quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Na onda Gabeira é Stepan vereador



Estamos na reta final das eleições. Para prefeito já optei, faz tempo, pela onda Gabeira, nº 43.


Mas é preciso lembrar a necessidade de eleger uma boa bancada de vereadores, ética, democrática, independente da filiação partidária.


Entre os vários candidatos minha opção de voto é para Stepan Nercessian, nº 23123.

A onda Gabeira: Eleições 2008 / Rio de Janeiro: Crivella e Gabeira disputam vaga no 2º turno


DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Paes lidera com 29%; Gabeira cresce seis pontos em duas semanas e chega a 17%; Crivella oscila para um ponto para cima e vai a 19%


Em simulações de 2º turno, candidato peemedebista vence adversários de PRB, PC do B e PV; disputa mais apertada é contra Jandira

Às vésperas do fim da campanha pela Prefeitura do Rio, pesquisa Datafolha mostra o candidato do PMDB, Eduardo Paes, na liderança com 29% das intenções de voto -dez pontos a mais que o adversário mais próximo- e registra um acirramento na disputa por uma vaga no segundo turno contra ele.

Marcelo Crivella (PRB) oscilou positivamente um ponto, atingindo 19%, contra 17% de Fernando Gabeira (PV), que oscilou positivamente dois pontos em relação à pesquisa anterior, acumulando crescimento de seis pontos nas duas últimas semanas. Jandira Feghali (PC do B) oscilou negativamente um ponto, passando de 13% para 12% dos votos.

Como a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, Crivella pode ter entre 16% e 22%, Gabeira, entre 14% e 20%, e Jandira, entre 9% e 15%. Assim, o candidato do PRB está tecnicamente empatado com o do PV, que está tecnicamente empatado com a candidata do PC do B, mas Jandira não tem chances estatísticas de estar no mesmo patamar de Crivella.

Em um bloco bem mais abaixo, aparecem Solange Amaral (DEM) com 5%, Alessandro Molon (PT) com 4%, Chico Alencar (PSOL), 2%, e Paulo Ramos (PDT), 1%. Os demais postulantes à prefeitura obtiveram menos de 1% das menções dos entrevistados.

Nas três simulações de segundo turno em que está envolvido, Eduardo Paes lidera. Pela primeira vez, o Datafolha realizou uma simulação entre os candidatos do PMDB e do PV. Paes venceria Gabeira por 53% a 33%, uma diferença de 20 pontos percentuais. O confronto mais apertado na simulação de segundo turno seria contra Jandira, com uma vantagem do peemedebista de 14 pontos (51% a 37%). Na disputa contra Crivella, Paes vence por 58% a 29%, diferença de 29 pontos.

Considerando-se apenas os votos válidos (quando são retirados da conta os votos em branco ou nulo), Paes tem 33%, Crivella, 21%, Gabeira, 19% e Jandira, 13%. A divulgação oficial dos resultados eleitorais é feita por meio de votos válidos.

Entre o eleitorado de maior renda, Gabeira disparou em primeiro, com 14 pontos à frente de Paes. O candidato do PV atinge 41% dos votos contra 27% do peemedebista. Nessa faixa, com eleitores com renda superior a dez salários mínimos, Jandira tem 13% e Crivella, apenas 4%. Na faixa dos que ganham até dois mínimos, Paes tem 32%; Crivella, 31%; Jandira, 12%, e Gabeira atinge 9%.

O contraste se repete na avaliação dos eleitores por nível de escolaridade. Entre os que têm nível superior, Gabeira atinge 35% contra 31% de Paes, 14% de Jandira e 7% de Crivella. Entre os que têm só ensino fundamental, Paes chega a 34%, contra 28% de Crivella, 14% de Jandira e 7% de Gabeira.

Sobras de campanha


Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo
Com Guilherme Queiroz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE



Cardeais do PSDB e do DEM já marcaram um encontro segunda-feira, em São Paulo, para juntar os cacos do quebra-pau entre o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que se digladiam ferozmente por uma vaga no segundo turno. Os governadores tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) ficarão de fora da conversa, que deve reunir os presidentes das duas legendas, o deputado Rodrigo Maia (DEM) e o senador Sérgio Guerra (PSDB), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-senador Jorge Bornhausen.

O tempo é curto para administrar o estrago causado pelo confronto entre Kassab e Alckmin, mas na avaliação dos caciques a aliança entre as duas legendas precisa ser mantida a qualquer preço, não importa quem vai para o segundo turno. Se Marta Suplicy (PT) virar o primeiro turno com mais de 35% dos votos, terá grande chance de voltar à prefeitura paulista.
Estrelas

Já foram contabilizados mais de 10 mil votos no Prêmio Congresso em Foco. No Senado, quem dispara na frente é Alvaro Dias (PSDB/PR). Na Câmara, a disputa está acirrada entre os deputados Fernando Gabeira (PV/RJ) e Gustavo Fruet (PSDB/PR). Na bancada de Brasília, destacam-se o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB) e o senador Cristovam Buarque (PDT). A entrega dos troféus será em 1º de dezembro.

Transparência

A Secretaria de Saúde abriu suas contas na internet, por ordem do secretário Augusto Carvalho (PPS). No link Contas da Saúde (www.saude.df.gov.br), é possível ver como está sendo gasto cada centavo do orçamento da pasta. O anúncio oficial será amanhã.


Cabeceira

Quem está se dando bem com a guerra entre Alckmin e Serra é o chefe da Casa Civil do governo de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), que opera ostensivamente a favor de Kassab. Egresso do PMDB, já taxia em direção à pista para ser candidato ao Palácio dos Bandeirantes, caso o governador paulista deixe o cargo e concorra à presidência da República.

Selva

Apenas três superintendentes da Polícia Federal da gestão de Paulo Lacerda, diretor afastado da Abin, mantêm-se na atual administração da corporação: Anderson Ruy Fontel, do Amapá, Valdinho Jacinto, do Rio de Janeiro, e Elci Teixeira, do Paraná. Sobreviverão por pouco tempo, pois completarão dois anos nos cargos em breve.

Média

O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Walton Alencar, anda empenhado em aproximar a Corte do Palácio do Planalto. Ele aguarda o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para marcar um jantar com os nove ministros do TCU. Lula se queixa do tribunal por causa das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

No cafezinho

Volta/ Recomeçou na bancada do PMDB a romaria para convencer o ex-presidente José Sarney (foto) a aceitar o “sacrifício” de voltar à presidência do Senado. A maioria avalia que é o único nome da bancada capaz de deslocar o senador Tião Viana (PT-AC) sem provocar a ira do presidente Lula, nem desestabilizar a candidatura do deputado Michel Temer (PMDB-SP) à presidência da Câmara dos Deputados.

Fênix/ O ex-governador e ex-senador Joaquim Roriz (PMDB) trocou os leilões de gado pela campanha no Entorno. Subiu em palanques dos aliados goianos de Planaltina, Cristalina e Santo Antônio do Descoberto.

Confisco/ A Frente Nacional de Combate ao Trabalho Escravo colhe assinaturas para pedir ao presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que insira a PEC 438/01 na pauta de votações. A proposta prevê o confisco de terras onde for constatado trabalho escravo. O pedido será entregue em 17 de outubro, Dia Nacional de Mobilização contra o Trabalho Escravo.

Vizinho/ O governador José Roberto Arruda (DEM) tem conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a liberação de recursos para o Entorno. Os repasses têm saído a um ritmo menor durante o período eleitoral. Na última sexta-feira, Arruda interrompeu uma visita a Planaltina para ir ao Palácio do Planalto, convocado por Lula para tratar do assunto.

Vaga/ O DEM já se movimenta para substituir o senador Efraim Morais (PB) na primeira-secretaria do Senado. O senador Adelmir Santana(DF) cabala votos na bancada.

Candidatura impertinente


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


As eleições em São Paulo têm a fama, forjada em séries históricas de pesquisas, de apresentarem mínimas mudanças na última semana de campanha. São oscilações marginais. Mantida esta característica, dificilmente o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) superará a margem que Gilberto Kassab (DEM) abriu a uma semana da virada para o segundo turno. Mas admitamos que, excepcionalmente, o vaticínio se frustre, e seja vencedor amanhã quem hoje é perdedor.

Nem a vitória redime os pecados desta campanha. Em qualquer circunstância, na regra ou na exceção, fica desde já registrado que Geraldo Alckmin, só ele, é senhor do seu destino. Uma campanha equivocada, para uma candidatura contestada, colocou em risco o futuro político de um partido até aqui bem estruturado em São Paulo.

Os últimos anos na vida política de Geraldo Alckmin mostram que ele não faz jus ao apelido que procura retratá-lo como um político insípido e incolor. Saiu de Pindamonhagaba e chegou a governador de São Paulo, primeiro como vice, depois titular com os próprios votos. Extraiu uma candidatura a Presidente da República, passando para trás o principal político do seu partido em São Paulo. Jogador ousado, firme, conseguiu êxito no partido e lançou-se candidato a prefeito na disputa contra um grupo do PSDB que está na situação, em que têm voz o presidente de honra do partido, Fernando Henrique Cardoso, e o governador do estado, José Serra. Proeza que não se viu em Minas Gerais, onde o governador Aécio Neves disse que não queria candidato do PSDB em Belo Horizonte e não surgiu ninguém para contestá-lo.

Alckmin tem fortes convicções sobre si e muita força de vontade. Se vencer, e é nisto que aposta, o cargo, com seu poder agregador, recupera os que foram feridos mais profundamente. Se perder, como os números hoje indicam, esperneia, acusa, ameaça sair, cobra forte aos amigos que não se submeteram à sua liderança. No caso atual, o que fará mesmo não está muito claro, mas políticos próximos a ele falam em mudança de partido, não se sabe se de verdade ou na base de mais um pouco do mesmo, a velha e eficiente pressão.

Estas características, porém, não lhe dão, ao contrário, lhe tiram e também à sua campanha, o instrumento básico de ação fundamental em qualquer pleito a mandato popular: o discurso. As motivações do eleitor para definir o seu voto, mostram as últimas pesquisas dos Institutos Ibope e Sensus, são muitas. Há os mais preocupados com propostas, há os que ainda têm identificação partidária - neste quesito o PT se beneficia muito, por exemplo, porque, nas capitais, tem cerca de 20% de preferência partidária - e há também a posição, o discurso. O discurso vem de um projeto de país, estado ou cidade que está na cabeça do candidato e de seu grupo político.

