quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A raça como pano de fundo


Merval Pereira -
DEU EM O GLOBO

Embora as pesquisas de opinião revelem até agora que o candidato democrata Barack Obama está recebendo a mesma proporção de votos do eleitorado branco que receberam John Kerry e Al Gore, indicando que a questão racial não está afetando até o momento o desempenho do partido nesta eleição, há uma preocupação excessiva dos dirigentes partidários em enfatizar o que a eleição de um candidato negro como o senador significa no processo histórico da luta pelos direitos civis. Obama é o representante mais visível de uma corrente de políticos negros pós-direitos civis, ele mesmo já se classificou como pós-racial, mas o fato é que a questão racial está subjacente em todos os principais discursos e nos principais pronunciamentos nestes primeiros dias da convenção democrata.

A questão racial é tão delicada para os democratas que também eles são os primeiros a apontá-la como uma das responsáveis pela queda na popularidade de Obama, numa acusação velada ao reacionarismo de certa parte do eleitorado americano. Como se a insegurança quanto à experiência de Obama para liderar o país não fosse a principal razão da indecisão dos eleitores.

Até mesmo a dissidência explícita instalada na base dos militantes democratas que apóiam a senadora Hillary Clinton é atribuída a uma faixa específica de eleitores: a classe média baixa de trabalhadores brancos.

Como os eleitores negros e hispânicos democratas, nicho eleitoral dos Clinton, passaram-se quase que totalmente para o lado de Obama, a quase metade dos eleitores de Hillary que se dizem ainda contrários à candidatura do senador está localizada majoritariamente na faixa da classe média baixa branca.

Mesmo a classificação pós-direito civil, cunhada pela jornalista negra Gwen Ifill, uma estudiosa do tema, não encontra receptividade nos antigos líderes negros contemporâneos de Martin Luther King, como o reverendo Joseph Lowery, de 86 anos, que se espantou quando ouviu a designação pela primeira vez.

Outro representante dessa onda de jovens líderes negros, intelectuais formados nas melhores universidades do país, do qual Obama é o líder, é o senador pelo Colorado Peter C. Groff, doutor em Direito e políticas públicas.

Em uma entrevista no primeiro dia de convenção, ele não parou de destacar a importância de eleger Obama e, dentre outras virtudes, citou o fato de que crianças negras se veriam refletidas no presidente dos Estados Unidos, "uma pessoa como eu", e teriam a certeza de que elas também poderiam alcançar qualquer sonho.

O discurso de Michelle Obama, por exemplo, na primeira noite da convenção, teve a clara preocupação de tranqüilizar os eleitores que a vêem como a parte mais radical da família. Ao contrário de Obama, que trabalha com o conceito de pós-direitos civis, Michelle era vista até a noite de segunda-feira como uma militante radical dos direitos civis dos negros.

Não foi à toa que a capa polêmica da revista "The New Yorker", a pretexto de ressaltar as idiossincrasias contra a candidatura Obama, retratou-a como uma guerrilheira, com o cabelo black power dos anos 60.

Assumindo o papel de mulher amorosa, mãe carinhosa, filha dedicada e irmã agradecida, Michelle Obama, num discurso com tons demagógicos que agradou ao americano médio, lustrou sua imagem, arranhada desde o dia em que disse que somente com as primeiras vitórias de Obama nas primárias teve orgulho de ser americana. Por isso ontem ela sublinhou a frase "eu amo este país".

O discurso dela foi todo cuidadosamente elaborado para passar a imagem de uma família unida que ocupará a Casa Branca com os valores que regem a sociedade americana.

Ela mesmo, habilmente, se referiu a dois dos principais motivos de rejeição de Barack Obama, o nome, que muitos insistem ser sinal de que é muçulmano, e a origem: "O que me impressionou logo que conheci Obama foi que mesmo que ele tivesse esse nome engraçado, e mesmo que tivesse sido criado do outro lado do continente, no Havaí, sua família era muito parecida com a minha".

Também teve a preocupação de ressaltar a origem operária do pai, na verdade um funcionário público, e os valores do trabalho duro e da dignidade que regem a vida da família Obama, que seria a encarnação do "sonho americano", que permite a ascensão social dos que trabalham duro e se dedicam, agora incluídos os negros.

Michelle arranjou um jeito habilidoso de homenagear tanto Hillary Clinton quanto a si mesma quando lembrou que a convenção coroava a determinação dos que lideraram as lutas anteriores, como o 88º aniversário do direito de voto das mulheres; e também seu marido, o primeiro candidato negro à Presidência dos Estados Unidos.

Fez isso ao relembrar os 45 anos "daquele dia de verão quente onde Dr. King elevou nossos anseios e nossos corações com o sonho para nossa nação. Eu estou aqui hoje como uma conseqüência dessa história, sabendo que meu pedaço do sonho americano é uma bênção duramente conseguida por aqueles que vieram antes de nós".

Os organizadores do show de auditório em que se transformou a convenção democrata só não precisavam ter exagerado na dose, encerrando a apresentação da candidata a primeira-dama com a música "Isn't she lovely", numa ação de marketing político mais explícito que todas as anteriores.

Já que os adesivos colocam a eleição de Obama como uma continuidade da dinastia dos Kennedy, nada mais claro que a intenção de transformar Michelle Obama em uma Jaqueline Kennedy pós-moderna e pós-racial.

Desde a tenra infância


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Candidato oficial do PSDB à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin em geral deixa que digam, que pensem e que falem à vontade sobre as suas - segundo ele, supostas - divergências com José Serra, seu sucessor no Palácio dos Bandeirantes.

Alckmin se diz acostumado à ação “dos adversários” (quais? “Gerais”, desconversa) empenhados em fomentar a intriga entre os dois só pelo prazer de ver o tempo fechar na seara tucana, sem saber que conversam toda semana, “pessoalmente ou por telefone”.

Mas se sente muito injustiçado, e na obrigação de se manifestar, quando vê suas críticas de campanha às carências da cidade traduzidas como um atestado de maus antecedentes administrativos ao governador - artífice e comandante da gestão municipal há quase quatro anos em curso.

Pior ainda é ver escrito que a aflição pela reconquista de uma boa posição nas pesquisas o fez sair do figurino zen e partir para a ofensiva interna ao ponto de subtrair credenciais do candidato mais bem posicionado para a eleição presidencial no próprio partido.

“Alckmin abandona o ar de moço bom e diz ao eleitor que Serra é mau gestor?”, repete a frase que o infelicitou de fato na análise da véspera sobre os recentes programas do horário gratuito cheios de referências ao que “falta” em São Paulo: vagas em creches, escolas, hospitais, iluminação nas ruas, moradias populares, médicos e “ônibus modernos de norte a sul, de leste a oeste”.

De acordo com Geraldo Alckmin isso nem de longe pode ser visto como crítica à administração municipal, “muito menos” aos atributos gerenciais de José Serra, o “candidato natural” do PSDB à Presidência da República, beneficiário direto de eventual vitória do partido na conquista da prefeitura. “Sairá fortalecido e terá o meu apoio.”

A fim de evitar mal entendido: Alckmin não condiciona o apoio lá à sua vitória cá. Está com Serra, como já esteve na eleição “difícil” de 2004 em que, lembra bem disso, pôs seu prestígio de então governador a serviço da campanha do então ex-candidato à Presidência derrotado por Lula dois anos antes.

Reparada a iniqüidade, vamos ao fato: se não é crítica à atual administração, o destaque às carências municipais é o quê?

“Um exercício natural do contraponto de idéias”, sem o qual, argumenta Alckmin, “é impossível fazer uma campanha”. Deixemos de lado a disposição anterior de falar “só do futuro” e prossigamos.

Para o candidato do PSDB é preciso ver com naturalidade essa posição que, na versão dele, é uma “abordagem dos problemas de São Paulo”, muito mais rigorosa para com os antecessores da gestão tucana na prefeitura.

“O que eu quero ressaltar, e fiz isso no confronto direto com a Marta (Suplicy) no debate da Bandeirantes, é que o Serra recebeu a prefeitura em péssima situação. Por isso ganhou a eleição, fez muito, mas estamos numa corrida de revezamento, cada um cumpre uma etapa.”

E esta, “com todo reconhecimento à legitimidade das demais candidaturas”, Alckmin acha que cabe a ele cumprir inclusive para ajudar o PSDB a vencer suas “fragilidades” nas regiões metropolitanas.

Cita o exemplo da estratégia do PT, que domina as grandes cidades no entorno da capital: Guarulhos, Osasco, Campinas e Santo André.

Mas, com todo o reconhecimento à possibilidade de viradas no meio do jogo, a situação não estaria periclitante demais para que dois candidatos do mesmo campo político ainda briguem entre si?

Alckmin discorda das premissas. Não acha que o quadro esteja tão risonho e franco assim para o PT - “no segundo turno, a rejeição vai dificultar muito a vida da Marta” - e, portanto, não se rende aos números. “Temos apenas algumas oscilações nas pesquisas.”

Não enxerga sinal de briga com Gilberto Kassab - “o adversário a ser combatido é o PT, o DEM é um aliado” - e, depois de reiteradas tentativas de mudar de assunto para não entrar nas questões internas do PSDB, concede no máximo um pequeno espaço no muro: “Partido grande é assim mesmo”.

“Assim”, como, como “assim”?

Talvez valesse a pena o próprio partido tentar uma boa tradução para o termo antes de se apresentar “assim” - conflagrado, mas dissimulado - para pedir ao eleitorado que lhe abra de novo as portas do Palácio do Planalto.

São Tomé

A decisão do Judiciário ao proibir o nepotismo até o terceiro grau de parentela no serviço público, celebrada no discurso, corre o sério risco de ficar relegada ao campo das boas intenções.

Raríssimos os que tiveram coragem de criticar, mas pouquíssimos também os agentes de poder que disseram exatamente como pretendem executar a determinação.

Ao contrário, o que se vê são tentativas de abrir trilhas de desvio aproveitando brechas de lei e entroncamentos da máquina pública. E, depois, é como dizia um deputado ontem no jornal: se o poderoso resolver não demitir, quem vai tirar o parente do gabinete, a polícia?

Ciro se finge de morto


Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE: Nas Entrelinhas

A existência de pelo menos duas candidaturas governistas na sucessão do presidente Lula ainda é o cenário mais provável


O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) não jogou a toalha. Não está dado que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que preside o PSB, tenha a intenção de privar Ciro da legenda de candidato à presidente da República para forçá-lo a aceitar a vice na chapa encabeçada pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), nas eleições de 2010, como gostaria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ciro está engolindo os sapos que cruzam seu caminho exatamente porque pretende ser candidato sem o apoio do PT.

Fragmentação

Para o secretário-geral do PSB, senador Renato Casagrande (ES), a existência de pelo menos duas candidaturas governistas na sucessão do presidente Lula ainda é o cenário mais provável: Dilma tem o apoio de Lula, mas Ciro ainda é o nome mais competitivo. Dificilmente, porém, teria o apoio do PT. Ainda mais agora, depois do confronto aberto com a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), candidata à reeleição. O socialista apóia sua ex-mulher, a senadora Patrícia Saboya (PDT), que também concorre à prefeitura local.

O descolamento do PCdoB da candidatura de Ciro, desde que o presidente da legenda, Renato Rabelo, propôs a reunificação da base governista em torno de Dilma, não significa que esse objetivo seja facilmente alcançado. A proposta tem racionalidade, mas por ora a indicação de Ciro para vice é apenas um desejo dos comunistas para evitar uma escolha de Sofia.

A cúpula do PSB, por enquanto, pensa diferente. “A experiência mostra que a candidatura própria favorece o fortalecimento da legenda, principalmente a eleição dos deputados federais”, explica Casagrande, referindo-se à candidatura do ex-governador fluminense Anthony Garotinho em 2002.

A tendência do presidente Lula é escolher um vice do PMDB, cujo peso na coalizão de governo tende a aumentar com a indicação do Michel Temer, presidente da legenda, para o comando da Câmara dos Deputados. Caso isso ocorra, a candidatura de Ciro se tornaria uma necessidade para outros aliados da base governista. Ao mesmo tempo, não impediria que a coalizão se reagrupasse no segundo turno.

São Paulo

Apesar da divisão entre os governistas, a situação da oposição não é nada boa e pode piorar ainda mais. O confronto entre o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) ameaça afogar os dois candidatos no Rio Tietê. Quem nada de braçada nas eleições de São Paulo é a ex-ministra do Turismo Marta Suplicy (PT).

O presidente Lula quer aproveitar a situação para uma investida em outros municípios paulistas importantes, como São Bernardo do Campo, onde a eleição do ex-ministro da Previdência Luiz Marinho virou uma questão de honra. Seu objetivo é impedir que o governador José Serra (PSDB) se lance candidato com uma vantagem robusta em São Paulo. Uma vitória de Marta, então, poderia sepultar a candidatura presidencial de Serra, ainda mais num ambiente macroeconômico favorável ao governo, com a inflação sob controle e uma taxa de crescimento do PIB mais modesta, porém razoável. Para o tucano, nesse cenário, seria mais prudente disputar a reeleição ao governo paulista.

Um balanço preliminar mostra que o governo vai melhor do que as expectativas nas eleições municipais, inclusive nas capitais do Sul e Sudeste. Não é apenas porque os candidatos governistas surfam no prestígio de Lula. Na verdade, eles surfam muito mais nas realizações dos governos aos quais estão ligados (em todos os níveis) e nas facilidades para arrecadar recursos.

Começou a eleição

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

"É, então, perfeitamente possível que, com pouquíssimos dias de propaganda eleitoral, tenhamos cenários novos e que parecem surpreendentes, mesmo que já fossem antecipados por quem acompanha esses processos"

Até os melhores analistas na imprensa têm dificuldade de explicar o que acontece em uma eleição quando se inicia a propaganda eleitoral nos meios de comunicação de massa. Como quase todos se formaram na escola da imprensa escrita, pode ser que ela decorra de sua natural relutância em admitir que a maioria do eleitorado é pouco afetada pelo noticiário dos veículos onde trabalham.

Só quando chega à televisão e, secundariamente, ao rádio, é que a eleição começa para as pessoas que não lêem com regularidade os jornais diários. Elas são cerca de 90% do universo de eleitores, sendo que os que buscam habitualmente as seções dedicadas à política ficam mais perto de 5%. Somados aos leitores não habituais, chegamos, no máximo, talvez a 25% ou 30% do total.

Essa parcela é a mesma que consome a informação política veiculada no jornalismo das emissoras de televisão e de rádio. O conjunto de espectadores e ouvintes de sua programação jornalística é certamente maior, mas o desinteresse da maior parte faz com que a absorção seja pequena. Ficam na frente da televisão, mas pouco atentos aos momentos em que se fala de política.

Tomando como base pesquisas recentes da Vox Populi em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, podemos dizer que quem se interessa “muito” por política representa, neste momento, cerca de 15% do eleitorado das grandes cidades, enquanto que os que se interessam “mais ou menos” são perto de 30% do total. A outra metade se divide em duas partes: os que se interessam “um pouco” e os que “não têm qualquer interesse”, sendo os primeiros cerca de 20% e os segundos os 35% finais.

