair condenando" realmente é uma leviandade.

Ainda mais que o ministro em questão fornece uma justificativa bem consistente. Segundo ele, Rondeau e Sarney marcam reuniões e encontros diretamente com a secretária do gabinete do titular da pasta porque os três têm "uma relação de amizade".

E, com isso, evidentemente ninguém está em condições de condenar Edison Lobão por dar a liberdade aos amigos de "sugerir" audiências, visitas de empresários, temas a serem abordados, caminhos a serem adotados na administração da pasta de Minas e Energia.

Se são amigos, qual é o mal? Estranho é se fossem inimigos. Como se sabe, só os hipócritas, os fariseus, os falsos moralistas, os célebres udenistas invocam o respeito ao princípio da impessoalidade.

Os descolados, modernos, ativos, trabalham com outros conceitos. São regidos pela regra mor caciques redivivos, acostumados a usar o Estado como quem dispõe de um patrimônio privado. A essa concepção de administração pública parece ter aderido a ministra, outrora tida com rigorosa gestora.

Ante a explicitação do novo modelo é de se perguntar à ministra se, uma vez eleita, governará o Brasil conforme as convicções que lhe fizeram a fama de gerente com austeridade e competência, se o figurino atual visa apenas à criação de uma ilusão de ótica para não dispersar os aliados ou se, ganhando a Presidência da República, render-se-á à batida do samba e a manemolência do bambolê que lhe deu de presente o PMDB.

Em qualquer das hipóteses há um risco: de Dilma perder as características antigas, adquirir com as novas feições de caricatura e, com isso, agradar aos companheiros de aliança, mas desagradar profundamente ao cidadão de bem que anda farto de demagogia, leniência e dissolução ética.

Cilada

O termo chantagem seria muito forte. Até impróprio por enquanto. Mas digamos que entre os potenciais aliados do PT na eleição presidencial exista uma pressão para que o partido abra mão de suas conveniências político-eleitorais, sob pena de haver um êxodo na "base" com o pretexto de que os petistas são "egoístas".

Se Dilma subir nas pesquisas, tudo corre pacificamente. Se não subir, correm todos para outros caminhos dizendo que não tiveram outra escolha porque foi o PT que os rechaçou.

É uma sinuca: se não atender às exigências, o PT corre o risco de esvaziar o "entorno" de Dilma Rousseff. Se atender a todas elas, o perigo é esvaziar a si próprio nos Estados.

Exatamente como aconteceu com o partido no Rio de Janeiro, por causa da opção preferencial feita anos atrás pela direção nacional de ceder à política de alianças sem pensar na política do partido.

Ganhou eleições, brigou com todos os aliados durante o governo e transformou-se numa sublegenda das conveniências do eixo São Paulo-Palácio do Planalto.

"Déjà-vu"

Análise do cientista político italiano Luigi Bonanate, da Universidade de Turim, a respeito do sucesso do primeiro ministro Silvio Berlusconi, apesar de todos os pesares.

"Berlusconi conseguiu manter sua base de apoio intocável. Seu discurso é claro: ele joga parte da culpa nos comunistas, nos opositores, na mídia, imputando-lhes o rótulo de verdadeiro problema da sociedade italiana. Isso faz efeito, porque nenhum escândalo abala seu respaldo."

Para Bonanate, o "verdadeiro problema da Itália é a falta de oposição".

Brasil, uma contradição ambulante

José Pastore
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


A economia vai bem, mas as instituições vão mal. Temos democracia, é verdade. Esse é um marco institucional de grande valor. Não podemos perdê-la. Com ela vem a liberdade de ir e de vir e de tantas outras.

Deveríamos ter também liberdade de expressão. Na prática, a realidade é outra. Basta citar a censura imposta a este jornal, que já dura mais de dois meses.

Outra instituição sagrada em um regime democrático é a da propriedade privada. Pois bem. Sete mil laranjeiras carregadas foram derrubadas na semana passada por invasores que usaram o equipamento do dono da fazenda e, de gorjeta, destruíram as casas dos trabalhadores.

As autoridades se limitaram a praticar a surrada retórica, chamando-os de "vândalos", "irresponsáveis", "criminosos", ao mesmo tempo que tratavam de abafar a CPI do Movimento dos Sem-Terra (MST).

Os atos de desrespeito à propriedade privada são incontáveis. O MST já derrubou eucaliptos de uma fábrica de papel e celulose. Seus seguidores devastaram laboratórios, destruindo valiosas pesquisas agropecuárias de longa duração. E continuam assim. Invadem prédios públicos com a maior facilidade. Se não me falha a memória, já acamparam no Congresso Nacional!

Das autoridades de um regime genuinamente democrático esperava-se uma intervenção firme e definitiva. Pois, nada acontece. Ao contrário, a referida CPI quer apurar graves indícios de que o governo federal financia indiretamente esses grupos que ignoram a lei e o direito.

O problema da insegurança afeta seriamente os que precisam da propriedade para produzir, crescer, gerar empregos, impostos e bem-estar. Mas afeta também a maioria dos brasileiros que tem medo de sair às ruas e até ficar dentro de suas casas.

Por essas e outras é que se pode dizer, sem medo de errar, que a economia vai bem, mas as instituições vão mal. Na instituição do Poder Legislativo, tivemos recentemente o vexame dos atos secretos do Senado Federal. Também não foi o primeiro e, como nos casos anteriores, nada aconteceu. As comissões "não conseguiram ver" nenhuma prova de malversação de recursos. A nós, contribuintes e eleitores, restou assistir às malandragens pela televisão - sem poder de agir.

James Madison dizia que o primeiro estágio de uma democracia ocorre quando os governados passam a respeitar os governantes. O segundo, quando os governantes começam a respeitar os governados. O terceiro, quando os governados passam a controlar os governantes. Ah! Como estamos longe dessa democracia. Aos governados sobrou apenas a obrigatoriedade de respeitar quem não os respeita.

Como dizer, então, que nosso quadro institucional é sólido e amadurecido? Vejam a escola. A grande maioria dos professores tem medo de entrar na sala de aula. A violência tomou conta da maioria dos estabelecimentos. Alunos agridem os mestres com palavras e atos de profundo rancor e incontido ódio. Muitos dos pais seguem o mesmo script e investem contra os mestres que tentam corrigir seus filhos. Dá para construir uma sociedade respeitosa diante de tamanha falência institucional?

Se olharmos para o Poder Judiciário, os casos que vêm à tona são os mais deploráveis. Lembram-se do juiz que assaltou a casa onde trabalhava - o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo? Ele devolveu o dinheiro?

Estarrecidos ficamos sabendo que um magistrado condenado acaba de virar ministro do Supremo Tribunal Federal. O povo que tem, na média, apenas sete anos de escola - e má escola - não consegue entender que a sentença condenatória não transitou em julgado. Será que não haveria outro juiz capaz e em condições mais fáceis de serem compreendidas para ocupar tão alto posto?

Quando se olha para os partidos políticos - peças-chave da democracia - o desânimo nos domina. Eles são reconhecidos pelos próprios políticos como descarados balcões de negócios, com raríssimas exceções.

Partidos que capturam os nossos votos prometendo ética e honestidade são constantemente pilhados nas mais deslavadas falcatruas. Nada disso tem consequência. Já é lugar-comum dizer que o Brasil é o país da impunidade. Pergunto: impunidade casa com democracia?

Que tipo de instituições nós temos para apurar e punir? De fachada estão aí a polícia e a Justiça. Mas, de efetivo, elas só funcionam para os mais fracos, também com poucas exceções. As suspeitas de fraude e corrupção dos poderosos costumam ficar onde sempre ficaram - no limbo!

Ah! Como eu gostaria de ver este país com instituições fortes, atuantes e respeitáveis. Deus nos deu tantas coisas boas. É certo que entregaremos aos jovens uma nação com uma renda per capita mais alta. Um país que vai se transformar em grande exportador de petróleo. E que hospedará a Copa do Mundo e a Olimpíada. Mas, no campo das instituições, valores e ética de conduta, entregaremos o País que recebemos e piorado em vários aspectos.

Enquanto tais instituições não amadurecerem, continuaremos com uma democracia de segunda classe. Os valores básicos se deterioram a cada dia. Quem anda na linha passa por bobo ou desinformado.

Essa é a concepção que grassa em nossa juventude. Vejam estes dados: 30% dos brasileiros confessam que passaram em exames escolares com base na cola. Esses são os que confessam. E os outros? Vinte e sete por cento dizem que não devolvem o troco quando recebem a mais do que o devido. Esses são os que têm a coragem de dizer. E os outros?

O que mais dói é saber que os maiores contraventores nesses "pequenos delitos" são os mais estudados. Vejam o que a escola da violência está produzindo!

Paremos por aqui, reconhecendo que para chegar à verdadeira democracia teremos de enfrentar uma longa trajetória em que o fortalecimento das instituições é essencial.

Por tais motivos, quando vejo a distância que existe entre o sucesso da economia e a pobreza das instituições brasileiras, junto-me ao jurista Célio Borja quando diz: "O Brasil é uma contradição ambulante."

*José Pastore é professor de relações do trabalho da FEA-USP.

Lula entre dois atos

Fernando de Barros e Silva
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - "Não tem nenhum [outro] grande líder. No Brasil hoje -e esse é um dado triste para o Brasil-, a única figura de dimensão nacional sou eu". Quem fala é Lula. Está num jatinho que vai de Macapá a Belém, a cinco dias do segundo turno das eleições de 2002. A cena faz parte de "Entreatos", o documentário dos bastidores da campanha petista, dirigido por João Moreira Salles e lançado em 2004.

Se o diagnóstico já estava certo, hoje parece ainda mais verdadeiro. Até por isso, enquanto a biografia romanceada de Lula, by Barretão, não chega às telas, não perde tempo quem se dispuser a assistir ao filme em que o próprio candidato representa seu personagem.Hoje, o que mais chama a atenção em "Entreatos" é a capacidade que Lula teve de sobreviver a seus coadjuvantes. Praticamente todos encolheram ou foram banidos do poder.

O protagonismo do presidente, em contrapartida, só aumentou.

É curioso rever Mercadante, o maior papagaio de pirata, usando a câmera como um espelho, no qual contempla seu ego irrevogável. Ou lembrar de Zé Dirceu, para quem a câmera parece sempre uma intrusa, pondo em risco segredos & negócios de Estado. Deu no que deu.

Palocci, Gushiken, Duda Mendonça, Silvinho Pereira, Frei Betto, Ricardo Kotscho -todos os que aparecem ao redor de Lula de alguma forma fizeram água. Dilma, na época, não existia politicamente. E Delúbio, que existia até demais, não surge em cena, quem sabe por isso.

Fica claro em "Entreatos" que Lula já tinha perfeita noção de seu tamanho histórico. Mas também fica patente que ninguém ali sabia bem o que iria fazer no governo.

De certa forma, o enredo da comunhão nacional que vivemos hoje, cuja síntese apoteótica está na figura do próprio Lula (o filho do Brasil), é uma criação do ator eclético e camaleônico que ele soube ser.

Quanto de ficção e quanto de realidade? Fernando Meirelles disse há pouco que "Lula é o melhor ator, não sei se o melhor presidente". Na falta de um país, já temos um filme.

Balzac e o Nobel

Marcos Nobre
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MUITO SE discutiu sobre se Obama merecia ou não o Prêmio Nobel da Paz.Acho que esse prêmio tem pouca coisa que ver com merecimento. É política mesmo. E são políticas as razões da premiação.

O momento é de transição. A liberalização econômica dos últimos 30 anos primeiro minou a base do antigo bloco soviético. A partir de 1989, juntou-se ao rótulo "globalização" para prolongar de maneira artificial a Guerra Fria em favor da supremacia dos EUA. Até o limite brutal do governo de George W. Bush e de uma crise econômica como há muito não se via.

Muita gente pensa a transição atual por analogia à transformação do início do século 20, quando a Inglaterra perdeu progressivamente o lugar de potência hegemônica em favor dos EUA. O enfraquecimento do dólar seria o indício mais claro de que um substituto já estaria à vista. Ou pelo menos seria indício de que os EUA deixariam sua posição de supremacia em favor de um novo multilateralismo. O problema é saber quem seria esse substituto (as bolsas de apostas dão a China como favorita). Ou quais seriam os países em condições de participar desse cartel multilateral do poder mundial.

Nesse ponto, talvez só mesmo Balzac possa ajudar. Lá da primeira metade do século 19 vem a digressão registrada em seu romance "A Falsa Amante": "Digamos de passagem que a Polônia poderia conquistar a Rússia pela influência de seus costumes em lugar de combatê-la pelas armas, imitando os chineses, que acabaram chinesizando os tártaros e que chinesizarão os ingleses, como se deve esperar".

Essas esperanças francesas de Balzac foram frustradas, e os ingleses acabaram vencendo os chineses pelas armas em 1842. A Inglaterra tornou-se a principal potência mundial da época. E o verbo "chinesizar" (ou "sinizar") é ocorrência raríssima. Ao contrário de "americanizar", como se sabe.

Balzac errou, mas estava certo. A vitória pelas armas é incontestável, mas a conquista pelos costumes é essencial a qualquer império. E isso distingue essencialmente a hegemonia dos EUA de qualquer outra. Para além da superioridade bélica, os EUA alcançaram uma hegemonia cultural e civilizatória sem precedentes. Sua pretensão é a de universalizar um "way of life". Não é por acaso que o inglês se tornou língua franca.

Não existe substituto à vista para essa hegemonia. Nem a economia mundial vai conseguir sair da crise sem que os EUA se recuperem. O Nobel para Obama é reconhecimento e reafirmação da supremacia dos EUA. Mas com o pedido de que, se possível, sejam mais delicados no trato.

A esquerda em busca de um eixo

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


No momento em que o PT volta a mostrar aversão a alianças com outros partidos, sua costela esquerda, o P-SOL, está adiantado na discussão das composições a ser feitas em 2010. Na prática, isso significa o apoio da sigla à candidatura verde da senadora Marina Silva a presidente da República e que a vereadora Heloisa Helena vai disputar o Senado.

Em sua curta existência, nascido do primeiro racha do PT no governo, no calor da discussão da reforma previdenciária, o P-SOL transformou-se numa das siglas mais fechadas na escala partidária. Na extrema-esquerda, ameaçava reproduzir o caciquismo dos partidos mais conservadores, com Heloisa Helena, sem dúvida, como manda-chuva do partido.

A importância da mudança da sigla está de imediato no impacto que a saída de HH do páreo sucessório provocará nas pesquisas. A simples entrada de Marina na disputa levou Ciro Gomes (PSB) a reafirmar sua candidatura e elevar o estresse entre o Palácio do Planalto e os pessebistas. Resta saber qual será a repercussão do apoio do P-SOL à ex-ministra do Meio Ambiente.

O deputado Chico Alencar (RJ) listou os motivos pelos quais o partido deve apoiar Marina. Argumenta que o P-SOL nasceu do repúdio ao "transformismo conservador do PT". Mas não conseguiu aglutinar a esquerda "e quebrar o grave quadro de desencanto com a política". O que ocorreu foi uma crescente "naturalização da corrupção".

Arrefeceram a indignação com o "mensalão" e outros "procedimentos espúrios", sem falar no questionamento ao "continuísmo da política econômica ortodoxa de ajuste fiscal e do superávit primário", combatidos hoje pelo P-SOL, como eram antes pelo PT.

O P-SOL se vê ignorado como oposição ao governo, condição atribuída aos "demo-tucanos". Pior, diz ele: "Em vários embates a pseudopolarização que agrada o sistema coloca o bloco PT/PMDB e caudatários (PTB, PP, PR...) no campo da "esquerda" , como nos debates do Pré-Sal".

"Lula, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o "Minha Casa, Minha Vida", poderosas alavancas eleitorais, é o "avanço possível"; fora dele só há regresso ao privatismo máximo e ao Estado mínimo, reza o senso comum de amplas parcelas, até progressistas. Para elas, o que vem de Lula é sempre aceitável e justificável".

O papel e influência de Lula são vistos como "frutos de duas décadas de lutas, das quais foi o principal dirigente: ele mantém força, que é utilizada para evitar os enfrentamentos e passar sua política, elogiada por grandes empresários - "Lula salvou o capitalismo", como exaltou o ex-deputado Delfim Netto".

Beneficiadas com cargos e verbas - analisa o deputado -, centenas de direções sindicais, nas principais categorias, funcionam como correias oficialistas de transmissão. "A força do atual governo e sua capacidade de aglutinação social deve-se muito mais a políticas compensatórias e localizadas do que a mudanças estruturais. Falta um polo aglutinador, social e político, capaz de ocupar o espaço no debate do enfrentamento da crise a partir de uma perspectiva de esquerda".

O P-SOL, em sua autocrítica, reconhece que, se não conseguir articular condições políticas para garantir a candidatura HH, não será mais visto como portador de um projeto alternativo de país, acredita Chico Alencar.

"Em política, espaço vazio é espaço logo ocupado por outro". E o fato novo para a disputa de 2010, o "outro", é a saída de Marina do PT e sua filiação ao PV, "Como ponderam diversos camaradas e mostra a realidade, sua candidatura deverá atrair setores preocupados com o meio ambiente, descontentes com a corrupção, à direita e esquerda (como HH, em 2006), uma juventude "potencialmente ecológica", além de parte dos movimentos sociais que sempre orbitaram em torno do PT", diz.

"É preciso, com urgência, dialogar com esses setores a partir de balizas programáticas, reconhecendo o forte apelo que causa a trajetória emblemática de Marina - não do seu "furta-cor" PV", diz o texto de Chico, apreensivo com o que começa a ser dito de dirigentes de um até agora pouco visível PV.

O que o P-SOL teme é que, na atual situação, o cenário de 2010 possa ser ainda pior que o de 2006, mesmo sem Lula no páreo, o que acontece pela primeira vez desde 1989. A redemocratização brasileira completou um ciclo com o PT. A esquerda, principalmente aquela desencantada com Lula, está atrás de um novo eixo

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Serra faz discurso político em missa

Soraya Aggege
DEU EM O GLOBO

Depois de Dilma no Círio de Belém, tucano vai a Aparecida

SÃO PAULO. No dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), discursou ontem para 43 mil católicos que participaram das homenagens no Santuário Nacional de Aparecida (SP). A exemplo do que tem feito a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também pré-candidata à sucessão do presidente Lula — que cumpriu um périplo religioso no últimos dias —, o tucano participou de ato na basílica e aproveitou para dizer que o país precisa de governantes íntegros, que sirvam em vez de se servir do povo.

Apenas este mês, Dilma já participou de cerimônia da Assembleia de Deus em São Paulo; foi à Igreja do Bonfim, em Salvador; e no domingo fez propaganda do governo Lula na procissão do Círio de Nazaré, em Belém.

— O Brasil precisa de governantes íntegros, que sirvam ao povo, em vez de se servirem do povo; e que tenham como preocupação central abrir oportunidades a nossas famílias: oportunidades de trabalho, de cultura, em um ambiente de espiritualidade fraterna.

Assim é possível garantir um futuro de amor, de paz, que permita ao nosso país se encontrar dentro da justiça e da solidariedade — discursou Serra.

Depois da missa, o tucano disse que não pretendia usar o evento para mandar recados a ninguém e que a afirmação foi apenas de uma reflexão pelo dia da padroeira.

No total, 175.667 pessoas visitaram a cidade de Aparecida (a 180 quilômetros de São Paulo) durante o feriado de ontem, segundo a assessoria de imprensa da basílica. Foram celebradas quatro missas ao longo do dia

Tucano fala em missa sobre papel de governante

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Um dia depois de a ministra da Casa Civil e pré-candidata petista à Presidência em 2010, Dilma Rousseff, participar do Círio de Nazaré, ontem foi a vez de outro pré-candidato ao Planalto, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), marcar presença em evento religioso de grande porte, em comemoração ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

Anteontem, Dilma assistiu ao Círio, em Belém (PA), que reuniu cerca de 2 milhões de fiéis.

Ontem, Serra foi à missa no santuário de Aparecida (a 167 km de São Paulo) e também falou sobre política. Segundo os organizadores, o evento contou com 43 mil pessoas.

Em discurso e em entrevista coletiva, Serra afirmou que "o Brasil precisa de governantes que sirvam ao povo, não que se sirvam do povo". "[Ser cristão] para mim significa, no governo, servir ao povo. A minha felicidade depende de eu poder proporcionar mais felicidade aos outros. Isso para mim é o que significa ser cristão", disse.

Durante seu discurso, falando sobre Nossa Senhora Aparecida, o governador afirmou que sua grandeza serve para a "libertação do nosso povo".

"Essa libertação pressupõe uma sociedade mais justa, igualitária e políticos que trabalham nessa direção, olhando para hoje e para o futuro. Quando se governa, tem que se governar com um olho no presente e um olho no futuro."

Adversária de Serra, Dilma e outros petistas têm defendido que a próxima campanha presidencial se transforme numa comparação entre o governo do PT (entre 2003 e 2010) e o do PSDB (entre 1995 e 2002).

O tucano disse ainda que os governantes devem se empenhar "em abrir às nossas famílias, às famílias brasileiras, um futuro de trabalho, de cultura, de fraternidade, um futuro de amor, paz e que permita ao nosso país se encontrar dentro da Justiça e da solidariedade".