Alckmin, na campanha presidencial de 2006, foi "brifado", jargão que os homens de campanha utilizam para sintetizar as informações e idéias transmitidas ao candidato, por especialistas dos mais diferentes setores, e agora, também, muitos dos secretários da prefeitura, governada pelo PSDB, lembre-se, deram ao candidato tucano o cenário dos problemas e da gestão. Nem o candidato teve discurso em 2006, quando passou ao largo das questões essenciais e ficou na superficialidade da auto-exaltação e de um indefinido choque de gestão, nem tem discurso agora.

Na derrota de 2006, houve um fator preponderante sobre a falta do discurso: as virtudes da campanha vencedora. Luiz Inácio Lula da Silva já era vitorioso antes da realização do pleito. Quando sobreviveu ao ataque de 2005, que o feriu na sua dimensão ética, e a economia começou o ano eleitoral de 2006 em alta, estava claro que o presidente se posicionara da melhor forma para vencer. Houve a rasteira que lhe aplicou mais uma vez seu grupo político, formado por amigos muito próximos da Presidência da República, que reincidiu na transgressão ética e permitiu a realização do segundo turno com o dossiê falso contra o adversário político.

Mas, sem projeto e sem discurso, Alckmin não aproveitou a oportunidade. Ao contrário, enrolou-se mais ainda ao fugir do programa de governo do PSDB, sob ataque do oponente, e Lula passou como um tufão.

Nesta atual candidatura a prefeito, Geraldo Alckmin tem na falta do que dizer aos eleitores, e não nos adversários, sua vulnerabilidade maior. A candidatura de um grupo político, segundo define o cientista político Antonio Lavareda, da MCI, pode ser natural ou necessária. A eleição permitindo reeleição, o natural é o candidato ser o prefeito ou o governante que está no cargo. A candidatura necessária é a que, por algum motivo inviabilizada a candidatura natural, busca um substituto para ele. A candidatura Alckmin a prefeito, por este princípio, não seria nem natural nem necessária. Lavareda levanta uma hipótese sobre o que determina a falta de discurso do candidato do PSDB nesta campanha municipal. "É uma questão de pertinência da candidatura".

O eleitor, explica, consciente ou inconscientemente, ou até intuitivamente, percebe que há um grupo político, de democratas e tucanos, que está no comando da prefeitura. O prefeito é candidato natural à reeleição, o eleitorado do grupo está preferindo a continuidade. Aparece outro candidato do grupo, postula o mesmo. Confunde e impossibilita o discurso.

É impossível haver, por este raciocínio, dois candidatos da situação. Qualquer candidatura em relação a um prefeito postulando a reeleição é uma candidatura de oposição. Alckmin, que é do mesmo conjunto de forças políticas a que pertence o prefeito, apresentou sua candidatura. É um candidato também da situação que tenta uma postura de oposição, já ao final da campanha, ficando sem condições de apresentar um projeto político. A isto se define como uma candidatura sem pertinência.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Façam suas apostas!

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS

Quem compraria Alckmin e venderia Kassab? E vice-versa? Quanto estaria pagando Marta Suplicy como vitoriosa no segundo turno em São Paulo?

Cada país tem uma experiência única e uma cultura política própria, fruto de um sem número de circunstancias de sua história. O que vale para um, raramente vale para outro.

Ainda assim, é curioso ver quão diferentes podem ser dois países, mesmo quando compartilham coisas relevantes. Nesses casos, esperaríamos mais semelhanças que as discrepâncias que tendemos a ver.

Tomemos nosso gosto pelos jogos de azar e as apostas. Talvez existam outros países com pendor parecido, mas não devem ser muitos aqueles onde ele é maior. Da fezinha diária que tantos fazem, mesmo sabendo que seu hábito não é exatamente legal, aos carteados das tardes e noites, nós brasileiros gostamos de jogar, de preferência “a valer”, apostando tão alto quanto podemos. Bingos, loterias, mega-sena, raspadinhas, videopôquer, caça-níqueis, cassinos clandestinos, turismo de roleta, jogos pela internet, corridas de cavalo, rinhas de galos, tem para todos os gostos e bolsos.

Por que, então, não temos uma coisa tão comum em países parecidos conosco, onde as pessoas também gostam de apostar? Por que não existe no Brasil o tradicional e, nos últimos tempos, de novo florescente mercado das apostas eleitorais?

Para quem não sabe, esse é um mercado que movimenta montanhas de dólares e centenas de milhares de apostadores, hoje em dia particularmente em sites especializados da internet. Muitos são americanos e ingleses e o maior de todos é irlandês, no qual se pode apostar em cenários políticos mundo afora, de quem vai ser o próximo primeiro-ministro da Austrália ao partido que vai vencer a eleição em uma província alemã.

Os maiores volumes são dirigidos às grandes eleições, como as presidenciais americanas. As de novembro estão sendo alvo de apostas faz anos, ainda quando não havia sequer candidatos nítidos. Por falar nisso, quem quiser pode apostar, hoje, no resultado da eleição de 2012.

O curioso é que as transações nesse mercado têm se revelado altamente capazes de antecipar os resultados efetivos das eleições, mais até que as pesquisas de intenção de voto. O que parece é que, quando milhares de pessoas arriscam seu dinheiro apostando em um determinado resultado futuro, elas procuram ser maximamente racionais. Para isso, agregam toda a informação possível, seja do que identificam em suas comunidades, seja de suas avaliações do que a mídia publica. Cada mudança percebida no cenário eleitoral as faz recalcular suas posições, para não perder o investimento e aumentar o lucro.

Seria divertido ver como seriam as apostas aqui, se um mercado parecido existisse no Brasil. Quem compraria Alckmin e venderia Kassab? E vice-versa? Quanto estaria pagando Marta Suplicy como vitoriosa no segundo turno em São Paulo?

Em Salvador, muito dinheiro ia trocar de mãos, com os apostadores buscando a melhor opção entre três candidatos empatados. E quando a aposta fosse relativa a quantos votos um candidato teria, perdendo ou ganhando? Em uma eleição como a do Rio de Janeiro, com 12 candidatos e quatro com chances de passar para o segundo turno, muita gente ia ficar nervosa. E os bem informados ou com alta intuição, que conseguissem perceber azarões que terminam vencendo? Iam ganhar uns bons cobres.

A mania de apostar em eleições, que tem mais de 100 anos nos Estados Unidos, não é algo a copiar. Mas que tem um lado positivo, não há dúvidas. Ela é parte de culturas cívicas onde a política tem uma dimensão lúdica, cotidiana, próxima do cidadão. Se nossa trajetória democrática não tivesse sido tão entrecortada por golpes, talvez fôssemos assim.

Até que não seria má idéia adotar coisa parecida no Brasil. As eleições ficariam mais animadas.

Imunidade preventiva


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Tímido na abordagem e lento na solução de problemas objetivos, o presidente Luiz Inácio da Silva em mais de uma oportunidade também já mostrou o quanto é ligeiro e destemido quando o assunto é política. Se a questão em jogo for eleitoral, então, não há ninguém mais alerta e pragmático.

Já sentiu de longe o aroma do perigo e, por isso, muito antes de se materializar a preocupação no governo com a extensão da crise econômica mundial para os dois últimos anos de seu mandato, o presidente começou a construir o discurso preventivo à eventualidade de o bolso do brasileiro vir a ser atingido em cheio pelos efeitos da dura conjuntura.

Lula nunca fala do problema na essência, sempre no feitio de acusação. Ora a crise é “do Bush” ora a culpa é das agências de risco “palpiteiras”, ora a responsabilidade é do “cassino” montado pelos Estados Unidos no mercado financeiro, ora o demônio está encarnado no “capital internacional” sempre pronto ao massacre contra os países pobres e emergentes.

Não importa o nome do bode, desde que sirva para expiar todas as culpas e afastar do Palácio do Planalto quaisquer ônus políticos decorrentes da crise.

No caso do aprofundamento e do prolongamento do cenário adverso, Lula enfrentaria sua primeira crise de verdade justamente no período em que estaria se preparando para fazer bonito no processo da própria sucessão: saindo dele com a vitória eleitoral debaixo do braço ou com as credenciais de líder da oposição e candidato a presidente em 2014, nas mãos.

Ainda não se sabe a extensão da quebradeira nem se a popularidade de Lula é realmente sustentada só pelo bom desempenho da economia, hipótese em que esse capital se reduziria na mesma proporção do aumento das dificuldades.

Não obstante o pensamento predominante de que uma virada na economia brasileira faria a canoa de Lula virar junto, esta não é necessariamente uma verdade inescapável. Claro que o presidente se valeu nos últimos seis anos de condições internacionais favoráveis e do fato de ter recebido um país muito mais arrumado por reformas combatidas por seu partido.

Nunca foi posto realmente a teste na parte mais sensível do organismo humano economicamente ativo, o bolso. Agora, já mostrou mais de uma vez uma monumental capacidade de manter sua figura a léguas de distância de situações complicadas.

Não foi a economia a responsável pela mágica da separação entre Lula e o PT no momento em que a cúpula da agremiação fundada e mantida sob sua firme direção a vida toda era acusada de montar uma “organização criminosa” no governo presidido por ele.

Tampouco foi o crédito farto o arquiteto da construção do cordão de isolamento entre o presidente e seu chefe da Casa Civil, seu ministro da Fazenda e toda a plêiade de auxiliares envolvidos com toda sorte de ilícitos: de tráfico de influência a quebra de sigilo bancário, passando por flagrantes de compra e venda de dossiês, quando não documentos contra adversários montados dentro do Palácio do Planalto.

O responsável pelo feito chama-se Luiz Inácio da Silva, cuja habilidade de manipulação de fatos, palavras, gestos, emoções e capacidade de inverter a própria lógica da vida não podem ser jamais desprezadas.

