sábado, 9 de maio de 2009

O PENSAMENTO DO DIA

“Referências ao senso comum e à solidez de suas crenças encontram-se freqüentemente em Marx. Contudo, trata-se de referências não à validez do conteúdo de tais crenças, mas sim, à sua solidez formal e, conseqüentemente, à sua imperatividade quando produzem normas de conduta. Aliás, em tais referências, está implícita a afirmação da necessidade de novas crenças populares, isto é, de um novo senso comum e, portanto, de uma nova cultura e de uma nova filosofia, que se enraízem na consciência popular com a mesma solidez e imperatividade das crenças tradicionais.”


(Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere, volume 1, págs. 118-119 – Civilização Brasileira, 2006.)

Popularidade e legitimidade

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


A partir do momento em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que Lula era “o cara”, naquela reunião do G-20 em Londres, um fenômeno político desencadeou-se: todos começaram a discutir a popularidade do presidente brasileiro. Na ocasião, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, um trabalhista, fez um comentário: “É o mais popular num segundo mandato”. E, depois, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, uma democrata-cristã, se interessou em saber qual o índice de popularidade de Lula, e quanto havia caído com a crise, chegando a fazer piada com o fato de que a queda fora pequena. Dias depois, o primeiroministro da França, Nicolas Sarkozy, elogiou o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, em conversa reservada que vazou pelo microfone aberto

Disse que, numa democracia, o importante era ser reeleito, e Berlusconi havia sido reeleito duas vezes. Recentemente, o próprio Berlusconi disse que era mais popular do que Lula e Obama, e que não reconheciam isso porque ele era considerado “de direita”.

Essas conversas em nível internacional mostram que os políticos hoje não têm a dimensão de estadistas que já tiveram em outros momentos da História.

Talvez porque vivemos numa crise mundial, todos estão preocupados com a popularidade, como fazer para mantêla e não perder o poder. E estamos falando de políticos de tendências distintas, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político.

Lula acaba virando objeto de admiração neste mundo político, em que ser popular e vencer eleições é o mais importante.

A propensão a permanecer no poder o maior tempo possível não é uma característica de políticos nem de esquerda nem de direita, nem mesmo de políticos da América Latina, como seria justo pensar diante da segunda onda de tentativas de ampliar o número de mandatos presidenciais consecutivos, que começou com Hugo Chávez, na Venezuela, e hoje tem em Álvaro Uribe, da Colômbia, seu novo protagonista.

O presidente da Colômbia consolidou sua popularidade em torno de 80% e insiste na tese do terceiro mandato consecutivo, o que só o fará comparável ao adversário Chávez, ofuscando a fama que ostenta de “estadista moderno”, já bastante arranhada, aliás, com as acusações de ligações diretas com grupos paramilitares.

Além do cogitado referendo popular e da eleição dos novos magistrados da Corte Constitucional — que regerá o referendo e as eleições, e que é composta por maioria uribista, com a nomeação a dedo de cinco novos juízes — começa a ser negociado no Congresso um projeto de decreto legislativo que põe de pé a possibilidade legal de um terceiro mandato consecutivo.

O próprio Álvaro Uribe já não esconde o desejo. Participei de uma conversa com ele recentemente, quando esteve no Rio para a reunião regional do Fórum Econômico Mundial, e, perguntado sobre o assunto, assumiu ares messiânicos, dizendo que o importante era manter as linhas mestras de seu governo, que está tendo êxito no combate ao narcoterrorismo.

Aqui no país, com a revelação da doença da ministra Dilma Rousseff, já recomeçam os movimentos de bastidores, especialmente no PT e no PMDB, para retomar o tema do terceiro mandato consecutivo para que Lula possa disputar novamente a Presidência em 2010, na falta de um nome viável para o projeto de a aliança partidária governista permanecer no poder.

A tarefa é das mais difíceis, pois não há apoio da opinião pública, e nem maioria parlamentar no Senado, para mudar a Constituição — o que tem que ser feito até setembro deste ano, um ano antes da eleição presidencial.

O truque novo que está sendo negociado, ainda que timidamente, nos bastidores, é submeter a aprovação de uma emenda constitucional nesse sentido a um referendo popular, que poderia ser realizado no mesmo ano da eleição, caso a mudança constitucional seja feita ainda este ano.

Há quem prefira a convocação de um plebiscito sobre o tema, para só depois, se aprovada a proposta do terceiro mandato seguido, fazer a mudança constitucional, agora já respaldada pela “vontade popular”, como na Venezuela ou na Bolívia.

O sociólogo Francisco Weffort, ex-ministro da Cultura nos dois governos de Fernando Henrique, acha que o conhecido fascínio dos governantes pelas pesquisas de opinião e pelos índices de popularidade exacerbouse depois das eleições americanas.

“Neste mundo em que a política é, sobretudo, espetáculo e marketing, os Estados Unidos uma vez mais colocaram a Europa na sombra”, diz ele, comentando que a rigor, neste mundo, “o cara” é o Obama, não o Lula.

Para os europeus, analisa Weffort, falar do Lula é uma maneira de desviar o foco.

“Falando do Lula eles continuam sob as luzes do cenário, falando do Obama eles passam para uma área de penumbra do palco”.

Para Weffort, ao mencionar popularidade e continuidade do mandato, “Sarkozy, Merkel e Berlusconi estão expressando por via indireta seus próprios desejos em relação às suas próprias carreiras”.

Weffort diz que o mesmo acontece com Lula quando, a propósito da continuidade do mandato, menciona o Chavez.

“É evidente que todos eles querem continuar”.

Já Octavio Amorim Neto, cientista político da Fundação Getulio Vargas, no Rio, o efeito da popularidade de Lula nos seus colegas “é aumentar o prestígio internacional do nosso presidente e, de tabela, o do Brasil”. Ele não acredita que “tal aumento o leve a buscar um terceiro mandato consecutivo, pois os custos políticos para aprovar uma emenda constitucional que permitisse isto acabariam com o capital político do Lula e o deixariam mais ainda refém do PMDB”. (Continua amanhã)

Algo se move

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Demorou, mas aos três meses de crise ininterrupta no Congresso, começam a surgir na Câmara e no Senado os primeiros - não obstante ainda débeis - sinais de reação ao que já se desenhava como um programa de desmoralização voluntária.

Uma espécie de ciranda corporativista em que as mãos estendidas sujavam umas às outras.

Dois fatos parecem ter tido o condão de romper esse pacto macabro: na Câmara, a zombaria do relator do processo contra o deputado Edmar Moreira no Conselho de Ética e, no Senado, o depoimento do ex-diretor de Recursos Humanos João Carlos Zoghbi, montado à imagem e semelhança de uma típica operação abafa.

O senador Artur Virgílio, líder do PSDB, denunciou de pronto: "Foi uma farsa. Você coloca chefiados para ouvir o chefe, e eles não fazem as perguntas que devem ser feitas."

Apoiado pelos senadores Pedro Simon, Eduardo Suplicy, Cristovam Buarque e Mão Santa, Virgílio reagiu à ausência de um representante do Ministério Público no interrogatório conduzido pela Polícia Legislativa que nada perguntou a Zoghbi sobre a acusação de que ele e a mulher, Denise, usaram uma babá como laranja em empresas para contratos ilícitos com o Senado.

O tucano agora ameaça pedir uma CPI para investigar o caso e também a denúncia feita pelo casal à revista Época contra o ex-diretor-geral Agaciel Maia. Ele comandaria um esquema de licitações fraudulentas com o conhecimento de dois ex-primeiros-secretários da Casa, os senadores Romeu Tuma e Efraim Morais.

No depoimento Zoghbi e a mulher, acompanhados do advogado, desmentiram o que haviam dito ao repórter Andrei Meirelles sem a presença de um defensor legal.

Se as denúncias são verdadeiras ou não é uma história a ser esclarecida. Mas, em princípio, os senadores que pedem uma investigação mais acurada têm óbvias razões para reclamar.

Nesta altura, qualquer dito que seja tomado por não dito sem uma explicação convincente só faz aprofundar descrédito em relação ao Parlamento. E o silêncio dos senadores deixa no ar uma impressão de proposital omissão, autorizando a generalização das suspeitas.

Na Câmara pelo visto começou a haver o mesmo tipo de compreensão. No primeiro momento calados, alguns deputados do Conselho de Ética e o corregedor ACM Neto resolveram se contrapor à atitude do deputado Sérgio Morais de defender a absolvição sem investigação de Edmar Moreira, por estar se "lixando para a opinião pública".

Alegação oficial é a da nulidade do "juiz" que anuncia sua decisão antes do julgamento e ao arrepio do processo de apuração dos fatos. Mas o motivo real foi o constrangimento a que Sérgio Morais submeteu a instituição como um todo.

Não foi o primeiro a fazê-lo nem suas declarações se configuraram a vergonha já produzida nas dependências do Poder Legislativo. Mas, talvez por traduzir o sentimento impresso nos desmandos da maioria, pode ter feito o papel da gota d?água.

Queira assim o bom senso e que essas reações representem apenas o início de um processo de entendimento da missa por inteiro.

Pelica

Em seu discurso de desistência de pedir a volta ao PT, Delúbio Soares expôs a desfaçatez daqueles que analisaram o pedido à luz da "avaliação rasa, imediatista, eleitoreira" de que a reintegração agora traria desgaste ao partido nas eleições de 2010.

"Por que 2011, se o Delúbio de hoje é o Delúbio de 1980 e será o Delúbio de amanhã?" Bingo.

Dito isso, recusou a oferta, por "indigna" e retirou-se de cena, saindo-se bem melhor que a encomenda preparada pelos artífices - presidente da República incluído - do adiamento estratégico. Chamou a todos, sem pronunciar um nome sequer, de rematados oportunistas.

Na arquibancada

Segundo o ministro da Justiça, Tarso Genro, "é sabido que determinadas empresas colocam adicional de preços nas licitações porque depois terão de financiar campanhas eleitorais".

Isso dito por qualquer pessoa é uma coisa. Na boca do ministro da Justiça soa como omissão grave. Se o crime "é sabido", seria também de se esperar que fosse pedida uma investigação da Polícia Federal para apurar se o superfaturamento no preço das obras, decorrente de um gasto presumido com as campanhas é um fato comprovado.

Do modo como o ministro expôs a questão, não há outra conclusão possível: ele tem notícia de que ocorre um crime e convive com a suspeita sem que lhe ocorra tomar uma providência para coibir o ilícito.

São quase sete anos completos de governo, mas o PT ainda se comporta como se estivesse na oposição, com a prerrogativa de denunciar, mas sem os instrumentos para atuar.

Esse tipo de visão permeia também todos os discursos do presidente Luiz Inácio da Silva, que, vira e mexe, reclama de situações sobre as quais tem o poder, e teria o dever, de modificar.

A mãe das reformas políticas

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Modelos estapafúrdios de reforma política estão sendo propostos no Congresso há mais de dez anos. Nesta semana, voltou a litania sobre lista fechada e o financiamento público exclusivo. Para sorte geral, é mínima a chance de tais projetos prosperarem. Mas o azar dos eleitores é nunca ser debatida para valer a mãe de todas as reformas: a que resgate o papel da Câmara, como representante direta dos cidadãos, e o do Senado, como Casa de caráter revisor.

O Senado há muito abandonou sua função revisora. Trabalha como se fosse uma Câmara de Deputados mais rica -só 81 cadeiras e o mesmo orçamento gordo para ser dividido entre menos bocas. Já na Câmara não vigora o sistema conhecido como "um homem um voto". Ali prevalece uma anomalia criada pelo pacote de abril de 1977 e aprofundado pela Constituição de 1988. O número de vagas para Estados com população pequena foram infladas artificialmente.

Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins têm oito deputados federais cada -48 cadeiras. Juntos, superam a bancada do Rio de Janeiro. Se fossem consideradas as suas populações, esses seis Estados teriam só 18 vagas.

Continuariam bem representados, pois, no Senado, cada Estado sempre terá seus três senadores. Haveria democracia representativa e proporcionalmente justa. Não que os políticos de São Paulo sejam melhores que os do Acre. Não são.

Mas o princípio da cobrança de responsabilidade se torna mais exequível quando deputados são eleitos onde há mais cidadãos para fiscalizar. Esse é o problema. Poucos no Congresso se interessam em aumentar a conexão com a população. Fingem desejar alterar as regras. Falam em reforma política. Querem mesmo é deixar tudo como está. Como disse um (perdão pelo uso do pleonasmo) desqualificado da Câmara, eles estão se lixando para a opinião pública.

A salvação do voto em lista

Coisas da Política :: Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

O pior Congresso de todos os tempos, incluindo o dos quase 21 anos da ditadura militar dos cinco generais-presidentes, está sendo absolutamente coerente quando solta o balão de ensaio da substituição do voto no candidato pela do voto em lista fechada.

E nada mais fácil de entender, com a pitada de compreensão pelas fraquezas humanas na manobra da fatia dos 513 deputados federais – já que os estaduais, como os vereadores, não piam – para garantir a reeleição para o desfrute de um dos melhores empregos do mundo. Pois, nesta mal-afamada legislatura, com as exceções de praxe e que não são muitas, suas excelência foram de invejável criatividade na criação de atalhos e trapaças para a fruição da boa vida de milionários.

E, como não defender o que foi construído tijolo por tijolo, às escondidas ou com desculpas indigentes? A velha Câmara e o venerando Senado da época dourada, que começa com a queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas em 1945 e termina com o golpe de 1° de abril de 1964, na então Cidade Maravilhosa eram de uma modéstia que hoje parece inacreditável para os que se acostumaram com as vantagens, da verba indenizatória, dos gabinetes individuais dos parlamentares, com verba de R$ 60 mil mensais para a contratação de até assessores, apelido de cabos eleitorais, dos R$ 3 mil mensais para pagar a conta do hotel e demais penduricalhos de uma lista que não parece ter fim.

Não custa reconhecer que a mudança da capital, em 21 de abril de 1960, para o canteiro de obras de Brasília inacabada provocou a reação dos escalados para a transferência. JK abriu o cofre da Viúva, sacando o argumento que dissolveu resistência. Os ministros ganharam mansões, os barnabés as dobradinhas de salários, e os parlamentares descobriram o paraíso, azeitado pela criatividade. A semana de segunda a sábado, com sessões com quorum para as votações, obviamente facilitado porque a quase totalidade dos senadores e deputados morava no Rio virou de pernas para o ar com o dobre dos sinos das mordomias. Poucos mudaram para Brasília. As quatro passagens aéreas mensais de Brasília para a base eleitoral do parlamentar permitiu o saudável hábito da semana de quatro dias inúteis, das terças às quintas, às vezes às sextas. E empilhou mordomias até a lua.

Mas o Congresso quando entorta não deixa nada no lugar. A herança da ditadura militar – que acabou com os partidos com raízes no contraditório municipal e impôs o caricato bipartidarismo da Arena majoritária, governista, e do raquítico MDB da sobra das cassações – bateu de frente com a morte do presidente Tancredo Neves, o presidente eleito pelo Colégio Eleitoral e que não chegou a tomar posse.

O vice que exerceu o mandato de cinco anos, o ex-presidente e atual senador José Sarney, presidente do Senado, passou a Presidência ao presidente Fernando Collor de Mello, eleito pelo voto direto, em 15 de março de 1990. De lá para cá, é a história de ontem, com a renúncia de Collor de Mello, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e os quase seis anos e meio dos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em meio a tais turbulências e seduções, os partidos perderam a identidade. Da fórmula simples de dois blocos – governo versus oposição – e seus satélites, a praga da corrupção com a sucessão de escândalos, desde o mensalão, o caixa 2 em cadência crescente, a bagunça até o descalabro desta antevéspera de eleições, ditou a desmoralização do Congresso. Quando os parlamentares começam a sentir as fisgadas da opinião pública, dispersa na imensidão de Brasília.

O risco de perder a sinecura espeta a criatividade. E o Congresso que dissolveu os partidos nas alianças suspeitas e contraditórias entrou em outra fase. Os que têm a reeleição virtualmente garantida não temem as urnas.

As que têm todos os motivos para duvidar do eleitor foram catar o voto em listas fechada. Ora, o voto na lista, em que o eleitor vota na legenda e não no candidato, fortalece o partido, que compõe a bancada com o preenchimento das cadeiras conquistadas nas urnas na ordem da lista dos candidatos.

Com a desmoralização dos partidos é um tiro na cabeça. O eleitor, acostumado a votar no candidato, ignora os partidos, inclusive o PT que se perdeu no caminho.

Vamos fazer a reforma política, promete Temer

Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ele diz não esperar consenso para pôr em votação a proposta e aposta em novas regras somente para 2014

O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), disse ontem que, com ou sem consenso, a reforma política será aprovada na Casa. Na próxima reunião com os líderes partidários, na semana que vem, ele pretende discutir os dois pontos da reforma a serem votados com prioridade: financiamento público de campanha e voto em lista fechada.

"Claro que há aqueles que são a favor e os que são contra. Eu vou na reunião de líderes tratar desse tema e ver o que podemos levar adiante", afirmou. "Mas o que fica claro é que vamos fazer uma reforma política no País", garantiu o peemedebista, após participar de um evento em São Paulo.

Temer disse não esperar um consenso para pôr em votação a proposta e foi cuidadoso ao comentar a possibilidade de aplicação das eventuais mudanças no sistema eleitoral já no pleito de 2010. "Às vezes é muito difícil aplicar logo para a eleição seguinte", ponderou. A aposta dele é de que a Casa decida por uma reforma que passe a vigorar somente em 2014. "Tenho dito cautelarmente que, se não conseguirmos fazer para 2010, vamos fazer para 2014", comentou. "Quatro anos na vida de um País é pouca coisa."

Assim como expôs anteontem o ministro da Justiça, Tarso Genro, Temer também acredita que os temas prioritários sejam o financiamento público de campanha e voto em lista fechada. No primeiro caso, passaria a ser proibida qualquer doação privada às campanhas eleitorais. Todo o financiamento viria da União. No caso da lista fechada, o eleitor deixaria de votar nominalmente no candidato (deputado federal, estadual e vereador) e votaria somente no partido.

Há relatos informais de que um grupo de 250 a 300 deputados estaria disposto a votar essas matérias nos próximos meses. Na semana que vem o PMDB pretende apresentar proposta do deputado Ibsen Pinheiro (PR) sobre esses dois temas.

Temer participou ontem em São Paulo da abertura do 6º Encontro do Colegiado de Presidentes das Assembleias Legislativas, que teve a presença de chefes de 20 dos 27 Legislativos estaduais.

Da tribuna, o deputado fez um mea-culpa pelos "defeitos" do parlamento. "Muitas vezes nós vemos um ou outro defeito e esses defeitos vão sendo corrigidos de acordo com as circunstâncias. Estamos nos adaptando."

''Lista fechada afasta eleitores de eleitos''

Daniel Bramatti
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Cristian Klein: cientista político; Para pesquisador, proposta de reforma política em análise no Congresso não garante redução da corrupção

Autor do livro O Desafio da Reforma Política: Consequências dos Sistemas Eleitorais de Listas Abertas e Fechadas, o cientista político Cristian Klein é um crítico das propostas que o Congresso votará para regular o sistema eleitoral e partidário no Brasil.

Incapazes de votar uma reforma política ampla, dadas as divergências sobre o tema, líderes dos principais partidos decidiram centrar o foco em duas mudanças, que podem ser votadas ainda neste ano: financiamento público de campanhas e lista fechada de candidatos.

A primeira implementa um fundo com verbas públicas para custear os gastos dos candidatos. A segunda acaba com o voto nominal em eleições para deputado ou vereador. Os eleitores passariam a votar apenas nos partidos, que apresentariam uma lista predefinida de candidatos - se uma legenda conquista 10 vagas na Câmara, entram os primeiros dez nomes da lista, por exemplo.

Para o autor do estudo - originalmente apresentado como tese de mestrado no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) -, a lista fechada não resolve o problema atual da falta de vínculo entre os políticos e seus eleitores. E, ao contrário do que dizem os entusiastas da ideia, pode acabar afastando ainda mais o eleitorado dos partidos.

Que problemas do sistema partidário brasileiro uma reforma política deveria abordar?

O diagnóstico hoje é o de que não há ligação muito forte entre o representante e o representado. Temos ainda os problemas do clientelismo e da corrupção. Há várias propostas para remediar esses problemas crônicos, mas nenhum sistema é perfeito. O voto distrital, por exemplo, seria uma boa solução para aproximar o representante de seu eleitorado. Por outro lado, a desvantagem é o clientelismo, é formar deputados cada vez mais locais. Os chamados deputados de opinião poderiam perder mais espaço para os que só se preocupam com suas bases. Outro entrave é a dificuldade de construir esses distritos. É algo arbitrário. Como dividir o Rio em 46 distritos, São Paulo em 70? Haveria uma grande disputa de políticos interessados em circunscrever seu distrito exatamente onde está seu reduto eleitoral. A grande tendência mundial é sair do sistema distrital ou flexibilizar suas regras. É um sistema que prejudica os partidos menores, o vencedor leva tudo.

Num cenário de lista fechada, em que a cúpula dos partidos define a ordem dos candidatos com mais chances de serem eleitos, não aumentaria ainda mais a distância entre representante e representado?

Com certeza. Um dos maiores absurdos da discussão da reforma política é fazer o diagnóstico de que existe essa distância e propor a lista fechada como solução. A lista fechada promove uma ruptura muito forte entre eleitores e eleitos. O eleitor passa a ter uma relação muito abstrata com os partidos e as elites partidárias ganham muito poder, ao comandar o ordenamento da lista. Hoje, apesar de tudo, as pessoas ainda conseguem pinçar os melhores candidatos, na opinião delas. No caso do escândalo do mensalão, por exemplo, muitos envolvidos não conseguiram retornar ao Congresso. Se isso dependesse apenas dos partidos, é provável que não fosse assim.

A lista fechada teria alguma vantagem em relação ao sistema atual?

A suposta vantagem é que as pessoas teriam uma ligação maior com os partidos, um voto mais partidário. Mas há o risco de ocorrer o contrário. Com os problemas de corrupção, com toda a crise de representação, as pessoas podem acabar se voltando contra os partidos.

Com tantos problemas, por que o sistema teria apoio no Congresso?