Serra terminou o discurso saudando romeiros de todo o Brasil presentes na missa. "É um orgulho que venham para nosso Estado, para este santuário, que para todos nós representa uma grande conquista espiritual do povo brasileiro."

À tarde, Serra participaria de evento na favela de Heliópolis, zona sul de São Paulo, devido ao Dia das Crianças. Mas a forte chuva que atingiu o local antecipou o encerramento do ato.

Serra antecipa negócio como BB para ter mais caixa em 2010

Catia Seabra
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O governo de José Serra (PSDB-SP) está prestes a fechar com o Banco do Brasil um negócio que deve garantir ao Estado R$ 1,3 bilhão no ano eleitoral de 2010.

São Paulo estenderá de 2012 até 2014 o direito do BB de gerir a conta salário dos servidores estaduais, antecipando uma "venda" que seria necessária só no próximo governo. Já o BB poderá escapar da nova regra da conta salário, que permitirá ao servidor escolher o banco a partir de 2012.

Serra antecipa acordo com BB para aumentar caixa em 2010

Proposta para Banco do Brasil gerenciar conta de servidores até 2014 renderá R$ 1,3 bi

Com acordo, exclusividade do BB sobre conta salário de funcionários públicos de SP, que venceria em 2012, pode se estender por 23 meses


Na busca por recursos para extenso cardápio de obras, o governo Serra está prestes a fechar negócio com o Banco do Brasil que garantirá R$ 1,3 bilhão aos cofres do Estado no ano eleitoral de 2010. Concretizada a proposta expressa num termo de compromisso, o governo venderá ao BB -dono da Nossa Caixa- o direito de administrar, com exclusividade, a conta salário dos servidores estaduais por mais 23 meses.

Desde abril de 2007, a Nossa Caixa detém a exclusividade sobre a folha de pagamento do Estado. Mas, com a nova operação, a intenção é prorrogar a vigência desse contrato de 2012 até 2014. Com isso, o Banco do Brasil terá cinco anos de exclusividade sobre as contas dos servidores de São Paulo.

Devido à operação, o Estado antecipará "uma venda" que, em tese, seria necessária apenas em 2012, só no próximo governo. Mas não será o único beneficiado com o acordo.

O BB, por sua vez, poderá escapar de uma regra com vigência programada para 2012: a nova conta salário. A partir de 2012, o servidor pode escolher um banco para depósito do seu salário. Mas, se fechar negócio agora, sob as regras atuais, o BB poderá alegar, em 2012, que tem direito adquirido até 2014.

Em abril de 2007, o governo de São Paulo vendeu à Nossa Caixa a exclusividade da conta dos funcionários por cinco anos. Em março deste ano, o Banco do Brasil comprou a Nossa Caixa, incluindo esse "monopólio". Hoje, negocia a prorrogação do contrato por 23 meses. Esse período refere-se ao tempo transcorrido de abril de 2007 até março de 2009.O argumento é que o BB pretende ter direito a cinco anos de exclusividade a contar da compra da Nossa Caixa.

Fechado o negócio, o BB comprará ainda a exclusividade para concessão de empréstimos aos funcionários estaduais com desconto em folha e administrará o pagamento aos fornecedores do Estado.

Procurado pela Folha, o secretário estadual da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, explicou que a Nossa Caixa detinha esses direitos quando pertencia ao governo de São Paulo. Mas, como não estavam previstos em contrato, não foram transferidos para o BB no processo de venda da Nossa Caixa.

"A venda do controle acionário não se confunde com a venda de outros direitos do Estado. São duas operações. A venda da Nossa Caixa e a venda de outros direitos", afirmou.Segundo ele, a negociação está prevista num termo de compromisso firmado entre Banco do Brasil e governo do Estado. Pela proposta, o BB deterá esses direitos por cinco anos. A prorrogação, diz, serviria para compatibilizar todos os prazos.

A assessoria do BB confirmou que a negociação está em curso. Mas informou que não se manifestará por se tratar de estratégia comercial.

O governo conta com o sucesso da operação. Tanto que prevê, no Orçamento de 2010, dotação de R$ 1,3 bilhão sob o título "Receitas patrimoniais oriundas do contrato de garantia de exclusividade na prestação de serviços financeiros".

Também no ano que vem será liberada a maior fatia de empréstimos da gestão Serra. Segundo o cronograma, ao menos R$ 4,211 bilhões serão desembolsados em 2010 para obras de infraestrutura. O valor representa 62,03% do total a ser liberado nos quatro anos de governo (R$ 6.789.882).

O governo Serra obteve autorização para contratação de R$ 11,6 bilhões em empréstimos. Mas boa parte ficará para o sucessor. Para o ano que vem, o Orçamento prevê R$ 21,9 bilhões em investimentos.

Outra fórmula para ampliar receita foi a aprovação do projeto que permite a venda de títulos para antecipação de cerca de R$ 900 milhões em créditos que o governo tem a receber. A medida possibilita que o Estado antecipe o recebimento de dívidas parceladas em 2008.

PSDB aposta em polarização de biografias

Caio Junqueira, de São Paulo
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Assim como o governo Lula, os tucanos apostam na polarização da eleição presidencial em 2010."Só que o embate não vai ser entre as realizações de Lula e FHC, mas entre a biografia de um realizador e a de uma desconhecida", diz o jornalista e publicitário Luiz González, que deverá ser o principal estrategista da campanha do PSDB, referindo-se ao governador de São Paulo, José Serra, e sua oponente, a ministra Dilma Rousseff. Para González, que trabalha para o PSDB paulista há 15 anos, a internet vai ser importante na campanha, mas não tanto quanto a televisão.

"Serra vai ganhar guerra de biografias"

Luiz González, 56 anos, paulistano, neto de espanhóis da Galícia, deverá ser o principal estrategista da campanha do governador de São Paulo, José Serra, a presidente em 2010. É o marqueteiro preferido dos tucanos paulistas. Sua ascensão no marketing político foi concomitante à consolidação do PSDB no governo estadual. Já se vão 15 anos desde que fez a campanha de Mário Covas, em 1994, mesmo ano em que trabalhou para Serra, que disputava o Senado. Quatro anos depois, ajudava Covas a se reeleger. Em 2000, perdeu com Alckmin na prefeitura, mas o fez governador dois anos depois. Voltaria a trabalhar para Serra na campanha à prefeitura em 2004 e ao governo do Estado em 2006, quando atuou para Alckmin na disputa presidencial. No ano passado, elegeu Gilberto Kassab (DEM) prefeito.

Foi em sua agência Lua Branca, detentora de contratos de publicidade tanto com a Prefeitura de São Paulo quanto com o governo paulista, que ele recebeu o Valor para uma entrevista, explicitou sua estratégia que, a exemplo do governo, é de polarização entre Serra e Dilma - "Só que o embate não vai ser entre Lula x FHC, mas entre a biografia de um realizador e a de uma desconhecida". A seguir, trechos da entrevista:

Valor: O senhor não teme a transferência de votos de Lula para Dilma?

Luiz González: Aqui em São Paulo ou em Caetés (cidade pernambucana em que Lula nasceu)? Em Caetés haverá mais. A pergunta é: quanto Lula vai transferir nos lugares onde a informação é menos variada, chega mais devagar e as pessoas dependem mais do Estado? Quanto isso pesa mais do que a admiração que as pessoas possam ter por um cara como o Serra e a expectativa de que com ele o lugar onde o eleitor vive melhora? Lula fez campanha para Marta. Foi para o palanque e resultou em quê? Nada. Não levantou meio ponto porque o eleitor aqui é atento.

Valor: Mas e no resto do país?

González: Alckmin era desconhecido nacionalmente, enfrentava um mito que tinha disputado as cinco últimas eleições e que havia feito um governo em que a economia ia bem. Agora está invertido. A Dilma é desconhecida, o Serra é mais conhecido e tem mais biografia. Dilma precisa mostrar o que o governo fez. Pode subir até certo ponto, mas para subir para valer tem que expor a pessoa.

Valor: Foi a privatização que derrotou o Alckmin?

González: Eu nunca saí de um estúdio tão festejado como naquele dia do debate da Bandeirantes. Não só os políticos mas também os coleguinhas. E eu sabia que tinha dado errado. Tinha falado pra ele: não faz isso. Foi ali que ele perdeu a eleição. Colocou o dedo na cara do Lula, foi desrespeitoso. O público fala: "Quem é esse cara? Tô desconhecendo". E teve também a reação do Lula no segundo turno. Fez a famosa reunião no Palácio do Planalto com 17 ministros, despachou um para cada Estado e escalou quatro para aparecerem no "Bom Dia Brasil", "Jornal Hoje", "Jornal Nacional" e "Jornal da Globo". Várias entrevistas do PT metendo a ripa no Alckmin e do nosso lado ninguém. O Tasso (Jereissati) estava no interior do Ceará, o Sérgio Guerra, em Pernambuco, o César Maia sumiu. Consegui o Heráclito Fortes para dar uma coletiva. Se você dá uma entrevista às 15h eu tenho que dar outra às 15h30. Esse é o jogo. E o nosso foi um desastre.

Valor: A força do Lula no Nordeste também não foi decisiva?

González: Não foi apenas no Nordeste. Uma grande derrota que ele sofreu foi no Amazonas. Perdemos em Minas, que tem 10 milhões de eleitores, por 1 milhão de votos. No Amazonas, que tem 2 milhões, perdemos por 900 mil votos. Amazonas virou Minas, que é o terceiro colégio eleitoral do país, porque os dois candidatos da base do Alckmin, Arthur Virgílio e Amazonino Mendes, brigaram o tempo todo e nenhum deles conseguiu defender o candidato da acusação de que ele acabaria com a Zona Franca.

Valor: Em 2010, o comando de Lula sobre a campanha não fará a diferença?

González: Uma coisa é o Lula outra é essa mulher [Dilma] que ninguém sabe de onde veio. Estou colocando como caricatura o discurso, mas no fundo é o seguinte: será que as pessoas estão dispostas a aguentar o PT mais quatro anos sem o Lula? Sem o Lula ficam só os Waldomiros [Waldomiro Diniz, ex-assessor do Planalto flagrado em vídeo recebendo propina]. O Lula foi preservado nessa coisa toda, e sem ele como é que fica?

Valor: O senhor aposta numa campanha pela biografia, mas não acha que o governo vai se pautar por temas como Bolsa Família, crédito popular, valorização do salário mínimo?

