domingo, 28 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Derrota de Maduro depende de eleições justas

O Globo

Brasil e comunidade internacional precisam estar atentos para as tentativas dele de sabotar o pleito

A foto de Nicolás Maduro aparece 13 vezes na cédula das eleições presidenciais de hoje na Venezuela. Em busca de seu terceiro mandato presidencial, o ditador, herdeiro político de Hugo Chávez, fez uma ameaça explícita: se perder, disse ele, haverá um “banho de sangue”. Mas, apesar de todas as intimidações, fraudes e viradas de mesa, a oposição tem chances concretas de vencer se a vontade popular for respeitada. Reunida em torno da candidatura do ex-diplomata Edmundo González depois que sua principal líder, María Corina Machado, foi impedida de concorrer, ela depende apenas de eleições livres e justas para tirar do poder o regime de legado mais funesto na América Latina nas últimas décadas.

Luíz Sérgio Henriques - A resistível ascensão do nacional-populismo

O Estado de S. Paulo

Se esta breve descrição do laboratório ultraconservador fizer sentido, então teremos um roteiro para a reação dos democratas em todo o mundo

Passado ao menos por ora o susto francês, com a aliança entre centro e esquerda que barrou a marcha aparentemente inelutável de Marine Le Pen, nossa atenção cruza o Atlântico e se volta agora para uma situação de risco ainda maior. Referimo-nos obviamente aos Estados Unidos, hoje uma sociedade fraturada e uma democracia disfuncional, em que um dos dois partidos históricos, capturado por um homem forte, tornou-se fator da subversão estimulada por uma parte das elites do país. De fato, a sedição de janeiro de 2021 marca um ponto de não retorno, com a negação da legitimidade dos resultados eleitorais e da transmissão pacífica do poder – um cenário que poderá se desenhar novamente em caso de vitória dos democratas, a priori inaceitável para os trumpistas.

Merval Pereira - Casca de banana

O Globo

A presença de Celso Amorim carimba oficialmente o governo Lula como um governo amigo da Venezuela

Não parece ser uma decisão sem riscos a presença de um assessor especial da presidência da República para acompanhar a eleição hoje na Venezuela. Sem riscos, e sem possibilidades de êxito. A começar pela proibição do governo Maduro de haver observadores internacionais que não sejam ligados de alguma maneira ao projeto político que pela primeira vez em 25 anos pode ser derrotado em uma eleição.

A presença de Celso Amorim carimba oficialmente o governo Lula como um governo amigo da Venezuela, o que, de saída, transforma as impressões do enviado especial brasileiro em tendenciosas a favor de Maduro, o que não é bom para o Brasil como líder regional respeitado. Desta vez Lula não atravessou a rua para escorregar na outra calçada. Pegou um avião.

Dorrit Harazim - Kamala é ‘brat’

O Globo

Ela virou pop nas redes, com direito a memes afetuosos e bem-humorados em torno de suas gafes, gargalhadas fora de hora

Faltam pouco mais de cem dias até a linha de chegada à Casa Branca. Para o candidato republicano Donald Trump, uma eternidade indigesta. Até a noite de domingo passado, com um ouro em sobrevivência sapecado na orelha e seu único adversário exigindo cuidados especiais, ele ainda podia dar-se à ilusão de favorito nas eleições de novembro próximo. Não mais. A saída por W.O. do presidente Joe Biden e a entrada na competição de Kamala Harris mudaram radicalmente a dinâmica da disputa. De primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, a multirracial Kamala (pai jamaicano, mãe indiana) empunhou o bastão democrata com vigor faiscante. Os caciques e doadores do partido, aliviados com essa solução de ultimíssima hora, abriram-lhe os cofres e correram para o abraço. Falta-lhe apenas ter a candidatura sacramentada na Convenção Democrata que começa no próximo 19 de agosto. A partir daí, restarão a Kamala 75 dias para convencer o eleitorado americano da oportunidade que tem em mãos: votar no futuro e fazer História elegendo-a 47ª presidente dos Estados Unidos.