A discussão da lista fechada está muito vinculada à questão do financiamento público de campanhas. Com lista aberta seria impossível haver financiamento público. O dinheiro iria para os indivíduos, e não para os partidos, o que seria impensável.

O financiamento público ajudaria a reduzir a corrupção?

Acho que não. O dinheiro iria para as cúpulas partidárias e não saberíamos o que seria feito com ele. Nada garante que haveria menos corrupção. A Finlândia, cujo sistema eleitoral é o que mais se aproxima do brasileiro, é considerada um dos países menos corruptos do mundo. Onde está o problema, nas regras ou nas pessoas? É importante observar que existem o sistema eleitoral e as regras eleitorais. É possível promover reformas importantes sem grandes alterações de fundo. Um exemplo seria o fim das coligações nas eleições proporcionais. Partidos menores acabam se utilizando do eleitorado do outro para conseguir uma vaga. Nas eleições proporcionais, cada partido deveria disputar com suas próprias forças.

Cristian Klein é doutorando em Ciência Política pelo Iuperj. Em 2007, publicou o livro O Desafio da Reforma Política: Consequências dos Sistemas Eleitorais de Listas Abertas e Fechadas

Curvas da estrada

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Se existe um setor que não sairá desta crise com a mesma cara é o automotivo. A GM conta os dias do ultimato do governo, a Chrysler pode virar italiana. A Fiat engata a marcha de forma ousada. O governo Obama encomenda carros menores e econômicos, que nunca fizeram sucesso no mercado americano. As japonesas querem ganhar terreno, mas também enfrentam solavancos.

Uma metáfora para a situação seria que, no mercado automotivo, as empresas estão como os carros num engarrafamento na hora do rush, esperando o melhor momento para mudar de fila e seguir viagem. A grande expectativa do mercado mundial é o destino da grande, cara, endividada e encrencada General Motors. A gigante americana vai fechar 16 fábricas, demitir mais 23 mil empregados, fechar concessionárias e será muito difícil para ela sair dessa situação sem pedir concordata, o chamado "Chapter 11" da legislação americana. Tenta fugir do "Chapter 7", que é a falência pura e simples.

Para a consultora Tereza Fernandes, da MB Associados, é uma missão quase impossível a GM se reestruturar sem pedir concordata. Ela acha que o governo americano pode, sim, salvar a montadora.

- Nem o Super-Homem, que é um símbolo americano, conseguiria reestruturar a GM sem passar pelo Capítulo 11. E acho que o Barack Obama não terá o menor prurido de estatizar. A GM é uma marca dos Estados Unidos, uma marca forte, assim como a Ford.

A situação da General Motors, que já foi a maior montadora do mundo e perdeu o posto para a Toyota, mostra bem a situação das montadoras americanas, que não se prepararam tecnologicamente para produzir carros menores, mais baratos e menos poluentes. Com o consumidor preferindo as chamadas SUVs, que consomem muito, elas já vinham perdendo mercado com a alta do petróleo, já que, lá, o aumento e a queda do preço do combustível vão direto para o bolso do consumidor, diferente daqui, em que a Petrobras controla os preços. Com a crise, a queda nas vendas de veículos foi maior, chegando a 50%. Em 2007 foram 16 milhões de veículos vendidos nos EUA, em 2008 foram 13 milhões, a previsão para este ano é vender, no máximo, 10 milhões.

No mercado americano, segundo Tereza, a Ford está se saindo bem, sem a necessidade de socorro. A montadora fez grande investimento em carros híbridos e até agora tem recusado ajuda do governo. A GM tem menos de um mês para apresentar seu plano. Já se sabe que cortará na veia, vai encolher, mudará modelos, vai ficar só com as filiais boas, como a do Brasil, mas ainda é preciso saber o que fará com seu passivo trabalhista e previdenciário.

A Chrysler, que parecia igualmente condenada, poderia se salvar no plano apresentado na semana passada, com o apoio da Fiat. Mas na visão de Tereza Fernandes, esta é uma tentativa da montadora italiana se salvar.

- Na Chrysler, a Fiat ainda não botou um tostão. O acordo é de cooperação. A Fiat diz: "eu tenho tecnologia para fazer carros menores, você tem fábricas nos Estados Unidos. Eu te ajudo na produção, você me ajuda a entrar no mercado americano." O sonho da Fiat era a Chrysler quebrar e o mercado americano ficar para ela. A Fiat não tem escala de produção mundial. Do seu mercado, 50% estão no Brasil, 40%, na Itália, e o resto é na Europa. O que salvou a Fiat há seis anos foi o mercado brasileiro. Ela está latindo muito, mas acho que está mordendo pouco.

As montadoras japonesas Toyota e Honda, que já vinham na dianteira, querem acelerar. Elas têm nome e são competitivas, mas também amargaram prejuízos recentes - a Toyota anunciou ontem o primeiro prejuízo anual da sua história.

- A Toyota é a primeira montadora do mundo. A Honda está produzindo mais e se espalhando pelos países. Elas possuem linhas de qualidade - diz Tereza.

Na Europa, a Volks está em situação melhor que suas concorrentes, conta Tereza. Ela tem 18% do mercado chinês e 25% do brasileiro. A Renault/Nissan foi afetada pelo mercado americano, mas estaria melhor que a PSA/Citroën, que já recebeu dinheiro do governo francês. O setor automotivo certamente terá fusões e reestruturações após essa tempestade.

- O que os analistas internacionais dizem é que o mercado viverá uma revolução. Devem sobrar seis montadoras em todo o mundo. Já temos a Toyota, a Honda, a Volks e a Ford. Podemos ter a GM, se o governo dos EUA salvar. Na Europa, podem ficar a Fiat, se o acordo com a Chrysler der certo, e a Renault/Nissan. E ainda temos de olhar as montadoras chinesas, que produziram oito milhões de carros em 2008. Estão chegando fortes.

A hipótese de a Fiat ficar com a GM na América Latina daria à italiana mais de 40% do mercado brasileiro. Segundo a analista, a produção de automóveis e comerciais leves deste ano deve ser comparada com a de 2007, já que 2008, mesmo com a crise no último trimestre, foi um ano diferente.

- Até setembro de 2008, o crescimento era de 30% para o mesmo período de 2007. Tinha uma distorção muito grande. Faz mais sentido comparar 2009 com o ano de 2007. Falando só de automóveis e comerciais leves, 2007 fechou com vendas de cerca de 2,3 milhões, e este ano podemos chegar até a 2,6 milhões. Acredito que a média de vendas de 220 mil a 225 mil carros por mês deve se manter em 2009, o que seria um número bom para o setor.

Mas a estrada ainda está com muito nevoeiro. É difícil ter certeza do que haverá depois da próxima curva. Ou próximo mês.

Novas regras da poupança devem sair até quarta-feira

Da Enviada a Campo Grande (MS)
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu irritado ontem em Campo Grande (MS) ao ser questionado sobre a chance de mudar os rendimentos da poupança.

"Eu não posso ser irresponsável e falar de poupança todo dia porque essa é uma questão que vai ser definida pelo ministro da Economia e pelo Banco Central. Ou seja, à medida que a gente fica especulando com uma coisa que a gente não sabe que vai acontecer, a gente fica causando dano a terceiros", afirmou ele, após a inauguração do Trem do Pantanal.

Lula afirmou ainda que vai esperar a equipe econômica apresentar uma proposta sobre o tema. "A única coisa que eu vou dizer, e vou repetir para não falar em poupança nunca mais até o ministro Guido Mantega falar, é que os pobres não perderão nada neste país", disse.

No mais recente cronograma do governo, a previsão é divulgar novas regras para a poupança até quarta-feira.

Conforme a Folha publicou ontem, Lula decidiu que a alteração nas regras de remuneração não vai atingir a maioria dos poupadores. A ideia é cobrar Imposto de Renda sobre os rendimentos a partir de um patamar alto.

Para estimular os fundos de investimentos, o governo vai ainda reduzir tributação sobre esse tipo de aplicação. Em Buenos Aires, Mantega afirmou que as mudanças na remuneração da caderneta de poupança não trarão perdas aos investidores.

Poupança e engodo

Givaldo Siqueira
DEU NO PORTAL DO PPS

A propósito dessa discussão sobre a poupança, há algumas premissas. Nós não inventamos que o governo Lula mexeria na poupança. Partiu do próprio governo a afirmação. Em 13/03/2009, Henrique Meirelles, segundo relato da Agência Estado, o fez, em sua reunião com os senadores do grupo de acompanhamento da crise (a demonstrar quem é que está mandando). No dia 16, do mesmo mês, em Nova York, Lula admitiu ?a possibilidade de mudar o cálculo da poupança?, o que também fizeram Dilma e Mantega.

As declarações desencadearam imediatamente reações populares. Estavam lá, nas ?Cartas dos leitores? dos jornais. No dia 17/03/2009, um leitor reclamou: ?No nosso, de novo??. E completava: ?Pois se os investimentos em poupança vão para a habitação, que deixe a conta engordar. Alguém aí levantou o déficit habitacional do país? E se a poupança acabasse com ele, quantos empregos diretos e indiretos e quanta geração de renda a mais haveria, em tempos de crise? E ainda, quanto imposto a mais seria arrecadado? Brasileiro não precisa de carro, precisa sim de casa, transporte público de qualidade, bem como de saúde e educação de qualidade e de um governo menos vagabundo. Que palhaçada é esta de por a mão na poupança???? Então, quem sempre poupou, porque conta com nada que venha do governo, vai ter que se ferrar de novo??? Quanta bobagem disse o Lula, Dilma e Mantega, ontem em NY???? Ninguém faz análise, crítica disso? Vamos acordar pessoal, porque se o governo é uma mentira, nosso país e nós mesmos também somos!!!! ?.

E outro: É engraçado como o Lula defensor do povo age em defesa dos menos favorecidos, é a segunda vez onde o povo consegue ganhar um pouco a mais e ele muda a forma de cálculo ou remuneração. Tirar o dinheiro da classe media é fácil, quando ele tem que economizar o dinheiro da campanha dele, ai é melhor ferrar o trabalhador e dizer que está defendendo os pobres.?

Não seria a primeira vez que o governo Lula mexeria na poupança. Suas mudanças na forma de cálculo da TR começaram em 2006, quando o CMN retirou a Célio do cálculo do redutor para que ela não afetasse a TBF e, conseqüentemente, a TR. Outra vez, em março de 2007, o BC reduziu o rendimento mudando novamente a fórmula de cálculo da TR. Por isso mesmo, segundo a consultoria Economática, a remuneração das cadernetas fechou o ano de 2007 com um acumulado que representava a menor remuneração dos últimos dez anos. E como ameaçou reagir, em janeiro de 2008, quando o rendimento foi de 0,6%, sem descontar a inflação, um pouco acima da taxa de dezembro de 2007, de 0,56%, o Conselho Monetário Nacional (CMN) voltou a modificar a fórmula do cálculo da TR, de fato para impedir que o rendimento da poupança ultrapassasse os 0,5% ao mês, incluída a inflação, que é o rendimento mínimo fixado por lei federal, de 1991.

Ora, como nossas inserções só começaram no dia 21 de abril, fica claro que foram reativas e casadas com reações populares. Alguns reclamaram do molho, da malícia, para ampliar seu impacto, a referência a Collor. Mas quando examinamos o que dizem, verificamos que, de fato, com poucas exceções, não é disso que reclamam, mas da nossa oposição a que se mexa nas cadernetas! .E desfilam um rosário de tecnicismos, dignos da tecnoburocracia.

Devíamos não cair nessa esparrela tecnoburocrática armada pelo pessoal da mais-valia, principalmente pelo capital parasitário, esgrimindo seus fetiches. Todas as categorias econômicas mercantis são formas fetichizadas de relações sociais, meus camaradas. Esqueceram. Não vamos cair nessa de ficar a discutir relações entre coisas, vamos às contradições essenciais. Então, a lição número 1: sempre que há uma crise, o pessoal da mais-valia procura fugir e/ou reduzir a inevitável queda da taxa de lucro, através principalmente da depreciação da força de trabalho, do rebaixamento - e até mesmo do confisco - dos salários, e com ajuda do Estado. Sempre foi assim. Essa convicção determina de saída o nosso lado. E os camaradas da identidade, sobretudo, deveriam compreendê-lo. A poupança é uma das áreas onde esse esforço para rebaixar ou confiscar salários está se fazendo, nela está envolvida a disputa entre aquele pessoal da mais-valia, apoiada em seu governo, e a turma do salário e da pequena produção, pois que os depósitos nas cadernetas, em sua quase totalidade não são mais que salários e/ou auto-remuneração de pequenos produtores, não mudam de caráter por estarem nas cadernetas.

Podemos acompanhar esse esforço do pessoal da mais valia, desde muito longe e operando em várias esferas e com vários mecanismos.

O primeiro deles, a inflação. Por anos a fio, através dela, espoliaram-se os trabalhadores, a quem afeta sempre muito mais. Chegou a alcançar o índice estratosférico de 2.477,15%, em 1993, medida pelo IPCA. Para combatê-la, a partir de 1979, estabeleceram-se teorias muito convenientes que apontavam no crescimento do consumo sua causa e na elevação dos juros sua correção. E haja sufoco para os assalariados. Imediatamente passaram a subtrair ou reduzir o salário mínimo, os benefícios de aposentadoria, as remunerações das cadernetas de poupança e do FGTS, entre outros.

Nessa direção, passaram a manipular, a partir de 1980, os indicadores oficiais (manipulação que perdura até hoje) com o objetivo de reduzir o poder de compra dos trabalhadores. Para a correção dos salários, o IPCA, com variações sempre inferiores aos demais que medem a inflação verdadeira. Para as cadernetas, a TR, com variações bem menores até mesmo que as estabelecidas pelo IPCA. Mas para o pagamento das obrigações, os IGPs que apontam sempre variações bem maiores que o IPCA e a TR.

Apesar de tudo, a inflação, embora mais controlada, a partir do Plano Real, prossegue alta. Durante o governo Lula, chegou, também pelo IPCA, a 9,30%, em 2003; 7,60, em 2004; 5,69, em 2005; 3,14, em 2006; 4,45, em 2007; e 5.9, em 2008. Portanto, após declinar, até 2006, voltou a elevar-se. Tais índices revelam o quanto se confiscou dos assalariados nesses anos, via aumento de preços dos bens de consumo.

São índices muito altos numa economia relativamente estabilizada e de baixos salários.

A partir dessas concepções, estabeceu-se a política salarial do pais, cuja base é a política para o salário mínimo. Com repercussões imediatas em toda a escala salarial e aposentadorias e benefícios da previdência, espoliaram-se brutalmente os trabalhadores, reduzindo-se o salário mínimo, Ele caiu de R$ 759,81 mensais, em 1980, período da ditadura e do arrocho salarial, para R$ 279,69 mensais, em 1990, se atualizado com valores de maio de 2007. Quer dizer, uma redução de 64%, numa década!!!
Segundo o DIEESE, em 2004, o salário mínimo correspondia a menos de 1/3 daquele fixado em 1940, época Também de ditadura!

Essa situação não se modificou durante o governo Lula. Ele negociou com as Centrais Sindicais, em 2007 (somente em 2007), uma política de reajuste do salário mínimo que poderia permitir um ganho real: correção pelo IPCA ( o índice da manipulação permanece o mesmo) e mais o índice de crescimento do PIB do ano (o que pode ser nada ou quase nada durante a crise). O fato é que, ainda hoje, o salário mínimo permanece bem abaixo daquele de 1980. No governo Lula, o salário mínimo chegou a ser inferior ao de 1990, em termos reais e até nominais.

Mas não foi só, desgraça nunca anda sozinha. No mesmo período, de 1980 até hoje, incrementaram-se as alíquotas de contribuição ao INSS e ao FGTS, aplicaram-se maiores deduções do IR da pessoa física retido na fonte, deixaram de atualizar-se as faixas de imposto de renda, pessoa física, e/ou as atualizaram com aquele indicador que apontava a menor correção monetária. Ao mesmo tempo, os preços controlados, como os da energia elétrica, comunicações, água, transportes, etc,, foram aumentados pelos IGPs , enquanto o salário mínimo o foi sempre pelo IPCA (com exceção dos anos 2007/2009 em que se introduziu mais a taxa do PIB) reduzindo-se ainda mais o poder de compra dos assalariados.

Outra política adotada contra o pessoal do salário, relacionou-se com a previdência social, a pretexto de superar sua crise. Para concessão da aposentadoria, implementaram, entre outras exigências, maiores valores da contribuição, maior período de contribuição e aumento da idade de aposentadoria, fator previdenciário. etc. Tudo isso foi conjugado com a redução dos benefícios, somadas à ausência dos devidos aumentos no salário mínimo, o que afeta a imensa maioria dos aposentados, e à baixa correção das aposentadorias com valores superiores aos do mínimo. Anualmente, estes sempre perdem um pouco, ?porque os governos (não só o de Lula, todos desde Collor) decidiram que a melhor maneira de acabar o déficit da Previdência é meter a mão no bolso dos aposentados? (Milton Coelho). Então, não só a maioria dos aposentados já começa ganhando o mínimo, mas todos terminarão, mais cedo ou mais tarde, por ganhar também apenas um salário mínimo. Essa política, no seu conjunto, como assinalou Pedro P. Kudlinski,, obriga todos os aposentados a necessitar cada vez mais dos serviços públicos, principalmente de saúde, o que amplia sua crise e termina portanto por impor mais despesas públicas que exigirão maiores ou novos impostos.

Nesse rumo, o governo federal ?induz, força ou impõe a previdência privada como suposta solução para o não recebimento dos benefícios de aposentadoria proporcionais comprovadamente devidos pela previdência social a todos os aposentados da iniciativa privada?, como o faz também com a saúde, acrescento. E haja planos de saúde privados de preços e condições exorbitantes.

A espoliação prossegue através da gigantesca e sempre ampliada carga tributária, que chegou a 36,56% do PIB, em 2008. E são os assalariados os que pagam mais. De um lado, porque as empresas apenas repassam ao governo os tributos cobrados ao consumidor que adquiriu o produto ou serviço. De outro, porque a tributação no Brasil incide majoritariamente sobre o consumo, enquanto nos países mais ricos incide em sua maior parte sobre o patrimônio e a renda.

Em 2004, estudo da própria Receita Federal a respeito da ?Carga Tributária Sobre os Salários? o demonstrou cabalmente. Assim, concluiu: ?As despesas com alimentação e habitação representam, em média, 50% das despesas das famílias que recebem até 15 salários mínimos (74,19% da população em estudo), reduzindo-se a 33% para as famílias com renda acima de 15 salários mínimos (25,81% da população em estudo)?. E ?As despesas com alimentação representam 10,31% do desembolso total para as famílias com mais de 30 s.m. e atingem 33,51% para as famílias com até 2 s.m.?

Essa gigantesca e insuportável carga tributária, por fim, não resulta em melhores serviços públicos para a grande maioria da população, ao contrário, resulta na piora ou inexistência dos mesmos. Basta ver a crise na saúde, na educação, no transporte, na habitação, etc.. Mas é desviada para as sempre crescentes despesas da máquina estatal partidarizada e aparelhada pelo PT e seus apaniguados parceiros ?da base?, ao tempo que se impulsiona a privatização da saúde, da educação, etc.

Esse panorama resplende com a política oficial de juros, ancorada num mercado cativo de títulos públicos, de fato, em última instância, uma inacreditável espoliação dos assalariados, embora não só, através dos maiores e mais abusivos juros de todo o mundo, inclusive, até aqui, por quase todo o governo Lula. Esses juros oficiais determinam o parasitismo do sistema financeiro e os escorchantes e escandalosos juros médios do comércio (crediários), dos cartões de crédito e de todo e qualquer crédito ou financiamento dos bancos e financeiras para as pessoas físicas, uma gigantesca agiotagem. Mas alcançam também as pessoas jurídicas, que deles necessitem.

E não se reduzem, quando há a queda da taxa Célio. Todos os levantamentos o demonstram. Por exemplo, de novembro de 2003 até o mês de março próximo passado, houve uma redução de quase sete pontos porcentuais ? de 18,45% ao ano para 11,78% ao ano - na taxa Célio. No entanto, os juros para as pessoas físicas quase não se alteraram e chegaram a aumentar, no caso do cartão de crédito.


O ?spread? bancário no Brasil é o maior do mundo, supera em 11 vezes o dos países desenvolvidos. Na média do ano passado, foi de 34,88 pontos percentuais, no Brasil, ante 3,16 pontos, nos países desenvolvidos, de acordo com levantamento feito pelo Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) a pedido da Folha.

Esses números todos explicam claramente porque a inadiplência das pessoas físicas vem aumentando, elas não podem suportar tal saqueio, ainda mais durante a crise. Mas os bancos, ao invés de reduzir o ?spread? e os juros, ao contrário, aumentam alegando ?crescimento dos riscos? e não da agiotagem.

Nesse quadro, a pretexto de favorecer os pobres, é que o governo Lula instituiu o ?empréstimo consignado?, com taxas máximas de 2,5% ao mês, para os empréstimos, e de 3,5% ao mês, para os cartões consignados. Recentemente reforçado com linhas de crédito do Banco Central, trata-se de verdadeira agiotagem, garantida pelo governo, sem nenhum risco e que está levando milhões de chefes de família, já empobrecidos pelos valores que recebem, a se endividarem e a enfrentarem por dois a cinco anos descontos em sua renda. E não podem usar a inadiplência, já que são descontados em folha! Eles estão pagando, por esses empréstimos, juros reais 14 a 65 vezes maiores que os rendimentos da poupança, que o governo acha muito e pretende reduzir. Para se ter uma idéia das proporções dessa agiotagem e de seus efeitos na transferência de renda dos pobres para o sistema financeiro, segundo ?dados do Ministério da Previdência, há cerca de 22 milhões de aposentados e pensionistas no Brasil, sendo que 14,9 milhões estão utilizando o crédito consignado.?

Não basta pois à turma da mais valia reduzir os salários e os benefícios da aposentadoria dos trabalhadores, através de vários mecanismos, ainda os expropriam muito mais por meio do consumo e dos créditos!

Como se nada disso bastasse, se confisca a poupança popular. Em 1980, outra vez a pretexto de reduzir a inflação, foi creditada apenas a metade dos 110% de inflação medida pelo IGP-DI, para as cadernetas de poupança e o FGTS, a título de correção monetária. Adiante, os rendimentos das cadernetas e do FGTS foram espoliados pelos planos Bresser, Verão e Collor. No Plano Real, calcula-se que também se subtraiu no mínimo 20% da correção monetária devida às cadernetas de poupança e ao FGTS. Nos primeiros anos 2000 também aumentaram as alíquotas do FGTS, sacado dos salários dos trabalhadores.

E tudo continuou sob o governo do PT. Em outubro de 2002, Fernando Henrique, acertado com Lula, determinou que a poupança não mais seria reajustada pelo IPCA ? índice de preços ao consumidor ? Amplo) e sim pela TR ? Taxa de Referência ? criada pelo governo Collor, e que possuía índices mais baixos que os do IPCA, à sua vez já inferiores ao da inflação real.

Por pressão dos bancos, em 2006, como já dissemos, através de ?novas metodologias? (eles gostam desse engodo), reduziram-se de novo, os rendimentos devidos às cadernetas de poupança e ao FGTS. Outra vez o fizeram, em março de 2007. Essa ?simples mudança de metodologia? trouxe prejuízos ainda maiores aos poupadores. Estimava-se, em 2007, que os bancos deixaram de creditar por volta de US$ 03 (três) bilhões (de dólares) em rendimentos devidos às cadernetas de poupança, desde 1980.

Em suma, é o próprio Governo Federal, que espolia as poupanças voluntárias e compulsórias dos trabalhadores da ativa e aposentados.!.

E quer ir adiante! Antes, procuravam justificar toda a espoliação e confisco pela necessidade de combater a inflação. Atualmente, pelos perigos da queda dos juros! Desde abril, deste ano, a TR passou a ser ZERO. Agora, a pretexto de impedir a fuga de aplicadores nos fundos de investimento, com a queda da SELIC, se quer reduzir ainda mais esse extraordinário e perigoso, para as finanças públicas, ganho real de cerca de 1,7% ao ano das cadernetas, que é quanto se calcula que elas renderão este ano, descontada a inflação. É claro, contam com o apoio dos partidos de esquerda da base, na surdina, e explícito do PSB e de Ciro Gomes. Mas também de gente oposição. Até no nosso partido, ao que se deduz de alguns pronunciamentos, há apoio. Atenção, ?camaradas da identidade?, não esqueçamos o princípio da ?unidade e luta?, do Lênin.

No momento em que o trabalhador mais necessita de sua poupança, em virtude do crescente desemprego e das dificuldades para pagar dívidas, em virtude da crise que não provocaram, pretendem reduzir os rendimentos da caderneta, penalizando-o ainda mais. Esta situação dos trabalhadores está refletida no crescimento dos saques das cadernetas. Segundo o Banco Central, em março eles superaram os depósitos em R$ 846,8 milhões e em abril em R$ 941,55 milhões. Neste ano, a poupança já registra uma saída de R$ 1,523 bilhão. No mesmo período do ano passado, o resultado estava positivo em R$ 1,8 bilhão.

Ora, mesmo que venha a ocorrer uma significativa queda da taxa básica de juros, a Célio, há várias outras maneiras de barrar uma migração dos aplicadores em fundos de investimento para a poupança. Mexa-se na taxa de administração dos bancos, que é de até 4% contra 0,5% em todo o mundo desenvolvido. e nos quase 20% com que a Receita Federal, o Leão, taxa seus rendimentos, como propõe o nosso líder na Câmara Federal, Feernado Coruja. De modo algum o rendimento da poupança ? e que tantas vezes já foi negativo ? atrapalhará a queda dos juros. De fato, como assinala Tony Volpon, o Brasil tem ?déficit de poupança? e as cadernetas deviam ser incentivadas.

O governo Lula tem outros instrumentos fiscais e financeiros para corrigir a política de juros, basta mexer na lucratividade do sistema financeiro. Ai é que está na hora de mexer.

O que se quer, então, de fato, e qual a causa mais imediata dessa atoarda? Tão simples quanto verdadeiro: 1) reforçar o caixa do sistema financeiro, na hora em que, em virtude da crise, suas taxas de lucro tendem a cair e 2) mantê-lo no parasitismo.

A possibilidade da redução da taxa Célio abaixo de 10% (o que não a impediria de prosseguir muito acima da média mundial), como se prevê (eu disse prevê) até o final desse ano, obrigará o sistema financeiro, centralizado pelos bancos, a mudar. Mas ele resiste, não quer, acostumado que foi ao parasitismo, derivado de um lado da tranqüila e altamente rentável administração de seus recursos e dos de terceiros (captados em grande parte a custo zero), aplicando em títulos governamentais com taxas de juros escorchantemente altas, sem quaisquer riscos. E, de outro, por estar escorado nessa altíssima taxa mínima de juros, poder, como o fez, submeter a juros e outros encargos ainda mais escorchantes, os empréstimos a clientes que dele necessitam. O seu parasitismo não se esgota ai. Para completar o paraíso, passou a cobrar às empresas e aos cidadãos, tarifas tão altas pelos seus serviços, que elas lhe permitem cobrir - e com sobras - sua folha de pagamentos e outras despesas administrativas.

Mexa aí, ó Cara!

Ele não quer mudar, reduzir ?spreads?, taxas de administração e de juros, inclusive para reduzir a inadiplência, lançar-se à concorrência na captação de clientes, buscar eficiência na intermediação da circulação de recursos entre os diversos agentes econômicos. Está brigando para continuar operando em função do setor público, i.e., no parasitismo. E o caminho mais fácil para manter os mesmos mecanismos é , entre outros, o de reduzir a já ridícula taxa real de rendimentos da poupança (cerca de 1,7% ao ano) e que até poderá ficar negativa com o aumento que a inflação vem tendo. Não lhe importa, nem a seu governo, que fez lhe juras de bom comportamento com a Carta de Lula aos banqueiros, em 2002, as conseqüências sociais do fato.

A compressão salarial e até o confisco dos rendimentos dos trabalhadores brasileiros por tantos anos, e mantidos no governo Lula, estão na base do pífio desenvolvimento do país, das décadas perdidas. Criou-se uma situação em que, numa força de trabalho de 96,3 milhões de pessoas, em 2007, segundo a Economia Br., citando ?World Fact Book 2007?, da CIA, 51% (49 milhões) estavam na informalidade, nos diz o relatório do dia 08/04/2009, da Organização Para A Cooperação E O Desenvolvimento Econômico (OCDE). Expostos à pobreza, com poucas exceções, seus rendimentos tendem a cair, sobretudo quando cresce o desemprego no setor formal, como agora. A ?Ausência de estruturas formais por longo tempo explica o atraso em matéria de desenvolvimento econômico?, adverte a OCDE. Por outro lado, segundo o DIEESE, em 2007, 43,7 milhões de trabalhadoras e trabalhadores do Brasil tinham ?seu rendimento referenciado no salário mínimo?. Quer dizer, 45,34% da força total de trabalho. Se somarmos a esses números a população inscrita no Bolsa Família, cerca de 12 milhões da famílias e cerca de 52 milhões de pessoas (1/3 da população brasileira), nos números do Ministério do Desenvolvimento Social, nos aproximaremos do quadro de pobreza e miséria do país.

E querem sempre mais, como se pode concluir de sua ofensiva contra a poupança.

Um senhor fora de moda, Karl Marx, dizia que as crises do capitalismo tinham como causa final, face à produjção, a capacidade limitada de consumo das massas trabalhadoras. No Brasil, não se trata somente disso, mas da qualificação disso, da capacidade limitada de consumo da grande maioria da população pela pobreza e pela miséria. Em geral, aqueles números se agravam pelas constantes quedas no rendimento médio dos trabalhadores, com pequenos surtos de aumento. Por exemplo, em 2006 era inferior ao de 1996 e os aumentos no rendimento médio real da população ocupada nas seis principais regiões metropolitanas do país ocorrido em 2007 e 2008 não foram suficientes para recuperar as perdas ocorridas entre o segundo semestre de 2002 e o terceiro trimestre de 2004. Em março de 2002, o rendimento médio apurado era de R$ 1.218,00, enquanto em março de 2008 era de R$ 1.188,90, portanto inferior ao de 1996! Eis a lógica da impossibilidade de a imensa maioria do nosso povo fazer suas compras à vista, de precisar submeter-se à agiotagem dos crediários ou, para evitá-la, recorrer à poupança que pretendem golpear.

Nesses números está essencialmente a explicação para nossas décadas perdidas. Eis os fatores internos de nossa crise. Ela não foi criada pelos ?brancos de olhos azuis?. A crise global apenas a agravou. Desde 1979, o crescimento do Brasil é pífio, medíocre, enquanto, desde 1995, no mundo, o crescimento das economias foi exponencial.

O governo Lula entretanto não se vexa, tem a desfaçatez de afirmar que estamos em pleno desenvolvimento, como ?nunca na história deste país?. De fato, o crescimento foi principalmente ?metodológico?. Como modificaram a metodologia de cálculo, depois de muitos anos de quase estagnação, o PIB real, em 2006, passou de 2,9% pela metodologia anterior para 4,5% pela nova. Por esse caminho, também o crescimento de cerca de 4%, em 2008, passou para 6%! Quer dizer, um substancial crescimento da nossa economia só no papel ou na mudança de metodologia no cálculo do PIB brasileiro. Ora, a adotar-se essa ?nova? metodologia, o crescimento do PIB, de 1964 a 1978, durante a ditadura, teria sido de 12,6% ao ano, bem acima dos atuais 6% ao ano, de agora, propagados pelo governo, graças à nova metodologia. É, de fato ele cresceu, naquele período, mas não foi tanto... Mas também, o crescimento mundial seria muito superior, inclusive na América Latina, à exceção do Haiti.
Em qualquer hipótese, o crescimento do nosso PIB foi medíocre, pífio, sobretudo per capita, e é autosustentável, pois perdura desde 1979. De fato, pela anterior metodologia o crescimento médio do PIB real foi de 2,74% ao ano, entre 1979 e 1994, caindo para 2,60% ao ano, de 1995 a 2006. A resultante não poderia ser outra senão o agravamento da pobreza e das desigualdades sociais, o grande incremento do desemprego, isto sim como nunca na história deste país?. Para maquiá-los, o governo inventou o PAC, uma nova filipeta que enche o país e a mídia de propaganda falsa e criou as chamadas bolsas, principalmente a bolsa-família, um enorme plano de compra de votos e que já alcança 1 em 3 brasileiros, ao passo que investe na economia do país apenas 1% do PIB, o que só poderá manter e aumentar o brutal aprofundamento das desigualdades sociais, ampliar o desemprego e, logo, a miséria. .

Canto a mineira

João Nogueira
Vale a pena ver o vídeo

Clique o link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=QitEh6HwfVQ

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1324&portal=

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O PENSAMENTO DO DIA

"Todo estrato social tem seu “senso comum” e seu “bom senso”, que são, no fundo, a concepção da vida e do homem mais difundida. Toda corrente filosófica deixa uma sedimentação de “senso comum”: é este o documento de sua efetividade histórica. O "senso comum" não é algo rígido e imóvel, mas se transforma continuamente, enriquecendo-se com noções científicas e com opiniões filosóficas que penetraram no costume. O “senso comum” é o folclore da filosofia e ocupa sempre um lugar intermediário entre o folclore propriamente dito(isto é, tal como é entendido comumente) e a filosofia, a ciência, a economia dos cientistas. O "senso comum" cria o futuro folclore, isto é, uma fase relativamente enrijecida dos conhecimentos populares de uma certa época e lugar.”


(Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere, volume 2, pág. 209 – Civilização Brasileira, 2006)


O debochado em seu hábitat

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O deputado Sérgio Moraes, relator do processo por quebra de decoro contra o deputado Edmar Moreira no Conselho de Ética da Câmara, é um abusado convicto.

Vai propor a absolvição do ex-corregedor suspeito de ter usado notas fiscais frias para justificar gastos com a verba extra de R$ 15 mil não porque o presuma inocente. Não entra no mérito da questão.

O argumento dele é aquele: se não estava escrito que era proibido gastar a verba com serviços contratados a empresas de propriedade do parlamentar, então era permitido. Ignora de propósito a acusação de apropriação dos recursos, pois o deputado Moreira não conseguiu provar que a despesa alegada foi realmente feita.

Na visão do relator, tudo o que não é proibido é permitido. Matar e roubar inclusive, dado que não há veto explícito a nenhuma das duas ações no regimento interno da Câmara ou nos delitos passíveis de cassação de mandato.

Mas o deputado Sérgio Moraes é também um homem de acurada percepção, sabe onde pisa.

"Estou me lixando para a opinião pública, até porque vocês (jornalistas) batem, mas a gente se reelege." É um deboche, só que um deboche sustentado numa realidade inquestionável.

Malfeitores de carteirinha são eleitos e, quando reeleitos, encontram no Parlamento o abrigo da justificativa de que foram absolvidos pelas urnas.

Ele mesmo, réu em dois processos no Supremo Tribunal Federal, está lá na posse legítima de seu mandato. Indicado para relatar um processo por quebra de decoro no Conselho de Ética, lixando-se para a opinião pública, na maior sem cerimônia e sob o silêncio obsequioso de seus pares que não cansam de reclamar de que imprensa peca pela generalização.

Um parêntese: no caso das passagens distribuídas a parentes, amigos e correligionários, viu-se, a imprensa foi conservadora no tocante à farra generalizada.

Mas o eminente relator não disse o que disse referido apenas no ambiente do Congresso.

Sérgio Moraes dá-se ao luxo de se lixar para a opinião pública, para a ética e para os bons costumes porque vive num País onde uma parcela robusta ? para usar o adjetivo predileto do ministro Guido Mantega ? do eleitorado joga o voto no lixo.

Vai às urnas com descaso, sai dali falando mal dos "picaretas" do Congresso e assim passa quatro anos até a próxima eleição quando, de novo, age como se não houvesse relação de causa e efeito entre a qualidade do voto e o perfil do Parlamento.

Por exemplo: na eleição de 2008 a Justiça Eleitoral, a Associação dos Magistrados e entidades afins tentaram levantar a bola dos fichas-sujas para o eleitorado chutar. Tempo perdido, o assunto nem sequer mereceu maior atenção nas campanhas e, por mais que se exibissem listas de candidatos processados, vários se elegeram prefeitos e vereadores.

Ah, queriam que a Justiça os proibisse de concorrer? Pois é, nem sempre o que não é proibido é necessariamente permitido. O TSE seguiu a Constituição. Mas alertou o eleitor de que ele poderia, e deveria, seguir o próprio discernimento.

Na eleição anterior a essa, a de 2006, o Brasil acabara de conviver com o escândalo do mensalão. Tratava-se de um governo cujo partido organizou a maioria parlamentar mediante a distribuição ilegal de recursos entre os partidos aliados no Congresso.

Não só o governo foi reeleito, como diversos mensaleiros voltaram ao Legislativo como se nada houvera ontem nem anteontem. Que não se atribua o fato exclusivamente ao poder do dinheiro para financiamento de gordas campanhas nem à carência educacional ou à despolitização do brasileiro dos grotões.

Todos se lembram ? por inesquecível ? da pesada ofensiva de uma parcela de certo mundo cultural em favor da política das "mãos-sujas". Não foi um nem foram dois os artistas que emprestaram seus nomes à defesa da tese segundo a qual política é a arte de chafurdar na lama. Se o político é alvo da simpatia, ou compartilha da mesma ideologia, não há mal em mandar os escrúpulos às favas.

Qualquer tentativa de pôr em foco a questão da ética era posta no terreno do farisaísmo, desqualificada como ofensiva "udenista" de uma classe média ressentida aliada a uma elite entediada. O esboço de uma reação desenhada no movimento "Cansei" (de tanta desfaçatez) foi ironizado, um capricho de ricos "cansados".

Fosse outra a atitude dos políticos que se dizem desiludidos por confundidos com a escória existente em toda parte, fosse diferente a postura do eleitorado, fosse menos cínica a ação de certas celebridades, fosse menos apática a universidade, o valor da ética talvez não estivesse em queda livre.

Não trocassem seu vigor por um punhado de verbas públicas os movimentos sociais, as entidades estudantis, não deixassem todos tão barato os verdadeiros descalabros pronunciados por autoridades em defesa da imoralidade de resultados, certamente o deputado Sérgio Moraes não se sentiria tão à vontade de se "lixar" para o Brasil.

Renovação de ares

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Foi-se o tempo em que podíamos discutir temas como voto distrital, ou em lista, ou financiamento público de campanhas como se estivéssemos decidindo os destinos políticos do país. Acabou a graça, já não há mais ambiente para que um debate como esse produza no cidadão comum a sensação de que, afinal, estamos caminhando para alguma direção definida, com um objetivo claro de aperfeiçoar nosso sistema político-eleitoral. Falar de voto em lista ou financiamento público a esta altura do campeonato, com os políticos completamente desmoralizados e sem credibilidade, ainda sangrando em público por uma série de irregularidades que vêm sendo cometidas no correr dos anos sem que houvesse uma só administração disposta a coibir os abusos evidentes, é querer levar mais lenha à fogueira.

Como explicar para a população que vamos colocar mais R$ 1 bilhão no orçamento público para financiar campanhas políticas desses mesmos políticos que estão sendo vistos pela opinião pública como usurpadores, em vez de defensores do cidadão? A situação do deputado Sérgio Moraes, que relata o processo contra o deputadocastelão Edmar Moreira e diz não estar ligando para o que a opinião pública pensa, já antecipando seu voto favorável ao colega, é típica de uma instituição que não se dá ao respeito, que não tem instrumentos nem vontade política para controlar seus “aloprados”.

No mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) abre um processo contra o deputado do castelo, por sonegação de impostos e apropriação indébita de contribuição dos funcionários ao INSS, seus pares caminham para livrá-lo de qualquer punição.

Antes de fazer essa pantomima em torno de uma reforma política que está para sair há anos e nunca se realiza porque são muitos os interesses em jogo, os parlamentares deveriam tratar de recuperar a credibilidade da instituição, fazendo uma limpeza em regra, e não apenas nos seus membros.

Vê-se agora que foi montada dentro do Congresso uma estrutura burocrática que ganhou vida própria, e que tem em suas entranhas segredos e mistérios que não se coadunam com as normas básicas de moralidade e impessoalidade do serviço público.

A promiscuidade entre a burocracia do Congresso e os senhores parlamentares, com uma mão lavando a outra e todos se dando bem, com interpretações lenientes de regimentos e condescendência com desvios de conduta suprapartidária, só poderia dar no que está aí.

Os políticos se queixam de que o Judiciário avança muito nas suas decisões, a famosa “judicialização” da política, mas têm culpa no cartório por seu comportamento e, sobretudo, pela inação.

Só decidem se mexer quando, às vésperas das eleições, sentem-se ameaçados pela repulsa do eleitorado e tentam, em cima do laço, fazer as reformas que dormem nas gavetas do Congresso há anos.

Como uma maneira de proteger seus interesses imediatos ou, no mínimo, de desviar a atenção dos seus problemas, jogando no ar a discussão de temas fundamentais, que precisariam de tempo de discussão com a sociedade para serem aprovados.

O fato é que, por pressão dos próprios políticos, o Judiciário assumiu decisões retrógradas para o funcionamento de nosso sistema eleitoral.

O caso da flexibilização da interpretação sobre a verticalização, que na verdade significou o seu fim, é exemplar. O TSE, que havia reafirmado o princípio da verticalização para a eleição de 2006, recuou em conjunto depois que vários líderes partidários, entre eles os senadores José Sarney, Renan Calheiros e o falecido Antonio Carlos Magalhães, foram pressionar os juízes.

As alianças fora das coligações nacionais, que haviam sido chamadas de “concubinato” pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello, acabaram voltando a serem permitidas, e a “ordem na bagunça partidária das coligações para as próximas eleições” acabou não se estabelecendo.

Outra decisão, desta vez do Supremo, também atingiu em cheio uma reforma eleitoral que entraria em vigor nas últimas eleições.

Dez anos depois de terem sido introduzidas na Constituição, exatamente para que os partidos políticos se preparassem, as cláusulas de barreira foram eliminadas pelo STF por unanimidade, sob a alegação absurda de que feriam os direitos dos pequenos partidos e impediam o pluralismo partidário.

Os partidos não deixariam de existir, apenas não teriam representação no Congresso se não tivessem um número mínimo de votos, como acontece em vários países, o que ajudaria a organizar o funcionamento das alianças políticas dentro da Câmara e do Senado, onde hoje têm representação nada menos que 19 partidos.

Com a cláusula de barreira, estariam reduzidos a cerca de dez.

Já não importa mais saber se o melhor sistema é o distrital ou o proporcional, se o voto em lista pode melhorar a representação partidária, ou se colocará os partidos mais ainda nas mãos dos dirigentes e longe do eleitor.

Se não for feita uma limpeza no próprio sistema partidário, com uma reorganização que permita a formação de novas correntes políticas dentro de novos partidos, não será possível aprovar uma reforma política que faça a democracia brasileira avançar.

E essa renovação de ares só poderá ser feita com o próximo Congresso, quem sabe mais depurado pelas urnas do que gostariam os sérgios moraes da vida, e pelo novo presidente da República, que deveria assumir o compromisso de fazer da “mãe de todas as reformas” sua prioridade de governo.

Sem atalho para o respeito do eleitor

Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


De 18 países da América Latina apenas quatro fizeram reformas eleitorais nos últimos 20 anos, considerando-se como tal mudanças no modelo em que o voto se converte em representação política e excluindo-se da lista alterações produzidas por rupturas institucionais.

Em todos quatro, as reformas foram incapazes de reduzir a volatilidade eleitoral dos partidos e contribuir para a sedimentação institucional. Três dos reformistas estão entre aqueles que mais sinais de instabilidade política vêm produzindo no continente: Venezuela, Bolívia e Equador. O quarto da lista é a Colômbia.

Nenhum deles se inclui na lista de países que mais avançam no levantamento anual da Freedom House, instituição americana que avalia o conjunto das liberdades civis e direitos políticos. Entre os países que têm incrementado sua posição nesses critérios estão Brasil, Chile, El Salvador, México, Panamá, República Dominicana e Uruguai.

Os dados estão em trabalho apresentado pelo cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, André Marenco, em seminário internacional sobre reformas eleitorais promovido em Santiago pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no ano passado.

Nele se descreve como os países mudancistas abriram suas listas fechadas, caminho inverso do pretendido no Brasil. Apenas o vezo de se transformar problemas políticos em crises institucionais explica por que se pretende mover o país para a crista das turbulências.

Na comparação para além da América Latina, o impulso reformista no Brasil também vai na contramão. A quase totalidade dos países que hoje adotam lista fechada o fizeram depois de regimes de exceção. Apenas a Polônia fez o que PT, PMDB, DEM, PPS e PCdoB preconizam - sair de um sistema em que a lista de parlamentares é definida diretamente pelo voto do eleitor para outro em que um ordenamento prévio do partido direciona a escolha.

A dobradinha com o financiamento público de campanhas já diz tudo. As cúpulas partidárias, que já têm poderes desmedidos, querem assegurar sua manutenção reduzindo a competição eleitoral. Para isso, além de acenar aos atuais deputados com prioridade na lista de 2010, espera dobrá-los com a proposta de dinheiro público a rodo nas campanhas eleitorais.

Os mudancistas não se dignam a esclarecer ao público pagante que as regras em vigor no país já contemplam as virtudes apregoadas tanto na lista fechada quanto no financiamento público. O que é o voto de legenda senão uma modalidade mais democrática de lista fechada? E o que dizer do horário eleitoral gratuito e o gordo fundo partidário?

O silogismo dos reformistas relaciona uma premissa real - o encarecimento das campanhas - à falsa solução do dinheiro público. Não é irrigando o caixa 1 que se coíbe o 2. Se é a traficância de interesses no Estado que paga os custos de campanha 2, é mais eficiente e barato coibi-lo com mais transparência nas licitações públicas e execução orçamentária.

Parte da lição de casa vem sendo feita pela justiça eleitoral com o cruzamento das declarações do Imposto de Renda com as declarações de gastos de campanha, além do estudo em curso para coibir as doações ocultas via partidos. Isso talvez explique, em parte, o motor dessa nova investida pelo financiamento público.

A iniciativa ressurge no momento em que caiu de moda no resto do mundo. Basta ver o que aconteceu nos Estados Unidos nas últimas eleições presidenciais. Depois de três décadas de vigência iniciada depois dos escândalos de Watergate, o financiamento público de campanha entrou em desuso nos Estados Unidos. Os candidatos abriram mão da verba a que teriam direito pelo comitê eleitoral em troca de poder levantar livremente recursos junto a empresas e eleitores.

A iniciativa, inicialmente tomada por Hillary Clinton e seguida pelos demais, sinalizou a oxigenação política que estava em vias de mostrar a porta de saída para a crise econômica. O resultado foi a maior arrecadação de contribuições eleitorais já vista na história do país, com ampla divulgação na Internet. Apenas o presidente Barack Obama arrebanhou 3,5 milhões de contribuintes. Em 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amealhou 1,2 mil.

É a terceira vez, na era lulista, que se tenta levar a cabo uma reforma política. A primeira surgiu com o mensalão e a segunda, com a operação policial que quase custa o mandato do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Desta vez, o pretexto é a desavergonhada farra das passagens aéreas.

Tantas outras surgirão enquanto os parlamentares não acordarem para as evidências de que as políticas públicas mais relevantes que hoje estão em curso no país foram levadas a cabo pelo Executivo com uma participação mais decisiva do Judiciário do que do Legislativo.

Num momento em que ícones do moralismo parlamentar se deixam vitimar pelo próprio discurso é que o Congresso deveria reforçar o voto como a opção do eleitor na disputa de rumos para o país. Correção no trato da coisa pública é apenas um meio para isso. E reforma do sistema eleitoral tampouco lhe serve de atalho.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

Reforma a toque de caixa

Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

RIO DE JANEIRO - Impulsionada pela crise, recomeçou a discussão sobre reforma política. Dois temas se destacam e parecem encantar a maioria. Um deles é financiamento público de campanha; outro é o voto em lista fechada.

Tenho muitas dúvidas sobre os dois. As eleições de 2008 custaram um pouco mais de R$ 1,5 bilhão. Isto sem contar os R$ 190 milhões de programa gratuito. Eleições nacionais vão rondar os R$ 2 bilhões. Será que os eleitores aceitam? Financiamento público é tido como antídoto à corrupção. Mas na Alemanha de Helmut Kohl houve escândalo mesmo com financiamento público. Nos EUA, Obama dispensou dinheiro público e usou pequenas doações via internet.

Voto em lista fechada pode também afastar mais os eleitores. No Brasil, querem votar nos nomes. Pelo menos é isso o que dizem todas as pesquisas. O domínio da lista pelas burocracias partidárias pode ser entendido como uma recusa da escolha do indivíduo.

Portanto, para ser sintético, os dois pontos básicos da reforma foram feitos para aproximar a população do voto. Temo que alcancem o efeito contrário. E, caso derrotado nos debates, restará torcer para que os autores tenham razão a longo prazo. Estaremos todos mortos. Daí a importância de tentar algo melhor, para aqui e agora.

O único grande mérito da iniciativa é trazer horizonte para uma situação que parece desesperadora. Acontece que sair de uma crise com uma reforma repelida pelos eleitores pode nos jogar numa próxima crise. O fim do foro especial para crimes comuns não está entre os temas escolhidos. No entanto, pode depurar melhor as eleições do que listas partidárias.

A ampliação do debate, certamente, vai ampliar as chances de acerto. Até o momento, falou a chamada sociedade organizada. Falta muita gente nesse baile.

Pemedebistas voltam a discutir terceiro mandato

De Brasília
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Com a revelação da doença da ministra Dilma Rousseff, a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Lula voltou a ser discutida não só no PT, mas também no PMDB, o partido mais forte da aliança que dá sustentação ao governo no Congresso. Já há, inclusive, uma estratégia jurídica em debate para mudar a legislação e evitar contestação por parte do Supremo Tribunal Federal (STF).

Além do partido do presidente, o principal interessado num novo mandato para Lula é, segundo apurou o Valor, o presidente do Senado, José Sarney. Partiria do PMDB, a partir de articulação de Sarney, a proposição da mudança constitucional.

Qualquer alteração na legislação eleitoral tem que ser feita até um ano antes do pleito. Para mudar o modelo dentro do próprio ano eleitoral, é preciso aprovar emenda constitucional com a permissão. Ainda assim, um precedente ocorrido nas eleições de 2006 fez os partidários do terceiro mandato pensarem em uma nova estratégia. Naquela eleição, o Congresso acabou com a verticalização por meio de uma emenda à Constituição. O STF, no entanto, invalidou a decisão, considerando-a inconstitucional. Com isso, fez prevalecer a regra que impede que partidos adversários na eleição à Presidência se aliem nos Estados.

Segundo um integrante da cúpula do PMDB, a saída, para evitar um possível revés no Supremo, seria aprovar uma emenda constitucional ao longo deste ano, instituindo a possibilidade do terceiro mandato, e submeter posteriormente a decisão a um referendo popular. Isso poderia ser feito dentro do ano eleitoral, ou seja, em 2010. "A vontade do povo é soberana", comentou a fonte, sustentando que, nesse caso, o STF não poderia rever a medida.

Outra alternativa, mais complicada, seria convocar um plebiscito. O problema é que, mesmo que o plebiscito aprove a medida, o Congresso ainda teria que passar uma emenda constitucional alterando a lei. Nesse caso, poderia não haver tempo útil para Lula se candidatar.

A ideia do terceiro mandato é vista como um Plano B do PT e de setores influentes do PMDB para a sucessão presidencial. O Plano A ainda é a candidatura da ministra Dilma Rousseff. "Não vejo oposição à Dilma. Ela quebrou a resistência que havia no PMDB", disse uma liderança do partido. Há pemedebistas, no entanto, receosos com a proposta. "O terceiro mandato é útil para o governo, mas não o é para as instituições", assinalou outro integrante da cúpula do partido.

Lula é popular, poderia se reeleger, mas as instituições, nesta interpretação, precisam da alternância do poder. "Se houvesse um excelente desempenho no terceiro, haveria o quarto? O quinto?" (CR, RU e RB)

Não há consenso sobre proposta entre legendas

Julia Duailibi
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Aprovação de mudanças na legislação é questionada

A falta de consenso entre os parlamentares sobre pontos da reforma política ameaça a aprovação dessa "agenda positiva" ainda neste ano na Câmara. No momento em que a Casa enfrenta uma série de denúncias contra deputados, a aprovação de mudanças na legislação que alterem regras da eleição de 2010 é questionada pelos partidos.

"Sou a favor da reforma, desde que ela não passe a valer para 2010. Acho que o açodamento para aprovar a qualquer custo, sem uma maioria, é o caminho para o fracasso", declarou o líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP). O líder do PSB, Rodrigo Rollemberg (DF), também questiona a aprovação de novas regras em ano anterior à eleição. "Nós entendemos que a reforma política fatiada, acelerada, em ano antes de eleição, não é positiva."

Na semana que vem, o PMDB pretende apresentar proposta do deputado Ibsen Pinheiro (RS) sobre o financiamento público de campanha e as listas fechadas - com elas o eleitor passa a votar em um partido, que elabora as listas com os nomes dos parlamentares.

"Vamos dar dois pontapés importantes na semana que vem", afirmou o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), em uma referência à apresentação da proposta de Ibsen e à formação da comissão especial na Câmara que analisará os aspectos constitucionais da reforma, como o fim da reeleição.

Além da questão do prazo, a lista fechada também acirra o debate entre os deputados. Rollemberg, por exemplo, é contra. "É um retrocesso. Tira o poder da população de escolher e o entrega aos caciques, num momento em que os partidos estão sem alma, sem bandeira."

Na avaliação dos deputados, os projetos que tratam das listas e do financiamento têm que ser votados juntos. Isso porque seria temerário financiar campanhas com recursos públicos repassando-os aos candidatos e não às legendas.

O líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), vê com otimismo a aprovação das propostas ainda neste ano. "Precisamos, no entanto, demover os que estão contra. Como o tema é muito técnico, alguns deputados ficam ansiosos, refratários às mudanças", disse o líder do DEM.

O líder do PT defende que os partidos busquem um consenso em torno das propostas - cinco projetos de lei, um projeto de lei complementar e uma proposta de emenda à Constituição - enviadas pelo Executivo no começo do ano. "Esses projetos são a base para discussão", afirmou. Questionado sobre o texto do deputado Ibsen, Vaccarezza disse: "É importante, mas não é a base para um acordo na Câmara."

O presidente da Casa, Michel Temer (PMDB-SP), vai reunir os líderes para debater os pontos polêmicos. Os deputados querem ainda aproveitar a discussão sobre a reforma para aprovar a janela da fidelidade partidária. Hoje a legislação não permite a troca de partido, mas a ideia é criar uma brecha até setembro - o prazo para alterações na lei antes da eleição.

'As pessoas não podem pairar acima dos partidos'

Moacir Assunção
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O cientista político e diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Feesp), Aldo Fornazieri, se diz plenamente favorável à lista fechada. O principal mérito das listas, afirma, é fortalecer os partidos em detrimento de indivíduos ou facções. "As pessoas não podem pairar acima dos partidos. As modernas democracias ocidentais têm como centro as agremiações partidárias."

Ele também é favorável ao financiamento público, desde que a lei preveja formas expressas de proibição de financiamento privado - o que está previsto.

Por que a lista fechada é melhor?

A atual estrutura política brasileira funciona na base da fragmentação dos partidos e no fortalecimento dos indivíduos isolados e facções partidárias. Antes que o Supremo normatizasse a tese de que o mandato pertence ao partido e não ao político era pior, com o grande troca-troca de partidos. Com a lista fechada, os partidos vão se organizar internamente e o próprio sistema de representação será beneficiado porque as negociações serão entre partidos, que serão os verdadeiros porta-vozes da população.

A principal crítica dos contrários à lista fechada é que ela favorece as cúpulas partidárias, cristalizando os nomes mais conhecidos.

O argumento não se sustenta. A própria legislação pode prever formas democráticas, como a eleição direta, para escolha dos integrantes da lista, o que afasta o caciquismo. Os partidos terão que ter muito cuidado para fazer as listas.

Como o sr. vê o financiamento público de campanhas políticas?

Sou favorável, mas não pode haver nenhuma forma de financiamento privado. Caso contrário, a lei perde o sentido. A principal vantagem do sistema é evitar a enorme promiscuidade entre interesses públicos e privados. Esse relacionamento espúrio está na base de toda a corrupção política no País, já que pressupõe uma relação de troca.

'Oligarquias vão definir hierarquia do financiamento'

Roberto Almeida
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Marco Antônio Teixeira: cientista político e professor da FGV

O cientista político Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não concorda com a adoção "da noite para o dia" da lista fechada, atrelada ao financiamento público de campanha. Segundo ele, a falta de identificação do eleitor com partidos políticos inviabiliza a votação na legenda. E o financiamento público seria o mesmo que oferecer dinheiro às oligarquias partidárias.

O que falta para dar certo?

As duas coisas estão muito ligadas. Não tem como fazer financiamento público sem lista fechada. Mas para o sucesso da lista fechada é preciso ter partido com identidade, para que as pessoas votem em um programa partidário. Não dá para fazer lista fechada com a quantidade de partidos que existem hoje.

Como fica o financiamento público?
Os partidos precisam se democratizar. Hoje quem define as candidaturas são as oligarquias partidárias, sem competição interna. Partido nenhum tem feito prévias. E quem vai definir, provavelmente, a hierarquia do financiamento público? As oligarquias.

Antes deve vir uma reforma interna dos partidos?

Teria de estabelecer uma reforma, mas não vejo no horizonte nada viável. Os mais notáveis ficam com praticamente com quase toda verba.

Qual a saída?

Primeiro, falta aos partidos terem conexão efetiva com a sociedade. Hoje a gente procura alguém pra votar em função de plataformas e vínculo. Com a lista fechada, vamos votar em quê? Qual programa, qual partido? Nunca houve um programa legislativo.

Esses dois pontos são um passo maior que a perna?

Olhando claramente para nossa realidade é certo que isso não se faz da noite para o dia. É preciso haver uma mudança maior.

FHC: PT vive mexicanização

Jair Rattner
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse ontem em Portugal que o PT vive uma espécie de mexicanização. E citou o Partido Revolucionário Institucional (PRI), do México, vencedor da revolução de 1917 e que por dezenas de anos foi hegemônico no país.

"Não foi o PT quem decidiu o candidato. Foi o Lula que decidiu quem é o candidato.

Voltamos a uma situação como no México, que é o destapar o tapado.

Foi o presidente que atropelou o PT e colocou a Dilma como candidata."

FHC, que participou de conferência sobre globalização, disse que falta uma mensagem política para o PT. "Hoje, a mensagem do candidato do presidente Lula é o Lula."

PT usa PAC para Dilma crescer em Minas

Ivana Moreira
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Partido mostrará na TV que Estado recebe maior investimento da história

O uso político do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) já começou em Minas Gerais, Estado onde nasceu a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. "O governo federal está fazendo o maior investimento da história do Brasil em Minas" é o mote das inserções em rádio e TV que o diretório estadual do Partido dos Trabalhadores veiculará neste mês.

Dilma, nome mais forte do Planalto para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é umas das estrelas da campanha e lembra aos mineiros que o valor previsto para Minas no PAC é de quase 10% do total reservado para o País. Considerando apenas os recursos que saem do Orçamento da União para o PAC, Minas Gerais já lidera o ranking dos Estados que tiveram maior volume de dotações autorizadas: R$ 3,6 bilhões entre 2007 e 31 de março deste ano. Para São Paulo, o valor autorizado no mesmo período soma R$ 2,9 bilhões.

A revisão do programa, anunciada em fevereiro, quando a ministra apresentou o balanço dos dois primeiros anos, foi generosa com os mineiros. O Estado foi beneficiado com um acréscimo de R$ 11,7 bilhões em investimentos previstos. O valor até 2010 subiu de R$ 29,3 bilhões para R$ 41 bilhões, um aumento de 39,93%.

Os investimentos em logística foram os que cresceram mais na planilha da Casa Civil. O valor previsto para empreendimentos em Minas Gerais pulou de R$ 5 bilhões para R$ 14,69 bilhões. O valor inclui os investimentos diretos, com recursos do Tesouro Nacional, das estatais, dos governos estaduais, das prefeituras e também da iniciativa privada.

Apenas para os baianos a revisão do PAC foi mais vantajosa do que para os mineiros. Na Bahia, o valor previsto subiu de R$ 24,7 bilhões para R$ 37 bilhões. Os paulistas tiveram um acréscimo de apenas 0,4%, elevando o valor previsto de R$ 99 bilhões para R$ 99,4 bilhões.

O ministério não esclareceu os critérios adotados na revisão do programa. O valor total dos investimentos incluídos no PAC, de 2007 a 2010, subiu de R$ 514,2 bilhões para R$ 579 bilhões - acréscimo de 12,6%.

Recentemente, os cadernos estaduais - que mostram a revisão por Estado, discriminando todas as obras - tornaram-se disponíveis para acesso no site oficial do PAC. "É curiosa a diferença quando analisamos a revisão por Estados", comentou o economista Gil Castelo Branco, consultor do site Contas Abertas. A entidade, que atua na fiscalização das contas públicas, vem trabalhando na consolidação desses dados.

ESTRATÉGIA
Consolidar a imagem de candidata mineira é uma das estratégias dos petistas que trabalham da articulação da campanha à Presidência de Dilma. O que está em jogo é o segundo maior colégio eleitoral do país.

A ministra nasceu em Belo Horizonte, mas mudou-se ainda muito jovem e acabou construindo no Rio Grande do Sul sua carreira na política.

A fala de Meirelles

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Esta ata foi diferente. Assim que foi divulgada a ata do Copom, ontem, caíram as taxas de juros no mercado futuro. Os analistas entenderam que o recado do Banco Central era claro: a inflação vai cair mais, e os juros também vão cair mais. O presidente do BC, Henrique Meirelles, me disse que nada é por acaso na ata do Copom. “Tudo é muito bem pensado”.

Henrique Meirelles, numa entrevista que me concedeu ontem, contou que o estresse cambial que houve no Brasil a partir da quebra do Lehman Brothers acabou.

Disse que a economia brasileira deve ter um nível de atividade maior no segundo semestre. Ele contou que a decisão sobre a poupança ainda não foi tomada, mas admitiu que mudar o redutor da TR é uma decisão que cabe ao Banco Central, por delegação do Conselho Monetário.

— Qualquer mudança na remuneração tem que passar pelo Congresso, e qualquer decisão de tributação tem que respeitar a anuidade.

O leque de opções é grande, mas não é uma coisa com a qual o poupador deve se preocupar, porque a poupança continuará a ser o grande instrumento de poupança do Brasil.

O presidente do BC informou que o recado que está na ata do Copom sobre a necessidade de “mudança no arcabouço institucional herdado da época da inflação” não se refere só à poupança, mas também aos fundos de pensão.

— Vários fundos têm em seus estatutos uma obrigação de remuneração alta que era o que achava que era o mínimo que conseguiria.

Mas isso numa outra realidade.

A economia mudou muito. Eles terão que mudar esse estatuto porque, senão, não terão onde investir.

Meirelles negou que a preocupação seja com a dificuldade de rolagem da dívida pública.

Ontem foi um dia particularmente intenso. O resultado do teste de estresse dos bancos americanos mostrou que a maioria precisará de mais capital. Meirelles me disse que o caminho escolhido pelos Estados Unidos pode ser mais longo, mas é mais compatível com a economia de mercado.

— A Inglaterra foi pelo caminho mais rápido, estatizou alguns bancos. A partir daí ninguém tinha duvidas de que haveria dinheiro e garantia. O problema é como ter gente preparada no setor público para administrar o mercado financeiro.

Meirelles acha que a economia americana vai deslizar ainda mais antes de melhorar e que o problema dos bancos permanecerá por algum tempo.

— Mas no final, se os bancos não conseguirem captar no mercado o que precisam, o governo dará dinheiro público, o que for necessário.

No fim do processo, em novembro, os bancos estarão capitalizados.

Para a economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria, como o Tesouro e o Fed disseram que os bancos que precisam se capitalizar são viáveis, o governo dos EUA terá que, de alguma forma, suprir a necessidade de capital dos bancos.

— Uma coisa é o mercado receber bem o resultado do teste. Outra coisa é ter espaço para os bancos se capitalizarem sem o governo.

Se eles não conseguirem captar recursos no mercado, o dinheiro virá do governo.

Até porque, o governo disse que os bancos são viáveis. Ou a instituição é viável, precisa de um aporte, mas pode sobreviver por um período, ou a instituição não é viável — disse ela.

Sobre a situação cambial, o presidente do Banco Central disse que a dívida do Brasil no passado foi muito dolarizada, porque era necessário.

Depois, o BC passou a reduzir o passivo cambial.

Em seguida, passou a ter uma posição comprada no futuro.

— No início da crise, estava com US$ 22 bilhões, e isso foi fundamental, porque o Banco Central pôde vender dólar. Vendemos mais do que tínhamos, e passamos a resgatar essas posições. Agora, zeramos nossa posição.

Para Meirelles, aquele estresse cambial já acabou.

— Por todas as indicações de hoje, já passou sim.

Ainda há muita incerteza, estamos preparados para reversões, mas aquele estresse passou.

Sobre a ata do Copom, ele não quis falar muito.

— Ata de Copom não se explica, se publica. Até porque, se for explicar, vira outra ata. Cada frase lá é discutida, cada palavra, a sequência, tudo para ter uma comunicação explícita. Nada está na ata por acaso.

Tudo foi bem pensado.

O mercado entendeu, e ele não contradisse, que os juros vão cair mais rapidamente, porque o nível de atividade está mais fraco e os riscos inflacionários são menores. Para o economista José Márcio Camargo, da PUC, o Banco Central está vendo uma provável retomada da atividade, mas de forma bastante lenta.

— O BC chama a atenção, em vários pontos da ata, para o elevado grau de ociosidade na indústria, com o desemprego aumentando e pessoal subutilizado. O Banco Central está prevendo pouca pressão inflacionária para o restante de 2009 e para 2010.

Quando perguntei sobre carreira política, ele disse que é precipitado, porque está inteiramente focado no Banco Central e na crise econômica.

— Num certo momento decidirei, ou pela carreira política ou por voltar ao setor privado.