quinta-feira, 22 de outubro de 2009

TRÊS DIAS DE FÉRIAS

O Blog vai deixar em paz seus leitores amigos por três dias. Estará de volta na próxima segunda-feira. Nesses dias estarei em Fortaleza, participando da reunião do Diretório Nacional do PPS.
Até a volta!

Pão, pão, queijo, queijo

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, sustentou a posição do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e sinalizou que está na hora de pôr ordem na casa. Ambos pareceram dizer que o Judiciário deve ser acionado como o recurso da sociedade contra abusos de poder.

Até aí, nada de excepcional ou que suscite discordância. O problema reside na interpretação do que sejam abusos.

O governo apega-se ao conceito de "campanha antecipada" e, nesse aspecto, de acordo com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, o Palácio do Planalto tem-se conduzido dentro da mais perfeita legalidade.

Não tendo sido iniciado oficialmente o período de campanhas nem escolhidas formalmente as candidaturas, nada do que se faz pode ser examinado sob o prisma eleitoral.

O presidente do TSE acompanha de certa forma o raciocínio quando vê dificuldade em se distinguir, no ano antes das eleições, atos de governo de ações com propósito eleitoral, ou seja, de favorecimento a uma força política específica.

Ambos os argumentos levam em conta a Lei Eleitoral, mas desconsideram a Constituição. No artigo 19, veda à União, cuja representação se expressa na figura do presidente da República, a criação de "distinções entre brasileiros ou preferências entre si". No artigo 37, obriga a administração pública, chefiada pelo presidente, a obedecer a determinados princípios, entre os quais o da "impessoalidade".

Qualidade, caráter ou condição de "impessoal" - desapaixonado, neutro, isento, objetivo, não faccioso. Tudo o que o presidente da República não é quando circula com sua candidata pregando a realização de eleições ao molde de um plebiscito, na base do "nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo".

No entendimento do ministro Genro, o presidente da República só estaria impedido de "aparecer ao lado de candidatos, quaisquer que sejam eles", a partir da realização das convenções partidárias em junho de 2010.

Nesse legítimo monumento ao sofisma de resultados, o ministro da Justiça imprime aos atos do presidente Luiz Inácio da Silva uma naturalidade que eles não têm. Tarso Genro procura dar o mesmo peso às aparições de Dilma Rousseff e de pré-candidatos como os governadores José Serra e Aécio Neves, ao lado dele.

É desmentido pelo comportamento do presidente Lula, que não só não confere tratamento igual aos governadores citados pelo ministro da Justiça, como os trata claramente como adversários. Estaria em seu perfeito direito caso não o fizesse a expensas do erário e ao arrepio da Constituição.

Coisa, aliás, que não faz de hoje. Lula não governa como presidente, antes o faz como chefe político de um grupo. Pode ser amplo, mas é um grupo no sentido de uma parte e não da totalidade dos cidadãos.

Daí o parâmetro tradicional previsto exclusivamente na Lei Eleitoral não servir para medir o que seja ou não abuso, pois o conceito da transgressão não se circunscreve aos períodos eleitorais. Mais correto seria recorrer à Lei Maior para um bom exame sobre a adequação, ou não, da conduta do presidente ao juramento de fidelidade à Constituição.

Foi o presidente quem escolheu, desde o princípio, atuar na base do "nós contra eles". Tanto que permite que seus ministros cumpram desde já agenda de candidatos e, por isso, não disponham da impessoalidade necessária para fornecer balizas de comportamento.

Tarso Genro e Marco Aurélio Garcia, por exemplo. O primeiro é candidato ao governo do Rio Grande do Sul e o segundo desde já nomeado coordenador da campanha (suposta?) de Dilma. Evidente que, sob a ótica de ambos, tudo transcorre dentro da mais absoluta normalidade e legalidade.

Mas não são as vozes mais confiáveis para avaliar a situação nem para impor os parâmetros de conduta a serem seguidos por governantes e candidatos, governantes candidatos ou vice-versa.

Briga interna

O presidente do DEM, Rodrigo Maia, atira no paulista José Serra, mas, segundo consta, quer acertar mesmo é seu antecessor, o ex-senador Jorge Bornhausen.

Assim como Bornhausen, Maia sempre foi partidário da candidatura Serra e seguidor da estratégia do Palácio dos Bandeirantes de tratar Aécio Neves como protagonista, não como coadjuvante de José Serra. Para assegurar o apoio de Minas, para prestigiar uma liderança prestigiada pelo eleitorado e para fortalecer alguém que, no limite ou no imprevisto, pode até vir a ser o candidato a presidente.

Orestes Quércia, o comandante da dissidência do PMDB, esteve outro dia em Minas pelos mesmos e mais um motivo: pedir apoio de Aécio ao ministro das Comunicações, Hélio Costa, como candidato ao governo do Estado.

O tiroteio na seara oposicionista, no momento, ocorre no DEM. Serra e Aécio entram na história como Pilatos no Credo.

Da metamorfose à rendição

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Que Luiz Inácio Lula da Silva foi, a partir de sua vitória de 2002, uma "metamorfose ambulante", nem precisava que ele próprio o dissesse. Os fatos falavam alto e claro.

O triste, como revela a entrevista que ele concedeu a Kennedy Alencar desta Folha, é que Lula passou da metamorfose à rendição a uma realidade política horrorosa.

Disse Lula: "Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, ele não conseguirá montar o governo fora da realidade política.

Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. Quem ganhar a Presidência amanhã, terá de fazer quase a mesma composição, porque este é o espectro político brasileiro".

O presidente ainda acrescentou: "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

Se Frei Betto, o confessor ou ex-confessor de Lula, tivesse ensinado seu amigo direitinho, o presidente aprenderia que Cristo foi crucificado justamente porque não fez coalizão com os judas da vida.

Que Lula tivesse obsessão com a governabilidade até dá para entender. Que desista de ao menos tentar reformar a "realidade política" é um irremediável desastre.

Só para qualificar o que é essa realidade: a Fundação Konrad Adenauer, ligada à democracia-cristã alemã, divulgou há dez dias o índice de desenvolvimento político da América Latina. O Brasil consegue a proeza de ficar só no 8º lugar entre os 18 países listados. E estamos falando de América Latina, que é essa mixórdia arquiconhecida.

Tudo somado, dá para entender por que o presidente prefere que a imprensa não fiscalize o poder, apenas informe. Lula e seu partido trocaram a fiscalização do tempo de oposição pelo gozo do poder uma vez nele instalados.

Nem Judas escapa

Eliane Catanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - A metralhadora giratória de Lula não deixou de pé um único partido governista disponível para se coligar com o PSB e assim dar impulso e tempo de TV para o eventual candidato Ciro Gomes.

Já caíram a cúpula do PMDB e mais PR, PP, PRB e, na outra ponta, o PC do B, enquanto Lula mira também o PDT. Com o PT, são sete siglas. Sobra o PTB, que tende a marchar com a oposição (PSDB-DEM-PPS), dividindo-se no caminho. Vencidas as resistências dos partidos, Lula recarrega a metralhadora giratória e aponta para o peito (ou o coração) dos candidatos.

Primeiro, botou Ciro debaixo do braço e saiu com ele e com Dilma por aí, para fotos e trocas de elogios às margens do São Francisco. Chega a vez de Marina Silva (PV), que vem sendo coberta de elogios por lulistas. Nem Aécio Neves, teoricamente de oposição, escapa.Bastou Ciro se mostrar mais robusto nas pesquisas do que Dilma para ele engrossar a voz.

Mas bastou que Lula o enchesse de elogios, gentilezas e viagens para que afinasse rapidamente. Com Marina, queridinha de círculos intelectuais ou de vanguarda, Lula vai tentar repetir o enredo. Ele diz que Marina é "uma pessoa boa"; Marco Aurélio Garcia, o quanto ela tem tudo a ver com o projeto petista; Dilma, o quanto é bom ver as mulheres tão combativas, defendendo causas tão nobres.

Por fim, Aécio. Ao mesmo tempo em que desidrata as chances de apoio partidário a Ciro e a Marina, Lula infla o ego, as idiossincrasias e o poder de fogo de Aécio contra Serra, adversário mais temido. Rodrigo Maia, presidente do DEM, colabora com a estratégia lulista ao declarar preferência por Aécio. Ciro colabora mais ainda ao dizer que, contra Aécio, não concorre.

Em entrevista a Kennedy Alencar, da Folha, Lula explica o porquê da metralhadora giratória:

No Brasil, até "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

Rodrigo Maia não é do bloco do eu sozinho

Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), foi condenado por seus pares menos pelo conteúdo de suas declarações do que pelo fato de tê-las feito. O fato de o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), adiar a sua decisão de ser - ou não - candidato à Presidência da República tem provocado incômodos coletivos no partido de Maia. O DEM declarou que é aliado do PSDB seja qual for o candidato e propôs-se a abrir mão da vice-presidência de uma chapa, se o PSDB considerar eleitoralmente mais interessante uma chapa puro-sangue, com Serra na Presidência e o governador de Minas, Aécio Neves, na vice, em troca do apoio em seis Estados onde vai disputar o governo com mais chances que os tucanos. As demonstrações de apoio incondicional, todavia, não foram suficientes para fazer o aliado se definir. Com expressão eleitoral cada vez mais reduzida devido ao crescimento dos partidos que apoiam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Norte e no Nordeste, todavia, suas urgências são maiores do que as de seu parceiro.

O presidente do DEM disse que a oposição está no pior dos mundos porque não tem candidato, enquanto o governo tem candidata, a ministra Dilma Rousseff (PT), e ela avança eleitoralmente. Sem definição do nome nacional, a montagem dos palanques estaduais tem andado devagar, disse o parlamentar. Além disso, avaliou que o melhor candidato seria o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), pelo fato de conseguir transitar em posições que não sejam de simples confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O problema de Maia ter falado isso é que ele é o presidente do DEM e por ele terão de passar as negociações com o partido de Serra. Nas eleições de 2002, o confronto entre o então presidente do PFL, Jorge Bornhausen, e o candidato tucano Serra, rachou os aliados e reduziu, em consequência, as chances de vitória do então candidato da situação do governo Fernando Henrique Cardoso. Desde então o DEM, ex-PFL, está apartado do poder e mantém a duras penas uma estrutura partidária com grandes dificuldades de sobrevivência na oposição. O partido encolheu nos últimos sete anos. E tem razões para acreditar que, se por um lado estar com o PSDB é o único caminho de que dispõe no momento para voltar a ser governo, ao mesmo tempo é uma grande parte de seu problema.