Cada um desses estratos reage à sua maneira ao fluxo de informações do processo eleitoral. Mas há uma semelhança entre os dois extremos, que nem sempre imaginamos.

Tanto quem tem muito, como quem não tem nenhum interesse tende a ser pouco afetado pela nova informação. Uns, por já terem tanta que a nova provoca pouca mudança. Costumam fazer cedo suas escolhas e chegam à altura em que estamos do processo eleitoral com posições definidas. Os outros, por seu interesse ser tão pequeno que nem a mídia eletrônica os atinge, a não ser muito tarde.

Nos dois estratos intermediários, novas informações provocam efeitos que podem ser espetaculares, conforme as condições políticas da eleição. Como são, na maioria das vezes, pessoas com limitada bagagem de informação e que não costumam exigir grandes detalhes (até por não terem suficiente interesse), um mínimo pode ser suficiente para motivá-las. Dois ou três fatos relevantes são bastantes para fazer com que se inclinem para cá ou para lá. Se, além disso, essa informação lhes chegar em volume significativo, podemos ter mudanças drásticas, “da noite para o dia”, nas intenções de voto.

É, então, perfeitamente possível que, com pouquíssimos dias de propaganda eleitoral, tenhamos cenários novos e que parecem surpreendentes, mesmo que já fossem antecipados por quem acompanha esses processos.

É o que está acontecendo em Belo Horizonte, por exemplo, pelo que deixam evidente as primeiras pesquisas divulgadas pós-TV. A candidatura de Marcio Lacerda, o candidato que Aécio e o prefeito Fernando Pimentel apóiam, cresceu 15%, segundo dados da última pesquisa, em apenas dois dias de veiculação da propaganda eleitoral.

Com isso, nem bem começou a eleição, alcançou o primeiro lugar.

Fenômeno brasileiro, que ilustra nosso subdesenvolvimento político? Não, nossos eleitores não são diferentes dos que temos em outras democracias, incluindo as mais tradicionais e avançadas.

É assim que as coisas são: há quem goste e quem não goste de política, há quem sabe muito e exige muito em matéria de informação e quem se contenta com menos. Nas democracias, existem diversos tipos de eleitor e nenhum é melhor que outro.

Garibaldi foi à forra


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Conheço o senador Garibaldi Alves, presidente do Senado, desde menino, do tempo em que seu tio, o então governador do Rio Grande do Norte, Aluísio Alves, revolucionava os caducos modelos tradicionais de campanha eleitoral, com a criatividade, a garra e talento que pavimentou a caminhada do mais moço deputado federal pela UDN na Constituinte de 46 na ascensão fulminante ao plano federal.

Correligionário do cacique da UDN, senador e governador Dinarte Mariz e seu adversário nas cambalhotas da contradição da política estadual, para a reconciliação ao seu chamado, à véspera da morte, com a nobre justificativa de que não desejava deixar para os filhos a herança dos ódios provincianos, Aluisio Alves também morreu no ostracismo, para a surpreendente consagração popular que há dois anos foi para a rua e acompanhou o cortejo até o cemitério, com as bandeiras verdes catadas do fundo dos baús.

O caminhão do povo da campanha de Carlos Lacerda e Afonso Arinos, que foi a grande novidade que percorreu todos os roteiros da então capital, com a população nas ruas ou nas janelas, parando para os comícios relâmpagos nas praças foi importado do Rio Grande do Norte.

No jovem tímido e discreto sobrinho de Aluísio – filho do seu irmão Garibaldi que foi deputado estadual – não se antevia a carreira política metódica, degrau por degrau, de deputado estadual, passando pela Prefeitura de Natal, com o brinde da reeleição e o governo do Estado, em administração marcada pelas obras de irrigação das áreas maltratadas pela seca.

O senador pagou a sua cota da estréia federal no Senado. E, na mesma toada sem a aflição da urgência, esperou a hora e a vez da eleição para presidência da Casa num dos períodos de mais baixa estima do Legislativo, esburacado pelos escândalos em cascata das mordomias, das vantagens e mutretas, como a indecorosa verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento das despesas de deputados e senadores nos fins de semana nas bases eleitorais ou do despudor da verba de R$ 61 mil por mês para contratar assessores para os gabinetes individuais de suas excelências.

O castigo tardou, mas chega em doses duplas. O Congresso que não legisla, imprensado entre a madraçaria da semana de três dias úteis e com a pauta entupida pelas medidas provisórias encaminhadas pelo governo de goela insaciável, está sendo exemplado como menino desobediente, com a ousadia do Supremo Tribunal Federal (STF) que invade a sua área para marcar o gol de placa ao proibir a praga do nepotismo que empesteia os três poderes.

Com a cara no chão, a Câmara e o Senado tratam de sair do castigo prometendo não reincidir num dos nossos mais antigos vícios, com raízes na carta de Pero Vaz Caminha.

Na Câmara, o embaraçado presidente, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) sai da reta, transferindo para os deputados o dever de casa de despedir a parentela encarrapitada nos galhos das nomeações sem passar pelos concursos. E, no Senado, do presidente Garibaldi Alves, por enquanto, os senadores serão advertidos para o cumprimento da súmula do STF.

Nos porões do baixo clero, com o constrangido apoio da maioria, germinou a luminosa saída por baixo do pano do circo, da criação de cotas para a contratação de parentes.

Antes de ser coberto pelo entulho, o presidente do Senado reagiu com o giro da metralhadora: qualificou de ridícula a maroteira das cotas para a contratação de parentes; reconheceu que o Legislativo vive "uma situação tensa" e com a sua omissão, o Judiciário "está realmente legislando" e comparou as Medidas Provisórias aos decretos-leis criados pelos militares durante a ditadura dos generais-presidentes.

O espírito de Aluísio Alves encarnou no sobrinho presidente de Senado.

Tomara que seja um obesessor que gruda no cangote e não larga o obsedante.

O retorno da nação


Walquiria Domingues Leão Rego
DEU NO VALOR ECONÔMICO


"Para re-despertarmos como Nação, devemos nos envergonhar de nosso estado presente. Renovar tudo e nos autocriticar." - Giacomo Leopardi

Há décadas ouvimos um coro muito afinado entoando em todo o mundo um canto de morte. Suas vozes em uníssono pregavam, nos poderosos meios de comunicação e de persuasão coletiva, a obsolescência de instituições fundadoras da modernidade como o Estado nacional e a cidadania. Nesse cortejo fúnebre se enterrava também a política democrática como língua unificante das demandas por direitos universais de cidadania, pelo reconhecimento das diferenças e pelas exigências de civilização dos conflitos. Dos seus impulsos igualitaristas nasceram e se desenvolveram nações mais universalistas, mais democráticas. Sepultá-la é substitui-la pela apatia cívica e pelo cancelamento de uma de suas dimensões mais importantes: a de fornecedora de medidas e de sentido ao poder e às lutas pelo poder no âmbito das comunidades nacionais.

Emergiu deste processo de silenciamento das conquistas civilizatórias da modernidade uma velha gramática moral e política, congênere aos processos de desregulamentação dos mercados e do conseqüente fim das funções públicas do Estado. O "novo" léxico, ao valorizar o indivíduo maximizador do auto-interesse, liquidava normativamente qualquer pacto de solidariedade entre as gerações para a fruição de direitos, e nas dobras deste processo se esvaziava a democracia como forma e método de resolução das contendas entre os diferentes grupos sociais. Na seqüência desta naturalização da vida social, as iniqüidades distributivas ganhavam cada vez mais o status de fenômenos inevitáveis e necessários ao desembarque do país à modernidade.

Um receituário político-econômico homogeneizador, uniforme na abstração vazia de qualquer diferença de tradições políticas e culturais individualizadoras dos povos, espalhou-se pelo mundo como fogo ao vento, concretizando-se em políticas privatizantes dos bens públicos. Seu liquidacionismo do patrimônio público se autoproclamou na verdadeira "reform proper" ao impor suas regras e valores, oriundos de particularíssimos interesses, como elementos de validade universal, porque sintonizados com a ordem natural do mundo. Regredíamos, por grosseira operação ideológica e política, a certo essencialismo medieval no qual a natureza toma o lugar da história. Os indivíduos nus, destituídos de direitos e de humanidade, tema da crítica de Marx ao capitalismo, se restauravam como pressuposto moral de justificação pública do desmantelamento de qualquer idéia de bem comum e de ética coletiva.

Entre nós, um conhecido economista chegou a escrever: "Chega de compaixão!". Disse isso a propósito da defesa do fim da previdência pública para os velhos pobres que não contribuíram para suas aposentadorias. Como quase sempre viveram à margem da regulamentação do trabalho, não pagaram por ela. Logo, não deveriam ter direitos previdenciários! Queria, além de cancelar uma prerrogativa constitucional, expulsá-los da humanidade.

O resgate do Estado é percebido como o único modo da maioria não submergir destroçada às forças destrutivas da globalização

A idéia de nação como força política e de país como arena política de disputas de projetos de convivência cívica, entre eles, o aprofundamento da cidadania democrática, foi abolida como excrescência histórica. Afinal, por que invocar este anacronismo se havia desaparecido, arrastada e destruída nas suas estruturas de sentimentos e necessidades, pelo turbilhão incontrolável da globalização? Nesse ardil retórico, os coveiros da comunidade nacional silenciavam ainda mais sobre os deveres do Estado para com ela, e, na mesma operação ideológica, ocultavam o verdadeiro modus operandi da dominação social no seu interior.

Os poderes econômicos hegemônicos e seus funcionários ideológicos prescreviam liberdade absoluta de movimentos. Sua "racionalidade" não podia suportar nenhum limite, nenhum controle social, ao contrário, clamavam abertamente o exercício despótico de seu poder.

A conseqüência mais visível e mais dramática desse constructo e desse agir político foi o enfraquecimento do cidadão, personagem tardio na terra brasilis. Substituíram-no por mero consumidor de serviços privados. Suas prerrogativas representavam ataque à "liberdade", normativamente associada à mercantilização absoluta da vida. Contudo, a "força das coisas" trouxe à tona, com evidências empíricas, a urgência de ressuscitar "os mortos sem sepultura". Hoje se debate e se pesquisa mundo afora a necessidade de recuperar o Estado como categoria analítica e como realidade indispensável de protagonista distributivo e agência de reconhecimento de direitos civis, culturais e sociais. Este resgate é percebido como o único modo da maioria não submergir destroçada às forças destrutivas existentes no processo da globalização.

Restaura-se a nação como força politica agregadora e formadora de cidadãos democráticos dotados de lealdades aos métodos da democracia para a resolução de seus conflitos de interesses. Restaura-se a nação ao menos como comunidade transversal, no dizer do indiano Partha Chatterjee, equipada moral e politicamente para implementar padrões igualitários de integração social, fundados no aprofundamento da esfera pública republicana. Nesse sentido fator decisivo de democratização da nossa frágil democracia.

Se o Brasil como nação não colocar fortemente a extensão profunda e ampla da cidadania como coração de sua agenda democrática e de desenvolvimento econômico, perpetuará sua condição de nação partida, como no romance Sybil do conservador inglês Benjamin Disraeli: "Duas nações entre as quais não há nenhuma comunicação nem simpatia: que são ignorantes dos hábitos, pensamentos e sentimentos uma da outra como se morassem em regiões diferentes, ou como se fossem habitantes de planetas distintos, formados por raças diferentes, alimentados por comidas diversas, ordenados de maneiras diferentes, e não fossem governados pelas mesmas leis".

Walquiria Domingues Leão Rego é professora titular do Departamento de Ciência Política do IFCH-Unicamp.

Emprego e felicidade


José de Souza Martins*
DEU EM O SÃO PAULO


Todos os dias somos bombardeados com estatísticas e números por meio dos quais os que os divulgam tentam nos convencer de que, sejam bons ou sejam ruins, esses números são sinais de que ou as coisas vão muito bem ou não vão tão mal quanto poderiam ir. Portanto, os dados da interpretação manipulativa devem nos deixar tranqüilos e sem medo de ser felizes. O número subinformado é hoje um dos grandes problemas na formação da opinião pública e uma das grandes armadilhas para a liberdade de pensamento. Embora estudos sérios sugiram que a economia brasileira vai crescer à média anual de pouco mais de 3% nos próximos 15 anos (quando deveria crescer 6% ao ano para criar alguma melhora nas condições sociais da população), conforme uma conferência que ouvi nesta semana, na USP, os dados fragmentários que a mídia, os técnicos e o governo nos apresentam no dia a dia nunca nos permitem perceber claramente a situação adversa e sem perspectiva em que nos encontramos.

Nesse cenário, uma das mais incômodas informações estatísticas é relativa ao emprego e ao desemprego. É sempre do tipo "é o menor índice de desemprego dos últimos anos", mas nada nos é dito sobre o fato de que continua alto o desemprego e o subemprego e que milhões de brasileiros estão desempregados ou empregados precariamente. Dados do Dieese mostram que, em 2005, se no total da população com mais de 16 anos de idade a proporção de desempregados nas áreas metropolitanas do país era de 23,8%, na faixa de 16 a 24 anos era de 45,5%. É um número desalentador, se levarmos em conta que para uma pessoa de 50 anos de idade, o impacto do desemprego, ainda que doloroso, é significativamente menor do que num jovem de 24 anos idade. Pois, nessa idade, estará ele pensando em constituir família e em decidir o destino. Chegar a essa idade e não ter ainda conseguido um emprego estável significa anular sonhos e esperanças não só no plano material, mas sobretudo no plano afetivo.

Mesmo em relação aos que estão empregados, nessa faixa de idade, a difusão de otimistas estatísticas de emprego pressupõe que o mero emprego já é um indicador de felicidade. Não temos estatísticas sobre a relação entre emprego e prazer no trabalho. Se as tivéssemos teríamos condições de juntar aos infelizes por desemprego os infelizes por emprego incompatível com a competência e a necessidade de prazer e realização pessoal no trabalho. Porque seu corpo estaria empregado, mas não o seu coração e a sua mente.

*Professor titular de Sociologia na Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003; Exclusão Social e a Nova Desigualdade, 3a. edição, Paulus, 2007; A Sociedade Vista do Abismo (Novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais), 2ª edição, Vozes, 2003.

O Mistério do Samba é a riqueza da pobreza


Arnaldo Jabor
DEU EM O GLOBO (26/8/2008
)

Eu sou um pobre homem da Rua Guimarães, hoje Almirante Ari Parreiras, ali no Rocha. E sempre me lembrava do ritmo dos subúrbios do Rio, dos tempos mortos, dos terrenos baldios de capim, das valas, das casinhas geminadas, das mangueiras, de um passado que parecia se mover em câmera lenta, em que os dias eram divididos em manhãs, plena luz, entardecer e noites mais escuras e mais estreladas.