Portanto, ainda que o desastre mundial se aprofunde e atinja o Brasil ao ponto de alterar o cotidiano das pessoas, isso não autoriza previsões desastrosas a respeito dos dois anos reservados por Lula para marcar sua passagem para a História.

É preciso conferir se os outros fatores de identificação popular não atuam tão ou mais fortemente que a economia.

As conseqüências poderão ser melhores ou piores, dependendo do talento de Lula para manter a qualidade do desempenho e do grau de tolerância da sociedade para com atitudes antigamente condenadas e hoje promovidas ao terreno dos atos geniais.

Mas até isso o presidente terá de calibrar. Tem chance de sair como vítima, como parece pretender. Mas, se exagerar nos alertas à Casa Branca, chamadas às falas ao Capitólio e bravatas do gênero, poderá revelar-se menor que a expectativa de seus admiradores, abrindo espaço para que partam em busca de portos que porventura venham a se mostrar mais seguros no campo da oposição.

Anistia

Em São Paulo, Roberto Jefferson declara simpatia por Marta Suplicy, Maluf no segundo turno vai de Gilberto Kassab muito bem obrigado, enquanto, no Rio, José Dirceu é saudado como reforço ao PC do B de Jandira Feghali.

Além da função de cabos eleitorais, Jefferson, Maluf e Dirceu dividem a condição de objetos de processos por atos genericamente classificados sob a rubrica corrupção.

Na atual conjuntura da política brasileira isso já não faz nenhuma diferença. Dá no mesmo o cidadão estar sob suspeita ou dispor de biografia acima de qualquer suspeita.

Por enquanto, processo não tira pontos. Pior será quando começar a acrescentar.

A grande vítima


Merval Pereira
DEU EM O GLOGO

NOVA YORK. São muitas as vítimas da crise que abala a economia dos Estados Unidos, mas a principal delas até o momento, sem dúvida, é o candidato republicano à Presidência, senador John McCain. Da semana em que a crise eclodiu até ontem, ele perdeu toda a dianteira que havia colocado sobre o adversário democrata, Barack Obama, depois da escolha de Sarah Palin para vice-presidente, e está agora até nove pontos percentuais atrás, numa das maiores distâncias entre os dois já detectada pelas pesquisas de opinião.

As circunstâncias não apenas favorecem Obama, como McCain adiciona lenha ao próprio fogo que o está consumindo com sua atitude errática em relação ao pacote econômico, demonstrando estar sem estratégia. O adiamento da campanha presidencial para ir a Washington tratar das negociações do pacote foi um tiro que saiu pela culatra, e ele, que pretendia tirar proveito político da situação, acabou sendo suplantado por seus próprios companheiros de partido.

Cabia a McCain, como expressão da expectativa de poder futuro do Partido Republicano, e secundariamente ao presidente George Bush, em fim de mandato e sem força política, liderar a bancada republicana para a aprovação do pacote de resgate do setor financeiro.

Mas sua atitude dúbia, pressionado pela base republicana que exigia um tratamento mais ortodoxo para a crise, dentro dos parâmetros conservadores de livre mercado, fez com que expusesse a limitada influência que tem dentro de seu próprio partido, que o escolheu como candidato por uma maioria escassa.

Ontem, o republicano já estava novamente fazendo campanha a favor da aprovação do pacote, em tom muito mais enfático do que jamais usara antes, reforçando a idéia de que está perdido dentro da crise.

Ao se explicitar de maneira devastadora no sistema financeiro, a crise explicitou também a fragilidade da candidatura de McCain, que não pode ser de continuidade - diante da maciça rejeição do governo Bush pela sociedade -, mas também não pode ser de oposição por ser do Partido Republicano.

Ao mesmo tempo, os trunfos que a escolha de Sarah Palin para vice trouxe para a candidatura, revitalizando-a, já não são de serventia nesta altura da campanha, quando a crise econômica suplanta qualquer preocupação, e torna irrelevantes para o debate político os valores tradicionais que ela defende, que foram responsáveis pelo fortalecimento inicial dessa candidatura conservadora.

O debate de amanhã entre Sarah Palin e o vice democrata Joe Biden tem tudo para colocar uma pá de cal na eventual ajuda que a ex-governadora do Alasca pudesse trazer para a chapa republicana. Se ela não sair do debate, como temem os republicanos, atropelada por Biden, já será um lucro.

O que pode ser decisivo é a atitude do candidato a vice de Obama. Se se colocar com atitude arrogante diante da fragilidade da adversária, se tentar humilhá-la, ressaltando seu desconhecimento de assuntos como política externa, poderá torná-la vítima da elitizada política democrata.

Mas se deixar que o despreparo de Palin se evidencie por si mesmo, tudo leva a crer que esse único debate entre vices sirva para enterrar de vez a utilidade que sua escolha teve no fortalecimento temporário de McCain.

As pesquisas mostram claramente que a decisão de adiar a campanha presidencial foi um erro estratégico de McCain, cuja perda de apoio popular já está se refletindo no número de votos de delegados.

O mapa eleitoral que o marqueteiro Dick Morris divulgou ontem já mostra que estados basicamente republicanos como Louisiana, Tennessee, Virgínia Ocidental, Arizona e Carolina do Norte passaram a ser dúvidas, alguns deles podendo inclinar-se para os democratas.

E estados como Carolina do Sul e Geórgia estão sendo disputados em igualdade de condições. No momento, pelo mapa de Morris - que apóia McCain - o candidato democrata Barack Obama tem 355 delegados contra apenas 133 do republicano, existindo ainda 50 votos pendentes.

Tudo indica que esse primeiro pacote vai ser aprovado de alguma forma ainda esta semana no Congresso, em Washington, que sentiu a reação negativa dos mercados internacionais com a rejeição de segunda-feira.

A gestão das negociações para a aprovação das medidas, que foi inicialmente muito mal feita pelo governo, está sendo reforçada, e há mesmo um trabalho dentro do próprio Partido Democrata para mudar o voto de alguns dos 95 deputados que votaram contra o pacote.

Também não existe uma oposição muito organizada, com cada deputado tratando de seu caso particular e vendo a reação de seus eleitores nos distritos onde disputarão um novo mandato em novembro.

Há uma correlação direta entre a próxima eleição e a posição dos deputados. Dos 205 que votaram a favor do pacote, apenas sete, entre democratas e republicanos, têm uma reeleição difícil pela frente.

Também a opinião pública, que não foi suficientemente informada sobre os detalhes do pacote e teve uma reação quase irracional na primeira votação, já dá sinais de que está começando a perceber o tamanho da enrascada, e que, queira ou não, as conseqüências no seu dia-a-dia serão inevitáveis se alguma coisa não for feita.

A tragédia para McCain é que a maioria da população americana identifica Obama como mais habilitado para tratar da crise econômica do que ele.

Com algumas alterações, como a ampliação do limite de dinheiro do governo que entrará como um seguro, o pacote será reapresentado a partir de hoje, e há boas chances de que seja aprovado ainda esta semana. Mas este será apenas um primeiro passo.

O cassino e a chantagem




Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - O valor das ações de uma empresa na Bolsa de Valores (ou do conjunto das empresas nela listadas) deveria ser determinado pelo desempenho corrente da companhia e/ou pelas expectativas a respeito de sua performance futura. Perdão pelo óbvio, e sigamos.

Na segunda-feira, por essa lógica, o desempenho das empresas listadas na Bolsa de São Paulo e suas perspectivas eram tão ruins, mas tão ruins, que o índice caiu 9,36%.

Mas, no dia seguinte, desempenho e perspectivas melhoraram tanto, mas tanto, que subiu 7,63%. Como é simplesmente impossível que haja tal mudança em tão curto espaço de tempo, os fatos dão ao presidente Lula toda a razão quando diz que se trata de cassino.Pior: é um cassino que está fazendo chantagem com o Congresso norte-americano, tentando forçar a aprovação de um pacote de socorro aos gatos gordos de Wall Street, cuja ganância infinita é a causa básica da crise. Chantagem que é apoiada pelo presidente dos Estados Unidos, país que já foi um modelo de democracia.

Quando Bush diz, como fez ontem, que "as conseqüências [da não-aprovação do pacote] se tornarão piores a cada dia", está claramente chantageando os congressistas.
Ora, quem votou contra o pacote apenas atendeu à opinião de seu eleitorado, maciçamente contrário ao salvamento dos gatos gordos. E é assim que deveria funcionar a democracia representativa: o representante faz o que o representado quer (ou convence o representado de que está equivocado).

Convence-o, por exemplo, de que está de fato em curso a "desintegração do sistema financeiro", como diz Martin Wolf, principal colunista do "Financial Times". Parece estar, mas é com fatos, não com chantagem, que se deve argumentar.

É possível que a chantagem vingue, mas seu triunfo só fará aumentar o gosto amargo da crise.

Cronologia possível da crise

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - O único consenso no mercado ontem era sobre a falta completa de consenso a respeito de qual pode ser o desfecho da crise financeira originada nos EUA. No meio de incertezas, chutes e torcidas, foi possível identificar algumas observações recorrentes.

1) pacote: algum tipo de resgate estatal será aprovado pelo Congresso nos próximos dias. A extensão e a eficácia desse plano de socorro são incógnitas;

2) ações: até a véspera do anúncio do pacote, os índices das Bolsas de Valores ficarão andando de lado ou até subindo, como ontem. É um vício mundial dos mercados de valores. Os preços das ações sobem no boato e caem no fato;

3) falta de liderança: George W. Bush é um acidente histórico. Tornou-se o presidente mais frágil em final de mandato de toda a história recente dos EUA. Abriu-se um vácuo não preenchido pelos dois candidatos presidenciais. Barack Obama e John McCain foram inábeis e incapazes de liderar o Congresso no meio da tormenta;

4) sucessão presidencial: a disputa continua aberta, apesar do mau momento de McCain;

5) reforma ampla: só com a posse do próximo presidente dos EUA, em 20 de janeiro, será possível acomodar as forças políticas. O novo ocupante da Casa Branca iniciará um processo amplo de reestruturação do sistema financeiro. Se o eleito for Barack Obama, suas chances de arrancar uma legislação no Congresso são maiores -todas as pesquisas indicam que Senado e Câmara continuarão sob domínio democrata em 2009.