Essas não são posições e avaliações minoritárias no DEM. O desconforto com a falta de pressa na definição do candidato tucano é disseminado. E as reticências em relação a Serra se ampliam. Existem razões para isso. As pesquisas que o partido tem feito não autorizam a direção do DEM a imaginar que a candidatura de Serra vá ser um passeio. Não é nada, não é nada, Dilma Rousseff é a candidata de um presidente que tem por volta de 80% da aprovação nas pesquisas de avaliação do governo. Considera-se que o poder de transferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não foi exercido: somente agora, e depois de um tratamento de saúde relativamente longo, Dilma está agindo como candidata, e com uma desenvoltura inesperada para uma neófita em política eleitoral. O poder de Lula sobre o PT e uma disciplina partidária que não é comum, por exemplo, num PSDB, têm agido favoravelmente também no sentido de criar para a candidata palanques relativamente sólidos nos Estados. O fato de o governo ter conseguido formalizar, a quase um ano das eleições, um acordo entre o PT e o PMDB - mesmo que a direção do PMDB ainda deixe pendente a ratificação da convenção nacional ao acordo - já é uma façanha. O natural, nessa circunstância, será os índices de intenção de voto em Dilma subirem. Esse é o momento dela, que se aproxima sem qualquer resistência do outro lado, já que a oposição não tem candidato colocado. O outro ponto é que, como depositária da transferência de votos de um presidente popular, Dilma tende a ganhar votos quando a disputa se acirrar e se polarizar. Com base nesse raciocínio, cresce a preferência por Aécio Neves, candidato com menos vocação para o confronto.

A banda governista da disputa andou rápido e o presidente Lula é o melhor eleitor do pleito de 2010. O PSDB pouco andou, apesar das facilidades abertas pelo DEM e pelo PPS, seus aliados declarados. O trunfo da candidatura Serra, que são os votos tucanos em São Paulo - Estado que tem quase um quarto do eleitorado nacional e onde o PSDB tem uma certa hegemonia -, começa a ser também um incômodo para o DEM. São Paulo é o Estado em que o partido reúne condições de crescer a sua bancada - sem bancada forte, o partido não conseguirá reassumir o seu protagonismo na vida nacional, mesmo se o PSDB vencer as eleições presidenciais. Todo o esforço eleitoral do DEM, todavia, caminha sobre uma verdade inexorável: os dois partidos se aproximaram tanto ideologicamente que crescem somente à custa do outro. São interesses quase inconciliável os dos candidatos a deputado federal dos dois partidos. Se, do lado do PSDB "serrista" de São Paulo, o chefe segura a divisão, do lado não serrista, identificado como partidário do ex-governador Geraldo Alckmin, o conflito está latente.

Alckmin, segundo as pesquisas do DEM, é o candidato com grandes chances de vitória na disputa para o governo do Estado. Outras opções abrem espaço para o PT, que nunca ganhou o governo, ou com candidato próprio, ou apoiando o deputado Ciro Gomes (PSB). O problema é que a vitória de Alckmin tem o efeito colateral de afastar qualquer pretensão política do prefeito da capital. Alckmin vencendo, é quase o fim de carreira de Kassab: o ex-governador disputaria a reeleição em 2014 e abriria espaço para o demista apenas a partir de 2018. Até lá, qualquer projeção que tenha ganhado à frente da prefeitura já terá sumido da memória do cidadão paulista. Um caminho mais seguro poderia ser o de projetar estadualmente o prefeito, lançando-o candidato ao governo e rachando o palanque paulista de Serra, sem chances de vitória, mas produzindo bancada e "recall" para as eleições seguintes. O partido elegeu 65 deputados federais em 2006. Na melhor das hipóteses, e somente se Kassab for candidato ao governo, imagina-se fazer o mesmo número no ano que vem. Sem Kassab como candidato, a perda pode ser grande.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Candidatura de Serra depende de bom cenário. E a de Aécio poderia mudar um cenário ruim?

Jarbas de Holanda
Jornalista


Reportagem de ontemontem da Folha de S. Paulo – “Fortalecido pelo DEM, Aécio decide dar ultimato ao PSDB – Mineiro quer oficializar intenção de disputar a Presidência e antecipar definição do partido” – mostra um dos reflexos que a ofensiva do governo pró-Dilma Rousseff está tendo no campo das lideranças tucanas. Colocadas sob pressão dos democratas, do PPS, e de suas próprias bases para a escolha do candidato oposicionista num prazo bem mais curto que o de março, defendido por José Serra, e sem as prévias, necessariamente demoradas, propostas por Aécio Neves, o nome alternativo. Este, pressentindo uma volta do
receio de Serra de participar da disputa presidencial, e estimulado pela preferência por seu nome que a maioria de deputados federais e senadores do DEM manifestou em pesquisa do Globo da semana passada, tratou de capitalizar tal pressão num jantar da cúpula do PSDB promovido anteontem em São Paulo por FHC, no qual afirmou estar pronto e à disposição do partido para a referida disputa.

A resistência de Serra à antecipação dessa escolha, baseada em cálculos e critérios há muito explicitados, tem o reforço, agora de razões bem plausíveis: a necessidade de esperar até março de 2010 para que possa avaliar os efeitos da ofensiva pró-Dilma desencadeada pelo presidente Lula (na montagem de alianças partidárias e de palanques estaduais, e no uso da vistoria de obras federais para a realização de verdadeiros comícios, objeto de incisivo
questionamento do chefe do Poder Judiciário, Gilmar Men-des). Ou seja, em que medida tais processos, combinados com a exploração dos impactos do pré-sal e das Olimpíadas de 2016, vão refletir-se nas pesquisas eleitorais e poderão produzir sinais indicativos de êxito ou fracasso do projeto oficial de transferência (plebiscitária) da popularidade do presidente para sua candidata. Para Serra, um prazo maior de definição do presidenciável tucano será também
importante para que se tenha, já em 2010, mais dados sobre outras variáveis significativas na disputa: o comportamento da economia e a minimização ou persistência do alto grau de tropeços e de gastança da gestão governamental.

É em função da existência, ao longo do primeiro trimestre do próximo ano, de um cenário político-eleitoral e político-econômico que propicie à oposição perspectiva ao menos de efetiva competitividade que o governador paulista quer decidir se parte para nova candidatura presidencial. Ou se, embora siga liderando as pesquisas, desiste dela, assumindo o plano B de reeleição (que teria de deslocar Geraldo Alckmin para a disputa de uma das vagas paulistas no Senado).

Já para o governador mineiro, a disposição de enfrentar todos os riscos do pleito federal e, agora, a defesa do apressamento da escolha do candidato do PSDB decorrem, basicamente, de uma aposta em que sua reconhecida capacidade de agregação de forças políticas conseguiria invi-
abilizar a formação de uma ampla aliança pró-Dilma (atraindo partidos da base governista, como o PP, o PTB e o PSB de Ciro Gomes, e boa parcela do PMDB), bem como inviabilizar ou esvaziar a estratégia do Planalto de converter o pleito num plebiscito em torno do lulismo. Mas Aécio tem pela frente, primeiro, os baixos índices obtidos até agora nas pesquisas, e,segundo, como obstáculo maior, a corrida do presidente Lula para antecipar forte composição multipartidária pró-Dilma, usando para isso todos os trunfos (da máquina e de sua elevada popularidade) para préformalizá-la com o PMDB, cedendo-lhe a indicação do candidato a vice, e atrair as demais legendas vinculadas ao governo. Cenário político hostil à oposição que está se configurando e que, concretizado, Aécio dificilmente poderia ou poderá mudar.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Aliança nacional divide PMDB e PT no Paraná

DEU NA GAZETA DO POVO(PR)

Dissidentes dos dois partidos são contrários a qualquer entendimento no estado

A oficialização da aliança nacional entre PT e PMDB para a disputa da eleição presidencial de 2010 mexeu com os ânimos dos caciques locais e pode provocar reflexos na sucessão estadual. Apesar de os líderes dos dois partidos no Paraná sinalizarem um entendimento entre as legendas, alas dissidentes de ambos os lados são contrárias a qualquer entendimento. Diante do impasse, a formalização das alianças locais só deve sair no ano que vem, às vésperas das convenções partidárias.

Principal partido da base aliada do governo Lula, o PMDB vinha pressionando os petistas por uma definição desde o primeiro semestre. Depois de várias reuniões, o martelo foi batido na noite da última terça-feira, com as bênçãos do presidente Lula. Em nota oficial, o PT garantiu ao PMDB a vaga de vice-presidente na chapa encabeçada pela ministra Dilma Rousseff e a participação na coordenação da campanha e na elaboração do programa de governo. As duas legendas, no entanto, admitem que não será tarefa fácil reproduzir a aliança nos estados, entre eles o Paraná.

Peemedebistas pró-PSDB criticam acordo com petistas

A ala do PMDB contrária à aliança do partido com o PT vai trabalhar nos bastidores para que o acordo, formalizado terça-feira à noite, não saia do papel.

PSDB afaga Osmar Dias

A possibilidade de uma aliança local entre PT e PMDB pode jogar o senador Osmar Dias (PDT) nos braços do PSDB do prefeito de Curitiba, Beto Richa, repetindo a aliança fechada nas eleições para governador (2006) e prefeitura curitibana (2008). Já cogitando um possível isolamento do pedetista no pleito do ano que vem, os tucanos voltaram a tratar o senador como aliado. No meio do fogo cruzado, Osmar Dias desconversa e afirma que as negociações com os partidos prosseguem sem alterações.

Ontem, o presidente estadual do PSDB, deputado Valdir Rossoni, afirmou que é muito mais fácil a população aceitar um acordo de Osmar com Beto Richa do que com o PMDB do governador Roberto Requião. Segundo Rossoni, a aliança com o senador nunca foi descartada. A declaração, em tom de afago, ocorre após um distanciamento crescente entre Osmar Dias e Beto Richa, iniciado quando o prefeito também se declarou pré-candidato a governador.

Com o avanço das conversas do senador com o PT, o rompimento ficou ainda mais evidente, mas foi minimizado ontem pelo presidente do PSDB. De acordo com Rossoni, ainda é muito cedo para definições e tudo que foi acertado há 15 dias não está valendo mais. “Na medida em que o Osmar se distancia do PT, o vejo com mais simpatia”, declarou o parlamentar. Ontem, por coincidência ou não, o senador pedetista não seguiu a orientação governista no Congesso e assinou o requerimento de criação da CPI do MST (leia mais na página 20).

Osmar Dias, no entanto, de­­­fendeu que a aliança nacional entre petistas e peemedebistas não altera as conversas em desenvolvimento no Paraná. Segundo ele, PT, PMDB e PDT fazem parte da base aliada do governo Lula e, portanto, a tese de enfraquecimento da sua candidatura “é uma análise completamente absurda de quem está vivendo fora do contexto político nacional”. Revelando que mantém conversas diárias com todos os partidos, o senador foi evasivo ao comentar a possibilidade de não ser candidato dependendo dos futuros acordos. “Ninguém decide ser candidato por decisão pessoal nem desiste por decisão pessoal.”

Nas duas possibilidades que tem de aliança, Osmar Dias corre o risco de ficar sem espaço para disputar o governo do estado. Enquanto o PMDB já tem o vice-governador Orlando Pessuti como pré-candidato, o PSDB conta com os nomes de Richa e do senador Alvaro Dias. Nesse cenário, restaria a Osmar disputar a reeleição ao Senado. (ELG e KC)

PT dividido

O PT e o PMDB locais enfrentam conflitos internos entre correntes que não aceitam “se misturar”. Ontem, uma ala petista lançou um movimento, encabeçado pelo deputado estadual Tadeu Veneri e pelo professor Alfeu Capellari, em defesa da candidatura própria a governador e contra a política de alianças. Os dois, inclusive, se apresentaram como candidatos à presidência estadual do partido, na eleição marcada para o próximo dia 22. Na disputa, eles enfrentarão o secretário do Plane­­­ja­­­men­­­to, Ênio Verri, que tem o apoio da atual presidente da legenda, Gleisi Hoffmann, e do marido dela, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

A ala dissidente já coletou 88 assinaturas para um manifesto em que repudia as negociações da direção nacional, que estaria “rifando” as candidaturas a governador do PT nos estados – o documento ainda rechaça a aproximação com o senador Osmar Dias (PDT), pré-candidato ao governo do estado. De acordo com o documento, “abrir mão da candidatura própria e apoiar Osmar Dias significa ajudar a eleger um conhecido representante dos latifundiários, banqueiros e industriais, os mesmos setores contrários à atualização dos índices de produtividade da terra e à redução da jornada de trabalho”.

Na opinião de Tadeu Veneri, o partido mantém conversas com várias legendas, mas não tem nem sequer um programa de go­­­verno para apresentar aos eleitores. “Para não ter candidatura própria, o PT negocia o quê e em no­­­me de quem? Não sabemos.”

Em nome de um entendimento conjunto no âmbito local, Gleisi Hoffmann voltou a defender uma aliança que reproduza a base de apoio ao governo Lula, unindo PT, PMDB e PDT. “O ideal seria definirmos (as alianças) o mais rápido possível, mas isso não depende só da nossa vontade. Se não for definido até o fim do ano, acredito que avançaremos bastante até lá.”

Racha no PMDB

Do lado do PMDB, as divergências internas também vieram a público ontem na Assembleia Legislativa. O deputado peemedebista Dobrandino da Silva falou em nome de uma ala que condena as decisões tomadas pela “banda podre do PMDB” e defendeu um levante no Paraná para impedir qualquer aproximação com os petistas. “Ninguém do nosso partido quer coligar com o PT. Todos estão decepcionados com o governo Lula”, disse.

Por outro lado, o pré-candidato peemedebista à sucessão estadual, o vice-governador Orlando Pessuti, afirmou que o partido pode fazer “as mais diferentes alianças”, desde que sejam respeitadas as candidaturas dele próprio e do governador Roberto Requião ao Senado. Ao comentar a possibilidade de fechar uma aliança que inclua Osmar Dias, Pesssuti disse que, “desde que o PDT concorde com as candidaturas apresentadas, essa hipótese poderá ser levada adiante”.

Estados freiam noivado PT-PMDB

DEU NO ZERO HORA (RS)

União dos partidos em nome da candidatura de Dilma à Presidência é duvidosa ou impraticável em alguns cenários regionais

Embora tenha avançado para um noivado na noite de terça, o relacionamento entre PT e PMDB em torno da candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência não é à prova de traições. O histórico peemedebista não inspira confiança, e os cenários regionais para as eleições de 2010 refletem a falta de lealdade do partido.

Em vários Estados, o casamento com o PT é impensável ou, no mínimo, complicado (veja no quadro ao lado). Em Pernambuco, por exemplo, o maior líder peemedebista, o senador Jarbas Vasconcelos, apoia o governador paulista José Serra (PSDB). A ausência de afinidade se repete no Rio Grande do Sul, onde PT e PMDB devem embarcar numa disputa acirrada pelo Palácio Piratini. O líder da bancada do PT na Assembleia, Elvino Bohn Gass, afirma que não há condições mínimas de reproduzir a união no Estado:

– Essa aliança é importante para a continuidade do projeto de Lula. O Brasil não pode retroceder. Mas aqui o PMDB sustenta o governo Yeda.

Os peemedebistas, por sua vez, também rejeitam a aproximação. Em relação ao plano nacional, os gaúchos liderados pelo senador Pedro Simon defendem candidatura própria, dizem que o acordo pró-Dilma não teve participação das bases e lamentam a falta de unidade. O problema é que eles próprios já pularam a cerca. Em 1994, apoiaram Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em detrimento de Orestes Quércia, nome oficial do partido.

– Depois que Quércia saiu do governo de São Paulo, apareceu um bolo de escândalos. Nosso candidato era Antônio Britto, mas ele ficou com medo de perder na convenção e preferiu concorrer a governador. Quércia exigiu a candidatura e depois levou aquela surra na campanha – explica Simon.

Foi a última vez que o PMDB teve candidato a presidente. Depois, a regra foi escolher um par de ocasião. Em 1998, os peemedebistas estavam no palanque da reeleição de FH e, em 2002, indicaram a deputada Rita Camata (ES) como vice de José Serra (PSDB). Em 2004, o PMDB já estava de novo abraçado ao poder, em ministérios de Lula. Em 2006, o voo do ex-governador do Rio Anthony Garotinho (hoje no PR) foi abortado antes mesmo da decolagem (leia mais na página 10).

É por isso que as intenções da cúpula do PMDB geram dúvidas hoje. O deputado federal Eliseu Padilha diz que o comando do PMDB está só sinalizando ao PT que precisa de ajuda para tornar a aliança palatável nos Estados. Outro líder peemedebista, observador dos movimentos nacionais da legenda há 30 anos, ressalta que a aliança é com Lula e não com Dilma:

– É só prestar atenção nas palavras deles. Esse grupo do PMDB sempre fala em compromisso com o presidente. Se a Dilma não decolar, eles vão deixá-la para trás.

Aliado a Serra, PSB paulista resiste a aceitar candidatura de Ciro

Vandson Lima e Luciano Máximo, de São Paulo
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A indefinição sobre qual cargo o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) vai disputar nas eleições de 2010 tem colocado a executiva paulista de seu partido em situação delicada na hora de definir alianças. Aliados do governo do tucano José Serra em São Paulo, deputados estaduais do PSB mostram-se reticentes quanto à possibilidade de formarem chapa conjunta com o PT, oposicionista, na hipótese de Ciro concorrer ao governo paulista, como quer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Não é só questão de apoio. Serra tem sido parceiro nosso. Municípios como São José do Rio Preto e São Vicente, que têm prefeitos do PSB, recebem investimentos importantes do governo estadual", diz o deputado estadual e líder da bancada pessebista, Jonas Donizette Ferreira.

Há ainda um outro entrave à parceria PT-PSB em São Paulo. O partido de Ciro tem compromisso com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, recém-filiado ao PSB. "Temos aí outra questão. O Skaf foi convidado a se filiar ao PSB com o compromisso de ser candidato a governador", revela Donizette. O próprio Ciro Gomes já admitiu publicamente que apoia a escolha de Skaf para a disputa.

No PT, apesar de a candidatura própria para a briga pelo Palácio dos Bandeirantes ser uma diretriz da executiva estadual, o partido não descarta apoiar Ciro num embate com o PSDB em 2010 como parte de uma estratégia nacional de apoio à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na corrida presidencial.

O deputado estadual petista Carlinhos Almeida chegou a afirmar que o político cearense teria mais dificuldade dentro do PSB do que no próprio PT para se lançar politicamente em São Paulo. "O PSB tem ligação muito grande com o governador José Serra e muitos representantes do partido não mostram o menor entusiasmo com a candidatura do Ciro apoiada pelo PT. Ele [Ciro] tem mais apoio dentro do PT, por ser um parceiro desde o início do governo Lula", afirma.

O parlamentar, que é o primeiro-secretário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, disse também que é cedo para prever como será a chapa de uma eventual aliança PT-PSB. "É prematuro cogitar quem será vice de quem. Temos que aguardar um pouco a negociação nacional e a própria definição do Ciro. Interlocutores nos dizem que ele não quer vir para São Paulo, que prefere a Presidência", diz Almeida.

Já o líder do PSB na Câmara Federal, o deputado Rodrigo Rollemberg (DF) não vê, hoje, a possibilidade de Ciro desistir da disputa ao Palácio do Planalto: "Não há motivo para isso. A candidatura de Ciro está firme e as pesquisas provam que duas candidaturas da base governista serão melhor do que uma. Nem o presidente Lula está completamente convencido de sua tese de candidatura única".