Elio Gaspari - A festa de Paris será de todos

O Globo

Na sexta-feira as delegações de 204 países desceram pelo Rio Sena. Melhor que isso, só se em 1840 os restos mortais de Napoleão tivessem chegado de barco. Ele vinha da Ilha de Santa Helena, onde havia morrido em 1821 como prisioneiro dos ingleses.

Coisas ruins acontecem em todos os países do mundo, mas os franceses dão a volta por cima como nenhum outro.

A Olimpíada de Paris poderia ensinar ao mundo a gostar (e cuidar) de suas cidades. Só os franceses são capazes de ter uma Arco do Triunfo para um general corso derrotado.

Bernardo Mello Franco – Segredo de Estado

O Globo

Lula prometeu revogar segredos de Bolsonaro, mas seu governo repete a prática de esconder informações oficiais

Transparência nos olhos dos outros é refresco. Tema de debate na última eleição presidencial, o sigilo de cem anos voltou ao noticiário. Desta vez, é o governo Lula que insiste em esconder documentos oficiais.

O Executivo negou acesso à Declaração de Conflito de Interesses do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O ofício precisa ser entregue antes da posse de cada ocupante do primeiro escalão.

Rolf Kuntz - Confiança, prioridade para a política econômica

O Estado de S. Paulo

Todo investimento envolve risco, mas a decisão positiva é facilitada quando a política indica perspectivas de crescimento e de previsibilidade

Com 8,4 milhões de famintos e 39,7 milhões sujeitos à insegurança alimentar, o Brasil integrou o Mapa da Fome no triênio encerrado em 2023, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse período, a desnutrição crônica assombrou 3,9% da população brasileira e o País superou com folga a marca necessária (2,5%) para estar nesse mapa. Listada entre as 10 ou 12 maiores do mundo, a economia brasileira se destaca também como grande e eficiente produtora e exportadora de alimentos. Não falta comida, mas o dinheiro é curto para a maioria das famílias e fica ainda mais curto com a alta dos preços. Além disso, há o risco persistente de inflação bem acima do centro da meta, fixado em 3%. Esse risco é associado à insegurança gerada no Palácio do Planalto.

Lourival Sant’Anna - Um gol contra de Lula

O Estado de S. Paulo

Sistema de compliance do Brasil pode não resistir à tentação da corrupção nos contratos da China

O Brasil está prestes a aderir à Nova Rota da Seda (BRI), o trilionário programa de obras de Xi Jinping destinado a consolidar a dominância da China. Com 150 participantes, e forte engajamento de ditaduras africanas e asiáticas, o esquema é uma porta para corrupção e inadimplência, dada a falta de transparência, juros altos e hipoteca das obras para o credor chinês.

Nos últimos dez dias, Lula mencionou duas vezes a possibilidade. “Quero discutir com a China a Rota da Seda”, disse à agência chinesa Xinhua. Lula aceitou o primeiro convite a um presidente brasileiro para a cúpula do Fórum Econômico da Ásia e do Pacífico (Apec), em novembro, no Peru, com a participação de Xi, e também o receberá no Brasil “com uma grande festa”. “Quero saber aonde é que a gente entra, que posição vamos jogar, porque não queremos ser reserva, queremos ser titular”, entusiasmou-se.

Luiz Carlos Azedo - Antiamericanismo pró-Maduro é um erro

Correio Braziliense

A diplomacia precisa de um consenso nacional, para que o seu eixo não deixe de ser a política externa e passe a ser a interna, o que dividiria ainda mais o país

Certa vez, o falecido historiador Tony Judt (Quando os fatos mudam, Objetiva) comparou os Estados Unidos a um veículo utilitário tipo SUV, tão ao gosto dos americanos e de brasileiros. “Com tamanho e peso subdimensionados, o SUV zomba de qualquer acordo negociado para limitar a poluição atmosférica. Consome quantidades extraordinárias de recursos escassos para abastecer habitantes privilegiados, com serviços que vão muito além do necessário. Expõe os que estão fora dele a risco mortal apenas para proporcionar uma segurança ilusória aos seus ocupantes. Num mundo superpovoado, o SUV aparece como um perigoso anacronismo”.