González: Mas para cuidar disso aí você prefere esse cara aqui ou essa mulher [Dilma] que ninguém conhece? Tudo isso vai continuar e vai melhorar porque onde esse cara [Serra] põe a mão dá certo. Veja só, como ministro: 300 hospitais reformados. Como deputado: tirou o seguro-desemprego do papel. Como ministro da Saúde: fez os genéricos. Como governador: fez três vezes mais metrô que todo mundo. Onde ele põe a mão dá certo. Vai dar certo com aposentadoria, com salário mínimo, água encanada porque ele é um realizador, tem credibilidade, melhora a vida das pessoas por onde passa. E do lado de lá? Quem é? Ninguém sabe.

Valor: E o PAC e o pré-sal?

González: Eles vão mostrar o PAC, nós vamos mostrar que o PAC não existe. Está tudo parado. A vantagem da campanha política é que o contraditório é exercido todos os dias. Cada um fala o que quer, ouve o que não quer e o eleitor julga. Por isso a campanha não é publicitária, é jornalística. Quanto tem para o pré-sal? São 5 bilhões de barris a US$ 40 dólares o barril. US$ 200 bilhões. Por que não põe US$ 100 bilhões na saúde agora? Ah, não existe? Pensei que tivesse. Não estão falando que a Petrobras está sendo capitalizada com 5 bilhões de barris?

Valor: A aposta, então, é que na disputa entre biografias o Serra leve?

González: O Serra é o favorito, tem grandes chances de ganhar. A Dilma passou a ter problemas com a entrada do Ciro [Gomes] e da Marina. Será uma surpresa se ela decolar. O governo acha que vai ser um plebiscito Lula versus não-Lula, ou Lula versus FHC, mas nós não vamos deixar. Não é isso. É a biografia do Serra contra a da Dilma. E daí o nosso japonês é melhor do que o japonês dos outros. Serra foi deputado constituinte, senador, secretário de Estado, ministro duas vezes, prefeito, governador. Tudo o que ele fez alicerça o que vai prometer. Isso dá credibilidade, confiança. E é uma figura nacional.

Valor: Como contrabalançar o Norte e o Nordeste?

González: Uma questão central na campanha é que Serra não pode perder Sul e Sudeste. Não é à toa toda essa movimentação em São Paulo. Eles não são trouxas, precisam de alguém que tire votos do Serra aqui. Uns cinco, seis pontos. Todo esse jogo com o [Gabriel] Chalita é entre PSB e PT porque tem que tirar uns 4 milhões de votos do Serra aqui. O Nordeste é fundamental, é importante, mas acho que nunca se pode perder suas cidadelas. O negócio é que não se pode perder de muito lá e ganhar bem aqui. Serra é tido no Nordeste como o melhor ministro da Saúde que o Brasil já teve.

Valor: O PMDB é crucial?

González: Se o PMDB for para o governo nos prejudica bastante porque tempo de TV é importante.

Valor: O fato de o PMDB ter as maiores bancadas no Congresso e o maior número de prefeitos não é importante também?

González: Não. Isso não é garantido, pois ninguém sabe se eles vão ajudar mesmo. Alguns só ajudam se receberem recurso material, outros até ajudam adversários. O PMDB de Pernambuco é diferente do de Goiás, que é diferente do Rio. Há a possibilidade remota, mas existente, de eles fecharem com o Serra. Aí nossa chance aumenta muito. A possibilidade em que acredito: o PMDB não vai para ninguém. Aí zera e a eleição fica polarizada entre Serra e Dilma. Mas até o início da campanha ela vai sofrer com matérias que ela não emplaca. Alguém do PT em off criticando, dizendo que o gênio dela é ruim, que ela briga com todo mundo. Só bastidores. Ela vai sofrer com isso.

Valor: E o Ciro?

González: Não emplaca. Primeiro porque não vai ter tempo de TV. Vai ter PSB e mais o tempo igualitário, que vai dar uns dois minutos e meio. Sabe qual a leitura do público? ´Aquele pequenininho lá não vai governar porque não consegue agregar. Tem dois que são pra valer e dois nanicos´. Segundo porque ele é verborrágico e alguém vai provocá-lo. Pode ser o Serra ou até mesmo a Dilma, porque pode se travar uma disputa entre ela e o Ciro pelo segundo lugar. Para nós é o melhor cenário. Isso se o Ciro não tiver cometido nenhum deslize verborrágico, o que eu não acredito.

Valor: E a Marina?

González: É uma candidata interessante, bacana, com história bacana, com aura de seriedade. A única coisa que a prejudica neste momento é o pouco tempo de TV. É pouco para expor as ideias, convencer, seduzir e apaixonar. O eleitor também avalia a capacidade de fazer alianças pelo tempo de TV. A tradução do pouco tempo é esse: o cara não tem força. Ela tende a murchar também.

Valor: Aqui em São Paulo o PSDB faz sucessor sem atropelos?

González: São Paulo sempre é uma eleição complicada. É um lugar com opinião pública forte, gente informada, urbanizada, antenada. Mas acho difícil para a oposição mesmo porque não sei quem é o candidato.

Valor: O Palocci pode ser competitivo em São Paulo?

González: Será um erro se ele sair. Tem uma série de coisas de quando ele foi prefeito de Ribeirão Preto que ainda não foram resolvidas, assim como o caso do caseiro Francenildo que também não foi resolvido na opinião pública.

Valor: E a disputa entre os tucanos? Alckmin lidera as pesquisas, mas o meio político prefere Aloysio Nunes Ferreira, com dois pontos nas pesquisas. É difícil alavancar o Aloysio?

González: Você pergunta o que é mais difícil, não a minha preferência. Mesmo porque, essa é uma questão partidária e não me caberia opinar. Mas é óbvio que é mais difícil pegar alguém com 3 ou 5 pontos e lutar morro acima para levar a 20, 25 pontos e forçar o segundo turno do que pegar um candidato com 50 pontos, ex-governador do Estado.

Valor: O que é mais determinante ao voto?

González: Tem uma tese do professor João Albuquerque, da USP, defendendo que 15% votam por identificação, o mesmo percentual, por oposição e 70% por expectativa de benefício futuro. A questão central é como se cria uma identificação com o candidato e se desperta no eleitor a confiança de que ele é capaz de melhorar sua vida.

Valor: A internet vai ser importante em 2010?

González: A cada eleição a internet fica mais importante. E, em 2010, pode até ser a ferramenta mais comentada, pelas novidades que trará. Mas não acredito que será a mais importante. Nas condições de 2010, acho que a TV ainda será mais importante do que a internet, por mais amplas e diversificadas que sejam as ações na internet e por mais tradicionais que sejam na TV. Mário Covas dizia que se ele tivesse pouco dinheiro pagaria advogado e programa de TV e depois contrataria o resto. Se fosse para hierarquizar os veículos que eu usaria, diria que o mais importante é o horário eleitoral, free media [presença dos candidatos no rádio, TV, jornais e revistas], programa eleitoral no rádio e, por fim, a internet.

Valor: Por que?

González: Pela abrangência. O Brasil tem pouco mais de 131 milhões de eleitores. A televisão chega a praticamente todos. Existem 57 milhões de domicílios no Brasil. Há pelo menos um aparelho de TV em 95% desses domicílios - 170 milhões de brasileiros a assistem diariamente. Estima-se que haja até 60 milhões de internautas, com 11 milhões de conexões em banda larga. Ou seja: a televisão chega a muito mais gente. Outra questão é a distribuição geográfica. A TV chega a todo o país de maneira mais uniforme: 96% dos domicílios urbanos têm TV. Na zona rural a presença cai, mas ainda é alta: 78% das residências rurais têm TV. Essa presença avassaladora e bem distribuída não acontece, ainda, com a internet. A internet está mais presente nas regiões Sul e Sudeste, com 60% dos internautas. Mas as regiões Norte e Nordeste que têm, juntas, 34% do eleitorado, só têm 22% dos internautas.

Valor: Essa concentração da internet no Sul e Sudeste favorece alguma candidatura?

González: Acho que a internet vai servir de maneira distinta às candidaturas. Serve mais ao PT do que ao PSDB. Como o PT tem mais dificuldade no Sul e no Sudeste, onde a internet tem mais penetração, o instrumento vale mais. Da mesma forma, se o corte for cidade grande versus cidade pequena, o PT tem mais dificuldade nas capitais e cidades grandes. O PSDB tem mais dificuldade nos grotões. Desse ponto de vista, o que o PSDB precisa é de carro de som nas pequenas cidades. Além disso, a televisão é um veículo impressionista. É um veículo de emoção, que surpreende o telespectador em sua casa. Nessas características essenciais, é insubstituível.

Valor: O que o senhor achou da reforma eleitoral recém-aprovada?

González: Lamentável. O Congresso perdeu a oportunidade de limpar as regras eleitorais, de deixar o pleito mais livre. Por exemplo: não se pode usar imagem externa nas inserções ao longo da programação, nos comerciais. Mas se pode usar imagem externa nos programas grandes, em bloco. Qual o motivo?

Valor: Quais são os outros problemas da reforma?

González: A reforma instituiu um "liberou geral" nas coligações. Agora é possível, na mesma circunscrição eleitoral, fazer coligações que se contradizem. Essa emenda do "liberou geral" para as coligações atende a estratégia governista. Nos últimos anos, prevaleceu a norma que impedia o uso de um espaço eleitoral no rádio e na TV por um candidato a outro cargo. Mesmo assim, em 2006 Lula "invadiu" grande parte das campanhas estaduais, principalmente onde o candidato a governador do PT era fraco. Foi parcialmente punido por isso, com perda de tempo de TV. Nem todas as "invasões" foram descobertas a tempo de se acionar o TSE. Na eleição de 2010, as campanhas estaduais estão autorizadas a veicular "imagem e voz" do candidato a presidente, ou de militante político nacional. Traduzindo: é a licença para Lula e Dilma" invadirem" os tempos de propaganda de candidatos a governador, senador e deputados. Vai ser uma festa. Infelizmente, a oposição deixou passar. Vamos ver o que o TSE diz sobre o assunto.

Ciro sofre ataque especulativo do PT

Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Partido de Lula ameaça governadores do PSB com rompimento de alianças regionais e endurece jogo para que legendas aliadas não fechem com socialista

Desde que ultrapassou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), nas pesquisas de opinião, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) sofre um ataque especulativo dos petistas para desistir da candidatura a presidente da República. Além de pressionar os governadores da legenda — Eduardo Campos (PE) e Cid Gomes (CE), candidatos à reeleição, e Vilma Maia (RN) — com a ameaça de romper as alianças regionais, o PT força a barra com os partidos aliados para não aderirem à candidatura do socialista.

Na única conversa da cúpula do PSB com Luiz Inácio Lula da Silva sobre a sucessão de 2010, Ciro reiterou que pretende disputar a Presidência. Lula enfatizou que prefere uma eleição plebiscitária, com uma candidatura única da base contra a oposição, mas disse que não pretende pedir a retirada da candidatura de Ciro, porque foi candidato quatro vezes e entende a posição de seu ex-ministro.

Segundo o líder do PSB no Senado, Renato Casagrande (ES), Ciro não pretende ser candidato a governador. “Ele transferiu o domicílio eleitoral para São Paulo com o objetivo de manter o diálogo com o PT.” Essa mudança, porém, manteve as esperanças do Planalto de deslocar a candidatura de Ciro para o governo paulista e levou à intensificação das pressões do PT sobre o PSB. O ex-ministro José Dirceu, uma espécie de eminência parda nos bastidores da sucessão de 2010, tentou convencer o governador Cid Gomes a patrocinar a retirada da candidatura de Ciro e ouviu um sonoro não: “Só trato das eleições a partir de março do ano que vem”, disse-lhe o irmão de Ciro.

A resposta do PT veio a galope, numa entrevista da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, à imprensa local. Ela ameaçou se lançar candidata contra a reeleição de Cid Gomes se Ciro não retirar a candidatura. O recado serve também para Eduardo Campos, que precisa do apoio do PT para enfrentar a candidatura do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). O ex-prefeito do Recife João Paulo, que integra o secretariado de Campos, é uma carta na manga do PT para forçar Campos a operar a remoção de Ciro.

Confusão


O problema é que o PT está à beira de um ataque de nervos por causa do crescimento de Ciro, sem contar com a confusão na seção paulista da legenda. A ex-prefeita Marta Suplicy (PT), por exemplo, lidera a mobilização contra a candidatura de Ciro em São Paulo, em franca oposição à tese de Lula. “Essa discussão somente serviu para alavancar a candidatura a Ciro, prejudicando Dilma, não resolve nosso problema em São Paulo”, critica o deputado Carlos Zaratinni (PT-SP), aliado de Marta Suplicy.

Enquanto Ciro não se decide, não faltam candidatos petistas sem o respaldo de Lula. O mais carismático é o senador Eduardo Suplicy. Mas também são pré-candidatos o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e o prefeito de Osasco, Emídio de Souza. O ministro da Educação, Fernando Haddad, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Arlindo Chinaglia, aparentemente, desistiram da candidatura. Lula, porém, avalia que nenhum deles resolve o problema eleitoral de Dilma em São Paulo. A solução é Ciro Gomes disputar o Palácio dos Bandeirantes.

Estrelas do Senado correm risco de não se reeleger

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sérgio Guerra,Tasso, Renan e Mercadante estão entre os parlamentares que terão dificuldade para voltar à Casa

Como se não bastasse a crise que desmoralizou o Senado neste ano, as eleições de 2010 ameaçam tirar o brilho de antigas estrelas da política nacional, que enfrentam dificuldade para se reeleger. Os obstáculos atingem em cheio senadores de todos os partidos que estão sendo obrigados a fazer arranjos políticos para garantir, ao mesmo tempo, sua sobrevivência e a eleição nos Estados.

Na oposição, há casos emblemáticos como os dos senadores tucanos Sérgio Guerra (PE), atual presidente do PSDB, e Tasso Jereissati (CE), ex-presidente da sigla, que correm o risco de não voltar ao Senado. Os percalços eleitorais também abrangem senadores governistas, como Renan Calheiros (PMDB-AL), que provavelmente terá de encarar como adversários na corrida pelo Senado o ex-governador Ronaldo Lessa (PSB) e a candidata à Presidência pelo PSOL em 2006, Heloisa Helena.

O enfraquecimento de cabeças coroadas da política é mais visível no Nordeste, onde tradicionalmente os governadores são responsáveis pela eleição de senadores. Depois de governar Pernambuco por oito anos consecutivos, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), que tem mais cinco anos de mandato, é pressionado a sair candidato ao governo do Estado. O motivo é que a candidatura do peemedebista seria o caminho mais tranquilo para alavancar a eleição tanto de Sérgio Guerra quanto do ex-vice-presidente Marco Maciel (DEM-PE).

Com dificuldade para se reeleger ao Senado, os dois torcem para que Jarbas dispute o governo do Estado e, com isso, ganhem um palanque forte. Afinal, ambos terão como adversários o ex-prefeito de Recife, o petista João Paulo, e o deputado Armando Monteiro (PTB). Com mandato desde 1971, Maciel é o que tem mais "recall" junto ao eleitorado. Já o senador tucano é o que dispõe da maior estrutura partidária no Estado, mas sem o palanque de Jarbas enfrenta dificuldade de se reeleger para o Senado.

"Todos os candidatos de oposição serão mais competitivos se Jarbas for candidato ao governo", admite Guerra. O senador peemedebista prefere, no entanto, manter o suspense até o carnaval, data em que confidenciou a amigos que irá bater o martelo sobre sua candidatura. Se Jarbas resolver não entrar na disputa eleitoral, Guerra vai tentar seu quarto mandato de deputado. Para "guardar lugar", já lançou sua filha Helena Guerra à Câmara.

Governador do Ceará por oito anos, Tasso elegeu para o Senado quem bem entendeu durante a década de 90 e até 2002, quando ele e sua afilhada política Patrícia Saboya (PDT) conquistaram as duas vagas no Senado. Mas agora a situação é tão delicada que a ex-mulher do pré-candidato à Presidência pelo PSB, deputado Ciro Gomes, vai disputar uma vaga de deputada estadual. Na sua vaga de deputado pelo Ceará, Ciro pretende eleger Pedro Brito (PSB), ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos. Tasso tenta obter o apoio velado de Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro e atual governador do Ceará, para voltar ao Senado.

O cenário cearense ficou complicado depois que o ministro da Previdência, José Pimentel (PT), entrou na disputa por uma das duas cadeiras de senador. A outra é pleiteada pelo deputado Eunício Oliveira (PMDB), ex-ministro das Comunicações de Lula. Teoricamente, Cid apoiará as candidaturas de Eunício e Pimentel.

Ocorre que historicamente os Gomes sempre estiveram juntos de Tasso. "Na história política do Ceará nenhum governador se elegeu sem deixar de fazer os senadores", diz Oliveira, que aposta no apoio do governador para conquistar o Senado.

Homem forte no Senado do governo Lula, Renan também se prepara para enfrentar uma eleição dificílima. Com a provável candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência, Heloísa Helena teria desistido de tentar disputar a sucessão presidencial. A expectativa é que obtenha "um caminhão de votos" na eleição para o Senado. A candidatura do ex-governador Lessa também é forte: quase se elegeu em 2006 para o Senado. Perdeu para Fernando Collor de Mello (PTB).

Depois de chegar ao Senado com mais de 10 milhões de votos, o líder do PT, senador Aloizio Mercadante (SP), não deverá ter reeleição fácil. A situação dele se agravou depois que o vereador Gabriel Chalita migrou do PSDB para o PSB para disputar uma das vagas por São Paulo. Com a aliança entre o PSDB e o PMDB em torno da candidatura ao Senado do ex-governador Orestes Quércia, Mercadante estaria contando em ser o "segundo voto" dos tucanos. Mas agora o "segundo voto" deve migrar para Chalita.

Retorno de Zelaya trava pacto em Honduras

Ana Flor e Fabiano Maisonnave
Enviados Especiais a Tegucigalpa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Apesar de entendimentos pontuais entre emissários do governo interino e do deposto, divergência sobre restituição empaca acordo

Substituição de negociador no time de Zelaya indica que ele desistiu de Constituinte, mas grupo de Micheletti espera mostra mais enfática

Um dos principais negociadores do governo interino de Roberto Micheletti disse ontem que há poucas chances de que um acordo que dê fim à crise política seja concluído hoje, em contraste com o que esperam envolvidos nas conversas mais otimistas.

Segundo o negociador, o único ponto em que há poucas chances de acordo é o mais nevrálgico: o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya ao poder. A avaliação é que Zelaya continua pedindo muito, sem dar garantias. Entre as exigências consideradas descabidas está a volta à Presidência com poderes semelhantes ao de antes do golpe de 28 de junho.

O negociador também critica a falta de comprometimento do time de Zelaya com a ideia de descartar uma Constituinte. Oficialmente, o grupo do presidente deposto disse que não insiste mais no processo de mudança da Constituição.

Na sexta, quando as conversas entre os dois grupos foram suspensas para que, no feriado, houvesse consultas privadas, os negociadores se diziam otimistas. Chegaram a comemorar o consenso sobre 60% dos pontos do Acordo de San José, texto-base do diálogo. "Porcentagem é relativo", disse ontem um negociador de Micheletti.

Para ele, se não há acordo sobre o ponto principal -a volta de Zelaya- todo o resto fica comprometido. O grupo de Micheletti aposta que um processo prolongado de negociações possa desgastar a força -já reduzida- de Zelaya.

Um dos negociadores do presidente deposto, Victor Meza, disse ontem que os dois pontos finais do acordo devem ser negociados entre hoje e amanhã.

O prazo dado por Zelaya para um acordo termina na quinta. Mesmo assim, o deposto não afirmou o que fará caso não se chegue a um consenso até lá.

John Biehl, representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) nas conversas, afirmou que não pode prever se haverá acordo, mas disse que outras formas para resolver a volta de Zelaya estão na mesa. Para o time de Micheletti, o ideal seria uma terceira pessoa assumir o poder. Segundo seus negociadores, poderia haver acordo se deposto voltasse sob um gabinete pré-definido.

Zelaya trocou ontem o delegado que representa a incipiente esquerda hondurenha da mesa de negociações com o governo interino. Com a decisão, que será formalizada hoje, sai o líder sindical esquerdista Juan Barahona, que nunca tira um boné do Che Guevara, para entrar o advogado e empresário Rodil Rivera Rodil, um moderado das filas do Partido Liberal fiéis ao presidente deposto.

A mudança mostra que Zelaya está disposto a ceder na convocação de uma Constituinte, um dos pontos mais importantes da crise, mas sem comprometer a Frente Nacional da Resistência (FNR), que reúne dezenas de organizações esquerdistas e planeja continuar impulsando uma nova Carta.

Zelaya tem adotado o discurso de que a convocação não foi feita por ele, mas "pelo povo", e que, portanto, o processo não está em suas mãos. Ou seja, mesmo que ele desista, a proposta continua via FNR, que se encaminha para se transformar em partido político.

Visita a EUA e Brasil: Cuba nega visto de saída para blogueira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A blogueira Yoani Sánchez informou, em sua página no twitter, que não recebeu permissão do governo cubano para viajar aos EUA para receber o prestigioso prêmio de jornalismo Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, nem para vir ao Brasil, onde falaria no Senado e participaria do lançamento do seu livro "De Cuba, com Carinho" (Contexto). Em 2008, Havana impediu que a blogueira participasse na Espanha de outra cerimônia de premiação.

O samba antes e depois de Rildo

Lucas Nobile
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / CADERNO 2
Publicado 12/10/2009

O veterano produtor, que impulsionou as carreiras de sambistas importantes, vem aí com novo álbum

A calmaria mora no não dito. O gaitista, produtor, arranjador e maestro Rildo Hora precisou de tempo para entender isso e fazer um "pacto com a generosidade", como ele mesmo define. Do alto de seus 1m90, o intempestivo e magro Rildo, que ganhou da amiga Beth Carvalho o apelido de "Comprido Hora", costumava bater de frente com artistas e gravadoras para impor suas ideias. E os arroubos de imperatividade não se restringiam apenas à profissão.

Nascido em Caruaru de uma família predominantemente branca e reacionária, recém-saído da adolescência, Rildo deixava crescer a vasta cabeleira "pixaim", que havia herdado do pai, só para provocar a ira das tias e avós. "Em 1968 eu me considerava um comunista. Hoje sou um órfão do Kremlim. Assim como o presidente Lula, aprendi a conviver com os contrários", diz Rildo, lulista convicto, que justifica seu principal hobby, a política, assistindo à TV Senado nas horas vagas.

Hoje, aos 70 anos - e mais de 50 de carreira -, Rildo se tornou uma espécie de Rei Midas do Samba e coleciona em sua cobertura no Corte do Cantagalo, no Rio de Janeiro, cerca de 150 discos de ouro e platina de diversos artistas com quem trabalhou, e 4 Grammys Latinos conquistados ao lado de Zeca Pagodinho (2001/02/ 03/ 06).

Consagrado como produtor e arranjador, ele ainda respira novos projetos que caminham na contramão dos enlatados do mercado. Sem abandonar os grandes nomes com quem trabalha no momento, como Zeca e Fundo de Quintal, Rildo se atualiza, dedicando seu tempo à produção de jovens artistas da cena independente. "Acredito na força de baixo para cima na cultura e estou muito sensibilizado em trabalhar com sangue novo. O segmento independente é muito interessante, lá não se fala a palavra "vender". É ele que vai dar a futura cara da música brasileira, com liberdade de expressão", comenta o produtor.

Mesmo com a estrada de uma longa carreira pavimentada pela produção e por arranjos de gravações antológicas, Rildo ainda faz questão de refrescar a memória do público, revelando mais duas de suas facetas: a de gaitista e a de compositor. A primeira ainda resiste com participações em discos e frequentes shows-solo que ele faz pelo Brasil. Foi com a gaita que Rildo conquistou os contemporâneos de bossa nova com registros singulares, como Batida Diferente, de Durval Ferreira, no seu disco de estreia, Samba Made in Brazil - Rildo Hora e o Clube dos 7, e impressionou os estrangeiros, como os jornais que o classificaram de "virtuoso da gaita" e o coreógrafo Mikhail Baryshnikov, em viagem à antiga União Soviética, em 1965.

E a segunda faceta está mais viva do que nunca, já que Rildo acaba de entrar em estúdio para gravar um disco com sua filha, a cantora Patrícia Hora, com lançamento previsto para o início de 2010. No repertório, composições inéditas antigas e recentes de Rildo com parceiros como Nelson Sargento, Luiz Carlos da Vila, Humberto Teixeira, Nei Lopes e Zélia Duncan, e a regravação de Anda, Sai Dessa Cama, parceria com Martinho da Vila.

Em relação à carreira de arranjador e produtor, Rildo não poderia estar mais contente, já que depois de um hiato de 25 anos ele voltará a trabalhar com Beth Carvalho. O disco, que começa a ser gravado apenas no próximo ano, terá no repertório sambas inéditos resgatados no imenso baú da "Madrinha do Samba".

Vale a pena ver o vídeo do Show Vozes do Choro.

As rosas não falam" (Cartola) por Rildo Hora (Gaita) e Nilze Carvalho (Voz) VOZES DO CHORO: Misael da Hora - Teclados Rildo Hora - Gaita Edu Krieger .

Clique o link abaixo

http://www.youtube.com/watch?v=411P7loFyhM

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

REFLEXÃO DO DIA

Num partido democrático, deve-se poder pronunciar a palavra "esquerda". A esquerda contribuiu para o progresso da Itália, foi parte fundamental da Resistência e protagonista das grandes conquistas sociais e civis. Ser de esquerda significa ficar do lado dos últimos (palavra cara também aos católicos) e lutar pela igualdade e a liberdade. Ser de esquerda significa também apostar no mérito. Logo, o PD, que é um partido progressista, não pode deixar de ser de esquerda.


Pietro Spataro, L'Unità, 11 de outubro de 2009.

Pra casa, Ciro!

Ricardo Noblat
DEU EM O GLOBO


Nenhum chefe político gosta de ser contrariado. Chefes em geral não gostam. Lula desenhou a sucessão dele com régua e compasso. Mesmo assim deu errada aquela jogada do terceiro mandato consecutivo. Não convenceu nem seus aliados mais fiéis. Então ele inventou Dilma, sem passado dentro do PT, sem a mínima experiência eleitoral.

Se ela não emplacasse, quem sabe o terceiro mandato não ganharia as ruas e acabaria aprovado pelo Congresso? Por ora, Dilma de fato não emplacou. Mas a crise financeira internacional sepultou o sonho do terceiro mandato. Foi um vacilo de Lula concordar com o desejo de Ciro de se testar como candidato. Ciro logo passou Dilma nas pesquisas de voto.

Lula está sinceramente convencido de que a comparação dos resultados do seu governo com os resultados do governo de Fernando Henrique servirá de combustível para incendiar a candidatura de Dilma. E que sua presença ao lado dela dizendo a todo instante: “Minha candidata é Dilma”, derrotará José Serra sozinho ou ele com Aécio Neves de vice.

Marina Silva, candidata do PV? Lula não aposta um tostão furado na candidatura dela. Descarta que ela possa crescer o suficiente para provocar um segundo turno entre Dilma e Serra. Uma eleição plebiscitária, tal como ele a concebe, se esgotará no primeiro turno. Se Dilma perder... Lula terá feito tudo para elegê-la. E Serra não será assim tão mal para ele.

O que não dá é Ciro bater Dilma no primeiro turno e se classificar para concorrer com Serra no segundo. O mito Lula sairia afetado. Ele não teria demonstrado força sequer para garantir Dilma no segundo turno. Ouviria: cadê o poderoso cabo eleitoral ambicionado por 10 entre 10 candidatos às próximas eleições? O gato comeu. De resto, Ciro é imprevisível.

O que não murmuraria o PT, hein? Sim, porque diante de Lula só resta ao PT murmurar. Estrilar? Não. Espernear? Esqueça. Revoltar-se? Jamais! Mas o que murmuraria o PT? Forçado a ir com Dilma, o PT ainda se veria na humilhante situação de ter que sair gritando por aí: “Ei, ei, ei, Ciro é nosso rei”. Logo o PT que não engole Ciro nem em São Paulo...

Divirta-se Ciro enquanto puder como aspirante à vaga de Lula. O PSB, seu partido, prefere tê-lo como candidato à vaga de Serra. Ciro cometeu a bobagem de transferir seu título de eleitor para São Paulo. Mesmo que perca, ajudará à eleger deputados do partido. Para presidente, o PSB espera o momento certo de anunciar que é Dilma desde garotinho. PDT e PCdoB estão com Dilma. Com Ciro só tem ele e quase 20% do eleitorado.

O uso da popularidade

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Lula tateou o terreno, mas parece ter abandonado de vez a espinhosa missão de corrigir a anômala invenção do capitalismo sem risco brasileiro chamada caderneta de poupança. Nenhum país do planeta consegue vencer completamente a inflação, os juros altos e a indexação quando o governo está obrigado a garantir a todos um rendimento de 6% ao ano, mais a variação da TR (Taxa Referencial). Tudo livre de imposto.

A medida é altamente popular. A menos de um ano da eleição, políticos não apreciam correr riscos. Taxar a poupança não rende votos. Esse episódio ilustra à perfeição como o Brasil está longe de se tornar de fato o que Lula e parte do PT acham que o país já é. As dezenas de reformas institucionais empacadas ficaram em segundo plano por causa da recuperação da economia. Sumiu da agenda do governo a urgência para melhorar a Previdência e o sistema tributário.

Aí vem o paradoxo. Lula é o presidente mais forte politicamente desde o fim da ditadura militar. Sua aprovação pessoal, na redondeza dos 80%, tem chance real de romper novos recordes em 2010. O filme sobre sua vida ajudará.

Rivaliza com o marketing antecipado de grandes produções de Hollywood. A economia, tudo indica, crescerá na casa dos 4% anuais ou mais no ano que vem.

Apesar de todo esse poder, Lula não se arrisca. É quase certo que seu sucessor terá menos força política, seja Dilma (PT), Serra (PSDB) ou Ciro (PSB). Em resumo, se o lulismo e seu ícone não tiveram coragem de implantar determinadas reformas, por que o próximo presidente teria? Não terá. Algum dia, o encanto se quebra. O Brasil perceberá quais são seus bolsões de atraso, embora pareça ser nula agora a disposição dos eleitores para ver a realidade. É mais cômodo acreditar no "Brasil Grande" da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016.

Bate-boca com fatos não leva a nada

Marco Antonio Rocha
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

É normal que políticos no auge de campanhas eleitorais, de cima de palanques ou arengando às massas, ajam como brucutus contra adversários, como cruzados de lança em punho contra os infiéis. Autoridades do governo, mesmo as que militam em partidos, o que precisam é convencer, e não derrotar.

Mas diversos petistas no governo Lula nunca depõem armas, militam a vida toda, em tempo integral.

No ano que vem o PT completa 30 anos. Qualquer jornalista não petista que esteja na profissão um pouco mais do que isso há de lembrar do espírito aguerrido do PT "de combate" nas redações. Era inimigo de morte quem não fosse petista de carteirinha, não cantasse loas a Lula, lançasse a menor dúvida sobre os elevados e puros propósitos do PT e dos líderes do partido ou sobre a capacidade técnica de petistas que exerciam cargos públicos. Pior, era inimigo do povo e lacaio do capitalismo. Era quase impossível, a quem divergisse do PT, argumentar em termos civilizados com o "bom petista".

Essa espécie de vírus xiita ainda não abandonou as veias de muitos petistas que estão em altas funções republicanas, são funcionários de Estado, e não mais militantes de comitês de agit-prop.

Marta Suplicy, depois de trombar com uma administração municipal destruidora de egos e de ser humilhada por uma derrota eleitoral que não esperava, percebeu que não era, afinal, a rainha da cocada preta e que o povo não a comprava pelo preço que ela pensava que valia. Melhorou, mas não se curou de todo da doença infantil do petismo. Ainda reage mal às contrariedades.