Esta semana reencontrei meu passado infantil, pelas mãos de minha filha Carolina. Isso. Fui ver, com temor e dúvida, o documentário O Mistério do Samba, produzido pela Conspiração Filmes, patrocinado pela poética empresa Natura, sob a inspiração de Marisa Monte e dirigido por Carolina Jabor, minha filha ("uh hu hu h u!") e Lula Buarque de Hollanda. E caí para trás. Não porque ela seja minha filha, nem porque conheço o talento de Lula desde pequeno, nem porque vi a Marisa estrear ainda menina, não; o filme é excepcional. Digo isso sem tremor de nepotismo explícito. É um grande barato, um dos melhores documentos poéticos que tenho visto no País.

Filmado durante dez anos, produtores e diretores acompanharam a vida e a arte dos sambistas da Velha Guarda da Portela e mostram, com carinho e respeito, o mistério do nascimento do samba. Registraram o que sobrou de 1926, da antiga "Vai como Pode" - as personagens que participaram do parto do samba, como se filmassem a nascente, o olho d?água do grande "rio que passou em nossa vida e levou nosso coração". Sim, porque aqueles homens e mulheres ali, muitos com mais de 80 anos, estavam no início da misteriosa música riquíssima que a pobreza fez, com seus operários, vendedores de rua, carpinteiros, contínuos, lavadores de carro.

Hoje, o morro, os subúrbios nos preocupam como berços de violência, tráfico, balas perdidas... mas este filme (as platéias aplaudem de pé dançando ao final) recupera a delicadeza minimalista das letras e melodias de 50, 60 anos atrás, a riqueza da pobreza, a música feita com a simplicidade do pão, da comida, dos amores baldios, da cerveja, do apito do trem passando. Os sambas da velha-guarda salvaram suas vidas. Que seria deles se não cantassem?

Não é um filme sobre o passado; é sobre um presente que nascia. Não é um filme de lamento sobre alguma coisa acabada, mas sobre a vitalidade que tem de continuar, que resiste nos subúrbios, apesar da violência da indústria cultural de massas e da boçalidade dos pagodes de jabás e de boquinhas de garrafa ou axés de multidões burras. No filme estão todos os grandes artistas: o espírito de Manacea, Jair do Cavaquinho, Argemiro Patrocínio, Casquinha, Monarco, o filho mais moço Paulinho da Viola, protegidos por Tia Surica e Tia Doca, nele está Zeca Pagodinho, preservando em corpo e alma o espírito desse tempo, hoje. A Portela aparece nas pequenas coisas: sapatos brancos e pretos, as mãos gastas, os rostos comidos pelo tempo, mas vivos de alegria, os pés descalços, os retratos na parede, a comida, as cervejas, os cavaquinhos e pandeiros.

Há uma cena em que Zeca conta uma das farras na casa de Argemiro Patrocínio. É incrível como sua pronúncia arrastada e esperta, seus gestos matreiros, as pausas, as elipses de sua fala narram o vaivém da malandragem, do cafajestismo poético, um delicado e amoroso machismo, a fala no ritmo de letra de samba. O filme preserva o modo de vida suburbano do Rio, seus homens e mulheres criando arte, com a sabedoria calma que só a desesperança traz.

Como diz o Zuenir no jornal: "um emocionante documento sobre o enigma que envolve a criação artística, como pessoas sem condições materiais são capazes de produzir tantas obras geniais..." Este filme nos evoca na hora o Buena Vista Social Club. Mas acho que o filme de Wim Wenders é maravilhoso na música dos grandes esquecidos que havia em Cuba, como Compay Segundo, Rubem Gonzalez e Ibrahim Ferrer, principalmente pela direção musical de Ry Cooder, mas a cinematografia de Wim, considero mediana e inferior à deste filme, no qual a montagem por associação livre e analogia forma um conjunto com significação poética, além do registro cultural. O Mistério do Samba não lamenta, não evoca, não chora por um passado, e, principalmente, não denuncia. Na cabeça da gente, documentário é para denunciar tragédias ou dramas vivos. Até pode, em documentários essenciais como Notícias de Uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, mas, num país como o nosso, surge um novo tipo de documentário tendendo para a ficção, documentários que, em vez de denunciar, querem salvar realidades e fatos, como em Santiago, de João Moreira Salles, trabalhos do Eduardo Coutinho e outros. Aos poucos, as pessoas vão virando personagens, vamos nos apaixonando por elas, aos poucos o documento ganha uma poética ficcional.

Também sinto que o mundo da Portela foi ditando o próprio estilo do filme de Carolina e Lula Buarque. O filme aprendeu com os atores, a criação sem o oportunismo do sucesso, a criação pelo prazer e necessidade. O ritmo digno e lento daquelas pessoas, seus quintais, seus quartos pobres, seus botequins dando para a vida, para os trens que passam no silêncio das tardes influenciaram o estilo do trabalho. O resultado é um filme que "é". Que não é "sobre" nada; o filme nasce puro como um samba composto num daqueles botequins, na silenciosa dança do "miudinho" que tia Eunice ensina às meninas, soprando um beijo entre as mãos, como uma ave.

Ao terminar a sessão (poucas vezes vi tanto entusiasmo em platéias) me vieram duas frases à cabeça. Uma do Godard: "Todo grande filme de ficção tende para o documentário; todo grande documentário tende para a ficção. Ou seja, todos os caminhos levam a Roma, Cidade Aberta."

E a outra frase é de Marisa Monte: "Queria fazer esse filme pela certeza de que a vida ia ser melhor com esses sambas." Pois, melhorou, Marisa.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 26 de agosto de 2008

O sonho de Obama


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


DENVER, Colorado. A emoção está no ar, e há simbolismos para todos os gostos nessa convenção democrata que apontará Barack Obama como o primeiro negro candidato à Presidência dos Estados Unidos, exatamente 40 anos depois que outro negro, Channing Phillips, um delegado partidário de Washington, D.C., tornou-se o primeiro político negro a disputar a indicação de um dos dois grandes partidos, embora em caráter simbólico de protesto. Ele, que era delegado de Robert Kennedy, assassinado poucos meses antes, recebeu o voto de 67 delegados naquela ocasião. A convenção de Chicago, que completa 40 anos, marcou uma reviravolta na maneira de escolher os delegados no Partido Democrata.

O choque de gerações que se refletia nos movimentos de protestos nas ruas do país contra a guerra do Vietnã e a favor dos direitos civis, os assassinatos do líder negro Martin Luther King em abril daquele ano, e de Bob Kennedy em junho, virtualmente escolhido o candidato democrata, davam o pano de fundo de uma convenção que dividia o Partido Democrata. E os protestos tomaram conta das ruas de Chicago naquele agosto de 1968.

De um lado uma nova geração de eleitores que havia se entusiasmado com a campanha de Bob Kennedy, do outro a velha guarda partidária, que acabou indicando como candidato o vice-presidente Hubert Humphrey, que não disputou as primárias, mas prometia continuidade. Acabou sendo derrotado pelo candidato republicano Richard Nixon.

O famoso livro de Norman Mailer, "Miami e o cerco de Chicago - A história informal das convenções republicana e democrática de 1968", que entre outros fatos relata a história de Channing Phillips na convenção de Chicago e os protestos de rua juntando os estudantes e os militantes democratas contra a guerra do Vietnã, está sendo reeditado, no mesmo momento em que, aqui em Denver, várias manifestações estão acontecendo contra uma outra guerra, a do Iraque.

Ao mesmo tempo, a campanha de Obama esforça-se para grudar a imagem dele à dos Kennedy, não apenas para reforçar a idéia de mudança que impulsiona sua candidatura entre os jovens e as minorias, como para contrabalançar o poder político de um outro clã, o dos Clinton, que divide o Partido Democrata desde as primárias.

Para acalmar os eleitores jovens, que se sentiram desguarnecidos com o assassinato de Bob Kennedy e o golpe dos políticos tradicionais, o Partido Democrata mudou, após a convenção de Chicago, o processo de escolha de delegados, a fim de dar voz aos representantes das minorias e tornar a escolha mais aberta.

A escolha e subseqüente derrota de George McGovern na eleição de 1972 convenceu, porém, a direção democrata que deixar em mãos inexperientes a decisão final não era uma boa solução, e foi criada então a figura dos superdelegados, indicados pelas direções partidárias nos Estados.

Na eleição deste ano, os superdelegados foram acionados pela senadora Hillary Clinton, na tentativa de desequilibrar a pequena diferença que Obama tinha a seu favor nas primárias e fazer o resultado mais uma vez pender para o lado dos "caciques" democratas.

Preferida pela cúpula partidária, Hillary, no entanto, não obteve o apoio da maioria dos superdelegados, e muitos acham que eles só não se dispuseram a reverter o resultado das prévias com receio de uma reação violenta dos eleitores entusiasmados por Obama, especialmente os jovens, justamente como aconteceu em Chicago há 40 anos.

No seu livro "Audácia da esperança", Barack Obama analisa negativamente o ambiente político de Washington, se colocando como um outsider que se apresenta para mudar a maneira de fazer política. Foi com esse discurso que ele conseguiu neutralizar a adversária Hillary Clinton, que passou a encarnar a velha politicagem.

E foi também com essa pretensão que ele fez aquela viagem internacional cujo ponto alto foi seu discurso para uma multidão em Berlim. Tentou, sem conseguir, firmar-se internamente como um líder reconhecido internacionalmente.

Ao escolher para seu companheiro de chapa, como antídoto contra a também senadora Hillary Clinton e as críticas à sua inexperiência com assuntos internacionais, o senador Joe Biden, de 65 anos, que está há 36 no Senado, Barack Obama deu uma demonstração de que realmente é difícil se livrar da pequena política de Washington.

Virtualmente empatado com seu adversário republicano John McCain, em uma disputa que era vista como a mais fácil dos últimos anos devido à impopularidade do governo Bush e à situação econômica, Obama joga tudo nessa convenção para voltar a tocar os corações e mentes dos americanos, ao mesmo tempo em que faz concessões diversas dentro e fora de seu partido.

A festa está obedecendo aos melhores roteiros de Hollywood, e até mesmo um sósia de Obama desfila pelas ruas de Denver, dando autógrafos e entrevistas. O gran finale será na quinta-feira, com um discurso que se prevê histórico de Obama para uma platéia de 75 mil pessoas num estádio da cidade.

O dia foi escolhido a dedo. Comemoram-se em 28 de agosto os 45 anos do famoso discurso de Martin Luther King que ficou conhecido como "Eu tenho um sonho", um sonho "profundamente enraizado no sonho americano", o sonho da igualdade em que as pessoas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo seu caráter. Todo esse processo desaguou na candidatura de Barack Obama, no seu sonho pós-racial, que encontra resistência até mesmo entre a velha liderança do movimento negro.

Marketing político, bom e mau

Ali Kamel
DEU EM O GLOBO

Muitos vêem o marketing político como o conjunto de técnicas de comunicação que ajudam a levar um candidato à vitória. Alguns políticos se acham especialistas nesse tipo de marketing, e se orgulham disso. Entre essas técnicas, porém, estão a dissimulação, o logro e a esperteza. Quando as usam, esses políticos podem conseguir vitórias expressivas, mas, no longo prazo, acabam tendo um fim de carreira melancólico: amorfos, sem idéias claras, com uma base de apoio às vezes ampla, mas fragmentada em inúmeros campos, muitas vezes antagônicos.

Visão bem diferente daqueles que consideram o marketing eleitoral como um conjunto de técnicas que ajudam um candidato a tornar mais clara a sua mensagem. Se a mensagem, ao ser entendida, for aceita por parcelas majoritárias da população, o sucesso do candidato será enorme. Pode ser que seja eleito, mas pode ser que apenas se mantenha como uma força política, expressiva ou não. Políticos que vêem o marketing assim sempre se manterão íntegros, com idéias claras e coerentes, com uma base de apoio coesa. Com alguma persistência, podem acabar tornando-se majoritários. Por exemplo, hoje há quem pense que aqueles que defendem a remoção de favelas jamais terão o voto dos favelados. O marketing político bem feito de um candidato sincero, porém, pode, um dia, mostrar aos favelados que os primeiros beneficiários serão eles, que deixarão de morar em condições subumanas, mudando-se para bairros com transporte rápido e barato.

Neste período eleitoral, vale a pena refletir sobre isso. Alguns políticos, Brasil afora, elegem-se como defensores da lei e da ordem, mas, no meio do caminho, ambicionando novos postos, acabam por agregar a essa mensagem o seu oposto: deixam que as vans ilegais proliferem, fazem vista grossa ao comércio ambulante, passam a ver o crescimento de favelas como um dado natural e, talvez, bem-vindo. Querem falar a todos os públicos, numa linguagem que acaba esquizofrênica. A coisa geralmente acontece assim: elegem-se prometendo ordem e obtêm êxito, uma grande parte do eleitorado lhe dá apoio, mas não todo, não há unanimidade. Num segundo momento, ao tentar um posto acima, é derrotado, porque, na crença dele, faltam-lhe os votos das áreas mais pobres, aquelas que ele acredita que não querem a lei e a ordem porque são pobres, uma suposição abjeta. Num terceiro momento, olhando para o mapa eleitoral, e ainda com vôos mais altos na cabeça, passam a prometer coisas antagônicas para diferentes partes do eleitorado. A suposição é de que isso fará dele um campeão de votos. E, na primeira tentativa, pode até fazer. Mas o fracasso estará ali adiante. Incapaz de servir a demandas tão díspares, as críticas começam a surgir de todos os lados, o desgaste é enorme e o que antes era um político forte passa a se comportar como um político amargurado. Tudo isso apesar de todo o conhecimento que achava que tinha das técnicas de marketing eleitoral.

Há também o caso de políticos que praticam a vida inteira o marketing correto, com êxito, transformando-se numa força eleitoral potente, mas sem obter a vitória tão esperada. Em dado momento, flexibilizam o discurso, aparentando acolher sinceramente pontos programáticos que antes rejeitavam como anátema. Com o recuo, obtêm êxito eleitoral, mas, ao chegar ao poder, verifica-se que não houve recuo algum, mas apenas a adesão ao mau marketing político. Se antes defendiam a moralidade como se tivessem o monopólio dela, ao chegar ao poder vêem-se rodeados de escândalos e, diante deles, saem-se com a desculpa de que todo mundo erra. Condenam a vida inteira alianças espúrias, mas, no governo, aliam-se, sem constrangimento aparente, aos que antes abominavam. Também neste caso, o futuro nunca é acolhedor: apesar de uma popularidade persistente quando estão no poder, fora dele a História costuma julgá-los com rigor.

Porque a democracia nunca falha, e os erros deixam marcas e rastros.

Sei, essa frase pode parecer otimista, e haverá sempre quem diga que é justamente a democracia que permite que fenômenos como esses aconteçam. É uma visão equivocada. Quando há democracia, ela não falha, e este é o nosso caso: figuras assim, aqui, acabam despidas. Sei que há aqueles que citam sempre Hitler como prova de que a democracia, às vezes, falha e cria monstros. Não cria. Hitler chegou ao poder não porque tenha vencido uma eleição (em nenhum pleito o Partido Nazista recebeu a maioria absoluta dos votos), mas em decorrência de conchavos entre líderes políticos que se achavam mais espertos do que ele. No primeiro gabinete que chefiou, além de Hitler, só havia mais dois ministros nazistas. Menos de um mês depois, houve o incêndio do Reichstag (forjado, ao que tudo indica, pelos próprios nazistas), e Hitler arrancou do presidente Hindenburg um decreto lhe dando poderes ditatoriais. Em seguida, fez o Congresso aprovar uma lei que dava a ele todos os poderes legislativos. Ora, aí está o "x" da questão. Uma democracia que dá ao presidente o poder de baixar um decreto como aquele e ao Congresso a possibilidade de abdicar de suas próprias obrigações em favor do Executivo pode ser chamada de democracia? Não pode, este é o ponto.

