terça-feira, 27 de janeiro de 2026

É preciso criticar o Supremo para salvá-lo de si mesmo. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

O que desmoraliza o Supremo não são as denúncias e vazamentos; são as reiteradas condutas suspeitas de seus ministros

A crítica pública e a investigação delas, longe de ser um risco, são a melhor esperança para saneá-lo e preservar sua legitimidade

Houve um tempo em que a direita brasileira dizia querer conter os abusos do Supremo. Aparentemente, não mais. Enquanto os principais nomes da direita, entre eles o deputado Nikolas Ferreira e a multidão que o seguia no domingo, elegeram a soltura de Bolsonaro como a prioridade nacional, o maior escândalo financeiro da nossa história escancara os conflitos de interesse de ministros do Supremo, mas passa batido pela classe política. Talvez porque muitos dos membros dela também estejam implicados.

O escritório da esposa de Alexandre de Moraes tem contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Os irmãos de Dias Toffoli tinham participação em resort em parceria com fundos ligados ao banco. Toffoli era apontado como o dono por funcionários, e lá se hospedou muitas vezes. O escritório dos filhos de Lewandowski também tinha contrato milionário com o banco. Por fim, Vorcaro jantou com o governador Ibaneis Rocha e se reuniu com Lula e Gabriel Galípolo fora da agenda. Isso para não falar de sua relação com Antonio Rueda e Ciro Nogueira, que ao que tudo indica atuaram como pontes com a política em Brasília.

Fica claro que os tentáculos do Master não se estenderam apenas pelo Judiciário. Penetraram o governo e o Congresso também. Vorcaro parece ter tentado comprar a todos (o que não significa que todos se venderam). Contudo, enquanto investigações de corrupção dos outros dois Poderes são tratadas como algo normal, basta encostar no Supremo para que soem os alarmes da democracia.

Disse Fachin em sua nota pública na quinta-feira: "Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade (...) está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito". Ou seja: quando Moraes abre um inquérito de ofício contra o Coaf e a Receita Federal para investigar suposto vazamento de informações de ministros do Supremo, devemos acreditar que ele age em prol da democracia?

O que desmoraliza o Supremo não são as denúncias e vazamentos; são as reiteradas condutas suspeitas de seus ministros. A crítica pública e a investigação dessas condutas, longe de ser um risco, são a melhor esperança para saneá-lo e preservar sua legitimidade.

O código de conduta é um necessário primeiro passo, a ser dado ainda este ano. O ministro Barroso, quando presidente do STF, já falava na necessidade da "autocontenção" em 2023. De lá para cá, nada mudou. O tempo é agora. Código de conduta, investigação, luz do olhar público e impeachment para ministros que cruzaram e seguem cruzando a linha do decoro. Fachin sintetizou com muito realismo em entrevista publicada ontem: "ou nós encontramos um modo de nos autolimitarmos, ou poderá haver eventualmente uma limitação que venha de algum poder externo".

Infelizmente, poucos políticos têm contribuído nessa luta. Se a pressão resiste até agora devemos isso a instituições independentes e de excelência técnica, como Banco Central e Polícia Federal, bem como à coragem do jornalismo, aos formadores de opinião e ao debate público. Sem eles, o escândalo já teria desaparecido, como sem dúvida desejam políticos de todo o espectro e os próprios ministros do Supremo. Ou nós os limitamos, ou sua conduta continuará sem limites.

 

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