Nem mesmo a ofensiva petista na busca de apoios de partidos hoje aliados ao PSB (como o PDT e o PCdoB, do chamado "bloquinho") é vista como ameaça. "Não são apoios definitivos. É um noivado, não é casamento. Se as pesquisas nos forem favoráveis, tudo muda", crê o deputado federal Márcio França, presidente regional do PSB.

O prefeito de Osasco, Emídio Souza, voltou a confirmar que quer ser o candidato ao governo pelo PT em 2010, mas que não irá "fechar as portas para os aliados, em benefício a um projeto nacional". Reforçando que não largaria a prefeitura para ser postulante a um cargo de vice-governador, Emídio disse que está terminando de escrever carta-manifesto na qual pretende reafirmar que está à disposição do partido para ser o principal concorrente. O documento deve ficar pronto no fim de semana e, antes de ser divulgado no início da semana que vem, passará por várias revisões. O potencial candidato petista pregou paciência. "O PSDB também não decidiu nada ainda, o tempo para isso é fevereiro, março", salienta.

O discurso do presidente do PT de São Paulo, Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara, revela que o partido quer privilegiar as alianças no Estado. "Estamos chamando partidos aliados para formar um programa de governo, que será submetido ao debate. A partir daí vamos construir a tática para chegar a uma liderança. Queremos construir uma candidatura própria, mas é evidente que, dentro de uma democracia, os aliados também podem apresentar candidatos", complementou Edinho.

Ainda que as pesquisas de intenção de voto apontem Geraldo Alckmin (PSDB) como favorito na disputa do governo estadual, o candidato tucano, na avaliação do PSB, será outro: o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, homem de confiança de Serra e mais bem articulado com os partidos aliados. Márcio França acredita ser este o cenário mais favorável a seu partido: "As pesquisas mostram que, seja Ciro ou Skaf o nosso candidato, estaremos na frente de Aloysio nas pesquisas".

PMDB pró-Serra luta contra acordo

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Dissidentes peemedebistas contrários à aliança com o PT em torno da candidatura de Dilma insistem que vão trabalhar contra o acordo

BRASÍLIA – A ala do PMDB contrária à aliança do partido com o PT – para as eleições presidenciais de 2010 – vai trabalhar nos bastidores para que o acordo, formalizado anteontem à noite, não saia do papel. Ao classificar a aliança com o PT como precipitada, os dissidentes prometem cobrar da cúpula da legenda a liberação dos seus filiados para que escolham quem irão apoiar na corrida à Presidência.

“Esse acordo é de um amadorismo incompreensível. Foi uma coisa precipitada que não respeitou a natureza do PMDB. A direção do PMDB não levou em conta o que foi adotado nas duas últimas eleições de Fernando Henrique e de Lula. Acho que o melhor seria liberar o partido, até pela tendência que a legenda sempre adotou”, disse o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que se encontra na Suíça.

Os dissidentes defendem que o PMDB apoie o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ao Palácio do Planalto. Serra disputa com o governador Aécio Neves (PSDB-MG) a indicação dos tucanos. Nos bastidores, os peemedebistas cobram a definição do PSDB para que possam pressionar a cúpula da legenda a mudar de ideia em relação ao apoio à candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).

Já o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, aliado de Serra, disse ontem que vai tentar, a partir dos diretórios estaduais, derrubar o pré-acordo na convenção nacional do partido, no ano que vem. “Essa proposta não passa na convenção do PMDB. A cúpula do partido no Congresso saiu às pressas e tomou uma decisão sem discutir com ninguém. Este acordo não tem respaldo da base do PMDB”, disse Quércia.

PRESSÃO

Assim como os dissidentes do PMDB, o DEM também pressiona o PSDB para que o partido acelere a escolha do candidato à Presidência. Acreditam que o lançamento Serra catalisará as alianças regionais. “No DEM, ninguém tem dúvida de que o candidato é Serra. O que queremos é que ele saia da toca”, revela o deputado Alceni Guerra (DEM-PR), tornando pública a avaliação que a direção da sigla só faz nos bastidores.

Integrantes do DEM não se conformam com o fato de Serra ter aberto as costuras eleitorais com um acerto bem sucedido na Bahia, considerado “impossível”, e depois ter “se entocado”, ausentando-se das negociações em outros Estados. Foi a ação do pré-candidato Serra que consumou a aliança entre o PSDB baiano do deputado Jutahy Júnior (aliado do PT) e o grupo de seu inimigo – o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (BA), morto em 2007.

Pressionado para assumir a pré-candidatura, o governador de São Paulo usou ontem o microblog Twitter para dizer que se sente “cansado” de falar sobre a possibilidade de disputar a Presidência no ano que vem. “Estou cansado de não responder à pergunta sobre a Presidência ... É cedo. Talvez responda primeiro no Twitter. Quem sabe...”, escreveu ele, durante a madrugada, logo depois de voltar de Brasília.

''Não tem obra. Foram três dias Perdidos''

Julia Dualibi
ENTREVISTA: José Aníbal: Deputado (PSDB-SP)
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Para o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), a viagem do presidente Lula com ministros pelo Rio São Francisco promoveu "violações de A a Z" à legislação eleitoral. "Foram três dias perdidos para a administração", declarou o tucano.

Indagado se os governadores do PSDB, José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), também não estavam em campanha, Aníbal disse que os tucanos viajam fora do expediente, com recursos próprios ou do partido. "Isso é conversa de quem foi pego com a boca na botija", disse.

O governo está antecipando a campanha eleitoral?

Está não só antecipando como promovendo uma transgressão generalizada. Usando a máquina pública e os espaços cotidianos do presidente para fazer campanha. É como disse o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes: é um vale-tudo.

Mas recentemente a Justiça julgou outras ações sobre esse tema e discordou do entendimento da oposição de que há campanha antecipada. Por que esse entendimento da Justiça?

Não sei. Espero que o entendimento seja outro agora, até porque a "caravana das arábias" criou uma situação de clímax, violações de A a Z. Não tem uma declaração do presidente sobre as obras, sobre fiscalização. Só declarações políticas. Até o alojamento que mandou construir era coisa suntuosa. Não havia alojamento lá porque não havia obra. Do R$ 1,16 bilhão destinado para a transposição, só R$ 50 milhões saíram. Não tem obra. Foram três dias perdidos para a administração.

O PT diz que os governadores tucanos (Serra e Aécio) estão em campanha ao visitar obras de outros Estados.

Isso precisa ser posto a limpo. Os governadores tucanos viajam no fim de semana ou em horário fora do expediente. Viajam com recursos próprios ou do partido, sem ônus nenhum para o Tesouro estadual. E com todo o compromisso com a legislação. Isso é conversa de quem foi pego com a boca na botija.

O governador Aécio Neves foi com Lula visitar as obras.

Ele recebeu o presidente da República em Minas. Isso é institucional. E ele teve o cuidado de não acompanhar a caravana. A atitude dele foi correta.

Aécio: PMDB tem mais a ver com PSDB

José Meirelles Passos
DEU EM O GLOBO

Dilma, também no Rio, faz elogios ao governo e promete mais PACs

De um lado, o governador Aécio Neves (MG), pré-candidato a presidente pelo PSDB, tratou de minimizar ontem a aliança feita na noite anterior entre o PT e o PMDB para que um peemedebista seja vice na chapa encabeçada pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Do outro, Dilma aproveitou a mesma ocasião — a abertura do 37º Congresso Brasileiro de Agências de Viagem (Abav), no Rio — para, em ritmo de campanha, comparar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ao de Fernando Henrique Cardoso, e insinuar que o melhor para o país seria a continuidade da atual administração.

Aécio sugeriu que a aliança do PMDB com o PT não vai funcionar em regiões importantes, onde a ligação entre PSDB e PMDB seria mais sólida: — Em muitos estados, a aproximação do PMDB é maior conosco até do que com o PT, como no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Acho que, ao final, prevalecerão no PMDB os seus interesses regionais — calculou.

Dilma: o PAC, agora com mais duas novas versões Dilma, que chegou ao local juntamente com Aécio, evitou dar entrevistas. Mas procurou tirar proveito em favor de sua campanha presidencial em discurso aos agentes de viagem. Ainda que não mencionasse nominalmente o presidente anterior, sugeriu que o atual tem sido bem melhor e deveria ser substituído por alguém de suas fileiras: — Quando se olha para trás e se compara o Brasil de 2009 com o Brasil de 2002, podemos pedir a vocês que confiem cada vez mais no nosso querido Brasil. Vencer crises e desafios é a especialidade do nosso governo.

Em seguida, ela deixou claro que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não parará de ganhar novas versões: — Já estamos implementando o PAC da Copa (em 2014) e em breve lançaremos o PAC Olímpico (Olimpíadas de 2016, no Rio) — afirmou, referindo-se a obras de infraestrutura necessárias para cumprir as promessas feitas à Fifa e ao Comitê Olímpico Internacional.

Serra: resposta pode sair antes em blog

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO. O governador José Serra (PSDB) declarou ontem no microblog Twitter que está cansado de ser obrigado a falar sobre sua candidatura à Presidência. Pressionado, Serra disse que é cedo para uma definição, e que talvez responda à questão, em primeira mão, no próprio Twitter.

O DEM e alguns líderes do PSDB querem que Serra defina a candidatura até dezembro, mas ele tem dito que deseja levar o assunto até março.

— Estou cansado de não responder à pergunta sobre a Presidência... É cedo. Talvez responda primeiro no Twitter.

Quem sabe... — escreveu ele, de madrugada.

Ontem, na inauguração de central de operações do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, em São Paulo, explicou: — Estava saturado por causa das perguntas dentro do Twitter. Estou cansado de ser perguntado.

Mas não quero que (isso) iniba vocês de perguntarem, da mesma maneira que não vou responder.

Serra estreou na rede de microblogs em maio passado. Com postagens curtas e em tom informal, comenta a agenda do dia.

O tucano tem mais de 120 mil seguidores.

Lula diz que 'inaugurações' só começaram

Bruno Marques*
DEU EM O GLOBO

Em desafio à oposição e ao presidente do STF, o presidente Lula disse que continuará em campanha "inaugurando obras", embora grande parte de suas viagens seja para lançar ou vistoriar obras - e não inaugurá-las.


Lula desafia STF e oposição: viagens vão continuar

Presidente diz que seguirá "inaugurando" obras ao lançar programas e que seus antecessores são "todos da mesma laia"

BELO HORIZONTE. Acusado pela oposição e pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de fazer campanha antecipada para sua candidata à Presidência, a ministra Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu as críticas ontem, com doses de ironia.

Em visita à capital mineira, disse que até o fim de seu mandato fará muitas viagens com sua equipe de governo — como a da semana passada, pelo Vale do Rio São Francisco — para vistoriar e inaugurar obras.

— Eu só peço calma, calma porque nós ainda nem começamos a inaugurar o que temos que inaugurar neste país. Tem muita coisa para acontecer e tem muita coisa que nós vamos fazer ainda, daqui para a frente — avisou o presidente, deixando um recado aos críticos: — Vocês não perdem por esperar.

Aguardem — disse ele, apesar de a maioria das viagens que faz é para lançar e vistoriar obras, e não inaugurar, já que programas como o PAC e as obras do São Francisco têm baixa execução orçamentária.

Lula disse ainda que seus ministros não andam pelo país a turismo e que sua movimentada agenda irrita os partidos da oposição: — Agora, os homens estão ficando nervosos porque estamos inaugurando obras. É a primeira vez na vida que vejo alguém ficar nervoso porque se inaugura obra. Quando eu fazia oposição, ficava nervoso porque não tinha obra, não tinha escola, não tinha estrada, não tinha ponte, não tinha nada.

Eles ficavam em Brasília vendo o tempo passar.

Anteontem, DEM, PSDB e PPS apresentaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) representação acusando Lula e a ministra Dilma de promoverem atos eleitorais antes do prazo estipulado pela legislação. O ministro Gilmar Mendes também se manifestou, dizendo que o governo testa a Justiça Eleitoral e que “nem o mais cândido dos ingênuos” acredita que viagens como a do São Francisco são para fiscalizar obras.

Lula esteve em Belo Horizonte para lançar — e não inaugurar — um programa de inclusão digital e para a assinatura de um convênio para construção de 531 moradias populares pelo Minha Casa, Minha Vida. Ele estava acompanhado de Dilma e os ministros Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), Hélio Costa (Comunicações), Luís Dulci (Secretaria Geral da Presidência), Márcio Fortes (Cidades) e Fernando Haddad (Educação). Ao citar os programas sociais do seu governo, disparou contra os anteriores: — É muito fácil assumir a Presidência da República e não fazer nada porque ninguém nunca fez. Os outros presidentes são todos da mesma laia. Mas eu precisava fazer, porque, se eu não fizesse, nunca mais alguém vindo do povo, um torneiro mecânico, seria eleito novamente.

Lula reconheceu que seu governo ainda não fez tudo o que tem para fazer e que, por décadas, ainda haverá uma dívida com o povo.

Dilma também ressaltou as políticas sociais do governo e disse que há 26 anos o país não via um programa habitacional como o Minha Casa, Minha Vida.

Disse que cerca de 100 mil contratos de moradias já foram assinados pelo programa e que outros 400 mil serão assinados até dezembro. E mais 400 mil ficarão para o segundo semestre de 2010. Apesar de negar o clima de campanha, ela deu autógrafos quando Lula discursava.

— Vamos em frente e muita fé no nosso país — afirmou Dilma, ao fim de seu discurso.

O evento em Belo Horizonte também marcou a ampliação do acesso gratuito à internet na capital mineira.

* Especial para O GLOBO

Programa de FH também vira PAC

Fábio Fabrini* e Leila Suwwan
DEU EM O GLOBO

O Monumenta, programa de preservação do patrimônio histórico do governo Fernando Henrique, foi "lançado" pelo presidente Lula com mais dinheiro e novo nome: PAC das Cidades Históricas.

Lula reedita outro programa de FH

PAC das Cidades Históricas substitui Monumenta

OURO PRETO e BRASÍLIA. Num evento com ingredientes de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou ontem, em Ouro Preto (MG), o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas.

Ao lado da pré-candidata à Presidência, a ministra Dilma Rousseff, Lula creditou a ela o esforço para viabilizar o projeto, que prevê investir R$ 890 milhões até 2012.

— Quero parabenizar a companheira Dilma por encontrar um jeito de colocar a reivindicação do companheiro Juca (Ferreira) no PAC — disse, referindose ao ministro da Cultura.

Com mais dinheiro e nova roupagem, o PAC, na verdade, reedita ações do Programa Monumenta, lançado em 2000 pelo governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) — até hoje, os investimentos haviam sido de R$ 250 milhões em 26 cidades. A promessa de Lula é beneficiar até 173 cidades, mas, este ano, 37 serão contempladas, ao custo de R$ 134 milhões. As demais terão de submeter projetos ao governo. A mudança de nome, segundo o governo, tem como objetivo consolidar nova política para o setor, mais “consistente” e “estruturante”. Na prática, há poucas mudanças, além da ampliação e maior aporte de recursos.

— O PAC Cidades Históricas dá seguimento e é a continuidade do Monumenta. Temos um enfoque estruturante, há mais consistência. O Monumenta nasceu no governo Fernando Henrique Cardoso e se consolida agora. Não é questão de governos, é bom para o país — disse Marcia Rollemberg, diretora de Articulação e Fomento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O ministro da Cultura no governo FH, Francisco Weffort, elogiou a proposta de “continuidade” e concordou com a importância da ampliação da recuperação de patrimônio histórico. Porém, disse considerar desnecessário mudar nomes ou “vender novidades onde não há”.

— O PAC pretende ser uma programação de atividades com alguma continuidade para o futuro. Acho bom que incluam o Monumenta. Seria pior romper com o programa. Só não precisaria inventar palavra. Não há por que transformar em novidade o que não é — disse Weffort.

Logo no primeiro discurso, o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo (PMDB), disse que, nos anos FH, os investimentos estavam parados.

No palanque, o presidente Lula a f i r m o u q u e o PAC das Cidades Históricas é o maior programa de recuperação do patrimônio já lançado no país e q u e , m a i s q u e cuidar dos bens, o objetivo é gerar empregos e fomentar o turismo.

Lula não fez referências ao Monumenta de Fernando Henrique e ainda criticou governos anteriores: — Teve um tempo em que nós ficávamos indignados. Não havia quase nenhuma recuperação do patrimônio histórico brasileiro, e setores importantes da sociedade brasileira viajavam para a Europa para ver o grande patrimônio histórico europeu.

Não se davam conta de que, para manter aquele patrimônio, aqueles castelos maravilhosos, tinha de haver decisão política do governo e política econômica.

Além de Dilma, estavam no palanque mais sete ministros e o governador de Minas, Aécio Neves, presidenciável do PSDB. O tucano procurou minimizar o malestar da semana passada, quando desistiu de acompanhar o presidente em vistoria a obras do PAC em Buritizeiro, no Vale do São Francisco, para cumprir agenda própria em Pirapora.

— Vossa Excelência é sempre, como sabe, muito bem recebido e muito bem-vindo em Minas — disse o mineiro, acrescentando que divergências partidárias não devem influenciar questões administrativas.

— Há o tempo das eleições e o tempo do trabalho. Felizmente, o tempo do trabalho em conjunto é muito mais longo e muito mais extenso que o das eleições.

Ontem, foi assinado protocolo de intenções para que a Cemig execute em Ouro Preto a construção da rede elétrica subterrânea, com dinheiro federal. A cidade foi escolhida para o lançamento pela importância do conjunto arquitetônico. Além disso, foi a primeira do país declarada pela Unesco Patrimônio da Humanidade, nos anos 1980. Minas concentra 60% do patrimônio histórico brasileiro, segundo Aécio.

Apesar dos afagos de Aécio, o clima na plateia, composta por moradores da cidade, estudantes, militantes e 150 prefeitos, era de disputa.

Quando Dilma foi anunciada, apoiadores do mineiro a vaiaram e gritaram o nome do governador. Os petistas deram o troco pelo menos duas vezes.

Gal Costa Ao Vivo - Feitio de Oração / Noel Rosa

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entrevista com Gildo Marçal Brandão: O conceito de hegemonia. Gramsci e a esquerda brasileira

FONTE: IHU ON-LINE

De acordo com Gildo Marçal Brandão, filósofo e coordenador científico do núcleo de apoio à pesquisa sobre democratização e desenvolvimento da USP, a partir dos anos 1980 e 1990 Gramsci passou a ser um autor importante no Brasil, propagado por autores ligados ao velho Partido Comunista Brasileiro. O pesquisador ressalta que Gramsci foi importante na construção da esquerda em nosso país porque justificava, delineava e trazia elementos de reflexão para uma esquerda que tentava fazer uma política de frente democrática contra o regime militar. Entretanto, Brandão ressalta que a análise das classes como motor das mudanças sociais, critério chave do marxismo e do próprio Gramsci, “é ultrapassado”. A entrevista foi realizada por telefone.

Brandão é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco e doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP). É pós-doutor pela University of Pittsburgh e, atualmente, é coordenador científico do núcleo de apoio à pesquisa sobre democratização e desenvolvimento da USP. De sua vasta obra bibliográfica, destacamos A esquerda no Brasil (São Paulo: Duetto Editorial, 2006) e A esquerda positiva: as duas almas do Partido Comunista, 1920-1964 (São Paulo: HUCITEC, 1997). Confira a entrevista a seguir:

IHU On-Line - Qual é a importância de Gramsci na construção da esquerda brasileira?

Gildo Marçal Brandão – Gramsci foi influente no Brasil a partir dos anos 1970. O Brasil foi um dos primeiros países que traduziu sua obra. Num determinado momento, ele passou em “brancas nuvens”. Depois, a partir dos anos 1980 e 1990, se tornou um autor importante, propagado no Brasil, em geral, por autores ligados ao velho Partido Comunista Brasileiro : Carlos Nelson Coutinho , Leandro Konder , Luiz Werneck Vianna , Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques . Alguns liberais, e pessoas de extrema esquerda também interpretaram as obras de Gramsci, de maneira diferente.

Gramsci foi importante na construção da esquerda porque justificava, delineava e trazia elementos de reflexão para uma esquerda que tentava fazer uma política de frente democrática contra o regime militar. Várias categorias do Gramsci e do euro-comunismo foram usadas no Brasil por uma parte da esquerda que estava se reconciliando com a democracia, e que achava que não se devia lutar pela derrubada da ditadura, mas sim pela derrota da ditadura. A idéia era fazer uma política de frente para isolar o regime militar. Então, categorias de Gramsci, como a Guerra de Produção e a idéia de que o País já era ocidentalizado e não oriental, comportavam a luta política institucional, luta de massa, reivindicação da democracia. Esse foi o Gramsci importante para a reconstrução da esquerda brasileira. Isso influenciou no começo o velho comunismo e depois se propagou pelo petismo, que tinha muitos elementos em contradição com a velha esquerda comunista. Mas Gramsci foi particularmente influente nos dois casos, porque, em ambos, a atenção da luta democrática, institucional e eleitoral, era importante.

IHU On-Line - Hoje, que reflexos de sua obra sobrevivem nos partidos de esquerda do Brasil?

Gildo Marçal Brandão – Eu não conheço bem os partidos de esquerda que sobrevivem no Brasil. Mas eu tenho impressão que a obra de Gramsci deixou algum resquício intelectual. Por exemplo, existe um site chamado Gramsci e o Brasil , que reúne intelectuais que ainda são ligados a uma posição de esquerda democrática, de esquerda gramsciana, no Brasil. Mas o Gramsci como elemento de direção política, de definidor de estratégias, não existe mais. A influência dele na esquerda brasileira é muito pequena. É claro que ficou a marca de um certo setor da esquerda democrática, da esquerda que considera a democracia um valor universal. É aí onde Gramsci sobrevive como influência intelectual.

IHU On-Line – Por que os ensinamentos de Gramsci se perderam nos partidos de hoje?

Gildo Marçal Brandão – Primeiro porque o marxismo saiu do cenário, ou seja, ele foi fortemente abandonado e superado. O desprestígio das idéias marxistas afetou muito os teóricos latinos. Gramsci, deles todos, talvez seja um dos que melhor resista, justamente porque tem o marxismo muito voltado para a análise de situações e processos políticos. Nesse ponto, o Gramsci tem muito o que dizer. Boa parte do pensamento marxista, hoje, não é nem muito considerado. Por exemplo, um critério-chave do marxismo e do próprio Gramsci é a análise das classes como motor das mudanças sociais. Ora, se observarmos a sociologia moderna, dos últimos 20 anos, se percebe que há um abandono quase generalizado da teoria das classes para explicar as mudanças sociais. Muitos sociólogos tomavam a teoria das classes como o principal vetor que explicava a mudança social. Hoje, não se tem mais nenhuma teoria nesse estilo. Não se tem mais, nas ciências sociais, teorias que explicam o conjunto. Existem, sim, teorias que explicam partes, de alcance médio, mas não globais. Há um desprestígio que afetou o marxismo, o funcionalismo, o estruturalismo. Toda essa influência recente do pós-modernismo jogou teóricos como Gramsci em segundo plano. Isso não quer dizer que não sobrevivam ou existam intelectuais marxistas de primeira categoria, com posições divergentes.

IHU On-Line - Carlos Rosselli referiu-se a Gramsci como um gênio. Quais são suas principais contribuições à ciência política atual?

Gildo Marçal Brandão – Gramsci sempre se recusou de separar a política da sociologia, da economia, da cultura. Ele sempre pensou globalmente. Hoje, as ciências sociais são muito fragmentadas e segmentadas. Então, batia de frente com isso. Apesar de ser um marxista, e ser contra de qualquer tipo de elitismo, ele sempre achou que as ciências sociais tinham que estudar e abarcar um conjunto de atividades, pelos quais as classes dirigentes não só mantêm como justificam seu domínio e tentam obter o consentimento passivo dos governados. Para ele, o problema político central era superar a divisão entre governantes e governados, isto é, transformar os governados, que constituem a classe subalterna, em capazes de serem governantes. Por isso, ele acreditava que não bastava vencer; era necessário convencer. Era possível que um grupo político, mesmo sem estar no poder, podia se transformar numa classe dirigente da sociedade, desde que soubesse transformar os seus interesses em interesses universais desta sociedade. Por esse caminho, Gramsci cunhou a razão da hegemonia, que é fundamental para as ciências políticas. Essa idéia de hegemonia, ao meu ver, é a principal contribuição que ele deu às ciências sociais.

IHU On-Line - Como Gramsci pode contribuir para fortalecer a democracia brasileira?

Gildo Marçal Brandão – Do jeito que entendo, Gramsci nos ajuda a pensar em como construir democraticamente a democracia, e construir o socialismo, no qual ele acreditava. O Gramsci aposta nesse caminho democrático e tende a ver essas duas coisas como um mesmo processo. Nesse sentido, ele é bastante coerente e reforça a capacidade que se tem de refletir e atuar num sentido de construir uma direção política que não apenas vença o adversário, mas o convença.

""Suposta"" Campanha

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Em defesa da mistificação segundo a qual a recente turnê do presidente Luiz Inácio da Silva pelas obras do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco não teve propósito eleitoral, o ministro da Justiça, Tarso Genro, argumenta que se os governadores José Serra e Aécio Neves podem "circular", Lula também pode levar Dilma Rousseff para vistoriar e fiscalizar.

Por ora, trata-se de "suposta"campanha.

Afinal, são todos pré-candidatos à Presidência da República, atuando em igualdade de condições, pois têm a sorte de ocuparem cargos que lhes dão visibilidade naturalmente. Nenhum deles estaria desrespeitando a legislação, porque as proibições só alcançam candidaturas formais e a partir do momento em que a campanha se iniciar oficialmente.

O governador Aécio concorda - "É legítimo, faz parte do jogo político", comentou no primeiro dia junto da caravana -, o governador Serra não fala nada a respeito, enquanto o presidente do partido de ambos, senador Sérgio Guerra, marca a posição do PSDB anunciando providências enérgicas.

A oposição já havia tentado balizar a posição da Justiça Eleitoral quando questionou a legalidade do encontro-show que o presidente da República organizou para apresentar Dilma a prefeitos de todo o País, no dia 10 de fevereiro passado.

A baliza dada na ocasião foi agora adotada por Tarso Genro. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu que não houve propósito desviante naquela reunião.

A corte aceitou o argumento do então advogado-geral da União e agora ministro do STF, José Antônio Toffoli, de que a presença de prefeitos de partidos de oposição (PSDB e DEM) provava o caráter exclusivamente governamental do evento.

Se estava tudo nos conformes, então o governo nada mais fez do que interpretar a decisão como uma licença para prosseguir no mesmo diapasão. Claro que sempre poderia tomar a iniciativa de atuar sob critério mais ético, mas, pelos parâmetros em vigor, seria tolo.
Ministros do TSE alegam que a oposição parece ter feito à época uma representação apenas pró-forma, tal mal sustentada de provas estava a ação.

Quais provas, além do que se passou à vista de todos?

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, acha que o presidente Lula "está testando" a Justiça e o Ministério Público. Engano. O teste ocorreu em fevereiro e o resultado foi o seguinte: enquanto o governo fizer comícios dizendo que governa, deve-se aceitar sua palavra como verdadeira já que não há "provas" de que o presidente esteja usando o cargo e seus instrumentos como palanque eleitoral.

Por mais que exponha insistentemente isso. Explicitando a condição da candidata da ministra que o acompanha, falando que pretende uma eleição plebiscitária, chamando o adversário para a briga, desculpando-se pelo "comício" improvisado.

GOLPES DE RETÓRICA

O presidente Lula anuncia disposição de "fazer qualquer sacrifício" para "limpar a sujeira que essa gente" - os traficantes - impõe ao Brasil. Ponderou, entretanto, que o combate à criminalidade "leva um tempo".

Não especificou quanto. Mas certamente levaria bem menos se ele e todas as autoridades presentes e passadas fizessem algo além de falar.

Senão, vejamos o que disse o presidente em seu discurso de posse no segundo mandato, em janeiro de 2007, a propósito de ataque do narcotráfico a alvos civis e militares no Rio: "Essa barbaridade que aconteceu no Rio de Janeiro não pode ser tratada como crime comum. É terrorismo. Extrapolou o banditismo comum que conhecíamos."

Na ocasião, o governador Sérgio Cabral disse ter ouvido do presidente que seria discutida com o então ministro Márcio Thomaz Bastos a elaboração de novas leis "antiterrorismo".

De lá para cá, nada vezes nada, a não ser o aumento de 19 para 21 no número de mortos entre um episódio e outro.

PICADEIRO

A direção do programa Pânico na TV não salvou do ridículo o senador Eduardo Suplicy. A foto da cena circula por toda parte e, se tiver se ser usada de alguma forma, será independentemente da exibição do programa.

O Pânico acabou mesmo salvando o Senado que, com a decisão de não mostrar as imagens, ganhou um pretexto para aceitar as desculpas do senador, arquivar investigação sobre quebra de decoro e se livrar da comparação entre uma sunga condenada e tantas tungas perdoadas.

O que as pessoas sérias do Congresso poderiam começar a pensar é sobre a razão pela qual o Poder Legislativo no Brasil tornou-se tão atraente para programas humorísticos.

INTERESSADO

Registrado em poderoso caderninho do PMDB: Ciro Gomes suspendeu seus ataques à conduta fisiológica do partido.

E, se mantiver a candidatura à Presidência da República, tende amenizar cada vez mais o julgamento.

A guerra do Rio é uma metáfora cavilosa

Elio Gaspari
DEU EM O GLOBO


O Rio ganhou um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia (e por que só os da polícia?).

Os três jovens mortos na entrada do Morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da SuperVia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de “Tropa de elite”.

Primeiro ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar.

Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara, de 335 mil pessoas para 722 mil.

Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo Túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da Zona Norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.

Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.

Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980.


A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.

Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do apartheid. Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista, levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.

A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixao subentendido. Ele está na favela (“fábrica de marginais”, na definição do governador Sérgio Cabral).

Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com “Tropa de elite”.

Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.

Se o clima de guerra sair da agenda do Rio não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.

Na frente de Lula, presidente do TCU defende o órgão

Luiza Damé e Maria Lima
DEU EM O GLOBO

Aguiar admite que poderá investigar viagens do presidente

BRASÍLIA. A ofensiva do governo para reformar as atribuições do Tribunal de Contas da União (TCU) e as críticas do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à orientação do tribunal de bloqueio de recursos para obras federais com irregularidades, foram respondidas ontem pelo presidente do Tribunal, Ubiratan Aguiar, durante a concorrida cerimônia de posse de José Múcio Monteiro como novo ministro da Casa.

Exministro de Relações Institucionais de Lula, Múcio assumiu na vaga deixada por Marcos Vilaça, que se aposentou.

No seu recado indireto, Ubiratan Aguiar lembrou que Lula, como deputado constituinte, em 88, votou pela definição das atribuições do TCU como órgão fiscalizador.

Ao final da cerimônia, disse que procurou ser “o mais sereno e elegante possível” ao defender o TCU.

— Tenho a honra de dirigirme ao excelentíssimo senhor presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para ressaltar o agradecimento desta Casa ao constituinte de 88, que prestigiou com seu voto isento, escrevendo as competências e atribuições dos tribunais de contas, a ação do controle que se faz necessária para o aperfeiçoamento da administração pública. Sua presença dignifica a solenidade e engrandece a excelente indicação — discursou Aguiar.

“TCU vai cumprir o rito normal”, diz Aguiar Sentado ao lado, Lula mostrou desconforto ao ouvir o discurso.

Ele não discursou nem deu entrevistas.

Nas próximas semanas, o TCU pode criar nova zona de atrito com o governo, em torno da polêmica sobre antecipação ou não de campanha eleitoral por parte dos governistas.

— O Congresso e os partidos têm a atribuição de nos pedir uma auditoria para ver se houve mau uso de recurso público nessa viagem do São Francisco. E, se chegar uma representação, o TCU vai cumprir o rito normal — disse Aguiar. — Nem sempre somos compreendidos, mas confortame saber que estamos exercendo a cidadania em nome da construção do Estado democrático de direito.

Lula e Dilma não tinham como deixar de prestigiar a posse de José Múcio. Metade da Esplanada, membros do Ministério Público, do Judiciário, prefeitos, parlamentares, e os governadores José Serra (SP), Eduardo Campos (PE), José Roberto Arruda (DF) e o vice-presidente José de Alencar lotaram os auditórios do tribunal.

Expediente já consumado

Rosângela Bittar
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


É assim, com a precisão aguda que lhe é própria, que o senador Jarbas Vasconcelos define aquilo que o seu partido, o PMDB, perpetrou na noite passada: um "expediente" . Que acabou consumado, é verdade, mas pode se concretizar efetivamente só na campanha eleitoral de 2010... ou não. O expediente foi um jantar com a ministra Dilma Rousseff, candidata do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, destinado a sacramentar, informalmente, uma aliança do PMDB com o PT. Este é o compromisso possível de ser firmado agora, a um ano da disputa e a oito meses das convenções partidárias, o foro adequado a estas decisões para que tenham validade.

O que houve ontem não tem valor legal mas não se pode negar que é um laço forte. Tão forte que incomoda os dissidentes. "É uma coisa que deixa todo mundo espantado", diz Jarbas Vasconcelos, por telefone, da Suíça, onde se encontra em missão do Congresso.

O senador do PMDB pernambucano vê no comportamento da cúpula do PMDB, hoje representando a maioria governista do partido, mais que um rolo compressor - um "golpe" mesmo. Ele argumenta que só a convenção, em junho de 2010, pode decidir formalmente a aliança. "É uma precipitação".

A iniciativa transgride, a seu ver, uma característica do PMDB que, embora a repudie, não tem como negá-la: "O PMDB é um partido com característica de frente, tem adotado esta conduta nos últimos 10 anos; não sou defensor dessa conduta, preferia que o partido fosse mais coerente, menos pragmático, mas isto é o que prevalece há uma década, são as regras do jogo". O que o espanta é o seguinte: "Como, de repente, o partido que não fez isso nas duas eleições de Fernando Henrique Cardoso, não fez isto nas duas eleições do Lula, quando respeitou as divisões, quer fazer agora?"

Jarbas identifica no Palácio do Planalto a autoria dessa operação de mudança. "É uma escalada do Palácio do Planalto, do Lula, que não tem fim".

Como exemplo do excesso, do exagero, do desmedido, cita a viagem do presidente com a candidata às margens do São Francisco, evento que o senador viu como uma "coluna" (uma fila de soldados), "um verdadeiro deboche em cima do Ministério Público e da Justiça Eleitoral".

Reconhece que tudo isto pressiona o PMDB governista a ter uma definição e sabe, também, que se a convenção fosse hoje e não em junho de 2010 os dissidentes perderiam a parada. Uma saída, comenta, é tentar protelar tudo isto. "Até porque o PMDB pode tentar aquela coisa vulgar de vender uma mercadoria que não tem, não se sabe se mais à frente esta mercadoria vai desaparecer".

Profundo conhecedor do PMDB, de cada um dos grupos que compõem a frente ao longo de toda a sua história, a mercadoria a que Jarbas Vasconcelos se refere é a seguinte: "Basta José Serra (governador de São Paulo, um dos pré-candidatos do PSDB à Presidência, que Jarbas apoia) se firmar nas pesquisas, subir um pouco mais, para que o nosso grupo (os dissidentes) aumente; infelizmente, mas a tradição do PMDB é esta, não vou lutar contra um dado da realidade".

O PMDB se transformou, por maioria, em partido governista no início do segundo mandato do presidente Lula, quando o chefe do governo sacudia a poeira do mensalão. Na análise do senador, Lula viu a precariedade de sua base de apoio, a adesão do PMDB, dado o perfil do partido, não deixava de ser também precária mas, pelo tamanho, dava ao presidente condições de navegar em mar mais tranquilo. Ofereceu ministérios importantes, conteve a gula do partido. Isto, porém, segundo Jarbas, não faz com que o PMDB fique bem comportado como governista, para sempre.

"É um pessoal pragmático, se percebe que Dilma sobe pouco, tem dificuldades de se firmar, entra em outro caminho com a maior naturalidade". O que está acontecendo "é um expediente a ser consumado que degrada ainda mais o processo político, eleitoral e partidário do país".

Há uma questão que aproxima o senador Jarbas, que apoia José Serra, da cúpula do DEM que não quer a candidatura do governador de São Paulo, e até do governo Lula e seus aliados: todos gostariam que houvesse a antecipação da definição do candidato de oposição às eleições presidenciais. Para o governo, por razões óbvias, faria agora a campanha polarizada que já preparou para vencer no primeiro turno. Para o DEM, porque o presidente do partido prefere a candidatura do governador de Minas, Aécio Neves, à de Serra. E para os dissidentes do PMDB porque facilitaria a negociação interna no partido.

Jarbas assinala que se houvesse definição de candidatura o assunto transitaria internamente dentro do PMDB em um caminho de contornos mais fáceis. "Esse aspecto, dado o pragmatismo do PMDB, não nos favorece, não ajuda os dissidentes, pois fica limitado ao nosso campo de investir, conversar". Porém, ao contrário do governo e seus aliados e da cúpula do DEM, Jarbas Vasconcelos concorda que uma definição agora prejudicaria o candidato do PSDB. "Concordo que o Serra não deve antecipar a campanha, não deve percorrer o caminho que Lula e Dilma traçaram. Mas não faz mal reconhecer que isto, internamente, para o PMDB, não nos ajuda".

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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Aécio e Serra no meio do povo

Tiago Pariz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

PSDB traça viagens para que pré-candidatos tenham mais contato com a população. E garante que o clima não será de campanha

O PSDB vai adotar a mesma estratégia que tanto critica nas viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com sua presidenciável, Dilma Rousseff: levará Brasil afora os pré-candidatos tucanos para interagir com a população e conhecer os problemas sociais do país. Assim como Lula, para não ter problemas com a Justiça Eleitoral, o partido fingirá que não está em campanha.

Como resposta às críticas do DEM — o principal aliado para 2010 — sobre a passividade neste momento de pré-campanha, os tucanos elaboram uma agenda de viagens para os governadores Aécio Neves (Minas Gerais) e José Serra (São Paulo) fazerem corpo a corpo com a população e não falarem apenas para a parte politizada e filiada ao PSDB. A ideia é mostrar que os petistas não estão mais falando sozinhos.

A cúpula tucana entendeu que não adiantava mais seus dois pré-candidatos participarem apenas de eventos do partido, mesmo que isso os fizesse andar mais pelo país. A lógica é aprofundar Aécio e Serra na conversa com populares, donas de casa, comerciantes e até beneficiários do Bolsa Família, ou seja, a grande massa de brasileiros necessitados. E fazê-los ouvir sobre as necessidades do país nas áreas de saúde, educação, transportes, etc.

A tarefa está sendo tocada pelo presidente nacional da legenda, senador Sérgio Guerra (PE). “Não adianta mais participar dos seminários regionais. A ideia não é só falar para os nossos (militantes), é interagir também com a população”, disse Guerra. Ele ressalvou: “Mas com o cuidado de não fazer campanha”. Aliás, toda cautela é pouca nessa questão. Até porque, com o DEM, o PSDB entrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em protesto contra a recente excursão presidencial de três dias às obras no Rio São Francisco.

Fase de elaboração

As viagens, segundo Sérgio Guerra, não vão priorizar regiões do país — o Nordeste, por exemplo, onde Lula tem os maiores índices de popularidade. “A agenda não é geográfica, mas social”, disse o presidente tucano. Ele não quis revelar por onde começará o giro popular tucano, anunciado depois que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu Guerra, o senador Tasso Jereissati e o governador Aécio Neves para um jantar em sua residência, em São Paulo. “Ainda estamos em fase de elaboração (dos roteiros)”, sustentou o presidente do partido.

O encontro com Fernando Henrique não conseguiu produzir consenso sobre a antecipação da escolha do candidato do PSDB ao Palácio do Planalto. Sérgio Guerra voltou a dizer que essa decisão sairá de um entendimento de Serra com Aécio. “Isso será algo entre os dois e eles estão conversando.” O governador mineiro deseja que o partido defina seu candidato no fim deste ano. O colega paulista quer empurrar a escolha para meados do primeiro semestre de 2010.

O DEM quer a escolha logo por entender que essa indefinição coloca a oposição na defensiva e inviabiliza acordos nos estados. O líder do partido na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), por exemplo, tem dito que pode se lançar ao governo de Goiás contra o PSDB, numa aliança que enfraqueça os tucanos. Além disso, há dificuldades em fechar palanques competitivos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, no Rio de Janeiro, no Maranhão, na Paraíba, no Ceará, em Pernambuco e Sergipe.

Queda de braço

O presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), e o ex-senador e ex-dirigente Jorge Bornhausen (SC) travam uma disputa interna no DEM sobre quem é o interlocutor com o PSDB nas negociações em torno da eleição presidencial. Maia tem sido preterido nas conversas com o governador de São Paulo, José Serra, que adotou como canal o cacique catarinense. Nessa queda de braço, o deputado federal defendeu o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, como um político mais agregador que o paulista José Serra, nome preferido por Bornhausen.

AÇÕES DESFAVORÁVEIS

DEU EM O CORREIO BRAZILIENSE

Barulho sem otimismo

Izabelle Torres
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE
Enquanto percebe que é hora de ir a campo, a oposição faz mais uma tentativa de evitar que o presidente Lula e sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, continuem viajando pelo país usando a estratégia da proximidade com os eleitores como arma eleitoral. Para evitar que os governistas se beneficiem de armas de campanha que os tucanos sabem que já deveriam estar utilizando há tempos, PSDB, DEM e PPS entraram com mais uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento afirma: as viagens do presidente pelo país são pretextos para divulgar a candidatura da ministra e para antecipar a campanha de 2010.

A nova ação é a sétima tentativa dos oposicionistas de frear as andanças da cúpula do atual governo pelo país com ações na Justiça. Apesar do barulho que costumam fazer a cada representação, os oposicionistas não estão otimistas. Quatro das sete ações apresentadas desde 2008 já foram negadas porque os ministros da Corte entenderam que não havia provas de que as viagens são realizadas sob pretexto eleitoral. As outras ainda estão sob análise.

Para o presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, as decisões anteriores não querem dizer que a Corte tende a negar esse tipo de pedido. “O julgamento desfavorável evidencia inconsistência no preparo das representações. Se houver peças bem elaboradas, a tendência é que a Justiça Eleitoral atue mais de acordo com as expectativas.”

Derrotas e dúvidas

Apesar da garantia do presidente do TSE de que o quadro de derrotas da oposição nas ações contra a atual cúpula do Executivo possa se modificar se houver ações mais consistentes, integrantes do DEM e do PSDB ainda tinham dúvidas ontem se a melhor estratégia era mesmo entrar com uma nova representação. Além dos pedidos já negados, pesou na avaliação dos parlamentares o fato de todos desejarem que o candidato tucano à presidência também participe de eventos com ares eleitorais.

Por isso, alguns acreditavam que o desfecho das críticas à viagem do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff às obras de transposição do São Francisco ficaria restrito a um requerimento de informação protocolado ontem na Mesa da Câmara. O documento pedia detalhes à presidência da República sobre os gastos e as funções de cada integrante da comitiva presidencial na viagem, que durou três dias. “Vamos pedir informações. Isso é certo. A partir daí, veremos o que fazer. Não sei se a presidência da legenda está pensando em outra coisa”, comentou o líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), no início da tarde.

O quadro e as perspectivas se modificaram quando deputados das duas legendas começaram a pressionar por uma posição mais radical, tendo em vista as últimas declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, sobre a conotação política das andanças de Lula e Dilma.

Ciro ironiza acordo governista e diz que PSB vai esperar 2010

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

"Espero que termos da aliança sejam confessáveis", diz deputado sobre aliança PT-PMDB

"Nosso tempo é março do ano que vem", afirmou o pré-candidato do PSB, único partido da base que não se reunirá com Dilma neste ano

Pré-candidato a presidente da República pelo PSB, o deputado federal Ciro Gomes (CE) foi irônico ontem ao comentar o acordo entre PT e PMDB em prol da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). "Só espero que o PMDB entregue o que está prometendo. Espero também que os termos da aliança sejam confessáveis", afirmou.

Ciro, que é um crítico do PMDB, admitiu que os diversos encontros partidários realizados por Dilma nos últimos dias fortalecem a candidatura da ministra, mas afirmou que isso não o preocupa.

"O PSB está ciente dessas movimentações. Nós também vamos cuidar de arrumar as nossas alianças", disse.

Mas o momento, segundo afirmou o candidato, não é agora, e sim no ano que vem. Ciro deixou claro que ele e seu partido preferem primeiro esperar por uma definição mais exata do quadro eleitoral. Principalmente, de quem será o candidato da oposição -se o governador de São Paulo, José Serra (SP), ou de Minas Gerais, Aécio Neves (MG). Ciro vem dizendo que não gostaria de concorrer contra Aécio.

"Nosso tempo é março do ano que vem. Por enquanto, é gelo na veia", afirmou.

Reunião

O PSB será o único partido da base do governo com o qual Dilma não fará reunião neste ano.

O próprio Ciro mantém-se em compasso de espera. Se seu espaço político ficar espremido entre a candidata petista e o candidato de oposição, cresce a pressão para que concorra ao governo de São Paulo, Estado para o qual já transferiu seu domicílio eleitoral.

Pelo menos por enquanto, o ex-ministro da Integração Nacional do governo Lula afirma que sua disposição é concorrer ao Palácio do Planalto. O fato de o PSB apoiar o governo federal, no entanto, é, segundo ele, um fato inibidor para que se movimente com mais liberdade no momento.

"No ano que vem, teremos a conversa definitiva com o presidente Lula. E aí será avaliado o que é melhor: se uma campanha plebiscitária, como o presidente quer, ou com duas candidaturas do nosso campo, como nós defendemos. Se houver a decisão de uma candidatura nossa, aí estaremos liberados para procurar aliados", afirmou Ciro.

União PT-PMDB dobra tempo de TV de Dilma

Letícia Sander e Fábio Zanini
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Por aliança, peemedebistas exigem a vice na chapa da ministra e solução nos Estados onde há discordância com petistas

Pré-compromisso ajuda a isolar a ala do PMDB que defende o apoio ao PSDB e fortalece a candidatura única da base governista


O "pré-compromisso" eleitoral entre PT e PMDB vai garantir à pré-candidata governista às eleições de 2010, ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o dobro do tempo de propaganda gratuita na TV. Em troca, o PMDB exige a vice na chapa e uma solução nos Estados onde estão concentradas as principais divergências com o PT.

Os peemedebistas também querem assento na coordenação da campanha da ministra e participação ativa na formulação do programa de governo.

Para selar o acordo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou as cúpulas dos dois partidos para um jantar ontem no Palácio da Alvorada. Até a conclusão desta edição, o jantar estava acontecendo. A expectativa era que, no final, fosse divulgada uma nota à imprensa detalhando o acerto.

O anúncio é simbólico, já que a aliança precisa ser aprovada na convenção nacional do PMDB em junho de 2010. Mas serve para isolar a ala do partido que defende o apoio à candidatura do PSDB à Presidência.

Serve ainda como uma demonstração de força, num momento em que o Planalto busca uma candidatura única da base governista, o que exigiria tirar o deputado Ciro Gomes (PSB-SP) da disputa nacional.

O interesse do PT em atrair o PMDB se explica na força da máquina peemedebista, a principal legenda hoje do país, com o maior número de prefeitos e congressistas. Por isso tem o maior tempo de TV no horário eleitoral gratuito da campanha.

Num cenário hipotético com sete candidatos à Presidência -Dilma, José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Ciro, além de ao menos três outros de legendas nanicas-, o PMDB pode chegar a ter 16% do tempo semanal de propaganda na TV. O PT teria 15% e o PSDB, 13%.

O texto da nota de ontem foi discutido num almoço de peemedebistas na casa do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), hoje o nome mais forte para assumir a vice na chapa. Outros nomes cogitados foram o do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o do ministro das Comunicações, Hélio Costa. O teor da nota ainda seria submetido ao PT no jantar de ontem.

A nota tem cinco pontos. O mais importante diz que os "partidos levarão a suas instâncias o pré-compromisso, construindo soluções conjuntas nas alianças regionais".

Esse trecho é o que mais interessa ao PMDB e foi colocado como forma de ameaça velada ao PT. Se os petistas não abrirem espaço para peemedebistas em vários Estados, o "pré-compromisso" será rasgado.

Outro ponto deixa claro que o PMDB terá a vaga de vice. Para aprovar o apoio a Dilma, é preciso a maioria dos 719 votos da convenção peemedebista -360, portanto. A cúpula governista do PMDB calcula que hoje há 450 pela aliança. Como os Estados têm grande força na decisão, resolver problemas regionais se torna mais relevante.

Hoje, PT e PMDB não se entendem em alguns dos principais Estados, como Minas, Rio, Bahia e Rio Grande do Sul.

Ontem à tarde, as lideranças peemedebistas no Congresso saíram em defesa do acordo com o PT. Temer afirmou que, sem dúvida, este é um passo importante por mostrar "que o PMDB está presente".

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que, com o apoio explícito de Lula, se segurou no cargo após uma série de denúncias ao longo deste ano, foi na mesma linha de defesa da aliança com o PT.