Um outro, esse um caso difícil porque junta "petistite" encruada com valentia gaúcha, é o ministro Tarso Genro. Dá a impressão de que todas as manhãs, na frente do espelho, enquanto faz a barba, só pensa nos dragões de tocaia lá fora para comê-lo e que vai ter de abater. Veste o paletó como couraça, pega o guarda-chuva como uma Excalibur e dispara por Brasília como se estivesse em Camelot. Está quase todos os dias nos jornais, "respondendo" a alguém com dois quentes e um fervendo, como diziam nossos avós.

Um terceiro ferrabrás petista, Marco Aurélio Garcia, diplomata - imaginem ! -, vê o mundo povoado por americanos canalhas e seus lacaios. Seu guru não parece mais ser o presidente Lula, e sim o fundador do socialismo bolivariano, ou socialismo do século 21, ou que outro nome tenha a estripulia político-caribenha, cevada em petrodólares, que Chávez perpetra do alto do seu trono na Venezuela. Onde quer que esteja um crítico da política externa do governo Lula, ali estará para combatê-lo o cavaleiro templário Don Diego Garcia, com seu feroz e desarrumado semblante.

Ao que tudo indica, a ministra-candidata, Dilma Rousseff, junta às sezões de agressividade petista o temperamento de praticante de kicking-box, sem nem um pingo do senso de humor do seu líder. Caso o suceda, teremos, provavelmente, a presidente mais ranheta do planeta.

Se na arena política esse comportamento é tedioso e canhestro, no terreno da economia só causa perplexidade, sobre ser inútil. No entanto, há petistas "de combate" também aí.

Acompanhamos todos, no momento, um debate sobre os rumos da economia brasileira que não é apenas acadêmico nem neutro, pois os argumentos, do governo e de analistas não-governo, porém experientes e respeitados na economia, influem em decisões empresariais de investimentos e nos movimentos dos mercados, particularmente os de ações e de futuros. Esse debate já produziu um consenso relativamente amplo de que o governo Lula enfrentou com competência a crise financeira internacional e conseguiu evitar para o Brasil o pior dos mundos, embora nem todos os efeitos negativos.

Mas o governo se mantém na defensiva agressiva. É que a discussão, agora, diz respeito a como retomar o crescimento econômico com políticas que evitem, mais adiante, o recrudescimento da inflação que, em consequência, imporá uma nova rodada ortodoxa na administração da moeda e do crédito.

Ora, a muitos analistas está parecendo que o esforço de investimento que o governo faz, e anuncia, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com os preparativos para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, com projetos de infraestrutura importantes, como o trem-bala, com a exploração do petróleo do pré-sal, etc., é maior do que o "Brasil S.A." pode atender. Tudo isso, aliado a gastos inevitáveis com a campanha eleitoral do ano que vem, com o aumento dos gastos de custeio da máquina pública que já ocorre desde o início deste ano, com o aumento do déficit do INSS e de outros déficits governamentais, cria uma expectativa de descontrole gradual das contas fiscais, de maior inflação, de elevação dos juros, etc. Expectativa que inquieta o mercado, eleva os juros futuros e se manifestou até no Relatório de Inflação do Banco Central (BC). Contra sua tradição de não se meter onde não é chamado, o BC advertiu sobre o risco de pressões inflacionárias, alinhando-se com as preocupações de analistas privados.

Foi o que bastou para os templários, aninhados no Ministério da Fazenda, saírem a combater moinhos de vento. Argumentos? - "imbecis", disse Paulo Bernardo, do Planejamento; "terroristas", acusou Nelson Barbosa, da Fazenda; "bobagens", murmurou Mantega. Argumentos bons para gerar manchetes, mas inúteis para amainar ou contraditar as expectativas dos especialistas, de investidores e de empresários. Como inútil foi o presidente Lula proclamar que fez o maior ajuste fiscal da história do Brasil... em 2003 ! Palmas para ele, mas o diabo é o desajuste de agora.

Cabe às autoridades criar fatos que amainem as expectativas e inquietações desfavoráveis. E não ficar batendo boca com os analistas
*Marco Antonio Rocha é jornalista

Sem crise à vista

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A economia voltará a crescer, mas não se imagine que estaremos voltando ao desenvolvimento sustentado

QUANDO, EM outubro de 2008, explodiu a crise financeira global, previ que seus reflexos na economia real seriam menores do que os do crash de 1929 porque a reação monetária e fiscal dos governos seria muito mais forte e decidida do que fora 80 anos antes.

De fato, isso ocorreu, o desemprego aumentou muito menos do que nos anos 1930, e, agora, os países de renda média como a China e o Brasil já saíram da crise, enquanto os países ricos começam a sair. Ninguém, entretanto, está muito seguro do que acontecerá com a retomada. Nada indica que seja forte e firme; tanto poderá ser lenta e hesitante como poderá ser seguida de nova crise.

Aposto na primeira alternativa. Como os países ricos foram aqueles cujas empresas e famílias mais se endividaram, será necessário um tempo relativamente grande para que elas consigam se desalavancar. Enquanto for esse o quadro, o investimento e o consumo privado permanecerão deprimidos. O grande esforço fiscal realizado pelos países teve o efeito esperado de minorar a insuficiência de demanda agregada, mas não teve o condão de relançar o gasto privado, de forma que a recuperação deverá ler lenta, na forma de um "U" com ampla base.

Nos países ricos, portanto, a probabilidade de que nova crise se desencadeie é pequena. Os mercados de commodities e de ações estão se reaquecendo em consequência do grande aumento da liquidez internacional, mas esse aumento de preços dos ativos não é suficiente para criar uma nova bolha: nos Estados Unidos, o mercado acionário está apenas 15% acima do valor de setembro de 2008.

Já nos países de renda média, a retomada é mais forte. No Brasil, a ação do Ministério da Fazenda e dos bancos públicos foi bem-sucedida, a confiança foi retomada, e os investidores em ações já recuperaram boa parte de suas perdas. Não haveria, entretanto, espaço para nova crise financeira? No curto prazo, não creio. Bolhas especulativas são raras nos países de renda média e não chegam a ser suficientemente fortes para dar origem a crises bancárias, entre outras razões porque os bancos locais não se mostram dispostos a financiar a especulação necessária para que uma bolha de ativos resulte em crise desses mesmos bancos.

No Brasil, o que há a temer são as crises cambiais ou de balanço de pagamentos que decorrem de tentar crescer com poupança externa: foi assim em 1982 e em 1998. Como o financiamento dos deficit em conta corrente é feito em moeda estrangeira, o país fica sempre sujeito à perda da confiança dos credores externos e a uma "parada súbita" seguida de violenta depreciação da moeda local. Estamos caminhando nessa direção, já que a tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio voltou a se manifestar e o país já voltou à situação de deficit em conta corrente, mas não há por que temer uma crise nos próximos dois anos porque as reservas brasileiras continuam muito elevadas. Pelo contrário, o que devemos esperar é que a economia brasileira volte a se aquecer e que, em 2010, tenhamos uma taxa de crescimento relativamente elevada, compensando a baixa expansão de 2009.

Não se imagine, porém, que estaremos voltando ao desenvolvimento sustentado. Nossas taxas médias de crescimento continuarão modestas -aproximadamente a metade do que poderiam ser se decidíssemos seguir o exemplo dos países asiáticos e combinássemos responsabilidade fiscal com uma política cambial que garantisse uma taxa de câmbio competitiva.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Com maior apoio político, neofascistas ganham espaço na Itália

DEU EM O GLOBO ONLINE

RIO - No país que inventou o fascismo e que sempre manteve - apesar da derrota na Segunda Guerra Mundial - um consistente núcleo saudosista e colecionador de brindes de Benito Mussolini, a volta dos seguidores do "Duce" assusta tanto quanto o retorno dos nazistas na Alemanha. Reportagem de Vera Gonçalves de Araújo, publicada na edição de domingo do GLOBO, mostra que o cenário é ainda mais complicado, já que alguns dos líderes da extrema-direita conquistaram cadeiras no Parlamento. E com o avanço político, mais doses de violência contra imigrantes, ciganos e homossexuais.

Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador e sobrinha de Sophia Loren, foi eleita eurodeputada. A política, que subiu no palanque de Silvio Berlusconi no ano passado, é considerada um dos trunfos da coalizão Casa das Liberdades.

Um dos grandes motivos de preocupação está nas arquibancadas de estádios de futebol. Com a exceção da torcida do Livorno, tradicionalmente de esquerda, todas as outras torcidas organizadas têm em comum os símbolos, os gestos, os slogans fascistas.

Os neofascistas também são cada vez mais visíveis nas patrulhas metropolitanas, milícias legalizadas na semana passada pelo governo Berlusconi.

Oposição quer mudar ''lei da mídia'' de Cristina

Ariel Palácios
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Maioria opositora que assume o Congresso em dezembro promete revisar texto original

Líderes da oposição argentina anunciaram neste fim de semana que pretendem mudar a lei de radiodifusão aprovada pelos aliados do governo da presidente Cristina Kirchner na madrugada de sábado no Senado. O plano é alterar vários pontos polêmicos do pacote conhecido como "lei da mídia", a partir do dia 10 de dezembro, quando novos senadores e deputados assumem seus cargos, revertendo a maioria que o governo detém atualmente na Câmara e no Senado.

"Toda a lei estará sujeita a revisões e ao voto da maioria, que assumirá em dezembro", disse o senador Eduardo Sanz, chefe do bloco da União Cívica Radical (UCR). Os representantes do Partido Socialista, que votaram a favor da lei do governo de forma geral, também consideram que as normas precisam de várias modificações.

No entanto, representantes do governo afirmaram que pretendem resistir a eventuais mudanças. Para isso, Cristina poderia recorrer ao uso intensivo de vetos presidenciais.

A lei é vista como um golpe direto no principal conglomerado de comunicações da Argentina, o Grupo Clarín, com o qual a presidente Cristina e seu marido e ex-presidente, Néstor Kirchner, estão em pé de guerra desde o ano passado. O jornal Clarín tornou-se um dos principais denunciantes de casos de corrupção do governo.

A lei impede que um grupo de mídia possa ter ao mesmo tempo um canal de TV aberta e um canal de TV a cabo. Além disso, restringe a atuação de um canal de TV a apenas 35% da população do país.

Além dos novos deputados e senadores, os empresários da comunicação também prometem impedir a aplicação da lei, que obrigará, no prazo máximo de um ano, que cada grupo de mídia que possua um canal de TV aberta e um de TV a cabo de forma simultânea venda um dos dois canais.

