terça-feira, 15 de maio de 2012

A agonia da Grécia:: Celso Ming

Há muito não se via (não se ouvia) tanto pessimismo em relação ao futuro da Grécia e do euro.

Nesta segunda-feira, por exemplo, o vice-presidente da Grécia, Theodoros Pangalos, avisou que a eventual saída do euro lançaria o país numa "falência selvagem". Comunicado do Fundo Monetário Internacional advertiu, também nesta segunda, para o risco de "acidente político" na Grécia, que ameaçaria todo o bloco.

A hipótese de que a Grécia adote moeda própria começa a ser admitida abertamente por autoridades até do Banco Central Europeu – sugerindo que estão preparados para o tranco.

Banqueiros, em geral tão comedidos em suas análises, não param de advertir para a possibilidade de acontecimentos nefastos. O último relatório de um dos maiores bancos da Espanha, o BBVA, alerta que o nível de tensão que vem por aí é pior do que o de 2008, após a quebra do Lehman Brothers – relatou nesta segunda-feira o diário madrilenho El País.

O Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, prevê a aproximação de alguns horrores: a adoção do racionamento de saques nos bancos (corralito) na Espanha (e não é nem na Grécia) e o desmonte do euro. Seu novo livro leva o título de O crepúsculo do euro.

Parecem todos ávidos por um desenlace, qualquer que seja ele, para acabar com a agonia. E, nisso, lembram o chanceler da Alemanha durante a República de Weimar, Philipp Scheidemann, para quem era "melhor um fim com terror do que o um terror sem fim".

O que está em questão não é a imposição da austeridade ao povo grego, que alguns entendem ser excessiva, mas, sim, o risco de desintegração da área monetária, algo que nenhuma autoridade se atreveria a considerar há semanas.

O fato concreto é a incapacidade das forças políticas da Grécia de fecharem acordo para constituir um governo, depois de tentativas fracassadas dos três mais importantes políticos. Hoje, eles tentam de novo. Mesmo se conseguirem, parece remota a possibilidade de que nova eleição imponha um tie-break nesse jogo. E isso significa que a Grécia está sujeita a ter de decretar a suspensão dos pagamentos (falência) sem comando político legitimado pelas urnas.

Até agora, um dos principais fatores que impediram o desfecho final foi o temor do que pudesse vir depois. As consequências mais sérias podem não ser o brutal empobrecimento do povo grego, o bloqueio das contas bancárias e a quebra de salários. O risco maior é de que os prejuízos não se circunscrevam ao povo grego, mas se espraiam pelo efeito contágio para as economias mais vulneráveis, como Irlanda, Portugal e Espanha.

Um dos maiores problemas desta crise é a falta de credibilidade das autoridades da área. Há meses, por exemplo, a saúde dos bancos da região foi submetida a um supostamente rigoroso check-up (os tais testes de estresse). Dirigentes da área proclamaram que só oito bancos teriam reforço patrimonial, de módicos 2,5 bilhões de euros. Entre bancos da Espanha que careciam de alguma transfusão de capital não estava o Bankia, que agora mostra rombo de 10 bilhões de euros e precisou ser socorrido pelo governo.

O Brasil aparece relativamente bem nesta crise. Mas parece inevitável que pague certo preço em perdas comerciais, desvalorização de ativos, adiamento de investimentos e menos abertura de postos de trabalho. A conferir.

CONFIRA

O gráfico mostra a força da alta do dólar no câmbio interno em 2012. O avanço acumulado no ano atingiu os 21,4% nesta segunda-feira.

Falta de confiança. Nesta segunda, o título de dívida da Espanha de 10 anos teve de pagar 4,92 pontos porcentuais de juros ao ano acima do que pagam os da Alemanha (ou seja, um total de 6,3% ao ano) para conseguir interessados. Trata-se do nível mais alto desde a criação do euro. Reflete a falta de confiança dos mercados na capacidade da Espanha de honrar seus compromissos financeiros.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Novo mergulho:: Míriam Leitão

A Zona do Euro deve entrar em recessão novamente hoje quando for divulgado o dado do PIB do primeiro trimestre. Muito provavelmente, será negativo, pelo segundo trimestre seguido. Além disso, há aumento do desemprego, queda da produção industrial, e uma vasta inquietação popular. Até os alemães estão mandando recados para o governo de que é preciso encontrar outra política econômica que não seja exclusivamente de austeridade.

A derrota da União Democrata Cristã, partido da chanceler Angela Merkel, na Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha, é o mais forte recado das urnas à Merkel. Os alemães tinham motivos para serem os últimos a reclamar: o país está crescendo, e a taxa de desemprego é de 5,6%, a menor da Europa. Isso sem lembrar o passado hiperinflacionário que faz com que haja mais apoio ao controle de gastos.

É cada vez mais difícil sair do intrincado problema europeu. A projeção do FMI para a redução do déficit público na Zona do Euro mostra que só em 2015 ele voltará à casa de 1%, o que faria a dívida pública cair. Mas esse objetivo só será atingido se for cumprido o pacto fiscal de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy.

Sarkozy está entregando o governo à oposição, que ganhou as eleições; Merkel tem tido sucessivas derrotas em eleições regionais. A Zona do Euro vê como cada vez mais provável o risco de que um dos países deixe o bloco. A Grécia não conseguiu formar governo e se houver nova eleição o provável é o fortalecimento dos partidos radicais, à direita e à esquerda. O país vive uma fragmentação política e polarização. Os gregos parecem saber o que não querem, mas não demonstram saber o que querem.

Se os gregos decidirem sair da Zona do Euro a situação do país vai piorar no curto prazo. A volta para a moeda nacional acabará provocando uma queima de ativos das famílias e das empresas porque a taxa de conversão para o dracma evidentemente não será neutra. Outro problema será o risco de inflação.

O "Financial Times" explicou a onda de queda das bolsas como resultado do medo de que não funcione a blindagem da Europa para evitar a contaminação de uma saída desordenada da Grécia do bloco. Se a blindagem não funcionar, outros países serão afetados pelo aumento da percepção de risco. O primeiro caso seria a Espanha, mas não é o único. Os títulos da Espanha e os papéis de 10 anos da Itália bateram no nível mais alto do ano, num sinal do temor dos investidores. A saída desordenada da Grécia estava sendo considerada um risco afastado, por causa da renegociação da dívida. Desde a eleição, no entanto, que mostrou a pulverização do poder político, o temor voltou.

- Se houver coalizão na Grécia será para sair da Zona do Euro e não para ficar. Na Espanha, a Comissão Europeia admitiu que o déficit do país não será reduzido como se imaginava, e na Alemanha o último governo que ainda não perdeu eleições pode estar com os dias contados - disse o economista Eduardo Velho, da Prosper Corretora.

O drama grego refletiria em todos os países europeus, em maior ou menor grau. A Fitch avisou que nesse cenário pode colocar em perspectiva negativa todos os governos do bloco, e os países que já estão em perspectiva negativa correm mais risco de serem rebaixados, como Portugal, Chipre, França, Itália, Irlanda, Eslovênia e Bélgica. A agência avalia que "a saída da Grécia quebraria um princípio fundamental que sustenta o euro: a de que a adesão à união monetária é irrevogável."

A Espanha está pagando um custo maior na sua dívida porque os credores temem a crise no sistema bancário do país, que precisará de 22 bilhões para se capitalizar. Na França, passada a euforia com a vitória de François Hollande, restará saber como ele ao mesmo tempo corrigirá seu déficit, em torno de 5%, reduzirá o endividamento de 87% do PIB, e combaterá o desemprego de 10%. Com tantas incertezas, as bolsas caíram. O Ibovespa fechou em queda de 3,2%, e sobe 1,4% este ano depois de se valorizar mais de 20% (vejam no gráfico).

- O cenário é de incerteza também no Brasil, com o câmbio em outro patamar, a inflação maior, e um cenário de juros nunca visto. O nível de atividade não deu ainda sinais de recuperação forte - afirmou Wagner Salaverry, da corretora Geração Futuro.

O dólar atravessou a barreira dos R$ 2 e provou mais uma vez que o real se desvaloriza não quando o governo quer, mas quando a incerteza no mundo aumenta. O impacto de um dólar tão forte aumenta o risco de inflação e de crescimento mais fraco, segundo projeção das instituições que são pesquisadas semanalmente pelo Banco Central.

FONTE: O GLOBO

Violência contra as mulheres

Dilma Rousseff foi à televisão no Dia das Mães para dizer que está preocupada com as brasileiras. Anunciou mais uma série de benefícios sociais que, assim como as promessas nunca cumpridas da presidente, perigam não sair do papel. A julgar pelo que o governo petista tem feito para prevenir a violência contra as mulheres, o risco é grande.