Celso Rocha de Barros - Maduro perde neste domingo?

Folha de S. Paulo

O venezuelano não dá o menor sinal de que aceitará a derrota pacificamente

Venezuela elegerá seu presidente neste domingo. Há uma chance razoável de Nicolás Maduro perder a eleição. Daí em diante, só há cenários difíceis.

Maduro não dá o menor sinal de que aceitará a derrota pacificamente. Seu governo cassou candidaturas de oposição. Impediu a entrada de observadores da União Europeia. Desconvidou o ex-presidente (de esquerda) da Argentina Alberto Fernández, que estaria em Caracas como observador para vigiar a lisura do pleito. Respondendo a críticas de Lula, Maduro abraçou seus irmãos brasileiros de militarismo e ladroagem, mentindo que as urnas brasileiras não são auditáveis. Em resposta, o TSE cancelou a ida de seus observadores à Venezuela.

Bruno Boghossian - A desgraça da Polícia Rodoviária Federal

Folha de S. Paulo

Corporação precisa de reforma mais profunda do que mudança de nome e função

Há quatro meses, a Polícia Rodoviária Federal foi tomada por uma disputa política escancarada. No fim de março, começou a circular um dossiê com informações pessoais e acusações contra o diretor-geral da corporação, Antônio Fernando Oliveira. O objetivo da operação seria derrubar o chefe do órgão para instalar um novo grupo no comando.

Os capítulos seguintes expuseram o tamanho da desgraça. Oliveira abriu uma investigação sobre o dossiê, apontou o envolvimento da cúpula do órgão no Distrito Federal e demitiu os dois principais nomes da unidade. Um deles havia acabado de se filiar ao PT e buscava apoio político para substituir o diretor-geral.

Muniz Sodré - O acordão tem DNA

Folha de S. Paulo

Não tem nada a ver com o acerto da vida comum, é um tapa-olho na cara da democracia

Pesquisa recente, "a cara da democracia", revela uma surpreendente sobreposição de opiniões por parte de eleitores lulistas e bolsonaristas. Mas passa ao largo da máscara elitista dessa face, a pletora dos acordos secretos de poder que põem em segundo plano as leis republicanas. A imprensa tem chamado isso de "acordão": uma miríade de arranjos políticos, judiciários e empresariais para anular condenações, liberar fraudadores do erário, isentar generais do golpismo. São muitas as "sangrias" a se estancar.

Hélio Schwartsman - O cortesão e o herege

Folha de S. Paulo

Livro conta a história do encontro e dos desencontros entre Spinoza e Leibniz, na encruzilhada da modernidade

"The Courtier and the Heretic" (o cortesão e o herege), de Matthew Stewart, não é exatamente um livro novo (saiu em 2007), mas, como gostei bastante de um título mais recente do autor ("An Emancipation of the Mind", que já comentei aqui), resolvi experimentar. Não me arrependi. "The Courtier..." é até melhor do que "An Emancipation...".

Em "The Courtier...", Stewart conta a história do encontro e dos subsequentes desencontros entre dois dos mais notáveis filósofos do século 17, Spinoza e Leibniz, que não poderiam ser mais diferentes, nem mais semelhantes.

Ruy Castro - Agora vai!

Folha de S. Paulo

Ela é de verdade ou os EUA são só no filme?

Nos anos 1970, em um restaurante no Rio, Fernanda Montenegro sentou-se casualmente ao lado de uma mesa de americanos. Com ela, seu filho Claudio, ainda garoto. Os americanos falavam alto. Claudio perguntou a Fernanda: "Mamãe, eles são de verdade ou é só no filme?". Claudio tinha razão de duvidar. Com os americanos, nunca podemos ter certeza. A começar pelo cinema que eles faziam nos anos dourados. Nada era o que parecia ser.

Julio Lopes * - Ludwig Feuerbach, precursor da contemporaneidade

Voto Positivo

O filósofo Ludwig Feuerbach (28/7/1804 a 13/9/1872) vem tendo suas obras republicadas na Itália, Colômbia, Espanha, Argentina, Alemanha e Brasil, onde a coleção “Os Pensadores” (lançada pela Folha de São Paulo em 2021) recentemente incluiu seu livro A essência do Cristianismo, pouco tempo após sua inclusão no rol das grandes obras filosóficas por outras instituições acadêmicas estrangeiras.

O revival bibliográfico advém de trabalho meticuloso por Sociedade acadêmica internacional como pioneiro em assuntos contemporâneos: evolução das espécies e impulsos psíquicos humanos (posteriormente por Darwin e Freud), alianças da Humanidade com a Natureza e direitos animais (posteriormente por movimentos ambientalistas), orientações tecnológicas e paisagismo (conforme estudos emergentes no século XXI), diversidade identitária humana e direito individual à comunidade (como reivindicações identitárias atuais e progressistas ainda em face da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948).

Poesia | Eu, de Clarice Lispector

 

Música | Lenine e Orquestra Sinfônica Brasileira - Leão do Norte

 

sábado, 27 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Programa Voa Brasil é populismo sem sentido

O Globo

Não é papel do Estado criar plataforma para vender passagens aéreas mais baratas

Em março de 2023, quando o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou a intenção de criar um programa de passagens de avião por até R$ 200, o plano parecia sem sentido. Depois de um ano e quatro meses, o Voa Brasil foi lançado na quarta-feira e, apesar do tempo investido em estudos e negociações, não mudou em nada a primeira impressão. Não é papel do Ministério de Portos e Aeroportos intermediar a venda de passagens de companhias aéreas privadas, assim como seria inaceitável que o Ministério dos Transportes atuasse em feirões de automóveis ou o de Desenvolvimento em liquidações de refrigeradores e batedeiras. Preocupado em agradar à classe média descontente com a alta dos bilhetes de avião, mais uma vez o governo apelou ao populismo.

Marco Aurélio Nogueira - Polarizações enrijecidas

O Estado de S. Paulo

A sensação que se tem é de que não há avanços, porque a energia se desperdiça na negação que um polo faz do outro

Apolítica democrática é polarizada: nela formam-se diferentes polos, que disputam o poder e o voto dos eleitores. Quando esses polos enrijecem, cai-se em um beco aprisionado por um conflito paralisante entre dois blocos que se excluem um ao outro.

Nas sociedades atuais, as polarizações não costumam ser ideológicas: não se distinguem pela apresentação de projetos consistentes de sociedade. Movem-se por elucubrações fantasiosas, desinformação e narrativas passionais, com as quais buscam excitar e seduzir mentes e corações. A extrema direita “fascista” cresce a partir daí.

Bolívar Lamounier - Anatomia da vertigem política

O Estado de S. Paulo

Nossos episódios associativos carecem de referências à vida pública, ou àquilo que Aristóteles denominou bem comum

Em 1835, Alexis de Tocqueville, um aristocrata e grande escritor francês, teve uma ideia deveras inovadora. Tornou-se, como direi, o primeiro cientista político moderno, observando de perto os fatos que o intrigavam, colhendo informações e fazendo entrevistas, com o objetivo de responder a uma indagação que até hoje nos atormenta. Queria entender por que o sistema político dos Estados Unidos evoluía firmemente no sentido de uma democracia pacífica, progressista e competitiva, enquanto na Europa, excetuada a Inglaterra, nem os países mais importantes pareciam capazes de se livrar de suas tradições dinásticas e autoritárias. Mesmo sua França natal, que fez a maior revolução dos tempos modernos, quase sucumbiu a um regime de terror, o que só não aconteceu graças à ação militar de Napoleão Bonaparte, que preservou muitos ganhos do processo revolucionário, mas implantou um sistema de governo que só após a 2.ª Guerra Mundial se firmou como uma democracia de alto desempenho.

Carlos Andreazza - Subsídios ao otimista

O Estado de S. Paulo

Os gastos obrigatórios dispararam. As despesas estão descontroladas

Saiu o terceiro Relatório de Acompanhamento de Receitas e Despesas Primárias. Já notícia velha. Atual – permanente – será a apreensão sobre o futuro da meta fiscal para 2024. Os números dão materialidade à descrença. Há os otimistas. (Há os espertos operadores do otimismo.) Há também os dados do mundo real: a arrecadação foi revisada para baixo, reduzida em quase R$ 6,5 bilhões; e as despesas aumentaram em R$ 20,7 bilhões.

Noutras palavras: frustração de receitas e gastos crescentes. Assim jaz, natimorto e ora exposto, o corpo do arcabouço fiscal. A Fazenda arrecadadora cuja fome de leão não consegue acompanhar o ritmo dos dispêndios.

Cristovam Buarque - Mais do mesmo

Veja

A nova reforma do ensino médio deixa a desejar (de novo)

Neste mês, o Brasil lançou uma lei para a reforma do ensino médio, a segunda em apenas seis anos. Mais uma vez, vê-se uma modesta manifestação de intenção legal sem ambição para assegurar a qualidade e a equidade necessárias à educação. Tampouco há estratégia para executar o que o projeto propõe: 3400 horas de aulas, inglês obrigatório (sem metas para formar jovens bilíngues), com escolas equipadas e professores formados. A nova reforma nem ao menos muda o conceito de ensino médio, imprensado entre o fundamental e o superior. Ele poderia ser redefinido como “conclusivo”, representando a formação da base de todos os brasileiros.

Oscar Vilhena Vieira - Justiça climática

Folha de S. Paulo

Emergência impõe mudança de comportamento, tanto do poder público quanto do setor privado

Justiça Federal do Amazonas proferiu na última semana duas importantes decisões no contexto de emergência climática em que estamos vivendo. Na primeira delas, um fazendeiro foi condenado pela derrubada ilegal e queima de mais de 5.600 hectares de floresta amazônica.

No segundo caso, a Justiça Federal suspendeu liminarmente a licença prévia concedida durante o governo Jair Bolsonaro (PL) para asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, por não ter levado em consideração dados técnicos sobre o impacto ambiental da obra sobre um território amazônico da dimensão do estado de São Paulo.

Hélio Schwartsman - Um grande mal-entendido?

Folha de S. Paulo

Estudo acadêmico sugere que polarização começa com erro de avaliação sobre posições prevalentes entre os adversários

E se a polarização política tiver origem num grande mal-entendido? Essa é a hipótese de um interessante artigo de Victoria Parker e colaboradores que circula como preprint e me foi enviado por um leitor (obrigado, Alexandre!). O título é "The Ties that Blind" ("Vínculos que Cegam"). É um artigo relativamente longo que combina os resultados de cinco estudos que avaliaram posições de democratas e republicanos nos EUA.

Dora Kramer - O dia depois de amanhã

Folha de S. Paulo

Se a oposição venezuelana ganhar, toma posse? Se tomar posse, poderá governar?

Criaturas do naipe autoritário de Donald Trump e Nicolás Maduro só respeitam quem os enfrenta; tratam com desdém os que os adulam.

O americano não fazia a menor questão de dar moral a Jair Bolsonaro quando ambos eram presidentes. O venezuelano fez questão de menosprezar o apreço que Luiz Inácio da Silva sempre lhe devotou ao receitar chá de camomila a quem, como Lula, tenha se assustado com as referências a "banho de sangue" e "guerra civil" em caso de derrota neste domingo (28).

Demétrio Magnoli - O observador

Folha de S. Paulo

Enviado por Lula à Venezuela verificará se Maduro é capaz de aceitar derrota eleitoral

Maduro prometeu vencer as eleições "por bem ou por mal". A Venezuela é uma ditadura singular, descrita pelo ditador como "união cívico-militar-policial". Faltou esclarecer que a "união" é gerida por uma máfia cleptocrática apoiada na intimidação, na violência e em extensas redes de clientelismo. Celso Amorim, enviado por Lula, observará se o regime é capaz de aceitar, por bem, a derrota eleitoral avassaladora indicada pelas pesquisas.

O chavismo nasceu das urnas, numa revolução nacionalista pacífica concluída pela Constituição de 1999. Nela estavam as sementes da lenta transição da democracia representativa à democracia plebiscitária, ou seja, à tirania da maioria. Foi isso que Lula caracterizou, com uma ponta de inveja, como "democracia até demais".

Pablo Ortellado - A oportunidade democrática da Venezuela

O Globo

Oposição tem chances reais de vencer, e Maduro vem sendo pressionado a aceitar a derrota se ela acontecer

Amanhã os venezuelanos vão às urnas escolher seu presidente. A eleição representa a primeira oportunidade real em décadas para resgatar uma democracia sufocada por 25 anos de populismo autoritário e tentativas fracassadas de golpes de Estado.

Nos anos 1960 e 1970, enquanto muitos países latino-americanos amargavam ditaduras militares, a Venezuela viveu um longo período de estabilidade democrática. Em 1958, os três principais partidos do país, a Ação Democrática (social-democrata), o Copei (democrata cristão) e a União Republicana Democrática (social-liberal), firmaram um pacto de estabilidade democrática pelo qual se comprometiam a reconhecer o resultado das eleições e se alternar no poder. O acordo tentava evitar que o país retornasse à ditadura militar que o governou de 1948 a 1958. O pacto cívico e republicano, firmado na cidade de Punto Fijo, permitiu à Venezuela viver 30 anos de estabilidade, com alternância de poder entre sociais-democratas e democratas cristãos que lembrava as democracias europeias.

Eduardo Affonso - Deus e o diabo na terra do Estado laico

O Globo

Políticos sabem que, numa democracia, só o voto salva — e o caminho mais curto para a salvação passa pela oferenda

Deus pode até estar em todos os lugares, mas em nenhum é tão onipresente como na política.

Bolsonaro O tinha como cabo eleitoral, encabeçando uma versão revista e recauchutada da Santíssima Trindade: “Deus, pátria e família” — sendo a pátria a crucificada, e a família seu próprio clã. Ainda que o Brasil estivesse acima de tudo, Deus estava acima de todos. Tão acima que, apesar de onisciente, não perceberia as rachadinhas, o comportamento criminoso durante a pandemia, a devastação ambiental, a venda das joias, a incitação ao golpe e uma penca de outros pecados passíveis de penitência bem maior que dois pais-nossos e quatro ave-marias.

Como quem acende uma vela para si mesmo e outra para o diabo, Deus não tem preconceito ideológico nem desampara quem o procure. Lula garante que sua volta ao poder foi coisa d’Ele — cometendo a heresia do machismo linguístico ao chama-lO de “o homem lá de cima” (linguagem neutra, só no discurso escrito, né?).

Carlos Alberto Sardenberg - E não é para desconfiar?

O Globo

Governo entrou janeiro prevendo superávit para as contas deste ano; seis meses depois, a projeção já tinha virado para um baita déficit

E depois o ministro Haddad reclama quando o pessoal desconfia do cumprimento das metas do arcabouço fiscal. Reparem: o governo entrou janeiro prevendo superávit para as contas deste ano; seis meses depois, a projeção já tinha virado um baita déficit. E isso mesmo com o ministro cumprindo a tarefa de turbinar as receitas.

Nos meios econômicos, o pessoal acredita em contas. Com os números conhecidos nesta semana, a desconfiança torna-se dominante. No Orçamento para este ano, aprovado no Congresso, previa-se superávit de R$ 9 bilhões para o governo federal, boa folga diante do déficit zero estabelecido no arcabouço. No passar dos meses, os números ganharam tons de vermelho toda vez que se refazia a conta. Concluído o primeiro semestre, a projeção já era de um déficit de R$ 44 bilhões, arredondando.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Tropicões de Javier Milei

CartaCapital

Contra a crise cambial, as drogas de sempre da farmácia de manipulação fiscal

Informa a edição do jornal O Globo, de 20 de julho de 2024:

“O presidente da Argentina, ­Javier Milei, denunciou tentativas de ‘corridas cambiais’ contra seu governo nesta semana e voltou a criticar o diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Rodrigo Valdés, acusando-o de beneficiar a gestão anterior e de ter ‘más intenções’ com o país.

– Ele tem más intenções em relação à Argentina. Ele não quer o bem para o ­país. Ele foi contemplativo com o governo anterior e não conosco, que somos exemplo de esforço fiscal. Ele tem outra agenda – disse Milei em conversa com um canal de streaming, referindo-se a Valdés.”

Marcus Pestana - As voltas que o mundo dá

Apesar de ser uma economia relativamente fechada, o Brasil é altamente dependente da exportação de commodities e da entrada de investimentos diretos estrangeiros para o financiamento de seu balanço de pagamentos. Portanto, as oscilações no cenário internacional impactam diretamente na dinâmica da economia brasileira e em nossos interesses nacionais.

O fato mais marcante que ainda teremos em 2024 são sem dúvida alguma as eleições americanas. As fragilidades pessoais expostas do presidente Joe Biden, após um bom governo, levaram Donald Trump, um ator político supostamente aposentado pela história, após a invasão do Capitólio e seus múltiplos processos no judiciário, a uma surpreendente posição de favoritismo nas eleições. A substituição da candidatura dos democratas por Kamala Harris zera o placar e recupera a competitividade do partido de Obama, Clinton e Biden.

Poesia | Seja forte, de Pablo Neruda

 

Música | Paulinho da Viola - Coração leviano

 

sexta-feira, 26 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Combate à fome exige eficiência de programas sociais

O Globo

Como explicar que o Brasil permaneça no mapa da ONU tendo ampliado gastos com pobres desde a pandemia?

É uma vergonha o Brasil continuar no Mapa da Fome das Nações Unidas. No triênio entre 2021 e 2023, 3,9% da população brasileira foi considerada subnutrida — ou 8,4 milhões de pessoas. Houve melhora em relação ao levantamento anterior, quando a subnutrição atingia 4,2%, mesmo assim o país está muito acima do limite de 2,5% por triênio, necessário para deixar a lista da ONU.

A vergonha é ainda maior porque, entre 2014 e 2020, o Brasil ficou fora do Mapa da Fome. Hoje apenas cinco países latino-americanos — Chile, Costa Rica, Cuba, Guiana e Uruguai — satisfazem ao critério das Nações Unidas para isso: prover a quantidade mínima de calorias e nutrientes para uma vida ativa e saudável a mais de 97,5% da população.

Fernando Abrucio - Sucessão da Câmara e a democracia

Valor Econômico

Está em jogo o destino institucional do Legislativo, um processo que envolve uma avaliação acurada sobre os avanços obtidos e diversos problemas que a Casa ainda tem

Os atores políticos não estão de olho apenas na eleição municipal. Uma disputa que está mexendo com a elite da classe política é a sucessão na Câmara Federal. Depois de um dos presidentes mais poderosos da história da Casa, o deputado Arthur Lira, alguns candidatos surgiram e há meses fazem uma das mais longas campanhas da trajetória recente do Congresso. Pergunta-se muito qual nome seria o mais adequado para manter o poder obtido pelo Legislativo, mas pouco se fala sobre qual projeto seria melhor para que essa instituição servisse melhor à sociedade e à democracia do país.

É inegável que o perfil dos candidatos vai afetar o futuro da Câmara Federal. Nomes, com suas trajetórias institucionais, fazem sempre diferença em política. Só que está em jogo o destino institucional do Legislativo, um processo que envolve uma avaliação acurada sobre os avanços obtidos e diversos problemas que a Casa ainda tem. E, por enquanto, os concorrentes estão mais ávidos em fazer jantares e conversas reservadas com caciques políticos e deputados do baixo clero do que em apresentar projetos que definam os rumos da instituição nos próximos anos.

José de Souza Martins - A força política da bajulação

Valor Econômico

A destruição até dos laços de família com a polarização manipulada pelo bolsonarismo gerou a desorganização política do país com o crescimento da desorganização social

Um dos aspectos mais preocupantes da política brasileira desde o fim da ditadura militar e, acentuadamente, desde a ascensão de Jair Messias à Presidência da República, é o do declínio do humor político. Sinal de que está em decadência a consciência crítica popular que, entre nós, se manifestava no riso.

O bolsonarismo trouxe consigo o ódio às diferenças políticas, a satanização dos diferentes e das diferenças, a intolerância em relação ao outro, suas ideias, seu modo de ser. Trouxe, sobretudo, a ideologia no lugar do saber, da ciência, da arte, da liberdade de pensamento, da consciência crítica, do discernimento e da criatividade.

Vera Magalhães - A receita de Lula até 2026

O Globo

Para o Planalto, se a economia ‘chegar bem’, o presidente é favorito, e possibilidade de Bolsonaro rever sua inabilitação também é considerada nula

Conforme antecipei em meu blog no GLOBO, o governo Lula entende que a fase de reformas deste terceiro mandato se esgotou. No cômputo do que foi feito, além da reforma tributária, entra o novo arcabouço fiscal. No do que deixará de ser enfrentado, a ideia de revisitar as regras previdenciárias e uma batalha para reformar o Orçamento.

Segundo auxiliares de Lula, o caminho que o presidente vislumbra até 2026 tem como carro-chefe o crescimento acima de 2% nos quatro anos de gestão, acompanhado do aumento no emprego e na renda e de uma gestão fiscal suficiente para entregar a meta proposta. Será suficiente? No entendimento do Planalto, se a economia “chegar bem”, o presidente é favorito.

Andrea Jubé - Os palcos eleitorais de 2024 como prévia de 2026

Valor Econômico

Nacionalização das eleições marcará disputas municipais

Já ficou claro que a nacionalização das eleições municipais, em uma espécie de terceiro turno do pleito de 2022, ou prévia de 2026, transcende a disputa em São Paulo entre o prefeito Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição, e o deputado federal Guilherme Boulos (Psol).

Na capital paulista, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apoia Nunes e emplacou o vice do emedebista, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) caminhará com Boulos, e indicou uma vice petista, a ex-prefeita Marta Suplicy.

São Paulo será o palco mais emblemático do novo round entre lulismo e bolsonarismo. Mas não será o único.

Flávia Oliveira - Efeito Kamala

O Globo

Empolgação em torno dela lembra a vitória de Barack Obama em 2008

Quis o destino que a desistência de Joe Biden de concorrer à reeleição e, na sequência, apontar a afro-asiática Kamala Harris — filha de mãe indiana e pai jamaicano — como substituta na corrida à Casa Branca ocorresse no mês que o Brasil consagrou como Julho das Pretas e na semana em que se comemora o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, 25 de julho. A decisão anunciada na tarde do último domingo ativou o entusiasmo de uma campanha, até então, bastante morna do Partido Democrata.

Bernardo Mello Franco – O julgamento de Biden

O Globo

Resultado da eleição em novembro definirá lugar do atual presidente na História

A pouco mais de cem dias das urnas, Joe Biden desistiu de concorrer à reeleição nos EUA. Não acontecia desde 1968, quando Lyndon Johnson jogou a toalha em meio à Guerra do Vietnã. O presidente anunciou a decisão pelas redes sociais, como convém aos tempos modernos. Na quarta-feira, explicou suas razões em pronunciamento na TV.

Biden disse que a democracia americana está em risco. Sustentou que é preciso preservá-la, mesmo que isso signifique abrir mão de ambições pessoais. “Reverencio este cargo, mas amo mais o meu país”, afirmou. “Decidi que o melhor caminho é passar o bastão para a nova geração”, prosseguiu. Pode parecer altruísmo, mas é só realismo político.