Uma democracia verdadeira contém em si todos os elementos para salvaguardá-la. A democracia não é o sistema político em que todas as tendências políticas disputam; a democracia é aquele sistema em que têm licença para disputar apenas aqueles que não pretendem suprimi-la.

O marketing político entendido como o conjunto de técnicas que ajudam a ganhar eleições, numa democracia de fachada , pode levar a situações funestas, como o nazismo. Numa democracia como a nossa, acaba levando apenas à desmoralização daqueles que o praticam. Basta esperar.

ALI KAMEL é jornalista.

O PT de novo em apuros

Editorial
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A história se repete - até na tentativa de desqualificar uma denúncia, sob a alegação de que se trata de uma jogada eleitoral. No caso, para prejudicar o Partido dos Trabalhadores (PT). É o que quer fazer crer o secretário de Assuntos Institucionais do partido, Romênio Pereira, acusado de envolvimento com uma quadrilha que desviava verbas públicas. O modus operandi era o de sempre: mediante pagamento de propinas, o grupo intermediava a liberação de verbas federais destinadas a pouco mais de uma centena de municípios, quase todos em Minas Gerais. A fraude teria abrangido inclusive recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o principal programa de obras do governo Lula.

A armação, desvendada a partir da Operação João-de-Barro, deflagrada pela Polícia Federal (PF), vinha de longe. “O esquema, inicialmente montado com a participação de um número limitado de pessoas e empresas, cresceu em complexidade e organização”, constata o Ministério Público Federal. “Além de prefeitos e ex-prefeitos, suspeita-se da participação também de lobistas e de servidores ocupantes de cargos estratégicos na administração pública federal.” Pois bem. Apurou-se que um desses lobistas, João Carlos Carvalho, preso pela PF e apontado como um dos personagens centrais, se não o mais importante, dos ilícitos em série, tinha ligações com Romênio Pereira.

O dirigente, que se licenciou da Executiva Nacional petista por 60 dias para “poder exercer com tranqüilidade meu pleno direito de defesa” diante de acusações que assegura serem improcedentes, não nega ter mantido “diversos contatos” com Carvalho. “Mas nenhum deles para intermediar liberação de emendas ou de quaisquer outras verbas públicas.” Eles teriam sido apresentados por um prefeito petista há cerca de cinco anos. O fato é que, por solicitação da Procuradoria-Geral da República, que o investiga, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a quebra do seu sigilo fiscal, bancário e telefônico. No fim da semana, a revista IstoÉ informou que o levantamento será enviado ao STF em setembro.

Estranhamente, Romênio disse que não sabia que Carvalho era lobista. No ano passado eles se encontraram sete vezes. Na função de secretário de Assuntos Institucionais do PT, era o responsável pelo relacionamento do partido com prefeitos municipais. O secretário-geral da sigla, José Eduardo Martins Cardozo, considera “positivo”, como não poderia deixar de ser, o afastamento temporário pedido por Romênio - e, previsivelmente também, acha prematuro especular sobre a eventualidade de sua saída definitiva. A Executiva tinha marcado para amanhã uma reunião que trataria apenas da campanha eleitoral, mas decerto os seus membros não poderão ignorar o assunto.

Mais uma vez, afinal, um companheiro da cúpula partidária é citado numa devassa sobre atos reiterados de corrupção. Estes envolveriam desvios da ordem de R$ 700 milhões. A hipótese de que Romênio não tenha se beneficiado pessoalmente de qualquer das maracutaias identificadas pela Polícia Federal e o Ministério Público não atenua a nova crise petista. Ao que se sabe, tampouco os dirigentes processados no Supremo como integrantes da “organização criminosa” do mensalão, como José Genoino e Delúbio Soares, desviaram para suas contas alguma parte dos recursos usados para a compra de votos favoráveis ao governo na Câmara dos Deputados. Mas o escândalo ficou indelevelmente gravado na história do PT.

Agora, o risco de uma associação entre a sigla PAC e o termo “desvio de verbas” provoca desconforto no Palácio do Planalto, onde a única associação desejada - e em permanente construção - é a do programa com a sua condutora (ou “mãe”, como disse Lula), a ministra Dilma Rousseff, por enquanto o nome preferido pelo presidente para a sucessão de 2010. As suspeitas sobre Romênio Pereira, ao contrário do que ele diz, não foram concebidas com a intenção de prejudicar o PT nas eleições municipais. Mas é óbvio que vieram em má hora.

Evidentemente, o lulismo tratará o problema com panos quentes. No pior dos cenários, conforme o que as investigações trouxerem a público, fará o que sabe para circunscrever o estrago aos “erros” de um único protagonista, a ser sacrificado.

Virado à paulista


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Nessa altura não interessa mais de quem é a culpa: se do governador José Serra, ao planejar a eleição de prefeito sem um candidato com a marca do partido, mas ao molde do roteiro de sua campanha presidencial, ou se do antecessor, Geraldo Alckmin, ao atropelar o projeto e se impor ao PSDB como candidato do partido à Prefeitura de São Paulo.

Importa apenas o fato: de posse das duas máquinas, estadual e municipal, das melhores alianças partidárias (incluindo a captura do PMDB da área de influência do PT) e de uma adversária com alto grau de rejeição e baixa densidade político-eleitoral em sua coalizão, o PSDB constrói uma derrota.

Mas não uma derrota qualquer, daquelas normais, cujas conseqüências nefastas têm prazo de validade e volta por cima no cenário do amanhã.

Dessas, o presidente Luiz Inácio da Silva só em eleições presidenciais sofreu três. O governador José Serra outras tantas e a então prefeita Marta Suplicy uma especialmente impactante: em 2004 perdeu a reeleição para Serra que dois anos antes fora derrotado por Lula, que não conseguiu convencer o paulistano a dar o bis a Marta, que foi ao fundo, emergiu e hoje é líder absoluta nas pesquisas.

A derrota em construção não se limita ao resultado eleitoral. Este pode até virar, não se sabe. Ninguém está livre de um milagre, nem Geraldo Alckmin nem Gilberto Kassab. Ou de um imprevisto, nem Marta Suplicy.

O estrago bordado com esmero em São Paulo - com a participação de artesãos de fora - é de natureza política.

Isso ocorre quando o fracasso independe do resultado. A situação já se desenhava assim desde o começo, quando Marta patinava na largada, Kassab reunia uma vistosa aliança e Alckmin exibia patrimônio eleitoral suficiente para inibir qualquer movimento mais brusco do grupo do governador Serra para matar sua candidatura na marra.

Com a mudança de ventos e o registro da queda de Alckmin em duas pesquisas consecutivas, o quadro deu uma piorada considerável. Candidato oficial do PSDB, o ex-governador desceu do altar do bom-mocismo e partiu para o ataque direto à atual administração de São Paulo.

No programa eleitoral diz que sobra dinheiro e falta competência. Aponta carências de toda sorte: de vagas nas creches, nas escolas, de transporte púbico decente, de moradias, de hospitais, de médicos, de iluminação nas ruas, enfim, a cidade mostrada por Geraldo Alckmin é um horror em matéria de desmazelo e abandono.

Com isso, não ataca Kassab, um ex-deputado do DEM, vice deixado na cadeira por Serra para representá-lo na prefeitura toda montada à base de tucanos. Desde que assumiu a vaga, o substituto não deu um passo nem um pio em desacordo com a concepção de Serra, política e administrativamente falando.

Quando diz ao eleitor de 2008 que a Prefeitura de São Paulo é mal gerida, está informando ao eleitorado de 2010 no Brasil todo que o principal candidato de seu partido à Presidência da República é um mau gestor.

Um caminho que nem o PT nacional, adversário oficial na sucessão de Lula, havia ousado trilhar.

É difícil, embora seja possível, acreditar que a campanha de Geraldo Alckmin não tenha pensado em todas as conseqüências - entre elas a perda do papel da vítima - e atue nessa direção apenas por aflição eleitoral.

Seja qual for o fator, não altera o produto: um candidato a prefeito que se apresenta à disputa para afirmar a marca do partido e depois tenta se credenciar subtraindo credenciais do candidato a presidente do próprio partido.

Algo nunca visto nem no PT das memoráveis guerras de extermínio interno.

À beira

Quando a senadora Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente, optou pelos símbolos para transmitir sua insatisfação. Não se deu a maiores comentários nem sobre a versão da “assessoria” do Palácio do Planalto de que o presidente Lula teria interpretado o pedido de demissão como um ato deliberado para deixar o governo mal diante dos ambientalistas nacionais e internacionais.

Devagar, a senadora passa dos gestos às palavras. Ainda as escolhe como quem pisa sobre ovos, mas caminha obviamente na direção de uma abordagem menos sutil da questão.

Ontem, em seu artigo semanal na Folha de S. Paulo, Marina Silva aponta “sinais preocupantes” de que o governo patrocina retrocessos na política ambiental - contrariando compromisso assumido pelo presidente em maio - e acrescenta: “Para a sociedade será difícil aceitar mudanças na contramão do que foi dito há três meses”.

Súmula

Em matéria de reforma política, a professora Sandra Cavalcanti, signatária da Constituinte de 1988, disse o necessário numa frase de seu artigo de ontem no Estado: “O voto poderia ser facultativo e as promessas obrigatórias”.


O resto é enfeite.

O tucano órfão


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Atrevo-me a dar uma boa e uma má notícia para Geraldo Alckmin.A boa: ele não é o único candidato a sofrer uma vertiginosa mudança em apenas 30 dias, pouco mais ou pouco menos. Barack Obama também passou de uma vantagem de sete pontos sobre John McCain para uma desvantagem de cinco pontos, pelo menos de acordo com o instituto Zogby.

Como Obama é tudo o que se quiser, menos "picolé de chuchu", o apelido que José Simão tascou em Alckmin, o candidato tucano não tem (ainda) razões para cortar os pulsos. Se um candidato tão antichuchu pode tropeçar desse jeito, também pode acontecer com Alckmin ver uma desvantagem de 4 pontos (dentro da margem de erro) transformar-se em 17.

A má notícia: lida com lupa a pesquisa Datafolha publicada no domingo, verifica-se que não há propriamente uma gangorra Marta/ Alckmin/ Kassab entre uma pesquisa e outra, mas uma hemorragia na candidatura Alckmin.

Em algo menos de dois meses, Marta oscilou de 38% para 36% e para 41%. Do ponto de partida (38%, no início de julho), evoluiu na margem de erro.

Kassab idem. De 13% para 11%, e daí para 14%, é um ritmo normal.Alckmin não. Caiu oito pontos percentuais em um mês, fora da margem de erro e sem que tivesse havido qualquer evento que o fizesse sangrar. Não foi apanhado roubando as moedas amealhadas por um mendigo cego na porta da igreja, não esfaqueou a mulher ou a filha, nada que tivesse merecido atenção especial da mídia.

A lógica manda atribuir a hemorragia ao fato de que ficou exposta a orfandade de Alckmin. Nem o seu partido o apadrinha. Ao contrário, apunhala-o sem piedade e sem o menor pudor.Não está, pois, nas mãos de Alckmin o torniquete que poderia conter o sangramento.

Contração global de crédito


Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Toda crise financeira envolve uma fase de contração de crédito. Ela é precedida por uma fase inicial de expansão seguida de euforia; quando acontecem os excessos, temos a crise. O Fed e outros bancos centrais responderam rapidamente reduzindo a taxa de juros ou provendo liquidez abundante, de forma que não vamos assistir a uma sucessão de quebras de bancos como na crise de 1930. Entretanto, dada a magnitude dos prejuízos dos grandes bancos, é provável que, nesta crise, a contração de crédito seja profunda e prolongada.

A era de crédito abundante e de euforia, com a captação farta de recursos baratos via IPOs e emissões de dívida, chegou ao final. A contração de crédito e elevação da taxa de juros chegou também ao Brasil. Não por acaso, as empresas estrangeiras remeteram mais de US$ 18 bilhões para suas matrizes no primeiro semestre deste ano e a saída de recursos da Bolsa de Valores atingiu US$ 15 bilhões no mesmo período. Está havendo uma realocação de ativos de renda variável para renda fixa e depósitos bancários, além de mudança de atitude dos investidores estrangeiros. Busca-se liquidez - e a época de forte valorização de ativos e real superapreciado parece ter chegado ao fim.

Para se ter uma idéia da magnitude da contração de liquidez, basta lembrar que o FMI estima que os bancos e instituições de crédito terão um perda de capital próprio de cerca de US$ 1 trilhão. Isto implica uma contração da oferta de crédito da ordem de US$ 8 trilhões a US$ 10 trilhões. O que é possível também é que o Congresso americano venha a impor uma regulação mais restritiva e os órgãos oficiais, que supostamente deveriam ter supervisionado as instituições criadoras de crédito, venham a ter controle mais rigoroso. Desta forma, o início do novo ciclo de crescimento econômico, pós-crise, que demanda crédito abundante e novas formas de expansão, poderá ser mais demorado do que se imagina. Podemos esperar mudanças na forma de operação dos bancos e dos bancos de investimento, e tudo indica também que os fundos soberanos dos países emergentes e exportadores de petróleo, que detêm hoje recursos de mais de US$ 2,5 trilhões, terão uma papel importante no sistema financeiro internacional.

O superávit em transações correntes se reduz na China e, em contrapartida, o déficit em transações correntes nos Estados Unidos se contrai

O longo ciclo de forte expansão de liquidez global que agora chega ao final tinha três dimensões: forte expansão da liquidez do sistema financeiro (medido pela capacidade do sistema converter em liquidez imediata a riqueza nacional, isto é, a produção futura); expansão da liquidez monetária; e excesso de poupança dos países em rápido crescimento. Agora o ciclo se inverte e nas três dimensões a liquidez se contrai.

A primeira dimensão da liquidez do sistema financeiro teve profundo aumento em função dos socorros pelos governos às instituições em dificuldade/crise, introduzindo incentivo assimétrico à expansão de crédito (risco moral). Esta liquidez aumentou também em função da retração das autoridades reguladoras, das inovações financeiras e pela integração global dos mercados. Como vimos acima, este sistema entrou em profunda contração e deverá sofrer grande reestruturação.

A segunda dimensão da liquidez, a monetária, pode ser medida pela expansão dos diversos agregados monetários e de crédito, que aumentaram muito mais rapidamente do que o PIB nominal nos últimos 15 anos. Isto ocorreu em função da adoção da política de meta de inflação, que controla a taxa de juros, e não os agregados - estes passaram a ser determinados endogenamente. Com a crise financeira e o novo contexto inflacionário, os BCs estão ampliando o seu campo de preocupações e de ação e certamente controlarão com mais rigor o grau de alavancagem das instituições criadoras de crédito. Além disso, é importante lembrar que a fase de pressão deflacionária global parece ter chegado ao fim. Hoje existem pressões inflacionárias oriundas do excesso de demanda global de commodities. Há indicações de que o ajuste competitivo de preços dos manufaturados no mercado internacional começa a ser feito mais pela elevação de salários na China do que pela redução nos seus preços. Se isto for verdade, as atuais regras de política monetária de controle dos juros e expansão livre e endógena dos agregados monetários e de crédito terão que ser adaptadas para este novo contexto. Isto significa que a longa fase de expansão dos agregados monetários e de crédito acima do PIB nominal poderão chegar ao seu fim.

Finalmente, a terceira dimensão é o grande excesso de poupança, ou seja, de grandes superávits em transações correntes de alguns países emergentes. Este excesso de poupança em países de rápido crescimento ocorria porque as exportações cresciam muito mais do que o consumo doméstico. Nestes países, dado o subdesenvolvimento e o reduzido tamanho e profundidade do sistema financeiro, havia uma escassez de ativos financeiros com credibilidade e aceitação pelo mercado para os quais a poupança pudesse ser canalizada. Com a integração dos mercados financeiros, o excesso de poupança destes países foram canalizados para os mercados financeiros desenvolvidos e o excesso de liquidez local se transformou num excesso de liquidez global, com fortes pressões sobre os preço de ativos em escala global. Do lado real da economia, este fenômeno se traduziu na forte expansão econômica baseada no aumento do consumo e de investimento em novas residências pela economia americana e de alguns outros países, como a Espanha e Inglaterra. Este excesso de consumo destes países era a contrapartida do superávit de países com excesso de poupança como China.

Com o fim do "boom" imobiliário, a situação se reverteu. Nos Estados Unidos, o dólar se deprecia fortemente, as exportações começam a crescer - cerca de 23% nos últimos 12 meses -, enquanto a consumo tende a contrair. O contrário está ocorrendo na China. As suas exportações desaceleram 17% em dólar nos últimos 12 meses e 12% em yuan nos últimos três meses. Com isso, a expansão do consumo doméstico, agora, mantém o seu ritmo de crescimento. O excesso de poupança cai, isto é, o superávit em transações correntes se reduz na China e, em contrapartida, o déficit em transações correntes nos Estados Unidos se contrai.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras

Dilma e PSDB negociam agências


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O projeto que altera a Lei Geral das Agências Reguladoras, em tramitação na Câmara desde 2004, reuniu na última sexta-feira, no Palácio do Planalto, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP). O tucano quer ajudar o governo a aprovar o projeto. Se der, ainda neste ano. Já a ministra mostrou disposição de negociar inclusive temas polêmicos como a autonomia.

Essa foi a primeira conversa institucional entre a ministra da Casa Civil e o líder do PSDB. Dilma e Aníbal são amigos desde os 17 anos. Estiveram no exílio e conversam com alguma regularidade. O deputado é o primeiro líder do PSDB, nos últimos anos, que não assenta praça na candidatura de José Serra a presidente, enquanto Dilma, por outro lado, é a eventual candidata do PT à sucessão do presidente Lula.

O líder do PSDB descarta a existência de qualquer viés eleitoral futuro em suas conversas com a chefe da Casa Civil. Restringe sua visita ao Palácio do Planalto à necessidade de "montar uma agenda de qualidade" para votações na Câmara. Neste caso, nada melhor do que a Lei Geral das Agências Reguladoras, um assunto que divide tucanos e petistas, mas que é igualmente considerado pelos dois lados como decisão importante para alavancar a infra-estrutura do país.

O deputado lembra-se das Parcerias Público Privadas (PPPs), que, segundo afirma, "continuam encruadas, porque não se consegue atrair investimento em área nenhuma, pois as agências, penalizadas como estão, deixam de ser um instrumento confiável para fiscalização, a regulamentação, enfim, tudo aquilo que é necessário em matéria de atração de investimento, criação de segurança jurídica, etc".

Já o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está atrasado, sendo grande a defasagem do investimento previsto, o gasto autorizado e aquele que foi efetivamente autorizado.

Os tucanos têm um amplo diagnóstico sobre o projeto em tramitação na Câmara, um texto substitutivo ao do governo preparado pelo deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ). Uma de suas principais críticas à proposta é a retirada da autonomia, expressa no item que "transfere os atos de outorga atribuídos às Agências Reguladoras para os respectivos Ministérios a que estão vinculadas", conforme texto da assessoria técnica tucana. À exceção da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), que manteria, aprovado o projeto como está, o poder da outorga.

Governo se dispõe a discutir autonomia

A avaliação do PSDB é que o governo Lula deliberadamente tratou de fragilizar as agências reguladoras desde que assumiu em janeiro de 2003. Suas críticas às agências consideravam-nas responsáveis pelas tarifas aplicadas, pela inoperância na fiscalização e pela falta de investimentos nos diversos setores.

Os tucanos reconhecem a deficiência de fiscalização e de controle efetivo, mas culpam o PT: à época o partido ingressou com uma ação do Supremo Tribunal Federal (STF) que engessou a capacidade do governo Fernando Henrique Cardoso de realizar concursos para o provimento dos cargos criados.

"Se for possível avançar nessa área, vamos fazê-lo, por que não?", questiona o líder do PSDB, que tomou a iniciativa de pedir a audiência à ministra. "Se nós não tivermos agências que inspirem confiança, e tenham realmente a autonomia necessária para decidir fazendo uma triangulação entre os interesses do Estado, dos investidores e dos consumidores, projetos que podem sair pelas PPPs não sairão do papel, de jeito nenhum".

Foi com esse propósito que Aníbal assegura ter procurado Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil cuja interlocução política é hoje suprapartidária e bem maior do que no início do ano. É difícil prever no que vai dar suas conversas com os tucanos da Câmara sobre as agências reguladoras. A discussão tem um componente ideológico que parece ser difícil de ser superado por tucanos e petistas.

Aníbal saiu animado com a conversa de Dilma. Diz que a ministra concorda que as agências reguladoras precisam ter maior autonomia.

"Ela revelou disposição para fazer uma interlocução, um entendimento para o aprimoramento do projeto, que, aliás, está incluído no PAC". Talvez já na próxima semana o deputado leve um texto com as propostas do PSDB à ministra.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Amiga Graziela


Ivan Alves Filho
DEU EM GRAMSCI E O BRASIL


Graziela Melo. Crônicas, contos e poemas. Brasília: Editorial Abaré, 2008. 203p.

Não conheço gênero literário mais livre do que a crônica. Cabe tudo dentro dela. O pequeno ensaio. O tratado filosófico em miniatura. A prosa poética. A reminiscência. A conversa de papel. Se a crônica fosse um fenômeno da natureza — um animalzinho por exemplo —, seria sem dúvida um passarinho. Se fosse um doce, quindim de Iaiá, certamente. Desses que derretem no céu da boca, como os passarinhos se divertem no céu de verdade.

Há certas crônicas que merecem quase ser devoradas. As crônicas — e também os contos e a poesia — de Graziela Melo estão entre essas. Que livro prazeroso a minha amiga escreveu! Por vezes áspero, como quando se refere à prisão do marido Gilvan no Rio de Janeiro ou à morte do filho querido em Santiago do Chile, nos tempos do Companheiro Presidente, o nosso querido Salvador Allende. Mas... ó quão verdadeiras essas crônicas são! Quanta emoção elas nos passam! Como isso se tornou possível, eu me perguntei a certa altura do livro. Como?

Qual foi o segredo? E creio ter encontrado a resposta: Graziela transformou sua vida — e não somente sua escrita — em uma obra de arte. Mulher sensível, a minha amiga Graziela ama viver até quase o desespero, retirando poesia das coisas mais simples do nosso cotidiano, sentindo as dores e as alegrias do mundo como as dores e as alegrias do mundo são: parte integrante da aventura da vida que ela sabe enfrentar como ninguém.

A poesia, a crônica, o conto? Ouso dizer — eu que não sou crítico literário — que esses escritos nada mais são do que uma conseqüência dessa arte maior, que é o amor de Graziela pelas coisas do mundo.

Ou para me socorrer de uma expressão sua, amiga Graziela, esses escritos, de tão sinceros, ficarão para sempre alojados “nas desordens da minha alma, nos arquivos da minha memória”.

Ivan Alves Filho é historiador e autor, entre outros, de A pintura como conto de fadas.

A morte política da metrópole


José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /Aliás

Os municípios já tiveram seus grandes momentos na história política do Brasil. Por mais de 400 anos, o município foi o centro decisivo da vida política brasileira. Foi, durante esse longo tempo o embrião, ainda que mal acabado, de uma democracia no País porque constituía o baluarte de defesa da comuna contra o absolutismo monárquico, primeiro, a centralização do poder, depois, e, já combalido, os surtos autoritários da nossa mal traçada República. Nos séculos 16 e 17, as câmaras referiam-se, aliás, ao município, como república. É verdade que república oligárquica e conservadora, originalmente fundada na escravidão dos índios e dos negros e, portanto, nas desigualdades que interditavam os desiguais à participação política.

De vários modos, o instituto da inferioridade política dos simples vigorou até recentemente, abolido com a Constituição de 1988 e com a supressão da interdição do direito de voto aos analfabetos. A demorada extensão dos direitos de igualdade à totalidade dos brasileiros adultos e sua lenta incorporação à condição de cidadãos teve efeitos amplos, que se refletem tanto na vida política dos municípios, quanto dos estados e da União. Num certo sentido, essa ampliação democrática do direito de voto acabou com a República dos bacharéis e estendeu ao extremo as possibilidades da demagogia populista. Se houve progresso político com a ampliação da cidadania dos brasileiros que ganharam direito a voto, houve também um conseqüente retrocesso no estreitamento da mentalidade eleitoral. Pessoas que foram secularmente mantidas à margem dos direitos políticos e que ainda estão à margem de direitos econômicos e sociais, tiveram um crescimento político mutilado por essa deformação que, inevitavelmente, se reflete nas eleições por meio da transformação de carências não políticas em demandas políticas. Uma mediação social e eleitoral deformada pelo desencontro entre o social e o político preside a política brasileira.

Justamente nas eleições municipais os efeitos políticos dessa mutação são mais visíveis. A alma do município é a cidade e deveria ser, portanto, a urbanização e a revolução urbana. Isto é, a revolução no modo de vida dos moradores que lhes abrisse plenamente o acesso à civilidade possível, a cidade como conquista e direito, como demonstrou o sociólogo francês Henri Lefebvre, um dos maiores estudiosos das cidades. A cidade só o é como baluarte da civilização contra a barbárie, da riqueza de possibilidades sociais e culturais contra as limitações da pobreza do rústico e popular. A verdadeira cidade não é só um lugar em que se mora e se transita. É, sobretudo, um lugar em que o espírito da cultura vive em comunhão com o corpo do trabalho. A cidade é o espaço em que o homem se ergue acima do chão e da natureza, no urbanismo, na arquitetura, no estilo, no belo e no bom. Na vida cotidiana dos que na cidade vivem a cidade tem como cidadão o usuário, aquele que a usa compartilhando, o altruísta, contraposto à figura daquele que a consome, o predador, o especulador imobiliário, o egoísta. Na perspectiva desse modelo, nossas cidades, que cresceram em número, estão encolhendo, escapulindo da civilização em direção à barbárie. Em eleições como a deste ano, já fica evidente o bloqueio da utopia urbana pelas irracionalidades e absurdos que, infiltrando-se pelas eleições, chegam à política e dominam as cidades.

Se tomarmos como referência a história republicana da cidade de São Paulo, veremos, com desalento, que ela teve apenas dois prefeitos que representaram ousada e corajosamente a utopia urbana entre nós e em nome dela promoveram aqui a revolução urbana, Antônio da Silva Prado (de 1899 a 1911) e Francisco Prestes Maia (de 1938 a 1945; e de 1961 a 1965). É evidente que ao longo desse período, de pouco mais de um século, houve outros prefeitos que fizeram o que lhes coube na preservação e na implementação da revolução urbana de São Paulo.

Na administração Antônio Prado, a cidade caipira e de taipa, remanescente ainda dos tempos coloniais, foi praticamente demolida para dar lugar a uma cidade moderna e funcional, bonita e acolhedora. Se foi a cidade dos fazendeiros de café, que optaram nessa época por deixar a roça para morar e viver aqui, foi também a cidade do imigrante, aberta à pluralidade de línguas e costumes, a cidade aberta à diversidade e à criação cultural. Na administração Prestes Maia, São Paulo ganhou a infra-estrutura de metrópole, da cidade de massas, do alargamento dos grandes espaços públicos.

Para se compreender o que essas duas administrações representam em termos de civilidade, basta compará-las com administrações que deixaram como marcos os monumentos da catástrofe urbana: o Minhocão, a Praça Roosevelt, o tapete de concreto sobre o rio Tamanduateí, a Radial Leste, imensas cicatrizes de cirurgia plástica mal feita no rosto de uma cidade que já foi lindíssima e fascinante. Processo que culminou com a transformação do centro em periferia, na concepção minúscula e equivocada de que governar em nome do bem comum é anular as virtudes civilizatórias do centro, como lugar monumental das conquistas humanas, como síntese da utopia urbana, o centro que se expande ao expandir o sonho de um mundo possível, a cidade como lugar de viver e não como lugar de sofrer, como anúncio do novo e não como resíduo das misérias políticas de um país inteiro. Apenas nos últimos anos, na restituição à cidade da cara que já teve, na revitalização do que é antigo e já foi belo é que São Paulo começou a reconhecer de novo os sinais da revolução urbana possível. Utopia que não está visível na plataforma da maioria dos candidatos atuais. O que se complica quando examinamos as biografias e propósitos dos candidatos a vereador, no portal estadão.com.br: com óbvias exceções, um melancólico cenário de pobreza de perspectiva, de alienação em relação à cidade que querem governar, um triunfo da periferia contra a própria idéia de urbano e metrópole.

*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003; A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1069&portal=

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

"O RIO NÃO PRECISA DE UM PREFEITO PAU MANDADO"


ENTREVISTA: Fernando Gabeira
DEU NO JORNAL DO BRASIL, 24/8/2008


RIO - Fala mansa, sempre no mesmo tom, Fernando Gabeira chegou ao JB e abriu o jogo. Com um blazer sobre uma de suas camisas de tons coloridos, o sexto candidato à prefeitura do Rio sabatinado pelo jornal defendeu um projeto de longo prazo para a cidade, criticou a política de segurança do governador Sérgio Cabral, apesar de elogiar o secretário Beltrame, e disse que a grande questão da cidade, hoje, não é a legalização da maconha, bandeira que defendeu durante anos. Para ele, é preciso reformular a polícia, começando pela sua unificação. Entrevistado por Tales Faria, Marcos Troyjo, José Aparecido Miguel, Marcelo Ambrosio, Rodrigo de Almeida, André Balocco e Marcelo Gazzaneo, o candidato do Partido Verde, ao lado do seu vice, Luiz Paulo Correa da Rocha, do PSDB, falou ainda que a cidade precisa resolver pelo menos três questões para voltar aos áureos tempos: desordem urbana, violência e capacidade de liderança. “Estou pronto para este desafio”.

O senhor acha que será um bom prefeito?

Creio que sim, pois existem problemas do Rio hoje que demandam liderança como o combate à desordem urbana, a associação com outros órgão nacionais de combate à violência e também a atração de capital para um outro ciclo de desenvolvimento da cidade. Creio que é a proposta de uma administração transparente e voltada para metas, que estabeleçam também diálogo muito próximo com os investidores que querem se instalar no Rio. Combinar esses elementos à reorganização da cidade, à luta contra a desordem urbana, os altos níveis de violência a atração de capitais. O Rio ainda é a capital do conhecimento, da produção cultural, da tecnologia da comunicação, dos resseguros, do turismo. Tudo isso depende de liderança. Por exemplo, em Bogotá, isso aconteceu desta maneira. Por isso eu tenho condições, estou me cercando de gente tecnicamente muito boa, a começar pelo vice Luiz Paulo, que tem uma longa experiência como secretário de Obras, vice-governador, secretário de Transporte, com mestrado na área.

O que o senhor acha da crítica de ser o candidato da Zona Sul?

Saí de casa agora com alguém comentando que eu não podia subir favela, que não podia subir morro porque isso ia atrapalhar meu trabalho na Zona Sul. E eu tenho subido muito morro. Se a gente não sobe muito morro, nos acusam de ser candidato da Zona Sul. E todos moram na Zona Sul. Se a gente sobe muito morro, nos acusam de abandonar a Zona Sul. Na verdade, não faço nenhuma crítica a eles, eu apenas compreendo.

Quais morros o senhor já subiu?

Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Rocinha, Vidigal...

O senhor mapeou áreas onde é fraco eleitoralmente?

Não tenho dúvida. Mapeei a cidade e a área onde sou mais fraco é a Zona Oeste, onde o nível do conhecimento do meu trabalho é pequeno. A partir desta semana, irei mais à Zona Oeste e ao longo do trabalho da televisão também vão se discutir outros caminhos. É um pouco ilusório pensar que vamos subir 600 comunidades até a eleição. Vamos entrar efetivamente através da TV. Vamos estar na casa da pessoa, em todo lugar, porque não se pode subir o morro numa sexta à tarde, não tem ninguém, só crianças e pessoas que ficaram em casa. Para subir o morro efetivamente o melhor dia é sábado. Temos oito sábados e 600 morros. Como fazer? Subimos os mais simbólicos. Eu subi o mais perigoso, que é a Vila Cruzeiro.

Quais os caminhos para entrar na Zona Oeste?

Através dos aliados que já estão lá. Especificamente o Luiz Paulo que, quando trabalhou na região, contribuiu muito com obras de trânsito, duplicação de vias, pavimentação.

Depois dos candidatos governistas (Solange Amaral e Eduardo Paes), o senhor foi quem mais arrecadou, superando inclusive o senador Marcelo Crivella (PRB), que tem o apoio da Igreja Universal. Por que?

É difícil responder a uma pergunta destas sem fazer uma observação: porque há absoluta transparência. Eu registrei que esse seria um compromisso da minha campanha. Acho que consegui arrecadar o suficiente para financiar o programa de TV. Agora, não posso explicar por que eu arrecadei mais do que os outros.

O Rio está perdendo terreno na cultura para São Paulo?

Tanto o Seu Jorge quanto o Lobão e outros cariocas que estão, de uma certa maneira, exilados daqui por falta de oportunidade, quero trazê-los de volta. Tanto que, na quinta-feira (passada), terei um jantar em São Paulo com os cariocas que vivem lá. Eles querem voltar para o Rio.

Pode explicar melhor?

Vai ser um jantar grande, importante. Acho que, na medida em que transformamos o Rio na capital do conhecimento, na capital da produção cultural e que resolvemos alguns problemas evidentes como a desordem urbana e a violência, vamos criar condição para que essas pessoas voltem.

Como se faz isso na prática?

Estimular o crescimento da cidade, encontrar sua vocação, seu lugar no mundo, como em Barcelona, Bilbao. Para isso, temos que atrair investimentos na área de informática e de produção do conhecimento. Hoje perdemos muitas empresas, não só para São Paulo como para cidades próximas, porque nosso ISS é de 5%, quando outras oferecem 2%. Viajo muito com cariocas para São Paulo que têm empresas lá por causa do imposto. Além disso, os estímulos podem ser dados na construção de pólos de desenvolvimento. O primeiro deles é a recuperação do porto e do Centro. Não só Gamboa, Santo Cristo, Saúde, mas o centro do Rio, que tem cinco mil prédios vazios, muitos casarões abandonados que podem ser restaurados. E para isso a prefeitura tem um poder de estímulo enorme. Se você perdoa o IPTU atrasado para quem queira construir e transformá-los em prédios multiuso para a família e lojas, você estará achando o caminho.

O senhor falou desse encontro em São Paulo e no início da sua campanha teve apoio de Aécio Neves e José Serra. Não teme que ela fique só fora do Rio?

Não. Eu fui apenas uma vez a Belo Horizonte e vou agora a São Paulo. O Rio não é uma ilha. O símbolo do Rio está de braços abertos. E nós queremos transformar a cidade em uma nova capital, a capital do conhecimento. Para isso, temos que ser absolutamente abertos.

O senhor disse que votaria com sua consciência independentemente de partido. Isso seria infidelidade partidária?

Um dos problemas da política brasileira é exatamente não se votar com consciência, mas a partir de interesses materiais.

O senhor acha que muitos fazem isso?

Sempre afirmei isso, basta examinar, quando se tem uma votação importante, a liberação de emendas parlamentares. Ou examinar por outro ângulo, como, por exemplo, quanto eu recebi das minhas emendas parlamentares esse ano. Nada, zero (risos).

O Lula, na oposição, declarou que havia 300 picaretas no Congresso. O senhor concorda?

É muito difícil determinar cientificamente o Lula (risos).

Há uma dependência muito grande de estados e municípios em relação ao governo federal, o que gera dependência política. Certos estados só conseguem ganhos em funções de boas relações com o governo federal. Como romper isso? E suas relações com o governo, com o presidente Lula, em particular?

Concordo, de um modo geral, que a identidade política ajuda. Os números mostram que as cidade próximas ao governo recebem mais que as distantes politicamente. O primeiro ponto é que não se escolhe o prefeito pela proximidade apenas com o governo federal ou estadual. Não se pode pensar com o critério de general é presidente; coronel é governador e major é prefeito. O segundo ponto é que, hoje em dia, quando se produz conhecimento político e avança, é um pouco parecido com o avanço da própria ciência. Hoje a ciência não tem mais uma pessoa que entenda, hoje todo o trabalho de invenção é feito em rede. E a solução do nosso problema depende de uma rede entre a prefeitura, Estado e governo federal. A cidade não precisa de um pau mandado dos governos federal ou estadual para se sentir segura nesse processo. A segurança dela tem que ser obtida estratégicamente, tem que ter uma liderança e um caminho. As minhas relações com o governo, hoje, são tranquilas. E não estou no parlamento. Estou na campanha e acho que posso dialogar com o Lula tranqüilamente, assim como com o Sérgio Cabral. São pessoas que estão na luta há anos. Eu tenho 50 anos de luta política. Já viajei muito com o Lula, o conheço, assim como conheço o Cabral também. O fato de não concordarmos sobre uma série problemas não significa que não poderemos fazer juntos aquilo que é mais ou menos consensual.

O que o senhor acha da proposta de um governo de esquerda?

Interessante. Me dediquei a ela durante alguns anos, fui até às eleições de 2002 que consolidaram a vitória e em 2003 eu sai, mas eu não tenho saudades porque na verdade não se deve esquecer, quando, no processo em 2002, já tinha mais de uma década da queda do Muro de Berlim, e eu estava lá. Eu assisti a esse processo histórico. Eu sabia que certos projetos estavam historicamente condenados. No entanto, eu me desarmei das propostas. Eu não posso ter muita saudade porque, na verdade, foi um pouco de construção psicológica minha de achar que a saída era por ali.

Na Câmara, o senhor fez críticas à atuação do deputado Severino Cavalcanti, o que acabou marcando sua atuação parlamentar. Qual sua análise sobre o fato?

Brigar com o Severino não foi um episódio extraordinário porque eu já havia brigado com ele há muito tempo. A diferença daquela briga é que tinha televisão. As outras vezes ele veio me pedir voto e eu falei: "Eu não voto em você". Em vários momentos fiz críticas a ele, mas um crítica feita com ardor feita na televisão, com passagem no Brasil inteiro dá uma outra dimensão.

O Sérgio Cabral, surpreendentemente defendeu, assim que assumiu, a legalização da maconha. E o senhor, surpreendentemente parou de defender a legalização da maconha. Por que? Para conseguir voto?

Não. Meu filho ficou até um pouco triste comigo porque eu disse a ele que, como governador, não cabia ao Cabral, naquele momento, defender a legalização da maconha. Cabia sim reestruturar a polícia. E hoje eu digo também. Eu fui convidado a debater esse tema pelo governo Fernando Henrique. Fui a mais de 100 debates com José Elias Murad (ex-deputado) que tinham como finalidade esclarecer essa questão para o governo tomar uma posição. E hoje, olhando para trás, eu vejo que esses debates não foram tão frutíferos porque a questão no Brasil hoje, sobretudo no Rio, não é legalizar ou não legalizar. A questão é reorganizar a polícia porque com a polícia que temos hoje, com as falhas que ela tem, a gente não consegue nem reprimir e nem legalizar. Nos lugares onde houve a legalização, na Holanda, na Inglaterra, a legalização partiu de um conselho da polícia por achar que, analisando a eficiência dela de um modo geral, era possível dispensar esse tipo de repressão. E os lugares onde há a decisão de reprimir, se fortalece a polícia, como nos EUA. Aqui você não tem condições de realizar nem uma política nem outra enquanto não se reestruturar a polícia. Por isso, no momento, estou propondo essa ponte: lutar para que tenhamos uma boa polícia.

Legalizar sem resolver o problema da polícia pode ser pior?

Acho que tende a ser pior porque não dá para controlar os efeitos colaterais. Primeiro os efeitos sobre a saúde pública que podem vir; segundo o fato de a própria polícia estar presente neste processo; terceiro, que é fundamental, liberar uma forma de trabalho que no momento está ilegal e não há para ela uma colocação. Para onde essa força de trabalho vai se deslocar? Ela pode se deslocar para outro tipo de crime. Sem preparação, não dá para fazer.

O senhor acha que o Rio está no caminho para a estruturação da polícia?

Eu acho que o Beltrame é uma pessoa interessante, respeitada, mas o caminho demanda muito mais coragem. A existência de duas políticas é muito problemática. Tem que partir para uma idéia de unificação. E tem que partir com uma idéia também de avanço na investigação, na tecnologia, na informação, na inteligência porque o que nós estamos realizando agora me lembra um pouco o que os jordanianos faziam no Haiti antes de o Brasil entrar. De vez em quando tem uns confrontos esporádicos, mas a coisa continua. Esse tipo de trabalho de repressão esporádica não conduz a nada, a menos que se tenha contra a pirataria. Se prende algumas coisas, é uma amostragem, mas não é um trabalho consistente. Acredito que é preciso reestruturar e modernizar, citando experiências de Nova Iorque e Bogotá. Em Bogotá isso foi possível, em Nova Iorque isso foi possível. Não quero dizer que seja única forma, mas também a prefeitura tinha uma responsabilidade sobre a polícia. A PM que temos hoje foi criada para defender governadores. Foi criado em momento específico da história do Brasil e se desenvolveu sem treinamento e sem a capacidade adequada. Por exemplo, para ver o momento em que nós vivemos. Na Colômbia, as Forças Armadas libertaram a Ingrid Betancourt e mais 14 na selva sem disparar um tiro. Aqui a polícia, para defender uma senhora e duas crianças, dispara mais de 20 tiros e mata a criança. No Rio, hoje, 93% dos homicídios não são resolvidos. É trágico.

Como a prefeitura pode se engajar na segurança pública. Qual o modelo que o senhor pensa em relação a isso?

Estrategicamente temos que trazer a política para a prefeitura. Mas isso é muito longo. Eu acho que a polícia deveria ser municipalmente orientada, organizada e dirigida, mas isso é um processo longo. O que eu posso fazer agora é reequipar e retreinar a Guarda Municipal. Tem homens ali que foram treinados e educados à semelhança da PM, o que não se significa que esteja preparada para uma polícia metropolitana moderna. Então temos que reequipar a Guarda Municipal, retreinar, dar à Guarda Municipal equipamentos de comunicação adequados para que cada guarda municipal não esteja monitorando a cidade isoladamente. É preciso ter uma rede, a cada momento ligado com a central, receber informações de outro setor. Temos que construir um serviço de inteligência da prefeitura, usando as possibilidades que se tem, as câmeras, informações de que há equipamentos públicos quebrados. Vamos produzir informação para a polícia. Mas temos que tomar cuidado para informação ir à polícia certa, porque se der para a polícia errada, ela vai pegar essa informação e não vamos ter resultado.

Como será a integração com a PM?

No policiamento. Tem crescido muito o número de furtos e assaltos no Rio, em decorrência da ausência de polícia na rua. Em Bogotá, por exemplo, hoje andam em três. Então podemos ter um esquema em que se coordene a presença da Guarda Municipal e da polícia. E que eles estejam em sintonia, porque não tem sentido uma rivalidade entre eles.

Pode-se policiar através de câmeras espalhadas pela cidade?

Não só pode como deve. Temos que ter mais câmeras. Não é um Big Brother, não vamos devassar a intimidade de ninguém. Não tem outro caminho.

O senhor apoiaria essa alternativa na década de 80, 70?

Não poderia concordar porque a cidade não tinha chegado ao nível de degradação que chegou. O que eu era e o que eu fui durante esse período foi sempre ser uma pessoa fazendo propostas para uma realidade que eu via. Hoje a realidade do Rio é essa. Nós vivemos uma situação crítica. Fiz um mapa da ocupação armada do Rio e aí vemos que a cidade está territorialmente ocupada por grupos armados que não são do governo. Os meus filhos perdem celular e bicicleta constantemente em uma calçada. A realidade mudou. Eu não posso vir aqui hoje com um discurso libertário dos anos 70 e uma realidade de um Rio degradado e em uma crise profunda. É claro que a parte libertária dos anos 70 que há em mim é mesma parte de quando o Bush fez o ato patriótico e protestou contra a invasão de privacidade em desrespeito aos interesses individuais. Agora é possível fazer um policiamento. E é possível unificar o policial sem desrespeitar os direitos essenciais e sem invadir a privacidade de ninguém. A alternativa não é o libertário dos anos 70 voltando hoje. Pelo contrário, a alternativa é uma política policial moderna, que dê respostas aos problemas que vivemos hoje. Não tem sentido, eu não posso vir com uma política romântica numa cidade que está, a todo momento, se dilacerando em tiros.

Por que esta degradação?

O Cesar Maia teve, ao iniciar, uma disposição de abordar esses problemas e conseguiu alguns resultados que, no segundo mandato, a partir do meio do primeiro para o segundo mandato, acabaram neutralizados. O processo de degradação tem um fundo econômico grande, mas precisa ser controlado. Para começar, a questão do comércio irregular. Reconhecemos que as pessoas que vendem produtos na rua precisam sobreviver, mas com o tempo essas pessoas passaram a ser clientes de empresas que compram em grande escala, que vendem esse material. Então criou-se um processo em que se distingue a pessoa que vende na rua das empresas que as alimentam.

E o que fazer com esta mão de obra que perderá seu sustento?

Tem que negociar também com as pessoas que trabalham nas ruas, procurar caminho para elas e esse caminho é organização, um pouco mais de disciplina. Lá no Méier, e em Madureira, já há uma certa negociação em curso, uma certa convivência elaborada. Mas existem outros aspectos como a privatização do espaço público, que tem que ser enfrentada também. Existe desrespeito também às normas de convivência elementares, inúmeras pessoas fazendo xixi na rua. Isso também não pode continuar. Também há falta de banheiro público. Uma vez colocados, é feita uma campanha pedagógica. Acho que vale à pena reprimir também.

O Rio vem perdendo espaço para São paulo em vários aspectos, entre eles o cultural. Qual o papel que a cidade pode ter nesta área específica?

O Rio tem um papel cultural importantíssimo. Aqui há empresas como a Vale, a Petrobras, a própria Rede Globo com a sua produção cultural. São empresas importantíssimas. Acho que o Rio ainda tem um papel importante. Mas para continuar tendo um papel cultural, tem que avançar muito. Perdemos grande parte dos intelectuais que trabalham na área para São Paulo e outras cidades. Criadores e agentes de publicidade também, e não há razões para não ser no Rio. As melhores agências de publicidade do Brasil e seus criadores buscam um conjunto de atmosfera mais estimulante para a criatividade. Os clientes podem ser atendidos pela internet. O caminho é fazer com que o Rio seja um tambor cultural.

E o papel do atual prefeito?

Eu tenho a impressão de que não houve por parte do prefeito essa vontade de continuar. Eu acho que há também dificuldades financeiras na prefeitura, e essas dificuldades são muito explicitadas pela prioridade que se deu à Cidade da Música. A prefeitura tem um orçamento de R$ 11 bilhões, uma capacidade de investimentos de R$ 500 milhões. Só a Cidade da Música custou R$ 470 milhões. Levou a Cidade da Música e se tivesse feito o Guggenheim, a gente ainda estaria pagando (risos).

É uma miopia do prefeito ou ele virou as costas para cidade?

Essa pergunta é feita insistentemente por todo mundo. O que houve com Cesar Maia? Eu acho que, no momento em que ele perdeu o pé, comecei a duvidar não só da importância que ele dá à cidade, mas também da que ele dá à sua própria carreira política. No caso da dengue, por exemplo: não há uma autoridade mundial nessas circunstâncias que não expresse solidariedade e compaixão, que não vá aos postos, que não visite as pessoas, pelo menos na minha geração de políticos. Ele faltou a isso e ainda disse, de uma forma bastante irônica, na Bahia, que estava rogando ao Senhor do Bonfim para levar todos s mosquitos para o mar. Me pareceu ali que estava, de uma certa maneira, abandonando a idéia de ser político no Rio porque isso que implica também em ser respeitado e admirado. Agora, o que pode ter provocado isso nele? Existe um fator que vejo em governantes, uma espécie de desgaste de material, quando ele já está no final do segundo mandato. Acho que ele, de uma certa maneira, perdeu isso.

O senhor acha que ele desistiu?

Não que tenha desistido. Ele perdeu o entusiasmo em ser um grande prefeito e apenas toca o barco.

Isso aconteceu quando?

O Cesar no segundo mandato cometeu um erro grande ao ser eleito prefeito e declarar imediatamente que seria candidato à presidência da República. Deu às pessoas a impressão que estava usando apenas o segundo mandato como um trampolim. Ele poderia ter se redimido. Mas as circunstâncias ficaram mais difíceis também.

O que o verde Gabeira vai fazer em quatro anos?

Toda administração vai ser voltada também para uma questão de sustentabilidade. A idéia que a gente tem é não pensar o Rio apenas nos próximos quatro anos, mas também nos próximos 20 anos. Todas as cidades, até Indaiatuba, que ganhou agora o prêmio de melhor cidade no Índice de Desenvolvimento Humanos feito pela Firjan, se planeja para 20 anos. Nova Iorque está se planejando para 20 anos. Então eu acho que a primeira grande preocupação é a visão de sustentabilidade para os próximos anos e dentro disso há problemas que precisam ser resolvidos imediatamente. Por exemplo, a Baía de Guanabara. Li uma reportagem mostrando as 80 toneladas de lixo que estão flutuando nela diariamente. E a Baía de Guanabara, se você não tiver um processo de recuperação, acho que vai embora. Isso a prefeitura não pode fazer sozinha, mas deve-se investir num consórcio das prefeituras da Baía de Guanabara. Pode estimular o transporte, a ligação de Cocotá a Botafogo para o turista chegar e visitar a cidade. Podemos pensar na tão demandada linha de São Gonçalo à Praça 15. Podemos pensar em várias possibilidades de novos roteiros turísticos na própria Baía de Guanabara. Fui agora a Paquetá justamente com a intenção de levantar isso. Paquetá é uma ilha com quatro favelas. Também são importantes as lagoas da Baixada de Jacarepaguá, que seriam recuperadas para o Pan-Americano e não foram. E elas são importantes também para desenvolvermos um projeto da beleza brasileira. Podemos limpá-las, recuperá-las e navegá-las. Podemos ir de Sepetiba navegando até ali.

E o emissário na Barra, resolverá o problema?

Acho que o emissário precisa ser feito, mas precisa de tratamento. Normalmente, o problema não é ter o emissário, o problema é não jogar o esgoto in natura. Em quase todas as grandes baías do mundo há um tratamento quaternário, ele trata quatro vezes antes de jogar. Além disso, do ponto de vista ambiental, existe um problema de segurança que é a questão do reflorestamento dos morros. O Banco Mundial tem uma disponibilidade para isso e a gente tem que reflorestar. E além de reflorestar, precisamos também tratar diretamente da questão do esgoto, saneamento básico. A prefeitura, de certa maneira, precisa estimular esse processo que é também o maior problema ambiental: a coleta do lixo. O Rio hoje é uma cidade muito suja. A Avenida Rio Branco é varrida 12 vezes por dia e a gente tem que fazer campanhas para reduzir o lixo. Simultaneamente, tem que ter um Plano Diretor que oriente onde coletar, trabalhar esse lixo coletado. Temos que produzir usinas de energia com o lixo.

O reflorestamento dos morros do Rio passa pela contenção das favelas?

Passa.


E a desfavelização?

A desfavelização é um dos projetos para 20 anos. Ela vai se dar a partir da criação de pólos de desenvolvimento na cidade para que as pessoas possam se deslocar, trabalhar, morar e consumir numa área próxima. Então a gente tem que procurar os pólos de desenvolvimento que fazem parte do Plano Diretor, da emenda e da análise que nós fazemos do Plano Diretor. Com esses pólos de desenvolvimento, você pode progressivamente ir deslocando pessoas para casas construídas especificamente para eles.

O senhor tem como meta transferir alguma favela?

Acho que o trabalho inicial vai ser a definição dos ecolimites e tentar através de um entendimento com a população e de um monitoramento por satélite tentar evitar que cresçam foram dos ecolimites.

Como evitar isso se os ecolimites não foram respeitados?

Alguns foram respeitados, como os da Chácara do Céu. Eu mesmo participei da negociação há 10 anos. A Chácara do Céu não cresceu. O acordo é uma parte, a segunda é o monitoramento e a terceira, a negociação.

Segurança e favela são problemas conflitantes?

Não, mas a questão da segurança é fundamental. Ela é válida para o posto médico, para a escola. O Rio hoje tem umas 200 comunidades ocupadas militarmente. É preciso desocupa-las progressivamente junto com o Estado e a União. A maneira de você trabalhar a população é prestar serviço.

Nesse sentido o PAC não é um avanço?

O PAC é um avanço, mas não é ainda o avanço. O PAC ainda não prestou todos os serviços que prometeu. Há situações que foram objetos do PAC, mas que foram resolvidas. Temos por exemplo a Tavares Bastos, no Catete. A comunidade é totalmente tranqüila a ponto de o albergue de um inglês que visitei lá ser considerado o lugar mais seguro do Rio, e dentro de uma favela. Mas o que foi feito: sete meses de trabalho preliminar convencendo a população de que era melhor se relacionar com a sociedade organizada, com a lei, com a constituição, do que com os grupos armados. Em cada lugar um trabalho político, depois um trabalho de ocupação, depois um trabalho de permanência e prestação de serviços. Eu fui a Bel Air, no Haiti. Entrei lá pela primeira vez num tanque e com a proteção das Forças Armadas. Da segunda vez que eu fui, um ano depois, foi possível entrar a pé. Os soldados jogavam bola com os moradores. Então é possível. Aqui mesmo, quando nós fomos ao Batan, onde torturaram os repórteres de O Dia, nós voltamos lá agora e, já com uma mini inserção, criaram um posto de policiamento comunitário ao lado da associação de moradores.

Os policiais que moram por perto, passaram a trabalhar lá. Essa solução, em grande escala, significaria diminuir o policiamento da Zona Sul, porque os policiais em geral moram nos lugares piores. O que o senhor acha dessa solução?

Acho que a população não é assistida, pois na verdade a polícia não está lá, nem aqui. A polícia está na burocracia dos quartéis. Só o prefeito tem 170 PMs à disposição dele, os deputados estaduais têm, cada, dois PMS. E há outros na burocracia. Então não tem polícia na rua. É muito difícil ver polícia nas ruas.

O que o senhor acha de deixar o policial trabalhando na comunidade onde ele mora?

Adotaria a idéia em circunstâncias diferentes. Não usaria isso como uma norma, mas caso a caso. Há comunidades em que se a gente colocar lá o policial, pode ser morto; há outras em que ele pode se transformar em milícia. Então teremos que examinar caso a caso.

O senhor devolveria os PMs que trabalham para a prefeitura?

Eu gostaria de devolver pelo menos 150 imediatamente. Agora, com a promessa de que fossem para a rua ou então que eles pudessem trabalhar com a Guarda Municipal na rua. Com 150 já teria condições de melhorar a situação na Zona Sul.

O senhor falou em reforma da polícia. Como isso se daria?

É muito difícil trabalhar com a polícia e reformula-la ao mesmo tempo. É preciso também um plano B. Senão, quando você começa a mudar e encontra as primeiras resistências, não vai avançar porque daqui a pouco vai estar sem o mínimo preciso para segurar o Estado. Daí a necessidade de uma reforma na polícia que tenha uma retaguarda, como a Força Nacional e o Exército. Para não levar bola nas costas.

O senhor vai armar a Guarda Municipal?

Em alguns casos sim. Eu acho que a principal arma é comunicação. A segunda arma seriam as não letais, que têm mais eficácia do que os tiros, em muitos casos. Mas, naqueles lugares extremamente perigosos, em que você vai guardar o patrimônio municipal, teria que armá-los. Há um estudo que fiz na Guarda Municipal de Curitiba e há casos de pessoas que usam armas, mas fazem exames psicotécnicos permanentes. Então seriar armar nos casos específicos de proteção, ou então teremos que terceirizar uma empresa de segurança. Ao se colocar uma arma na mão de uma pessoa, é razoável que cheque permanentemente como vai a cabeça dela.

Mas isto vai custar dinheiro. Quanto?

É possível se colocarmos a gestão em termos de um SOS nacional, internacional. Não temos dinheiro para reestruturar, mas podemos ter uma cooperação nacional na Polícia Federal, do próprio Exército. Então, através do processo de cooperação e de convencimento da própria iniciativa privada, de que vai ser importante para ela, temos condições de pensar esse trabalho. Se pensarmos em termos de orçamento, nas circunstâncias de hoje, é muito difícil. Mas em uma circunstância modificada com uma proposta vitoriosa de reorganização da cidade.

O senhor se disse contra a vinda de tropas para garantir a eleição. Por que?

Isso é o que dizem os jornais. O que eu disse foi o seguinte: sou favorável à vinda das Forças Nacionais e do Exército para proteger a cidade. Agora, eu acho que para proteger o candidato que sobe o morro é ineficaz, porque subir o morro com forças federais, ninguém vai te cumprimentar. E se cumprimentar, quando você voltar ela vai ficar sujeita às mesmas forças que dominam o morro. Eu sou favorável a qualquer elemento que aumente a proteção da cidade.

Como combater o narcotráfico nas favelas?

Uma forma é entrarmos lá e dizermos que a cidade existe. O prefeito, o candidato a prefeito está aqui para ver que nós somos ligados. Agora os candidatos não conseguem vencer os grupos armados, como os que encontrei na Vila Cruzeiro. Não temos condições de vencê-los. O processo de combate tem que ser um projeto, não pode ser apenas durante o período eleitoral. Tem que ser um projeto. Tem que definir: vamos libertar a cidade, já que ela está militarmente ocupada. Vamos começar por onde? Quantos vamos fazer por ano? Como vamos empregar as forças? Isso é um projeto de libertação da cidade. Com a cidade ocupada militarmente, não tem projeto de libertação. E as pessoas achando que está tudo bem.

A favelização da Zona Sul passa pela questão dos transportes?

Claro.

O senhor tem algum projeto para isso?

Houve um acordo dos donos de ônibus com os políticos. O que nós vamos fazer é reestruturar o sistema e encaminhar o mais rapidamente possível o bilhete único, que já é uma realidade em muitas cidades do Brasil. Com a estrutura que crie o bilhete único já resolvemos isso. As pessoas negam onde moram porque têm medo de o patrão não contratar, porque sabem que o preço é muito alto. Paquetá, por exemplo, paga-se R$ 4,50 na barca. Se o cidadão pegar algum ônibus, R$ 5 reais. Então vai dar R$ 290 só de transporte para trabalhar no Rio. Não dá. Nós viajamos com uma moça da Pavuna e ela disse que gastava R$ 9,40 por dia de condução. Isso é absolutamente irreal se comparado com São Paulo ou Curitiba.

O senhor pretende quebrar esta lógica da relação entre políticos e empresários?

Pretendo, com prazer. Não se faz um omelete sem quebrar os ovos. Não é com todo mundo cantando Cidade Maravilhosa que as coisas vão melhorar. A gente vai ter que encarar.

Onde mais o senhor pretende quebrar a lógica?

Na ordem pública. A experiência de Bogotá mostra. Existe um processo pedagógico importante. Se temos um governo de autoridade, um governo que transmita confiança às pessoas, temos delas um comportamento diferente. Mas há uma situação em que às vezes deve-se intervir e acho que é na ordem urbana. Não se pode bloquear a rua com um sinal luminoso aberto. Isso acontece muito no Rio. Em São Paulo, não.

O Eduardo Paes fala em criar uma secretaria da ordem pública. O senhor pensa nisso?

Temos muitas secretarias, às vezes com duas pessoas e um computador. Acho que é preciso criar um núcleo, estabelecer o trabalho. Se demandar uma secretaria, tudo bem, mas pode ser um núcleo. É muito mais informal, menos pesado que uma secretaria, que exige a nomeação de secretário, equipamento e corremos o risco de cair na burocracia e não resolver o que é preciso.

O que o senhor vai fazer com a Cidade da Música?

Nem sempre os pólos culturais se fazem pela sua vontade, às vezes se fazem até contra a vontade do governante, como a Lapa. Transformou-se num pólo cultural porque as pessoas queriam. A dificuldade da Cidade da Música é que, além de ter colocado R$ 470 milhões, vai se gastar R$ 1 milhão na manutenção. Imagina um parceiro, aquele cara que quer a concessão ou que se dispõe a comprar, sabendo que terá um gasto de R$ 1 milhão por mês. Ele vai ficar numa situação muito confortável (risos)... Vai deixar que eles fiquem numa situação muito difícil para depois fazer a oferta. Acho que tem que partir já para uma idéia de concessão, a mesma idéia que dei para o Aeroporto do Galeão (Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador). Tanto o aeroporto quando a Cidade da Música têm dinheiro enterrado ali. A Cidade da Música tem R$ 470 milhões e o aeroporto R$ 3 bilhões no Galeão 1 e no Galeão 2. Como poder público, não podemos perder esse dinheiro, mas pode-se ter um entendimento de que as empresas os explorem por um certo tempo e façam aquilo que precisa ser feito: reforma. Ainda acho difícil achar um interessado na Cidade da Música. Tem que achar um projeto que possa realmente buscar um interessado. Foi um caso de prioridade equivocada.

Ela pode ser um pólo cultural?

Teoricamente sim. Mas os pólos culturais têm muito de espontâneos. Tenho uma visão de pólo cultural em Guaratiba, com plantas ornamentais. É a cultura das plantas, que tem 49 produtores. Para desenvolver um pólo é preciso achar a vocação ou o movimento que está em curso. Confesso que, até agora, considero a Cidade da Música um elefante branco. Temos que achar uma solução.

As pesquisas indicam queda na intenção de votos do senhor. Seu programa eleitoral pode mudar este quadro?

É muito difícil atribuir alguma coisa ao Ibope. A única coisa que digo é que acredito em pesquisa e acredito que tudo muda. As nossas pesquisas, de outros institutos, não concordam com isso. Não existe nenhum candidato que perde metade da sua preferência em duas semanas sem que haja nenhum fato político, mas nós perdemos os nossos. E reconhecemos muito bem os acordos que se fazem em torno de pesquisas no Brasil.

O senhor quer dizer que existem pesquisas compradas?

Pesquisa comprada é um termo muito forte. Mas acho que valeria a pena, já que você são jornalistas, perguntar ao Ibope se eles atendem a algum candidato. Eu não sei, pode ser que eles falem (risos).

Para quem?

Ele faz para o PMDB. Acho que pode ter havido alguma generosidade na margem de erro. Não adianta atacar um instituto de pesquisa.

O senhor acha que vai ganhar?

Acho. Eu tenho um entusiasmo pela missão, mas tenho uma noção muito clara da gravidade dela. O nível de demanda é muito grande e de coisas elementares. Quando se sobe o morro, vê-se que muitas casas estão caindo e vão cair. Muitas querem água e não têm água; é uma demanda muito grande. Para você vencer as eleições tem que ter a noção clara de missão; a segunda é você ter uma tranqüilidade para não se culpar pelo fato de que tudo não está sendo resolvido ao mesmo tempo porque é um nível de demanda muito grande, a cidade precisa enormemente de alguém que a leve a sério, que a respeite.

Há a necessidade de correlação de forças no segundo turno?

Se não sobreviver, eu acho que é um princípio, é um acordo. Eu acho que a população majoritariamente vai negar o uso político da máquina porque ela já conhece que isso é semente da corrupção e da incompetência. Toda questão administrativa eu estou tentando fortalecer através do espírito pessoal e de me cercar de pessoas capazes. Eu estou me preparando para liderar técnicos, mas para isso eu não posso conhecer os problemas que estão em curso.

O senhor tem idéia de qual será seu adversário no segundo turno?

Não tenho idéia. O segundo turno para mim é uma incógnita.

Não tem idéia, nem preferência?

Preferência eu posso ter, mas idéias não. O que nós chamamos de eleição no Rio foi um processo mediado pelos jornais. A visão que cada tem do que o candidato fez na campanha é a visão que os jornais transmitiram. No meu caso eu tenho ainda a internet e uso a internet. A partir de agora, os eleitores também vão ter a visão também que os candidatos apresentam na televisão, então torna-se uma eleição mais ampla. Acho que agora fica um pouco mais claro o que cada um quer. Os jornais, pela minha observação, tiveram dificuldades de cobrir essa campanha do jeito que era necessário. Parte porque estamos em cima das Olimpíadas, era preciso também canalizar força para as Olimpíadas, e parte porque são muitos candidatos também. Como cobrir 12 candidatos num momento de Olimpíadas? É muito difícil. Os jornais fizeram todo o possível para que a pré-campanha fosse bem coberta, mas agora surge o momento para que se tenha uma idéia: quem é o seu candidato, o que ele está propondo, como saber qual é a prioridade clara da pessoa se ela não se assiste aos programas de televisão, os processos em curso? Acho que existe uma possibilidade de mudança muito grande e isso deve definir o segundo turno.

De 1986 a 2008 passaram-se 22 anos. Foi sua última tentativa de ir para o executivo. O que mudou de lá para cá?

A defesa da legalização da maconha é inoportuna, no momento. O sonho nunca acaba, mas muda de forma. Quando eu saí do PT disse que sonhei o sonho errado. Não devia ter sonhado. Eu acho o seguinte, de 86 para cá mudou muito a cidade, mudou muito o país. Em 86 havia uma esperança na classe média de transformações, que o processo democrático estava prometendo. A classe média estava mais esperançosa. E o processo democrático se consolidou, mas deixou muita decepção no caminho. Nós conseguimos uma política econômica internacionalmente respeitável, no governo Fernando Henrique. Conseguimos uma política social de grande vulto, com o governo Lula. Pode criticá-la pelo fato de não ter muitas portas de saída. As relações políticas se deterioraram de uma forma tal, que hoje as crenças são muito menores do que era naquela época. Houve um desencanto com os líderes políticos do país.

O PT tem uma certa culpa nisso?

Acho que sim, porque o PT significava esperança. A esperança de um ajuste político no país. O PT significava a esperança de uma outra política econômica. Felizmente eles erraram, porque essa é melhor. O PT significava a esperança de uma grande política social, que veio, embora não tenha cuidado tanto da porta de saída. Mas o PT significava também a mudança das relações políticas. Não aconteceu, pelo contrário. Por não ter acontecido, as pessoas acharam que não há mais esperança e que o processo político tende a deteriorar progressivamente.

O senhor concorda com isso?

Não. Não só não concordo, como eu estou lutando contra isso. Eu não acho possível uma reforma política no Congresso brasileiro, porque teremos que mobilizar pessoas com uma posição majoritária, contra seus próprios interesses. Então o caminho é tentar através da metrópole, através de uma experiência no executivo, tentar um caminho que é o relacionamento entre o executivo e o legislativo. E qual é esse caminho novo? É chamar o vereador, receber o parlamentar. Quero mostrar a eles que não precisam perder o voto deles. Quero uma proposta orçamentária que vai envolver as necessidades e vai abastecer os bairros de acordo com seus problemas. Se experimentarmos isso tudo, será possível em 2010 fazer a reforma política. Eu participei do processo de redemocratização. Acompanhei de perto e não sou candidato a prefeito para fazer nome e aparecer em jornal. Acho que eu estou vivendo algo muito importante. Se realizarmos este trabalho, se colocarmos a idéia de que a política pode ser reestabelecida num contexto em que já se tem uma política econômica e social estabelecida, colocamos a democracia brasileira num rumo de um país mais avançado. Essa é a minha esperança.

É pensar nacionalmente e agir regionalmente?

É mais ou menos isso. Porque esta é uma questão da América Latina. Nós tivemos experiências muito diversificadas no continente. Eu acho que no Brasil e no Chile, não temos mais chance de retorno a esse tipo de governo militar. Mesmo na Argentina eu acho muito difícil. Acho que o processo democrático do Brasil está consolidado, o que não significa que estou satisfeito com ele.

Sobre a questão de saúde. Tivemos uma grande epidemia de dengue. O senhor tem algum projeto?

A epidemia de dengue mostrou uma grande fragilidade no sistema de saúde do município e essa fragilidade mostrou que o sistema está de perna para o ar. O que quer dizer que não tem assistência onde as pessoas moram e os hospitais ficam abarrotados de pessoas, procurando ajuda. A ponto de perdermos mais gente do que perderíamos numa epidemia e que as pessoas sofrem mais que o suportável. Por que isso? Não tinha gente pra diagnosticar. As pessoas esperavam oito horas na porta para tomar um Tylenol.

É uma questão de gestão?

Primeiro é uma questão de decisão política, de avançar nos postos de saúde e ter uma cobertura maior no programa de saúde da família. Depois uma questão de gestão. É preciso informatizar os hospitais municipais e colocá-los em contato entre si, o que não existe hoje em dia, com um prefeito altamente informatizado como indivíduo, mas que é de uma administração muito pobre. Além disso é preciso ter uma visão de gestão que articule a região metropolitana. Grande parte dos problemas de saúde que temos são decorrentes da falta de aparelhamento de cidades próximas. Todo o equipamento médico social está concentrado no centro da Zona Sul. Na Zona Oeste temos muito pouco e em Duque de Caxias e Nova Iguaçu também, por isso as pessoas vem pra cá. Eu percorri três hospitais e fui às emergências. Não tinha uma pessoa em caso de emergência. Todas poderiam ser tratadas perto de suas casas.

Temos que articular com os prefeitos de outros municípios até porque temos muita população de rua em Ipanema, Copacabana que não são nem do Rio de Janeiro. Não adianta colocar a população de rua num abrigo para eles fugirem no dia seguinte. Essa política não deu certo. Da mesma forma com as crianças. Curitiba e São Paulo, já resolveram parcialmente esse problema de crianças na rua. Em São Paulo eu vi o processo que achei muito interessante, que era a colocação de educadores na rua. Os próprios educadores convivem com as crianças e através dessa convivência eles vão progressivamente tirando as crianças da rua, na medida do possível. No caso dos moradores de rua, leva-se e o morador toma um banho e começa um trabalho com ele, para ver que tipo de reinserção é possível na sociedade, porque apenas colocar em abrigos não tem dado certo. Quando se tratar de pessoas que vieram de outras cidades, temos como pedir para o prefeito da cidade uma solução conjunta.

A educação integral é um dos seus projeto?

A premissa do Brizola de quanto mais tempo a criança ficar na escola, mais ela aprende, não é correta. Nós pretendemos aumentar o tempo da criança na escola e pretendemos aumentar de uma forma mais equilibrada, não apenas com um Ciep com tempo integral e outros tantos não. Hoje uma análise que fazemos mostra que na escola pública estudam 175 dias por ano, na particular 200 dias por ano. Então o nosso objetivo é ter uma escola pública com o mesmo número de horas de uma escola particular. Para isso nós não podemos ameaçar o tempo de formação e avaliação dos professores, temos que tentar uma atração de estudantes de pedagogia que possam cumprir alguns períodos. Atividade na escola também é de educação física, atividades recreativas e culturais que não dependem exclusivamente do professor. Vamos utilizar o trabalho das explicadores, que eu tenho encontrado nas comunidades. Elas têm alguns livros, gostam de ensinar e ajudam os meninos com os deveres e explicam o que eles não aprenderam direito na escola. Elas serão uma espécie de professores de família.

As perguntas dos internautas

Com o senhor como prefeito, não correríamos o risco de perder um ótimo parlamentar e ganharmos um prefeito que teria dificuldades de conviver com o jogo pesado do “é dando que se recebe”? – José Carlos (RJ)

Isso já existe no parlamento. Acho que na condição de deputado do Rio de Janeiro, eu me sinto responsável para buscar uma solução para esse problema. E até o limite da minha capacidade de parlamentar, eu tenho buscado também o convívio com administradores e a busca de uma equipe com alta qualidade técnica, então acho que minha idéia é ir de bom parlamentar para ser um bom prefeito.

Como o senhor vai resolver o problema do aterro sanitário de Gramacho? – Miriam (Rio)

O problema do aterro de Gramacho precisa ser resolvido, mas buscando uma saída, precisamos saber onde colocar o lixo. Já temos em Nova Iguaçu uma pequena capacidade que pode atenuar essa concentração em Gramacho e isso também é um projeto que está em discussão. Não aprovamos da maneira como foi feito e acho que a sociedade vai discutir o que se faz, do ponto de vista de uma redução. Acho que a super utilização de Gramacho está chegando ao limite, o que dá uma margem de manobra de um ou dois anos para acharmos uma solução.

O senhor é a favor da tolerância zero para acabar com a violência? – Cláudio Vaz (Rio)

Eu acho que é necessário que todos os caminhos sejam tomados para reduzir a violência, mas não a partir da idéia de que bandido bom é bandido morto.

O senhor, por ter sido usuário de drogas, se sente um pouco culpado por essa violência do Rio? – Maurício Coelho (Rio)

Não me sinto culpado. Eu contribuo para que a violência seja diminuída. Eu não aceito essa afirmação de que eu fui usuário de drogas. Em determinado momento eu posso ter experimentado drogas em outros países, não aceitas aqui. Se dissesse que não experimentei estaria mentindo, mas no Brasil não.

O que o senhor poderia fazer para melhorar os terminais rodoviários da cidade? – Marcos Sena (Rio)

Nós não tínhamos nenhum plano específico para os terminais rodoviários. Evidentemente que se você recuperar o Centro e o porto do Rio, você terá que incluir os terminais. Os terminais têm que ser visto do ponto de vista da recuperação do Centro. Tem o problema da perimetral, porque o Rio é uma cidade costeira e a perimetral afastou a cidade do mar. Temos várias soluções. Uma mais complexa que é reconstruir tudo e tem uma solução mais barata que é de adaptar para atenuar esse impasse de separação do mar. Estou solicitando sugestões de uma associação internacional de cidades costeiras, para ver se tem projetos de ajuda específica de reencontrar o mar, porque não é inteligente separar o Rio do mar. Tem que mostrar que todas as possibilidades para o mar estão abertas.

Quais são os planos do senhor para o tratamento de esgoto? – Alexandre (Rio)

Estamos fazendo um plano diretor dos depósitos de resíduos sólidos. Precisamos ampliar a coleta, estimular a reciclagem e fazer das principais usinas, não usinas de lixo, mas usinas de produção de energia a partir do lixo.