Há alguns dias, o Instituo Sangari divulgou levantamento sobre casos de criminalidade que vitimam mulheres. Os dados do Mapa da Violência são assustadores: o Brasil é, atualmente, o sétimo país do mundo onde mais se matam pessoas do sexo feminino.

Numa lista de 84 nações para as quais há dados disponíveis, a nossa situação só não é pior que as de El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia, Colômbia e Belize. A taxa brasileira de mortalidade feminina é de 4,4 para cada 100 mil.

A cada cinco minutos, uma mulher é agredida no país e, a cada duas horas, uma é morta. Segundo a estatística mais recente, em 2010 foram registradas 48 mil agressões a mulheres brasileiras. O número de mortes chegou a 4.297.

A divulgação do Mapa da Violência abre oportunidade para avaliar as políticas públicas voltadas à população feminina do governo federal. Afinal, pela primeira vez na história, o país está sob o governo de uma mulher.

Além disso, uma secretaria especial voltada ao segmento foi criada pela gestão Lula em 2003 gozando de status de ministério. Sua principal linha de ação é, justamente, prevenção e enfrentamento de violência contra mulheres: desde que a pasta passou a existir, metade do seu orçamento sempre foi destinado a este fim.

Para começar, não há nenhuma melhoria nos indicadores a respeito da violência contra as mulheres nos últimos nove anos. Enquanto a taxa de mortalidade não se alterou em nada, mantendo-se em torno de 4,4 para cada 100 mil brasileiras, o número de mortes cresceu 11,2% desde 2003.

Levando-se em conta o que os governos Lula e Dilma executaram em termos de ações de combate à violência contra as mulheres, dificilmente o quadro irá mudar. Desde 2005, a partir de quando há informações disponíveis da Secretaria de Políticas para Mulheres no Siafi, R$ 131 milhões foram destinados a esta finalidade. Contudo, somente R$ 32 milhões, ou 24%, foram efetivamente executados.

A pasta, hoje comandada por Eleonora Menicucci, é mais um dos 40 ministérios da Esplanada petista que não consegue mostrar a que veio. Na média, nestes sete anos, apenas 60% da verba orçamentária foi aplicada.

Assim como a Secretaria para a Igualdade Racial e o quase folclórico Ministério da Pesca, a Secretaria de Mulheres é daquelas em que se consome muito mais dinheiro com a manutenção da burocracia do que com a efetiva execução de ações em favor da população.

Por várias razões, a população feminina merece atenção especial. O enfrentamento da violência - causada, segundo o Instituto Sangari, principalmente por conflito entre cônjuges - é uma delas. Mas os decepcionantes resultados das ações do governo federal no combate à violência contra as mulheres indicam que não é apenas criando estruturas burocráticas que se alcançará o objetivo.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Merkel/Hollande não é Fla-Flu:: Clóvis Rossi

Os dois líderes estão condenados a se entender, mas nem assim porão fim à crise econômica européia

A julgar pelo ambiente de Fla-Flu que boa parte da mídia criou entre França e Alemanha, daria para dizer que Angela Merkel nem dirá "guten Abend, François", ao se encontrar nesta noite com o novo presidente francês.

Falso. França e Alemanha estão condenados a se entender, sob pena de dinamitar todo o projeto europeu, de que são os principais motores. Mais ainda no momento em que a Europa cambaleia no fio da navalha e o fantasma da saída da Grécia do euro paira sobre o encontro de Berlim, com consequências absolutamente imprevisíveis.

É óbvio, pois, que o Fla-Flu Angela/François não será um mata-mata, mas apenas uma primeira aproximação.

A própria chanceler alemã cuidou, nas últimas 48 horas, de dissolver a ideia de confronto. Primeiro, ao dizer que confia na possibilidade de estabelecer "uma parceria estável com o novo presidente francês". Depois, ao acrescentar o óbvio: "Nós sabemos, desde a criação da República Federal da Alemanha [faz 63 anos], que uma boa relação franco-alemã é muito importante para os dois países".

Por fim, depois de uma derrota "amarga e dolorosa" na Renânia do Norte-Vestfália, o mais populoso "Land" (Estado) alemão, Merkel fez um discurso que se aproxima do de Hollande: "Ninguém na CDU [União Democrata-Cristã, o conservador partido de Merkel] tem nada contra elementos que fomentem o crescimento, mas temos que analisar como afetam a política de consolidação [fiscal, a austeridade tão criticada e tão derrotada nas eleições recentes]". Hollande não é contra a consolidação fiscal, mas é entusiasta de "elementos que fomentem o crescimento".

Claro que há uma divergência insuperável entre ambos: Hollande quer renegociar o pacto fiscal acertado em março pelos líderes europeus. Merkel veta -e com razão. Abrir uma negociação equivaleria a congelar o pacto por meses e meses -e a Europa não tem tempo a perder no enfrentamento da crise.

Mas é uma divergência fácil de jogar para a frente a partir das coincidências já publicamente expostas em torno dos "elementos que fomentem o crescimento": os dois lados têm falado em usar os € 80 bilhões dos fundos estruturais ainda disponíveis nos cofres europeus e em aumentar os recursos para o Banco Europeu de Investimentos emprestar a empresas.

Jean-Christophe Cambadélis, deputado socialista, acha que Merkel tende a aceitar também a taxação de movimentos financeiros, que consta do programa de Hollande e é apoiada pelo SPD (Partido Social-Democrata alemão, de cujos votos a chanceler depende para aprovar em seu próprio Parlamento o pacto fiscal pelo qual ela tanto se bate).

Completa Cambadélis: "Há muitos elementos sobre os quais Hollande e Merkel podem avançar, mesmo que isso possa demandar um pouco de tempo".

É aí que se chega ao verdadeiro Fla-Flu: a crise não se joga hoje só em Berlim ou Paris, mas também em Madri e Atenas. Um confronto Hollande/Merkel acabaria com o campeonato todo, mas um entendimento, por mais amplo que seja, já não basta para vencê-lo.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Hollande assume hoje presidência e viaja para negociar pacto com Merkel

François Hollande assume a presidência, encerrando os cinco anos de governo de Nicolas Sarkozy. Primeiro socialista a chegar ao poder em 17 anos, ele comandará um poderoso arsenal nuclear ea quinta maior economia do mundo.

Seu primeiro compromisso será um encontro coma chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para buscar uma saída para a crise financeira da União Europeia.

A cerimônia de transmissão do cargo começa por volta das10 horas (5 horas no horário de Brasília), no Palácio do Eliseu, em Paris. Seguindo a tradição, Hollande será recebido por Sarkozy no pátio interno da residência presidencial. Ambos terão uma reunião privada de cerca de 20 minutos, tempo durante o qual o novo presidente receberá os códigos nucleares e os segredos de Estado mais urgentes a serem tratados.

Acompanhado pelo chefe do Estado-Maior, Hollande será levado ao bunker sob o palácio, o Posto de Comando Jupiter, onde registrará seus dados biométricos, necessários para acionar o arsenal atômico.

A seguir, ele acompanhará Sarkozy até o veículo que o levará do Palácio do Eliseu para a cerimônia de posse, na qual o presidente do Conselho Constitucional lhe entregará o colar de Grão-Mestre da Ordem da Legião de Honra, cuja simbologia é semelhante à da faixa presidencial no Brasil. Às 10h45, já como presidente, Hollande fará seu discurso de posse.

Viagem a Berlim. Encerradas as solenidades,começa o roteiro escolhido pelo presidente. Hollande decidiu subir a Avenida Champs-Élysées em automóvel até o ArcodoTriunfo, onde depositará flores noTúmulo do Soldado Desconhecido.

De volta ao Palácio do Eliseu, ele almoçará com líderes políticos e, à tarde, fará uma série de visitas, entre elas ao prefeito de Paris, Bertrand Delanoë.

Encerradas as cerimônias, Hollande entrará, enfim, nos problemas da presidência da França. Em avião oficial, ele partirá para Berlim, sua primeira visita como chefe de Estado, onde encontrará Angela Merkel.O objetivo da viagem é, ao mesmo tempo, demonstrar a solidez da relação franco-alemã,que impulsiona a União Europeia, e debater a crise financeira dos países do bloco.

Na pauta do encontro está uma das promessas de campanha de Hollande: a renegociação do pacto de estabilidade, pacote de medidas que garante a responsabilidade fiscal e a política de austeridade.

Hollande quer incluir no texto o compromisso de que um outro documento, um pacto de crescimento, seja assinado nas próximas semanas, contendo medidas de estímulo à economia europeia.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

François Hollande toma posse como novo presidente da França

Em discurso, ele disse que vai tentar alterar o pacto europeu para incluir medidas de incentivo às políticas de redução de déficit

PARIS - François Hollande tomou posse como primeiro presidente socialista da França em 17 anos numa rápida cerimônia nesta terça-feira, 15, e se prepara para viajar a Berlim para contestar as políticas de austeridade receitadas pela chanceler alemã Angela Merkel para a Europa.