Tudo somado, como se observa, haverá no mínimo mais quatro ou cinco meses de balbúrdia. Nesse período, mais bancos quebrarão. Empresas não-financeiras começarão a entrar na dança por causa da escassez de crédito. Para concluir, a ressalva final: esse é o cenário mais positivo na praça.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1103&portal=

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A onda Gabeira


Gabeira volta ao Méier

Um dos bairros mais importantes da Zona Norte da cidade, o Méier recebeu nesta segunda-feira mais uma visita de Fernando Gabeira e Luiz Paulo. Desta vez a tônica foi segurança e saúde, dois temas que preocupam bastante os moradores da região. Gabeira recebeu apelos para cuidar das calçadas, da saúde da terceira idade e até mesmo pleitos impossíveis, como devolver o adicional insalubridade aos aposentados. Isso mostra como a população está carente de políticos sérios que realmente estejam preocupados com ela, e não com seus projetos pessoais. A onda Gabeira segue firme…


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Guerra contra números no Rio

Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Na disputa por vaga no segundo turno, Gabeira afirma que o Ibope estaria manipulando margem de erro de pesquisas. Diretor do instituto atribui as declarações ao nervosismo da reta final da campanha

Depois de Jandira Feghali e do prefeito Cesar Maia, agora é o deputado Fernando Gabeira (PV) que contesta as pesquisas do Ibope sobre as eleições no Rio de Janeiro. Segundo ele, o instituto estaria manipulando a margem de erro dos levantamentos para favorecer o candidato do PMDB, Eduardo Paes. Curiosamente, o ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), contrariado por causa das pesquisas realizadas pelo instituto em Salvador, apóia Gabeira. “Nós vamos pedir uma auditoria nas pesquisas do Ibope”, dispara Geddel.

Gabeira cresceu nas últimas pesquisas e ameaça o segundo colocado, o senador Marcelo Crivella (PRB). Contratado pelo jornal Estado de São Paulo e pela TV Globo, o Ibope atribui 10% das intenções de voto a Gabeira, 14 pontos atrás do senador Marcelo Crivella (PRB), com 24%. O Datafolha , em sua última pesquisa, mostra um empate técnico: o bispo licenciado da Igreja Universal com 18% e o candidato do PV com 15%. Jandira Feghali está com 13%, tecnicamente empatada com o candidato verde.

“O Ibope estava a serviço do PMDB. Eles têm contrato com o PMDB no estado inteiro. As pesquisas deles, no meu entender, não têm credibilidade. As pesquisas a que eu dou mais credibilidade são a do Datafolha e a do GPP, onde a situação é muito parecida”, acusa Gabeira. O prefeito Cesar Maia, cuja candidata Solange Amaral (DEM) não decolou, renova as críticas no seu ex-Blog: “Há um mês que Crivella não tem nem 20% das intenções de voto, que dirá os 24% que esse instituto divulgou no sábado. Um erro deste tamanho exige que o próprio Ibope faça uma auditoria interna em seus sistemas e processos”.

Invasão

Maia, porém, não acusa o instituto de manipulação política. Acredita que os computadores do Ibope foram invadidos. “ O que explica tamanha discrepância? Este ex-Blog vem sugerir um rastreamento em seus sistemas, pois o mais provável é que um hacker esteja trocando os códigos de Crivella, com outro candidato que tenha mais votos onde Crivella tem menos. Uma ação dessas, de um hacker experimentado, seria muito difícil de ser detectada”, sugere. O diretor-presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, atribui as críticas ao nervosismo dos candidatos à véspera da eleição. “O Ibope faz essa pesquisa há 60 anos”, argunta Montenegro.


Paes é favorito para o dia 5


O candidato Eduardo Paes (PMDB), com 29% tanto no Ibope quanto no Datafolha, está praticamente garantido no segundo turno. A segunda vaga é que estaria indefinida. É por isso que o clima da campanha esquentou. Marcelo Crivella (PRB), porém, não está interessado na polêmica. “A melhor pesquisa é o carinho que tenho recebido do povo nas ruas.” Apoiado discretamente pelo presidente Lula, está confiante de que irá ao segundo turno.

A pesquisa do Ibope tem margem de erro de 3% para mais ou para menos. Paes pode ter entre 26% e 32% e Crivella, entre 21% e 27%. O peemedebista oscilou positivamente dois pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, quando tinha 27%. Crivella oscilou positivamente um ponto (tinha 23%). O candidato Fernando Gabeira subiu quatro pontos percentuais, de 6% para 10%. Jandira Feghali manteve 9%. Solange Amaral oscilou negativamente de 5% para 3%. Alessandro Molon (PT) oscilou de 4% para 2%. Chico Alencar (PSol) passou de 1% para 2%. Paulo Ramos (PDT) permanece com 1%.

Filipe Pereira (PSC), Vinicius Cordeiro (PTdoB) e Eduardo Serra (PCB) não alcançaram 1% das intenções de voto. Antonio Carlos (PCO) não foi mencionado por nenhum dos entrevistados.

Dos eleitores entrevistados, 9% informaram que pretendem votar em branco ou nulo, 10% disseram que não sabem em quem votar ou não opinaram. O Ibope entrevistou 1.204 eleitores de 23 a 25 de setembro na capital fluminense. O levantamento está registrado na 228ª Zona Eleitoral do Rio de Janeiro com o número 38/08.

Empate

Também divulgada no sábado pelo jornal Folha de S.Paulo, a pesquisa DataFolha mostra Paes com 29% contra 18% de Crivella, tecnicamente empatado com Fernando Gabeira (15%), que cresceu quatro pontos. Jandira Feghali manteve os 13% da pesquisa anterior. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Isso significa que Paes pode ter entre 26% e 32%; Crivella, entre 15% e 21%; Gabeira, entre 12% e 18%; e Jandira, entre 10% e 16%. O Datafolha ouviu 1.184 pessoas na cidade do Rio de Janeiro entre as últimas quinta (25) e sexta (26). O levantamento recebeu da Justiça Eleitoral o registro RPE 35/2008.

Manifesto contra Crivella

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) divulgou manifesto pedindo aos cidadãos do Rio de Janeiro para que não votem no senador Marcelo Crivella (PRB) nas eleições municipais do próximo domingo. Segundo a entidade, o senador é homofóbico e “não respeita a Constituição Federal, nos princípios da igualdade e da não-discriminação”.

No manifesto, segundo a Agência Estado, a ABGLT cita declarações e ações nas quais o senador teria demonstrado sua homofobia. A principal delas seria sua oposição à aprovação do Projeto de Lei 122 (em tramitação no Congresso desde 2006), cujo propósito é caracterizar como crime qualquer tipo de discriminação contra minorias sexuais. Em artigo publicado no Jornal do Brasil, no ano passado, o senador classificou o projeto como “perigo para as famílias brasileiras” e convocou manifestações contra sua aprovação.

Em entrevista a outro jornal do Rio, O Globo, o senador classificou como “excrescência” o projeto de lei. “Ninguém pode ter neste país a obrigação de concordar que não se pode criticar o homossexualismo”, afirmou. O senador é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e primo do empresário Edir Macedo, fundador e líder da denominação evangélica.

Essa não é a primeira vez que o candidato enfrenta críticas de fundamentalismo religioso. Em todas as vezes ele tem prometido não confundir o seu papel de prefeito com o de líder religioso. Durante a sabatina realizada pelo Estado, Crivella também prometeu não levar integrantes da Igreja Universal para o governo. “O Rio não precisa de líder religioso, de guerra religiosa”, afirmou.

Lista

A ABGLT também divulgou ontem uma lista atualizada de 200 candidatos a prefeito considerados “favoráveis à promoção da cidadania de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em todo o Brasil”. De acordo com a lista, feita a partir de informações fornecidas por 203 organizações afiliadas à associação, o partido com mais candidatos simpáticos à causa é o PT (64), seguido pelo PSol (26), PCdoB (19), PV (15) e PR (11). Na divisão por estados, São Paulo lidera com 32 candidatos. Em seguida aparece a Bahia, com 29.

Conversa de mudos


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A pesquisa CNT/Ibope de ontem registra dois fatos já sabidos, ambos importantes, mas de naturezas contrastantes.

Aos fatos: a avaliação positiva do presidente Luiz Inácio da Silva que aumenta sem parar e a percepção negativa sobre a atuação do poder público no tocante à segurança pública, também em escalada crescente.

Ao contraste: enquanto a popularidade de Lula bate na casa dos 80% entre outros motivos porque o presidente encontrou um jeito eficiente de falar com o cidadão, quando o assunto é segurança nem ele consegue estabelecer um diálogo minimamente coerente entre Estado e sociedade.

De acordo com a pesquisa, 53% avaliam o setor de forma negativa; eram 44% em março último.Talvez seja a única área em que, na visão popular, Lula perde para o antecessor: 46% acham que a atuação do governo piorou nos últimos dez anos.

Os índices, porém, não resultam em mérito para Fernando Henrique Cardoso. São, antes, reflexo da inércia dos dois governos no setor. Como FH nada fez e Lula também não, a passagem do tempo só fez acumular o estoque da inépcia.

Um cenário que não se resume ao marasmo do poder público de um lado e à energia do crime, de outro. Não há ação e também não há discurso.

Nenhum dos governos pós-redemocratização conseguiu encontrar termos razoáveis para se entender a respeito com a população.

Desejo certamente não faltou a nenhum deles. Consciência sobre a gravidade do problema, tampouco. Ambos já fizeram autocrítica em público sobre as respectivas falhas no combate à criminalidade, mas não evoluíram um milímetro na prática: não conseguiram construir um consenso entre a demanda da população - cuja urgência privilegia soluções de violência - e a oferta de propostas apresentadas por seus especialistas, cujas convicções doutrinárias indicam o caminho oposto.

Na impossibilidade de um acordo - por incapacidade dos governos de entrar no tema com coragem até para contrariar o senso comum - fica o Estado de um lado e a sociedade de outro, cada um falando uma linguagem diferente.

Não se trata de uma suposição, está na pesquisa: 81% das pessoas são favoráveis ao uso das Forças Armadas no combate ao crime; 80% aprovam a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade; 64% são favoráveis à prisão perpétua e 43% aprovam a pena de morte.

O cardápio não poderia ser mais divergente da realidade e do pensamento preponderantes no mundo oficial: as Forças Armadas não apenas se recusam como não são preparadas nem autorizadas pela Constituição a fazer o papel de polícia; a posição do governo é contrária à redução da maioridade penal; como também não há no Estado quem reconheça eficácia na prisão perpétua ou na pena de morte para aumentar o grau de segurança do cidadão.

Um quadro de apartamento por enquanto fadado a ficar como está. A despeito da importância, da posição prioritária entre as preocupações registradas nas pesquisas e da óbvia urgência por alguma solução, a segurança pública não entrou até agora no rol dos temas prediletos de nenhum dos postulantes à sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva.

Oficialmente

Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios sobre as variáveis que têm levado prefeitos a serem reeleitos aponta dois fatores preponderantes: a eficácia da primeira gestão e a proximidade política com o governador do Estado.

A boa notícia é que o instituto da reeleição anima o prefeito a investir na eficiência administrativa. A má é que o peso do governismo na obtenção do segundo mandato desestimula o exercício da oposição.

Dois senhores

A acusação do deputado e candidato a prefeito do Rio, Fernando Gabeira (PV/PSDB), de que o Ibope manipula os índices de pesquisa para favorecer o PMDB porque o partido tem contrato de prestação de serviços com o instituto, ainda carece de comprovação, mas ressuscita uma velha questão.

É correto os institutos responsáveis pelas pesquisas que acabam orientando o rumo das campanhas - quando não influenciando diretamente o resultado das eleições - poderem fazer o mesmo tipo de trabalho para partidos e candidatos?

Hoje não há impedimento legal nessa duplicidade. Nada obriga os institutos a tratar seus clientes de modo diferente, tanto faz se são “neutros” ou se estão diretamente envolvidos nas disputas eleitorais.

O fato de servirem a dois gêneros de interesses - opostos, na essência - não os torna suspeitos por definição. Mas também não contribui para deixá-los totalmente imune a desconfianças, como seria o ideal. Na dúvida, a separação formal da clientela acabaria por princípio com quaisquer objeções, mesmo hipotéticas.

Apesar disso, fracassaram as várias tentativas de se incluir na legislação eleitoral algum tipo de regra nessa área.

A revolta dos conservadores


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. A reação da base republicana da Câmara, que votou majoritariamente, na proporção de dois para um, contra o pacote econômico que havia sido negociado pelas lideranças dos dois partidos no Congresso e o governo americano, reflete uma disputa dos conservadores que tentam manter seus mandatos na eleição de novembro diante da perspectiva de que os democratas aumentem ainda mais sua maioria nas duas Casas. Essa disputa reflete uma sensação, dentro do Partido Republicano, de que a escolha de McCain como seu candidato à Presidência da República representa uma liberalização dos princípios conservadores.

Por isso a escolha de Sarah Palin como candidata a vice animou tanto as bases partidárias, não na parte econômica, mas na dos valores morais e religiosos. A posição de McCain em relação à economia não tem sido tão ortodoxa quanto exige a base partidária, e foi atendendo a essa pressão que ele interveio nas negociações da semana passada, atrasando o acordo que já havia sido alcançado entre as lideranças dos dois partidos no Congresso.

McCain, no entanto, sempre foi mais prudente nas discussões do pacote econômico do que os deputados do partido, que assumiram posições mais radicais, inclusive na reunião da Casa Branca, na presença do presidente George Bush. Naquela ocasião, McCain ficou em cima do muro, sem se comprometer com o pacote, mas também sendo vago nas suas críticas.

Mesmo assim, tentou tirar proveito político da situação, para aparecer como a liderança que chegou a Washington para mudar o consenso estabelecido e incluir regras no pacote de defesa do contribuinte. O problema é que McCain, diante da crise sistêmica instalada no mercado financeiro, estava menos convicto da necessidade de aplicar na prática a teoria do livre mercado do que a maioria dos deputados da base republicana.

O que ele queria mesmo era aprovar um pacote que fosse atribuído à sua intervenção. Para os republicanos que estão com seus mandatos ameaçados, no entanto, a única saída é defender os princípios ortodoxos do conservadorismo, especialmente quando as pesquisas de opinião indicam que nada menos que 70% dos americanos são contra o pacote, percebendo-o como uma proteção do governo aos banqueiros.

O radicalismo entre os conservadores está tão acentuado que até mesmo Bush está sendo acusado de "socialista", e não apenas pela intervenção de US$700 bilhões no mercado financeiro. Ele está recebendo críticas pelo déficit público que só faz aumentar, o que indicaria que, ao contrário do credo no "governo mínimo", ele estaria colocando em prática um governo grande e intervencionista.

Não apenas na economia, mas na segurança nacional, com o Patriotic Act, e em outros setores do governo, como na educação e na saúde. Há quem diga que o ex-presidente democrata Bill Clinton teve um governo mais próximo dos conservadores, com o equilíbrio das contas públicas e a desregulamentação do mercado financeiro, do que o próprio Bush.

Em 1995, o Congresso aprovou uma lei que impede os investidores de processar as empresas por propaganda enganosa, o que se considera um passo fundamental para o estabelecimento de um clima de impunidade que dominou o mercado nos últimos anos. De fato, foi ainda no governo Clinton que caiu o último obstáculo legal contra a ampliação dos poderes dos bancos, permitindo que eles assumissem os riscos financeiros que estavam proibidos desde a Grande Recessão, com a lei Glass-Steagall, de 1933.

Apoiada pelo ex- secretário de Tesouro Carter Glass, considerado o "pai" do Banco Central americano, e por Henry Steagall, ambos democratas, essa lei surgiu em resposta ao entendimento de que fora a especulação descontrolada dos bancos que levara à quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que gerou a Grande Depressão.

Foi estabelecida então, através de regulamentação legal, a separação entre bancos de investimento e bancos comerciais, derrubada 66 anos e muitas tentativas depois, em 1999, com a aprovação da lei de modernização dos serviços financeiros. Conhecida como Gramm-Leach-Bliley, foi aprovada com a argumentação de que o mercado financeiro americano necessitava se modernizar para competir com outros bancos europeus e japoneses. Uma das atuações mais fortes a favor da lei foi do Citigroup, que havia acabado de comprar a companhia de seguros Travelers, e precisava de uma mudança na legislação.

O Centro de Política Conseqüente, uma ONG sem ligações partidárias, fez um levantamento da votação da lei, que foi aprovada por ampla maioria dos dois partidos nas duas Casas, e constatou que os que votaram a favor da desregulamentação ganharam duas vezes mais suporte financeiro para suas campanhas do que os que se colocaram contra a legislação.

Mas é uma injustiça com o Bush acusá-lo de intervencionista, já que foi já em seu governo, no ano 2000, e comandado pelo então senador Phil Gramn, que viria a ser o principal assessor econômico da candidatura McCain, que foi aprovada uma lei que excluiu os derivativos da regulamentação de 1936.

O fato é que a crise que está assustando o mercado financeiro e terá conseqüências ainda imprevisíveis na economia do dia a dia do cidadão americano médio, embora ainda não pressentida em sua totalidade, está fazendo com que os fundamentos básicos que separam os dois principais partidos fiquem explícitos.

Isso pode ajudar deputados americanos a salvarem seus mandatos com a votação distrital, o que explica que o Senado esteja mais a favor do pacote que a Câmara. Mas é prejudicial para John McCain.

O tamanho do aperto


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Primeiro, Lula disse que a crise americana era "quase imperceptível no Brasil". Passados uns dias, falou que o Brasil estava "muito tranqüilo para enfrentar a situação". Agora, já muda a agenda e o tom, admitindo "algum aperto", apesar de "muito pequeno".

E ele falou isso antes que a bomba explodisse e os estilhaços chegassem ao Brasil. O Congresso dos EUA deu de ombros ao pacote anticrise de Bush -como, de resto, os congressos costumam desdenhar pacotes, programas ou projetos de presidentes em fim de mandato.

Ainda mais de um como Bush. As Bolsas entraram em queda livre. A de São Paulo se esborrachou, e o dólar deu um salto de 6%. O "aperto" chegou. Não é "imperceptível", certamente não será "muito pequeno", ninguém mais está "tranqüilo". E o que mais assusta é que nem governo, nem empresas, nem economistas de qualquer tendência conseguem projetar o que vem por aí.

Henrique Meirelles, aliás, reagiu menos como presidente do Banco Central e mais como cidadão curioso, perplexo e, sobretudo, impotente. Ao saber das novidades, declarou: "Acabamos de ter mais uma surpresa". E se gabou: "Fizemos bem em não fazer previsões!".

Ficamos assim: o presidente da República não tem dimensão do que está acontecendo, o do BC nem sequer traça cenários, o ministro da Fazenda convoca reuniões para dividir prejuízos e o do Planejamento fala, fala e não diz nada.

Nessa barafunda, o repórter Gustavo Patu, da Folha, tentou tranqüilizar quem aplica em ações: "Quando a Bolsa cai, os imóveis sobem, fica um pelo outro". Quem não tem imóveis? Bem, é arrancar os cabelos e conviver com a ladainha da "paciência, daqui a dois anos fica tudo uma maravilha de novo".

E o pior não é para quem tem (aplicações e imóveis), é para quem não tem. A perspectiva é de menos crescimento, emprego e renda. Um aperto daqueles.

PT e PSDB são aliados em mais de 1.000 municípios

Fernanda Odilla e Alan Gripp
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Dobradinha PT-DEM registra o maior crescimento em relação a 2004, 41,9%

Na eleição municipal, petistas estão aliados com PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição a Lula, em 41,2% das 5.563 cidades

O PT marcha de mãos dadas com ao menos um dos três partidos de oposição ao governo Lula (PSDB, DEM e PPS) em 41,2% dos municípios do Brasil -2.292 das 5.563 cidades. O número é 13,9% maior do que em 2004, uma prova de que o tensionamento da política federal vem sendo deixado de lado em nome de questões locais.

A Folha analisou todas as 30.847 coligações válidas, registradas no Tribunal Superior Eleitoral em 2008 e 2004.

As alianças que unem as quatro legendas numa única chapa subiram 36% em relação às eleições anteriores, passando de 89 para 121 neste ano.

A dobradinha PT-DEM, impensada em nível nacional, foi a que registrou maior crescimento em relação à eleição passada: 41,9%. Em 2004, os partidos estiveram juntos em 674 cidades. Agora, são 957.

Com o PSDB, possivelmente o maior rival na campanha da sucessão de Lula, o PT selou 1.095 alianças -20,9% a mais do que há quatro anos (905).

Com o PPS, satélite democrata-tucano, as parcerias ficaram no mesmo patamar -de 1.105 para 1.129 (a maior das alianças entre PT e pelo menos um dos partidos da oposição em números absolutos). O dado novo é que ela acontece em quatro capitais: Manaus (AM), João Pessoa (PB) e Palmas (TO), além de Aracaju (SE).

As alianças em que o pragmatismo local prevaleceu sobre a política nacional não ocorreram apenas em cidades minúsculas e longe de Brasília.

As quatro siglas estão unidas, por exemplo, em municípios como São João de Meriti (RJ), com 462 mil habitantes, e São Vicente (SP), com 323 mil.

Entre os acertos formais, o mais significativo ocorreu em Aracaju. Lá, ao contrário de Belo Horizonte -onde o PT bateu pé, obrigando o prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB) a formarem uma aliança branca em torno da candidatura de Márcio Lacerda (PSB)-, o casamento é de papel passado.

Na capital sergipana, o comunista Edvaldo Nogueira tenta novo mandato com o apoio de petistas, tucanos e também do PPS.

Há casos em que o PT se uniu à oposição para reassumir o comando da prefeitura. Em Paraty (RJ), o petista Carlos José Gama Miranda, o Casé, encabeça a chapa formada por PSDB, DEM e PPS e outras quatro legendas para tentar impedir a reeleição do prefeito José Carlos Porto Neto (PTB).

E há ainda municípios em que o PT se aliou à oposição para manter outra força política na prefeitura, como em Campinas. Na última eleição, Dr. Hélio (PDT) se elegeu prefeito somente com o apoio do PMDB e do DEM. Este ano, a chapa ganhou mais nove partidos, entre eles o PT e o PC do B. "As questões ideológicas permanecem, mas os embates não invadiram a administração", disse Hélio.

A "trégua" entre PT e oposição ocorreu principalmente no Paraná e em Minas Gerais. No primeiro Estado, os petistas estão juntos com os três partidos de oposição em 19 municípios. Em São Paulo,as dobradinhas PT-DEM saltaram de 79 para 119, aumento de 51%. Em Minas, petistas e democratas também se aproximaram. Hoje, estão juntos em 175 coligações ante as 143 de 2004.

"O PT passou a existir em municípios em que não estava presente, o que facilitou novas alianças. Mas sempre em torno de questões locais", disse o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB. Para Guerra, PT e PSDB são mais fortes juntos. "A tendência é crescer mais", avaliou. Em 2004, petistas e tucanos elegeram 54% dos candidatos apoiados pelas duas siglas.Em Nova Iguaçu (RJ), a chapa que elegeu Lindberg Farias (PT) em 2004 contava com PSDB e DEM. Os tucanos abandonaram a coligação este ano, mas os democratas permaneceram.


Casa de ferreiro, espeto de pau


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Mestre-de-obras da mais controversa aliança eleitoral de 2008, o governador tucano Aécio Neves firmou uma vitoriosa parceria com o PT, segundo até agora indicam as pesquisas de opinião, mas não foi igualmente bem sucedido na armação dos palanques de seu partido, o PSDB.

Um levantamento do desempenho eleitoral dos partidos nas 12 mais populosas cidades mineiras indica que o PSDB, por enquanto, só tem uma eleição bem encaminhada - a de Sete Lagoas, município com 221 mil habitantes situado na região metropolitana de Belo Horizonte.

O candidato em Sete Lagoas atende pelo nome de Maroca, esteve perto de ganhar em 2004 e o seu maior trunfo é ser candidato do senador Eduardo Azeredo, que assim demonstra força em um de seus principais redutos eleitorais. É a maior cidade de Minas onde o PSDB se julga virtualmente assegurado .

Os tucanos também lideram no município industrial de Contagem, segundo pesquisas realizadas no início de setembro, mas seguido de perto pelo PT, que tem grandes chances de manter a prefeitura local. O candidato Ademir Lucas vem perdendo terreno e a eleição deve ir para o segundo turno.

Com mais de 700 mil habitantes, Contagem poderia ser uma jóia na coroa do PSDB. Aparentemente, ao contrário do que se poderia esperar, não deve ser Aécio Neves o fiel da balança na eleição do município, mas o ex-governador Newton Cardoso, que é do PMDB e tem força política na região.

O PMDB, na realidade, deverá ser o grande vitorioso nas eleições de 2008 nas grandes cidades de Minas Gerais.

Um levantamento do PT indica que o partido tem boas chances de eleger os prefeitos de Ipatinga (238 mil habitantes), Uberaba (292 mil habitantes), Divinópolis (213 mil habitantes) e Montes Claros (358 mil habitantes).

Além de o prefeito Fernando Pimentel ser sócio de uma provável vitória em Belo Horizonte e Contagem, o PT também conta com um bom resultado em Juiz de Fora (mais de meio milhão de habitantes). A candidata é Margarida Salomão, ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora, que cresce nas pesquisas de opinião na mesma medida em que desabam os candidatos do PSDB e do PMDB.

"Para o PSDB e o governador de Minas trata-se de uma posição vexatória o terceiro lugar nas pesquisas do ex-líder na Câmara, deputado Custódio de Matos. Em segundo, tecnicamente empatado, está o ex-deputado Tarcísio Delgado, eterno candidato do ex-presidente Itamar Franco. Ele deve apoiar Margarida na segunda rodada, se Custódio for o adversário".

Outra disputa da qual o PSDB está fora é a de Betim, um distrito industrial onde tucanos e petistas travam há décadas uma renhida disputa. O favorito das pesquisas é Rômulo Veneroso, do PV mas com o apoio do governador Aécio Neves. O PT tenta pela terceira vez reconquistar o posto, que foi seu no início dos anos 90 com a deputada Maria do Carmo Lara.

A eleição em Betim, uma zona industrial, reflete o racha do PT mineiro por causa do acordo de BH: o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e o prefeito Fernando Pimentel foram em dias alternados à cidade, para declarar apoio à petista.

Há uma outra derrota indigesta no horizonte do PSDB, em Uberaba (292 mil habitantes), onde o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto, bate com folga o candidato tucano Fahim Sawan e deve se reeleger, apesar de seu envolvimento no escândalo do mensalão.

Quem se queixa do insucesso do PSDB em Minas Gerais é o PSDB. O governador Aécio Neves, que montou uma ampla base de apoio, acredita que sairá pessoalmente vitorioso. É possível. Para se ter uma idéia, a aliança PT-PSDB que teve em Aécio o principal mentor, que não pode ser oficializada em Belo Horizonte, está reproduzida em 164 municípios menores.

Um bom exemplo do estilo Aécio é a eleição de Uberlândia, no Triângulo Mineiro (mais de 600 mil habitantes). O candidato favorito à reeleição é o ex-deputado Odelmo Leão, do PP, um aliado do governador do Estado.

O acerto mineiro se mostra bom negócio para Aécio e Pimentel, mas ruim para o PSDB e parte do PT, que se prepara para um ajuste de contas em 2010. É cada vez mais um acerto local, com poucas possibilidade de transpor as montanhas de Minas.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1102&portal=

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cem anos sem Machado de Assis


A morte de um dos gênios da nossa literatura completa 100 anos hoje. Machado de Assis escreveu uma obra de relevância universal sem nunca ter saído do estado do Rio.


“Não vou viver com ninguém. Viverei com o Catete, Largo do Machado, a Praia de Botafogo e do Flamengo”.
(Machado de Assis)

Artistas entram em cena na caminhada de Gabeira


Pedro Vieira
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Eduardo Moscovis convocou colegas, e o candidato mostrou-se otimista


Apesar do tempo chuvoso, o Arpoador estava lotado, ontem. Através de um e-mail – criado pelo casal Eduardo Moscovis e Cynthia Howlett – convocando as pessoas para uma manifestação em favor da candidatura de Fernando Gabeira (PV), dezenas de artistas compareceram ao local para prestigiar o candidato. Moacir Góes, Cissa Guimarães, Lydia Matos, entre outros tantos, eram figuras presentes na manifestação. Apesar de estar em terceiro lugar, a manifestação inflou a confiança de Gabeira.

– Eu respeito todas as candidaturas, todos podem ter chance, mas acho que tenho o eleitor mais empolgado, ainda mais depois desta manifestação – orgulhou-se Gabeira, que disse se sentir grato e feliz com o apoio dos artistas.

O idealizador, Eduardo Moscovis, ficou impressionado com as centenas de pessoas que compareceram e contou como surgiu a idéia da manifestação.

– Era para ser uma manifestação pequena. Tive um sentimento de omissão e percebi que há muito tempo não tínhamos um candidato como o Gabeira, que tem propostas, não ataca os adversários e é transparente – explicou Moscovis, que confessou ser alheio à política. – Nunca me envolvi. Esta é a primeira vez que participo de uma manifestação assim.

Sua mulher, Cynthia Howlett, também assumiu estar distante da política, mas não se orgulha disso.


– A última vez que participei de uma manifestação política foi na época do Collor. Acho que era para nós estarmos acompanhando mais – admitiu Cynthia, brincando com o marido. - Normalmente, ele tem a idéia, mas sou eu quem executa.

Candidato de todos

Os candidatos a vereador aproveitaram para tirar uma casquinha da manifestação e levaram seus cabos eleitorais para reforçar as candidaturas. Acompanhando Gabeira, caminharam até metade da praia de Copacabana. A militância também esteve presente e garantiu: que Gabeira não é só Zona Sul.

– Hoje, todos estão preocupados com o meio ambiente. Não é só a Zona Sul, e o Gabeira tem essa preocupação ecológica – afirmou Felipe Cardoso, morador de Cavalcanti, na Zona Norte. – Através dos candidatos a vereador, Gabeira conseguiu atingir pessoas de toda a cidade.

Fernando Gabeira contesta números do Ibope no Rio

Marcelo Auler, RIO
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Deputado critica diferença entre instituto e Datafolha

Apontado nas pesquisas como o candidato à Prefeitura do Rio que mais tem crescido - uma alta de quatro pontos nas duas pesquisas mais recentes -, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) contestou ontem os resultados do Ibope. Pesquisa do instituto, contratado pelo Estado e pela TV Globo, o coloca em terceiro lugar, com 10% das intenções de voto, mas a uma distância de 14 pontos do segundo colocado, o senador Marcelo Crivella (PRB). Pelo Datafolha, o candidato verde tem 15% e o bispo licenciado da Igreja Universal, 18%.

“Eu sempre disse que o Ibope estava a serviço do PMDB. Tenho condições de demonstrar que eles têm contrato com o PMDB no Estado inteiro. As pesquisas deles, no meu entender, não têm credibilidade. As pesquisas a que eu dou mais credibilidade são a do Datafolha e a do GPP, onde a situação é muito parecida”, disse, durante uma caminhada ontem de manhã na orla da zona sul do Rio.

Pelas pesquisas, o peemedebista Eduardo Paes (29% tanto no Ibope quanto no Datafolha) já estaria praticamente garantido no segundo turno. A segunda vaga é que está indefinida. Mas, pelo Ibope, Crivella, com 24%, seria o mais provável concorrente. Já pelo Datafolha, três candidatos estariam em empate técnico: Crivella, com 18%, Gabeira, com 15% e Jandira Feghali, do PCdoB, com 13% (pelo Ibope ela tem apenas 9%).

Embora desponte com possibilidades de alcançar o segundo turno como o segundo mais votado, Gabeira recusa-se a fazer a campanha do voto útil entre os chamados eleitores de esquerda. Ele garante que chegará ao segundo turno com o voto progressista. “Respeito todas as candidaturas, acho que todos, trabalhando, podem ter chance. Com os votos de consciência eu vou chegar lá.”

Para ele, nesta última semana, o importante serão os eleitores conscientes. “Esta semana é decisiva, onde o principal protagonista não é o candidato, é o eleitor. Quem tiver os eleitores mais decididos, mais empolgados e com mais argumentos, vai levar. Estou certo que tenho os eleitores mais confiantes, mais empolgados, mais decididos.”

Em campanha na zona oeste, Crivella preferiu não polemizar com os institutos de pesquisa. “A melhor pesquisa, para mim, é o carinho que tenho recebido do povo nas ruas”, disse, segundo seus assessores. Ele destacou que tem chances de ir ao segundo turno.

Daqui para o futuro


Wilson Figueiredo
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Não é exagero dizer que o Brasil anda sem sair do lugar, como quem se esfalfa para fazer quilômetros na esteira. Haja paciência. Não há recordes nem recordistas no desempenho humano sobre esteiras rolantes. Os que saírem vitoriosos das urnas, em número muito inferior aos que entraram, celebrarão como for possível, e os derrotados simularão júbilo cívico por conta da democracia. Como nada muda, a não ser de endereço postal, a democracia segue em frente com a ilusão dos mais novos temperada pelo cansaço dos mais velhos. Faz parte do ritual. Os eleitores vão reincidir na conclusão de que na democracia sempre se volta ao ponto de partida, ou então não é.

A despeito do que possa acontecer e, com toda a certeza, do que vai ocorrer de um jeito ou de outro, o bordão nacional entoará que o Brasil nunca mais será o que era. Uma pena, se for privado do que tem de melhor, que é a disposição para a democracia. Pesquisas adiantam o resultado das urnas, não o futuro cuja existência universal Santo Agostinho negou em suas confissões. Dizia ele que, depois de muito esperar, quando percebia, o futuro já tinha passado. Fugidio por natureza, quando sai de onde está, vai direto para o passado. O presente não é com ele, mas conosco. Não quer dizer muito, mas o que está para acontecer deixa no ar a impressão de conteúdo histórico denso. Vai ver são as mesmas bolhas de sempre. Seja o que for, o pacote estará dialeticamente correto quando sair das urnas, e politicamente resolvido, sem esquecer de apresentar novas dificuldades a velhos problemas.

O Brasil está preparado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais do que grande eleitor no plano municipal, mantém a forma no vazio da própria sucessão, que continua em todas as cabeças, inclusive dos favoráveis ao terceiro mandato. Acredita-se que a hipótese se desfez mas se refaria como bonificação pelos dois anteriores. Um mandato a mais, não faz diferença. A versão segundo a qual o raio não cai duas vezes no mesmo lugar não se aplica ao mandato presidencial no Brasil, onde o precedente da reeleição abriu a porteira. Somos experimentalistas natos. Não haverá mais presidente que se contente com o primeiro mandato, nem argumento que o detenha. Pode-se garantir que, excluídas as mulheres, fogo de morro acima, água de morro abaixo e o terceiro mandato presidencial, ninguém pode impedir quando chega a oportunidade.

Se o desempenho do governador José Serra mantiver a preferência acintosa nas pesquisas, a futura sucessão presidencial manterá curso natural? Não é preciso pagar para ver. É de graça. O Brasil continua politicamente aberto. Os partidos escondem-se exatamente quando deviam apresentar, como responsáveis pelas candidaturas, programas de governo – municipal, estadual ou federal _ e alguém com capacidade pessoal e compromisso de realizar o que for proposto, e proposto por ser viável, não para enganar. No caso de José Serra, o interesse contrário não está nos concorrentes ocultos, mas ao lado dele na mesma social-democracia nominal. O terceiro mandato pode até ressuscitar. Há tempo de sobra.

O PSDB tem endereço histórico à esquerda, embora ilegível desde que o neoliberalismo se dissipou e as variantes perderam o rumo. A democracia se diz imunizada contra o golpismo republicano, mas não avalia o efeito negativo da falência da representação política. Os partidos fazem de conta que não tem gravidade o desencontro entre a opinião pública, de fundamento pequeno-burguês, e a representação política de costas para o eleitor. Tem, e muita. Trará perigo o efeito tardio da pérfida solução de manter aberto, mas vazio de poder, o Congresso Nacional nas duas décadas de controle militar da República. O efeito perverso explica-se com o desinteresse pelo debate de qualidade e o gosto pela ociosidade de alta remuneração, mas sem dignidade política. As conseqüências mantiveram-se ocultas por falta de oportunidade, mas reapareceram por necessidade. As sementes da ditadura eram de uma planta venenosa: deixar o Congresso aberto só serviu para expor o vazio legislativo à execração pública e erodir a credibilidade representativa.


A primavera chegou com buquês de pesquisas que garantem a Lula, por cima da confusão, votos de prosperidade eleitoral da maneira que for possível.

Entrevista - Gilmar Mendes: "O aparato policial do Estado hoje está fora do controle"


Andréa Michael e Felipe Seligman
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Presidente do STF diz que grampo em diálogo serviu para criar uma "reação" e mostrar que país atingiu limite em que "é preciso dizer basta"


PRESIDENTE DO STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Gilmar Ferreira Mendes, 52, afirmou que o aparato policial do Estado está fora de controle e que o grampo ilegal do qual ele foi vítima no último mês de julho serviu para alertar os Poderes constituídos da situação que o país atravessa. Em entrevista concedida à Folha na manhã da sexta-feira, Mendes disse ser contrário a qualquer miniassembléia constituinte, que chamou de "aventura", e afirmou considerar urgente reformas constitucionais ou infraconstitucionais.

O presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, diz que é preciso modificar o sistema de eleições e também a elaboração e aplicação do Orçamento, que, segundo ele, deve ser impositivo pelo menos parcialmente e não apenas meramente indicativo, como é hoje.

FOLHA - Depois de 20 anos, o que está ultrapassado na Constituição?

GILMAR MENDES -
Temos de situar esse texto na história. Saíamos de um processo ditatorial, de insegurança total.
Imaginava-se que o porto seguro era a Constituição constitucional, o que levou a um texto mais analítico. Tínhamos um quadro inflacionário muito evidente no governo [José] Sarney, que ao final chegou aos 84,32% ao mês.
Não por acaso a Constituição incorpora direito à revisão de vencimentos, à correção no âmbito da Previdência. Mas a grande vitória do Brasil no campo político foi conseguir maioria constitucional para fazer as reformas, independentemente da alternância de poder.Não sou favorável a uma miniconstituinte. O texto constitucional não comporta esse tipo de aventura.

FOLHA - O que precisa mudar?


MENDES - É urgente uma reforma política. Os senhores [da imprensa] têm registrado a absorção de funções do Legislativo pelo excesso de medidas provisórias, a presença excessiva de suplentes no Senado. Isso passa pela revisão do modelo eleitoral.

FOLHA - Recentemente houve críticas de que o STF, com seus poderes, estaria legislando.


MENDES - É uma crítica inevitável. Não se trata de uma opção do STF em face da moda. Decorre do texto constitucional.
Há um problema de funcionalidade decorrente do próprio mecanismo do sistema eleitoral, que adotamos desde 1932, o modelo proporcional, que dificulta a formação de maioria para um modelo decisório e está produzindo distorções.
De um lado, a intervenção excessiva do Executivo, distorções na realidade orçamentária, que acredito ser um ponto sério de reforma, para ter um Orçamento digno deste nome, real, efetivo, minimamente impositivo. Você pode ter necessidade de adaptação, mas hoje temos grandes problemas, inclusive da manipulação do sistema político, pelas tais emendas parlamentares.A feitura do Orçamento à medida que a fila anda, com a abertura de créditos extraordinários a cada momento para situações que são corriqueiras. É preciso rediscutir.

FOLHA - Isso vai e volta.


MENDES - É como se fosse reformar um avião em pleno vôo com seus próprios passageiros.Essas pessoas se perguntam: "O que vai acontecer comigo?".
Dizem: "Mas esse modelo é bom porque ele propiciou a minha eleição". Por isso que é difícil, mas o país reclama. Não temos no Supremo Tribunal Federal qualquer pretensão de substituição do Legislativo.
Mas, muitas vezes, temos atividades complementares.

FOLHA - Por que a súmula do nepotismo não foi cumprida?


MENDES - Trata-se de um fenômeno que é jurídico, constitucional, mas que é político e cultural. Isso existe no Brasil desde sempre. Está sendo cumprida. É uma questão de tempo.

FOLHA - O sr. tem uma formação técnica, mas também ocupou cargos por indicação política. Como o sr. vê essa relação?


MENDES - Acho importante, porque me dá visão mais complexa das coisas. Primo por coerência. As posições que sustentei, por exemplo, no governo Fernando Henrique, eu as sustento hoje com a mesma transparência. E em temas absolutamente antipáticos, que defendo por convicção, como prerrogativa de foro e todos os temas ligados ao Estado de Direito.

FOLHA - Daí as críticas de ter concedido tão rapidamente um habeas corpus a Daniel Dantas?


MENDES - Concedi nesse caso, como em todos os que chegam ao tribunal relacionados a inúmeros anônimos.

FOLHA - No caso da Operação Satiagraha, o senhor declarou recentemente que não era legal a atuação da Abin como polícia judiciária.


MENDES - Disse o seguinte: inicialmente, essa participação foi negada. Depois se disse que houve uma cooperação tópica para assuntos estratégicos. A terceira versão foi a de que participaram dois ou três servidores previamente designados.
Em outro momento se descobrem que eram 52 agentes da Abin, e depois 56 agentes, e não sei se paramos por aí.
Revela-se também uma quantidade enorme de dinheiro despejado nisso. A Abin não foi subsidiária. Pergunto: pode haver uma cooperação nesse nível? Quem autoriza?

FOLHA - Sua opinião.


MENDES - Entendo que não. Isso é indevido e não estou a discutir provas, estou a dizer: que projeto político se escondia atrás disso? Era criar o quê?
Uma super Abin e PF, uma fusão delas duas? Será que foi disso que nos livramos a partir da revelação desses fatos? Que projeto se escondia atrás disso?Que a Constituição não contempla eu não tenho a menor dúvida. Polícia judiciária é atividade da Polícia Federal.
Que possa haver alguma cooperação, pode haver. Pode-se considerar como cooperação quando a presença do órgão de cooperação é maior do que a do órgão que recebe o apoio?

FOLHA - Qual o reflexo disso sobre a legalidade da operação?


MENDES - Sobre isso nem falo. A questão concreta não tem relevância alguma, a não ser no momento em que ela ilumina o projeto institucional que estava por trás disso. E acho que era extremamente perigoso para a democracia. Uma mente perversa pensou isso.

FOLHA - Qual é o impacto institucional do grampo telefônico do qual o sr. foi alvo?


MENDES - No plano institucional, tenho a impressão de que há algum tempo o Brasil denuncia o descontrole dessas áreas e de alguma forma nós até toleramos e legitimamos esse processo, como o vazamento sistemático, a não-punição dessas pessoas.
Isto nos demandava uma reação. Mas quando a questão se alçou a esse plano de ouvir senadores, ministros do Supremo, e quando isso se comprovou, então isso chamou a atenção da sociedade e atingiu aquele limite no qual é preciso dizer basta. É preciso que haja uma reação porque nós estamos na verdade no plano do excesso das anomalias.
Tenho impressão que foi nesse sentido. O presidente se sentiu atingido, os presidentes das Casas se sentiram atingidos, todos se sentiram de alguma forma afetados por isso. Nós todos no Judiciário de alguma forma éramos afetados por isso e também co-responsáveis, porque deixamos isso crescer sem limites.


FOLHA - Mas quem está fora de controle?


MENDES - Acho que o aparato policial. Claro que há outros problemas, mas obviamente que se tolerou esse tipo de coisa e o aparato policial, com suas negociações com a mídia, se autonomizou diante do próprio Judiciário. A Operação Têmis [Deusa da mitologia grega que era convocada em julgamentos de magistrados], por exemplo. Se deu esse nome por quê? Sendo uma investigação que começou no âmbito do próprio Poder Judiciário, mas quando ela vai para a polícia ela ganha esse nome. Pensado para denegrir a imagem do Poder Judiciário.O relator [ministro do STJ Felix Fisher] decide não prender os eventuais envolvidos e é desqualificado por delegados da Polícia Federal. As representações que ele fez para o Ministério Público resultaram arquivadas. Ontem, eu li os episódios envolvendo o ministro Fisher e me senti um pouco envergonhado de não ter reagido.

FOLHA - Mas ficar preso ao debate não tira o foco das investigações?


MENDES - Isso não tem nada a ver com o combate à impunidade. Estou falando como quem trabalhou na lei de interceptações telefônicas, na lei dos crimes organizados, na lei de lavagem de dinheiro, eu estava no Ministério da Justiça nesse período. Não se trata de nenhuma transação. Agora, combate ao crime organizado dentro dos ditames do Estado de Direito. É possível combater o crime organizado dentro das regras do Estado de Direito? É e é isso que se quer.

FOLHA - E o projeto de lei para punir o vazador que aborda também a punição de jornalista. Isso fere um preceito fundamental?


MENDES - Não conheço o projeto do governo, mas tenho a impressão de que nós temos hoje um tal descritério e um tal descontrole no vazamento que temos que fazer uma séria atuação nesta área. Que se abra inquérito imediatamente ao vazamento. Hoje temos um problema muito sério e isso é um problema do governo.

Um capitalismo que se dê ao respeito


Fábio Wanderley Reis

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Em matéria dedicada ao plano do governo dos Estados Unidos para o resgate das finanças do país, diz a revista "The Economist", na edição de 25 de setembro, que "a idéia de qualquer resgate é profundamente perturbadora para qualquer capitalista que se dê ao respeito". A sugestão é a de que um capitalista que se preze não deve ter por que ir ao Estado de chapéu na mão - ou, de modo mais amplo, a de que um capitalismo autêntico prescinde do Estado, a não ser como provedor de segurança institucional-legal para as transações privadas.

As proporções da crise financeira agora vivida pela economia americana trazem a indagação de como relacionar essa perspectiva com a idéia do "espírito animal" dos capitalistas - ou, em outra expressão de Keynes, com a tendência do capitalismo à "selvageria". Um Estado limitado a garantir o quadro legal geral é, como tudo indica que teremos de aprender de novo de maneira penosa, compatível com formas de atuação dos capitalistas que nada têm a ver com certo cavalheirismo vitoriano apontado por alguns entre os supostos da economia neoclássica, redundando antes na busca irresponsável e gananciosa de ganho. E o Estado (tal como, para fazer justiça, a própria "The Economist" vem frisando há tempos) tem necessariamente de exercer ativamente a vigilância e a fiscalização que neutralizem as tendências "selvagens". Um capitalismo que se dê ao respeito será aquele em que o Estado contenha a selvageria.

O drama crucial envolvido reside num aspecto que tem sido destacado, especialmente por autores de inspiração marxista, com a fórmula da dependência estrutural do Estado e da sociedade capitalistas em relação aos interesses dos donos do capital. Uma face benigna dessa dependência se tem em que os interesses "animais" dos capitalistas - ao criar empresas, crescimento econômico, oportunidades de emprego - podem apresentar-se legitimamente como correspondendo ao interesse público. A perversão disso, ou a face maligna, tem a ver com o fato de que a assimilação dos interesses dos capitalistas ao interesse público torna-se imperiosa, se certamente não mais legítima, justamente quando a selvageria faz desandar as coisas, como agora, e ameaça a todos com a catástrofe. Nesse momento, em vez da mera assimetria de ganhos em favor dos capitalistas, o que temos é a necessidade - com cheiro de chantagem - de que as perdas sejam socializadas, e o Estado, com os contribuintes a reboque, deve comparecer não como mero regulador, mas como ator decisivo, capaz de proteger os capitalistas (não necessariamente, por certo, cada um deles) das consequências de seu próprio destempero.

Mas a crise de agora traz novidades importantes. Em primeiro lugar, com respeito ao quadro geral da nova dinâmica econômica globalizada e seus correlatos. A intensa financeirização e as criações do "espírito animal" quanto a ela levaram antes a crises várias em países mais ou menos periféricos. Mas, enquanto o jogo corresse bem nos países centrais, era difícil imaginar que a ação coordenada em nível transnacional para contrapor-se às crises viesse de fato a ocorrer com a eficácia necessária: que cada país fizesse o "dever de casa" da prosperidade que a globalização dos ricos prometia. Atingido o coração do sistema econômico mundial, porém, torna-se muito mais realista a expectativa de de que venhamos a ter medidas de impacto eventualmente planetário, até pelas assimetrias econômicas mesmas do mundo globalizado.

Além disso, a expectativa de novidades parece justificar-se também pela maneira específica em que se dá o impacto da crise nos Estados Unidos. Para começar, temos a coincidência de sua manifestação mais dramática com o auge da campanha para a eleição do sucessor de George Bush. Se as coisas podem talvez acomodar-se sem ressonâncias mais negativas quando se trata simplesmente de negociações mais ou menos sigilosas entre agentes poderosos do mercado e altos representantes sobretudo do poder executivo, as ressonâncias são grandemente amplificadas quando o Sr. Mercado tem de ir ao Congreso, como diz também "The Economist", em circunstâncias em que, por outro lado, um presidente pato-manco mercadista e dedicado a cortar impostos dos ricos tem de ir contritamente à televisão tentar atrair a bênção dos eleitores para o que aparece aos olhos de muitos como doação de dinheiro à rica e odiada Wall Street - e doação feita a toque de caixa, antes que o mundo acabe e enquanto o patrimônio modesto de muitos se derrete. Na pergunta dirigida pelo senador John Tester, Democrata de Montana, a Hank Paulson, secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente do Fed, relatada por Timothy Egan em blog do New York Times: "Por que temos uma semana para decidir se vamos apropriar 700 bilhões de dólares ou se o sistema financeiro do país vai pelo ralo?"

Diante da incúria evidente a todos os condenados a sofrer as consequências, o que agora é difícil imaginar é que continue tudo na mesma.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras