sábado, 1 de novembro de 2008

PPS começa a discutir aliança com PSDB para eleição de 2010

Foto: Tuca Pinheiro

Valéria de Oliveira
DEU NO PORTAL DO PPS


Segundo Freire, “a tradição do PPS é a de apontar caminhos e não de esperar para seguir os caminhos definidos por outros”. Aos membros do Diretório Nacional, ele foi enfático ao dizer que “é preciso escolher por onde vamos e não ficar com aquilo que nos restar”. O ex-senador acha que o partido deve trabalhar pela aliança dos dois candidatos tucanos.

O PPS começa, a partir da reunião do Diretório Nacional desta semana, a debater aliança com o PSDB para 2010 em torno das candidaturas dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. “O momento nos impõe a necessidade de apresentar um projeto para o Brasil, nos preocupar em fazer política e não ficar olhando para o próprio umbigo”, disse o presidente Roberto Freire, ao explicar que a discussão sobre sucessão presidencial estava prevista para logo após as eleições deste ano.

Segundo Freire, “a tradição do PPS é a de apontar caminhos e não de esperar para seguir os caminhos definidos por outros”. Aos membros do Diretório Nacional, ele foi enfático ao dizer que “é preciso escolher por onde vamos e não ficar com aquilo que nos restar”. O ex-senador acha que o partido deve trabalhar pela aliança dos dois candidatos tucanos. "Queremos construir uma alternativa para o que está aí (governo do PT). Não tem nada a ver com adesão, até porque ainda não há candidato", diz Freire, ressaltando que o compromisso do partido é com a construção de um novo projeto para o país.

“Não podemos é perder essa oportunidade de exercer nosso papel na sucessão presidencial; precisamos começar a construir o nosso pólo de forças políticas”. Freire confessou que está preocupado com a possibilidade de que a reforma política seja usada contra os pequenos partidos, dando ênfase apenas às janelas para que os políticos troquem de partido. Atualmente, os partidos é que são donos dos mandatos.

Para Gilvan, partido deve investir na política de alianças para crescer

Foto Tuca - Gilvan e Graziela(reunião do DN)

Luiz Zanini
DEU NO PORTAL DO PPS


O dirigente do PPS, Gilvan Cavalcanti, defendeu, nesta sexta-feira, na reunião do Diretório Nacional, que o partido precisa de deixar de lado a política de metas paras eleições e voltar a adotar a política de alianças.

Segundo ele, as metas impostas pela direção partidária acabam não sendo condizentes na maioria das vezes com a realidade de estados e municípios, o que dificulta o alcance dos objetivos estabelecidos. “Diante do resultado que o partido obteve nas eleições municipais deste ano, acredito que a melhor alternativa é restabelecer e centrar fogo na política de alianças”, propôs.

Depois de fazer um breve balanço do desempenho do PPS no Rio de Janeiro e considerar que o partido saiu vitorioso do processo eleitoral, Gilvan disse que o desafio da legenda “será o de pensar política com o fato novo que é a crise financeira mundial”.

No Rio, o PPS elegeu, por exemplo, dois vereadores (Stepan Nercessiam e Paulo Pinheiro) na capital.

FHC quer nome de consenso para 2010


Mônica Ciarelli
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Apesar de Serra e Aécio aceitarem prévias, ex-presidente pede acordo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu ontem um nome de consenso no PSDB para as eleições de 2010. Na véspera, dois potenciais candidatos tucanos, José Serra e Aécio Neves, concordaram com a realização de uma prévia interna para escolha do candidato ao Palácio do Planalto. Tradicionalmente, o nome do concorrente tucano às eleições é decidido em conversas de cúpula.

“Acho que pode haver um nome de consenso no partido. Tenho esperança de que haja uma convergência entre Aécio e Serra. Eles são os potenciais (candidatos) e acho difícil que apareça um terceiro”, disse Fernando Henrique, após participar de um prêmio concedido pela mineradora Vale em homenagem a sua mulher, Ruth Cardoso, que morreu em junho. “Vou trabalhar para que haja um nome de convergência, que para mim pode ser qualquer um dos dois.”

Fernando Henrique descartou a hipótese de ruptura de Aécio com o PSDB caso o partido opte por Serra, que já foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2006. “Não existe essa possibilidade. Isso é absolutamente fora de cogitação”, afirmou.

PMDB

Bem-humorado, o ex-presidente aproveitou o evento para ironizar a recente declaração do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, de que o PT e o PMDB estarão unidos nas eleições de 2010. “Isso tudo é muito variável e daqui a dois anos acho que o Cabral vai estar conosco”, disse.

Sem menosprezar a importância de uma aliança com o PMDB, Fernando Henrique fez questão de ressaltar que fundamental mesmo para os tucanos é defender uma candidatura que o “povo queira”. “O importante para o PSDB e os demais partidos é encontrar bons candidatos. Essas últimas eleições mostraram que nosso eleitor é muito independente. Ele não segue ordem de ninguém nem tem muito amor a nenhum partido político especificamente. Ele quer saber quem na naquele momento assegura um futuro melhor.”

O ex-presidente aproveitou ainda para descartar a possibilidade de voltar a concorrer ao Palácio do Planalto. “Já disse antes que cada um tem de saber o seu momento na história. Meu papel é agora outro”, afirmou.

Um palpite sobre a crise econômica

Fuad Gabriel Yazbeck
Novembro 2008
Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Em época de guerra mentira é como terra, e em tempo de crise econômica palpite é dinamite: explode rapidamente e vira fumaça. Mas palpite em ciência é privilégio que se concede apenas aos economistas, eternos profetas do passado.

Diante da grande crise econômica global que ora se anuncia, representada pela falência do sistema financeiro mundial, muito se tem falado e muito ainda se vai falar. Tudo, no entanto, leva a crer que teremos que esperar alguns anos antes do surgimento da teoria que vai explicá-la, tal como a Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John M. Keynes, que só veio à luz em 1936, sete anos após a Grande Depressão de 1929 que lhe deu causa.

A teoria de Keynes, defendendo a intervenção regulatória do Estado na economia, através de medidas de política monetária e fiscal capazes de mitigar os efeitos perversos dos ciclos econômicos — recessão e depressão —, refutava a chamada Lei de Say (Jean Baptiste Say, 1767-1832), que afirmava ser a oferta a geradora de sua própria demanda, isto é, que a produção de bens, por si só, era capaz de incentivar a demanda por todos os outros bens.

Karl Marx (1818-1883) anteriormente também já havia contrariado as idéias de Say, revolucionando o pensamento econômico com sua obra máxima, O capital, ao afirmar que o modo de produção capitalista continha, na sua própria essência, o germe das crises que haveriam de destruí-lo, na medida em que ao produzir bens, acumulando nas mãos dos capitalistas as rendas resultantes dessa produção, retirava da demanda a renda que seria necessária para a aquisição do que foi produzido.

O capitalismo depois de Marx enfrentou muitas crises, sendo a maior delas a de 1929, explicada por Keynes, que propôs como solução a intervenção do Estado para gerar a demanda que garantiria o pleno emprego dos fatores de produção (e sua respectiva geração de renda), compensando assim a escassez de demanda resultante do “entesouramento” das poupanças acumuladas em mãos dos capitalistas.

A teoria keynesiana resolveu muitos dos problemas econômicos dos países desde seu advento, sobretudo nos próprios Estados Unidos, onde a crise se originou, tal como agora. Até o final dos anos 70 do século passado ela norteou a ação da maior parte dos países no mundo, sobretudo nos então ditos subdesenvolvidos, levando estes a alcançar índices de crescimento inalcançáveis sob a égide exclusiva do liberalismo.

Ronald Reagan, no EUA, e Margareth Thatcher, na Inglaterra, no entanto, a partir dos anos de 1980 se encarregaram de impor ao mundo a substituição das doutrinas de Keynes pelas chamadas idéias “neoliberais”, propagadas por Milton Friedman (1912-2006), prêmio Nobel de Economia de 1976, e Friedrich A. Von Hayek (1899-1992), ambos defensores ferrenhos do afastamento completo do Estado das ações econômicas reguladoras, eis que os sistemas econômicos são tanto mais eficientes quanto mais livres. Ou seja, o mercado é soberano e capaz de resolver todo e qualquer problema que venha a ser criado por ele ou fora dele.

De lá para cá o mundo de fato experimentou uma crescente onda de crescimento, pontuada aqui e acolá por crises ocasionais e localizadas, que pouco comprometiam o progresso do capitalismo sob as leis do livre-mercado de Friedman e Von Kayek, embora já prenunciassem que ele continuava sujeito a crises.

Ocorre, no entanto, que o processo de acumulação no sistema capitalista, ainda que já não mais tão concentrado quanto previsto por Marx, nunca deixou de imperar, pois é próprio da sua lógica acumular riquezas aumentando as rendas do capital e da propriedade (lucros, juros e aluguéis) em ritmo sempre maior que o aumento das rendas do trabalho (salários), e estas comporem a grande massa responsável pela demanda da grande parte do que é produzido. A solução, pela criatividade capitalista, era pois incrementar a demanda por uma forma que mantivesse os níveis de crescimento da produção sem o risco de superprodução e sem comprometimento da acumulação: o crédito.

O sistema financeiro foi assim se sobrepondo lentamente ao sistema produtivo, e esta sobreposição levou à geração de um complexo sistema de papéis de crédito que foram alicerçando outros papéis, que por sua vez geravam mais papéis, e todos eles suportados pela certeza de que as dívidas criadas pelos primeiros seriam honradas, dando suporte a todos os demais. Quando uma pequena fagulha queimou alguns importantes primeiros papéis (os chamados subprimes das hipotecas americanas), destruindo-os, todo o sistema papeleiro começou a ruir, pois o castelo de cartas do crédito exacerbado, tal como o de cartas de baralho, só se mantém de pé enquanto todas estão firmes.

Daí a necessidade de os governos agora intervirem no sistema bancário para salvaguardar a saúde do nutriente da economia, que é a moeda, e mesmo assim ainda considerarem a hipótese de recessão, pois a recuperação dos níveis de produção só será possível e sustentável quando a repartição das rendas entre os fatores se der, em todo o mundo, sem a exagerada necessidade do crédito, que antecipa o consumo mas projeta para o futuro a redução da renda que deveria ser aplicada em novo consumo.

Mas isto também é um palpite.


Fuad Gabriel Yazbeck é economista e professor aposentado da UFJF.


Justiça (não) se faça


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A Câmara dos Deputados está evitando cumprir sentença judicial sobre fidelidade partidária, com um objetivo claro: postergar ao máximo a criação de um precedente de perda de mandato federal por troca de partido, até que o Parlamento crie uma saída para legalizar as mudanças durante um período determinado.

Para isso, se escora no falso argumento de que é preciso aguardar uma manifestação do Supremo Tribunal Federal para só então fazer valer a regra em vigor há mais de um ano.

Apoiada nessa alegação, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou nesta semana um parecer favorável à preservação do mandato do deputado Walter Brito, que mudou do DEM para o PRB no ano passado e, há sete meses, perdeu a condição de ser deputado conforme determinação do Tribunal Superior Eleitoral.

A CCJ, com o aval do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, usa de um sofisma simplesmente porque o Supremo já se manifestou a respeito. No dia 4 de outubro do ano passado, por oito votos a três, confirmou a decisão tomada em 27 de março do mesmo ano pelo TSE que dá a posse dos mandatos aos partidos e não aos candidatos eleitos.

Na essência, não há coisa alguma em aberto nessa questão. A Câmara sustenta sua posição no fato de existir uma representação do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pedindo que o STF se manifeste a respeito.

Pois bem: quando o tribunal vier a fazê-lo, a menos que o faça daqui a muitos anos quando a composição do plenário será outra, obviamente repetirá a decisão de 4 de outubro de 2007: quem mudou de partido sem motivação bem fundamentada deve devolver a vaga à legenda pela qual foi originalmente eleito.

Na época, o STF deixou claro que os casos seriam examinados individualmente pela Justiça Eleitoral à qual caberia a última palavra.

Foi o que aconteceu com o deputado Walter Brito. Mudou de partido em setembro de 2007 e passados cinco meses, em março último, o presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, determinou a perda do mandato.

Até hoje a Câmara não cumpriu a sentença e, a despeito da posição oficial do presidente da Casa de “seguir a decisão da Justiça”, não tem a menor intenção de fazer um gesto que possa criar um precedente antes da aprovação de um artifício legal para permitir as trocas e, assim, fugir à rigorosa, porém claríssima, interpretação da Justiça a respeito.

Tanto o TSE quanto o STF entenderam que os mandatos pertencem aos partidos porque, por exigência constitucional, ninguém é candidato em si; o acesso ao mandato é obtido exclusivamente por meio da legenda partidária, o que veda ao eleito o direito de dispor da delegação obtida nas urnas como bem entender.

Na primeira decisão da Justiça Eleitoral a Câmara se recusou a devolver as vagas dos trânsfugas. Os três partidos que mais tinham sofrido perdas, PSDB, DEM e PPS, entraram com mandado de segurança junto ao Supremo que confirmou a tese e remeteu o exame de cada caso ao TSE.

Determinou, portanto, que a Justiça Eleitoral teria o condão de decidir, exatamente como fez o ministro Carlos Ayres Britto em relação ao deputado Walter Brito.

Mas, como a Câmara precisa ganhar tempo, levou o assunto à Comissão de Constituição e Justiça - obviamente majoritária na posição de contornar as normas da fidelidade - no aguardo da entrada em discussão da reforma política proposta pelo Planalto.

Reforma esta cujo único ponto de consenso nos partidos governistas é a liberação geral para as trocas de partidos por um período de 30 dias, seis meses antes das eleições.

Contrapartida

O PT “recuou” da ofensiva na Câmara e resolveu apoiar a candidatura do pemedebista Michel Temer para a presidência da Casa, independentemente da posição do PMDB no Senado, contrário à candidatura do petista Tião Viana.

Considerando que a bancada de senadores do PMDB não fará a gentileza da recíproca e terá para isso todo o apoio da oposição, trata-se, em princípio, de uma trégua com prazo de validade.

O recuo é uma maneira de tentar evitar confrontos recentes entre aliados nas disputas pelo comando no Legislativo, todos eles com desfecho desfavorável ao governo, e negociar.

A oposição, claro, aposta na briga entre PT e PMDB, mas não põe nela todas as fichas porque ainda faltam dois anos para terminar o governo Lula.

Pelo manual da parceria pragmática, não é hora para rompimentos e, portanto, como há interesse de parte a parte, alguém no momento apropriado irá ceder.

Legado


Quem sai aos seus não degenera, ensina o dito confirmado pelo prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes, que anuncia a restauração da ordem pública como a prioridade de sua administração.

É a palavra de ordem da primeira campanha do atual prefeito Cesar Maia nos idos dos anos 90, quando lançou Eduardo Paes na carreira política.

Lula e a "jogatina"


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Nada mais exemplar da maneira de fazer política do presidente Lula do que a diferença entre as atitudes do governo e seu linguajar populista na atual crise financeira internacional. Ao mesmo tempo em que vocifera contra o Banco Mundial, o FMI e o sistema financeiro internacional, que teria se transformado em um verdadeiro cassino segundo suas palavras, o presidente Lula vai inserindo seu governo cada vez mais profundamente na lógica da globalização financeira. Lula reclama em público do que seria um "tratamento privilegiado" que as agências de avaliação de risco dão aos Estados Unidos ou à Inglaterra, enquanto analisam com dureza os países emergentes como o Brasil, cujo risco subiu durante a crise, mesmo com reservas de US$200 bilhões e situação fiscal equilibrada.

Mas, como em questões fundamentais de economia Lula geralmente toma a opção correta, ao contrário do que bravateia, está alimentando o tal "cassino" em parceria com o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos.

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, definiu com clareza a situação dos países emergentes se referindo a "uma certa ironia da história", a de que atualmente é mais atraente repatriar aos países altamente industrializados o dinheiro investido nos últimos anos com altos rendimentos nas economias emergentes, por causa das medidas aplicadas pelos dirigentes dos países ricos para sustentar os bancos nacionais em dificuldades.

Os EUA, como gestores exclusivos da moeda reserva internacional, colocou em ação pelo mundo um programa de liquidez nas economias necessitadas que, dentro da lógica do sistema monetário e financeiro internacional contemporâneo, faz todo o sentido, na opinião de economistas.

Os países emergentes envolvidos nessa operação - Brasil, México, Cingapura e Coréia do Sul - são os mais inseridos na globalização, alguns com elevado grau de abertura financeira e todos com mercados de derivativos muito fortes.

Em todos eles houve operações de derivativos cambiais, como no Brasil, que prejudicaram empresas. Operações realizadas pelos grandes bancos globais, que o presidente Lula criticou amplamente, primeiro fazendo a acusação errada, de que estariam apostando contra o Brasil.

Constatado o erro, já que empresas como Aracruz e Sadia perderam muito dinheiro justamente porque apostaram na manutenção do real valorizado, Lula passou a criticar genericamente a "especulação". Só não explicou que os perdedores foram basicamente empresas nacionais, e a maioria dos ganhadores está no exterior.

Com a linha aberta pelo Fed, o governo Lula agora estará ajudando os estrangeiros que ganharam "na jogatina do cassino" a levarem seus recursos e lucros para o exterior. O que faz parte do jogo que estamos jogando, e não do jogo que Lula finge jogar.

Essas operações, que o Fed já faz desde 1961 e agora chegaram ao Brasil, não podem ser classificadas como empréstimos, pois não envolvem pagamentos de juros.

A linha para o Brasil tem validade de 6 meses. As moedas estrangeiras ficam depositadas no Fed e não são objeto de negociação, e, no caso do Real, seria inútil tentar vendê-los, por falta de comprador, pois nossa moeda não é conversível. Na definição em economês, trata-se de um contrato para troca de moedas, um mecanismo estabilizador das taxas de câmbio, em relação ao dólar.

Desde o início da crise o Federal Reserve aumentou para US$900 bilhões seus acordos de troca de moedas com dez bancos centrais (Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Nova Zelândia, Japão, Noruega, Suécia, Suíça e Banco Central Europeu) para ampliar a liquidez em dólares nos mercados financeiros globais.

Estão dando liquidez em dólar, para garantir a passagem dos investidores que desejam reconverter seus investimentos para o dólar - e, assim, podem estabilizar as moedas, sem grandes desvalorizações.

Ao contrário dos antigos acordos com o FMI, não há condicionalidades nesses acordos com o Fed, o que tira deles um estigma político. A revista inglesa "The Economist" noticiou em sua recente edição sobre a crise nos países emergentes que vários desses países procuraram o Fed em busca de apoio de liquidez, evitando ir ao FMI, que seria o canal mais adequado, mas politicamente inaceitável para alguns países.

Um desses países foi a Coréia, e por isso o Fed montou uma operação casada com o FMI, que, por sua vez, abriu sua linha de crédito para países de economia mais fraca e que não estavam em condições de bancar exigências ou ter pruridos políticos. Nesse ponto, o Brasil teve vantagens, pois pôde ser tratado como membro importante para o sistema internacional.

Mas, o que o Fed está fazendo, ao aprofundar a integração dos sistemas financeiros nacionais desses países emergentes com o sistema internacional, é inviabilizar que o agravamento da crise propicie o fortalecimento de forças políticas que defendam uma ruptura e a introdução de controles de capitais, por exemplo.

No caso do Brasil, essa intervenção é mais sintomática porque o país é o único cuja moeda não é conversível, e mesmo assim foi incluído no programa pelo tamanho da economia, mas talvez também pelo tamanho do problema de derivativos.

O volume de contratos de câmbio em aberto é de US$50 bilhões, segundo os dados oficiais da BMF. Não é tudo perda, mas é o tamanho da jogatina, como diria Lula. (Continua amanhã)

A escolha de Lula e a de Chávez


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - A Cúpula Ibero-americana, encerrada ontem em El Salvador, acabou servindo para criar uma brecha profunda entre, de um lado, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado pela imensa maioria dos participantes, e o duo Venezuela-Bolívia.

Não que já não houvesse divergências grandes de modelo, mas a crise internacional tornou necessário olhar para a frente e decidir se é preciso reformar o capitalismo ou dá-lo como morto.Chávez, mesmo não tendo comparecido à cúpula, pronunciou-se, a propósito dela, no segundo sentido.

"O sistema capitalista sob o impulso do império norte-americano se acabou, entrou em colapso, é preciso criar um novo", disparou.

Evo Morales, da mesma forma, deixou claro que não está de acordo em ajudar a salvar o capitalismo.

Lula, bem ao contrário, está até ansioso para participar de todos os esforços para reformar e, portanto, preservar o capitalismo.

Os líderes presentes à Cúpula assinaram, aliás, documento em que manifestam o desejo de "participar e contribuir ativamente para um processo de transformação profundo e amplo da arquitetura financeira internacional, que estabeleça instrumentos de prevenção e resposta imediata ante futuras crises e garanta uma regulação eficaz dos mercados de capitais".

Posto de outra forma, querem melhorar o sistema que existe, mas não "criar um novo", ao contrário do que pede Chávez.

Nada impede -e é até saudável- que haja enfoques diferentes sobre a maneira de organizar o mundo, em especial depois de uma crise grave. O problema começa quando se pensa em mais integração regional como uma das respostas à crise, como pretende Lula. Integrar-se pressupõe remar numa mesma direção. Cada um correndo para um lado torna ainda mais difícil sair da crise com o menor número possível de feridas.

Eleição imprevisível


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


WASHINGTON - Prever resultado de campanhas eleitorais é arte traiçoeira. Essa tentação deve ser evitada, sobretudo em uma disputa tão complexa e aberta como a norte-americana. Há inúmeros elementos à disposição apontando em sentidos opostos.

O cenário de superfície mostra uma onda a favor do democrata Barack Obama. Por essa lógica, o republicano John McCain estaria marcado para uma derrota sem precedentes na terça-feira.

Só 25% aprovam o governo de George W. Bush, republicano como McCain. A Guerra no Iraque continua um pântano para a Casa Branca. A crise internacional empurra a economia para um buraco sombrio como não se via em décadas.

Quando McCain olha do outro lado do muro, poderia começar a chorar. Obama já gastou US$ 270 milhões em comerciais contra apenas US$ 125 milhões do republicano.

Quem anda nas ruas das grandes cidades percebe fácil: o entusiasmo está do lado do democrata.

Mas eis um fato curioso. As pesquisas não mostram um massacre pró-Obama. Sobretudo porque, por algum motivo obscuro, as margens de erro nos EUA são generosas. Em levantamentos estaduais é comum haver margens de três a quatro pontos percentuais. Assim, estar cinco ou seis pontos à frente não garante muita coisa.

Os indecisos, perto de 8%, são um enigma à parte. A maioria é composta por gente mais velha, de classe média baixa, muitos na zona rural. A América profunda. Não têm o perfil pró-Obama. Seriam, argumentam os republicanos, os envergonhados dispostos a votar no candidato branco na última hora.

Tudo somado, Obama de fato parece estar à frente. Mas não há ainda como assegurar que já tenha encaçapado a vitória. Só saberemos na terça-feira à noite -ou depois, dado o histórico de lentidão na apuração dos votos por aqui.

A renúncia de Jânio leva à ditadura


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Brasília tem pouco ou nada a ver com a renúncia de Jânio Quadros, que abriu o caminho para os 21 anos da mais longa ditadura da nossa tumultuada crônica republicana. Como não tenho a pretensão de fazer História, guio-me pelos passos das pernas curtas e rápidas do meu saudoso amigo Carlos Castello Branco, titular desta coluna no JB , até seu último dia de vida, e que foi assessor de imprensa de Jânio, além de ser o maior repórter político da minha e de todas as gerações.

Nas 132 páginas do seu insubstituível livro A renúncia de Jânio, na edição de 1996 da Editora Revan, o Castelinho disseca a renúncia com a isenção do repórter, a sagacidade do analista e o texto do escritor e acadêmico. Começa depondo desde a manhã do dia 25 de agosto de 1961. Depois da noite insone, um funcionário do Palácio do Planalto sussurrou-lhe que algo ocorria: José Aparecido de Oliveira, secretário particular do presidente, ordenara-lhe retirar documentos importantes e arrumar toda a papelada. Pouco depois, chegou Aparecido e deu a notícia: o presidente renunciou. Já está voando para São Paulo.

Jânio telefonara às cinco da manhã a Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil, e anunciou que tomara uma decisão. Pediu que seguisse para o Palácio e convocasse o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar. Ambos foram comunicados da renúncia.

De volta ao gabinete do Planalto, reuniu os cinco para as sumárias explicações: "Renunciarei agora à Presidência. Não sei assim exercê-la". E finaliza, caprichando na ênfase: "Ela me diz que a melhor fórmula que tenho, agora, para servir ao povo e à pátria, é a renúncia".

Jânio convocou os ministros militares para a comunicação oficial. Pouco depois chegam ao gabinete os ministros da Guerra, general Odílio Denys, da Marinha, almirante Sílvio Heck, e da Aeronáutica, brigadeiro Grum Moss. Jânio repetiu em poucas palavras o relato aos secretários e ao ministro da Justiça.

O brigadeiro Moss tentou o apelo ao bom senso: "Presidente, não faça isso". No que foi secundado pelo almirante Heck: "Este é o maior golpe que sofro na minha vida". O general Denys foi mais longe: não faltava ao presidente o apoio das Forças Armadas, que ali estavam na pessoa dos seus chefes para prestigiá-lo e obedecer a suas ordens. Entendia as dificuldades, mas o presidente devia saber que "esse moço" (clara referência a Carlos Lacerda) é assim mesmo. O marechal Denys pediu que o presidente ordenasse as providências, que elas seriam tomadas: intervenção na Guanabara, fechamento do Congresso. E entrou direto no ponto crucial que desencadearia a crise militar: o governo da República não poderia passar às mãos de João Goulart. Acontece o inacreditável: Jânio intervém e cala os ministros: "Poupem-nos esses constrangimentos, quando nada em homenagem ao meu gesto. Minha decisão é definitiva".

Ora, se os três ministros militares tinham a plena convicção de que a renúncia, sem explicação minimamente verossímil, lançaria o país no torvelinho de uma gravíssima crise, com risco de uma guerra civil, e eles ali estavam com a responsabilidade de preservar a ordem pública e o regime democrático, era transparente a prioridade de, a qualquer preço, evitá-la até as últimas conseqüências para cortar pela raiz a manobra golpista.

Desde o crescente apelo até a virtual detenção do presidente desmiolado. Ou do apelo ao Congresso para não conhecer o documento presidencial antes de um exame de sanidade mental. Se o constrangimento dos ministros é compreensível, a clara percepção da crise militar e política que a fuga de Jânio deixaria como herança exigia e justificava a crescente reação que impedisse a jogada tantas vezes executada como governador de São Paulo. Desde a clara recusa à renúncia, por decisão dos três ministros, ao cerco militar do Palácio para evitar a fuga pela porta dos fundos.

Nunca a passividade, a rendição, o aturdimento da surpresa.

Mais tarde, o bravo senador João Agripino, da UDN paraibana, confessou que procurou encontrar o ministro da Justiça, Pedroso Horta, para tentar pegar o papelucho da renúncia e sumir com ele.

E teria mudado o curso da História.

Mas a nossa conversa não termina aqui.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1134&portal=

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A derrota de Gabeira


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Os votos de Paes devem ser na sua maioria os votos dos pobres (principalmente dos pobres evangélicos) e dos menos instruídos. Isso não desqualifica e nem qualifica
Quando Fernando Gabeira(PV) começou a crescer nas eleições para prefeito do Rio de Janeiro, percebi que chegaria ao segundo turno atropelando os demais concorrentes à esquerda e à direita, no rastro de Eduardo Paes (PMDB). A esquerda carioca é forte como movimento de opinião; seus partidos, porém, são fracos. Sempre se agrupam em torno daquele candidato que representa seus interesses numa circunstância determinada. Foi assim na eleição do embaixador Negrão de Lima (PSD), em 1965, quando a antiga Guanabara votou pela primeira vez contra o regime militar; e na eleição de Saturnino Braga (PDT), um político de Niterói, na primeira eleição da prefeitura da capital após a fusão com o antigo estado do Rio, em 1985.

Suburbanos

Como faço parte de um grupo de ex-alunos da Universidade Federal Fluminense que reorganizou o movimento estudantil carioca no final dos anos 1970, acompanhei pela internet a polêmica da nossa “Armata Brancaleone” em torno do “voto útil” em Gabeira no primeiro turno, cujo principal propósito foi remover o senador Marcelo Crivella (PRB) da disputa. Depois, no segundo turno, quando o PT, o PCdoB, o PSB e o PDT aderiram a Eduardo Paes, muita gente começou a questionar o voto em Gabeira por causa do apoio que recebeu do prefeito Cesar Maia. Essa discussão não mudou o voto de quase ninguém, apenas reforçou os argumentos a favor de Gabeira. O que barrou a sua ascensão, na minha perspectiva aqui de Brasília, foi a desastrada conversa por celular na qual Gabeira chamou de suburbana uma vereadora tucana de Campo Grande, fato que Paes soube transformar num eficiente divisor de águas.

Após as eleições, não resisti à tentação de provocar um querido amigo, um dos protagonistas dos debates, o professor de história Silas Ayres, ex-militante do antigo “Partidão”, hoje um tucano de carteirinha, que mantém o grupo unido pelo papo agradável e pluralista, a gastronomia e a dança de salão. Logo após a apuração, mandei-lhe um e-mail curto e grosso: “Gabeira perdeu por causa do preconceito pequeno burguês de carioca da Zona Sul. Aquele ‘suburbano’ foi um tapa na cara de quem já balançou num trem da Central ou da Leopoldina. Dinamitou a ponte para os subúrbios cariocas. Vamos ver a votação por região da cidade para conferir. A tradição é a esquerda ganhar do Grajaú ao Leblon.”

Preconceitos

Silas, que morou em Pilares durante 25 anos, não gostou: “Não foi isso que deu a vitória ao Paes, apesar de achar que você tem razão nas duas afirmações; a de que existe preconceito contra o suburbano e de que a esquerda tem voto do Leblon ao Grajaú.

Paes ganhou pelo preconceito existente contra homossexuais, contra prostitutas, contra a luta pela legalização da maconha, do preconceito contra o aborto em situações extremas. Ganhou pela campanha negativa baseada em boatos e mentiras. Ganhou por causa do poder econômico e da corrupção. Ganhou pelo poder do uso da máquina. Ganhou pelo aumento da abstenção provocada por decreto do governador dando feriado nesta segunda-feira. Ganhou pelo medo que uma novidade provoca no eleitor.

Ganhou também porque muitos acreditam sinceramente nas propostas do PMDB. Ganhou porque muitos acharam que Paes ganhando fortaleceria o Serra e isso não queriam. Ganhou porque muitos também acreditam que Paes e Gabeira não têm diferença nenhuma e votaram nulo ou em branco. Enfim, Paes ganhou por muitas razões que se conjugaram no momento da deposição do voto na urna.


Concordo com você que é preciso analisar a votação pelas áreas, a conferir, mas acho que não haverá muita surpresa.Os votos do Paes devem ser na sua maioria os votos dos pobres (principalmente dos pobres evangélicos) e dos menos instruídos. Isso não desqualifica e nem qualifica os votos desses segmentos. Só comprovam que eles têm interesses diferentes dos que votaram no Gabeira. São esses interesses legítimos, de ambos os lados, que devem ser alvo de nossas reflexões para solidificarmos a nossa democracia e avançarmos no rumo de uma sociedade mais justa. Um abração”, escreveu-me Silas.

Respeito a avaliação do bravo comandante-em-chefe da nossa “Armata”, mas ainda acho que aquele “suburbano” pejorativo custou os votos que faltaram a Gabeira para ser o novo prefeito do Rio, apesar do seu pedido de desculpas.

O dilema do novo prefeito


Zuenir Ventura
DEU EM GLOBO


Pensando bem, acho que foi melhor para o Gabeira. Eleito, além de governar a cidade, ele teria a difícil tarefa de administrar a esperança e o sonho de seus eleitores. Já o seu oponente passará os próximos quatro anos pagando promessas. Elas são mais de 80, 20 por ano, quase duas por mês, e tudo debaixo da cobrança implacável de pelo menos metade do município. A vitória política do candidato verde foi bem maior do que a apertada derrota eleitoral. Só por fazer renascer no jovem a motivação política, ele já seria vitorioso. Mas, além disso, inaugurou uma nova maneira de fazer campanha eleitoral, recuperando valores éticos que pareciam fora de moda como sinceridade, transparência e limpeza, não só material.

Ao comemorar a vitória, Eduardo Paes elogiou a "lealdade" do adversário. Nem sempre houve reciprocidade. Inteligente e articulado, sua campanha não precisava ter apelado para golpes baixos como os folhetos apócrifos e o uso da máquina governamental. No debate da TV Globo, chegou a ser patética a obsessão com que trazia Cesar Maia para a cena, lembrando curiosamente em estilo e retórica o próprio personagem citado. Aquele espetáculo de criatura se voltando contra o criador com tamanha fixação só Freud explica. Às vezes deixava de mimetizar Maia para lembrar o Garotinho das pegadinhas e cascas de banana. Foi pena. A disputa poderia ter sido exemplar. Livre do risco maior no primeiro turno, a cidade ficou mais à vontade para escolher entre dois candidatos que a rigor tinham idéias e propostas de governo que se equivaliam. A diferença era de estilo e atitude. Houve quem tivesse votado em Paes não por rejeição a Gabeira, mas por achar que o candidato do PMDB era "o mais bem preparado", como ele próprio anunciava e agora vai ter que provar.

Eduardo Paes tem tudo para fazer um bom governo - e para fazer um governo ruim. Por um lado, deverá ter o que tanto apregoou - a parceria dos governos federal e estadual - e competência administrativa. Por outro lado - e esse será o seu grande desafio -, vários de seus apoios, alianças e ligações representam o lado, digamos, menos nobre da política carioca. Como resistir à pressão deles? A fatura será apresentada. Essa gente não brinca em serviço.

A esperança é que, aos 38 anos, ambicioso e com um futuro promissor, o jovem prefeito saiba escolher entre continuar uma tradição de governantes que saem do poder para o lixo da História, ou começar uma nova era. Na sua primeira aparição como prefeito, Paes prometeu que a partir do dia seguinte iria unir a "cidade partida" - que já era partida socialmente e agora é politicamente. Foi mais uma promessa, a primeira como prefeito, a 84ª da série. Estaremos na torcida para que seja cumprida.

PPS perde terreno e aposta em Serra para voltar a crescer

Eugênia Lopes, BRASÍLIA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Manter aliança com o PSDB é esperança para reverter fraco desempenho nas eleições

O PPS vai apostar todas as suas fichas na candidatura do governador José Serra (PSDB) à Presidência, em 2010, para voltar a crescer. É com essa perspectiva que espera reverter o quadro das eleições municipais, quando elegeu 57,1% menos prefeitos do que em 2004. Mesmo diante desse desempenho, a cúpula do partido descarta a curto prazo a hipótese de fusão ou incorporação a outra sigla.

“Fusão ou incorporação é uma possibilidade que tem relação com uma eventual reforma política que impossibilite a nossa sobrevivência”, disse o líder do PPS na Câmara, Fernando Coruja (SC). Ao garantir que não está nos planos a associação a nenhuma outra legenda, o presidente do PPS, Roberto Freire, observou que o partido sofreu defecções desde que deixou de apoiar o governo Lula, em dezembro 2004. Dos 310 prefeitos eleitos há quatro anos, apenas 84 permanecem no PPS até agora.

“Por isso digo que tivemos um crescimento de 54%: pulamos de pouco mais de 80 prefeitos para 132 agora eleitos”, explicou Freire, referindo-se ao resultado das urnas deste ano. “O PPS não está minguando. Mas também não vou dizer que tivemos grande vitória.” Nenhuma das 132 cidades conquistadas pelo partido tem mais de 200 mil eleitores.

Tanto Freire quanto o secretário-geral do partido, Rubens Bueno, alegam que o PPS foi a legenda que mais perdeu políticos ao romper com o governo. Dois governadores deixaram a sigla - Eduardo Braga, do Amazonas, e Blairo Maggi, de Mato Grosso. O partido também começou a minguar com a saída do hoje deputado Ciro Gomes (PSB-CE), além do prefeito reeleito de Porto Alegre, José Fogaça, que foi para o PMDB. Em 1998 e 2002, Ciro foi candidato à Presidência pelo PPS. Com sua derrota, o partido passou a apoiar Luiz Inácio Lula da Silva, mas deixou o governo em 2004.

“Pagamos um preço por romper com o governo Lula”, observou Bueno. “Toda oposição sofre sempre. Todos os governos se transformam em majoritários”, ponderou Freire. As perdas do PPS vêm ocorrendo ao longo dos últimos anos e não se restringem às prefeituras: em 2006, o partido elegeu 24 deputados e hoje conta com apenas 14.

Criado em 1993, o PPS está decidido a manter a aliança com o PSDB e o DEM. “A eleição agora é 2010 e o caminho natural é mantermos o bloco com o PSDB e o DEM”, resumiu Bueno. “Nosso projeto político é apoiar a candidatura do governador José Serra. Essa é uma possibilidade concreta para o PPS voltar a crescer”, ressaltou Coruja.

O fator econômico


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Na geografia peculiar dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto, parece que somente agora as más notícias cruzaram o Atlântico aqui para o nosso lado e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já admite que a crise será longa e deixará seqüelas. Também o presidente do PT, Ricardo Berzoini, pede juízo ao PMDB e lembra que a base aliada do governo tem uma crise econômica para enfrentar no próximo ano. Os resultados das eleições municipais, mesmo que não tenham uma ligação direta com as eleições nacionais, serviram para expor alguns fatos que certamente terão conseqüências no arranjo futuro das alianças políticas.

O presidente Lula, que pretendia usar as eleições para fortalecer sua base aliada, mostrou que acredita mais em alianças políticas do que o PT. Deu espaço para todos crescerem, não tentou interferir nos locais em que partidos da base disputavam o mesmo espaço e tentou ajudar os aliados onde o partido se batia contra a oposição.

Talvez convencido de que sua popularidade de 80% seria o bastante para eleger quem ele quisesse, se deixou levar pela disputa pessoal com o líder do DEM, senador José Agripino, e foi a Natal tentar derrotar Micarla de Souza, a candidata do PV que tinha o apoio do DEM.

Tão desatento à possibilidade de colocar em xeque sua capacidade de transferir votos, disse expressamente que estava ali para derrotar Agripino e, como não conseguiu eleger a candidata do PT, acabou tendo que engolir uma vitória de seu inimigo preferencial, transformando Agripino em um vitorioso emblemático.

O caso de Marta Suplicy em São Paulo era inevitável, o presidente não tinha como não entrar de cabeça na eleição da capital. Mas podia ter evitado falar demais, e nem precisava garantir que a candidata do PT venceria mesmo quando já estavam dadas as condições para uma vitória acachapante do prefeito do DEM.

Nesses dois locais, o presidente Lula transformou o DEM em seu adversário principal, e perdeu. A partir dessa crise econômica que relutou em aceitar como realidade nossa, o presidente Lula estará enfrentando sua verdadeira prova de fogo.

Tendo assumido com uma aprovação de 75%, registrados em abril de 2003, Lula amargou durante seu primeiro governo duas crises graves de popularidade, sempre com questões ligadas à corrupção: a primeira em 2004, devido ao caso Waldomiro, e a segunda um ano depois, no "mensalão".

Em ambas as ocasiões, a avaliação de seu governo caiu a cerca de 20% na soma "ótimo+bom", mas a situação econômica era diferente. Em 2004, a economia cresceu 5,7% e os efeitos da crise se dissiparam logo.

O caso do mensalão, além de ter sido mais grave, ocorreu em um ano em que a economia caiu para um crescimento de apenas 2,9% do PIB, e sintomaticamente a crise levou seis meses para se dissipar, e quase afeta a capacidade de Lula concorrer à reeleição.

O percentual dos que não confiavam em Lula oscilou negativamente, de 52% em agosto para 51% em setembro, enquanto o daqueles que nele confiam passou de 43% para 44%. Há relatos recentes que revelam que os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, chegaram a propor a Lula que fizesse um acordo com a oposição, se comprometendo a não se candidatar à reeleição para não arriscar perder o mandato.

A recuperação da popularidade de Lula mostra quão resiliente ele é, mas se ocorrer uma queda do crescimento do PIB como está sendo previsto devido à crise internacional, de uma média acima de 5% nos dois últimos anos para cerca de 2% a 3% nos próximos anos, será um teste para sua liderança carismática mas, sobretudo, para seu ego.

Será preciso ver para crer Lula com sangue frio para resistir à tentação de manter o crescimento econômico através de medidas de incentivo ao consumo interno, e se contentar em encerrar seu segundo mandato com a economia declinante.

Se, mesmo com esse cenário, o presidente Lula ainda tiver força política para conseguir eleger seu sucessor, sem que seja um político de luz própria, será o caso de a oposição desistir de se opor a esse fenômeno político.

O presidente Lula tem no momento 81% de aprovação, o mesmo índice de aprovação que o ex-presidente José Sarney atingiu em abril de 1986, e em julho do mesmo ano chegou a atingir pelo Ibope a inacreditável marca de 97,5%, no auge do Plano Cruzado. Mas amargou raquíticos 9% de apoio no final de 1988.

O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, teve a breve duração de 9 meses, mas ajudou o governo a ter a maior vitória eleitoral da história da República, no dia 15 de novembro daquele ano: o PMDB elegeu a totalidade dos governadores, e quase dois terços da Câmara e do Senado e das Assembléias Legislativas.

O jogo virou logo depois da eleição, com a edição do Plano Cruzado II, que trouxe aumentos brutais como 60% no preço da gasolina; 120% dos telefones e energia; 100% das bebidas; 80% dos automóveis; 45% a 100% dos cigarros.

Já a popularidade de Fernando Henrique Cardoso chegou a 75% no ano da posse do primeiro mandato, em 1995, e girou sempre em torno de 40%, permitindo que se reelegesse no primeiro turno. Mas, logo após a posse, em 1999, a desvalorização do real e os problemas econômicos levaram a uma queda de seu prestígio popular que permaneceu até o final.

A avaliação do desempenho de Fernando Henrique Cardoso piorou em agosto de 2002, em plena campanha eleitoral para a sua sucessão, com 49,6% desaprovando o seu desempenho. A economia é determinante na política em qualquer país. O ex-presidente George Bush pai chegou a ter mais de 80% de aprovação depois da Guerra do Golfo, e perdeu a reeleição para Bill Clinton por causa da economia, estúpido.

O infiel da balança


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A dinâmica eleitoral obedece mais ou menos à lógica das escolas de samba: quando um carnaval termina, os barracões engatam de imediato os preparativos para o próximo desfile.

Os principais partidos, PT, PSDB e PMDB, estão assim. Os ossos ainda nem foram contados, as feridas estão quase todas abertas, há cadáveres mal sepultos por todo lado, mas a próxima eleição já põe os três em estado de total estica e puxa.

Na realidade, petistas esticam e tucanos puxam, porque o PMDB, tranqüilo, tamborila sobre a mesa (de negociações?) os dedos da vitória como quem diz, ao molde do velho ACM, que eleição sem ele agora mesmo é que não vale.

E não se fala aqui apenas da presidencial, pois o partido está com tudo também nas disputas pelo comando da Câmara e do Senado. Com uma diferença crucial: no Legislativo ambiciona à ocupação das presidências, enquanto no Executivo pretende continuar sendo um coadjuvante mais e mais privilegiado.

Quem ouvir um pemedebista falando em candidatura própria para 2010 estará diante de um ilusionista ou de uma voz isolada. No conjunto, o interesse partidário é se firmar no lugar de parceiro cobiçado pelas forças de governo e oposição, ficando assim nesse lá e cá alternando desequilíbrios ao sabor das melhores circunstâncias.

Não adianta cobrar nem tentar adivinhar definições desde já. Oficialmente, o PMDB continua um parceiro fidelíssimo do governo Luiz Inácio da Silva, entre outros motivos porque não há razão para abrir mão de dois anos de proveitosa convivência com o poder.

Situação que não o impede de conversar com tudo e todos, se aliar ora com um ora com outro sem sofrer por causa disso nenhum tipo de admoestação nem correr qualquer risco de perder seus postos federais.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, tentou até simular autoridade sobre o companheiro de aliança quando pede a petistas e pemedebistas que tenham “juízo” na manutenção de uma política de boa vizinhança. Pura cena. Se alguém precisa de bom senso é o PT para não se atritar com o PMDB mais do que já se atritou na eleição municipal.

Em caso de dúvida, basta lembrar que foi o PMDB e não o PT quem impôs ao presidente Lula o roteiro dos palanques proibidos durante a campanha e, no fim, ainda comemorou junto com o PSDB a acachapante derrota sofrida pelo PT em São Paulo, enquanto o Palácio do Planalto assistia a tudo bem calado.

Não por gesto de espontânea elegância, mas por absoluta falta de alternativa.

Correção de rumo

Os receios sobre os efeitos eleitorais da crise financeira de modo geral se justificam. Só extrapolam o limite do razoável quando dão às dificuldades um caráter de ineditismo.

Nos últimos anos, o Brasil só passou por eleições em ambiente de tranqüilidade na economia em 2006. Em 1994 o Plano Real era um experimento, em 1998 a política econômica foi virada do avesso, em 2002 a vitória próxima do PT fez retroceder os bons indicadores e, antes disso, a inflação presidiu todos os pleitos.

De dois dias para cá, o governo federal caprichou no pessimismo em relação aos efeitos da crise. Como nada aconteceu de novo nesse meio tempo, parece estratégia para inversão de expectativas, fruto do evidente mau conselho dado pelo excesso de otimismo em relação ao resultado das eleições municipais.

Infalível

Muito mais significativo que listas de vencedores e vencidos - cuja validade depende das circunstâncias - é o efeito de vitórias e derrotas sobre determinadas situações partidárias.

O fracasso de Marta Suplicy fez desaparecer aquele clima de carinho da primeira fase da campanha em que a então candidata exibia contente o “companheiro Lula” como o melhor cabo eleitoral para chamar de seu.

Hoje o ambiente é de puro fel, com troca de acusações e caça a culpados inexistentes quando Marta saía pelas ruas cantando e dançando, confiante, ironizando as brigas internas no campo adversário, indiferente ao enorme índice de rejeição que já lhe dava notícias sobre as agruras a serem produzidas pelas urnas.

Do lado contrário, o sucesso de Gilberto Kassab deu sumiço às animosidades entre os tucanos que durante mais de seis meses produziram um espetáculo de autofagia cheio de cenas de insultos, mau-caratismo, cinismo, cobiça, traição e zero grau de compostura.

Agora o recinto recende a mel. Todos são amigos, defensores empedernidos de Kassab, seguidores fiéis da candidatura José Serra, analistas de primeira hora sobre “o inequívoco” fortalecimento do governador de São Paulo, até outro dia alvo de criteriosa desqualificação por parte dos mesmos personagens.

Mais que inerente à atividade política, o oportunismo é atinente à natureza humana. E esta, se por vezes tarda, nunca falha.

Jogando conversa fora


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Como é perfeitamente natural e se repete a cada eleição, uma vez divulgados os resultados, as rodas de conversa fiada de candidatos vencedores ou derrotados, de parlamentares e de toda a miuçalha que cata vantagens à sombra do poder, gastam o tempo vadio na interminável análise e especulação sobre as mudanças no cenário e as projeções sobre o futuro próximo e o mais remoto, até onde a imaginação alcance.

Não se pode dizer que é tempo perdido por quem não acha nada de útil para fazer. O que ainda cutuca a curiosidade é a ênfase da voz impostada para os círculos em torno de coisa nenhuma.

Os jornais de ontem, como certamente os de hoje, os noticiários das redes de televisão insistirão em abrir colunas para o realejo do óbvio. Pior para o óbvio do interesse de cada um.

Francamente, não é preciso ser um analista de refinada sabedoria, um poço sem fundo da experiência de décadas de militância para recolher na beira da praia as conchas de evidências como a ascensão do governador de São Paulo, José Serra, como candidato natural das oposições – se unidas pela prioridade de ganhar a eleição para depois se engalfinhar pela divisão do bolo.

E na mesma batida da mediocridade, colocar quase no mesmo degrau do pódio o governador Aécio Neves, que deu um nó no azar e elegeu o prefeito de Belo Horizonte.

Saltita a dúvida que continua atormentando o coração dos donos do PMDB, o maior partido do país, a legenda mais votada, com a maior bancada nas duas Casas do Congresso e como que engessada pela acomodação na mediocridade deve seguir na sina de contentar-se com os nacos suculentos e as sobras do poder?

Nunca se sabe se, falando sério ou apenas blefando para melhorar o butim, as lideranças de sempre falando grosso, pretendem bater chapa e eleger os presidentes da Câmara e do Senado.

É ver para crer.

Do lado do governo, há pouco a comemorar. O PT cresceu para baixo, elegendo prefeitos em seis capitais e em 558 municípios. Mas, a derrota da sexóloga Marta Suplicy, com a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) para a capital de São Paulo, é uma bota de chumbo que a ministra-candidata Dilma Rousseff terá que arrastar, daqui a dois anos, na campanha para a sucessão do presidente Lula, ao fim do seu reinado de oito anos, com longínqua chance de mais um ou dois mandatos em 2014 ou 2018.

Mas, é aqui no Rio que os primeiros acenos depois da apertada eleição de Eduardo Paes, o prefeito eleito por uma coligação em que se dissolve a legenda, salpicam advertências no cenário de verdes esperanças.

O cacoete de tentar escalonar prioridades para os desafios de uma ex-capital do país, abandonada à decadência de todos os serviços públicos, que inchou como uma desenganada doente de obesidade mórbida, precisa ser denunciado, com o grito que desperte a reação do eleitor, antes que seu voto se perca mais uma vez.

Claro, que para onde se volte os olhos, as chagas estão à vista: na saúde pública, na rede escolar, na segurança, no transporte, em qualquer das centenas de favelas.

E o Rio é o retrato ampliado de praticamente todos os municípios fluminenses. Como de quase todos os Estados, com as exceções conhecidas.

Ainda há tempo de salvar o Rio? Não arrisco um palpite. O que é evidente é que é indispensável tentar. Durante décadas, que são segundos na vida de uma cidade, assistimos de olhos fechados às favelas serem dominadas pelo tráfico de drogas e invadidas pela maior migração interna do século.

Tudo ao ritmo da mais descarada demagogia. E é desesperante o risco de mais uma frustração, que arranha a porta de tábuas rachadas e fechadura sem chave.

Para quando o carnaval passar


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

De imediato, não será, como nunca foi o tempo de ação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para este tipo de providência. Critério pré-definido, não existirá, e quem forçar vai irritar o chefe. Pode não haver desejo, mas reconhecimento da necessidade. Assim, a cautela recomenda não esperar reforma ministerial abrangente, muito menos agora, no calor das mágoas eleitorais e antes do Natal, como o presidente não gosta. Mas quando o ano novo chegar, após as eleições das Mesas da Câmara e do Senado, em fevereiro, com a definição sobre o que será o governo nos dois anos finais de mandato do presidente Lula, ficará evidente a exigência de ser feito um arranjo na tropa governista para armar as batalhas da sucessão. O presidente já tem, e terá ainda mais, razões de sobra para trocar peças do seu governo. E vai fazê-lo.

O que se tem dito hoje não conta. Alguns políticos com acesso ao presidente informam que ele não fará reforma ministerial nenhuma. Outros comentam que haverá "mudanças pontuais", mas derrotados não receberão posto. Um critério, por sinal, que nunca foi o do presidente Lula. Ele formou seu primeiro staff praticamente só com derrotados.

Há um consenso nas informações: Marta Suplicy (PT), derrotada na disputa da Prefeitura de São Paulo, não voltará ao governo, "de onde saiu por sua conta e risco" para uma empreitada incerta. Ora, o presidente não desestimulou sua candidatura, empenhou-se pessoalmente para elegê-la, e o PT não tem nomes novos sobrando no Estado para produzir candidaturas em futuro próximo. Não se consegue perceber por que vai rifar a Marta, que ainda tem milhões de votos, deixando-a sem palanque durante dois anos inteiros, nem que seja para tentar, por exemplo, uma cadeira no Senado.

Haverá também a pressão do grupo de petistas mais próximos a ela para que lhe seja destinado um cargo que permita a exposição máxima. Provavelmente não retomará o Ministério do Turismo. Mas uma solução virá. Para formar novos nomes do partido em São Paulo, o governo federal não pode se dar ao luxo de desprezar os já conhecidos, e Marta é o que restou de mais importante.

Como seus principais adversários do PSDB, que também precisam consolidar nomes para as novas disputas, o governo registra que tem algumas promessas para o futuro. Luiz Marinho, prefeito eleito de São Bernardo depois da campanha mais rica de toda a sucessão municipal, é um emergente que terá apoio para se transformar em opção. Emídio de Souza, a partir de Osasco, é outro nome nos planos prospectivos do presidente Lula. Há os que já eram citados antes, como Arlindo Chinaglia, hoje na presidência da Câmara mas fora dela no ano que vem, e José Eduardo Cardozo, secretário geral do PT. E, sempre, Antonio Palocci. Se absolvido, Lula vai levá-lo de volta ao governo, confirmou isto para mais de um interlocutor, e não necessariamente como ministro da Economia. Em qualquer ministério que esteja, Palocci freqüentará o centro do poder, o Palácio do Planalto, como já faz hoje. Mas ganhará um posto formal.

Há outros emergentes no partido do presidente que precisam de foco. Fernando Pimentel, revigorado com a eleição de um afilhado desconhecido no segundo turno, em Belo Horizonte, e desde o início um entusiasta da candidatura Dilma Rousseff à sucessão de Lula, não merecerá o ostracismo. Há o PT da Bahia, um caso especial, que não dá mostras de arrefecimento na sua competição com o PMDB local. O tamanho e profundidade da ruptura que houve ali entre os dois partidos aliados a Lula, só o presidente poderá reparar. O PMDB venceu, mas o feito do PT foi enorme ao chegar ao segundo turno desbancando o tucanato e o carlismo. Como vai se sustentar este PT para pleitear a reeleição ao governo do Estado, uma vez que a derrota desqualifica Jaques Wagner para a sucessão presidencial, é algo que exige ajuda do processo político e eleitoral que o presidente toca.

O PT revelou outras estrelas, como Luizianne Lins, no Ceará, e João Paulo, em Pernambuco, mas, vitoriosos, terão palanques naturais nestes próximos dois anos para seu grupo. Não se sabe de onde o presidente tirará mais cargos para todo o PT, mas o partido pressiona até com as vagas do Tribunal de Contas da União, instância que quer enquadrar às suas regras e projeto.

O PMDB volta com uma sede correspondente ao sucesso eleitoral que teve. Já começa querendo mais no Congresso, onde senadores anunciam que, além da presidência da Câmara, que o PMDB terá por acordo, o partido faz questão da presidência do Senado. No Planalto já se comenta que se o PMDB quiser as duas Casas, pode ficar sem nenhuma.

Não é lenda o horror que o presidente Lula tem a demissões, afastamentos, dispensas. Ele gosta de contratar e aumentar salários. Trocar ministro em véspera das festas de fim de ano sempre conseguiu evitar. Diz agora, oficialmente, que não haverá reforma ministerial, até porque, se admiti-la, não suportará a voracidade dos principais partidos da sua aliança.

Mas vai fazer. Além de acomodar forças do PT, tem a conquista definitiva do PMDB para sua aliança em 2010, a solução da crise que restará das escolhas dos presidentes da Câmara e do Senado, as consequências da crise econômica sobre seu plano de governo, os dois últimos anos de administração e a construção de um discurso para a campanha em que, já anunciou a muitos, pretende eleger seu candidato, custe o que custar. A maioria no Congresso é absolutamente necessária, e não é para aprovar a reforma tributária. Esta já chegou à fase da desconstrução do caminho andado, tendo em vista sua eterna inviabilidade. Mas precisa de maioria para aprovar as medidas destinadas a combater a crise financeira.

O teorema implica a melhora da gestão, tendo em vista os dois últimos anos de mandato. E são claros os sinais de insatisfação com alguns ministros. Márcio Fortes, das Cidades, que não responde aos investimentos feitos pelo PAC em sua área, é um destes. José Temporão, da Saúde, apesar da torcida dos amigos, continua sem dizer o que faz no governo. E Tarso Genro, da Justiça, que não demonstra intimidade com os acordos entre a Polícia Federal e a Agência de Inteligência (Abin). Não será por falta de quem demitir que o presidente ficará sem vagas para a reforma ministerial.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Belo Horizonte em três tempos

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Nunca tínhamos tido algo parecido. Pelo menos, que se tenha registro. Foram três grandes “ondas”, às quais corresponderam três processos de ascensão e queda da candidatura de Márcio Lacerda e, no segundo turno, de Leonardo Quintão

Muito ainda vai se falar sobre as eleições de Belo Horizonte este ano, como foram e o que significaram. É cedo para fazer uma avaliação mais detida, mas algumas coisas podem ser desde logo apontadas.

A mais curiosa é que ela terminou exatamente da maneira que se imaginava lá atrás, quando ela mal tinha começado para a opinião pública. Um observador que tivesse viajado para bem longe e permanecido sem informações de maio até domingo não teria nenhuma surpresa, ao saber que Márcio Lacerda venceu a eleição com cerca de 60% dos votos válidos.

Contando com o apoio de Aécio e de Pimentel, era isso mesmo que se esperava. Sua votação foi, por exemplo, proporcionalmente igual ou até maior que a obtida por Patrus Ananias em 1992 (que teve 59%) e que a de Célio de Castro em 2000 (com 58%). Só foi menor que a de Célio em 1996 e a de Pimentel em 2004. Note-se, aliás, que essa foi a única eleição na cidade que se resolveu em um turno, pois tanto Patrus, quanto Célio (por duas vezes) tiveram que passar por um segundo turno, como Márcio.

Mais curioso, no entanto, é que o previsível só aconteceu depois de algumas oscilações espetaculares, como não se conheciam na história eleitoral brasileira. Em eleições maiores, para prefeito de cidades grandes e capitais, governador e presidente, nunca tínhamos tido algo parecido. Pelo menos, que se tenha registro.

Foram três grandes “ondas”, às quais corresponderam três processos de ascensão e queda da candidatura de Márcio Lacerda e, no segundo turno, de Leonardo Quintão.

Nas primeiras semanas de campanha, de julho a agosto, nada aconteceu. Lacerda permaneceu em um discreto terceiro lugar nas pesquisas, lideradas por Jô Morais e pelo candidato do PMDB. Do dia 19 de agosto em diante, quando começou a propaganda eleitoral na TV e no rádio, tudo começou a mudar, em alta velocidade.

A subida de Lacerda, de menos de 10%, para a liderança das pesquisas, foi questão de dias. Já no dia 24, quando alcançou 32% das intenções de voto, ele tinha mais que a soma de seus adversários. E continuou subindo, até chegar a 45% no final da primeira semana de setembro.

Ou seja, em pouco mais de 15 dias ele passou de 10% a 45%, em um crescimento mais veloz e mais intenso que qualquer candidato nas eleições brasileiras que conhecemos. Nesse patamar, que representava pouco mais que 60% dos votos válidos, ele estacionou, lá permanecendo até por volta do dia 25 do mês passado.

Nos 30 dias entre essa data e o dia do segundo turno, a eleição de Belo Horizonte viveu uma espécie de montanha-russa, com subidas e descidas vertiginosas. Em forte crescimento, Quintão chegou ao dia 5 de outubro colado em Lacerda e continuou subindo, alcançando o patamar de mais de 60% dos votos válidos no dia 8. Lá ficou por cerca de uma semana, até faltarem menos de 10 dias para a eleição. Era o exato inverso da situação de um mês antes, na primeira quinzena de setembro, quando era Lacerda quem tinha 60% do válido.

A segunda “onda”, a de Quintão, foi forte, mas foi breve. Ela subiu em pouco mais de uma semana e se desfez logo em seguida. Uma campanha mais organizada de Márcio Lacerda, seu novo posicionamento na propaganda, sua presença mais afirmativa, somadas à mobilização daqueles que não desejavam Quintão na prefeitura fizeram com que outra “onda” se formasse.

A oito dias do segundo turno, Lacerda ainda estava com apenas 40% dos válidos, a uma distância de 20 pontos percentuais de seu adversário. Dia a dia, a diferença foi caindo, até que o quadro fosse novamente invertido, desta vez a seu favor. O “x”, como se diz na gíria do automobilismo, aconteceu quando faltavam três ou quatro dias para a eleição.

A terceira “onda”, a arremetida final de Márcio Lacerda, foi mais rápida que seu crescimento inicial, em agosto. Ganhou (ou reconquistou) até cinco pontos ao dia, chegando aos 60% que obteve domingo.

Voltou, assim, ao ponto ao qual todos achavam que chegaria. Para ele, a eleição foi um percurso emocionante, de alcançar, perder e voltar a um mesmo lugar. Quando lá chegou de novo, tinha, no entanto, se transformado em outro candidato, em que as pessoas se sentiam mais à vontade para votar. Sucesso a Márcio Lacerda!

O desafio do TSE


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


WASHINGTON - A melhor notícia sobre a eleição no Brasil veio da Justiça Eleitoral. Em 2010, a internet poderá ser liberada para a livre expressão de opiniões e como ferramenta legal na arrecadação de fundos de campanha. O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, é o autor da sugestão: "Enquanto não sai o financiamento público de campanha -que se impõe-, a internet poderia fiscalizar e dar mais transparência às doações.

Nesse ponto, os norte-americanos têm a nos ensinar". Sobre a liberdade de expressão valerá o bom senso, pois "o internauta é maduro o suficiente para deletar as mensagens que não o interessam".

O ministro Ayres Britto está certo. O uso da internet produziu um efeito nunca antes visto em eleições presidenciais dos EUA. Milhões de jovens começaram a discutir política por meio das redes de relacionamento social.

Na semana passada, em Miami, um grupo de aficcionados de videogame conectados pela internet fez uma reunião com o objetivo de debater a eleição. Todos os dias, sem exceção, os eleitores cadastrados nos sites de Barack Obama e John McCain recebem alguma mensagem eletrônica (ou várias) informando o que cada um fez ou discursou nas últimas horas.

No plano da arrecadação de fundos, uma massa inédita de pessoas passou a doar para os seus políticos prediletos. Tudo de maneira limpa e rápida, pela internet, com cartão de crédito ou débito. Obama já passou dos 3 milhões de doadores, muitos contribuindo com menos de US$ 100. Lula, em 2006, declarou ter recebido dinheiro de apenas 1.634 doadores.

A liberação total da internet em campanhas brasileiras dará mais transparência ao processo. Mas o TSE tem um desafio pela frente. Precisa tomar a decisão com rapidez e assim evitar as pressões de praxe às vésperas da eleição.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1133&portal=

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A derrota de Paes


DEU NO BLOG DE CORA RÓNAI

Abrindo mão das próprias convicções (se é que um dia as teve), aliando-se ao que há de mais podre no estado, gastando rios de dinheiro, jogando sujo, usando descaradamente a máquina estadual, federal e universal, beneficiando-se até de um feriado mal intencionado, enfim, com tudo isso, Eduardo Paes só conseguiu ganhar de Gabeira por 50 mil míseros votos.

Como vitória política, já é um resultado extremamente questionável; mas do ponto de vista pessoal, é uma derrota acachapante.

Eduardo Paes levou a prefeitura, sim, mas de contrapeso ficou com uma quadrilha de aliados que não deixa nada a dever àquela que ele acusava o presidente Lula de comandar.

Vai ser prefeito, sim, mas vai ter de arranjar boquinhas para o Crivella, para o Lupi, para o Piciani, para a Clarissa Garotinho, para o Roberto Jefferson, para a Carminha Jerominho, para o Babu, para o Dornelles, para a Jandira... estou esquecendo alguém?

Conquistou um cargo, é verdade, mas conquistou também o desprezo mais profundo de metade do eleitorado.

Em compensação, como carioca, perdeu a chance de viver um momento histórico, em que a prefeitura seria, afinal, ocupada por um homem de bem, com idéias novas e um novo jeito de fazer política; perdeu a chance de ver o Rio de Janeiro sair do limbo a que foi condenado nas últimas décadas, e ganhar projeção pela singularidade da sua administração.

Se Gabeira tivesse sido eleito prefeito, o Rio, que hoje não significa nada em termos políticos, voltaria a ter relevância, até pelo inusitado da coisa. Um prefeito eleito na base do voluntariado, do entusiasmo dos eleitores e da vontade coletiva de virar a mesa seria alguém em quem o país seria obrigado a prestar atenção.

Agora, lá vamos nós para quatro anos de subserviente nulidade, quatro anos em que o recado das urnas será interpretado, pela corja que domina esta infeliz cidade, como um retumbante "Liberou geral!"

Nojo, nojo, nojo.

Mudando de conversa


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O PT não esperava arrasar quarteirões em massa País afora. Sabia que as eleições municipais em alguns locais, como São Paulo, seriam uma parada dura e que poderia haver derrotas significativas aqui e ali.

O Palácio do Planalto tampouco imaginava que o partido seria um sucesso absoluto de bilheteria e já previa que talvez fosse um fracasso junto à crítica, aí entendida como tradução do eleitorado de classe média para cima, mais escolarizado e bem informado que vem se distanciando do partido.

Mas nem o partido nem o governo estavam preparados para colher das urnas tantos resultados adversos, ao ponto de o desfecho da eleição deixar o presidente Luiz Inácio da Silva desprovido de discurso.

Sem uma vitória importante para pôr na conta de sua popularidade (Luiz Marinho ganhou em São Bernardo ao custo de muito dinheiro, empenho e, ainda assim, só no segundo turno), Lula não teve outra saída a não ser improvisar uma fala de magistrado; isso depois de ter falado como militante partidário até as pesquisas revelarem os primeiros indícios de más notícias.

De acordo com o novo script, o presidente nunca foi um partidário da tese da transferência de votos, jamais perdeu a noção de que eleições municipais dizem respeito exclusivo a temas de interesse local, nem por um momento quis dar ao pleito um caráter plebiscitário de forma a produzir uma sentença de rejeição aos seus adversários e muito menos pretendeu estabelecer relações de causa e efeito entre as eleições de 2008 e a disputa presidencial de 2010.

Ontem Lula deu logo o passo adiante anunciando uma reunião de prefeitos eleitos em janeiro para “orientá-los” sobre a aplicação dos recursos do PAC e convidando a todos para, juntos, firmarem um pacto de combate ao analfabetismo.

Uma agenda tão inusitada quanto vazia: verbas orçamentárias (a razão social da marca fantasia “recursos do PAC”) não dependem de orientação do presidente da República e pactos são entidades de plantão destinadas a preencher vazios até a ocorrência de idéias mais criativas.

Aqui, a urgência é a mudança de assunto. Qualquer coisa é melhor que a análise fria e realista do resultado da eleição, principalmente frente à expectativa criada pela sobrevalorização do capital político/eleitoral do campo governista.

Por isso o PT prefere ater-se aos resultados numéricos, citar porcentuais de crescimento de prefeituras ocupadas pelo partido ou pela “base aliada”, fazendo de conta que a eleição de 13% a mais de vereadores no País e a reeleição de 56% dos prefeitos petistas é tão ou mais importante que a redução da presença petista nos redutos de maior peso político.

O PT ganhou em muitas cidades, é verdade. Mas não ganhou nas cidades em que gostaria e está fora daquelas onde seria preciso para firmar hegemonia, coisa que obviamente não se faz no comando de pequenas capitais nem de municípios geográfica e/ou politicamente periféricos.

A contabilidade miúda não reduz o impacto da derrota de Marta Suplicy em São Paulo para um político praticamente desconhecido, cuja candidatura passou meses sendo semeada no ambiente de guerra de extermínio interno do PSDB.

Não há fabulação em torno de PAC ou de pactos que possa competir com o fato de governo tão poderoso terminar a eleição no Rio na base da disputa voto a voto e sendo representado por um candidato recentemente perdoado pelo presidente por ter sido chamado dos piores qualificativos. Isso depois de ter tido todo o plantel de aliados eliminado na primeira fase.

Impossível também esconder atrás de porcentuais o papel de caudatário do PMDB que conseguiu impor ao presidente Lula a regra da neutralidade e, com isso, posar diante de muitos eleitorados (sendo o caso da Bahia o mais eloqüente) como o verdadeiro canal de mobilização de benefícios federais.

Outra tarefa inglória a que se atribuem agora o governo e o PT é a da eliminação da figura da ministra Dilma Rousseff como candidata predileta do presidente Lula à sucessão de 2010.

Segundo a versão em vigor desde domingo à noite, o presidente Lula não apenas jamais pretendeu transferir votos como nunca pretendeu fazê-lo para Dilma e, por isso, não se pode dizer que a queda da “tese do poste” tenha enfraquecido a futura candidatura. Qual candidatura?

A mesma celebrada até há poucas semanas. A mesma que estaria agora sendo oficialmente lançada se o PT estivesse ocupado em comemorar exaustivamente os resultados e não preocupado em justificá-los à exaustão.

E agora, Paes, como unir a cidade do Rio?


Alessandra Duarte e Pedro Motta Gueiros
DEU EM O GLBO

Para especialistas e moradores comuns, eleitorado mostrou novo patamar de cobrança por ética na política

Vencedor da eleição no Rio por apenas 55 mil votos, o peemedebista Eduardo Paes herdará uma cidade não apenas dividida, mas com uma cobrança por ética na política muito mais forte, em grande parte por causa do desempenho do adversário, Fernando Gabeira (PV). Para moradores, cientistas políticos, urbanistas e economistas, enquanto o verde deixa como marca uma mudança na forma de fazer campanha no Rio - tendo tido praticamente a mesma votação do rival, sem a máquina estadual e o apoio de 13 partidos -, o novo prefeito terá que pagar a fatura das alianças com os partidos políticos sem fisiologismo, se quiser atender à cobrança por relações mais éticas na política cobradas pelo eleitorado .

Para o cientista político Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, uma das dificuldades do novo prefeito será a divisão do eleitorado:

- A parte que não está dentro (do apoio a Paes) é grande, metade da cidade. Além disso, ele tem contas a pagar, e contas ruins. A conta do (Jorge) Babu (do PT, acusado de envolvimento com milícias) é ruim de pagar - disse Vianna, para quem Paes terá de ser hábil para governar com a marca deixada por Gabeira. - Gabeira teve uma campanha sem muito partido, na qual a sociedade se fez envolver.

Pela internet, por exemplo, que foi incorporada por Gabeira à gramática das campanhas eleitorais, segundo Vianna:

- Os próximos candidatos terão de levar isso em conta. Por todas essas marcas deixadas, sem dúvida Gabeira foi o vencedor. Não o vejo numa disputa para o governo estadual ou numa nova eleição para prefeito. Acho que, a partir de agora, ele aparece como um parlamentar muito influente, como estimulador de uma nova política.

Entre os aliados e a ética

O professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Mauro Osório, doutor em planejamento urbano pelo Ippur, afirma que Paes terá de lidar com a exigência por ética levantada pela campanha de Gabeira:

- O Gabeira, no primeiro turno, conseguiu catalisar o sentimento pela ética, e mostrou que isso é uma demanda forte no Rio. Nas últimas décadas, a política na cidade teve uma hegemonia clientelista, e a população mostrou-se contra isso. A votação que Gabeira teve mostrou que as máquinas têm poder menor do que se pensa, e que a opinião pública conta muito numa eleição majoritária.

Para Osório, um desafio de Paes será atender aos pedidos dos apoios dos partidos que o elegeram e ao mesmo tempo atender a essa demanda da população por ética:

- Paes vai ter de não ser fisiológico ao nomear as secretarias e se relacionar com a Câmara, que continua predominantemente clientelista. Sem falar que alterou o campo político dele para vencer: o Paes nasceu com o Cesar Maia, na centro-direita, e agora venceu num campo centro-esquerda. Se ele, e também o governador Sergio Cabral, tiverem de consolidar a aliança com o PT, não pode ser de forma fisiológica. A população do Rio terá dois anos, até a eleição de 2010, para avaliar o governo do Paes e a sua aliança com o PT.

O professor de ciência política da PUC-Rio Ricardo Ismael chama atenção para a divisão geográfica do voto com o qual Paes terá que lidar. Para Ismael, Paes agora é devedor das forças políticas que o apoiaram. Ao mesmo tempo, terá de lidar com as promessas que fez, "em cima de novos gastos, como as UPAs e o bilhete único, num ano difícil, de crise internacional".

- Ele vai ter que ter muita criatividade - completa Ismael, para quem Gabeira "deixou uma marca política": - A outra campanha fazia um vale-tudo, com panfletos que podem ter pesado para eleitores menos esclarecidos. Já Gabeira mostrou que é possível fazer campanha com as forças sociais e sem os partidos, sem ficar refém de acordos políticos tradicionais. Ele reinventou a campanha no Rio, e agora a população passa a exigir isso.

O calor da disputa deixou marcas na velha relação. Para reconquistar a parte da cidade que perdeu, Paes tem a voz das ruas para orientá-lo. Ao sair de um restaurante, ontem à tarde em Ipanema, Gabeira foi aplaudido de pé e teve o nome gritado por moradores e trabalhadores. Como era dia de feira, o candidato do PV também foi ovacionado por barraqueiros e camelôs, saídos de várias partes da cidade.

- Dizer que o Gabeira é o candidato das elites é um preconceito com o qual não concordo. Mas já que essa visão partiu do Paes, ele deveria respeitar a tal parte intelectualmente superior e adotar as propostas do Gabeira - disse a urbanista Luísa Santos, que saudou a passagem de Gabeira enquanto almoçava com amigas num restaurante japonês.

Ao seu lado, a arquiteta Evelyn Gomes apontava o transporte público como principal caminho para a integração:

- É o principal. Se o prefeito conseguir fazer um planejamento, a cidade toda ganha.

Com dois cordões de dentes de alho em torno do pescoço, o feirante Diogo Rosário não tem expectativas de transformação pela política:

- Anulei o voto duas vezes, que paga minhas contas sou eu. Mês passado meu esgoto entupiu e, se eu não botasse a mão, ainda estaria assim.

Com oito filhos e uma barraca em que vende caju, jabuticaba e limão na feira que parou para aplaudir Gabeira ontem, o camelô Flávio Bastos votou no verde mas agora faz fé em Paes.

- Se for melhor do que o Cesar Maia, está bom. Precisamos trabalhar, mas a fiscalização não deixa - disse, apontando para sua banca.

- Votei no Paes porque tive um pouquinho de medo do novo. Se ele agir em toda a cidade, acaba com essa divisão - disse Luiz Dantas, sócio de uma loja em Ipanema.

Do outro lado da rua, as amigas do escritório de arquitetura ainda vão demorar para assinar embaixo dos projetos do novo prefeito.

- Temos que fiscalizar. Não ponho minha mão no fogo por ele, mas não estou contra, porque seria ficar contra o Rio - disse Ana Paula Philipsen.

O urbanista e ex-secretário municipal de Habitação Sérgio Magalhães avalia que Paes precisa, agora, investir na valorização do subúrbio, uma das tônicas de sua campanha:

- Precisa, por exemplo, investir no projeto de transformação de trens em metrôs e na recuperação dos corredores das zonas Norte e Oeste.

Projetos que alavanquem a receita do município nesse momento de crise, como a nota fiscal eletrônica, também devem ter atenção, segundo o economista Mauro Osório:
- Os programas dos dois candidatos não eram muito diferentes. A questão será a operacionalização, que vai depender da composição do secretariado e da relação com a Câmara. A boa relação com o estado e a União não é tudo.
Paes deve mirar na classe média
Para conservar a base de apoio e recuperar o eleitorado que perdeu, Paes tem alguns compromissos a cumprir. Para o cientista político Ricardo Ismael, o prefeito eleito precisa honrar compromissos de campanha e atender a algumas demandas da classe média.

- Primeiro, terá que atender aos projetos sociais, como a saúde pública e o fim da aprovação automática. Disso, não pode fugir - disse Ismael, antes de enumerar as ações para se reaproximar do eleitorado perdido: - Além de ações para conter as favelas, a desordem urbana e do trânsito, Paes precisa ter cuidado para não lotear cargos. Com as alianças que fez, não será tarefa tão simples.

Palco de rivalidades acaloradas, ontem o Maracanã abrigava a tolerância. Depois de fazer hidroginástica, Maria de Oliveira, de 75 anos, se dirigia à aula de dança de salão no Maracanãzinho com orgulho das conquistas que teve, na vida e nas urnas. Órfã de pai e mãe desde os 10 anos, voltou a estudar aos 42 para se tornar auxiliar em enfermagem. Com 15 netos e sete bisnetos, escolheu Paes para cuidar do futuro da família:

- Acho que ele devia conversar com o Gabeira. A cidade não agüenta mais briga, quem sofre é o povo.

Gabeira é visto como peça-chave em 2010


Wilson Tosta
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Qualquer que seja seu caminho agora, o candidato derrotado da Frente Carioca (PV-PSDB-PPS) à Prefeitura do Rio, Fernando Gabeira, será peça-chave para as eleições de 2010 no Estado, avaliam políticos que o apoiaram na disputa de 2008. Uma possível candidatura a governador, a senador e até a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB) à Presidência são algumas alternativas levantadas para o futuro político do parlamentar, que perdeu por apenas 55.225 votos para Eduardo Paes (PMDB).

No campo verde-tucano fluminense, ninguém quer desperdiçar o patrimônio político acumulado pelo candidato - 1.640.970 votos, 49,17% dos válidos, e uma invejável exposição à mídia.

Entre verdes, tucanos e integrantes do PPS, o chamado de Gabeira às forças que o apoiaram para uma mobilização anti-dengue, anteontem, foi interpretado como sinal de que o parlamentar pretende ser um ator importante na próxima eleição, talvez concorrendo a algo mais que apenas uma reeleição para a Câmara dos Deputados. Antes de admitir oficialmente a derrota, no domingo, Gabeira expôs a idéia a aliados.

“Conversei com ele por telefone”, contou a vereadora Andréa Gouvêa Vieira (PSDB). “Ele disse para continuar o movimento, juntar a sociedade civil, a iniciativa privada, entrar nessa questão da dengue, melhorar o Rio de Janeiro. Então, acho que tem aí, sim, uma caminhada para frente, para 2010.”

CAETANO

Principal cabo eleitoral de Gabeira, Caetano Veloso não votou nele no domingo. O cantor e compositor, que mora no Rio, estava em Roma, onde participou do 3º Festival Internacional de Cinema da cidade - o documentário Coração Vagabundo, de Fernando Grostein Andrade, que o retratou durante uma turnê internacional, foi exibido durante uma mostra paralela em homenagem ao cinema brasileiro.

Serra diz que existe diálogo entre PSDB e peemedebistas


Roberto Godoy e Guilherme Scarance
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Governador resiste a falar como presidenciável, alegando que 2010 está mais longe do que parece?, mas destaca sua boa relação com o PMDB

Embora diga que "2010 está mais longe do que parece" e garanta que não está "focado" na corrida presidencial e não negocia apoio, o governador José Serra admitiu, em entrevista ontem à TV Estadão: "Existe um diálogo do PSDB com o PMDB, isso é indiscutível." O partido foi o grande vitorioso da corrida municipal e é cortejado tanto pelos partidos governistas como de oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Assista à íntegra da entrevista

Indagado sobre o saldo dos peemedebistas, Serra admitiu que o partido sai com "posição forte, do ponto de vista nacional". "O PMDB é um partido que tem capacidade, elasticidade. Fogaça, em Porto Alegre, tinha sido do PMDB, foi eleito pelo PPS, voltou para o PMDB e aí foi reeleito. Paes era PSDB, foi eleito pelo PMDB. O PMDB consegue absorver integrantes de outros partidos em situações-chave e conseguiu esse resultado bastante apreciável."

Serra resiste, porém, a admitir a candidatura a presidente. Diz que o partido conversa com o PMDB, não ele. "Não estamos negociando 2010", afirmou.

Mesmo assim, o tucano destacou a boa relação que mantém com o partido: "Temos proximidade com muitos setores do PMDB. Quando fui candidato em 2002 tive o apoio do PMDB, na eleição presidencial. E há proximidade, até em alguns casos mais pessoal do que política."

Tomando cuidado para evitar falar como presidenciável, Serra insistiu em que a corrida municipal "foi uma eleição local". E acrescentou: "2010 ainda falta muito para chegar, tem muito tempo daqui até lá e eu, realmente, não estou focado na questão de eleição. Os jornalistas estão. Eu não estou na questão de 2010 porque tem muito chão, tem muita coisa para acontecer daqui até lá."

O governador listou os pontos que, segundo ele, impedem raciocinar agora em torno da sucessão de Lula: "Quero apenas mencionar de passagem a crise econômica, que está chegando ao Brasil, impasses políticos, problemas de alianças partidárias. Há muita coisa indefinida no ar a respeito das suas conseqüências e do que vai acontecer, de modo que 2010 está longe, mais longe do que parece."

MONOPÓLIO

Ao fazer um balanço do País que saiu das urnas, o tucano disse: "O fundamental que essa eleição mostrou é que ninguém tem o monopólio da verdade nem do voto. A eleição sublinhou a pluralidade, a diversidade da vontade do eleitorado. Esse é o aspecto mais importante. Se for olhar o conjunto do Brasil e também o que aconteceu no primeiro turno, você vê que o povo não concentrou os votos, não deu a ninguém o monopólio."

Indagado se sai também vencedor das urnas na cidade de São Paulo, onde viu seu padrinho político, Gilberto Kassab (DEM), reeleito - contra a mesma adversária que ele próprio bateu, em 2004 -, o tucano se disse "muito satisfeito".

"Me considero partícipe pelo fato de que fui eleito em 2004, Kassab era o meu vice, deu continuidade ao programa que nós começamos na prefeitura, ampliou, inovou, fez coisas até diferentes e deu certo", comentou. "Kassab foi eleito, ou reeleito, devido à boa administração que ele fez em São Paulo. Não é o fato de ser meu afilhado, até porque os meus afilhados têm menos idade."