Em seu discurso de posse diante de 400 convidados, Hollande disse que vai tentar alterar o pacto europeu para incluir medidas de incentivo ao crescimento às políticas de redução de déficit que, segundo críticos, estão piorando as expectativas de expansão do bloco.

Estabelecendo diferenças com o ex-presidente Nicolas Sarkozy, que entregou o cargo nesta terça, Hollande disse que vai exercer uma Presidência "honrada" e "sóbria" e garantir que o Parlamento tenha papel fundamental.

"Vou estabelecer as prioridades mas não vou decidir por todos, sobre tudo e em todos os lugares", disse Hollande.

O presidente, cuja eleição acontece num momento em que a zona do euro combate novamente a crise diante dos temores sobre o futuro da Grécia, vai conceder sua primeira entrevista coletiva após a posse em Berlim, à tarde, ao lado de Merkel, que é de centro-direita.

Suas declarações serão acompanhadas de perto pelos mercados financeiros, que esperam uma confirmação de que sua posição a favor de medidas que incentivem o crescimento para combater o trato de disciplina fiscal implantado por Merkel e Sarkozy não vai prejudicar o início de sua relação com a chanceler (primeira-ministra) alemã.

Hollande deve nomear ainda nesta terça-feira o servidor civil Pierre-Rene Lemas como chefe de gabinete. O germanófilo Jean-Marc Ayrault, que tem fortes contatos em Berlim, pode ser nomeado primeiro-ministro depois disso.

Hollande vai viajar na quinta-feira aos Estados Unidos para cúpulas do G8 e da Otan.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

"O cinema está vivo e muito bem"

Elaine Guerini

O francês Thierry Frémaux, de 51 anos, passa o ano com os olhos grudados à tela da televisão, onde assiste a cerca de 1.800 DVDs de filmes, vindos de todos os cantos do mundo. Apenas 20 deles chegam à disputa pela prestigiada Palma de Ouro e mais 20 são selecionados para a mostra Un Certain Regard, o que aumenta a pressão sobre os ombros de Frémaux.

Há cinco anos como diretor-geral do Festival de Cannes, posto aprovado na França pelos ministros da Cultura e das Relações Exteriores, é ele quem seleciona os últimos trabalhos de grandes cineastas, descobre novos talentos e, de preferência, aponta os filmes que conquistarão a plateia mundo afora, ao longo do ano.

Foi o que aconteceu com "O Artista", que teve première mundial na Riviera Francesa, nove meses antes de sua recente consagração no Oscar deste ano. "Foi uma aventura maravilhosa iniciarmos a carreira do filme conosco, em maio, e vê-lo continuar dando o que falar até fevereiro do ano seguinte, na cerimônia do Oscar", afirma o diretor.

Neste ano em sua 65ª edição, o maior festival de cinema do mundo começa amanhã, com a exibição do filme "Moonrise Kingdom'', de Wes Anderson. Entre os candidatos à Palma de Ouro estão os novos trabalhos de Michael Haneke ("Amour"), Abbas Kiarostami ("Like Someone in Love"), Ken Loach ("The Angel's Share") e David Cronenberg ("Cosmopolis"). Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Frémaux concedeu ao Valor.

Valor: Como o sr. chegou à seleção do festival neste ano? Como anda o cinema mundial, principalmente depois da crise financeira, que limitou a oferta de filmes dos EUA e de alguns países europeus nas últimas edições?

Thierry Frémaux: É preciso vários anos para julgar o estado do cinema mundial. Nós não julgamos o vinho de Bordeaux só a partir de uma única colheita. O cinema se mantém misteriosamente poderoso e resistente à "civilização das imagens". Há quem apostasse que o cinema não conseguiria sobreviver ao vídeo e à internet. Mas o ato de fazer um filme continua único. Ainda que um filme precise de dinheiro, a crise não impediu que os artistas continuassem a se reinventar. Obviamente, eu falo como cinéfilo. Por isso digo que o cinema está vivo e muito bem.

Valor: Boa parte dos diretores da competição já disputou a Palma de Ouro. Michael Haneke, Abbas Kiarostami, Ken Loach e Cristian Mungiu ganharam o prêmio, inclusive. É possível dizer que está cada vez mais difícil fazer novas descobertas no cinema?

Frémaux: Não é difícil fazer descobertas, mas precisamos ser muito cautelosos na forma de expor os novos talentos. No ano passado, tivemos filmes de diretores estreantes na competição (como Julia Leigh, com "Beleza Adormecida") e talvez Cannes não tenha sido tão benevolente com eles, enquanto os grandes mestres são sempre muito bem tratados. É por isso que a seleção paralela Un Certain Regard é tão importante para mim. É lá que fazemos anualmente muitas descobertas. É o local certo para a experimentação, onde há mais generosidade na opinião pública cannoise.

Valor: O Brasil estará representado neste ano no Festival de Cannes com Walter Salles, na competição (apesar de seu filme, "Na Estrada", ser uma produção internacional), e com Carlos Diegues, escolhido como o presidente do júri do Caméra d'Or, além de outras participações. Como o sr. avalia o cinema brasileiro atual?

Frémaux: É um cinema de muita vitalidade, mas dividido, como em muitos países do mundo. Há o cinema jovem que ainda precisa se firmar e o cinema comercial difícil de exportar. Nós, em Cannes, amamos o cinema brasileiro, por sua qualidade, sua história e por suas personalidades também. Daí a homenagem ao Brasil neste ano de aniversário, quando chegamos à 65ª edição. Não é por nostalgia. É apenas uma maneira de dizer: o Brasil está aí, ativo, vivo com um belo filme internacional concorrendo à Palma.

Valor: Há uma forte presença americana na competição deste ano - incluindo filmes como "Killing Them Softly", de Andrew Dominik, "Lawless", de John Hillcoat, "Mud", de Jeff Nichols, e "The Paper Boy", de Lee Daniels. É difícil encontrar um equilíbrio?

Frémaux: Este é um ano muito interessante para os EUA. Da minha perspectiva, o cinema americano dos últimos anos foi marcado por uma extrema polarização entre os grandes filmes de estúdio e os pequenos filmes independentes. E exceto por algumas grifes cinematográficas (como os irmãos Coen, Quentin Tarantino, James Gray, Sean Penn, Gus Van Sant, Woody Allen, Terrence Malick etc.), o filme para o público adulto praticamente desapareceu. O momento atual sinaliza um possível retorno do cinema voltado aos espectadores entre 30 e 50 anos. Sendo assim, Cannes não poderia deixar de testemunhar essa nova leva. Claro que ainda é cedo para tirar conclusões. E será preciso que esses filmes deem certo, claro.

Valor: Qual a temática do Festival de Cannes 2012? É possível fazer a seleção sem pensar em linha ou tendência que vai se delineando a partir de suas escolhas?

Frémaux: Para nós, não há nenhuma linha, pois não fazemos o exercício crítico. Uma bela seleção é uma série de bons filmes que reflete o estado do cinema. Seria delicado demais desenhar uma linha editorial, pois teríamos de descartar um filme ou outro em nome de uma tendência pré-estabelecida. Nós estamos a serviço do cinema no movimento do seu tempo. A nossa única "linha", a cada ano, é trazer objetos incomparáveis. Em 2011, "O Artista" retomou os longos planos-sequência, assim como em "Era Uma Vez na Anatólia", de Nuri Bilge Ceylan. Logo de cara, Robert De Niro, que foi presidente do júri, disse: "É maravilhoso o fato de ainda podermos fazer filmes assim".

Valor: O que significou para o Festival de Cannes a consagração de "O Artista" no Oscar?

Frémaux: "O Artista" ajudou tremendamente o Festival de Cannes. Primeiramente, sua presença provou que podemos realmente colocar todos os tipos de filmes em competição. Em segundo lugar, foi a constatação de que não podemos confiar em aparências. Michel Hazanavicius tinha uma imagem de cineasta "comercial e popular" (pelos filmes da franquia "Agente 117", paródia do cinema de espionagem). Mas ele conseguiu provar que é um grande diretor.

Valor: O que o italiano Nanni Moretti (diretor de "Habemus Papam"), escolhido como presidente do júri neste ano, trará à Croisette?

Frémaux: Depois de Isabelle Huppert, presidente em 2009, nós não tivemos mais um nome europeu à frente do júri. Sean Penn foi o presidente em 2008, Tim Burton, em 2010, e Robert De Niro, no ano passado. Nesse cenário, surgiu a ideia de entregar a missão a Moretti, Palma de Ouro em 2001 (meu primeiro festival como diretor artístico). Trata-se de um cineasta, um cinéfilo, um explorador, um produtor, distribuidor, um autor, um homem da política, esportista e um amante da música. Seu gosto musical vai desde o roqueiro Bruce Springsteen até a argentina Mercedes Sosa. Resumindo: é o presidente ideal. Um impetuoso! Sua indicação como presidente foi tremendamente bem acolhida, pois sabemos que os grandes artistas permanecem como referências importantes.

