O Globo
A descrença populista não será vencida
exigindo confiança cega — precisaremos conquistá-la com respeito democrático
Na semana passada, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos Anthony Fauci foi chamado ao Senado americano para depor sobre as políticas que implementou durante a pandemia de Covid-19. Senadores de direita o acusaram de ter escondido do público informações sobre a doença, de ter financiado o laboratório onde afirmam que o vírus foi criado e de ter imposto, sem necessidade, lockdowns e fechamento de escolas. Por orientação de seus advogados, Fauci invocou a Quinta Emenda e, repetindo sempre a mesma frase, recusou-se a responder a mais de cem perguntas.
O assunto teve pouco destaque nos jornais
brasileiros, mas impacto enorme nas redes sociais, com políticos e
influenciadores de direita dizendo que o depoimento “demonstra” que Bolsonaro
agiu corretamente durante a pandemia. Na última semana, o assunto motivou
milhares de postagens no Brasil que, somadas, geraram 220 milhões de
visualizações no Instagram e 74 milhões de visualizações no Facebook.
O secretário de Saúde de Trump, Robert
Kennedy Jr., encontrou mil páginas de um diário de Fauci “num computador do
governo” e as encaminhou ao senador Rand Paul. Paul alegou que o diário
demonstra que Fauci mentira ao Congresso e o convocou a depor. O depoimento
reacendeu as controvérsias em torno da Covid-19 e nos dá a oportunidade de
reavaliar, com alguma distância, como as autoridades médicas e científicas
conduziram as políticas de saúde em meio à crise.
Durante a pandemia, a direita populista
organizou a desconfiança difusa que parte da população sente diante das
lideranças e das instituições científicas — essa desconfiança passou a ter
defensores e porta-vozes. Naquele momento de emergência, as autoridades se
viram diante de uma dupla tarefa: tinham de dar orientação sanitária a uma
população com medo e, ao mesmo tempo, lutar para reafirmar sua autoridade e
legitimidade epistêmica. Com frequência, a opção foi tratar a população com
condescendência.
Em vez de explicarem detalhadamente as
medidas para convencê-la, boa parte das instituições médicas, governamentais e
midiáticas comunicou as orientações como se estivessem plenamente respaldadas
por certeza científica — ainda que, naquele momento, houvesse poucas certezas.
As instituições não tentaram convencer, comunicaram a orientação que havia sido
deliberada. E, como muitas dessas orientações eram incertas, a estratégia teve
custo reputacional. Pesquisa do Pew Research Center apontou queda na confiança
nos cientistas de 14 pontos percentuais desde o início da pandemia. Entre os
republicanos, chegou a 22 pontos.
A opção por uma política de orientação, e não
de persuasão, se deveu à urgência do momento, que pedia respostas claras e
rápidas. Além disso, parecia haver o entendimento de que uma estratégia de
persuasão implicaria rebaixar os cientistas ao mesmo nível da massa populista
ignorante.
O diário de Fauci revela o contraste entre as
dúvidas e reflexões privadas e a comunicação pública assertiva e cheia de
certezas. Isso não significa que Fauci tenha mentido, mas, para os populistas
no Senado, tem sido apresentado como comprovação de sua falsidade e
dissimulação.
A situação foi ainda agravada porque muito do
que foi comunicado como verdade indiscutível se mostrou frágil ou equivocado.
Fauci inicialmente minimizou o risco da Covid-19, deu orientações confusas e,
com idas e vindas sobre o uso de máscaras, postergou a reabertura das escolas e
minimizou os riscos de infecção pós-vacina para incentivar a adesão.
Todas essas decisões são defensáveis, à luz
das circunstâncias difíceis daquele momento. Mas, como a própria legitimidade
da autoridade científica estava em disputa, não bastava anunciá-las como
conclusões técnicas; era necessário explicar as incertezas, os critérios e os
custos envolvidos.
Num momento tão arraigadamente populista,
talvez tivesse sido necessária uma abordagem que combinasse orientação
institucional firme a um esforço de persuasão de massa. A descrença populista
não será vencida exigindo confiança cega — precisaremos conquistá-la com
respeito democrático.

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