O Grupo Clarín, por intermédio de seu diretor de Relações Externas, Jorge Rendo, anunciou que "recorrerá à Justiça para fazer valer seus direitos". Segundo Rendo, "existem artigos que são inconstitucionais". Ele também diz que a lei de mídia dos Kirchners possui pontos "insólitos" que "não existem em nenhum lugar do mundo".

O Grupo Uno também expressou sua intenção de ir aos tribunais para tentar impedir a aplicação da lei, que prejudicará a empresa. Segundo seu presidente, Daniel Vila, a lei, "além de estar mal redigida, fere a Constituição em vários artigos".

"O que poderia acontecer se daqui a um ano não vendo minha empresa?", perguntou. Segundo ele, será necessário "fechar as portas, pagar as indenizações e despedir" seus 16 mil empregados diretos.

''Estou numa prisão'', diz mulher de Zelaya

Lourival Sant'Anna
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Primeira-dama deixa para trás vida confortável, adota causa do marido e vira exemplo de luta na embaixada

A vida de Xiomara Castro de Zelaya tem sido uma montanha-russa desde que seu marido foi derrubado, na madrugada de 28 de junho. A primeira-dama, que coordenava os programas sociais do governo, assumiu a dianteira da "resistência", encabeçando as marchas que foram ao encontro de Manuel Zelaya nas duas tentativas frustradas de voltar ao país e na ocupação da embaixada brasileira. Há três semanas, Xiomara trocou o conforto da casa alugada no Valle de los Ángeles - ela não quis mais morar na sua casa, depois que o Exército a invadiu - pelo confinamento na missão brasileira em Tegucigalpa.

Xiomara é uma das pessoas mais bem-humoradas no sobrado, mesmo depois de uma semana de fracasso das negociações para a restituição do presidente deposto. "Por que estão desanimados?", perguntou aos jornalistas na manhã de sexta-feira. "Animem-se!" Xiomara diz que ela e o marido só souberam "por terceiros" do pleito do Brasil e da Organização dos Estados Americanos (OEA) para a remoção do casal da embaixada. Ela festejou os 49 anos no local e ainda não conheceu o neto Juan Manuel, que nasceu no dia 30.

"Desejávamos tanto o retorno de Mel", disse ela, usando o apelido pelo qual o presidente é conhecido. "Agora queremos que a família se junte de novo. Queremos voltar para casa, ter uma vida normal para nós e para o povo e queremos também que os criminosos tenham seu castigo. Aqui nos sentimos numa prisão."

Mas Xiomara não se queixa. Ela disse que a morte do jovem Isis Obed Murillo Mencía, de 19 anos, com um tiro de fuzil, durante manifestação contra o golpe em 5 de julho, e a reação de sua mãe, mudaram sua visão das coisas. "Fui visitar a mãe dele, e foi ela que me consolou", conta. "Ela me disse: "Tenho orgulho porque meu filho morreu para defender seus ideais. Vou voltar com meus outros filhos para apoiar a resistência"."

Segundo Xiomara, foi "a maior lição" de sua vida. "A partir desse dia, comprometi-me com a resistência. Meus filhos, minha mãe, a mãe de Mel e eu percorremos todo o país."

GUINADA

A primeira-dama, que conheceu Zelaya com 12 anos, começou a namorar com 15 e casou-se com 16, garante que seu marido, de 56 anos, nunca foi de esquerda. Seus críticos o acusam de ter abandonado os ideais de seu Partido Liberal e se convertido ao socialismo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, depois de ter chegado à presidência de Honduras.

"O presidente sempre se preocupou com os mais pobres", disse. "Nesses três anos e meio, ele reduziu a pobreza, impulsionou o crescimento econômico e desenvolveu a infraestrutura." Ao mesmo tempo, garante ela, "nunca os empresários tiveram tantos lucros".

Berço do PT em pé de guerra

Tiago Pariz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Lideranças que dominavam o comando do partido em São Paulo perdem terreno depois de escândalos e têm de disputar espaço com companheiros menos cotados

Em seu berço de nascimento, o PT está em processo de renovação e em briga deflagrada sobre quem é o nome mais importante do partido. Em São Paulo, lideranças que antes determinavam o rumo do partido estão em declínio e, nesse vácuo, emergem figuras capazes de questionar até interesses do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa deterioração dos proeminentes foi precipitada pelos recentes escândalos que chacoalharam o partido, como os episódios do mensalão, dos aloprados e do caseiro.

O PT tinha um grupo fechado de tomada de decisões inquestionável. Quando os ex-ministros José Dirceu, Luiz Gushiken, Antonio Palocci e o senador Aloizio Mercadante decidiam o rumo petista, a militância obedecia. Apesar de ter poder acumulado, esse grupo está enfraquecido e sofre para fazer valer sua palavra. Dirceu e Gushiken foram envolvidos no mensalão, e Palocci saiu do governo acusado de quebrar o sigilo funcional do caseiro Francenildo Santos Costa. Já Mercadante foi alvejado depois que seus principais assessores na campanha pelo governo paulista em 2006 foram envolvidos na compra de um suposto dossiê com informações sobre uma pretensa relação do atual governador José Serra com a máfia das ambulâncias. O grupo ficou conhecido como “os aloprados”.

“Antes o que eles falavam era lei. Hoje não é bem assim. Há um novo grupo mais disseminado de deputados que diluiu o poder”, afirmou uma liderança paulista. Ao custo dessa derrocada, surgiram novos nomes com potencial de ocupar esse vácuo. O prefeito de Osasco, Emídio de Souza, o líder da bancada na Câmara, Cândido Vaccarezza, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o deputado José Eduardo Cardozo. “Está havendo um processo de transição de liderança para pessoas que têm destaques em suas áreas, mas ainda não têm o mesmo peso na máquina que o antigo grupo tinha”, explicou outro nome do PT de São Paulo.

Emídio de Souza reconhece que os recentes tumultos dentro do partido ajudaram a acelerar a renovação. “(O surgimento de novos nomes) tem a ver com os escândalos, mas mesmo que não tivesse acontecido, teriam surgido novas lideranças”, disse o prefeito de Osasco, que disputa a possibilidade de concorrer ao governo.

Apoio a Ciro

Essa briga em torno da escolha do melhor caminho na eleição para o governo paulista no ano que vem é o exemplo mais claro dessa condensação de lideranças e briga por espaço. Hoje existem duas correntes de sobrevivência: uma que acha que, por falta de nomes, o melhor é apoiar o deputado pelo Ceará Ciro Gomes (PSB), e a outra, que defende que, mesmo com um concorrente pouco competitivo, é importante ser cabeça de chapa. A segunda ala é encabeçada pela ex-ministra Marta Suplicy, que depois de duas derrotas para o PSDB paulista (uma para o governo e outra na reeleição para a prefeitura) também está em declínio.

José Dirceu defende o acerto com Ciro Gomes. Mas, diferentemente de outros tempos, a tese de Dirceu encontra dificuldades. Marta bate na tecla de que é preciso candidato próprio para tentar se impor em cima de seus correligionários, mas ela depende de um apoio que o presidente Lula não está disposto a dar. Por isso, num processo de sobrevivência política depois de ser cassado, Dirceu estimula essa briga e está do lado dos deputados. E depois de muita briga e turras internas o presidente da legenda, deputado Ricardo Berzoini, também passou a jogar o jogo da nova turma em ascensão. Mercadante, antes de ser alvejado, buscou ocupar um espaço deixado pelo deputado João Paulo Cunha, também envolvido no mensalão, em Osasco. Não conseguiu e deixou a porta aberta para Emídio.

Lula gostaria que o PT apoiasse Ciro e desistisse de concorrer ao governo para que a ministra Dilma Rousseff tivesse um único palanque forte em São Paulo. Lula tem o apoio de parte do novo grupo petista e do ex-ministro José Dirceu. Hoje, se o PSB não concordar com a possibilidade e lançar o deputado cearense à Presidência da República, as novas lideranças estão fechadas com Emídio de Souza. Além de ser o nome de parte dos deputados federais paulistas, ele conta com o apoio de 14 dos 20 deputados estaduais. Essa conta é apresentada por deputados estaduais para tentar rejeitar a tese de que o nome de Palocci é o mais forte no estado. “Quem iria imaginar que um prefeito de Osasco poderia pleitear ser governador de São Paulo num partido que tem Marta Suplicy, Aloizio Mercadante e tantos outros?”, indaga outro petista.

Para não ficar na defensiva, parte do PT já tem antecipado conversas com potenciais aliados. Estão na mira PDT, PCdoB, PR e prefeitos do PMDB descontentes com o alinhamento do presidente regional da legenda, Orestes Quércia, com o governador José Serra (PSDB).

Novidade

Pré-candidato ao governo de São Paulo, o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, disse que o PT vai montar um palanque forte para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ele afirmou que a manutenção dos candidatos petistas deve-se ao movimento dos outros partidos, sobretudo o PSB, que flerta com a possibilidade de Ciro Gomes ou Paulo Skaf como concorrentes. Souza ressaltou, no entanto, que a legenda não está fechada para composições e alianças. --> --> --> --

Rede de intrigas

Marta Suplicy

Tem o maior percentual de potenciais eleitores nas pesquisas de intenção de voto, mas teve seu poder enfraquecido no PT depois de duas derrotas seguidas para o PSDB. Decidiu apoiar a candidatura de Antonio Palocci ao governo estadual para tentar fortalecer seus militantes.

José Dirceu

Depois de ser cassado por envolvimento no mensalão, o ex-deputado passou a atuar nos bastidores em favor da candidatura da ministra Dilma Rousseff. É um dos defensores da tese de que é preciso abdicar do nome próprio e apoiar Ciro Gomes.

Aloizio Mercadante

Líder do PT no Senado, foi desautorizado publicamente pelo governo por não apoiar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Perdeu uma eleição para o governo de São Paulo depois de seus assessores se envolverem no escândalo dos aloprados. Sua reeleição ao Senado não é tida como confortável.

Cândido Vaccarezza

Foi eleito líder do partido sem apoio de Ricardo Berzoini, do líder do governo Henrique Fontana (PT-RS) e do ex-líder Maurício Rands (PE). Ganhou espaço ao se aproximar de Dilma e de Lula, além de passar a negociar diretamente pelo governo na Câmara. É defensor da tese de subjugar o palanque estadual em favor da ministra da Casa Civil.

Antonio Palocci

Ex-ministro da Fazenda, saiu do governo pela porta dos fundos, mas ganhou fôlego político depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) o inocentou de qualquer envolvimento na quebra do sigilo funcional do caseiro Francenildo Santos Costa. Hoje é um dos nomes lembrados para disputar o governo paulista.

Emídio de Souza

Prefeito da quinta maior cidade de São Paulo, surgiu como concorrente ao governo estadual com a falta de opção entre os antigos medalhões petistas. Tem apoio da maioria dos deputados estaduais para sua empreitada.