Valor: O que representa para Cannes apresentar o último filme dirigido por Claude Miller (morto aos 70 anos, no mês passado), "Thérèse Desqueyroux", no encerramento, no dia 27?

Frémaux: Primeiramente, o filme de Claude foi escolhido porque é um belo trabalho. Em segundo lugar, num ano em que perdemos tantos cineastas importantes, como Raoul Ruiz e Theo Angelopoulos, é essencial prestar essa homenagem a Claude, que era um grande amigo de Cannes. Ele foi um cineasta muito importante na minha vida, já que "Dites-Lui Que Je l'Aime", uma produção dos anos 1970, com Gérard Depardieu, foi um filme-chave no despertar da minha paixão pelo cinema.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

É a alma:: Graziela Melo

É a alma
que
entristece

quando
anoitece...

Suas
vertentes
inclinadas
derramam
lágrimas
no coração,

em rajadas,
em turbilhão...

É
o grito
triste
da solidão!!!

É
o momento
infeliz,

quando
os olhos
se calam,

quando
a boca
não diz!!!

Graziela Melo

segunda-feira, 14 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Pedro Simon: sobre a CPI

Quererem transformar a CPI na CPI do procurador-geral é piada, é algo que não pode ser levado a sério. O Supremo, por unanimidade, prestou solidariedade ao procurador. E o PT quer transformar a CPI do Cachoeira na CPI do Gurgel. Meu querido PT, é muita cara de pau! O PT tem problemas com o procurador? Entre com um requerimento junto à Procuradoria, solicite que ele seja investigado, mas isso não pode ser feito na comissão. Isso é má-fé, isso é ridículo, isso soa mal, está ficando mal para o PT.

Senador Pedro Simon, em discurso no Senado Federal. O Globo, 12 de maio de 2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Metade dos prefeitos do Rio nomeia parentes
Equipamento em falta nas emergências
Um rastro de destruição junto à floresta

FOLHA DE S. PAULO
Assessor multiplica por dez seus imóveis em SP
Advogado diz que Cachoeira deve se manter calado na CPI
Comissão deve focar violência dos dois lados, diz ex-ministro
Dilma prepara a exigência de ficha limpa para cargos federais

O ESTADO DE S. PAULO
Impasse deixa Grécia perto de sair da zona do euro
Subprocuradora diz que MP agiu certo em 2009

VALOR ECONÔMICO
Bancos intensificam o aumento de tarifas
Governo é contra venda de Neoenergia a chineses
Cachoeira tinha rede multipartidária em GO
Dividendo de elétricas pode recuar
Rendimento imprevisível da renda fixa

CORREIO BRAZILIENSE
Ida de Cachoeira à CPI cria expectativa
Dilma anuncia nova bolsa para erradicar miséria

ESTADO DE MINAS
Muitos carros, pouco espaço
Belo Horizonte: PSDB tenta embolar a sucessão
Censo de 2010: Campeãs do divórcio e do amor eterno

ZERO HORA (RS)
Cachoeira deve R$ 1 milhão ao governo do RS
Na boca do caixa: Queda do juro ainda não vale para todos

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Histórias de um sertão seco, mas verde e fértil
Caso vá depor, Cachoeira pode até ficar calado

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Serra diz que sua campanha influencia Dilma

O pré-candidato José Serra (PSDB) disse ao Estadão que o motivo de disputar a eleição é "impedir uma descontinuidade dramática" nos rumos de SP. Para ele, sua campanha presidencial influenciou Dilma.

"Muitas das coisas que o governo faz foram resultado da minha campanha".

"Sou candidato para impedir descontinuidade dramática em São Paulo"

Tucano diz que "gosto" e "necessidade política" motivaram sua décima candidatura

Alberto Bombig, Bruno Boghossian

A cinco semanas da convenção que vai oficializar sua candidatura à Prefeitura de São Paulo pelo PSDB, o economista José Serra, de 70 anos, ainda seca as feridas de sua última disputa nas urnas, quando foi derrotado por Dilma Rousseff (PT) na eleição presidencial. Ele reconhece o peso do ex-presidente Lula no processo e assume a frustração: "Eu entrei efetivamente com a expectativa de vencer e perdi".

O tucano ainda dispara uma infinidade de dados sobre "problemas nacionais", mas passou a coletar números sobre a capital paulista e diz estar pronto para sua décima disputa em 26 anos. "Eu não sou dependente químico de eleição, mas eu gosto de campanha." Na quinta-feira, Serra recebeu o Estado em sua casa para uma entrevista exclusiva, na qual defende a gestão de Gilberto Kassab (PSD), e diz que sua campanha de 2010 influencia decisões do governo Dilma. "Cópia, se bem feita, é uma virtude." Segundo ele, voltar a disputar a Presidência em 2014 não está nos planos.

Depois de ser prefeito, governador, senador e ministro, por que tentar voltar à Prefeitura agora?

Criou-se uma necessidade política, no âmbito do partido e de aliados, de ter uma opção forte para a Prefeitura. E por gosto, porque é algo que me agrada bastante. São Paulo é uma cidade com receitas de município e problemas nacionais. É sempre um grande desafio.

Que motivação política foi essa?

É importante ter uma opção com grande chance de vitória e impedir uma descontinuidade dramática nos rumos da cidade. Levo em conta que, nos últimos oito anos, nós arrumamos São Paulo do ponto de vista fiscal. É claro que os problemas continuam, mas o fato é que é muito importante manter São Paulo no rumo, e numa articulação estreita com outra prefeitura, que é o governo do Estado.

A solução para o trânsito de São Paulo está apenas no transporte sobre trilhos?

O problema da mobilidade na cidade jamais será equacionado, o que não significa que a gente não possa melhorar. São Paulo tem que ter uma teia de aranha de trilhos por baixo da cidade. Isso não desmerece a importância de obras viárias e corredores de ônibus, mas sempre tendo em mente que o ônibus tem, em última análise, que servir ao transporte de trilhos.

A Prefeitura pode resolver o problema da cracolândia no centro da cidade?

São duas questões. Uma é o fenômeno da droga, que está relacionado ao contrabando. As fronteiras abertas para o tráfico levam a uma capacidade de oferta da droga a preços baixos, o que é desastroso. Isso está fora do âmbito da cidade e mesmo do Estado, até certo ponto. É uma tarefa federal, onde não se teve avanço nenhum nos últimos anos. As outras dimensões são a educação e o tratamento. É preciso desenvolver com relação ao crack uma campanha educacional mais intensa da que fizemos contra o cigarro. O governo federal é hesitante.

O senhor pretende aplicar o modelo das organizações sociais (OS)?

A OS não é um modelo para toda a saúde. É um modelo para certas unidades e funciona bem. A saúde continua sendo o assunto número um e o aspecto mais chocante é o encolhimento relativo do governo federal, que chegava a cobrir 60% das despesas com fontes federais e hoje se aproxima de 40%. Em São Paulo, de 2004 a 2012, o orçamento mais que triplicou. Do ponto de vista quantitativo, a saúde deu saltos.

A pesquisa Ibope desta semana mostra alta rejeição do prefeito Gilberto Kassab. Qual a sua avaliação da gestão?

Acho que é uma boa gestão e que o fato de ele ter se envolvido na criação de um partido criou para alguns a sensação de que ele estava desligado da cidade. Digamos: você está num engarrafamento de trânsito e liga o rádio, que diz: "Gilberto Kassab esteve em Alagoas vendo a questão do PSD e tal". Você fala: "Eu aqui no trânsito e o prefeito cuidando de partido". Mas é uma sensação, porque, de fato, o Kassab trabalha muito na administração da cidade. Ele deu continuidade à nossa gestão e tem realizações positivas.

Sua própria rejeição (35%, segundo pesquisa do Ibope) o preocupa?

Não. Eu avalio que minha rejeição é normal. Eu sou o mais conhecido e as pessoas têm uma posição mais definida. Eu acabei de disputar uma eleição presidencial: todo mundo me conhece, eu ganhei aqui no 1.º e no 2.º turnos, mas foi uma eleição dividida.

O sr. acredita que já ganhou a eleição?

Não, de forma nenhuma. Todo político que disputa eleição tem de ser um pouco paranoico. Se não for, perde. Todo político tem que olhar a eleição com humildade e achar que não é fácil. Eu me lembro de uma história do Juscelino (Kubitschek), que é verdadeira. Ele era capaz de parar numa estrada para ver um eleitor. Eu faço isso. Eu às vezes paro por causa de uma pessoa. Cada voto é um voto. Além do que, eu tenho gosto também nisso. Eu vou dizer a vocês: eu não sou dependente químico de eleição, mas eu gosto de campanha eleitoral, principalmente do contato com as pessoas.

Padrinhos políticos como a presidente Dilma entrarão na campanha?

Eu acho que os políticos nacionais vão procurar influenciar a campanha em São Paulo, principalmente do lado do PT. Mas outra coisa é a influência que isso possa ter. A influência eleitoral é sempre menor quando é fora do âmbito da esfera de governo da personalidade política. Se você é presidente, influencia mais na eleição para presidente. Se você é governador, idem, e, se você é prefeito, idem. Mas essa influência vai ser exercida, eu não tenho dúvida nenhuma. Se for dentro de certos padrões de decoro, é normal.

O sr. acha que o debate sobre costumes (religião, aborto, casamento gay) deve fazer parte da campanha?

A minha questão não é se deve ou não deve. A minha questão é que a própria imprensa e os próprios setores da sociedade interessados nessas questões as introduzem na campanha. E você não vai proibir. São questões de valores espirituais ou de ética que são postos. Não se trata de misturar religião com política. São coisas diferentes. Religião é opção individual, não é uma opção partidária.

Como o sr. reagirá, caso seja eleito prefeito, se em 2014 surgir um clamor para que o sr. se candidate à Presidência? Já pensou sobre isso?

Eu não pensei nisso porque eu estou com o propósito de me eleger prefeito e governar os quatro anos. Não creio que vá haver (um clamor).

Que avaliação o sr. faz de 2010?

É pouco tempo para avaliar. Eu entrei efetivamente com a expectativa de vencer e perdi. Tem eleições que eu não tinha uma expectativa tão forte de ganhar. O porquê, isso ainda vai ser debatido por muitos anos.

O partido se dividiu na disputa?

(Isso) não teve nenhuma importância. Pode ter tido uma ou outra frouxidão regional com relação à campanha, mas não teve dimensão para afetar o resultado. Efetivamente, quando começou o 2.º turno, havia um empate. No fim, eu acredito que o peso da popularidade do Lula foi decisivo. Isso é opinião mais superficial, que precisa ser analisada.

O senhor tem boa relação com o senador Aécio Neves (PSDB-MG)?

Com o Aécio? Tenho. Relação cordial. Eu não sou de conviver em situações de atrito, de levar uma relação na base do atrito. Boa parte das coisas que existem, aliás, é folclore.

O sr. ficou com alguma mágoa da campanha de 2010?

Não. Eu preferia ter ganhado, mas... Em eleição, você tem que ter um mínimo de preparação para assimilar resultados, porque a decisão não é você que toma. A decisão é das pessoas, milhões de pessoas. Pode parecer frase feita, mas faz parte. A derrota é um ingrediente importantíssimo de uma eleição quando você vai para a disputa. Por outro lado, eu acredito que, nas duas eleições (presidenciais), a minha campanha condicionou muito o próprio desempenho do governo posterior. Agora, muitas das coisas que o governo faz, sem dúvida nenhuma, foram resultado da minha campanha.

O sr. fala especificamente da política de juros do governo Dilma?

Juros, infraestrutura, mesmo a defesa da liberdade de imprensa... Uma série de questões variadas. Dar exemplos sempre é ruim. Sem dúvida nenhuma, o grosso das teses que nós defendemos em 2010 eram corretas e o governo incorporou muitas delas. É normal que isso aconteça. Eu não acho que, na vida pública, cópia seja plágio. Cópia, se bem feita, de maneira honesta e não eleitoreira, é uma virtude.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO, 13/5/2012.

FH é premiado por obra acadêmica e vida pública

Ex-presidente é 1º brasileiro a conquistar o Prêmio Kluge, espécie de Nobel das áreas sociais

Paula Bonelli

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conquistou o Prêmio John W. Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso Americano, pelo conjunto da sua obra acadêmica, sua ativa produção intelectual no campo das humanidades e também por seu significado na vida pública do País. O sociólogo recebe a distinção em Washington, no dia 10 de julho. O prêmio é entregue a cada dois anos para acadêmicos que dedicaram a vida a pesquisas em áreas como história, sociologia, política e antropologia – disciplinas não contempladas pelo Prêmio Nobel, ao qual a distinção é comparada. FHC, autor ou coautor de 23 livros e 116 artigos acadêmicos, disse que foi pego de surpresa com a sua escolha. “É uma coisa que eu não estava esperando, não me candidatei e recebi. É melhor receber enquanto vivo do que depois de morto”, brincou o ex-presidente. “O prêmio se deu também em função da coerência entre o que escrevi e minha ação política”, definiu Fernando Henrique.

A recompensa, da ordem de US$ 1 milhão, será entregue pelo diretor da Biblioteca do Congresso, James H. Billington, quando FHC pronunciará um discurso para acadêmicos e políticos. Para o “pai” do Plano Real, o Prêmio Kluge é dado a quem abre um caminho que provoca repercussão na vida das pessoas. Ele acredita que a sua Teoria da Dependência, por sua grande difusão, foi a que teve mais impacto. “O livro ia contra a visão predominante da época e mostrou que é possível crescer apesar da dependência”, explicou. Por outro lado, do ponto de vista acadêmico, o sociólogo acredita que tenha outros trabalhos mais sólidos, como sua tese de doutorado sobre capitalismo e escravidão no Brasil meridional.

O Prêmio Kluge foi criado em 2000 para estimular a relação entre o mundo das ideias e da ação. FHC afirma que sua formação não é específica de sociólogo, por ter trabalhos acadêmicos também em economia e na ciência política. “Minha visão foi sempre mais integrada. Acho que conseguimos estabilizar a economia do Brasil e não fazer o que normalmente se f az para atingir isso, que é levar o País à recessão. Pelo contrário: crescendo o que crescia e sempre com a preocupação de educação, saúde, bolsa (social) e de aumentar o salário mínimo.” Segundo FHC, sua visão corrobora a tese de que “o desenvolvimento não é só econômico, é integrado.”

Entre o grupo de países que já venceram o prêmio estão França, Índia, China e Estados Unidos. Sobre como pretende usar os cerca de US$ 1 milhão que receberá, FHC não esconde a surpresa: “Vamos ver. Não consigo nem imaginar ter tudo isso. Nunca vi tanto na minha mão de uma vez. Deixa eu receber primeiro”.

Ideias e ação

FHC EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

“Conseguimos estabilizar a economia do Brasil e não fazer o que normalmente se faz para isso, que é levar o País à recessão”

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

FH: Comissão da Verdade buscará reconciliação, e não vingança

Ex-presidente recebe prêmio de US$ 1 milhão do Congresso dos EUA

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem estar otimista com a instauração da Comissão da Verdade, criada para investigar violações aos direitos humanos durante a ditadura militar. Segundo ele, que participará, quarta-feira, da cerimônia de posse dos membros da comissão, em Brasília, o objetivo não é buscar vingança, mas sim a verdade e a reconciliação.

Fernando Henrique comparou a comissão brasileira ao grupo "The Elders", criado pelo líder sul-africano Nelson Mandela em 2007 com o objetivo de debater soluções para problemas mundiais, do qual ele próprio faz parte.

- A Comissão da Verdade foi criada com o mesmo espírito do que foi feito por Mandela, ao criar os Elders na África do Sul. Será uma busca por verdade e reconciliação, não vingança - disse.

Segundo ele, o convite da presidente Dilma Rousseff para que os ex-presidentes brasileiros participem da posse na próxima quarta-feira dá à comissão a conotação de uma ação de Estado.

Perguntado sobre a possibilidade de convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos, o ex-presidente disse que essa seria uma decisão equivocada.

- Ele participou das investigações. Portanto, a convocação não faz sentido - respondeu Fernando Henrique.

Prêmio Kluge destaca obra acadêmica

Pelo conjunto de sua obra, Fernando Henrique Cardoso foi agraciado com o Prêmio Kluge da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. O anúncio da premiação foi feito ontem. É a primeira vez que um brasileiro vence o Kluge. Criado em 2003, o prêmio é considerado o Nobel da área de humanidades.

O Prêmio Kluge já foi concedido a Leszek Kolakowski (2003), a Jaroslav Pelikan e Paul Ricoeur (2004), a John Hope Franklin e Yu Ying-shih (2006), e a Peter Lamont Brown e Romila Thapar (2008). Além do prestígio, o Kluge rende aos ganhadores US$ 1 milhão.

O ex-presidente contou que soube, há uma semana, que era o ganhador deste ano. E que foi surpreendido pela notícia, pois não sabia que estava entre os indicados. Desta vez, o ex-presidente foi o único vencedor, ao contrário de anos anteriores, quando a Biblioteca do Congresso Americano preferiu dividir o prêmio entre dois pensadores.

- Foi como receber um raio de sol num dia de chuva. É um prêmio de prestígio, e é sempre muito bom ser reconhecido. O que mais me deixou contente é que esta é uma premiação que privilegia trabalhos acadêmicos que tenham impacto na vida prática - comemorou, contando que a premiação será em 10 de julho, numa cerimônia em Washington.

Sobre o discurso que fará ao receber o prêmio, Fernando Henrique adiantou que planeja enfatizar exclusivamente a sua vida acadêmica.

- Política é sempre discutível - explicou, dizendo que ainda não sabe o que fará com o dinheiro da premiação. - Nessa altura da minha vida, o que vale mesmo é o reconhecimento. Minha família deve ficar muito mais contente do que eu com o dinheiro. Nunca recebi uma bolada tão grande como essa de uma só vez.

FONTE: O GLOBO

Advogado diz que Cachoeira deve se manter calado na CPI

O empresário Carlinhos Cachoeira poderá ficar calado no depoimento marcado para amanhã na CPI ou nem comparecer, segundo o advogado Márcio Thomaz Bastos. A defesa pediu ao STF acesso ao material da investigação, além de prazo para analisar o conteúdo. Se o tribunal acatar o pedido, o depoimento do empresário poderá ser adiado

Cachoeira deve ficar calado na CPI, afirma seu advogado

Depoimento está marcado para amanhã, mas defesa ainda tenta adiá-lo

Márcio Thomaz Bastos quer prazo para seu cliente conhecer e examinar documentos das investigações

Leandro Colon, Natuza Nery

BRASÍLIA - Quem espera revelações do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, em seu depoimento marcado para amanhã na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que apura sua relação com autoridades deverá se frustrar.

A defesa de Cachoeira definiu a estratégia no fim de semana: ou o empresário ficará calado ou ele não vai comparecer ao depoimento.

A alternativa a prevalecer depende da resposta do Supremo Tribunal Federal sobre o pedido dos advogados para que a CPI dê a Cachoeira acesso ao material que tem contra ele, além de prazo para analisar os documentos.

Se o STF negar o pedido ou não decidir até amanhã, Cachoeira deve permanecer em silêncio no depoimento -ou falar muito pouco.

Se o Supremo aceitar o pedido, a defesa espera que seja dado um prazo para Cachoeira analisar os autos da CPI, o que adiaria o depoimento.

Para a defesa, ele não pode depor sem saber o conteúdo da investigação. "Precisamos acabar com essa situação kafkiana", disse ontem o advogado de Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça no governo Lula.

No romance "O Processo", de Franz Kafka, o personagem principal é investigado sem saber por qual motivo.

Se o depoimento de fato ocorrer, será a primeira oitiva pública à comissão. Até agora, só dois delegados da Polícia Federal falaram, mas em sessões secretas.

"Ele adotará a linha de não falar", disse o senador Humberto Costa (PT-PE).

Por ora, a CPI do Cachoeira em nada se assemelha à CPI dos Correios, que investigou o mensalão em 2005.

Naquela época, não havia investigação policial prévia nem extensos arquivos com intercepções telefônicas.

"É que, neste caso, as investigações já estavam avançadas", completou o senador.
Na quinta, a CPI ouvirá dois procuradores da República que conduziram a Operação Monte Carlo, que levou Cachoeira à prisão.

Os integrantes da CPI querem, por exemplo, solicitar ao STF acesso ao sigilo bancário do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), investigado pelo envolvimento com Carlinhos Cachoeira.

O Supremo já autorizou a abertura dos dados bancários do senador a pedido do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Se não tiverem acesso por meio da corte, os membros da CPI pretendem votar requerimento para conseguir os documentos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Congressistas reagem a guerra de versões sobre operação

Andréia Sadi

BRASÍLIA - Congressistas que integram a CPI do Cachoeira reagiram à afirmação da subprocuradora da República Cláudia Sampaio de que a Polícia Federal pediu que não fosse suspensa a primeira operação que investigou Carlinhos Cachoeira, em 2009.

Reservadamente, integrantes da CPI já dizem que a guerra de versões entre o Ministério Público Federal e a PF pode levar a acareação entre Sampaio e o delegado Raul Alexandre Souza, que comandou a Operação Vegas.

Mulher do procurador-geral, Roberto Gurgel, Sampaio foi responsável por analisar o inquérito da Vegas na Procuradoria. Para ela, os encarregados das investigações seriam do esquema.

A versão da subprocuradora, publicada ontem pelo Painel, diverge do que Souza disse à CPI na semana passada. Em sessão secreta, ele afirmou que Sampaio o procurou e avisou que não existiam indícios para levar a investigação adiante.

Ex-líder do PT na Câmara e membro da CPI, o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) afirma que a justificativa aprofunda a confusão.

Congressistas disseram à Folha que a revelação de que a subprocuradora pretendia arquivar o caso é o ponto mais polêmico. O inquérito da Vegas não foi devolvido ao órgão para que a investigação prosseguisse mesmo após o Ministério Público dizer que não havia indícios contra o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e o esquema de Cachoeira.

"A PF não quer entrar em uma briga com a Procuradoria-Geral da República, mas a explicação não tem lógica", afirma um membro da PF.

Gurgel virou alvo de ataque petista após ser revelado que ele sabia de ligações de Demóstenes com Cachoeira desde 2009, mas não tomou providências. Em resposta, o procurador-geral atribuiu as críticas a "pessoas ligadas a mensaleiros", aumentando o atrito com o PT.

Teixeira diz que Gurgel "entrou num debate político, e a subprocuradora foi para uma disputa corporativista".

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) defende que Sampaio esclareça por escrito para a comissão a divergência entre as versões. "Ou compareça na Comissão de Constituição e Justiça."

Para o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), porém, o casal de procuradores não tem nada a esclarecer.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Todo governo pós-ditadura encarou uma grande CPI

Depoimento de Carlinhos Cachoeira pode ser 1ª prova de fogo da comissão

Investigações sobre relações do empresário com autoridades começaram há quase um mês no Congresso

Andreza Matais, Gabriela Guerreiro e Rubens Valente

BRASÍLIA - A CPI do Cachoeira, criada há quase um mês no Congresso, pode ter sua primeira prova de fogo amanhã. Isso se Carlinhos Cachoeira, com depoimento público marcado, não conseguir no Supremo Tribunal Federal o adiamento da sessão.

Enfrentar uma grande CPI não é novidade de Dilma Rousseff. Todos os governos pós-ditadura militar (1964-1985) passaram por isso.

Na Presidência de José Sarney (1985-1990), a CPI da Corrupção investigou denúncias de uso da Secretaria de Planejamento (hoje Ministério do Planejamento) para financiar propostas de alteração na Constituinte.

Fernando Collor (1990-1992), hoje na CPI do Cachoeira, sofreu processo de impeachment após a CPI do caso PC Farias, tesoureiro eleitoral do então presidente.

O governo de Itamar Franco (1992-1994) amargou a CPI dos Anões do Orçamento, que investigou fraudes com emendas parlamentares.

Os mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) viveram a CPI dos Precatórios, que averiguou fraudes financeiras em Estados, a do Sivam, que investigou o sistema de vigilância da Amazônia, e a do Judiciário.

Lula (2003-2010) enfrentou as CPIs dos Correios e do Mensalão, que investigaram a compra de apoio parlamentar, a do Banestado, que apurou evasão de divisas, além da CPI dos Bingos.

FONTE FOLHA DE S. PAULO

Ida de Cachoeira à CPI cria expectativa

O ministro Celso de Mello, do STF, decide hoje se o bicheiro será interrogado amanhã na comissão mista no Congresso. Apesar de o depoimento ainda não estar confirmado, a discussão sobre a convocação de autoridades tem ficado em segundo plano

Cachoeira de volta ao palco da CPI

Discussão sobre o depoimento do bicheiro coloca convocações de autoridades em segundo plano. Supremo deve decidir hoje se adia a ida do contraventor ao Congresso

Denise Rothenburg, Adriana Caitano

O depoimento do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, marcado para amanhã na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que leva seu nome, é visto pelos parlamentares que a integram como a volta à origem. Ainda que Cachoeira, no papel de acusado/testemunha, não fale nada nem dê qualquer pista sobre seus negócios, estão todos na torcida para que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello rejeite o habeas corpus apresentado pela defesa de Cachoeira para que seu depoimento seja adiado. “Se ele for, acredito que falará de forma superficial. Será apenas um evento, sem grandes respostas. Mas é simbólico para retomarmos o eixo”, disse ao Correio o deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF), que integra o colegiado.

Na primeira semana de funcionamento, a comissão se desviou do leito das apurações a que se propôs: a relação do contraventor com políticos e agentes públicos. Primeiro, seus integrantes se mostraram mais interessados em puxar o Ministério Público para o centro da discussão, debatendo a demora do procurador-geral da República em agir sobre a Operação Vegas — e fizeram o mesmo sobre a relação do bicheiro com a imprensa. Houve também a leitura de um documento com nomes citados nas conversas gravadas pela Polícia Federal, antes de se saber de fato o grau de envolvimento de cada uma delas no esquema ou se foram simplesmente mencionados sem maiores consequências. Para completar, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e o senador Humberto Costa (PT-PE) discutiram em plena sessão, com direito a xingamentos. “Na quinta-feira passada, saímos menores do que entramos para aquela reunião”, lembra Pitiman, referindo-se à briga dos parlamentares.

A ida do bicheiro ao Congresso Nacional, porém, ainda não é certa. O ministro Celso de Mello deve decidir liminarmente hoje se aceita o habeas corpus apresentado pela defesa de Cachoeira. No documento entregue na sexta-feira ao STF, Márcio Thomaz Bastos, advogado do bicheiro, alega que não teve acesso a todas as provas que os deputados e os senadores da comissão têm contra seu cliente, o que impede sua defesa. “É imperativo que Carlos Augusto e seus advogados conheçam previamente todas as provas que poderão servir de substrato aos questionamentos que decerto lhe serão dirigidos pelos parlamentares”, argumenta Bastos.

Novos esclarecimentos

Segundo o professor de direito da Universidade de Brasília (UnB) Mamede Said, a alegação é válida. “É um direito fundamental de qualquer pessoa, por mais culpada que seja, somente se pronunciar quando tem acesso aos motivos pelos quais é acusada, respeitando o princípio do contraditório e da ampla defesa”, explica. Said acredita, portanto, que a tendência do STF é, se ficar provado que a defesa realmente não teve acesso integral ao inquérito, liberar Cachoeira de ir ao Congresso. “Mas isso não o isenta de comparecer à CPI em algum momento”, pondera o professor. “O Supremo pode também dizer que ele deve ir, mas pode exercer o direito ao silêncio para não produzir provas contra si mesmo.”

Os integrantes da CPI trabalham com a última possibilidade sugerida por Said. “Não há qualquer embasamento para que o depoimento seja adiado, mas Cachoeira tem o direito ao silêncio e, quanto a isso, não há muito a fazer”, comenta o deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP). “Esse é um caso que avançou graças às provas técnicas produzidas pelo MP e pela PF e não por confissões ou testemunhas. Então, não vamos imaginar que o réu vá chegar à CPI, abrir uma maleta, tirar um chicote e começar a se flagelar, confessando crimes”, acrescenta o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).

Na quinta-feira, os integrantes da comissão vão colher os depoimentos dos procuradores da República Daniel de Resende Salgado e Léa Batista de Oliveira, responsáveis pela Operação Monte Carlo, que resultou na prisão de Cachoeira. No mesmo dia, os parlamentares devem votar requerimentos de novas convocações, como a do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Os depoimentos de pessoas flagradas nas escutas da PF como colaboradoras do esquema do bicheiro estão marcados para a próxima semana, quando o próprio Cachoeira deve voltar ao Congresso para depor no Conselho de Ética do Senado, que apura sua relação com o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO).

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

O salto da Delta em Pernambuco

Em seis anos, o faturamento da construtora envolvida no escândalo Cachoeira em contratos com o governo do estado pulou de R$ 2 milhões para R$ 105 milhões

João Valadares

Pernambuco, berço da construtora Delta, envolvida no escândalo Carlinhos Cachoeira, é solo fértil para a prosperidade e vigor da empreiteira. A evolução nas cifras dos contratos milionários firmados com o governo pernambucano nos últimos seis anos impressiona. Em 2005, durante a gestão do então governador e atual senador, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), o estado pagou R$ 2 milhões à empresa. Em 2006, quando assumiu o vice Mendonça Filho (DEM-PE), foram R$ 3,5 milhões. No governo Eduardo Campos (PSB-PE), tendo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como principal combustível, o cofre pernambucano da Delta engordou de maneira sistemática. Só no ano passado, a construtora embolsou R$ 105 milhões. Neste ano, até o momento, já existem cerca de R$ 50 milhões empenhados.

De 2007, quando Eduardo Campos assumiu o poder, para cá, a construtora recebeu R$ 250 milhões por contratos de obras das Secretarias de Cidades e Transportes e também de órgãos públicos, a exemplo do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PE) e da Companhia Estadual de Habitação e Obras (CEHAB). A assessoria de imprensa do governo de Pernambuco encaminhou nota ao Correio confirmando que havia obras no estado tocadas pela Delta. Percebendo a repercussão negativa após o escândalo em decorrência das Operações Vegas e Monte Carlo, o governador resolveu abrir procedimento para fazer uma devassa em todos os contratos da construtora.

Em pelo menos um deles, o que trata da duplicação da BR-104, o Tribunal de Contas da União (TCU) já constatou uma série de irregularidades: superfaturamento de preços, baixa qualidade do material empregado, medição inadequada, duplicidade, ausência de formalidades no contrato aditivo e de prestação de contas. A intervenção teve início em 2008 e deveria ter sido concluída no fim do ano passado. A previsão, agora, é de que a obra seja finalizada até o fim de 2012. Diante do flagrante de irregularidade, o TCU aplicou multa em gestores do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e do DER-PE. O tribunal mandou baixar o valor do contrato.

"Considerando-se a situação da empresa (Delta), alvo de graves denúncias nos meios de comunicação, o governador Eduardo Campos determinou à Controladoria-Geral do Estado que faça, no prazo de 30 dias úteis, uma auditoria especial em tais contratos, de modo a subsidiar qualquer decisão que tenha de ser tomada em relação aos mesmos”, diz a nota oficial do governo.

As investigações a partir das interceptações telefônicas apontam indícios de que o bicheiro Carlinhos Cachoeira seria sócio oculto do recifense Fernando Cavendish, proprietário e ex-presidente do conselho de administração da Delta. Quando foi fundada há 50 anos pelo engenheiro pernambucano Inaldo Soares, pai de Cavendish, a especialidade da construtora era o chamado tapa buraco. Até hoje, várias rodovias federais e estaduais são mantidas pelos serviços prestados pela Delta. No estado, a empreiteira ganhou corpo depois de conseguir fechar um contrato com a extinta Telecomunicações de Pernambuco (Telpe). Em 1994, a Delta foi transferida para o Rio de Janeiro.

Durante depoimento na CPI do Cachoeira, o delegado da Polícia Federal Matheus Mella Rodrigues, responsável pela Operação Monte Carlo, relatou aos parlamentares que a organização criminosa chefiada por Cachoeira é composta por, pelo menos, 13 empresas que se interligavam e constituíam uma pirâmide com base rentável para o grupo do bicheiro. A Delta realizou depósito no valor de, aproximadamente, R$ 40 milhões nas contas das construtoras de fachada Alberto Pantoja, Brava e JR. Todas, segundo a investigação, estão em nome de laranjas e são controladas por Cachoeira.

Transposição

A construtora também faz parte de um consórcio responsável por um dos lotes da Transposição do Rio São Francisco, maior obra pública em execução no Brasil, com expectativa de beneficiar 12 milhões de pessoas. Nos últimos cinco anos, o valor da intervenção passou de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,18 bilhões (77,8%). Até março deste ano, a Delta recebeu do Ministério da Integração Nacional R$ 152,9 milhões pelos serviços realizados num dos canais da transposição, em Mauriti, no Ceará.

O trecho em questão tem 39 quilômetros, sendo 16,3km de canal já concretado (49,2% de execução). O governo federal enfrentou problemas em relação à qualidade do serviço. O fundo de concreto do canal rachou e precisou ser refeito. O valor total do contrato do lote 6 é de R$ 265,3 milhões. O Ministério da Integração Nacional não respondeu sobre valores dos contratos aditivos firmados com a empreiteira. Também não comunicou se tomou alguma atitude em relação às obrigações contratuais da empreiteira depois das denúncias.

Crescimento vertiginoso

Ano Empenhos Pagamentos

2005 R$ 2,045 milhões R$ 2,045 milhões
2006 R$ 4,568 milhões R$ 3,578 milhões
2007 R$ 13,803 milhões R$ 11,431 milhões
2008 R$ 27,694 milhões R$ 27,355 milhões
2009 R$ 27 milhões R$ 41,072 milhões
2010 R$ 69,683 milhões R$ 63,054 milhões
2011 R$ 59,927 milhões R$ 105,054 milhões
2012* R$ 49,369 milhões R$ 2,329 milhões

* Primeiros quatro meses do ano]]>

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

PT e PSDB montam ‘bunkers’ e definem tática para o depoimento de Cachoeira

CPI. Presença de contraventor no Congresso, marcada para amanhã, mobiliza parlamentares governistas e da oposição, que terão estratégias distintas para tentar expor laços dos respectivos adversários com organização criminosa; depoente deve permanecer calado

Eugênia Lopes

BRASÍLIA - Em funcionamento há pouco mais de 15 dias, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira terá seu primeiro grande momento nesta semana, com o depoimento do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Mesmo diante da perspectiva de Cachoeira permanecer calado durante toda a audiência, conforme sinalizou seu advogado Márcio Thomas Bastos, os 64 titulares e suplentes da CPI estão se municiando de dados para tentar extrair o máximo de informações do empresário de jogos de azar. Animados com o depoimento do delegado Matheus Mella Rodrigues, delegado da Polícia Federal responsável pela Operação Monte Carlo, os petistas pretendem apostar suas fichas no aprofundamento de detalhes da relação de Cachoeira com o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo. A estratégia é tentar arrancar de Cachoeira provas que compliquem ainda mais a situação de Perillo.

A oposição, por sua vez, tentará focar o depoimento de Cachoeira em suas relações com a Delta Construções, campeã de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com contratos em quase todos os Estados. Os oposicionistas estão convencidos de que o contraventor era uma espécie de lobista da empreiteira não só na região Centro-Oeste, mas em todo o País. Em depoimento à CPI na última quinta-feira, o delegado Rodrigues confirmou que Cachoeira teve participação na compra de uma casa do governador tucano. Foram usados três cheques de Leonardo Almeida Ramos, sobrinho do contraventor, que somavam R$ 1,4 milhão. Além disso, segundo as investigações da Polícia Federal, Cachoeira teria “cotas” de cargos no governo tucano, com o pagamento até de mesada de R$ 10 mil para secretários de Estado. “Há uma impregnação muito forte dessa organização criminosa do Cachoeira no governo de Goiás”, observou o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PTMG). Os petistas esperam que, caso o contraventor resolva falar na CPI, Perillo fique ainda mais encrencado. O objetivo dos parlamentares do partido é aprovar requerimento da convocação do tucano.

O delegado Rodrigues confidenciou aos integrantes da CPI que o nome do governador do PSDB é citado 237 vezes em conversas entre integrantes do esquema de Cachoeira. Já o nome do governador petista Agnelo Queiroz aparece em 58 conversas. “O Perillo não tem muito como correr, como escapar de uma convocação”, disse o senador Humberto Costa (PT-PE). “A ação do PT é muito clara: querem pegar o Perillo”, apontou o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Para defender o governador, os tucanos alegam que a venda da casa não foi um negócio ilícito. “Se fosse, não seriam três cheques na conta do governador”, disse o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). O roteiro dos partidos políticos para arguir Cachoeira será fechado na véspera do depoimento do contraventor à CPI. Os petistas montaram um bunker para discutir as propostas de perguntas e o ritmo da s essão da CPI, que será aberta e televisionada. “O importante é desvendar a organização criminosa,
seus membros e modus operandi”, disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), um dos mais determinados a comprovar o envolvimento de Perillo com o esquema ilegal de Cachoeira. “Vamos focar na organização criminosa de Cachoeira e sua relação com outros poderes”, resumiu Humberto Costa.

Os tucanos também pretendem fechar o seu plano de ação na CPI hoje à tarde. A ideia é estudar as operações Vegas e Monte Carlo para, então, programar a formulação das perguntas ao contraventor. Diante da perspectiva de Cachoeira ficar calado na CPI, governistas e oposicionistas estão também ansiosos em relação ao depoimento de Cláudio Abreu, que era diretor da Delta na re-gião Centro-Oeste. O depoimento está marcado para o dia 29. Os objetivos de governistas e da oposição com a ida de Abreu à CPI são, no entanto, diferentes. Desconfiados de que Abreu é sócio oculto de Cachoeira em vários negócios, os petistas esperam que o e x-diretor da Delta confirme o esquema apenas no Centro-Oeste. A oposição acha, porém, que a Delta Centro-Oeste é apenas “um dos tentáculos” de Cachoeira na construtora. “Não acredito ser possível a Delta não ter conhecimento do nível de envolvimento da Delta Centro-Oeste com o Cachoeira”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). “É preciso ampliar essa investigação e verificar se a Delta Brasil tinha uma relação com a organização criminosa”, defendeu Sampaio.

Habeas corpus no STF

O ministro Celso de Mello deve decidir hoje um pedido da defesa de Cachoeira para que ele seja dispensado de prestar depoimento. Os advogados alegam que ele deve ter acesso aos documentos que o acusam antes de falar.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Gestor da Delta chefiou empresa que foi alvo da PF

Farias, que preside a construtora mirada por CPI, era do alto escalão da Camargo Corrêa quando estourou Operação Castelo de Areia

Alana Rizzo

BRASÍLIA - Novo presidente da Delta Construções, Humberto Junqueira Farias ocupava cargo no alto escalão da Camargo Corrêa quando a empreiteira foi flagrada em 2009 na Operação Castelo de Areia, que detectou doações ilegais para políticos e supostos pagamentos de propina para agentes públicos. Segundo documentos da Polícia Federal, empresas do grupo fizeram pagamentos suspeitos durante a gestão de Farias. O engenheiro, no entanto, não é citado nos relatórios da operação, cujas provas foram anuladas em abril de 2011 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). De acordo com as investigações, a Cavo Serviços e Meio Ambiente S/A (empresa que fez parte do grupo Camargo Corrêa), comandada entre 2000 e 2006 por Farias, aparece em uma tabela com obras e prováveis beneficiários de esquema de “caixa 2”, supostamente gerenciado pelos diretores da empreiteira. Em 2005, a Polícia Federal localizou documentos manuscritos e arquivos que sugeriam o pagamento de valores pela Cavo.

Um deles, de R$ 69 mil, estaria vinculado a fiscais de Curitiba. Há citações às operações da empresa em Rio Claro, São Paulo, Itu, Tatuapé, Recife e de contratos de lixo hospitalar. Outro documento relaciona a Cavo ao suposto pagamento de R$ 450 mil, datado de 7 de abril de 2008. O valor estaria condicionado à “aceitação de recurso especial pelo STJ” referente a julgamento do processo de improbi-dade administrativa contra a empresa em licitação de limpeza pública na cidade de São Paulo na gestão Celso Pitta (1997-2000). No entanto, não há informações detalhadas sobre o possível beneficiário do pagamento. De acordo com a PF, a Camargo Corrêa mantinha uma espécie de “caixa 2” mútuo entre as empresas do grupo.

A análise do material apreendido cita também a Camargo Corrêa Cimentos, braço da empreiteira comandada entre 2008 e 2010 por Farias. A PF afirma que a empresa utilizava um sistema sofisticado para remessas de dinheiro no exterior. Diretores da construtora operavam o esquema ao lado de um doleiro. Pietro Giavina Biachi, ex-funcionário da Camargo Corrêa por mais de 40 anos e vice-presidente do grupo, é apontado na investigação como “orquestrador” do esquema de pagamento de propinas, evasão de divisas e lavagem de dinheiro da Camargo. O relatório final da Castelo de Areia, posteriormente invalidado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), aponta ainda que um documento referente à obra do Tucuruí cita como “compromisso” o pagamento de R$ 500 mil ao nome de Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), e ao PP. O material também trata de supostas doações ilícitas a partidos.

O ex-diretor do Dnit também é citado na Operação Monte Carlo, que trouxe à tona o esquema operado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira e da Delta Construções, que são alvo de investigação na CPI do Cachoeira.

Negociação. Farias assume a Delta depois de uma polêmica negociação com a J&F Participações, holding que controla as empresas JBS Alimentos, Flora, Eldorado Brasil e banco Original. A empresa está envolvida no es-quema de corrupção comandado por Cachoeira, segundo apontam as investigações da PF. Alvo de uma CPI no Congresso e de investigações da Polícia Federal, a Delta ainda corre o risco de ser declarada inidônea pela União por conta de suspeita de fraudes nos contratos públicos. Antes da Delta, o engenheiro civil ocupava o cargo de CEO da Renuka, empresa indiana do ramo de açúcar e álcool. O engenheiro, no entanto, fez carreira no grupo Camargo Corrêa. Fram mais de 15 anos. A operação Castelo de Areia teve início em j aneiro de 2008, após uma denúncia anônima. Quatro diretores e duas secretárias da Camargo Corrêa foram presos. A PF cumpriu 16 mandados de busca e encontrou umlista de políticos supostamente beneficiados pela empreiteira.

Entre as acusações da PF, estavam doação ilegal para partidos, lavagem de dinheiro e superfaturamento de obras públicas.

Defesa. Em nota, a J&F informou que a Operação Castelo de Areia não envolveu a Camargo Corrêa Cimentos, da qual Humberto era presidente na época. “Portanto, ele não foi citado. A operação se restringiu à Camargo Corrêa Construtora”, diz o texto, que ressalta ainda a anulação das provas pelo STJ. A Camargo Corrêa informou que não comentaria a reportagem.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO